Crônicas

  • Lua no mapa astral

    Uma prima travou uma conversa bem humorada comigo quando soube que não acredito em horóscopo. Ela me lembrou que existem essas forças do universo, superiores a todos nós e que para os astrólogos de alguma maneira exercem alguma influência sobre nossas vidas.

    Minha prima não passa nem perto de acreditar nisso mas não é mulher de perder a piada. De qualquer maneira a conversa acendeu em mim a questão a respeito do mapa astral. Calma, não mudei de ideia sobre minha descrença no tema. Ao contrário, minha reflexão é mais lenha na fogueira a favor do ceticismo.

    Se não, vejamos.

    O mapa astral é esse registro do posicionamento das estrelas, planetas e da Lua no momento do seu nascimento. Em resumo é mais ou menos isso. De saída me pergunto: e quando a humanidade estiver em Marte, como é que vai ser?

    Sim porque existem planos de colonização do nosso vizinho vermelho e o mapa astral é gerado a partir de um ponto de observação. Olhar o céu da Terra é uma coisa, levantar os olhos para o firmamento a partir de Marte é outra conversa.

    Como serão as constelações que serão vistas? Quais nomes terão? Além disso, é bom lembrar que o ano em Marte tem 687 dias. Pois é, quase o dobro da Terra.

    Portanto, crentes no zodíaco preparem-se que teremos a chegada de novos signos e constelações.

    Imaginem o diálogo no futuro. Um casal se conhece e ela pergunta a ele: qual seu signo? E ele responde sou Baleia com a Terra em Pavão. E ela responde: sou Virgem com a Lua em Leão, será que somos compatíveis?

    E por falar em Lua já surge outra complicação. Marte tem duas. Na hora de fazer o mapa astral precisa localiza-las.

    E os raciocínios que virão por conta dos nomes delas? Para quem não tem intimidade com astronomia – não confundir com astrologia – as luas de Marte se chamam Fobos e Deimos.

    Traduzindo: Medo e Pânico. Pensa nos significados interpretativos que elas possibilitarão.

    Mas podia ser pior. Imagina que se ao invés de Marte o homem se estabelecesse em Júpiter.

    Ok, não há essa possibilidade porque o maioral do sistema Solar é gasoso. Mas se fosse possível seria o pesadelo da astrologia.

    Por que? Ora, Júpiter tem 79 luas. Imagina por isso tudo no mapa astral?

  • Fazer tudo

    Eram catorze itens, dos quais eu já estava atrasado em três deles na minha lista, mesmo antes de escovar os dentes. Foi então que me lembrei de Sêneca, o velho romano que, há dois mil anos, já sabia que a nossa maior ilusão é achar que vamos viver para sempre. Sêneca não tinha WhatsApp, não precisava acumular pontos em programa de milhagem, não sofreu de ansiedade para escolher um filme no streaming. Mas, curiosamente, sabia tudo sobre a agitação inútil que nos consome. E deixou algumas regras básicas que o fez sobreviver com excelência aos dias que deus lhe prometeu.

    Em primeiro lugar nos disse que o tempo não é dinheiro, porque esse se recupera, mas o tempo não. Sêneca ria com aquela tristeza de quem via senadores correndo atrás de status, dos que chamavam a si mesmos de “ocupados”. “Nada é tão pobre quanto uma vida repleta de afazeres”, escreveu. Pobre não é adjetivo financeiro, é existencial. Em segundo escreveu que você deseje o que você já tem. Parece coach de Instagram, mas é mais radical. Sêneca sugeria fazer um inventário diário das coisas que vão bem. Não para celebrar com champanhe, mas para perceber que a maioria das nossas angústias vem de querer o que o vizinho tem. O vizinho romano queria uma vila em Nápoles e o vizinho de hoje quer um carro elétrico. O mecanismo é o mesmo. Em terceiro lugar ensaie a pobreza. De vez em quando, vista a roupa mais simples, coma o prato mais básico, durma no chão. Não por masoquismo, mas por liberdade. Quem sobreviveu a uma noite no chão não entra em pânico se perder a bagagem no aeroporto. Sêneca, que foi rico, sabia que o problema da riqueza é nos convencer de que precisamos dela, mas não precisamos. Em quarto lugar adie a raiva. O estoico recomendava um truque ridiculamente eficaz, antes de responder uma ofensa, espere um pouco. Quinze segundos, um minuto. A raiva é como vinho barato: no primeiro gole parece terrível, mas se você espera, passa. Se não passar, pelo menos você responde com mais criatividade.

