Crônicas

  • Lendas

    Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos.

    Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). Assim como as dríades, elfos e fadas se despertam, também as bruxas más, os monstros e as bestas afastam-se da hibernação.

    — Vamos, filha. Já está tarde — Grita a mãe.

    — Estou indo, mãe. Estou indo — A criança respondeu enquanto apertava alguns brinquedos na mala estufada.

    A pequena Bartira estava a caminho da casa de sua avó que morava em uma cidadezinha no interior de Goiás chamada São Patrício.

    Ela, o irmão e primos sempre planejavam e imaginavam todas as aventuras que viveriam no sitio.

    Na estrada, Bartira se imaginava pulando pelas árvores que corriam em grande velocidade através da janela do carro. Por fim , adormeceu agarrada a Bilbo, seu coelho de pelúcia marrom.

    Interrompendo seu sono — não muito confortável — escorada junto à janela do carro, Bartira quase caiu quando Rita, não conseguindo conter a ansiedade, abriu a porta do carro sem aviso prévio.

    Ignorando o constrangimento (e os gemidos mal-humorados de Bilbo) ambas saíram saltitando com gritinhos, contemplando todas as possibilidades que viveriam no próximo mês.

    Na primeira semana as cinco crianças ( na realidade, eram seis, mas Ana não era contada por ser muito nova para a aventuras), se mantiveram investigando dentro dos arredores da casa da avó, coisa que era tradição entre os primos. Não encontraram muito mais que alguns parafusos que o avô havia pedido e roupas velhas de gerações que eram guardadas, o que lhes rendeu alguns dias de muita risada e entretenimento.

    No início da terceira semana, durante a noite se ajustaram ao redor de uma fogueira montada no curral do avô para contar seus medos em formato de histórias, era quase como uma competição sobre quem causaria o maior assombro no grupo.

    Bartira foi escolhida para protagonizar a primeira noite, contou-lhes todas as histórias que conhecia sobre o temido curupira.

    Nesta, voltaram em silêncio conferindo os lados da estrada de terra, para prevenir qualquer aparição.

    A segunda noite foi a vez de Tito Tavares tentar a sorte. O rapaz amava os animais, em especial, admirava os equinos. Como uma contradição que carregava, contou a todos a história do personagem que mais temia, e depois daquela noite também temido por todos ali, a mula sem cabeça.

    Na Quarta feira, os gêmeos Andrade dividiram o conto de feitos da caipora, amiga das florestas e inimiga dos caçadores. Ivan detalhou a aparência animalesca e suja da personagem, já que, este morria de medo de tudo que possuía um rosto que não fosse familiar a sua vista. Enquanto Ravi descrevia os assobios que caipora cantarolava ao passo que enrolava a crina dos cavalos desavisados das fazendas, o calor do fogo que carregava aceso em sua tocha e, por fim, os roncos do javali, em que montava. Ravi, que por sua vez, detinha um medo mortal de barulhos sem rostos, concluiu o terror com maestria.

    Na quinta choveu e não houve o encontro, então se contentaram em remarcar para o próximo dia. Todos suspiravam aliviados pela noite sem pesadelos, mas ninguém ousou dizê-lo, pois poderiam ser taxados de covardes pelos primos, que em secreto, também tremiam.

    A noite de sexta foi a pior de todas, a tempestade do dia anterior deixou a aura ainda mais sombria. A lua, por mais cheia que estivesse, era por hora tapada pelas nuvens que passavam e as estrelas piscavam como pequenas bombas prestes a explodir.

    Ventava bastante o que dificultou a montagem da fogueira, mas desta vez não a fizeram no curral, pois o avô naquele dia recebeu gado novo.

    Se a noite pudesse falar, diria a eles para não saírem de casa, quem dera pudessem ter ouvido antes de ser tarde demais.

    Os cinco recorreram ao milharal do tio que ficava a pouca distância da casa. Aquilo mais parecia um labirinto, mas Tito era bom com direções e guiou o grupo até o meio, onde alguns peões descansam em época de colheita. Todos chegaram pingando encharcados pela umidade que as folhas guardaram, a chuva se estendera até a tardinha e havia estiado a pouco.

    Ravi alimentava a fogueira com os galhos mais secos que o irmão havia recolhido, resultado: fogo fraco, amarelo. Todos irritados com o vento frio e a garoa que ainda secava.

    A oportunidade da noite estava com Rita, que preparou seu enredo por dois dias. O monstro escolhido foi o Boitatá, a cobra guardiã dos animais e inimiga de invasores. Durante a história não havia som ambiente, todos os roedores e animais noturnos resolveram se refugiar — a não ser por um.

    A voz da garota de cabelos cacheados se tornou mais séria, em conjunto com a luz fraca do fogo que dançava em suas feições, era impossível taxar todos os acontecimentos narrados como uma invenção.

    Rita se empolgou na descrição das escamas que refletia as fortes chamas que crepitavam em sua cabeça, quando somado a imaginação dos ouvintes, a raiva personificada dos olhos do réptil se tornava palpável.

    Ao decorrer da história, todos abaixo da lua que subia no céu abafado, tremiam, não responsabilizando as rajadas de vento que criavam mais força a cada hora. Em alguns momentos as crianças  pensaram escutar barulhos de passos na estrada ao longe.

    Quando, chegando próximo ao fim da história um ronco se ouviu no meio do milho, Ravi soltou um grito cortado pela mão de Ivan que estava ao lado observando o negro da escuridão junto a Tito.

    Bartira congelou onde estava. Não se atrevendo a mover um músculo sequer.

    — Ele não sabe onde estamos — Cochichou Rita após mais alguns ruídos se afastando.

    — Se mantermos o silêncio, ficamos invisíveis — Concluiu Tito um pouco mais alto que um sussurro.

    Com a ajuda de Ivan, Tito jogou terra úmida na brasa já fria e todos se sentaram quietos. Bartira se agarrou ao braço de Ravi no centro do pequeno círculo, ansiava com todo seu ser estar na casa da avó abraçada a Bilbo.

    Assim que pensaram ter dissipado o-que-quer-que-fosse, uma labareda em movimento se acendeu não muito distante dali, juntamente com um assovio cantado.

    Bartira foi a primeira a notar, e tivera a certeza de ser o moleque de cabeça quente e pés torcidos que falara a dias atrás. Tapou a boca com a mão e se atirou no milharal em desespero.

    Os gêmeos Andrade se entreolharam, seus olhos quase saltando das órbitas, correram juntos na direção oposta a de Bartira. No caminho foram atropelados por um porco gordo que disparava sem direção. O desespero de Ivan foi tanto que vomitou ali mesmo, ambos saíram tagarelando sobre como a caipora os enredou de jeito.

    Rita, ficou algum tempo congelada, apenas o lamento preenchia sua pequena mente de grande imaginação, pensara ter lançado uma maldição sobre todos com seus exageros sobre a pobre cobra. Suada em desespero, seguiu os outros.

    Tito, o mais velho e o único que sabia sair do labirinto, tentou sem sucesso conter a turma antes que se separasse. Ele mesmo chorava, ao notar o fogo da mula sem cabeça perseguindo os vultos que deviam ser os pequenos desesperados. Mergulhado no horror começou a andar em círculos. Ainda tentava chamar para perto os outros com cochichos embargados.

    Aos poucos, cada criança acabou achando a estrada por si mesma, algumas mais rápido que outras, ignorando a dor das pequenas pernas nem sequer olhavam para trás ao rumar a toda velocidade em direção a casa da avó.

    Já era tarde da noite, o satélite noturno já se encontrava em seu ápice e Tito acabou vencendo o medo, não o suficiente para adentrar novamente ao milharal, mas permaneceu a beirada da estrada esperando sua irmã.

    — Bartira, vamos. Está tarde. — Gritava

    Por fim, após alguns minutos — que mais pareceram horas — Bartira respondeu em desespero:

    — Estou indo, Tito, estou indo.

    Assim que sua irmã apontou na estrada, toda suja e molhada, o menino agarrou sua mão e disparou.

    Durante toda a terceira, e última, semana nem a luz do sol pode convencer os miúdos a saírem de casa.

    Um fato engraçado é que no dia anterior aquela sexta-feira, eles não imaginavam — nem sequer poderiam. Durante a tempestade,

    Capitão, o porco de estimação do tio José havia quebrado o chiqueiro e fugido junto com os outros, deixando um rastro de bagunça por todo terreno.

    Quando o José ouviu ruídos tarde da noite no meio do matagal achou ser seus porcos. Agarrou a lamparina e correu para alcançar os fujões. Foi com isso que os pequenos, eufóricos, confundiram com o fogo mítico e o assobio era a forma do tio se comunicar com sua vara.

    A cena era cômica para quem assistia, o tio correndo atrás dos vultos dos leitõezinhos e os pequenos correndo de sua sombra. A noite ia caindo e o fazendeiro finalmente se cansou, oferecendo a trégua que as crianças precisavam para fugir.

    Quando mais velhos, cada um contava a história de sua própria maneira. Sempre que confrontados pelas novas crianças sobre divergências na história diziam ter ocorrido em ocasiões diferentes quando cada divindade apareceu, mas no próprio peito cada qual tinha a certeza do que viu — ou o que achou ver. Todos ainda se lembram até os dias de hoje com a nitidez dos dias de ontem.

  • A infância bateu na porta

    No domingo de manhã, enquanto eu lia no computador, percebi que a rua onde moro estava mais agitada do que o normal. Parei de escrever e fui ver o que era. Cheguei à rua e fiquei abismado: tanta gente andando de carrinhos de rolimã. A vizinhança toda. A rua, que foi fechada só para isso, ficou cheia de gente com velhos, crianças, marido e mulher, homem quarentão. Todo mundo com seu carrinho. Estava tão bom que resolvi deixar a leitura para outro dia. Quando eu vi uma mulher, de cabelos grisalhos amarrados, descendo naquela algazarra toda — meu Deus!  — nada mais pra mim no mundo importava.

    Quando fui colocar o pé na rua para ver, meu primeiro desejo foi filmar. Peguei o celular, apontei a câmera e, de repente, um homem sorriu ao ver que eu estava gravando. Minha vontade era postar o vídeo e dizer: “Olha que delícia a minha rua!  Ela é tão divertida e alegre!” Eu, que já beiro os meus 42 anos, só me preocupava em gravar, registrar, compartilhar.  Enquanto isso, todo mundo ali só pensava em correr, gritar, sair, voltar. A ladeira, aqui em frente à minha casa, é íngreme. Naquele dia, ônibus só na rua de trás.

    Na minha infância, nada era mais simbólico do que o carrinho de rolimã. Naquela época, como não havia ainda celular, jogos, redes sociais, posso dizer que fui uma criança com o pé no chão.  Os carrinhos faziam a rua parecer uma pista de Fórmula 1.  A molecada corria veloz, gritava, ralava o joelho e, o pior de tudo, é que na minha infância o Mertiolate ardia. Parar? Só quando a mãe chegava à porta para avisar que a janta estava pronta. Mas, antes do jantar, a mãe da gente sentava com as vizinhas na porta de casa para colocar o papo em dia.  Para falar a verdade, nunca tinha andado de carrinho de rolimã até domingo passado.  Como também nunca fui de subir na laje para soltar pipas, cortar a linha dos outros meninos com cerol, a vida toda fui ruim de bola. Mas, na semana passada, já homem, enquanto eu filmava, um rapaz perguntou se eu iria ficar olhando. Quer saber?  Peguei meu carrinho, fui  até  lá  e me juntei a todo mundo.

    Eu olhava para a rua e é como se, pelo menos naquela manhã, ela voltasse a ser o que ela nunca deveria ter deixado de ser.  Aquela alegria barulhenta, com gente conversando na porta de casa, crianças inventando brincadeiras, o tempo passando devagar.

    De uns tempos pra cá, com essa história de todo mundo passar tanto tempo no celular, a rua ficava assim meio quieta demais.  Todo mundo ainda passa, dá bom dia; mas, aquele papo demorado e as horas de domingo na calçada pareciam ter ficado no passado.  Só que, semana passada, com uma tenda montada com água mineral e frutas, a gente foi à forra. Quando eu via aqueles homens feitos, do meu lado, subindo e descendo a rua com o carrinho, eu quis que aquela manhã não acabasse nunca. Era como se, de repente, a meninice de todo mundo fosse uma só. Idosos dos bairros vizinhos, crianças, avós, marido e mulher, todo mundo junto.

    No começo, confesso, pensei em ficar apenas no desejo mesmo. Queria admirar, assistir, até mesmo fazer uma crônica. Mas… a minha vontade de “brincar com os coleguinhas” falou mais alto. Eu subia, descia, ia, voltava mesmo com o sol e aquele calor danado que eu estava sentindo.

    Dali, descobri uma coisa interessante. A criança que a gente foi nunca some de todo.  Precisa só que a gente dê asas à imaginação, aproveite as oportunidades. Certa vez, um amigo que gosto muito, me disse que certas chances na vida da gente não voltam, que é preciso aproveitar. Aí deixei a vergonha de lado e saí para brincar. Eu não sei quando vai acontecer outra vez, mas sempre que acontecer, eu vou.

