Crônicas

  • Poema #06: Eco

    talvez uma nota só
    surge avulso na meia luz
    monótono feito o canto
    que se destina a embalar
    o teto o chão as paredes

    a coreografia do pó
    projeta no espaço em branco
    o sonho de não morrer
    o ritmo é a bolha que estoura
    no silêncio da distância

    rebate elástico o nó
    duelo que prende a resposta
    ao mesmo som da pergunta
    na teia da repetição
    a voz desafia o infinito

  • Poema #35: BREVE E LONGÍNQUO

    “… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e da
    solidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, e
    na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até em
    me mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.

    Edson Trindade/Tim Maia

    Breve, como breve é a luz da lua cheia
    Durante o eclipse solar da vida humana.

    Breve, como breve é a sombra da noite
    Durante o sono da vida como um lençol.

    Breve, como breve é o sonho do amor
    Durante o intervalo das ilusões perdidas.

    Breve, como breve é a existência do corpo
    Durante o trajeto sobre o planeta terra.

    Breve, como breve é a presença do espírito
    Durante o convívio quando se pensa em anjos.

    Longínquo, como longínqua é a essência dos seres
    Durante o percurso no trafegar das ruas atribuladas.

    Longínquo, como longínquo é tudo o que se vê
    Durante o passeio da câmara em panorâmica no alto.

    Longínquo, como longínqua é a felicidade íntima
    Durante a procura pelo convívio ideal a mais de um.

    Longínquo, como longínqua é a música do Yes
    Durante o embalo da paixão não correspondida.

    Longínquo, como longínqua é a ideia de um Deus
    Durante o desespero batendo nas grades da prisão.

    O Jardim Simultâneo

  • Testemunho de um incêndio criminoso

    Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto isso, minha parte principal, a mais quente — e contraditoriamente, segundo minha natureza humana, a mais íntima e mais exposta, órgãos e sentimentos — segue descamadando, arranhada, soltando pedaços; Meu quinhão arcado e inflexível, frio inclusive ao toque, é o que parece rejuvenescer e ser digno de alguma coisa.

    De onde estou, vivo uma vida isolada, mesmo imerso no caos da vida, no burburinho. Minha principal alegria é o observar. Comportamentos, mudanças climáticas, o lugar tornando-se memória. Nada me envolve em regozijo mais profundo.

    Da mesma forma que me restrinjo na resposta sobre o advérbio temporal do aqui, não sei precisar a data em que iniciei o meu ofício. Muito novo, trabalho mais do que infantil, disto tenho certeza: prematuro. Cortaram minha ligação materna sem que eu tivesse a chance de compreender o básico da vida; me aventuraram por outras paragens, mesmo que minha sina seja sempre estar fixo. Sempre atento. Minha dádiva e, por vezes, castigo.

    Castigo como o que aconteceu recentemente. E me corta o coração, mesmo que física e até subjetivamente eu seja desprovido de um, eu tenho, sim, uma paixonite secreta por um vizinho. Sujeito intrigante, taciturno; todo conhecimento, todo em busca de atenção. É considerado ultrapassado, vive encardido, poerento. Há quem diga que parou no tempo, dono de um linguajar e um traje no mínimo vintage — eu o considero impecável. Nunca trocamos palavras, nem toques. Sonho com o dia em que alguém o escolherá e virá até mim, abrirá inebriado sua pele em camadas e, por um instante – que será todo o meu mundo —, o deixará sobre mim. O ápice da minha existência seria entendê-lo assim, aberto, nu, sua lombada roçando minha pele áspera, a espalhar letras e calor. Nesse toque, eu estremeceria inteiro; meu corpo de madeira se partiria em arrepios. Ouvir-se-ia o meu estalo íntimo, a dilatação do que me constitui, enquanto eu gozo no segredo que só os mobiliários públicos conhecem. Sou um banco, ele, um livro – quase acervo vitalício do sebo do seu Jorge. Vitalício.. quase…

    Por muito tempo meu deleite foi paquerá-lo de esguelha, seu perfil visível quando a barraca metálica estava aberta, ele sempre posto em uma posição, nem de destaque, nem de esconderijo.

    Cachorros marcaram-me como seu território. Compras foram descansadas sobre mim. Marginalizados sociais me tomaram como cama — mais de uma vez. Conversas animadas, mãos bobas, certas de que ninguém testemunhava as indiscrições do desejo humano — por vezes traições conjugais. Brigas, estilhaços de garrafas. A tinta que sempre vem marcando o fim dos mandatos de certos prefeitos, em busca de reciclagem de votos e de marcar fisicamente o que fizeram. As flatulências de crianças e idosos, que impregnam eternamente minhas fibras, chuvas e sol a pino. Tudo me marcou menos do que a existência daquele volume ameaçado de extinção.

    Até a madrugada mais fria que já presenciei. E se tratando de Nova Friburgo, esse relato é alguma coisa. Começou sem que eu entendesse o que acontecia, eu, sonolento, ainda processando a chuva de verão em pleno inverno, dias antes, repleta de raios e granizo. Quando compreendi que pernas passavam cheias de más intenções. As solas dos sapatos, ainda as vejo, como se fosse agora; as reconheceria instantaneamente.

    Em instantes, fui trazido ao momento presente ao ouvir o estalo que mais arrepia a alma de quem é feito de madeira: o crepitar do fogo. A barraca, fechada, brilhava com a luz crescente. Foi rápido demais. Foi intenso e maldoso demais. Eu tentei gritar por ajuda, mas, paralisado, não tenho voz. Senti meu livro agonizar. Eu agonizei. Minutos lentos e horripilantes que se intensificaram com labaredas bailarinas, o sorriso no olhar meliante, a fuga traiçoeira e o barulho das sirenes quando eu já quase desmaiava de pavor.

    Eu vi tudo, sob angulos melhores do que o das cameras, estas mais silenciosas quando solicitadas do que minha imobilidade de banco de calçada. Ninguém nunca me vê como testemunha. De mim, nádegas a declarar.

    *Imagem retirada do site: https://ecoserrano.com.br/tag/incendio-quiosque-de-livros/

  • Cuidado: mosca na sopa!

    Em 1974, Raul Seixas lançou a música “Eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, marco de um período sombrio da ditadura no Brasil. Essa metáfora é genial, e tem sido aplicada a diferentes situações, nem sempre políticas.

    Quem não se lembra de moscas que pousaram em sua sopa para estragar a alegria, ou que estão sempre zumbindo no seu ouvido de forma desagradável?

    Pois é, eu aqui consegui identificar diferentes tipos de “mosca na sopa”. Um primeiro tipo é a mosca Desmancha-Prazeres. A inocente criatura vem contar que arranjou um novo emprego, depois de um bom tempo procurando, e está entusiasmada porque é numa boa posição e com ótimo salário.

    A Mosca:

    — Olha, fico feliz com a sua conquista, mas pensou bem antes de aceitar? Veja só: a empresa é longe, portanto vai ter que pegar três conduções. E o pior: Pelo horário que terá que entrar no trabalho, os ônibus estarão superlotados!

    — Não quero te assustar, mas o entorno é muito perigoso, se tiver que ficar até mais tarde trabalhando pode ser assaltada. E vai em frente no rol de desgraças, sempre com uma postura de quem está prestando um favor. Sem dúvida, uma mosca com alma de vespa, pica só para irritar.

    Outro tipo bastante comum é a Mosca Inconveniente. (o que, convenhamos, já é quase um pleonasmo).

    Reunião de família, todos à mesa, conversando sobre assuntos gerais, leves, próprios para um momento em que ninguém quer levantar temas polêmicos ou constranger alguém. A dona da casa preparou opções de cardápio, pois a sobrinha está levando o novo namorado que é vegano, e todos já estão cientes do fato.

    Eis que surge a Mosca:

    — Pois é, li recentemente em um artigo que veganos e vegetarianos têm maiores riscos de deficiência de ferro, e isso pode causar não só anemia como a diminuição da resistência às infecções por bactérias e vírus, como é o caso do Coronavírus. Pronto: a sopa azedou.

    Tem também aquela Mosca do Contra. Do tipo “Hay gobierno soy contra”. É aquele perfil de pessoa que não importa qual a sua colocação – ela vai sempre se posicionar ao contrário. Se o programa é, por exemplo, ir jantar em um restaurante italiano.

    A Mosca:

    — Ah não… italiano nem pensar. Por que não vamos a um japonês? Voto vencido, vai emburrada e dá um jeito de dizer que a comida estava péssima, implicar com o garçom e assim por diante. Se no dia seguinte, para agradá-la, o grupo propõe o japonês, ela então quer ir a um fast food. Se num passeio todos querem seguir pela trilha, ela diz que só participa se for caminhando pela estrada. Cuidado com essa, pois voa sempre na contramão!