    Quinto, lembre-se da morte todos os dias. “Não é que tenhamos pouco tempo”, diz ele, “é que perdemos muito.” Pensar na morte não é morbidez. É o único antídoto contra a vida protelada, contra o “um dia eu faço”, contra o “quando eu me aposentar”. Sêneca escreveu isso enquanto era tutor de Nero, sabendo que poderia ser executado a qualquer momento. Escreveu na corda bamba. E foi executado. Viver é como atuar, construir uma escultura, ou, em outras palavras, é o que você remove de si, para revelar. A verdade do que está fazendo é sua performance em exposição. E nada mais do que fazemos, é sermos um ator de nossas vidas que nos custam nosso mais precioso valor, o tempo. Um bom desempenho quando merece ser considerado grande ou importante, é sempre inteiramente composto pelo próprio ator. Sigo olhando minha lista de catorze itens. Ainda estou atrasado em três. Mas talvez, como dizia o velho romano, o que realmente importa não está na lista. Está neste instante entre uma tarefa e outra. Na pausa. Na respiração. Na desistência tranquila de fazer tudo.

  • Os pragmáticos

    Os pragmáticos saíram às ruas proclamando seus interesses. Eles não acreditavam no amor e diziam, gritavam a nós, que amar era um pecado capital. E aqueles que formassem resistência seriam punidos com a mais severa das penas: padeceriam de amor pelo resto da vida. Viveriam com suas mentes doentes, pois de amor não se morre, mas se chega quase lá.

    Eu não pude deixar de me tornar resistência. Todos os dias, eles chegavam em nossas ruas, despertavam-nos dos mais belos sonhos, e nós íamos para a rua, num combate poético, onde proclamávamos os poemas mais lindos de toda a humanidade. Queríamos convencê-los de que amar jamais seria um pecado.

    Durante a resistência, conheci um dos pragmáticos. Comigo não seria diferente: me apaixonei por ele, um dos líderes. Eu percebia seu olhar indo ao encontro do meu. E eu jurava que ele sentia o mesmo. Uma noite, ele me capturou e, por seguidas vezes, nos amamos escondidos na calada da noite, onde só o silêncio testemunhava nosso sentimento. Passamos anos fingindo que aquilo não acontecia. Durante o dia, eu era resistência; ele, apesar de amar, tomava seu posto de líder e continuava a punir aqueles a padecer de amor.

    Depois de alguns anos, eu implorei que ele saísse das forças e vivesse comigo o bel-prazer do amor. Ele se negava. Jamais permitiria perder seu posto. Ele não sabia viver de outro jeito. Lamentei o quanto pude, pois era essa a vida que eu não queria, mas que desejava que um dia se tornasse realidade.

    Chegou, em uma quinta-feira, a notícia de que ele seria comandante das forças em outro lugar. Eu me desesperei. Eu sabia que era o começo do fim. Ele escolheu ir.

    Nos permitimos, por alguns meses, amarmos ainda na calada da noite. Mas era impossível viver com essa distância e com o medo de sermos descobertos. Ele, talvez, nunca tenha se entregado por inteiro.

    Um dia, cheguei para um de nossos encontros e lá eu estava, com minhas malas ainda na porta, quando ele disse: “nós acabamos por aqui”. Eu não precisei de condenação das forças. A dor de perdê-lo era maior do que tudo. Eu conhecia perfeitamente o processo de amar, mas o desamar era dilacerante. Não só padeci, como vivi por anos esperando-o. Quando saía alguma notícia sua, eu era a primeira a correr e comprar os jornais. Ele, como sempre, estava com aquela postura de líder sem arrependimentos. Eu olhava, olhava e olhava e nem por um segundo conseguia me ressentir; só sentia aquele amor, ainda latente em meu peito, querendo-o mais.

    No fim, os pragmáticos ganharam a guerra. Eu já era incapaz de amar um outro alguém. E, desde então, segui contando as noites com a esperança de que um dia ele voltasse. No fim, percebi que era possível morrer de amor sem que o coração parasse de bater. E foi aí que eu descobri: eu me suicidei da maneira mais bela, me apaixonei por alguém que não podia ter.