  • Próprio esquecimento

    Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora, muito idosa, com um carrinho de feira cheio de sacolas, e de repente minha garganta apertou. O sentimento ficou ali por uns segundos, igual um espirro que não veio. Depois passou. Quanto mais vivo, mais me convenço de que sou um mau conhecedor do meu próprio terreno. Meus sentimentos chegam sem bater, falam uma língua que não aprendi direito, e vão embora deixando o queijo e a faca em cima da mesa. Tem hora que o medo se fantasia de indiferença, e a gente diz “não estou nem aí”, quando no fundo está tremendo. Somos tradutores terríveis de nós mesmos. O texto é original, é claro, mas a gente insiste numa versão malfeita.

    Lembro de uma amiga que perdeu o pai. Na semana seguinte, estava no trabalho, rindo de uma piada. Alguém comentou, em voz baixa: “Olha como ela já superou.” Ela não tinha superado, só estava rindo porque o corpo precisava de ar, e rir é um jeito de respirar sem pedir licença. Com o tempo, descobri que não adianta brigar com esse estrangeiro que mora em mim. Ele vai continuar falando sua língua esquisita e deslocando os móveis de lugar. O truque é aprender algumas palavras de cortesia. “Estou sentindo alguma coisa esquisita.” “Acho que isso não é bem o que parece.” Ser estrangeiro de si mesmo não é defeito, é condição humana. A gente vive nesse vai e vem entre sentir e entender, entre o que explodiu e o que conseguimos traduzir. Hoje mesmo, olhando a janela, senti uma pontada. Não sei se é saudade de alguém, se é medo do amanhã, se é só fome passando disfarçada. Afinal, estrangeiro também se vira. Aponta, faz mímica, sorri sem jeito. E no final, acaba encontrando quem fala a sua língua. Mesmo que seja um vizinho, um cachorro, ou a própria tarde acalmando devagar. No livro “O estrangeiro” de Albert Camus, o personagem Meursault, descrito como um estrangeiro de seus próprios sentimentos, descreve outra interpretação do sentimento desconhecido. Ele é um colono francês, desapegado emocionalmente, sincero ao extremo e alienado das normas sociais, frequentemente usa a frase “tanto faz”. O personagem age friamente em relação a morte de sua mãe, e ao convívio com a mulher que ele passou a se relacionar. Acha belo somente o exterior que o circunda, a luz externa, o brilho fosco do que vê, porém sem afetos. Quase um psicopata, que não tem sentimento com o outro, vive em total falta de empatia, por vezes se colocando como vítima da sociedade e sem solução. É um homem apático e honesto que mata um árabe após uma série de eventos casuais. Indiferente à moral social, ele é julgado mais pela falta de emoção no funeral de sua mãe, do que pelo crime cometido, ilustrando o “absurdo” da existência humana, essa que carrega tantas nuancias, a qual necessitamos uma dedicação atenta, para não cairmos na banalidade do próprio esquecimento.

  • Deus do Tempo

    Já parou e sentiu a sensação de que o tempo está passando depressa? Acordamos, fazemos nossas tarefas e, logo que nos damos conta, acabou. Parece que o dia não tem mais vinte e quatro horas, a semana, sete dias. Às vezes me pergunto: será que o tempo realmente está passando rápido demais ou eu que estou muito acelerado? Um dia desses chorava para não ficar na escola, ficava irritado com a hipótese de levantar da cama, tomar um banho gelado, colocar o fardamento e ir, só ir. Ficar naquele espaço, entre quatro paredes brancas e rabiscadas, por toda uma manhã, era muito chato, cansativo e irritante, mas meus pais nunca me deixavam seguir a minha própria vontade.

    — “Mãe, posso ficar em casa hoje? Estou com preguiça de ir pra escola…”

    — “De jeito nenhum! Como você vai ser alguém na vida, meu filho?”

    Eu não entendia, pois a birra da fase de criança me cegava, não enxergava as sábias palavras que meus pais proferiam pensando somente, tão somente, no meu bem. Lá vou eu… 1+1, 2+2, vogais, consoantes, verbos, substantivos… Coisas que não serviam de nada naquele momento, pareciam só baboseira, mas… O tempo passa e como passa…. Ele passou… o momento de brincar, pular, fazer birra, reclamar da aula, ficar conversando baixinho com os colegas passou… Lá se foi meu ensino fundamental. Tantas memórias boas, de igual modo, quantos desafios… ficaram na fotografia, na lembrança. O tempo não brinca. Quem diria que um dia, em meio à execução de um trabalho escolar, receberia a foto da minha vó em um pôster de óbito. Ninguém espera ou mesmo consegue prever o minuto futuro. Só sabemos de uma coisa: o tempo passa. E junto com ele são criadas memórias, as quais nunca mais serão revividas, não da mesma forma.

    Tem momentos que me pergunto: Será que se eu voltasse atrás faria algo diferente? Mudaria alguma situação? Se eu pudesse… talvez… A vida, assim como o vento, passa de forma tão leve e sutil que nem percebemos, só sentimos seu frescor. Quando nos damos conta, bum! Passaram-se um ano, dois anos… Não brinque com o tempo, uma vez que pode perder oportunidades significativas. Não encare as dificuldades do caminho, olhe para os detalhes da trajetória: o sol nascendo pela manhã, o cantar dos pássaros, o sorrir de alguém, o abraço que nem sequer foi pedido… São detalhes como esses que fazem a vida ser feliz, ter sentido, nada é por acaso. Ao olhar para trás, hoje, consigo perceber a importância de cada puxão de orelha, cada momento difícil, cada lágrima vertida. Deus é através do tempo, o qual pode até passar; todavia, as palavras daquele que vive eternamente não passarão.

    Atualmente, em pleno exercício do ensino médio, quase na reta final, encaro inseguranças que me trazem à mente uma reflexão: como será o amanhã? Será bom ou ruim? Não sei, mas de uma coisa tenho convicção: Deus tem planos infinitamente maiores para nós, por isso, mesmo que minha alma apresente inquietações, sei que Ele me sustenta e traz, sempre no momento certo, a segurança de que tudo está sob seu controle. A vida passa, o ensino fundamental passa, o ensino médio passa, a família passa, as histórias de vó passam, tudo deste mundo passa, contudo a Palavra do Senhor é através de todas as eras e perpassa os limites da história.

  • A liturgia do indizível

    Há dias em que acordo acreditando que ainda caminho em direção a mim. Em outros, compreendo que não existe caminho algum. Existe apenas o intervalo entre um pensamento e outro, onde a escrita resolve acontecer.

    Não escrevo porque sei.

    Escrevo porque desconheço.

    O cigarro, quase sempre, anuncia esse instante. A fumaça sobe como se soubesse o percurso que eu jamais consegui aprender. Enquanto ela desaparece, alguma palavra decide permanecer.

    Há um ritual nisso tudo.

    O papel nunca me pergunta quem sou. A caneta nunca exige explicações. Ambos apenas aceitam aquilo que consigo suportar dizer.

    Quando a tinta acaba, resta o lápis. Quando o lápis falha, ainda existe alguma margem onde a mão insiste.

    Talvez escrever seja isso.

    Insistir.

    Visto cores diferentes conforme o dia, mas nenhuma delas consegue vestir completamente aquilo que me habita. O branco tenta me pacificar. O cinza aceita minhas dúvidas. O preto conhece meus silêncios. O azul, curiosamente, sempre me devolve uma esperança que nunca faz barulho.

    Tenho vivido mais recolhido.

    Não por medo do mundo.

    Talvez por excesso dele.

    Existe uma solidão que machuca e existe outra que organiza. Ainda não sei em qual delas habito, mas aprendi a não fugir quando ela bate à porta.

    Tenho saudade de mim.

    Não daquele que fui.

    Também não daquele que imagino ser.

    Tenho saudade de alguma parte que ainda não encontrei.

    E isso deixou de me assustar.

    Hoje prefiro a curiosidade à certeza. As certezas costumam envelhecer depressa. As perguntas permanecem respirando dentro da gente.

    Sou feito de muitas versões que dificilmente conversam entre si. Algumas se abraçam. Outras se contradizem.

    Há dias em que uma salva a outra. Há dias em que todas desaparecem ao mesmo tempo.

    Talvez seja isso que chamam de existir.

    Escrevo sem procurar beleza.

    Sem procurar respostas.

    Sem procurar leitores.

    Escrevo porque algumas dores só aceitam existir depois que recebem um nome.

    E, curiosamente, depois de escritas, já não me pertencem da mesma forma.

    Cada palavra leva um pouco de mim.

    Cada texto devolve alguém que ainda não conheço.

    Enquanto isso acontece, continuo vivendo.

    Transformando-me.

    Desfazendo-me.

    Refazendo-me.

    Sobrevivendo.

    Talvez a escrita nunca tenha sido minha salvação.

    Talvez ela seja apenas a ponte que me impede de desaparecer completamente antes de chegar ao outro lado.

    Quando escrever já não é uma escolha

    Quando eu quero escrever, a minha linguagem não permite. Ela se recolhe, fecha as portas, apaga as luzes e permanece em algum lugar onde não consigo alcançá- la. Quando eu não quero escrever, entretanto, ela me empurra para a escrita. Insiste. Persiste. Bate contra alguma coisa dentro de mim até que eu ceda.

    E eu, querendo escrever, não encontro as palavras certas, como se existissem palavras certas para escrever. Como se a linguagem fosse uma espécie de território sagrado onde algumas palavras estivessem destinadas a determinadas coisas e eu precisasse encontrá-las, exatamente aquelas, para finalmente dizer o que ainda não sei dizer.

    Não consigo escrever.

    E é justamente quando digo isso que alguma coisa começa a ressoar.

    Talvez porque, quando eu quero escrever, eu possa encontrar alguma coisa que me mate. Alguma coisa entre o meu eu e aquilo que ainda permanece escondido em algum lugar do meu inconsciente. Não sei. Talvez existam coisas que não querem ser encontradas.

    Há palavras que, quando pronunciadas, não revelam.

    Ferem.

    E talvez seja por isso que a linguagem se recuse quando eu a convoco. Talvez ela saiba que, se vier, trará consigo alguma coisa que eu ainda não estou preparado para reconhecer.

    A única coisa que sei é que agora, sim, eu quis escrever.

    Mas fui empurrado para dentro da escrita no meio do próprio percurso, como se tivesse começado a caminhar em direção a uma porta e, quando percebi, já estivesse do outro lado.

    Eu queria começar a escrever e agora já não quero escrever mais.

    Mas alguma coisa já começou.

    E quando alguma coisa começa dentro da linguagem, talvez não seja mais possível simplesmente voltar.

    Entrei num abismo.

    Não sei se caí ou se fui levado. Não sei se havia alguma coisa me esperando lá embaixo ou se fui eu quem levou tudo comigo.

    Afoguei-me nas minhas próprias lágrimas, sangrei do meu próprio sangue e bebi do meu próprio veneno.

    E talvez seja essa a parte mais terrível da escrita: descobrir que o abismo não estava diante de mim.

    O abismo era a própria linguagem.

    E eu, ao tentar escrever, apenas descobri que já estava dentro dele.

    Tudo Escapa, Inclusive Eu

    Eu desejo o ontem no mesmo lugar do hoje, embora o ontem ainda insista em permanecer. Do amanhã já não sei. Nada me agrada. Nem eu me agrado. O que seria agradar a si mesmo? Não sei. Uma felicidade medida em cinco segundos? O ponteiro do relógio aguardando a hora da bela saída para um show marcado há anos? A euforia de uma noite entre amigos? De que matéria se faz a felicidade? E o que se faz dela depois que passa? Como se escreve quando não se quer escrever? Empurra-se a escrita ou é a escrita que nos empurra para sermos escritos? Minha linguagem é a morada de uma alma que sangra, que se fecha, que se abre por todos os buracos do corpo. Costurei cada rasgo com linha e agulha, mas cansei. Agora deixo tudo aberto. Continuo escrevendo de amanhã, porque daqui a um minuto já será tarde. Posso olhar as horas, mas quando escrevo não vejo o relógio, apenas escrevo. E por que escrevo? Talvez porque exista em mim um enigma que jamais se deixe decifrar. Há uma morada dentro de mim que insiste em escrever, talvez para viver, talvez para sobreviver. O que escrevo pode ser profundo ou apenas superfície. Nunca se sabe o que vai sair daqui.

    Mas tudo escapa.

    Quando escrevo, escapa.

    Quando não escrevo, também escapa.

    Hoje é dia da minha sessão com a analista.

    Não estou a fim de fazer análise.

    Hoje não quero.

    Não quero sair do quarto.

    Também não quero que alguém entre nele.

    Não quero falar com ninguém.

    Não quero que ninguém fale comigo.

    Não quero telefonar para ninguém, nem que alguém me telefone.

    Quero apenas o indispensável.

    Tomar banho.

    Comer e beber.

    Para não agredir tanto o corpo.

    Apesar disso, não comi nada.

    Alimentei-me de palavras escritas.

    De tudo aquilo que me atravessa.

    Uma travessia de mim por mim mesmo, fazendo do próprio corpo uma morada.

    Entre um eu e outro eu, contradigo-me naquilo que me falta e naquilo que desejo.

    Talvez seja justamente dessa contradição que a escrita continue a nascer.

    Solidão e Desejo

    Fico hipnotizado, olhando a parede, até virar o rosto e olhar para a janela. A chuva cai, e por alguns instantes eu fico esperando que, junto dela, caia alguma coisa por aqui. Um amor. Uma resposta. Qualquer coisa que atravesse o vidro e faça companhia.