    E tem a Mosca Negacionista…

    Se Raul fez da mosca na sopa uma bandeira contra a ditadura, eu faço dela um alerta para esses tipos que vivem zumbindo por aí, em ouvidos pouco dispostos à democracia.

    E você, qual mosca já pousou na sua sopa?

  • O Homem Perverso

    Esta é a história de um homem perverso! Mais um homem perverso…

    O que há de mais trágico na humanidade é que, de tempos em tempos, sempre um homem perverso assume o controle das coisas! 

    E, como todos os homens perversos, quer controlar todas as coisas!

    Como todos os homens perversos, não gosta de outros homens, seus semelhantes! Gosta de sua própria imagem! Gosta da adulação!

    Como todos os homens perversos, detesta livro, prefere queimá-los, comê-los, rasgá-los…

    A sua coerência é a bestialidade, por isso, odeia as palavras e o diálogo! Prefere sempre o monólogo!

    Como todos os homens perversos, dissolve melodias! O que interessa é apenas uma nota, a sua própria!

    Detesta arte e cultura, pois simplesmente, não aceita que a diversidade é essência de todo artista!

    Como todos os homens perversos, se sente superior mesmo aos outros, considerando toda e qualquer criatura que não possua o seu padrão, um ser fraco, inútil e, portanto, descartável!

    Assim, engolindo pessoas e ideias, atropelando bom senso e razão, este novo homem perverso estabelece mais um tempo de loucura! Mais um tempo de perseguição!

    Por fim, como todos os homens perversos, não sabe parar e não para!

    E, ao não saber ou não querer parar, leva o mundo para a estupidez da guerra, para a tragédia, para o caos…

  • Vovós tagarelas?

    Minha mãe chegou à velhice. Só pode! Anda muito pensativa e, se a gente pergunta, ela resmunga. Não quer ser interrompida em seu silêncio. Sabe por que eu sei? Porque me lembra a minha avó, a mãe dela. Ela também passou a ser econômica com as palavras.

    Poxa, ela era tão nossa amiga! Perguntava da escola, das bonecas, das colegas de sala. Contava coisas engraçadas, como quando pescou um peixe com o pai dela. Que o bicho se debatia no anzol e ela não sabia dizer como ,  mas o danado caiu em cima do seu pé. E ela falava que o peixe tinha furado o pé dela. A gente, com cara de espanto e sem acreditar, insistia: que peixe é esse, vó, que tinha bico?

    E ela ia lá dentro buscar um livro com um desenho de peixe espada, só pra dar efeito na história.

    — Olha aqui, Anita, como existe peixe com bico!

    Nisso, se passavam os dias, e era muita coisa que vovó contava. Como quando o neguinho do pastoreio salvou um menino que se perdeu em meio à boiada; 

    — O menino subiu na cerca e, depois, em cima da porteira pra ver a boiada passar.

    Ela começou:

    — Não tinha perigo, os peões passavam por ali sempre e sabiam bem dominar o gado, pra não estourar;

    — O que é estourar, vó?

    — É quando acontece alguma coisa que faz os animais se assustarem e sair daquela espécie de procissão por onde eles vão viajando. Estourar uma boiada é a pior coisa que pode acontecer! Esparramam, entram no mato, pisam em plantações, nem queira saber o quanto dá trabalho e problemas um estouro de boiada. Pois então… nesse dia não houve estouro. Mas houve um redemoinho de areia que tapou os olhos dos peões e o gado foi para o lado da cerca onde estava o menino. Quando passou essa espécie de ventania e os vaqueiros conferiram se estava tudo bem com o gado, deram falta do menino em cima da porteira. Peões são responsáveis por tudo que acontece no percurso do gado. Aí começaram os gritos pelo menino. Homens voltavam lá ao fim da boiada, outros iam para o lado da cerca, e nada do menino. O chefe da comitiva tocou o berrante, parou toda a tropa e a boiada, desceu do cavalo, ajoelhou-se no chão e pediu ao neguinho do pastoreio que mostrasse onde estava o menino. Mal terminou a oração, o gado saiu de um lado e abriu-se uma clareira. Bem ali, no mourão que segurava a grande placa de aroeira com o nome da fazenda ouviram o choro do garoto. Ele se desequilibrou e caiu de uma altura de três metros. Estava ali apavorado até que foi salvo pelo neguinho do pastoreio. Apavorados ficamos nós só de imaginar o acontecido!

    Contou também sobre existir galinhas tão felizes que botam  dois ovos por dia; e que ela aprendeu a ser costureira  fazendo à mão roupas de bonecas. 

    Nós tínhamos nela uma enciclopédia, uma contadora de histórias, uma defensora, uma amiga adulta. A diferença de idade não nos tornou estranhas.

    Com o tempo ela mudou. Ou nós mudamos. Sei que acabaram as conversas. Como um fogo vai perdendo as labaredas, depois o vermelho da brasa, até ficar tudo cinza, ela saiu de cena. 

    Agora parece que estou revendo esse filme. Um filme em que sinto minha mãe muito calada. Também não sou mais uma menina. Tenho filhas e filhos. Outra geração. Não olham ou cuidam, ou convivem com os idosos. Mas ela mora com minha irmã e temos ainda o costume antigo da família. Nos reunirmos à tarde para tomar um chimarrão e conversar.

    Como eu percebo agora, minha mãe não é mais a mesma; tornou-se coadjuvante.

    Fala pouco, como se não valesse a pena falar; como se ao calar-se ela ficasse melhor.

    Como se não houvesse nada a ser dito.

    — Que tá pensando, mãe?

    — Nada, ela responde.

    O médico nos aconselhou a estimular a conversação.

    Minha irmã Laura leva um vestido para pedir uma opinião, eu falo onde vamos no final da semana, e vamos colocando assuntos para mantê-la tagarelando com a gente.

    Eu a conheço bem. A busquei e levei ao médico  por muitos anos. E sabia quais assuntos a interessavam. Não falava de pessoas. Falava de mundo, de histórias, de imaginação. 

    Sentada na sala de costura de Laura, dando seguimento à profissão da terceira geração de mulheres da família, buscamos assuntos.

    — Mãe, já pensou as 24 horas serem só dia?

    — Eu gostava. 

    — É mesmo, mãe?

    — O dia é bonito, tem clareza, tem luz própria. Noites não me atraem. Escuro, barulhos característicos como o dos grilos, das corujas, os latidos dos cães no silêncio da escuridão. O amor dos gatos com miados, uivos, lamentos. Os desiludidos, bêbados, ou miseráveis saem mais à vontade no escuro da noite. A noite se dispõe às lembranças tristes, saudades longínquas, arrependimentos.

    Elas não têm belezas que possam tocar a alma. Quem diria da noite: “vamos ali ouvir os grilos”. Ela falava já com a voz mais baixa, como quem conta segredos.

    — Verdade, respondeu Laura, entre uma arrancada e outra nos pedais de sua máquina de costura.

    — As noites de luar são bonitas. Nos campos, então. Mas duram pouco. O dia convida a banhos de rios, passeios em jardins, pegar frutas em pomar e um mundo de coisas prazerosas. Poderia durar dias, e todos iam achar o que desfrutar. 

    E mesmo nesse dia eterno,  haveria horas certas para as pessoas dormirem. Vocês acham muito estranho? 

    Não respondemos. Era a vez dela falar. 

    — As noites, elas que me perdoem, continuou minha mãe, nunca me deram nada de bom. Só dormir, quando já não tinha mais crianças pequenas. Sem remédios, quando dormíamos o que diziam ser o sono dos justos. Ou o cansaço com a lida.

    — Até parece, digo, para provocar uma reação. 

    — Como se eu não conhecesse bem a senhora.

    — Ultimamente a senhora não quer mais nem sair. 

    Apenas ganhei um olhar gélido. Não retruco. Ela tem um gênio forte e não tenho a intenção de provocar briga.

  • Chupa que é de uva

    Ainda não me recuperei da moda do bebê reborn e já tenho que lidar com outra tendência que está bombando no momento: o uso de chupeta por adolescentes e adultos para diminuir o estresse e a ansiedade. Quanto aos adolescentes, entendo que a fase é de transição, e, por isso mesmo, sujeita a instabilidades e tentativas furtivas de não perder o trono da infância. Porém, quando penso nos adultos, o que me vem à cabeça é o tanto de manobras que as pessoas fazem para não enfrentar seus fantasmas num processo de análise. Vale todo tipo de proposta, das milagrosas às escandalosas. Tanto assim que o movimento vem ganhando adeptos no mundo todo.

    Os bebês reborn que se cuidem, pois correm o risco de perder o acalanto oral para seus pais que, em breve, serão apenas seus irmãos, tamanha a regressão.