  • Os famosos doces de Pelotas

    Dizem os entendidos no assunto que não conseguimos recordar lembranças de nossa primeira infância por conta de uma tal amnésia infantil. Por razões que escapam de minha leiga compreensão, nossas recordações mais antigas não passam, muitas vezes, de fragmentos dispersos entre sensações, odores, sons e gostos desconexos.

    Mas daqueles doces eu me lembro muito bem… Talvez por eu ter, àquela época, cerca de 11 anos e estar, portanto, numa idade um pouquinho mais madura. Talvez por aqueles quitutes serem tão deliciosos e inesquecivelmente apetitosos. O fato é que aquelas guloseimas faziam a alegria não apenas minha, como de toda a criançada do bairro. Sabíamos todos nós que, a cada primeira semana de mês, a ruidosa e empoeirada caminhonete do vendedor de doces de Pelotas despontava na esquina da João Manoel com a Pinheiro Machado. Era o momento em que nossas famílias aproveitavam para abastecer suas despensas com um pouco daquelas delícias feitas em tão longínquos endereços.

    Se não me engano, Jorge era seu nome. Digo isso com pouca certeza, pois obviamente o foco de minha atenção não era o vendedor em si, tampouco o desenrolar da negociação pecuniária entre ele e minha mãe. Aquelas caixinhas retangulares recheadas de doces hipnotizavam minha mente, despertavam meu olfato, avivavam meu olhar e excitavam meu paladar. Quindins, pasteis de Santa Clara, camafeus, papos de anjo, olhos de sogra, queijadinhas. E, para os menos tradicionais, um pouco avessos à herança culinária lusitana, havia aqueles deleitosos bombons de morango. Todos eles cuidadosamente dispostos dentro de duas grandes sacolas escuras de viagem.

    — Que pena! Desta vez, ficaremos sem quindim — comentava, tristemente, minha mãe.

    — Tenho mais na caminhonete! Vou lá buscar para a senhora — retrucava o diligente vendedor.

    E como se não bastasse a fartura de guloseimas já expostas em nossa sala, Jorge voltava com mais caixinhas de quindim e com alguma novidade para nós. Como todos seus fregueses, tínhamos nossas preferências que não podiam faltar, mas, evidentemente, estávamos sempre abertos a experimentações degustativas. Jorge sabia o poder que detinha sobre seus clientes com aqueles manjares. A maestria com que os manejava perante nossos olhos fundia a delicadeza dos movimentos de uma bailarina com a precisão dos de um marceneiro. Para mim, a magia daquele cenário era feita, inicialmente, das cores vivas daquelas iguarias com o complemento posterior do sabor de cada uma delas.

    Feitas as escolhas, minha função naquele ato estava cumprida. Começavam, então, as negociações entre Jorge e minha mãe. Como num ritual minuciosamente encenado e repetido uma vez por mês, Jorge alisava seu bigode e retirava de uma das sacolas uma calculadora e um bloco de notas. Pelo que podia entender, ali estavam contabilizadas as suas vendas da semana ou do mês. Impossível relembrar os detalhes das tratativas, pois naquele momento eu já me deliciava com algum dos doces recém comprados. O almoço acabara de ser digerido, e Jorge sabia que aquela era a melhor hora para tentar a gula de seus fregueses.

    Eu não sei dizer por quanto tempo tivemos aqueles doces de Pelotas mensalmente dispostos em nossa cozinha. A percepção sobre o tempo muda conforme a fase da vida. Com 11 anos, minha impressão era de que o tempo custava muito para passar. Tantas eram as novidades a serem descobertas com aquela idade, que um ano só comportava uma miríade de acontecimentos. Vai ver aqueles doces surgiram em minha infância para que eu dispusesse de tempo suficiente para bem apreciá-los. Se fosse mais velho, a rotina de horários e de compromissos reduziria a relevância daqueles doces em minha vida.

    Quanto a Jorge, o vendedor de doces de Pelotas, o certo é que um dia ele não veio mais a nossa casa. Não sei se minha mãe resolveu parar de comprar seus doces, se Jorge nos trocou por fregueses mais endinheirados ou se ele simplesmente mudou de ramo. Só sei que um dia o presente virou passado e aqueles doces transformaram-se em lembrança. Uma feliz e tão saborosa lembrança.