    Mas não cai amor.

    São só águas.

    Águas que despencam do céu, escorrem pelo vidro e seguem seu caminho, enquanto eu permaneço aqui, acordado, tentando entender o que faço com aquilo que não passa.

    Estou sem sono. Um pouco triste. E talvez a tristeza seja apenas isso: uma coisa que chega sem pedir licença, senta ao nosso lado e fica em silêncio.

    Mas vai passar.

    Eu sei que vai.

    Porque eu também já caí.

    Já me quebrei inteiro, já pensei que não havia mais nada para juntar, e mesmo assim alguma coisa em mim insistiu em nascer de novo.

    Talvez seja por isso que eu ame tanto os pássaros e os bichos. Eles não precisam explicar a liberdade. Eles simplesmente existem. Voam, caminham, partem, retornam. E, de algum modo, me lembram que ainda é possível recomeçar.

    A noite continua.

    A chuva continua.

    E eu continuo também.

    Talvez seja isso que a gente chama de renascer: não voltar a ser quem era, mas descobrir que, mesmo depois de tudo, ainda existe alguma coisa dentro da gente que se recusa a morrer.

    Entre os ventos

    E repousaria entre os ventos, com um cobertor amarelo por cima, para que eu fique rico, mas não de dinheiro, e sim de saúde. Terei o meu sono dos justos. Assim faço da minha casa uma morada, e do meu quarto, cada quadro que existe nele. Cada casa tem seu canto. E cada canto representa alguma coisa, talvez um santo, talvez um pecado.

    Em cima da mesa tem uma maçã. Nunca fui de comer maçã. E agora me pego pensando: será porque dizem que a maçã foi o fruto do pecado? Então eu pequei, porque uma vez dei uma mordida nela. A maçã e eu. Ela fica lá em cima, mas, quando vejo, vai desaparecendo. Alguém come. Eu não sei quem é. Ou talvez saiba e não queira escrever aqui.

    Já a banana, por ser amarela, eu como. Justamente para ficar rico em saúde.

    São meus preparativos para a grande festa espiritual das crianças. Logo, logo chega o dia delas. Que vivam as crianças, que dizem ser o futuro da humanidade. Mas, se as crianças são o futuro da humanidade, um dia eu fui criança. Então, eu sou o futuro de quê?

    Não sei. E, neste momento, também não quero saber. Estou no presente. Não quero saber do futuro e tampouco lembrar o passado. Quanto mais escrevo, mais lembro do passado.

    Uma criança em cima do morro, descendo em uma tábua com rodas e se espatifando lá embaixo, com os joelhos ralados. A mãe passa Merthiolate.

    Ah, como arde!

    A criança reclama. Depois sara.

    Agora, adulto, ah, como arde a mesma angústia do Merthiolate. Só que não existe remédio para esse tipo de coisa. Talvez a vida e o amor sejam assim: escorregar para doer e encontrar, de vez em quando, algum líquido preto que anestesie a ferida.

    Não dá para sofrer sempre, nem sempre viver sofrendo. Também dá para ser feliz.

    Passa rápido. Às vezes devagar. E depois disso, o que se faz?

    Eu não sei o que se faz. Nem sei o que eu faço. Só sei das sensações do momento, que passam desvanecendo meus sentimentos, a falta, a angústia da minha alma, entre o cigarro nos dedos e a fumaça rolando para lá e para cá, enquanto vou me lapidando.

    Dormirei entre os ventos, numa corrente própria, onde, dentro dos sonhos, eu possa ser tudo aquilo que não quero ser.

    Porque tudo aquilo que eu não quero ser é justamente aquilo que quero que eu seja.

    Mas não posso.

    Que a minha solidão não me abandone

    Que a minha solidão não me abandone e me faça companhia nos dias a dias, especialmente, especialmente nos dias em que eu estou triste, como hoje. Que eu saiba diferenciar solidão e solitude a cada virtude que se ganha. Que eu possa me contentar com nada e, mesmo assim, me sentir por inteiro em tudo. Ou pelo menos quase tudo.

    Talvez eu não me compreenda tanto, mas talvez a minha forma de me compreender seja escrever, para eu não me sentir tão sozinho e saber que a escrita me acompanha na solidão que sinto em meu caminho. E que, em cada rua, cada esquina, cada estrada, eu deixe rastros de mim. Que minha linguagem saiba produzir alguma coisa do meu inconsciente e que eu saiba parar e negociar com a escrita quando o meu momento for apenas de ter o meu próprio devaneio e sentir a dor que é preciso sentir. Hoje, escrever foi o meu jeito de ficar comigo quando eu não queria ficar sozinho.

    E que, mesmo nos dias todos, no mais amargo deles, como um café sem açúcar, eu possa reconhecer o amargo sem precisar adoçá-lo. Há dias que simplesmente são difíceis. Há tristezas que não precisam produzir nada, não precisam ensinar nada e muito menos se transformar em alguma coisa bonita. Às vezes, o dia é apenas um café amargo que a gente bebe porque ele está ali, porque aquele é o dia que temos, e porque, de algum modo, precisamos chegar ao outro lado dele. Hoje eu estou triste. Não há uma grande lição escondida nisso. Não quero transformar a minha tristeza em alguma coisa bonita. Quero apenas poder escrevê-la.

    Talvez seja por isso que eu escreva tanto quando não sei o que fazer com aquilo que sinto. A escrita não resolve. Não cura. Não tira de mim aquilo que dói. Mas fica. E, às vezes, isso basta.

    A depressão me pegou. Eu não preciso fazer dela uma virtude, nem encontrar beleza onde hoje só existe cansaço. Hoje eu apenas reconheci o que sinto e deixeialgumas palavras sobre a mesa.

    Talvez eu não tenha encontrado uma resposta.

    Mas encontrei um lugar para colocar o silêncio.

  • Um pequeno elogio à mentira

    Muitas são as facetas do comportamento humano que atraem os mais bisbilhoteiros como eu. Estudiosos dos mais diversos campos dedicam horas a fio para compreender as incríveis nuances de atitudes consideradas desviantes do padrão moralmente desejável. Seja por uma perspectiva sociológica, seja por uma abordagem psicológica, os desvios comportamentais são sempre vistos como uma transgressão de regras socialmente criadas.

    O que é visto como “normal” não apenas nos compele a agir de certa maneira, como também promove uma certa estabilidade nas relações sociais e uma até saudável previsibilidade do comportamento humano. Entre as diferentes formas que rompem essa segurança e que mais chamam minha atenção está a chamada pseudologia fantástica – termo um tanto empolado para mentira patológica. Aqui, não me refiro às mentirinhas que, de vez em quando, tanto eu como você acabamos contando por aí. Falo do sujeito que mente, compulsivamente, por prazer, sem maiores necessidades práticas. Mais do que isso, do indivíduo que acaba acreditando em suas próprias invencionices e relatando fantasias com total convicção.

    Como leigo que sou, não sei dizer o quão tênue pode ser a linha que demarca, arbitrariamente, a diferença entre o “normal” e o patológico, o saudável e a mitomania. Na verdade, nem tenho a pretensão de discutir a fundo tema tão alheio aos meus mirrados
    conhecimentos. Todavia, o que me instiga a falar sobre a mentira é o lado cômico desse desvio comportamental. São as estórias tão fantásticas e absurdas, que raras são as pessoas que as levam a sério. Algo como aqueles contos relatados por um certo Chicó – imortalizado pelo mestre Ariano Suassuna em sua obra O Auto da Compadecida. Ou ainda aquela falsa gravidez de quadrigêmeas desmascarada por um programa de televisão em Taubaté.

    Creio que poucos tenham tido a oportunidade de conhecer e de interagir com um mitômano. Talvez não existam manuais que ensinem a lidar com situações do tipo, mas a sensatez e a razoabilidade dispõem-se a servir de orientação para esses casos potencialmente tensos e embaraçosos. Claro está que as mentiras podem envolver questões muito mais sérias do que a comicidade que aqui menciono. Mas deixemos seu lado obscuro e antissocial aos psicólogos e aos sociólogos de plantão. Satisfaçamo-nos, pois, com a superficialidade mais profana de um atento e meticuloso ignorante.

    Existem os mentirosos anônimos, que ainda não foram descobertos pela grande imprensa. Esses podem ser vistos em quaisquer cantos, engambelando seus vizinhos, contando vantagens inexistentes, criando um passado que não existiu. A maioria deles é
    inofensiva, salvo quando o assunto envolve pecúnia ou empréstimo de algum objeto. Convém sempre manter uma certa cautela, visto que, se tiverem oportunidade, não hesitarão sequer em ludibriar seus amigos mais próximos. Se o sujeito for parente, abra o olho! Prudência redobrada, como diz o outro! Mas suas fantasias costumam ser tão absurdas que delas até Deus duvida.

    Existem também os mentirosos que viraram celebridades. No começo, todo mundo admira seus supostos feitos, suas pretensas qualidades e suas inexistentes credenciais sociais. Costumam associar a lábia ao charme, a criatividade à trapaça. É daí que surgem vigaristas como Frank Abagnale, Jr, aquele personagem vivido por Leonardo DiCaprio em filme de Steven Spielberg. O problema é que, conforme mostra o enredo de Prenda-me se for capaz, golpistas desse tipo costumam cair em contradições insolúveis. Eis o momento em que o trapaceiro perde o controle sobre sua narrativa e seus ouvintes e passa a responder por estelionato, o famoso artigo 171 de nosso Código Penal.

    Enfim, que fique claro que não incito ninguém a tal tipo de desvio de comportamento! Eu mesmo tento sempre ser verdadeiro em minhas falas e ações. Mas quem nunca foi pego em flagrante com alguma mentira de menor valor? Só sei que, quando confrontado com perguntas que desmoronam meu relato desprovido de base factual, costumo me lembrar da tão utilizada resposta do famoso Chicó: não sei, só sei que foi assim!

  • Derreta em nome de Deus, infeliz

    Bem que na hora em que abri a boca pra falar, alguma coisa me cutucou por trás, como se dissesse em meus ouvidos: “Não fala nada não, fica calado”. Mas não me contive quando vi o homem gordo vendendo saco de lixo e pano de chão ao meio-dia, o sol de trinta e oito à sombra estalando no crânio do sujeito e sendo rebatido ainda pior do que era pelo asfalto em uma esquina da Edgard Romero, ali naquele ponto de Madureira, onde, dizem, começou o aquecimento global. Minha língua coçou e eu mandei a brincadeira. “Que dia bom para trabalhar debaixo do sol, hein, camarada?”

    Assim que disse, comecei a me arrepender de ter dito e de não ter obedecido minha intuição. O gordinho era daqueles que parece viver permanentemente no púlpito de uma igreja pregando a salvação dos outros, achando que não precisa se salvar, porque já está pra lá de salvo no reino dos céus.

    “Qualquer dia é bom quando se traz a palavra de Deus no coração”. Eu só queria brincar com ele, e desse modo demonstrar minha admiração em vê-lo trabalhar dentro daquela churrasqueira. A última coisa de que eu precisava naquele momento era de pregação, mas ele começou o culto, a missa, sei lá mais o que, não entendo nada de igreja, e a depender daquela situação, eu continuaria sem vontade de entender.

    “Com a graça do senhor, que acolhe o justo e castiga o pecador, estou aqui em meu trabalho digno e honesto”, e, repentinamente empolgado, não reparava o sinal fechado permitindo que ele pudesse correr os carros parados, mostrando a mercadoria. “Aqui não há calor, não há frio que impeça esse coração cristão de cumprir com alegria a vontade de Deus. Enquanto tantos se perdem nos vales escuros dos vícios e nos prazeres enganosos da libertinagem, eu vendo, com a alegria de estar em Jesus, esses sacos de lixo e esses panos de chão para estar em paz com os céus. Na Bíblia, em João capítulo três, versículo dezesseis…”

    Ficando irritado, apressei o passo quando ele meteu a Bíblia naquela doideira de ficar bancando pastor no micro-ondas. Citar a Bíblia sempre torna maior a encheção de saco. Nada mais torturante do que um fanático com a ladainha daqueles versículos na primeira pessoa do plural, sem nos dar qualquer direito de discordar. A gente nem sabe se foi mesmo Jesus quem disse aquilo tudo, ou se quem escreveu colocou ali o que pensava e o que achava da história toda. Fui me afastando, deixando aquele barril em forma de gente conclamando os céus com sua mercadoria nas mãos naquele calor terreno.

    Descobri, debaixo do sol cruel de Madureira, que há algo que pode ser pior do que a tal positividade tóxica. É quando ela surge abraçada ao fundamentalismo, à carolice ou fanatismo. Então não é apenas tóxica, é insuportável, é enraivecedora, e feito assombração pode aparecer, inclusive de dia, já que podemos topá-la numa esquina vendendo saco de lixo e pano de chão sobre o asfalto amolecido.

    O calor do El Niño levou dias para recuar. Em um desses, passei pelo gordinho, mas dessa vez calado e procurando me esquivar para que não me visse. Eu não era um cara bom de se tentar converter, não reagia bem a isso. Ele estava lá, seus panos, seus sacos e sua barriga indecente, fugindo da cintura da calça, imensa e pontuda, como se houvesse engolido uma bigorna. As laterais arredondadas de seu corpo impediam que tocasse os quadris, suas mãos e braços ficavam soltos ao longo do corpo, sem encostá-lo.