    Sei que cada um tem o direito de fazer o que quiser, defendo a liberdade de expressão e de escolha, mas me questiono se essas novidades são apenas gozações passageiras ou se estamos diante de um pedido de socorro, de um grito coletivo a bradar que a vida adulta, tal qual temos preconizado “hiper produtiva e monetizável” é insuportavelmente chata e deprimente.

    Eu que usei chupeta até os onze anos, conheço bem a delícia apaziguadora que a danada oferece. Lembro dela com carinho e, assumo, com saudade também. Contudo, não consigo me ver usando o acessório novamente. Parece esquisito, deslocado no tempo. Será que é algum tipo de bloqueio? Não sei… talvez já seja pesado demais imaginar que, daqui a alguns anos, as fraldas estarão me rondando.

    Quero acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. Ou quem sabe os novos tempos, com sua engenhosidade, tenham inventado as férias de fase inspirada nas crianças pequenas que se divertem usando os sapatos dos adultos. Nós nos regozijaremos pegando as chupetas delas.

    Eu só entrarei nessa se puder, além da chupeta, andar por aí carregando meu paninho encardido. Não só isso! Faço questão de uma retratação pública a respeito da existência de Papai Noel. Sua morte foi meu luto mais difícil. E, por favor, Fada do Dente, remunere melhor o dente dos aposentados.

    Volta a angústia: e se tudo isso for um sinal de que a nossa inabilidade para lidar com as frustrações, medos e fracassos está nos encarcerando no colo da infância? E se estamos todos adoecidos da modernidade ultra hightech?

    Nas férias de fase, nossos joelhos não se ralam nem têm cicatrizes; por outro lado, não desfrutaremos do riso que vem com o vento no rosto de quem aprende a correr.

    Eu preciso de ARte. 

  • O direito dos velhos

    É comum em saites de divertimento ou em redes sociais a exposição de pessoas quando estão novas e quando envelhecem. De forma por vezes maliciosa, os redatores expõem as fotos com legendas que enfatizam o contraste entre o rosto de ontem e o de hoje. O alvo é quase sempre alguém que pela beleza ganhou fama, admiração, suspiros apaixonados dos fãs. Como um contraste a isso, o autor das postagens parece lembrar: “Quem te viu, quem te vê”.

    O que está na base dessa atitude, mais do que a disposição de ferir ou depreciar figuras específicas, é um generalizado desprezo pela velhice. Embora se viva mais hoje, e os idosos ou mesmo os velhos cada vez mais frequentem locais como clubes e academias, há por parte de muita gente uma disposição hostil para com eles.

    Essa hostilização faz pensar, por antítese, no chamado “Poder Jovem”, expressão associada ao livro de Arthur José Poerner que exalta a disposição política dos estudantes brasileiros durante o período da ditadura militar (1964-1985). O livro de Poerner “narrava a história do movimento estudantil e sua atuação em momentos cruciais da história do País, ressaltando o potencial dos jovens como agentes de transformação social e política.”

    A obra destaca o idealismo da juventude e a sua vontade de contestar o status quo então vigente, marcado pela repressão aos movimentos sociais e pelo cerceamento de liberdades fundamentais ao indivíduo. Disso veio uma espécie de entronização dos jovens, considerados a partir daí como os principais agentes de transformação da sociedade. Chegou-se a dizer que não se devia confiar em ninguém com mais de 30 anos, como se a idade fosse um referencial de caráter.

    No poema “Velhice”, Olavo Bilac parece antecipar o que hoje é corriqueiro nas redes sociais. Sem meias palavras, escreve: “A velhice é cousa vil!/ Faz a alma informe e feia./ Desfaz a antiga ideia/ Da formosura juvenil.” São versos que pintam de forma nostálgica e sombria o envelhecimento. E tanto mais deprimem, quanto mais ressaltam a feiura da velhice em contraposição à beleza da juventude.

    Será mesmo a velhice uma “coisa vil”?  O que haveria de desprezível nas pessoas que estão nesse período da vida? Elas não têm mais a beleza da juventude e padecem de achaques que as tornam por vezes impacientes e difíceis de conviver. Por outro lado, têm a experiência, que segundo Sartre é mesmo um direito dos velhos.

    O parnasiano carregou nas tintas, sem dúvida. Há em favor dele, digamos assim, a ressalva que a esses versos faz Rubem Braga numa de suas antológicas crônicas. Lembra o cronista que, de fato, num poema Bilac considera “vil” a velhice — mas, num dos seus textos em prosa, afirma desejar “envelhecer sorrindo”. Tal expressão, longe de indicar ressentimento ou desconforto, sugere uma alegre resignação com a passagem do tempo.

    Talvez o verbo “sorrir” no verso bilaquiano indique mais do que a aceitação do inevitável ciclo vital. Indique também a percepção, trazida pela maturidade, do que a vida realmente é. E, sobretudo, traduza com algum ceticismo a desconfiança nos que se arrogam ter a verdade e deter o poder — tenha este o rótulo que tiver.

  • Cinco gravatas

    Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão.

    A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que interagiu com pessoas sisudas e pouco afeitas aos sorrisos. Perfeita.

    Já a segunda evocou memórias mais doces. De alguém que um dia sorriu quando o viu com ela ao pescoço e disse que ele estava muito elegante. Só de lembrar seu rosto se alegrava ao ponto de sentir a doce fragrância de seu aroma de mulher recém saída do banho.

    A partir daí as portas de suas lembranças amorosas se escancararam.

    A terceira tinha sido presente de uma moça que gostava de dizer que tinha altura certa para ajustar sua gravata. E beijar seu queixo o que o fazia revirar os olhos.

    A seguinte ele comprara de impulso em um shopping. A maior parte das pessoas, em especial as mulheres, não aprovara sua compra. Os comentários iam de “é bonitinha mas..” até simplesmente detestarem a gravata. Mas nunca se desfizera dela porque um dia um alguém, antes de partir seu coração, dissera que a tal gravata caía muito bem nele.

    A quinta e última era o arremate para sua semana formal. Estilo sóbrio como a primeira mas atraente o suficiente para naquela ocasião a moça sair de onde estava e se postar à meia distância dele. O curioso é que ele demorou a perceber que ela estava ali diante dele. Ela olhava atenta mais para a gravata e menos para ele, verdade seja dita. Na conversa que se seguiu a moça disse que a gravata era linda e era igual a que ela vira em um filme clássico sobre aristocracia inglesa. Não lembrava mais do filme mas os momentos a dois nunca mais deixaram sua memória.

    Assim, gravatas postas lado a lado de suas memórias evocadas suspirou uma última vez. As lembranças de amores passados sempre o comoviam e, conforme o dia, o faziam pensar em hipóteses e histórias alternativas.

    Afastou os pensamentos. Eram só lembranças, mereciam seu lugar em sua memória afetiva e nada além disso. E ponto final. Pegou a primeira, olhou-se no espelho, preparou-se para dar o nó de Windsor, o único que ele sabia fazer na gravata e disse para si mesmo: hora do show.

  • Notícia primeira da morte

    Eu tinha quatro, talvez cinco anos. Lembro perfeitamente da situação, das pessoas, dos gestos, das reações, menos dos diálogos. Quanto a estes, o tempo fez questão de enterrar; minhas inúmeras tentativas de rememoração nunca lograram os exumar. Mas o que jamais se encaminhou para o esquecimento foi o efeito e o significado daquela conversa que tive com meu avô.

    Ninguém nasce sabendo, vai-se aprendendo. Do mesmo modo que, ao aparecermos para o mundo, somos incapazes de andar; não compreendemos uma série de fenômenos da vida, como o mais importante deles, a morte. Na verdade, nem sequer sabemos que ela existe.

    Foi no sítio de vovô Chico, em Bananeiras, que lhe fui apresentado; não ao seu inevitável efeito concreto, mas à ideia da sua existência. Até então, faltava-me qualquer noção do que seria isso, nem sei se já havia ouvido diretamente palavras referentes a ela. Porém, ali, tive sua primeira notícia.

    Minha mãe lavava os pratos e papeava com a cunhada. Enquanto parolavam, por algum motivo que desconheço ou apenas pela inexistência de um que fosse contrário à nossa estada, eu e meu avô também nos fazíamos presentes na cozinha. Surgindo a temática funesta e com a completa ignorância que eu detinha sobre o assunto, fiz o que parecia natural, perguntei.

    O que me foi respondido não ficou gravado; mas, evidentemente, desagradou-me, já que engatei um choro e, em seguida, corri. É difícil asseverar se foi uma fala muito crua para uma criança, sem que se realizasse um sopesamento na explicação para o filho ainda muito pequeno. Todavia, tenho certeza do que senti. Ao contrário do que as lágrimas poderiam levar a pensar, não foi tristeza. O sentimento era de indignação.