  • Ninguém dirige melhor que o Carlito

    O Carlito é motorista de tudo, tem CNH categoria C, coisa de que muito se orgulha, e que o permite dirigir qualquer veículo: até colhedeira de soja, até empilhadeira de aeroporto, ele diz.    

    No primeiro emprego dirigia um treminhão, que jurava chamar-se assim porque era esse o preço do veículo: treminhão de real! Acreditava ainda que se o patrão tinha esse dinheiro pra pagar pelo caminhão era porque era mais que rico, havia de ser miliardário. E dessa premissa chegava à correta mas arriscada conclusão: se o patrão tem tanto, não tá certo pagar pra mim a merreca esturricada, mais seca que bucha do mato, que ele chama de salário.  

     A lamúria pegou a rádio peão e não demorou um dia pra que chegasse aos ouvidos do patrão. E demorou menos ainda pra que fosse o Carlito demitido pelo próprio, por atrevimento, por insolência e por pregar ideias transgressivas no recinto da empresa. Mais a mais, também salientou o empresário, não sou miliardário, sou só um pouco rico. E se fosse, que que tem?, méritos meus; aliás, do meu pai, aliás do meu avô, aliás méritos da estirpe enfim.    

    O segundo emprego, este como motorista de ambulância, era um emprego público, pagava bem menos que o último, mas o Carlito gostava. Gostava porque não tinha que viajar e porque achava divertido apertar aquele botãozinho vermelho ali e ouvir a sirene gritando uóóóóóó! Quando ela falha, dizia ele, ponho a cabeça pra fora e faço eu mesmo as vezes de sirene: uóóóóóóó´! uóóóóóóó!   

      A ambulância, essa que ele dirigia, ouviu dizer, fora conquista do vereador Capitão Trancoso, homem sobretudo generoso, sobretudo de virtudes civis e militares irreprocháveis, desses pra quem bandido e presunto deveriam ser a mesma coisa. “Hôme assim queu admiro!”, dizia o motorista.  

      Ambulância, segundo outra premissa do Carlito, leva pessoas doente acidentada pro hospital; ambulância pode salvar vida, muitas vida. E concluía: sou eu quem transporta, logo, sou eu, vamos dizer assim, quem salva essas vida!   

     Só tinha vantagens, esse emprego.  

    Marcava numa cadernetinha a quantidade de pessoas, almas, como ele chamava, que teria salvo nos 3 meses de nova profissão: 243 almas!, até aqui.  E se perguntava: será que eu num serei anjo?   

      Dirigia imaginando quanto custaria uma ambulância, $200, $300 mil? Vai ver, mas o valor da vida é que conta, e não tem preço. Quanto custa uma vida?  Uns treminhão? …. que nada, muito mais que treminhão!    

    Ah, eu sô mesmo um anjo!, exclamava de si para si.

       Mas um dia, voltando de devolver um paciente, quando saía do elevado João Goulart e fazia a curva pra subir a Consolação, foi colhido por uma picape Ranger 3.0, 250 cv , tração 4×4.    

    Nem ouviu a cacetada.  

     Bateu a cabeça no vidro e desmaiou.

      Foi atendido por outra ambulância e colocado numa maca.    

    Acordou no hospital. Olhou pro enfermeiro e desatou duas perguntas: Quem que me trouxe aqui, o Adelino? Chama ele.  

      Veio o Adelino, ele fez um gesto pedindo que abaixasse e sussurrou: Adelino, você que é um anjo!    

    A outra: Quanto custa uma ambulância nova?  

     Acho que uns $500 mil, chutou o enfermeiro.     

    Tô ferrado, disse o Carlito, e desmaiou de novo.  

     Convalesceu por uma noite, teve alta pela manhã.  

      Convocado no RH, foi demitido outra vez.  

     Pelo laudo conclusivo da diretoria do hospital, era ele o culpado pela batida.  

     Segundo testemunhas, na hora do acidente o Carlito estava com a cabeça pra fora da ambulância. E fazia assim: uóóóóóó! uóóóóóó!  

     P.S. Hoje o Carlito pejotizou-se, dirige um Peugeot de aplicativo. Pode fazer a trapalhada que for, “agora sou patrão de mim, ninguém me pode demitir, a não ser se for eu mesmo”.