    Discreto, passei junto a ele, rumo ao meu destino de todos os dias. Ele suava e uma mancha molhada tomava boa parte do tecido na altura do umbigo. Do rosto, desciam filetes de um suor poroso, como chuva na vidraça. Erguia os produtos na esperança de que alguém dentro de algum carro o chamasse para comprar. Era louvável seu afinco em trabalhar ali, naquela representação do alto-forno da CSN.

    “E aí, abençoado?”, me reconheceu e se dirigiu a mim nesses termos, quando me viu.

    “E aí, gordinho?”, respondi com a cara fechada. Quem chama os outros de abençoado? É católico ou crente? Eu nunca soube, mas já estava com raiva de ser tratado assim.

    “Pronto para ouvir a palavra de Deus? Você quer encontrar Jesus?”. Acho que ele seria capaz de trocar a venda do estoque inteiro de saco de lixo e pano de chão pela conversão de um pecador feito eu.

    “Olha só, gordinho, sabe o que eu quero?”, perguntei imaginando seus olhos se arregalarem de expectativa por trás dos óculos escuros. “O que, abençoado?”. Foi quando eu destravei a língua, agora não haveria intuição que me segurasse. “Eu quero que tu vire torresmo debaixo desse sol, gordo infeliz, e que esse Deus que inventaram para você acreditar derreta essa sua banha toda nesse asfalto como se estivesse numa frigideira”.

    Antes de me virar para seguir meu caminho, consegui ver sua expressão de espanto e indignação. “Que o diabo leve essa alma do mal, seu perdido”, ele gritou.

    “Fique tranquilo, já está sendo providenciado”, respondi, pegando meu rumo e decidido a evitar essa modalidade de pastor que vende saco de lixo e pano de chão debaixo do sol. Aliás, evitar pastores de todas as modalidades.

  • Domingos

    Lembro-me de um tempo em que as pessoas aproveitavam a tarde de domingo para fazer visitas umas às outras. Era comum que minha mãe fizesse um bolo e o deixasse reservado para as tais visitas, que podiam ser de amigos, parentes ou comadres e compadres. Muita conversa e café com bolo.

    A televisão ficava ligada no Silvio Santos, os adultos torcendo pelo número do seu carnê do Baú da Felicidade, enquanto nós, crianças, sonhávamos com os presentes do “Boa Noite, Cinderela!”.

    Tudo acontecia ritualmente. A missa das dez, com a melhor roupa; o almoço com frango assado e Coca-Cola Família. O avô que sempre vinha “porvar” a comida, a Brahma na cabeceira da mesa, o pudim de leite de sobremesa.

    Os visitantes sempre traziam seus filhos. Enquanto conversavam sobre o que não podíamos ouvir, brincávamos no quintal. No domingo seguinte, certamente retribuiríamos a visita ou iríamos à casa de alguém que estivesse acamado.

    A noite levava todos para suas casas e trazia o Fantástico com suas bailarinas pintadas.

    Na segunda, tinha escola e os legumes não vinham envolvidos em maionese. O suco de garrafa ou de pacotinho substituía o refrigerante e a cerveja. À mesa, a saudade do domingo, a rotina e a laranja como sobremesa.

  • Vovô

    Quem não teve um avô ou uma avó não sabe da alegria de conviver com alguém que olha para você com ternura e carinho, de um jeito diferente de pai e mãe.

    Meu avô paterno eu não conheci. Ele havia falecido quando eu tinha pouco mais de um ano de idade. O avô materno se chamava Sabino Muniz Fagundes. Nascido e criado na fronteira entre Brasil e Uruguai, era um sujeito pitoresco. Gostava de chimarrão, churrasco e uma boa leitura.

    Já aposentado, seu passatempo preferido era ficar sentado na cozinha, próximo à mesa, escutando um antigo rádio portátil, sempre acompanhado de um mate amargo.

    Quando não estava ouvindo o rádio, que mais parecia uma colmeia de abelhas zunindo, estava lendo seu jornal predileto, o Correio do Povo.

    A cada notícia que lia, seu rosto mudava: ora franzia a testa, ora fazia uma cara de espanto; às vezes dava um sorriso modesto.

    Passado algum tempo, fazia um comentário sobre alguma notícia que havia lido e, logo em seguida, olhava por cima dos óculos, que ficavam na ponta do seu nariz. E perguntava:

    — Tu entendeu?

    Eu não havia entendido nada. O assunto era sobre política, futebol ou alguma guerra ao redor do mundo, mas, assim mesmo, concordava.

    Posso dizer que praticamente não conhecia aquele velho solitário. Era viúvo há muitos anos. Quando minha avó faleceu, minha mãe ainda era criança.

    Seu Sabino morava em Jaguarão, e nós morávamos em Porto Alegre. Durante as férias escolares de inverno ou verão, era a época de visitar o vovô. Era o momento de diversão e alegria passar parte das férias com ele. Sempre tinha histórias engraçadas para contar e nos dedicava um tempo de atenção que os demais adultos não despendiam.

    Em alguma manhã fria de inverno, eu acordava ouvindo uma voz de trovão que enchia a casa inteira. Era o Vô Sabino, sentado do mesmo jeito que sentava na sua casa, porém na cozinha da minha mãe.

    Dona Alice irradiava felicidade. Parecia que ela retornava à infância. Ficava sentada ao lado do pai, ouvindo suas histórias e anedotas da terra natal. Eram fábulas sobre pescarias, em que os barcos retornavam lotados de peixes, sendo um maior que o outro.

    Esta era a paixão do Vovô. Ele e seus amigos, tanto brasileiros quanto uruguaios, se aventuravam pelas águas dos rios e lagoas da região fronteiriça.

    Verdadeiramente, era uma Odisseia. Eram dias fora de casa.

    Uma característica marcante dos seus hábitos alimentícios era o fato de dizer que não jantava, tomava somente “café”.

    O que o Vô Sabino esquecia de falar é que o café não era solitário.

    A ceia era regada a, pelo menos, uma xícara grande de café com leite, duas fatias bem grossas de pão feito em casa, dois ovos cozidos, fatias de salame, queijo colonial, manteiga, chimia, bolo de milho e alguma outra mistura vinda da padaria mais próxima de casa.

    Eu me sentia em Gramado, com aquele quase café colonial, e ficava intrigado e pensava:

    — Para onde vai toda aquela comida?

    Vovô não era nenhum atleta, mas exibia porte quase atlético. Com mais de um metro e noventa de altura e um peso proporcional ao seu tamanho, sempre havia alguma velhota de olho comprido para ele. Mas bastava ele fazer suas caras e caretas que o romance morria na raiz.

    Me recordo de quando comecei a construir meus primeiros textos na escola, durante as aulas de redação, e recebi uma carta dele.

    Era um envelope branco, com as bordas tracejadas de verde e amarelo, um selo carimbado pelos Correios, algo quase inimaginável nos dias atuais. Dentro do envelope, um papel de carta escrito à mão.

    Uma caligrafia perfeita. Ele escrevia melhor que a minha professora de português, uma verdadeira obra de arte. Para cada letra havia um ornamento diferente e, a cada detalhe dos desenhos, surgiam palavras.

    Corri até a minha mãe para contar a novidade e pedir ajuda para responder à correspondência. Era um ritual. Escrever a carta, comprar envelope e selo e depois levá-la até os Correios.

    Assim se foram os anos. Um dia, somente eu e minha mãe fomos visitá-lo. O Vovô não andava bem de saúde. A idade pesava sobre seus ombros, e o vigor fugia do seu corpo.

    Suas histórias já não tinham o mesmo entusiasmo de antes, e as pescarias não faziam parte do seu repertório.

    Um tempo depois, não recebi mais suas cartas. Não demorou muito para que minha mãe recebesse um telefonema, e seus olhos se enchessem de lágrimas.

    Mesmo sendo criança, havia entendido tudo. Restaram as lembranças e a saudade.

    Hoje eu já sou vovô também e me pergunto:

    — Como os meus netos vão lembrar de mim?

  • Por via das dúvidas

    Cândida precisava cortar o cabelo.
    O problema era: quando?
    Lua Crescente, para o cabelo crescer mais rápido.
    Lua Cheia, para ganhar volume.
    Lua Minguante, para cuidar da saúde dos fios.

    Entrou em crise.
    Não podia simplesmente cortar o cabelo. Era preciso escolher a lua certa.

    Foi então que se lembrou de mais uma coisa.
    A tinta.
    Queria mudar a cor.
    Lua Nova.

    Pronto. Agora só faltava descobrir em qual fase da Lua deveria viver.
    Finalmente escolheu o dia e saiu para o salão.

    Abriu a porta de casa e deu de cara com uma escada encostada no poste. Lá em cima, um
    homem mexia na fiação.
    Cândida pulou para o meio-fio.
    Ser atropelada seria menos grave que passar debaixo de uma escada.

    Na pracinha, uma joaninha pousou em sua mão.
    Sorte!

    Continuou seu caminho, feliz da vida, até que uma rajada de vento veio de repente.
    Fez uma careta.
    Ou quase.
    Segurou a expressão no meio.
    Melhor não arriscar ficar daquele jeito para sempre.

    Na esquina, sentiu a orelha esquentar.
    Alguém estava falando dela.
    Só podia ser uma das amigas para quem contara que mudaria o visual.
    Inveja.

    Procurou um banco de madeira debaixo da marquise do ponto de ônibus e bateu três
    vezes.
    Pronto.
    O azar estava avisado.

    Chegou ao salão.
    A porta estava destrancada.

    Entrou?

    Não.
    Tocou a campainha.
    Era importante que a dona do salão abrisse a porta. Só assim garantiria que seria bem-
    vinda na próxima vez.

    Sentou-se na cadeira.

    Antes de começar, fez um pedido à estrela cadente que fotografara na noite anterior.
    Cruzou os dedos das mãos.
    Depois, os dos pés.

    Respirou fundo.
    E entregou suas madeixas aos astros.

    O resultado?
    Está na ilustração.

  • Frango à milanesa

    Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

    Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

    Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

    É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

    “Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

    Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

    Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

    Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
    homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

    Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

    (Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

    Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

    “A a”bracei novamente.
    Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

    ***

    Corda ao contrário no relógio.
    São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

    No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

    “Um açaí fit de…”
    “…500 ml com proteinato!”

    A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

    E isso dói de um jeito bonito.

    Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

    Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

    Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
    (Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

    “Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

    Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
    Sorrisos.

    Alguns exercícios.

    A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
    Queridíssima.
    Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

    Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

    “Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

    Eu sorrio.
    Piscar de olhos.
    E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

    Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

    Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

    Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

    Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

    Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

    Deixei tudo sem escala.

    Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

    E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

    ***

    Os seguranças do shopping sabem meu nome.

    Os responsáveis pela manutenção, idem.

    As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

    Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

    O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

    O celular toca.

    É a Katia.
    “Chegou encomenda, bebê.”

    Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

    Meu rosto é reconhecido.

    Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

    “Bom dia”.
    “Boa tarde”.
    “Boa noite”.

    Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

    E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

    Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

    Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

    Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

    Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

    Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

    Restaram sombras e ausências muito latentes.

    Os olhos marejam.
    Pego novamente a carta.
    Releio.
    A mão esquerda sabe.
    Respiro.

    ***

    Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

    Choveu e fez frio.

    Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

    Trabalhei horas e horas e horas.

    Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

    Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

    Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

    Eu também.

    Fui duas vezes à piscina.

    Duas.

    Em quatro meses.

    Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

    Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

    O celular corporativo tocou.

    Depois tocou de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Foram mais de dez ligações.

    Eu trabalhava de dentro da piscina.

    Ri.

    Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

    ***

    Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

    Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

    A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

    Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

    As pequenas.
    As roubadas.
    As inventadas.

    As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

    Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

    O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

    Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

    Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

    Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

    Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

    Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

    Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

    Uma fruta.
    Uma pizza dividida.
    Lactose sem proteção e sem riscos.
    Uma ferramenta que some.
    Uma risada.
    Um “Bia!”.
    Um “bebê”.
    Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
    Um “boa noite” às oito da manhã.
    Fecho os olhos.

    ***

    Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

    Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

    Por momentos.
    Por pessoas.
    Por lugares.
    Por plantas.
    Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
    Por uma promessa.
    Por presenças.
    Por ausências.
    Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
    Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
    Por quem aprendeu meu nome.
    Por quem me chamou de bebê.

    Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

    Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

    Fui feliz. Sou feliz.

    Há dor dentro disso. Muita.

    Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

    Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

    Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

    E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

    Nos outros.
    Nos lugares.
    Em nós.

    E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

    Pisco.
    Fotografo com o celular, a instax e a retina.

    Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

    Pisco.
    Persisto.
    Me visto.

    É chegada a hora.

    E, de repente, já é domingo.

    Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

    Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

    quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

  • Língua

    Língua breve, toda clara, toda escura,
    Aos poucos caminha, para, continua
    e entre o areal, a bruma, a leve chuva
    a face se mostra, inquieta e muda.

    Língua instante – objeto nada – rara, pouca
    Para, continua, para… tonta e louca
    Ensaia um grito, uma palavra, outra,
    A voz se insinua, miúda e rouca.

    No entanto, nas contradições do descaminho,
    Faz-se a língua na própria língua
    Faz-se o verso em todo o canto.