    No momento em que tomei conhecimento da finitude da vida, portanto, ao começar a entender ela própria, senti uma inconformidade enorme diante da percepção que tudo aquilo acabaria. Como, de repente, eu deixaria de existir e nada mais haveria? Como era possível aceitar que meus pais e avós, que eu acreditava serem eternos (como tudo parecia ser), iriam desaparecer? Era implausível admitir isso, não fazia sentido. Impotente, chorei um pranto de revolta.

    Encerrando a chispada no alpendre da casa, sentei-me. Ainda soluçava, tentando digerir a ideia que tinha acabado de me penetrar. Sem tardar, vô veio atrás de mim, sentando-se também no batente, onde me deu a primeira lição do que seria a morte e, o que é mais importante, o que é a vida perante ela.

    Certamente, a conversa possuiu os traços característicos dele, como o “pois bem” sempre a interligar as frases. Entretanto, não me recordo das palavras que ele utilizou, nem o conteúdo em si. O que sei é que foi o suficiente para estancar as lágrimas e aplacar a dor da consciência súbita.

    Ao iniciar o berreiro, mãe riu, deve ter achado ridícula a reação. Provavelmente, já havia passado pela mesma interlocução com seu pai, o que fazia com que o assunto não lhe fosse novidade e pudesse parecer mais banal. Para mim, era diferente, a morte só começava a existir naquele momento.

    Porém, seriam somente alguns anos depois que o decesso e o luto viriam a se mostrar para mim na prática, com o falecimento da minha avó. De certo modo, ao ir me ver na frente da casa, Chico também preparava o neto para a futura perda, que nenhum dos dois imaginava que iria ocorrer tão cedo.

    Minha memória guardou a lembrança do momento e a imagem de vovô ao meu lado. Mas não pôde preservar as falas. Sou incapaz de reproduzir um termo sequer que meu avô tenha utilizado. Mas foi na dita prosa (como ele gostava de chamar os diálogos), que eu pude começar a entender o que seria a morte e, portanto, o que é a vida.

  • Em grupo sempre fomos imensos!

    Muitos propósitos acompanham nossa trajetória em vida, porque possuímos livre arbítrio no desenvolver de ideias e atitudes, similares com as de outros, porém, ficamos ansiosos em viver o máximo possível, no tempo que nos foi concedido.

    Porque inesperadamente pode encerrar o que chamamos de oportunidade em viver, num momento específico escolhido pelo dedo de Deus.

    Outros entusiasmados com frases de efeito, ou livros de auto ajuda, lamentam não terem se esforçado o suficiente, ou alimentado o que seria necessário, sem saber que no relógio biológico está escrito o início e o fim da história humana.

    Porém, no meio de um dos caminhos, surge um terremoto, frio calculista, com números objetivos para sua manifestação, com intuito de destruir milhares de sonhos, que já viviam em parcas condições, e caminhavam a beira de muitas oportunidades sem tocá-las. Um movimento brusco aleatório e destruidor, leva consigo fotos, objetos, roupas, móveis, testemunhos vivos de pessoas que foram felizes até então, sinais fáceis de pronta felicidade e muito amor aos seus mais próximos. O desfile da desgraça com morte e solidão, despejou no povo Sírio a palidez no olhar de choque, fria na entrega de um pesar doído pra quem busca nos escombros de pedras, restos de sua vida no local que anteriormente chamavam de lar. 

    A morte, essa sombria entidade, continua levando consigo gente de todos os lados, se exibindo das piores formas, marcando presença antes do tempo para alguns. Gritos sobre escombros nem sempre cessam após um resgate, mesmo que queiram entender como se safaram e ficaram a sós em meio ao nada. 

    Até porque o que sobrou em forma de areia não tem identificação de qual construção já foi uma vez. 

    Fica uma sensação de que alguns povos sofrem muito mais que outros. As forças da natureza impávidas e destemidas, não encontram adversários a sua altura, capazes de saírem ilesas após intenso embate corporal. 

    Há que respeitarmos e protegermos a contento as possíveis manifestações ditas da mão de Deus. Esse sábio que a muitos põem em teste para medir o valor de sua fé. Nem sempre fomos o mais fraco dos pregos na parede da existência.

     Mesmo os Neandertais, inexperientes, ignorantes em tudo ainda, viviam na região central da Alemanha, caçavam os maiores animais terrestres da Era do Gelo; os elefantes-de-presas-retas, que chegavam a 13 toneladas, o dobro dos elefantes africanos de hoje. Em grupo sempre fomos imensos, inteligentes e capazes de nos ajudar no tiro da lança no peito da fera, e com a mão que retira uma vida do escombro.

  • Sucesso ou o quê?

    Linete não tinha nada a perder, pensava. Ela jurava que conseguiria rápido um emprego melhor, apesar de sempre escutar que o mar não estava para peixe, que o certo mesmo, e garantido, era fazer um concurso público, como o seu pai dizia, sendo funcionário público e ganhando um salário de miséria. Linete sonhava que podia mais do que uma simples carreira pautada no ostracismo e na continuidade das coisas. De fato, no estado atual, não aguentava a cara de enjoo do chefe, todo dia ao chegar; que sequer dava bom-dia, sempre exigindo mais absurdos. Era bem instruída, tinha cursos e mais cursos de pós-graduação, e se achava, como era, uma boa conhecedora do mundo corporativo, afinal ela tinha construído uma carreira baseada nisso, era o seu sonho. Com cinco anos de empresa, mal vividos, pelas circunstâncias, foi o jeito arranjar o momento certo para pedir para sair, e esse momento, emblemático, para que o seu chefe sentisse, foi no dia de pagamento. O espanto foi geral. O chefe ofereceu uma mísera contraposta, de imediato descartada; não valia a pena. O que valia para ela era estar bem, se sentir bem e útil para a empresa. Nesse caso, a empresa não se importava com as suas imensas conquistas, que faziam o bolso do patrão ficar mais vultoso – mas ele não lembrava disso. O rigor era quase militar: trabalhar, rente à parede, sem conversar, e obter resultados. Planilhas inúteis eram feitas aos borbotões. Como disse, o chefe só se importava com o dinheiro que iria cair na conta, e, bem dizer, quem fazia a empresa rodar era Linete, com sua habilidade, com sua forma de tratar os clientes e, lógico, com o seu conhecimento. Roberto, seu colega, sem esperar, entrou em pânico: “Como será isto sem você, sem a sua alegria?!”. Roberto era um amigo para todas as horas. Linete até pensou em desistir por causa dele, só por ele, a quem tinha um carinho muito grande. Foi ele quem ensinou os primeiros passos na empresa, pegando praticamente na sua mão, apresentando os programas e as divisões de tarefas da empresa. Só que Roberto era acomodado, tinha dez anos de empresa e não pensava em sair porque tinha medo. Linete não poderia estar presa por causa do receio dos outros. Janice, insegura, não teria mais as suas orientações, sempre acertadas. Linete queria mais, sem dúvida. Em todas as suas atitudes foi ostensiva, intrépida. Mas o mercado estava difícil, Roberto avisou. Passou meses entregando currículo, sem sucesso. Chegou a entrar em leve depressão, que tentava reverter, determinada, com atividades físicas regulares. Foi chamada, enfim, para uma entrevista. Exigiram demais, mas ela deu o melhor de si e venceu a concorrência. Após os perrengues, continua a pensar que não se deve ter medo de buscar o melhor. Ainda se sente aliviada de não ter de olhar para a cara do antigo chefe. Que glória! Lembra-se e sorri. É um caso de vitória.

  • O Clube dos Poetas Amadores em Extinção

    Era madrugada, por volta de uma da manhã. M. faz um grande esforço para sair de seu apartamento sem fazer barulho. Precisava se fazer invisível. Caminha até a porta e observa o movimento da rua. Embora conhecesse todos os pontos não filmados por onde poderia passar, precisava ter o máximo de cuidado. Embora fosse ateu, caminhava sussurrando orações que nem sabia ao certo.

    As ruas estavam desertas. Escuras. Uma espécie de barulho contínuo assombrava seus ouvidos, não conseguia saber se era real ou mera fantasia causada pelo seu medo de ser descoberto. Andava rápido, mas silenciosamente, como se fosse um invasor no lugar onde nasceu e viveu ao longo de toda a sua vida.

    Após toda a tensão, conseguiu chegar ao local desejado. Era uma portinha, bem castigada pelo tempo, que somente uma pessoa muito observadora, ou um robô perfeitamente programado, poderia notar. O local perfeito para o obrigo de esquecidos.

    Seu interior era uma sala pequena com uma mesinha iluminada no meio que deixava escuros os cantos do ambiente. Quando chegou, viu os que já estavam presentes. Ao todo cinco. Cumprimentou a todos e perguntou:

    — Será que vem mais alguém?