  • O agridoce amanhã

    I’ve been livin’ for the moment /But I just can’t have my way / And I’m afraid to go to sleep / ‘Cause tomorrow is today – “Tomorrow is today”, Billy Joel

    Há um livro e um filme chamados “O doce amanhã”. Escrito por Russell Banks, trata-se de uma cidade que lida com o luto após todas as crianças serem mortas devido a um acidente de ônibus.

    Vale a recomendação. Eu me recordei disso enquanto escrevo essa crônica inspirada por um poema de Eleazar Carrias. Com a autorização do autor, transcrevo abaixo o texto:

    Não na Palestina

    Acordo
    com o cheiro do café,
    me arrasto até a cozinha,
    mas, no centro da mesa,
    é uma esfera dourada
    refletindo a luz da manhã
    que desperta o meu desejo.

    Bom dia, meu amor,
    e pego a faca
    entre o pão caseiro
    e uma caneca fumegante.
    Parece que vai ser
    um dia bom.

    Corto a laranja ao meio,
    no exato momento
    em que uma criança
    tem um braço decepado
    e o olho direito
    de uma senhora, viúva,
    é estourado
    por um estilhaço de metal.

    Mas eu não sei disso.

    O sangue doce da fruta
    na minha boca
    e a visão do marido
    bebendo o café
    quase sem pressa
    confirmam:
    o dia vai ser bom.

    Por que o dia vai ser bom? Porque será um dia como qualquer outro. Com sorte, sem alguma surpresa desagradável pessoal. É um poema forte e sucinto, como um soco na cara, que confirma que para a vida seguir, precisamos aceitar que para muitos não será assim. Não é necessariamente sobre ser egoísta, mas desenvolver capacidades para lidar com a dor.

    No mesmo dia em que li o poema, também me deparei com uma crônica publicada pelo autor Alexandre Brandão em seu blogue “No osso”. Nela, ele discorre sobre a banalidade da violência em referência ao assassinato de um homem que foi linchado por ser confundido com um ladrão. A vítima, Cláudio Rafael Landeiro, costumava pegar a bicicleta emprestada da irmã para passear. Até o encontro fatídico, provavelmente era mais um dia em que, para se distrair, circularia pelas ruas.

    Convivemos com a morte diariamente como chupamos uma laranja, tomamos café e pedalamos. Nós nos importunamos dentro do que é sociável, mas evitamos que esses pensamentos criem raízes. Porque encarar nossa impotência diante da injustiça, pior, da morte, é terrível. Como os mortos pelo genocídio em Gaza ou o ciclista, não temos controle sobre como terminaremos. O máximo que conseguimos é contar os momentos agradáveis e usufruí-los, pois não sabemos o que virá depois. Ainda assim, criamos expectativas, como que implorando para que nada de ruim nos ocorra. “O dia vai ser bom”, encerra o poema. Se não será sua vez, é a de outro. Para alguém, nesse momento, o dia é inevitável e terrível.

    A vida é curta e preciosa. Para lidar com o agridoce amanhã, é necessário reconhecer o prazer e a beleza dos instantes. Por esse motivo, a indignação quando alguém tem retirada a habilidade de sorver as sensações por aqueles que deveriam saber a importância que é estar aqui. Uma pessoa que não aprecia a vida deve ser considerada um ser humano? É tentador taxá-la de “monstro”, mas é uma falsidade e uma forma de mascarar que a multiplicidade da humanidade envolve maldade e crueldade. Assim como nos emocionamos diante uma caneca quente de café, também somos alertados por aquilo que não se encaixa em nossos critérios. Isso pode ser propulsor para injustiça. E ainda há a convicção dos linchadores, que agiram em nome de uma moral. Não há diferença nos que condenam violência com violência daqueles que a praticaram. São os dois lados do vampiro que mostra seus caninos.

    A empatia e a calma, como a que exercemos enquanto cortamos uma laranja, são a única maneira de sobrevivermos. Eu não tenho medo de IA, temo os vizinhos. Se seguirmos nossos impulsos sem freios, não cortaremos a laranja, mas nossos próprios dedos. Ser humano é sobre sentir e pensar. Ambas precisam estar combinadas, caso contrário desperdiçamos o dom que é aproveitar a vida, em seu paradoxo de tempo infinito e limitado.