    O poeta, imagem irreal, o instinto,
    Busca a palavra, suga-lhe o sentido
    Regurgita o poema sob aplausos e espanto.

  • Uma amiga

    Esta semana perdi uma amiga, uma daquelas que não passam despercebidas na multidão e por isso nos mostram aspectos da vida que não enxergamos sozinhos. Escrevo sobre ela para aliviar o luto porque, mesmo sabendo que ao longo da vida todos sofremos perdas, nunca estamos preparados para elas, ainda que anunciadas. Às vezes acho que a vida não passa de um jogo de soma zero: quem nos traz mais alegria é também quem nos traz mais tristeza ao partir.

    Multifacetada, ela influenciou muita gente, cada um de maneira diferente. Impressionante a diversidade das pessoas que se manifestaram. Em comum a sensação de que, embora o mundo parecesse agora mais triste, o que o seu convívio ensinou permaneceria intacto. Deixou um legado profissional importante, foi pioneira em algumas áreas – essa parte eu delego aos biógrafos que saberão contar melhor.

    Minha amiga era tudo menos invisível. Exuberante, generosa, comunicativa, espalhava alegria e, ao mesmo tempo era muito fechada e discreta, sabia falar (em sete idiomas) e calar (em sete idiomas). Nela conviviam todas as contradições. Não cabia em nenhuma categoria. Só nela mesma.

    Amava a família acima de tudo. Um tipo inesquecível, como disse o marido. Já se conheciam vagamente quando se encontraram de verdade. Foi uma paixão fulminante como poucas. Paixão e amor desde os primeiros tempos, quando timidamente foram assumindo a relação, até o final quando, ela já doente, ficavam de mão dadas e ela sorria. Tão marcante na vida quanto na morte.

    Pensarei nela toda vez que ouvir uma piada que lhe agradaria. Algum dia vou tirar os brincos dizendo ‘Vocês já viram como meus brincos são bonitos? Então não preciso mais deles’. Quem sabe até coloque gelo na cerveja, algo que a vi fazer mais de uma vez. Pode ser que fique horrível, não importa. Obrigada, amiga.

  • Ah, o charme

    Acho que não me expliquei direito. Não é que eu seja contra a beleza ou a considere efêmera. Mas só acho que ela não é fundamental. Tudo bem, eu sei que esse meu comentário faria o Vinicius de Moraes sair da tumba para puxar meu pé. Mas a vida tem dessas coisas e não expresso minha opinião levianamente.

    Sim, você não disse que eu faço isso, eu sei. Claro, vou esclarecer meu ponto de vista e se bobear você vai concordar comigo. Vamos lá.

    Considere assim, a pessoa é linda. Mas é bom lembrar que ninguém é lindo para sempre, como se sabe. Porque beleza é um aspecto estético relativamente estático. A movimentação da beleza nas pessoas é pequena. Normalmente ela evolui e se adapta com o passar do tempo, mas muito raramente para melhor. Tem uma cena de Henrique V, de Shakespeare, que o rei inglês diz à princesa Catherine de Valois que ela tem sorte de casar com um homem feio como ele. Porque o tempo, que sempre retira a beleza das pessoas, pouco estrago fará em seu aspecto. É engraçado, se pensar bem.

    Mas enfim, deixa voltar ao raciocínio se não eu me perco. A beleza sofre mutações que são reflexo de aspectos ligados a vivência. Coisas como a quantidade de sol que recebemos ou os aborrecimentos em geral e, em especial as frustrações amorosas, só para citar três exemplos que tendem a alterar a beleza. Tem muito mais e você mesma pode enumerar um quilômetro delas. E é bom lembrar que trata-se de uma tendência não uma garantia porque não estou falando de ciência exata.

    Mas o fato é que esses acontecimentos, que podemos chamar assim, deixam suas marcas em nós, refletindo em nosso aspecto externo, seja em nosso comportamento seja em nossa aparência. Em outras palavras, a beleza que recebemos da mãe-natureza, em coordenação com nossa herança genética, passará por alterações lentas ao longo dos anos. É meio óbvia essa idéia, concorda? Afinal ninguém passa incólume pela vida.

    Mais vinho? É francês, gostou?

    Bom, agora vamos examinar o charme.

    Esse aspecto não vem conosco de berço, como a beleza. Não se herda charme. Trata-se de  algo que você desenvolve, cria, adapta a você e ao meio em que está. É fruto de muita dedicação sua a arte de conhecer as pessoas, percebe-las realmente e entende-las. De buscar na observação e no convívio o que você pode fazer para atrair a atenção delas. Positivamente, lógico. Em essência, o charme é capaz de tornar você mais atraente, mais belo até. E ao contrário da beleza, o tempo só faz melhorar o charme. Sim porque charme é movimento, requer prática diária e se beneficia do conhecimento acumulado. Charme é essencialmente dinâmico.

    Qual conhecimento? Ora, minha querida, o que vem das relações humanas, do querer conhecer melhor outras pessoas em geral e aquelas que são nosso objeto do mais puro e legítimo desejo.

    Sim, isso mesmo, charme é a arma de sedução por excelência. Se bem que chamar de arma é uma palavra absurdamente imprópria. Melhor que arma seria ferramenta? Não, muito pesado. Talvez, deixa ver, habilidade social ou artística ou quem sabe sócio-artística, que tal?

    Gostou né, pois é, charme é habilidade sócio-artistica. Sócio porque está ligado ao convívio social, sem ele não há razão para ser charmoso. E artístico porque é a mais bem-acabada dança de acasalamento que alguém pode fazer.

    Mas claro que derramar charme é exibir-se. Por que não? Isso faz parte do pacote básico que a mãe-natureza nos dotou. Garante desde a perpetuação da espécie até momentos agradáveis e deliciosos. Por vezes, sem exagero, inesquecíveis e que uma vez rememorados sempre nos trazem aquele sorriso saudoso. Ser charmoso ajuda quando a causa é nobre.

    Perceber que há charme no ar é fácil mas precisa estar atento. Porque tem dias que a gente está tão distraído – ou compenetrado ou tão para baixo – que se um elefante fizer um grand jeté na nossa frente é capaz de passar despercebido. Juro, sei como é por experiência própria.

    Mas se você está de olhos bem abertos aí é tranquilo. Se precisasse resumir eu diria que no caso masculino, o charme é a exibição de testosterona do bem, feita na quantidade certa, sem quebrar a cristaleira mas deixando claro que o sujeito está ali pronto e tem muitas coisas interessantes a dizer. Elas normalmente percebem os passos dessa dança com os olhos e com os ouvidos. Bem escolhidas as palavras e o timbre de voz, não há como não prender a atenção dela.

    No caso feminino, o charme é o encantamento diáfano que é atirado ao ar por ela, misturando suas essências e hormônios em um vapor translúcido irresistível. Esse bruxedo é percebido pelo olfato e o olhar. Porque é em silêncio que a mulher é mais charmosa.

    E você me percebeu como?

    Ah minha querida, de todas as maneiras e mais algumas…

  • Embriagada

    Em uma segunda-feira caótica, me deparei com um cenário incomum: estava eu, no balcão de um bar, pedindo uma taça de vinho. Reparei que, ao meu lado, estava um homem. Aparentava ter a minha idade, tinha o rosto ingênuo e bebia um drink.

    O início da conversa foi inevitável. Meu dia tinha sido tão difícil que conversar sobre qualquer banalidade era melhor do que nada. Depois de algumas taças, a conversa não queria ser terminada, e aquele homem, que agora já tomava forma, era estranhamente familiar.

    Eu deveria enxergá-lo como ele era: um homem que não queria ficar. Mas eu só conseguia enxergar a troca de confidências, o estranho conforto em ser entendida e examinada com o zelo de alguém que vê algo pela primeira vez. Trocamos telefones e eu fui embora.

    Os dias passavam, e nossas conversas não acabavam… não havia qualquer barreira, já éramos íntimos. Ele me chamou pra sair, e aquele (re)encontro foi a confirmação de que éramos duas diferenças que agora pareciam uma só coisa. Várias taças de vinho foram tomadas enquanto eu apreciava tudo o que sentia.

    Estava claro que havia algo ali, junto com todo o meu saber do que ele era — e do que se permitia ser. O caminho da saída era o mais conhecido e prudente, mas esperei. Pedi outra taça. E outra. E mais uma.

    Meu medo crescia, mas tudo o que eu queria fazer era pedir outra taça. Eu olhava para ele e queria continuar olhando. Eu sentia aquilo tudo que antecede o maior sentimento do mundo.

    Por isso, mergulhei no mundo dele enquanto ele mergulhava no meu, sem saber ao certo o que aquilo seria, mas era inegável que já era algo grandioso só por existir.

    Ele era a definição da embriaguez.

  • Sorôco, sua Mãe, sua Filha

    Nossa responsabilidade social e familiar, se mostra exigente sempre que respiramos, porque muitos aguardam a presença amorosa e atenciosa, junto a seus lamentos e fraquezas mundanas. Esse pensamento tão próprio de um significado profundo de amor a vida, é também voltado àquele que amamos, e que está bem ao nosso lado, e se enche de força e afeto quando o abraço afaga sua alma carente.

    Foi esse o espírito que motivou o comandante Górgidas, em 379 a.C., ao selecionar 150 casais homossexuais masculinos, para criar o batalhão sagrado de elite do exército de tebas. Essa ideia de unir forças, surgiu da percepção do quanto os homens poderiam lutar bem mais, estando ao lado de quem amam, o qual protegerá com todas suas forças, superando qualquer inimigo, que conta somente com uma espada pra andar de mãos dadas. Segundo o filósofo grego Plutarco, no livro A Vida de Pelópidas, “um grupo cimentado pela amizade baseada no amor, é inquebrável e invencível, já que os amantes, envergonhados de serem fracos à vista de seus amados, e os amados diante de seus amantes, de bom grado se arriscam para o alívio um do outro”. É o exercício do amor. A homenagem eterna a esses guerreiros está no antigo Tumulus junto ao monumento do Leão de Queroneia, onde os ossos de todos eles, mortos em batalha, estão enterrados lado a lado.

    Guimarães Rosa abordou no conto “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”, a questão existencial e social da compaixão, e do papel central de cuidador de seus dependentes doentes mentais. Como não possuímos a eternidade em vida, o exercício do amor e da empatia é o que melhor deixaremos como brilho de nossa existência. Conforme o curso da doença os pacientes não voltarão ao seio familiar, nunca mais, e nesse triste caminho, resta a lembrança do que pode ser realizado até o abandono do abraço.

    Nosso avatar ou clone não estão disponíveis ainda, ao menos nesse plano espiritual que navegamos, mas se você tiver a chance de ultrapassar para outras possibilidades de vidas, não pense que o amor será carta fora daquele novo baralho, provavelmente você terá que desenvolver sua emoção virtual ou plástica, mas não fugirá de praticar o exercício do toque e do abraço humano.

    A fuga das relações entre os indivíduos, leva você a um mal estar em relação a vida. Sua ausência de objetivos e motivações, o tornam irracional, e você passa ser conturbado por diferentes forças que invadem sua face, e se vê imerso em uma triste guerra interna. Não se deixe levar pela falta de sentido nas trocas interpessoais, ou correrá o risco de sentir uma “Náusea” ao caminhar, como escreveu Jean Paul Sartre no romance que leva esse nome. Em forma de um diário do personagem Antoine Roquetin, relatou uma vida com total falta de sentido. Muitas artes sempre seguem a um fim, a medicina tem como finalidade a saúde, o direito objetiva a justiça, e o livro existe pra ensinar. E Você, já encontrou a sua finalidade nesse universo de pequenos atos de empatia?

  • Seu Gentil e sua necessária esperança

    Seu Gentil é um sujeito deveras singular. Desses que a gente admira e, ao mesmo tempo, desaprova. Persistente para alguns; teimoso para outros. Positivo para uns; lunático para tantos. Mas, para todos aqueles que o conhecem razoavelmente bem, uma figura que não passa despercebidamente.

    Dentre as suas características mais peculiares, o seu redentor otimismo é a que mais incomoda. Chamo sua positividade de “redentora”, pois ela transmite algo verdadeiramente libertador. Não é aquele simples otimismo do torcedor de futebol que acredita na reação de seu time até o apito final. Não é a paixão totalmente desprovida da razão. É algo muito mais profundo e que retrata sua essência como ser humano. E essa característica é, de fato, incômoda porque nem todo mundo parece estar em condições de tê-la. Não raro, semeamos inveja e desprezo somente por nossas incapacidades pessoais.

    O otimismo de seu Gentil tampouco tem a ver com aquela famigerada Síndrome de Poliana. Você se lembra dela? Aquela menina da literatura infantojuvenil que queria ganhar uma boneca, mas recebeu apenas um par de muletas. Em vez de ficar chateada com o presente recebido, sentiu-se feliz justamente por não precisar dele. Pois é… Eu não vejo em nosso simpático amigo essa desoladora e irritante ingenuidade. O que mais me chama a atenção nele é, sobretudo, sua genuína esperança na humanidade.