    — Vamos esperar. Chegar até aqui virou tarefa para poucos. Os robôs de ronda estão cada vez melhores. Chegará o dia em que não conseguiremos mais nos encontrar. — disse J.

    Esperaram durante um tempo. Apenas mais três chegaram. Então W., o anfitrião da reunião, toma a palavra:

    — Vamos iniciar. Hoje são oito, ontem eram dez. Amanhã? Ninguém sabe. Vamos aproveitar este momento.

    G., um dos integrantes comenta:

    — Hoje quase fui pego ao tentar chegar aqui. Eles não sabem o que é errar, exigem que sejamos perfeitos, da mesma forma que foram criados para ser. Quando nos detectam nas ruas, nem perguntam. Em segundos, perdemos nossas vidas. Eles não têm coração — disse P.

    — Vamos a primeira leitura da noite. M., por favor.

    — O preto é preto/ O branco é branco/ Se o preto não é branco/ O branco nunca será preto.

    Todos os presentes naquela sala começam a gritar e a se abraçar com enorme euforia. Alguns extremamente emocionados abraçam M. Outros permanecem chorosos em seus lugares. F., sem conseguir se conter, grita:

    — Como é bom poder ouvir livremente poesias ruins!

    Emocionado, W. se prepara para chamar o responsável pelo próximo poema.

    Toda euforia ali vivenciada, era sinal de um novo tempo. O mundo já não era o que foi um dia. A Inteligência Artificial aprisionou os humanos e tentava reprimir sua humanidade. Valores como o amor, a solidariedade, a amizade e. até mesmo, o erro, não podiam ser tolerados. Algoritmos só funcionam se criados com perfeição. Nesse mundo, poder escrever poesias ruins era um privilégio. Aqueles homens, ao rirem da imperfeição, faziam uma revolução em busca da liberdade.

  • O gato subiu no telhado

    O gato subiu no telhado. Na sala. Na lareira. E na janela.

    Brigou com as gatas, espantou o sono, o frio, rompeu a madrugada, fez barulho, fez rosnar, assustou. Fez miar.

    O gato preto e branco queria comida, queria carinho, queria estar. Queria o lugar das gatas, queria mudar o rumo, queria dominar o mundo, queria brincar.

    O gato subiu no telhado e desceu na lareira para apavorar. Botou terror na madrugada, tirou meu sono, tirou o sossego do meu lar. Ficou preso na janela, morto de raiva sem cumprir seu plano, sem mais apavorar.

    O gato subiu no telhado e desceu pela janela, tirando meu sono, meu sossego, mas sem conseguir me dominar.

    Sem sono, sem festa. Só me resta contar.

  • Quando a amizade vira crônica

    A amizade é cheia de mistérios — e é isso que deixa a vida mais bonita. Ter amigos deixa tudo mais rico, mais leve, às vezes até mais suportável. Ninguém nasceu pra viver sozinho. Quando algo bom acontece, e não temos com quem dividir, o brilho se perde um pouco. Não sei se acontece com você, leitor, mas comigo é sempre assim.

    A amizade gosta mesmo é de se enfiar onde a gente menos espera, entre o certinho e o bagunceiro, o sério e o brincalhão, o que pensa alto e o que só escuta. Vai entender essa mistura doida que dá certo.

    Pois foi o que me aconteceu há alguns anos, trabalhando num centro cultural em Belo Horizonte. Foi ali que conheci quem se tornaria um dos meus melhores amigos — e, de quebra, meu carioca favorito. Sim, esta crônica é pra celebrar a amizade improvável de um mineiro e um carioca.

    Ele era professor da rede particular, certinho que só vendo — daqueles que não perde uma vírgula, não deixa passar um erro, e encara a vida como se fosse uma prova de português. Poeta de terno, com a elegância de quem sabe que até na gramática o estilo é fundamental.

    Eu era o oposto: bagunceiro, do tipo que esquecia o guarda-chuva no bar, e saía tomando chuva. Fascinado por praia, carnaval, samba — tudo o que o Rio tem pra oferecer.

    Ficamos amigos.

    Eu ia mediar uma roda de conversa com um poeta, sobre “Tempos de Paz”, filme brasileiro dirigido por Daniel Filho, lançado em 2009, que retrata com sensibilidade os dilemas e tensões da ditadura militar no Brasil, através da história de um guarda prisional e uma mulher que tenta libertar seu marido político. Ele, amigo do convidado, apareceu para assistir. Acabamos sentados num banco do centro cultural como se nos conhecêssemos há décadas. Falamos de livros, da escrita, de novelas, de mulheres, dos escritores favoritos.

    Falamos de tudo: dos contos do Caio Fernando Abreu, das novelas do Manoel Carlos, de “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger. Rubem Fonseca entrou na conversa, Dalton Trevisan também. Descobri que a estante de livros dele era imensa — coisa que eu só confirmaria mais tarde, pessoalmente.

    Ele sempre foi desinibido pra escrever. Enquanto eu encarava a folha em branco como se fosse um inimigo, ele se sentava comigo na Rua da Bahia e começava a inventar pequenas histórias para cada pessoa que passava.

    Era a cara séria de um homem, o tique nervoso de outro, os olhos pintados de uma menina, o terno mal-alinhado de um pastor de rua. Para cada um, uma página, uma crônica, uma invenção.

    Antes dele, eu não fazia ideia de onde um escritor tirava tanta história, como conseguia tanta imaginação, como um cronista arranjava assunto para escrever toda semana no jornal.

    Comecei a imitar ele. Comprei umas folhas de papel ofício, umas canetas — azul, vermelha, Bic mesmo. Escrevia, lia, jogava fora. Depois escrevia de novo. Lia, escrevia, jogava fora — não necessariamente nessa ordem, claro.

    Até que chegou a minha vez de ir ao Rio. Fui no Réveillon com ele, fiquei em Copacabana, vendo a queima de fogos. Vi as mulheres mais bonitas do mundo, e ouvi Frejat cantando seus sucessos, junto com o Barão Vermelho.

    Vi mães de santo jogando flores para Iemanjá. E ainda trombei com um YouTuber famoso que eu seguia — aquele que ensinava homens a xavecar mulheres.

    E eu fui muito ao Rio. Visitei a Galeria Atlântida, antiga Galeria Alaska, em Copa — cenário que inspirou Galeria do Amor, do Agnaldo Timóteo. Tomei banho de mar no Forte de Copacabana. Brinquei carnaval nos blocos Simpatia é Quase Amor, Cordão do Bola Preta, Banda de Ipanema.

    Mas não pense, leitor, que tudo foram flores. Ah, mas não foram mesmo.

    Quando veio a Minas conhecer Ouro Preto, alegou um contratempo que podia inviabilizar a viagem. Eu, na hora, chamei de “tratante”, disse que não tinha palavra. Tivemos um quebra-pau daqueles.

    Nada, porém, que abalasse a amizade. Tanto que, logo depois, viajamos juntos com um grupo de cariocas, por Santa Catarina, Curitiba e Rio.

    É assim, leitor. A gente nunca sabe no que vai dar uma amizade, nem o que ela vai ser. Mas é certo: a amizade dá sentido à vida. Torna o cotidiano mais belo, mais digno, mais humano.

    Hoje, basta eu olhar para o poeta Luiz Otávio Oliani — seja em BH, seja no Rio — e dizer: “Partiu.” Que venha o próximo bar, o próximo sarau, o cafezinho depois de um almoço em Ipanema. É isso que faz a vida ter mais sentido.

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Na ponta do lápis

    Na ponta do lápis, o cronista passeia pelo Rio e vê o mar e o barulho do mar. Na ponta do lápis, o cronista espera o sinal abrir para poder atravessar a avenida que corta o Aterro. Os carros são muitos e ligeiros e, ao que parece, ninguém dá muita atenção ao que está à volta. Mas os olhos do cronista buscam ruas, buscam pessoas e as suas mãos deslizam na folha em branco e procuram as cores e o cheiro da cidade.

    Na ponta do lápis, o cronista sente seus passos sobre a calçada. E vê gente de todas as cores e idades e jeitos e trejeitos. Na ponta do lápis, o cronista imagina um céu bem limpo e um sol bem quente. Na ponta do lápis, há mundos e fundos e há urgência. A urgência de escrever sobre a cidade. O Cristo, lá em cima, observa silenciosamente o movimento das coisas e dos seres: barcas, aviões, pessoas e mais pessoas.

    Na ponta do lápis, o cronista pensa que o Rio de Janeiro deveria ser assim o ano inteiro: um dia calmo, com sorrisos e abraços, com cordialidade, com aplausos e afagos. Na ponta do lápis, o cronista pensa ainda que uma mão sempre deveria ajudar outra mão. Levantar um corpo cansado e abatido pelo tempo é tarefa árdua, mas gratificante.