  • A inveja de cada dia nos dai hoje

    Herdeiros. Gente que tem casa própria. Gente com família presente e, sobretudo, acolhedora e que sempre a respeitaram. Gente que se formou antes dos 25. Gente que come de tudo e não engorda. Gente que pode viajar, mesmo que seja uma vez ao ano. Gente que tem carreira acadêmica, doutorado aos 30. Gente que sabe falar outros idiomas bem e não tem medo ou vergonha de errar.

    Veja bem: inveja não é ódio. É aquilo que eu gostaria de ter e não tenho; é algo para o qual posso, eventualmente, correr atrás. A inveja é só um sentimento, e a gente pode refletir sobre ele e tentar fazer acontecer. Não é esse monstro moral que todo mundo pinta. É super comum, todo ser humano sente. A gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde – e, cá entre nós, isso tem muito mais a ver com o jeito que o capitalismo organiza a nossa sociedade do que com algum defeito de caráter meu ou seu.

    A sociologia traduz isso bem: o que descrevo não é falha de caráter de ninguém, mas a frustração que surge quando a vida bate de frente com a tal da meritocracia. O sistema vende todos os dias, a ideia de que basta suar a camisa que a gente chega lá. Mas, quando o ponto de partida é a escassez pura – tipo contar moedas no fim do mês para não passar fome –, a distância até a casa própria, o diploma aos 25, o doutorado ou a viagem de férias deixa de ser questão de esforço e passa a ser o que é: puro privilégio de berço (este que vem do esforço de muitas pessoas).

    Quando olho para essa lista e sinto inveja, falo de coisas que sempre quis e sobre as quais, muitas vezes, não faço a menor ideia de por onde começar e nem sei se um dia terei. A inveja, como qualquer outro afeto, vem de fábrica no brinquedo que é o Homo sapiens. Na psicologia, mais voltado para a psicanálise, explica que a inveja (quando a gente não deixa ela nos paralisar) funciona como uma bússola. Ela mostra o que a gente quer e que o outro tem, transformando a dor em vontade de ir atrás. O problema é que a nossa cultura moralista adora mandar a gente varrer isso para debaixo do tapete, transformando a dor da desigualdade em culpa pessoal (“nossa, que feio eu sentir isso” ou “eu não deveria sentir isso”).

    Aliás, escrevendo isso, me pego pensando: será que gente rica sente inveja? Do que eles teriam falta se já têm o mundo material nas mãos? Casa, carro, grana sobrando, família estruturada, estudo garantido, empresas e investimentos, viagem o tempo todo, o luxo de sentar num restaurante bom enquanto tem muita gente sem ter o que comer. Enfim, acho que só saberei se algum rico me contar, porque não ando com nenhum. E, quer saber? É irrelevante para minha caminhada, isso não vai pagar os meus boletos no fim do dia.

    Existe um esforço enorme da sociedade para fazer a gente ter vergonha desse sentimento. “Como assim você vai admitir que tem inveja?” Parece que quem sente inveja carrega uma praga na ponta dos dedos. Olha, até deve ter quem jogue praga, mas a maioria de nós não. A maioria só quer olhar bem de perto para ter essa fome de ter o que o outro tem e tentar dar isso para si mesma. Mesmo que demore uma vida inteira. Mesmo que o mundo tente nos convencer do contrário. Mesmo que a gente precise lutar e virar o jogo só para ter o direito ao básico.

  • Taciturna

    A escuridão a excitava. Gostava das sombras e de imaginar monstros sob a silhueta da lua.

    Não tinha medo. Nunca teve. Conversava por horas com figuras imaginárias, criadas pelo jogo de luzes e sombras no jardim.

    Se havia névoa, melhor! Tudo parecia mais misterioso. Seu coração, então, disparava.

    Era tanto para imaginar!

    Cresceu assim: apegada à solidão. Amiga das fases lunares. Brincando de esconde-esconde com a neblina. Contando segredos às formas sombrias.

    Um ser estranho, canhoto, enigmático.

    Mudou-se. Na cidade, perdeu o luar. As sombras eram traiçoeiras. Como imaginar agora? Onde se esconder?