    A gente abre os jornais e só lê notícias desanimadoras. Aliás, hoje em dia, não se abre mais nenhum jornal. Salvo alguns dinossauros analógicos, abrimos, no máximo, o site de algum portal de notícias. Mas as informações são quase sempre aterradoras: guerra não sei onde, roubo de não sei o quê, tragédia com não sei quem. É inundação; é queimada; é avalanche; é acidente aéreo, mas também rodoviário; é trapaça aqui e acolá. Eu me pergunto: de que material nosso otimismo deve ser feito para aguentar tantas pancadas?

    — O senhor ainda acredita que um dia teremos um mundo mais justo para todos? — pergunto, despretensiosamente, àquele que viu e viveu de tudo um pouco.

    — Mas é claro que sim, meu filho! É preciso acreditar e seguir lutando pelos nossos ideais! — responde-me quem costuma dar lições de vida gratuitas, mesmo não tendo a pretensão de ensinar ninguém.

    Como um grafeno, seu Gentil resiste a toda a sorte de golpes. Dos mais baixos aos mais debilitantes, dos mais inofensivos aos mais violentos. Se a estrutura atômica do grafeno lembra um favo de mel, a personalidade de seu Gentil lembra tanto a doçura de uma criança como o equilíbrio de um mestre ancião. Porém, diferentemente do mais duro dos materiais, sua natureza não conduz eletricidade, mas sim esperança. Uma saudável e necessária esperança.

    Em tempos de tantos dissabores, quando até o mais utópico dos idealistas pode hesitar em suas mais profundas convicções, pessoas como seu Gentil costumam destacar-se pelo seu inquebrantável estado de espírito. Como uma espécie de farol, elas nos orientam em nossas distintas trajetórias e sinalizam os perigos vindouros. De alguma forma, aprendi que um dos piores riscos com os quais podemos nos deparar é a falta de esperança. Uma cilada como essa pode muito bem nos enredar mortalmente e borrar nossa aptidão para um bom discernimento.

    Se existe um antídoto contra essa armadilha, seu Gentil nunca me falou. Mas o que sua vida demonstra é quão libertadora pode ser a resistência. Cada um a sua maneira, na alucinante engrenagem da vida, lutando por algo maior e acreditando em dias melhores. Aparentemente tão simples quanto realmente complexo. Pois talvez seja esse o ingrediente que confere um verdadeiro e nobilitante sentido as nossas vidas.

  • Uma canção no fim da tarde

    Sou dos que ouvem mil vezes a mesma música. E quando engato uma reflexão, impressão ou divagação boba, ouço-a ainda mais para seguir conduzido pela melodia, pelo ritmo, pela letra ou por qualquer outra coisa que mantenha essa sintonia aberta, como se a própria logicidade dos meus pensamentos dependesse única e exclusivamente dela. Fruição estética, transe ou loucura, o nome não importa. A música, sim.

    Há nem trinta anos, eu sabia de cor a programação completa da Rádio Atlântida. De domingo a domingo, todos os horários, programas, apresentadores, intervalos e até os jingles das propagandas. Estou certo de que centenas, talvez milhares, de outros adolescentes também sabiam. Naquela época, além de acompanhar a rádio, a gente comprava CDs, copiava CDs, emprestava CDs e decorava as músicas tão fortemente que eu poderia recitar muitas delas com detalhes agora, lembrando inclusive das versões cortadas para o rádio, das versões ampliadas para os shows e das acústicas.

    Sendo sincero, a gente não tinha muito como firmar nem garantir aquela experiência. Hoje, falar em experiência ao ouvir uma música parece nostalgia besta. Mas é o que tínhamos. Se gostássemos de alguma canção, ou comprávamos o CD, ou conseguíamos uma cópia e a regravávamos, ou ouvíamos no rádio, vez ou outra, contando com a sorte de encontrá-la na programação.

    De fato, era um negócio intenso. A música pulsava, arrepiava e surpreendia. Lembro exatamente da primeira vez que ouvi Bitter Sweet Symphony, do The Verve. Foi na formatura do meu primo, num agosto gelado do fim do século. Eu estava a poucos metros das caixas de som quando aquela música apareceu, inundou o salão e fisgou sem dó os meus sentidos todos por quatro ou cinco minutos. Por acaso ou não, é a minha única lembrança da festa. Só descobri o nome da música e da própria banda meses depois, quando já havia desistido de procurá-la.

    Tenho a impressão de que não conseguir as coisas tão facilmente era algo extraordinário. Impressão tardia, claro, é sempre assim. Acho que fomos enganados com aquele papo de que a tecnologia facilitaria a vida, de que a internet, por meio das infinitas conexões e blábláblá, nos daria mais tempo para ficar com a família e fazer o que gostamos. Na real, o que ocorre é o contrário. Somos escravos dos celulares até nos momentos mais pujantes. Veja: há inúmeros shows das nossas bandas preferidas no YouTube, com captação perfeita de som e vídeo, num trabalho profissional para ninguém botar defeito. Mas quando vamos a qualquer show, grande parte das pessoas filma tudo, no meio do público, mesmo suadas, espremidas e de braços erguidos. Com o desodorante em dia, espero. No geral, elas sabem que estão perdendo tempo ao registrar uma quase experiência. Sabem também que o vídeo ficará trêmulo, com o som estourado, e que o arquivo mofará em alguma pasta esquecida nos seus computadores. Mesmo assim, não deixam de gravar. Numa situação dessas, só consigo pensar que a pessoa estava, mas não estava lá. Aliás, ao gravar produziu provas de que estava; mas, de fato, não estava, entende? Confuso esse negócio de estar e não estar, né?

    Ou não. Na verdade, todo mundo sabe o que é estar e não estar em algum lugar. Lembra daquelas aulas de química que você ficava contando os minutos para acabar? Pois é. Eu mesmo era mestre nisso. Meio avoado, meio perdido, reprovei com méritos duas vezes no segundo ano do Ensino Médio. Veja só. Mas a questão não é exatamente sobre a minha gloriosa trajetória acadêmica. O problema é que a nossa vida virou um completo estar e não estar. E isso não se relaciona com a disposição para uma reflexão ou outra.

    Acho que parte das pessoas perdeu a capacidade de viver a vida, de ter experiências das mais diversas, de se distrair, de curtir uma música, de se encantar com uma paisagem, com uma pintura ou com uma fotografia. Até num ambiente preparado para uma experiência imersiva, como o cinema, há quem fique no celular. No fim das contas, a gente parece sempre atento a outra coisa, como se nossa vida dependesse de uma resposta rápida, mesmo sabendo que nada daquilo é urgente e que, do outro lado, há alguém que pouco se importa com as nossas questões. Pois é, a tecnologia acelerou as coisas, conectou as pessoas, mas também pasteurizou a realidade. Talvez o ponto seja justamente a realidade.

    Talvez a gente sinta falta de conexão real, de vida real, de coisas analógicas e palpáveis. Talvez essa nostalgia morna só ateste que estamos demorando a perceber que tudo o que temos está aqui e agora. E que quando a noite finalmente cair, quando soarem os últimos acordes, já não haverá mais tempo. E aí? Bebéu, já era, tchau, acabou…

  • Nossa Senhora!

    Take second best / Put me to the test / Things on your chest / You need to confess / I will deliver / You know. I’m a forgiver – “Personal Jesus”, Depeche Mode (versão de Johnny Cash)

    Releio crônicas do autor Ivan Ângelo. Percebo o cronista da primeira metade do século, cuja prosa parece sair de uma conversa natural e observativa sobre os hábitos peculiares do brasileiro. O primeiro texto da coletânea da Global Editora é sobre a controvérsia dentre os moradores de um prédio acerca da vizinha nova, que teria sido capa de uma revista voltada ao público adulto. Apesar de ser uma mulher discreta e gentil, as pessoas entram em frenesi em nome da moral e dos costumes. Não é uma característica estritamente brasileira, mas a cruzada conservadora resiste firme nessas terras no século XXI. Outra reflexão minha é que os autores de sua época precisavam ver o mundo lá fora para buscar seus temas. Isso mudou bastante. Agora, basta um pequeno gesto de dedo na tela de um aparelho para encontrar o assunto que está na boca do povo. Daí, apareceu para mim outra mulher que, ao contrário da suspeita desinibida, é uma santa. Literalmente. A mulher que todos comentam e que exigem uma atitude a respeito da vez é Nossa Senhora Aparecida.

    Escolhida como padroeira do Brasil, ela pode ter repensado se isso foi uma boa ideia. Nos últimos dias, as redes sociais se dividiram entre sua defesa como um símbolo de esperança e sua condenação como uma emissária das trevas. A fábrica da internet, como num sonho febril fordista, produziu conteúdo com velocidade quase impossível de acompanhar. Ainda assim, alguém deve ter consumido o suficiente a ponto de protocolar perante um tribunal (real, não virtual) sua proibição e conseguir. Como o show não pode acabar, pouco antes de me sentar para escrever esse texto, num domingo, essa decisão havia sido revertida por outro juiz. Sabe o vídeo do Porchat (não o de denúncias, o outro em que ele interpreta um jornalista exausto de tantas novidades)? Até esse texto ir ao ar, que é numa terça-feira, estou tão convicto de que haverá mais desenvolvimentos que dispensei o powerpoint (piada antiga, mas ainda válida). Diante de tanto estímulo de informações, resta-me uma interjeição de espanto ou admiração popular entre os brasileiros: “Nossa Senhora!…”

    Se dizem que Deus é brasileiro, concordo que uma atribuição similar pode ser posta para Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ou “Aparecida” para os íntimos. Sua associação com o povo brasileiro remete ao começo do século XVIII e mantém-se em voga desde então. Da fé e dos milagres aos chutes e xingamentos, a santa, fazendo jus ao nome, aparece com frequência quando pensamos em uma figura sacra, seguida por outros favoritos, como São Jorge ou Santo Expedito. Além do catolicismo, sua imagem representa um orixá, Oxum, que, como em sua forma original, define fertilidade e acolhimento. Também há uma canção muito conhecida dedicada a ela, e se você cresceu nos anos 90, como eu, com certeza já a ouviu num especial de natal televisivo. E atua com um nome diferente, porém similar, Compadecida, numa peça adaptada inúmeras vezes para palco, televisão e cinema, todas com sucesso. Aparecida é a padroeira do Brasil, e os brasileiros fazem questão de lembrar disso, seja numa maneira boa ou ruim. Se o papa é pop, assim é a Virgem Maria. Ela está entranhada na cerne da identidade brasileira. Logo, qualquer proposta de extirpá-la ou diminuí-la causaria um ruído alto e inevitável.

    ]O barulho foi tamanho que trouxe do oceano da memória uma entidade adormecida. No caso, a aliança entre membros da sociedade civil e religiosa num campo progressista. Chega a ser engraçado ter ateus e católicos num diálogo em comum para o respeito das diferenças e crenças, enquanto outro lado determina a imposição de sua perspectiva. Setores de um lado com histórico conservador defendendo liberdade democrática e soberania do país. Acho que isso não ocorria com tamanho peso político desde os anos 70. O outro agindo com a disposição retrógrada que foi o fator original que provocou a ruptura dentro do cristianismo, como a intolerância ao convívio entre linhas de pensamento diferentes à defesa aos jogos de azar (afinal, a venda de indulgências na Idade Média não seria uma espécie de aposta?). Seria o mistério da fé? O Brasil não é para amadores, mas especialistas em Teoria do Caos. Os criadores de memes não podem reclamar. Por isso, Nossa Senhora Aparecida assumiu a função de Padroeira da nação. Na maioria das vezes, é preciso uma mãe para pôr ordem na casa.

    NOTA: Circula nas redes sociais a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação é falsa. A confusão pode estar relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que propunha alterar a denominação de Nossa Senhora Aparecida. O projeto foi arquivado em 2008. A campanha de Flávio atribui a disseminação do boato a adversários políticos, mas essa afirmação deve ser tratada como alegação da própria campanha, não como fato comprovado. Até o momento, não há evidência de que essa mudança faça parte do programa de governo do candidato.

  • O cupins

    Não existe cupim no singular, ou não deveria existir. Como o lápis, o vírus, o correto seria o cupins. Quem discorda deve provar que já viu algum dia um cupim sozinho. Não existe cupim sozinho, ao contrário, eles vivem às dezenas, centenas, milhares. Formam um exército – ou por outra, o cupim é esse exército – monolítico, uno, poderosíssimo e destrutivo como o de Átila, o rei dos também hunos, que por onde passava não deixava cupim, ou melhor, não deixava capim. Cupim não sei se ele deixava.

    Num episódio, a Pantera Cor-de-Rosa luta com um cupim. Um só. Primeiro ele rói os pés de uma cadeira,de uma mesa, um abajur, o teto, o piso. Por fim, ele destrói a casa toda. Um só! Isso no desenho, na realidade, pra roer uma casa inteira eles precisam desse exército, tipo um por todos, todos somos um. E conseguem, mesmo não sendo desenho, mas sendo esse inseto desgraçado, morfético e virulento.

    Em francês chama-se termite; em inglês, termita. Alnaml, em árabe, uipoka, em bengalês, bályi, em chinês; shiroar, em japonês. Quer dizer, tem, como se era de desesperar, cupim no mundo inteiro. E encontramos, pois pesquisamos, akhala, em aramaico! O que nos permite supor que tem cupim até no Paraíso Celeste, onde mora Deus, uma vez que aramaico é a sua, de Deus, língua.