    Entretanto.

    O lápis escorrega da mão e a ponta acaba por se quebrar. Não há mais nada a fazer. O Rio é o que há: dia nervoso, sinal fechado, obras, correria, calor abafado. Olhos amedrontados, vidros fechados.

    O lápis cai ao chão.

    O Cristo, ainda lá em cima, vê pacientemente o caos, o tumulto, o barulho, a confusão, os gritos, acenos desesperados, a multidão.

    O cronista pensa em mudar de profissão. Talvez ser poeta. Ir na contramão. Talvez ser vagabundo. Encontrar um menino e um cão. Fugir da escuridão. Não pode. Não é José, mas não pode fugir. Não pode. Não pode não!

    Mas.

    O lápis volta à mão.

    E o cronista prossegue o seu trabalho de ver e de dizer o dia a dia. E o que diz é importante. O que vê é delirante. Entretanto há outros olhos e um senão: a recriação. O trabalho de inventar a si mesmo.

    Assim, na ponta do lápis, o Rio de Janeiro se faz uma vez mais prosa, verso e canção.

  • Do Gerúndio ao Pão Quentinho

    Hoje passei quase uma hora tentando cancelar uma linha telefônica. No meio da espera interminável, lembrei de uma crônica genial de Paulo Mendes Campos, escrita em 1959: Coisas Abomináveis. Ele listou 60 situações insuportáveis e, pasme, muitas continuam valendo mais de meio século depois.

    A palavra “abominável” já soa quase arqueológica, não acha? Então, decidi atualizar com um termo que me parece mais divertido: Coisas Intragáveis.

    Da lista do cronista, selecionei dez que permanecem firmes no pódio do incômodo: passar pela alfândega; falta d’água em casa; pessoa que fala muito próximo do nosso rosto; criança de nariz escorrendo; mão suada; a penúltima hora de qualquer viagem; sala de espera; declarar imposto de renda; caixa que diz “volte amanhã”; e ser apresentado quatorze vezes à mesma pessoa.

    E, já que entrei no clima, fiz minha própria lista de intragáveis: desconhecido que insiste em contar a vida inteira; dirigir para o endereço antigo no piloto automático; bater a porta e esquecer a chave dentro; alguém pegar o último pedaço de doce; atendente que me chama de “amorzinho”; URA telefônica; o famigerado gerúndio: “vou estar te ligando”; figurinhas dançantes no whatsapp; topada que arranca a unha; e, para fechar, crise de soluços no meio de uma reunião.

    Depois dessa overdose de azedume, me senti meio intragável também. Então fui buscar um antídoto – e achei. Em 1962, o cronista escreveu Coisas Deleitáveis, e suspirei aliviada. Tudo bem que tive que dar um toque mais atual ao termo – optei por Coisas Degustáveis. Escolhi dez para me inspirar: dormir cansada; aroma de madeira; rasgar papéis inúteis; vento da montanha; pão saindo do forno; café da manhã no hotel; descobrir que uma pessoa feia tem uma voz linda; ver crescer uma árvore que plantei; brincar com argila; lareira em noite fria.

    Se fosse acrescentar as minhas degustáveis, diria: ver um pôr do sol avermelhado, caminhar descalça na praia, tomar vinho com amigos, ganhar flores inesperadas, reencontrar alguém querido, passar a tarde lendo na varanda, mudar o corte de cabelo, andar de mãos dadas, receber um beijo e… escrever essa crônica.

    Porque, no fundo, a vida é isso: engolir algumas coisas intragáveis e saborear outras tantas deliciosas. No saldo, felizmente, ainda dá para degustar.

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • Veganismo

    O costume de consumir cadáveres de animais grelhados, vulgarmente conhecidos como ‘churrasco’, está encravado em nossa civilização, associado a um congraçamento pagão, envolvendo farra, uma informalidade ligeiramente transgressora e, não raras vezes, embriaguez.

    Os propalados malefícios da carne, especialmente a vermelha, à saúde não parecem sensibilizar as pessoas, com hábitos de cultura alimentar arraigados e pouco propensas a abrir mão do primitivo prazer carnal. É inimaginável um encontro da patota no fim de semana para assistir futebol e tomar cerveja, tendo à mesa um prato de tofu grelhado com broto de feijão ao molho shoyu.

    Um método poderoso de tornar-se vegetariano é fazer uma instrutiva visita a um matadouro ou a uma avícola, a fim de presenciar in loco o espetáculo grotesco de como os pobres e pacíficos animais são assassinados para que lhes seja arrancada a carne. Carnificina! Se o estômago aguentar a experiência, pelo menos, nunca mais vai apreciar uma picanha da mesma maneira. Não pesando na digestão, pesará na consciência. A carne não mais descerá impune.

    Ao contrário do que acontece quando nossos dentes dilaceram um pedaço daquele tecido muscular, portador do terror da morte em suas entranhas, a conexão nutricional com os frutos da terra é um enlace com a vida. Ainda que uma planta possa conceder sua vida para nos fornecer alimentação, não há sofrimento e dor nessa entrega.

    Quando a cadeia alimentar realiza-se entre o animal homem e o vegetal, o ciclo da vida fecha-se de maneira conservativa. É sabido que a pecuária é uma das atividades mais impactantes sobre o meio­-ambiente em termos de devastação de florestas, utilização de insumos e efeitos sobre o aquecimento global. Esta razão já seria suficiente para repensar os hábi­tos alimentares: adotar uma prática ambientalmente correta.

    Ingerir vegetais é trazer o espírito da selva para dentro do corpo. Interagir com a natureza, extrair dela a essência da vida, integrando-se ao espírito de Gaia. É resgatar nossa dí­vida com o planeta, contraída nos descaminhos da civilização que descambou para práticas antropo­cêntricas. É conectar-se com o Universo e com Deus. E seja lá Ele quem for ou onde estiver, estará a léguas dos fast foods, das praças de alimentação e do alvoroço que cerca refeições feitas às pressas nos shoppings da vida.

    A prática básica que leva a essa ruptura é a inserção da salada nas refeições. Tenras folhas de alface, escarola, rúcula, agrião, colorizadas por fios de beterraba e de cenoura, brotos de alfafa e fatias de tomate caqui, regadas com azeite, sal e limão. Uma salada no almoço instala um oásis interno e capacita-nos a voltar com leveza à aridez da vida cotidiana.

    Substituir folhas verdes frescas por ali­mentos industrializados, cheios de aditivos e conservantes, é, com perdão da expressão, um ‘desplante’!

    Para reverter essa situação, uma boa técnica é um banho estomacal verde. Saturar o organismo de clorofi­la. O ideal é já começar o dia com um suco detox. É o sabor da vida descendo pelo gogó até se instalar refrescante no estômago. Ao sair do liquidificador ou do processador, é possível entrever uma aura verde fluir energeticamente do interior daquele líquido espumante, provinda da fusão de elementos vitais que concorrem para a mistura exta­siante. Parecemos estar sob o efeito do pó de pirilimpimpim. O perfuminho da clorofila remete ao mistério das florestas tro­picais virgens. Com algum esforço, é possível ver duendes e fadas bailando em torno do copo. Um exército de micronutrientes transporta­dos pelo caldo da trituração invade o intestino e instala a livre circulação no aparelho digestivo.

    Se você estiver anestesiado pelo sabor edulcorado do açúcar e do ciclamato dos refrigerantes, ener­géticos e outras drogas industrializadas, é preciso um estágio antes de receber o choque verde de Avatar. Procure ir introduzindo elementos naturebas no cardá­pio. É preciso ‘implantar’ em nosso organismo o sabor das florestas tropicais. Aos poucos. Não adianta botar o carro de alfaces na frente dos bois.

    Voltando à vaca fria, uma sugestão seria adotar dieta vegetariana nos presídios. Certamente essa medida aumentaria a taxa de regeneração, além da economia para o contribuinte, já que alface é bem mais barata que coxão mole. A carne insufla a violência. Rituais de brutalidade combinam com álcool e carne. Alguém já viu um estupradorvegetariano? Um criminoso que passe cinco anos comendo legume e arroz integral seguramente terá maior chance de retornar à sociedade em melhores condições de amar a vida e respeitar o próxi­mo.

    Talvez seja só uma utopia. Mas tenho a convicção de que um futuro melhor não depende apenas de mudanças político-sociais. É preciso uma revolução pessoal em que cada indivíduo conceba o mundo de maneira mais solidária aos demais seres vivos. A dieta vegetariana ou vegana faz parte dessa transformação.

  • Oração para os fortes

    Ultimamente tenho pensado na diferença entre maturidade, alienação e libertação existencial. A reflexão surge com base nas situações em que algo nos incomoda, aborrece ou se mostra absurdo, e, por diferentes justificativas, silenciamos ou entubamos em nome do perdão. 

    Como saber se essa atitude tão altruísta tem poder digestório ou infeccioso?

    Uns dizem que amadurecer é escolher as lutas. Outros afirmam que calar para evitar desgastes é uma forma de superioridade. Há quem pense que toda evolução espiritual depende da irrestrita aceitação das falhas humanas. 

    Será que é mesmo assim? 

    E se amadurecer for se permitir não tolerar, resignar ou recomeçar? 

    E se evoluir for romper tratados que ameaçam as fronteiras da paz interior?  

    Uma coisa é certa, evoluir é jamais desistir do que nos habita no íntimo. Mesmo que isso signifique seguir em frente, aparentemente, só. 

    Atentemos para as armadilhas sórdidas da aceitação. Algumas coisas são inegociáveis. Perdoe-se quando não puder perdoar.

  • O COMPLÔ

    Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranhos — umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

    — Amigos, eu aqui sou a cabeça — ou “o cabeça”, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois é dele a glória, os louros, a academia. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

    — As figuras, unidas, jamais seremos vencidas… — entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

     — Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

    — Mas que arrogância! — objetou Metáfora. — Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” aí é metáfora. Vê como sou mesmo importante?

    Metonímia não se deu por rendida:

    — O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

    — Sabe por que aconteceu isto com ela? — insistiu Metáfora. — Porque se deixou usar demais. Agora já não impressiona nem comove. E será esse o meu, o seu, o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra — e olhou desdenhosamente para Gramática, que a tudo assistia, impassível, no outro extremo da sala.

    A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora. Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. Só se atribuíam a ele o mérito e o talento pelos textos que escrevia, mas de onde vinham na verdade a graça, o vigor, a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

    Cada uma quis externar o seu ressentimento. Hipérbole era a mais exaltada: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era lá muito honesto — opinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também…” — mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

    Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele!” — e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali por diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática. “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” — enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia dizia para si, amedrontada: “Ih, que eu sinto cheiro de barulho…”.

    Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas — umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de regras e hábitos que pareciam ao Escritor a morte do sonho, da invenção, da ousadia.

    — Seja o que for que vocês queiram, eu cedo — acabou por dizer. — De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte — seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: — De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve. Nenhuma de vocês funciona — assim como um corpo não funciona sem desejo e sem alma.

    Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente. 

  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • O menino e o mundo

    Nos idos de 1990, eu era um menino, com tantos sonhos. Nessa época já intuía o modus operandi da vida. Percebia as incumbências de meu pai, sempre muito atrasado para o trabalho, onde sequer às vezes podia tomar um café e era chamado de “cabra”, por seu chefe, por chegar atrasado; o calor do abraço de minha mãe, tão doce, terno, ao mesmo tempo tão frágil, débil. Mas eles brigavam, muito, e isso resvalava em mim, porque era o primogênito, o mais tranquilo e contentor dos acessos de raiva de meu pai. Minha mãe contava comigo para poder freá-lo em seus impulsos transloucados de bebidas e de mundanidades. Eu era, bem dizer, o salvador, que acordava de madrugada para conter as saídas de meu pai, ou mesmo quando queria ir embora de casa. Meu pai era um homem do mundo, esse é o erro, porque minha mãe se casou sabendo disso, e queria mudá-lo, por meio de orações obsessivas. Lembro-me da época em que, enfim, ela conseguiu levar o meu pai a um grupo de orações chamado Shalom. A vida ficou rigidamente religiosa, hipotética para brincadeiras de quaisquer tipos, tudo era coisa do demônio. Não havia espaço, éramos contidos para as coisas do alto, e todos os dias tínhamos de rezar o terço antes de dormir. Veja bem, uma criança ser obrigada a rezar o terço todos os dias! Era assim, ipsis litteris. Meu irmão toda vida dormia antes de acabar a obrigação. Hoje vejo a sandice em que nos metemos. Ainda houve uma época, até por conta dessas grandes convivências e experiências, em que eu queria ser padre – amava, como amo, Jesus, esse não é o mote, e nunca houve questionamento sobre a pessoa de Jesus, um homem justo, fraterno e amoroso. Participava das missas como coroinha e sabia as rezas de cor. Preparava missas fictícias para os garotos da rua virem participar. Eu era uma espécie de menino prodígio, que até as beatas veneravam. Minha mãe dizia que era pecado, mas achava bonitinho e, decerto, apurava o ardor de ter um filho padre. Para ela, parece que era um sonho. Ela era muito beata, portanto, ter um filho padre seria uma bênção. No entanto, minha vocação, como confessei à minha avó, também beata, era de ser “pai”, e não padre. Foi, me lembro, um desgosto para a família. Hoje sou realizado como pai. Tenho um filho de cinco anos, muito esperto e saudável. Então, sobre mim, a memória que tenho é de uma criança quieta e introspectiva, tateando o seu lugar no mundo dos homens. Tinha medo, mas, mais importante, tinha paixões. E hoje movo o meu corpo sedento por mudanças, por encontros, do meu jeitinho, por isso me considero um artista. Sempre apto a amar. Isso não é lugar-comum, palavra ao vento, você pode pensar erroneamente. Amo e busco amar a vida, o próximo, porque preciso ser amado (e o lance é recíproco, pode crer).

  • Amizade caça jeito

    Alguém já se perguntou como ficam as nossas amizades depois dos 40? Sorry, mas não é a mesma coisa. As pessoas casam, separam, brigam por pensão, focam no trabalho (aliás, o que uma palavra tão feia quanto “focar” está fazendo aqui? Arre!). O tempo para ver os amigos encolhe.

    Foi daí que me veio a frase que batizou esta crônica — “Amizade caça jeito”. Porque, se a vida aperta, a amizade dribla. Dá olé, como no futebol de rua da infância. É preciso inventar um jeito de continuar.

    Dou um exemplo. Tenho um amigo, o Gustavo, especialista em rasgar o calendário. Já saímos para comer pizza numa segunda-feira à noite; brindamos com vinho numa quarta ao entardecer; madrugamos — pasme — às cinco e meia, só para viver a aventura de tomar café num lugar legal e rir depois da ousadia.

    Conheci o Gustavo nos tempos da faculdade de Letras, na PUC Minas. De lá pra cá, nunca nos perdemos. Só que, como disse antes, os horários mudam. Aliás, tudo muda.

    Mas a amizade caça jeito. Inventa brechas onde não parecia haver. Às vezes, em vez de um bar no fim de semana, a gente se encontra na fila do dentista, ou numa praça qualquer para um pastel. Pode ser seis da manhã, antes do trabalho. Pode ser na devolução de um livro na biblioteca. O lugar pouco importa — quem quer um amigo dá seus pulos.

    Se o brasileiro não é especialista no jeitinho, eu não sei quem é. E, se é assim, com a amizade pode ser também.

    Se você experimentar tomar, por exemplo, um café da manhã antes do trabalho, vai ver o que é começar o dia dando uma gargalhada. Se encontrar o amigo por vinte minutos para comer um pastel antes de entrar numa entrevista de emprego, vai perceber como a vida fica mais feliz e menos burocrática.

    E se eu te disser, leitor, que já fui cortar cabelo e fazer a barba no mesmo horário que um amigo? Pois é. Depois de certa idade, a amizade depende de brechas — um encontro rápido, um pastel antes da entrevista, um café roubado da pressa. É preciso dar chance ao inusitado, ao surpreendente.

    Se tem algo que sustenta a vida, é a amizade. Mais até do que namoro ou casamento, são os amigos que não nos deixam envelhecer sozinhos.

  • Vontade de boneca

    Ponto de ônibus lotado. Pedestres, buzinas, barulhos. Um agudo. A criança chora. Largada. Calçada. Penso na fome. Ela dói. O pai embala.

    O choro não passa. O ônibus também não. O choro aumenta. A menina se agita. Estrebucha no ar. O choro aumenta e dói em mim. Olho sem querer olhar. É fome, só pode.

    Tá na hora do ônibus passar.

    O choro insiste em me incomodar e me invade. Alma e ouvidos. Espero que o ônibus não passe. Procuro por alimento. O choro precisa parar.

    Compro achocolatados e biscoitos. Comida de infância, lembrança doce. A menina não dá bola. Chora de perder o fôlego. Seu olhar me encontra. Respiro e ofereço:

    — Ela quer é uma boneca, mas não tenho como comprar. Desabafa o pai.

    Nem todo mundo chora de fome. Ela só quer brincar.

    Lembro quando era criança. E adolescente. E eu. Sem ter como comprar.

    Confiro o preço e a formosura. É uma Barbie. O choro passa. O ônibus também.