    Tem mais cupim no mundo que gente na China e na Índia juntos – e que estrelas no céu, e que gelo no polo norte, e que puxa-saco em Brasília. Puxa-sacos, não cupins – tantos são os caras-de-pau na cidade que é improvável que cupim lá se crie. Ah, cupincha sim, esse é um outro gentílico.

    E não engordam – os cupins, não os cupinchas. Ao mesmo tempo que roem, desroem. O que você pensa que é pó de madeira, não é, é cocô, cocô de cupim. Um cientista esperto estudaria essa peculiaridade pra tirar dela a fórmula definitiva pra emagrecer pessoas, sem precisar de ozempic.

    Decididamente os cupins, como as baratas, herdarão a Terra. Os métodos de dedetização são falíveis e caros: cobram-se $2 mil paus pra descupinizar um cômodo de 3 m²! Então a gente aprende que são vários os tipos de cupim: o de madeira, o de solo e o de bolso.

    Uma coisa aliada à outra – a voracidade, o pantagruelismo dessa praga e o preço escorchante da dedetização -, os cupins liquidarão o planeta antes mesmo que o homem. Ou seja, o cupim é um tipo de capitalista selvagem, assim como vice-versa.

     São silenciosos, são traiçoeiros – os cupins e os capitalistas – como nicotina no pulmão, álcool no fígado, conspiradores no Planalto. Agem pelas costas – quando se menos espera, o exército, o de cupins, nhóc!, já comeu sua casa.

    E sua casa é seu lar, seu patrimônio, e não um desenho animado. Portanto, cuidado com o cupins, cuidado com o termita, cuidado com o uipoka, etc.

    Cuidado especialmente com o akhala – esse, nem Deus ele respeita.

  • Cinderela

    — O que você achou?

    — Lindo! Nunca tinha visto igual.

    — Sério?

    — Sério!

    — Por quê?

    — Não sei… A transparência, talvez.

    — Você nunca teve um assim?!

    — Claro que não! Eles são raros.

    — Raros…

    — Raros!

    — Sei que existem diferentes, mas não pensei que fossem raros.

    — Pois são.

    — Você só gostou da transparência?

    — Não. Tem esse brilho intenso, ofuscante… Raro.

    — Ah! O brilho também é raro?

    — É. Muito!

    — Começo a achar que são os seus olhos…

    — É maravilhoso!

    — De verdade?

    — De verdade.

    — É seu. É para você.

    — Nossa!

    — Ficou emocionada?

    — Surpresa.

    — Não entendi por quê.

    — É muito… Muito…

    — Não! É perfeito. Sob medida.

    — Você acha?

    — Só existe por você… É seu.

    — Mas… é tão lindo!

    — Tanto quanto você.

    — Eu não mereço.

    — E precisa?

    — Não?!

    — Ele só existe, só é valioso, só é transparente, porque é seu.

    — Aiiii…

    — Porque você é o encaixe perfeito.

    — Meu coração…

    — Posso colocar?

    — Pode.

    — Vamos?

    — Aonde?

    — Ao baile.

    — Que baile? Tá maluco?

    — Você não está ouvindo?

    — Ouvindo o quê?

    — A carruagem! Olha!

    — Você é maluco!

    — Seja também!

    — Onde vai ser o baile?

    — Onde quisermos. Onde estivermos.

    — O que vestirei?

    — Vestiremos o amor e estaremos livres.

    — Livres.

    — Sim. Vestidos do amor mais perfeito e valioso, que só nós podemos ver.

    — Livres e descalços.

    — Sob chuva ou sol.

    — Sem proteção.

    — Meu amor te protege e o seu me orienta.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Sem sapatinhos de cristal.

  • Quando o algoritmo falha

    Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa.  

    E se bastasse uma?

    Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta:

    — Você é mais gato ou cachorro?

    A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter.

    Achei curioso.

    Porque, no fundo, ninguém ali falou de bicho nenhum.

    Os “cachorros” eram fáceis de reconhecer. Chegam perto. Encostam. Confiam antes mesmo de saber. São de riso aberto, de presença inteira, de lealdade quase automática — dessas que às vezes atropelam o próprio bom senso.

    Os “gatos” não. Esses medem a distância. Observam antes de se oferecer. Têm um certo gosto pelo silêncio, pela independência, pelo território próprio. Aproximam-se quando querem — e isso, curiosamente, faz com que a aproximação valha mais.

    Não precisou de teste, nem de algoritmo, nem de análise profunda. Bastava a pergunta.

    Simples assim.

    Ou quase.

    Porque, no meio da mesa, alguém — talvez mais honesto que o resto — disse:

    — Eu acho que sou os dois.

    E aí complicou.

    Fiquei lembrando de CatDog, aquele desenho antigo: um corpo só, duas naturezas incompatíveis tentando coexistir. Um puxando pra um lado, o outro pro oposto. Um querendo festa, o outro querendo silêncio.

    Talvez seja isso.

    No fim das contas, a gente não escolhe entre gato e cachorro.

    A gente negocia.

    Todos os dias.

    Entre o impulso de chegar abanando a vida e a vontade de desaparecer sem darexplicação.

  • Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercílio — “com E mesmo”.

    Segunda, terça e quarta, por serem os dias menos movimentados do restaurante, Ananina fechava as portas do térreo e subia a escada caracol dos fundos, religiosamente, às 17h45 da tarde. Às 17h50 já tinha percorrido o corredor de longos metros lineares, sem elevador e cuja escada de emergência situava-se na outra extremidade, subido três lances para então aguardar, com mais três pessoas, a abertura da porta do 408.

    Hoje, terça-feira dentro do corrido e chuvoso mês de setembro, Ananina esperava a sua leitura do tarô. Hora marcada, mas entrada por ordem de chegada. Era a primeira da fila. Seu Ercílio apareceu no corredor. “Olá, Ana-Aninha; Olá, Olaviano. Olá para você também, mocinha, bem-vinda. Sou o Ercílio. Entrem”. “Ercílio se escreve com H ou E, senhor?”, perguntou a novata na arte de aguardar as leituras de início da semana.

    Seu Ercílio, “com E mesmo, moça”, trazia sua bandeja de prata costumeira, com chá de hibisco, café, três copos descartáveis de baixa estatura e uma cestinha com pães de nata. “Nata, porque um T é melhor do que um D e as leituras anunciam tudo, basta que nos concentremos no aqui e no agora. Coma um pãozinho, se assente aqui.”

    Os três entraram na saleta improvisada, que funcionava como um terminal rodoviário em escala mínima. Pelas duas seteiras, estreitas como estrias verticais arreganhadas na parede, via-se o amontoado de pombos no meio da praça, em frente à igrejinha. Havia cheiro de cigarro no ar – ou cachimbo. Um ruído constante saía do radinho à pilha: pareciam os alardes de um alto-falante anunciando as próximas saídas de veículos-viajeiros, com a mesma solenidadede quem canta os números de um bingo. Ananina foi chamada com o olhar de seu Ercílio. Levantou-se da cadeira estofada com palha e deu cerca de dez passos à frente. Afastou a cortina vermelha de veludo, logo à direita. A luz era arroxeada.

    De costas, a mulher de seu Ercílio parecia um duende de Papai Noel que ficara roxo de raiva. “Pode sentar.” Ananina obedeceu e sentou-se. A mulher não; continuou de costas por alguns segundos, remexendo qualquer coisa numa prateleira. Ananina aproveitou para olhar a sala. Havia uma imagem de Nossa Senhora, um elefante de louça com a tromba para cima, uma samambaia que já aceitara a morte sem comunicá-la oficialmente à família. Abaixo deste ente moribundo, sete cristais de procedência duvidosa.

    Sobre a mesa, um pano preto salpicado de luas douradas — “ou restos do almoço, o que também seria uma espécie de constelação”, pensou Ananina. Ia continuar olhando, porque às vezes olhar é só uma forma educada de não saber o que fazer, quando o escuro diante dela se moveu. A mulher se virou. Por um instante mínimo, a luz negra voltou a caber na sala. Não
    era um duende.

    Era pior: era uma pessoa comum.

    “Corta com a mão esquerda.” Ananina cortou. “Agora com a mão direita… não… tenta a sua outra mão esquerda, então…” Ananina sempre tinha suas dúvidas sobre qual mão era uma direção ou outra. Precisava fingir que escrevia algo no ar para ter certeza da mão esquerda, era canhota.
    “Agora pensa.” Pensou.

    “Não precisa pensar tanto.” Ananina piscou, mudando o olhar do baralho para os olhos de Helena.

    A mulher virou uma carta. Depois outra. Depois uma terceira, que olhou por tempo suficiente para que Ananina começasse a desconfiar que talvez tivesse saído ali alguma coisa envolvendo morte, casamento ou imposto atrasado. “Tem distância.” Ananina olhou para a carta.
    “Distância?”
    “Tem.

    Helena virou mais uma.
    “E notícia.”
    Outra.
    “E uma pessoa.”
    Ananina quase perguntou se a pessoa tinha CPF, porque ajudaria bastante. Quase; não perguntou.
    A mulher continuou:
    “É alguém que permanece. Mas não está exatamente perto.”

    Era curioso como o tarô tinha adquirido, em menos de trinta segundos, a precisão geográfica de um aplicativo de mapas com sinal ruim. Ananina olhou para as cartas abertas. Distância tem nove letras e um chapéu, que pode ser de despedida, velório ou em prol da moda. Distância não parece, com toda a sua pompa, circunstância e tamanho encorpado, mas é pobre.

    Pobre de espírito.
    “Pobre de quem dela depende. !”,
    pensou. E no fluxo da reflexão, complementou:
    “Não sei se prefiro estar à distância de um vídeo ou à distância de uma carta.”
    Helena-duende-de-raiva ergueu os olhos.
    Ananina percebeu que tinha dito em voz alta.
    “Como?”
    “Nada.”
    Mas não era nada.

    A carta, ao menos, não tem olhos. Não olha de volta e pode-se tocá-la sem que esta recue. Dobrá-la. Guardá-la entre páginas. Levá-la para a cama sem pedir licença. Esquecê-la numa gaveta por seis anos e reencontrá-la numa terça- feira entre um carnê da loja de sapatos vencido e uma fotografia que pára o próprio tempo. Pode- se cheirá-la. Cartas têm cheiro. Até quando não têm, têm. Há nelas a certeza de uma mão ter estado ali antes da nossa. Uma mão real. Com unha, veias, pele, talvez suor. Uma mão que escreveu, gozou, limpou-se de forma higiênica – ou não – e depois fechou o envelope. Talvez com saliva. A carta sabe ir embora.

    Já o vídeo, não.
    O vídeo fica: Há boca. Há olhos. Há a possibilidade da transmissão ao vivo, com lapsos de segundo que balançam em função de quantos "Gs" temos à disposição. Vídeos meandram entre aquela pequena inclinação da cabeça quando alguém escuta, os dentes, o cabelo fora do lugar. Há uma pessoa inteira acontecendo a cinquenta centímetros do rosto e a quinhentos, cinco mil ou dez mil quilômetros do corpo. Isso deveria ser proibido.

    Ou tributado.
    Ananina imaginou uma repartição pública responsável por distâncias afetivas.

    “Boa tarde. Vim renovar minha saudade.”
    “Trouxe comprovante de residência?”
    “Não. Só a roupa do corpo… e o celular, serve?”
    “Bom… então a senhora vai precisar sofrer mais trinta dias e retornar com original e cópia.”

    O vídeo era isso: pura burocracia do desejo.
    Mostrava tudo o que faltava: a testa em que se queria encostar a própria testa; a boca que se queria beijar; o ombro onde caberia perfeitamente uma cabeça… Uma pessoa inteira comprimida numa tela pequena demais para abraçar alguém. A carta era mais feliz porque mentia melhor. A imagem saltitante era cruel porque provava que existia aquilo que faltava.
    Helena virou outra carta.

    “Tem espera.”
    Ananina riu. Riu não porque fosse engraçado, também não porque não fosse. “Quanto tempo?”
    A mulher juntou os lábios. Esse era, concluiu Ananina, o momento exato em que todos os oráculos do mundo se tornavam funcionários públicos:

    “Tempo é difícil de precisar.”
    Claro.
    A esperança, ao contrário, era pontual.
    Chegava cedo.
    Sentava na primeira cadeira.
    Comia dois pães de nata de uma só bocada.
    E, sentada na saleta, cheia de farelos de glúten, aguardava a sua vez.

  • Quando usou a inteligência artificial

    Tudo começou com uma consulta simples. Pediu uma informação banal! Um nome.

    Depois, uma pesquisa sobre um país, sua bandeira, seus habitantes…

    E assim foram outras pesquisas: comida, roupas, música…

    Pedia informações sobre quase tudo. Não tinha mais o trabalho de pensar! Pensar? Dá muito trabalho! Pra que pensar?

    E assim pedia, para todas as atividades do seu dia, uma ideia, uma orientação, uma resposta!

    Vai chover hoje? Que roupa combina com esse evento assim?

    Quem eu sou? O que eu sou? Humano? Coisa?

    Até que, numa manhã qualquer, não sabia mais o próprio nome,

    Não sabia do que gostava e do que não gostava. Não tinha qualquer pensamento sobre si mesmo!

    Olhou para aquele rosto no espelho e não reconheceu traço algum do que via. Afinal, o que era?