  • Poema #33: Sea Of Monsters

    inspirado em versos de Lennon/McCartney

    Estamos num barco
    no meio do oceano.
    Toda compreensão de mundo
    que temos não ultrapassa
    o nosso raio de visão.

    E como nossa visão é curta
    (e não nos conformamos com isso),
    às vezes utilizamos algum instrumento
    que nos dê a sensação de transcendência.

    Mas por mais largos que sejam ou
    possam ser nossos horizontes visuais,
    o que vemos é apenas um limitado tapete
    de água que escoa e se perde no vazio.

    Assim nossa visão de mundo
    (ainda que não queiramos admitir),
    acaba se restringindo ao espaço
    interno do barco em que estamos.

    Do lado de fora do barco
    (e a água bate forte no casco
    tentando afundá-lo) se situa o imponderável
    com suas “nuvens negras, negros pássaros;
    asas partidas, lagartos, destruição”
    .

    Inventário de Sombras

  • Bolinhas e fofocas em forma de sombra: perceba-as, antes de abrir os olhos

    Inspira…

    Expira…

    (por 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 segundo….) Inspira…

    Meu cachorro me vê sentada, coluna alinhada, joelhos e pernas e pés num emaranhado yogui, posição de lótus. Antes que eu expire, Zeca já está colocando a sua bolinha preferida, a branca, sobre uma das minhas mãos. E a bola escorrega. Tenta novamente; outra vez a bolinha rola no chão. Eu seguro a risada e o risco de perder a concentração em um sorriso de canto de boca, olhos fechados. Ele late para mim. Eu inspiro.

    Som da respiração, um tanto quanto entrecortada por um resfriado que foi covid, que teima em não ir embora, frente às variações medianas diárias de 15°C do inverno na serra fluminense.

    (expiro….)

    A voz que sai da caixinha JBL harmoniza o balançar das minhas plantas na varanda com as árvores da rua. Venta. O céu é de um azul sereno e brilhante – os mais bonitos dias são as manhãs ensolaradas de inverno. Antes de a voz

    pedir que eu fechasse os olhos, a minha posição no cômodo permitia vislumbrar a comunicação vegetal, a agitação das fofocas domingueiras no movimentar de suas sombras, que, de tão interessantes, passavam do piso frio da varanda para o laminado confortável do quarto, alcançando o tecido do pijama que protege minha pele do frio.

    Inspiro…

    Imagino a luz dourada preencher todo o meu organismo, serenidade e cura. Como é prazeroso parar sem culpa, manhã de domingo, e apenas estar aqui, no presente. Sem querer, momentaneamente, nada além. Apenas existir, no balançar das sombras que se fundem a minha própria. Um todo que inspira e expira.

    Inspiro…

    (…) preparo-me para movimentar as articulações e, quando me sentir pronta, abrir os olhos. Um barulho de ondas do mar e gaivotas, tão estranhos à paisagem da Serra, invade meu coração e não me sinto pronta para enxergar o fora de mim. As manhãs de domingo, silêncio e preguiça, funcionam como um equilíbrio das minhas atividades tão intensas. Antes de expirar por última vez de olhos fechados nessa meditação-oração, sinto os pelo do Zeca, que sentou encostado às minhas costas. Sinto o odor do incenso de alecrim. Sinto meu corpo quieto, minha agitação comedida. Sinto a brisa suave do vento gélido, e também raios de sol que aquecem meu tornozelo esquerdo.

    Antes de abrir os olhos, conferir se estão de fato fechados é um gesto simples. E necessário. Imperativo, diria. Na mesma intensidade, perceber nossos olhos fechados é a essência da criação do domingo.

  • A idade do bobo

    A idade do lobo é a expressão com que se costuma designar a andropausa. Não sei por que foram escolher o lobo como referência para esse delicado período, que se traduziria melhor por meio de um bicho menos feroz. Geralmente nessa época o indivíduo tem pouca coisa de lupino; está mais para cágado, coruja, caramujo ou qualquer desses animais estáticos e meditabundos.

    Talvez a analogia com lobo venha da tristeza uivante com que ele vê o desejo indo embora. Não propriamente o desejo, que esse não se extingue nunca, mas a plena possibilidade de satisfazê-lo. Os uivos seriam uma demonstração de desespero impotente, um ganir melancólico de quem sente a aproximação da morte.

    Há quem diga que a designação de “lobo” deve-se a que o crepúsculo da libido se reveste de uma aparência oposta. Por uma espécie de compensação, o indivíduo se tornaria agressivo e conquistador. Perseguiria com insaciável ousadia as mulheres mais novas, lembrando nisso um lobo faminto à cata de ovelhas.  E quanto mais tenras, mais apetecíveis.

    Acredito que tanto a melancolia quanto a afetada hipersexualidade justificam a denominação. E que por esse último aspecto a Idade do Lobo comumente se transforma em idade do bobo. Nada haveria de grave se o indivíduo sofresse o seu banzo de forma recolhida, aceitando com superioridade e compostura o arrefecer do desejo e (o que mais dói!) a indiferença das mulheres.

    Mas o comum é ele descambar de lobo para bobo, o que só tende a piorar o quadro. É típico do processo, por exemplo, interpretar como sinal de correspondência ao seu olhar faminto um simples sorriso ou um gesto despretensioso de carinho. Isso o faz deveras sofrer, pois é próprio das mulheres novas sorrir muito e ser naturalmente carinhosas (as maduras são mais sérias).

    Cada sorriso, cada aceno de voz gentil deflagra nele uma paixão. Só muito depois, diante do espelho, ele compreende que aquela meiguice tinha alguma coisa de filial. Fora tratado, por deferência à idade, como uma espécie de pai. Ou pior: de tio. Quando se dá conta disso, seus uivos se tornam mais tristes.

    O limite da idade do bobo pode ser o extremo ridículo ou um recuo tático rumo às atividades do intelecto e do espírito. Uns fazem poemas, outros se voltam para a filosofia (filosofar, como alguém já disse, é aprender a morrer) ou se tornam adeptos de alguma religião. Se nada mais esperam do corpo, que pelo menos se salve a alma.

    Mas há os que se recusam a cair na real. E podem, nesse cultivo de paixões impossíveis, até chegar à tragédia. São bobos tristes, terminais, que tingem os cabelos – e a careca – para disfarçar os efeitos do tempo. Em vão.

  • Síndrome do bebê fantasma!

    Na pracinha do bairro, clara caminha com seu carrinho de bebê. O sol da tarde ilumina o rosto rosado da “criança” que ela exibe com orgulho. Os vizinhos sorriem, mas, ao se aproximarem, congelam. Nos braços dela, há um boneco reborn: olhos de vidro, veias desenhadas à mão, corpo de silicone morno. A cena é perturbadora, não pelo realismo do objeto, mas pelo desvio de atenção que ele provoca. Clara troca as fraldas da “criança, canta ninarias, conversa com o inanimado. “Ele acordou com cólica hoje”, diz, balançando o manequim.

    A psicologia nomeia isso como “Síndrome do bebê fantasma” — uma resposta à perda, à solidão, à carência.

    Mulheres que sofreram abortos, idosas abandonadas, mulheres cujos úteros ou afetos nunca foram preenchidos.

    O reborn é uma prótese emocional, um atalho para driblar a ausência.

    Até quando um objeto substitui o calor de um ser? Há quem critique: “É patológico”, murmuraram na fila do mercado, enquanto Clara pagava por mamadeiras vazias. Tem o caso da “Mãe” que publicou um vídeo em seu perfil no TikTok levando Bento, seu bebê reborn, ao hospital após “notar que ele não se sentia bem”. O conteúdo viralizou e obteve mais de 8 milhões de visualizações até o momento. Ela decidiu levar Bento ao hospital às pressas ao perceber que ele estava mal. Chegando ao local, ela relata que a médica o examinou, medindo sua temperatura e aplicando remédios. Em determinado momento, ela relata que “tirou o leite” em casa para dar a ele no hospital.

    A verdade é que todos carregamos bonecos reborn invisíveis. Projetamos nossas vidas em relacionamentos mortos, em empregos que nos sugam, em likes que validam nossa existência. Clara apenas materializou sua neurose em algo tangível.

    Seu erro, talvez seja não escondê-la. Enquanto a sociedade tolera vícios em álcool, workaholismo e compulsões silenciosas, seu crime é expor demais a ferida.

    O problema não está no silicone, mas na linha tênue entre o que cura e o que aprisiona. Quando a fantasia vira cela, o abraço ao boneco é uma confissão: preferimos a mentira que acalma à verdade que machuca. 

    Assim, seguimos colecionando substitutos — para a maternidade, para o amor, para o sentido.

    Porém, cuidado com os reborns da alma: um dia, eles podem nos responder. E aí, seremos obrigados a encarar o silêncio que sempre esteve lá.

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