  • “Coisa teimosa”

    O falo é uma coisa teimosa! Esse valente que desaba de um desfiladeiro de significados, exigindo da sua plateia coro, palmas e repetição. Com um sorriso maroto no canto de lábios cascudos, como um menino perverso que tem pavor da castração, arranca o véu na sua cena infantil.

    O falo é uma coisa teimosa! Na sua lógica de ter ou não ter, expõe a sua fragilidade. Na demanda desenfreada de amor, exibe envergonhado, o excesso de desamparo. Com pavor do desconhecido, assume um compromisso com seus sintomas, mesmo pagando um preço caro.

    Capturado pelo sucesso, desconhece as entrelinhas pelas quais é encurralado no seu fiasco. Teimoso, repete mais uma vez. Prefere o embaraço a fazer o novo. Faz de novo. Será que é o tal do prazer masoquista ou do fulano sádico que extrai do gatilho um gozo? Um não vive sem o outro.

    “Cara ou coroa”? Vacilantes, somos presas fáceis. Incertos, como os dois lados da mesma moeda. Indefesos, fantasiamos um falo destemido para chamar de seu, carregado de condecorações: força, coragem, bravura, poder.

    Coisa teimosa! Não falha nem fracassa. Não escapa nem derrapa. Àquele que na fantasia, lhe protegerá contra todo o mal. Iludidos, pegamos o barco. Em mar aberto, navegamos na tempestade, perseguimos os engodos, e somos enfim fisgados,
    entorpecidos pelo canto da sereia.

    O falo é uma coisa teimosa! Ele é garboso. Sopra aos ventos. Cochicha ao pé do ouvido um sonho de consumo — Podemos ser completos! Sussurra tão perto, que sentimos seu bafo quente e fétido, de quem atiça o fogo.

    São 10:20 h, logo cruzarei a Ponte Rio- Niterói. O marcador de combustível no painel do carro indica que estou na reserva. Avisto ao longe um imenso boneco biruta inflável se movimentando com o vento gerado por um motor. Ufa!!! Expiro aliviado. Ali tem
    um posto, onde encherei meu tanque quase vazio.

    E lá estava o menino maroto saindo de fininho do lado do boneco titânico do posto. Seu sorriso de canto de boca, não deixou dúvidas. Com um simples furinho de agulha, tombou murcho no asfalto o gigante.

    Aliviado, agora com o tanque cheio, chego ao Rio pontualmente ao encontro marcado pelo iLoveyou.

    Oxalá hoje eu não fracasse no meu destino de povoar o mundo.

  • HAPPY END

    Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

    No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

    E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

    As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

    Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

    E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

    O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

    Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

    Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

    Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

    Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

    E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.

  • Livros

    — A senhora gosta de ler?

    — Muito. Leio desde menina.

    — Que bom!

    Alonguei o olhar, curiosa para descobrir o que ela lia.

    Talvez pela aparência de vovó das antigas, meus pensamentos fizeram o caminho mais curto: imaginei uma Bíblia. De capa dura, páginas de papel quase transparentes, letras miudinhas, paginação discreta. Um livro que claramente , eu entendi de formato impróprio para olhos já cansados.

    Enganei-me.

    Era um livro. E não desses atuais, modernos. Nada de letras grandes, espaços largos entre as linhas ou papel fosco para facilitar a leitura.

    Eu estava ao seu lado.

    Olhei melhor.

    Capa dura. Papel delicado. Tipografia caprichada. Letras pequenas, alinhadas, iguais às dos livros que eu conhecera na juventude.

    Viajei.

    Por um instante, voltei àqueles livros feitos para permanecer  por anos, tanto na estante, como nas mãos . Livros que traziam o prazer da leitura, bem como o de sentir o peso nas mãos e o ruído das páginas ao gesto de folheá-las. Aquele prazer quase esquecido de interromper a leitura depois de uma frase, manter o livro aberto sobre o colo e olhar sem ver, apenas deixando as palavras encontrarem lugar dentro da gente.

    Tive saudade.

    Não do tempo.

    Do livro.

    — Parece interessante, comentei.

    Ela levantou os olhos.

    — É muito bom.

    Disse alguma coisa sobre a história, mostrou-me a capa e recomendou a leitura.

    Anotei mentalmente o título.

    Antes que a conversa terminasse, ela acrescentou, com a maior naturalidade:

    — Tem no Kindle. Você pode baixar.

    Sorri.

    Aquela senhora não estava presa ao passado. Sabia que podia levar centenas de livros numa tela, escolher uma leitura em poucos segundos e carregá-la sem peso algum. Mas, naquele momento, preferira o volume de capa dura, o papel delicado, as letras pequenas sob os olhos.

    Não era uma escolha entre o antigo e o novo.

    Era a liberdade de ter os dois.

    E havia modernidade isso.

    Não abandonar o que veio antes, nem obedecer ao que acabou de chegar.

    É poder escolher, a cada vez, o que se quer levar nas mãos.

  • O nome dele é Cookie

    O nome dele é Cookie. Abri a porta e ele entrou puxando uma das minhas filhas. É um cachorro vira-lata. Mas com todas as vacinas, banho tomado e bem cheiroso, assim me asseguraram. Pus meu nariz longe do seu pêlo curto sem qualquer vontade de tirar a prova se ele é mesmo esse modelo de asseio.

    Sou alérgico a pelo de cachorro, gato, cavalo, anta, leão, vaca e por aí afora. Meu nariz entope, tusso como se fosse cuspir os pulmões, o ar me foge e meus olhos lacrimejam. Em resumo, fico de um jeito em que deplorável é elogio.

    Por isso a visão dele entrando pela sala cheirando tudo a torto e a direito me irritou.

    De personalidade, meu temperamento vai mais com o gato. Silencioso e tranquilo, apesar do pêlo. A movimentação frenética dos cães somado ao latido deles definitivamente não me agradam. Sem espaço para correr livres eles precisam dos donos para atender suas necessidades diárias de exercícios. Algumas raças, não sei dizer quais e nem sem os sem-raça estão incluídos, tem uma atração especial por roer tênis, sandálias e sapatos. E nem vou mencionar os óbvios xixi e cocô diários. Só de imaginar suspiro aborrecido.

    Mas Cookie tem seus encantos.

    É bonitinho e alegre como todo cachorrinho novo. Esperto e simpático como cabe a um vira-lata que se preze. Se fosse de raça podia se dar ao luxo de ser esnobe. Sem raça definida o imperativo da sobrevivência grita mais alto. Ser gentil, comunicativo e afável são suas armas para conquistar o mundo. Somada a pouca idade do filhote, ele tem tudo para ir bem na vida.

    Me juraram que não terei de participar da vida de Cookie a saber limpar as sujeiras diárias, passear, dar banho e ir ao veterinário.

    Não vai crescer muito porque foi castrado já. Estava aos cuidados de uma ONG de bom coração que acolhe os animaizinhos. Muito fofo.

    Cuidar já tenho duas filhas para cuidar e me bastam. E elas, agora tem Cookie.

  • Horas depois

    Todo dia, que já é diferente dos demais, pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e desço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento. É a falta de paz frequente que nos assola.

    Quando finalmente chego na praça, o sol já está alto, desses de meio-dia de janeiro que fazem a gente entender por que existe a palavra “canícula”. A praça estava quase vazia, somente um senhor no banco da frente, distribuindo migalhas de pão dormido para os pombos, e uma menina, dessas que ainda usam lacinhos no cabelo, correndo atrás de uma bola de plástico colorida.

    A página em branco do meu caderno de anotações, me olha com cara de desafio. Passei os olhos ao redor, buscando uma faísca de inspiração. Foi então que vi, ao lado do banco uma flor amarela que parecia ter engolido um pedaço do sol. Era uma daquelas flores de jardim que a gente compra no vaso, mas ali, estava solitária, brotada não se sabe de onde. Uma semente levada pelo vento, talvez, ou um descuido de algum jardineiro.

    Fiquei olhando para a sua coragem desmedida de florir no meio do cimento, parecida com a força de um germinar de óvulo a espera de seu parceiro para gerar um novo ser. Pensei em fotografar, pensei em escrever um poema, pensei em arrancá-la para levar para casa e colocá-la num copo d’água, como quem tenta aprisionar a beleza.

    Nesse meio tempo, a menina do lacinho passou correndo atrás da bola, parou, voltou. Ajoelhou-se no chão com a graça desengonçada que só as crianças têm. Estendeu a mão, e com a mesma naturalidade com que segundos antes corria atrás da bola, colheu a flor.

    Levantou-se, cheirou a flor, e saiu correndo, a flor amarela dançando em sua mão como uma pequena bandeira.

    Fiquei ali, com o caderno aberto, a caneta na mão, e uma súbita e absurda sensação de perda. Quis rir da minha própria tolice. Que direito eu tinha sobre aquela flor? Não era minha, não era de ninguém. Era da vida, apenas isso. E a vida, na sua sabedoria silenciosa, a entregou a quem soube o que fazer com ela no momento exato. A menina não pensou no amanhã. Não cogitou fotografá-la para o Instagram. Não fez planos de pressioná-la num livro. Simplesmente sentiu a urgência daquela beleza, atendeu ao chamado, e a tornou parte da sua brincadeira. Fechei o caderno, guardei a caneta, escrevi agora, horas depois, não sobre a flor, mas sobre o vazio que ela deixou, e sobre como a vida precisa ser colhida no instante exato em que floresce. As coisas duram o tempo que devem durar. O segredo não é tentar segurá-las, mas saber reconhecê-las quando elas, por um breve e luminoso instante, resolvem brotar no meio do cimento.

  • A sorte está lançada

    Em tempos de inteligência artificial, nada mais parece escapar dos famigerados algoritmos. Se curto um post aleatório ou compro um hambúrguer, se sofro de enxaqueca ou pego um empréstimo… Pouco importa! Meus dados estão aí, prontos para serem coletados, armazenados e monetizados. Se eles retratam nossos comportamentos, que tal surrupiar nossas identidades e torná-las rentáveis?

    Fico horas a fio navegando pelas redes sociais. São tantos os meus perfis, que já nem sei mais as minhas senhas. Postar vídeos curtos, contactar amigos e conhecidos, exibir minha rotina, sobrevalorizar meu currículo, expor meus pensamentos, compartilhar minhas fotos. O importante é fazer parte dessa grande comunidade virtual. Ser seguido e seguir quem está no hype. Quantas visualizações? Quantas curtidas? Será que vai viralizar? Quantos seguidores já tenho? Criar conteúdo! Mas que tipo de conteúdo? Engajamento! Mas engajar para quê? Sei lá! Não há tempo a perder. O feed é infinito e quem desaparece pode ser, totalmente, esquecido. Não quero ter minha existência negada. Precisamos de reconhecimento. Afinal, vivemos em sociedade.

    Quanta alegria, quanta saúde, quanta riqueza! Seria eu um pobre desafortunado diante de tão bem-aventurados seres? Aqui não há sermão, pois não há montanha à vista. Quando a ansiedade aperta, recorro ao fast food – algo bem mais mundano. Pouco romântico, mas visceralmente prazeroso. O cardápio de opções é tão grande, é tanta coisa saborosa! Batata frita, hambúrguer, cachorro-quente, pizza, refrigerante… Minha nossa, não sei o que escolher! Paga-se com o cartão de crédito. Que delícia! Mas foi tão rápido! Fugaz como um cometa que desaparece diante de nossos olhos. Ainda preciso de um doce! Passa-se o cartão, novamente! Depois a gente vê como pagar a maldita fatura.

    O colesterol está alto. O bom ou o ruim? Não sei, acho que o tal de LDL. A glicose também não está muito boa. Ah, a culpa é daquele docinho! Digo, daqueles docinhos, no plural. Tudo bem, tem um remedinho bom que você pode achar na farmácia mais próxima. Só precisa de prescrição médica. Fácil conseguir! E tem outro também para a sua insônia! Já aproveita para pegar aquele que lhe sugeri para a sua lombalgia. E a enxaqueca? Olha que ela pode voltar, hein! Melhor prevenir do que remediar. E haja organismo para tanto medicamento! Da farmácia para casa, de casa para um médico. Acho que exagerei na automedicação.

    O dinheiro está curto? Melhor recorrer a um empréstimo consignado. Os juros não são tão baixos, mas é o melhor que se consegue. O cartão de crédito estourou o limite, e do cheque especial nem se fala. Como vou pagar tanta dívida? O déficit é fiscal, mas a aflição é física. O drama é coletivo, mas o sofrimento é individual. O salário não chega sequer à terceira semana do mês. A culpa é sua, pois não sabe administrar o dinheiro. Mas está tudo tão caro! Calma, eu sei. Tenho um amigo que consegue esse dinheiro. Agiota? Não diria isso. Prefere penhorar suas joias? Todos estamos no mesmo barco. Sei não… Está vendo aquele transatlântico ali?

    Big Tech, Big Food, Big Pharma, Big Money. Perdoem-me pelo anglicismo, mas dizem que a globalização derruba fronteiras. Nossa amada Flor do Lácio pode ficar enciumada. São tantos os termos criados pelo Tio Sam que já não dou mais conta de levianas traduções. Conseguiremos fugir de tamanha distopia? Pode apostar que sim! Sonhar é necessário e a sorte está lançada. Aliás, já tentou alguma bet?

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