    Virou poetisa. Submergiu no mundo das palavras. Oculta-se em metáforas, joga com antíteses, cria raras rimas.

    O coração, de novo, dispara: ritmadamente!

    Um ser estranho, canhoto, enigmático…

  • Manta, pipoca e duas em uma

    Me dói.

    Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar.

    Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substantivo, verbo e sentença. Encolhido no sofá, meio corpo dentro de uma febre que não termina de ir embora, meio corpo dentro de uma lista de coisas que também não termina nunca. Há trabalho espalhado pela casa: folhas sobre a mesa, o computador em estado de espera, o WhatsApp, talvez até dentro da geladeira, se houvesse forças e coragem para abri-la. Eu deveria estar fazendo alguma dessas coisas.

    Não estou.

    Estou debaixo da manta souvenir de uma viagem de avião emblemática.

    Digamos que tal elemento foi incorporado ao meu enxoval-patrimônio-itinerante. A manta é fina demais para aquecer alguém, mas tem a qualidade invejável de me fazer pensar em aeroportos. E aeroportos, ultimamente, são uma espécie de esperança com portão de embarque e um caminho sem migalhas de pão para o qual retornar. Penso nas próximas viagens. Em cidades nas quais ainda não fui, nas que habitarei temporariamente em breve. Numa janela desconhecida, numa rua que ainda não sabe meu nome. Na minha versão ainda sem rosto.

    Talvez seja a febre, mas penso também na estranha vontade humana de caber por alguns minutos no abraço de alguém. Nem sei de quem. Talvez nem importe. No meu encolher suado, sorrio. “Assim caminha a humanidade”, surge um pedaço de uma velha canção conhecida. A ausência tem dessas crueldades: às vezes nem rosto possui. Aperto a manta contra o peito.

    E eis que alguma coisa se mexe ali dentro. Estremeço.

    — Sai.

    Nada.

    — Eu sei que tem alguém aí.

    Uma cabeça surge na altura dos meus joelhos.

    Cabelos pretos. Cachos lindos, insolentemente bem definidos, como se nunca tivessem ouvido falar em progressiva, secador, escova rotativa ou no projeto feminino de pacificação da vida.

    Depois vêm dois olhos enormes.

    Pele branquíssima, jovem, intacta daquela maneira ofensiva como só a pele infantil consegue ser. Ela segura um pote de pipoca entre os dedos. Sorri sem mostrar os dentes.

    Reconheço imediatamente.

    A menina sou eu-de-antes.

    A versão de mim que ainda não tinha aprendido que os cachos não eram um problema a ser resolvido. Na verdade, os cachos nunca foram um problema. Nem o corpo. Nem a vida. Ela se enfia mais para dentro da manta, ajeita as pernas sobre as minhas e pergunta:

    — Vai rolar Netflix ou você vai continuar fazendo essa cara de mulher abandonada num romance russo?

    Olho para ela.

    — Estou com febre.

    — Eu vi.

    — Tenho muito trabalho.

    — Também vi.

    — E estou triste.

    Ela mastiga uma pipoca.

    — Isso eu senti da cozinha.

    Ficamos em silêncio. Pego o controle remoto. Escolho uma série. Comédias com pessoas fazendo coisas moralmente questionáveis sempre me acalmam. Talvez porque a moralidade alheia seja um ótimo descanso do próprio cotidiano.

    Minha criatura acompanha tudo com enorme concentração, enfiando duas pipocas de cada vez na boca, e depois de alguns minutos começa a emitir opiniões não solicitadas.

    Aquela ali é meio burra, olhe bem.

    A outra está mentindo; como mente mal, coitada.

    A terceira deveria fugir.

    Esse homem tem cara de quem pede desculpas e repete exatamente a mesma coisa depois.

    — Você tem oito anos — digo.

    Ela me olha.

    — E você tem quantos e continua caindo nessa?

    Não respondo.

    É desconcertante ser chamada à atenção por uma criança que mora dentro da própria cabeça. Puxo mais a manta. Ela também. Lembro-me do cabo-de-guerra, minha/nossa modalidade preferida nas Olimpíadas da escola. Ficamos ali, empatadas, apertadas dentro da manta: duas mulheres ocupando o espaço de uma pessoa só, embora tecnicamente exista apenas uma nesse nós.

    Começo a pensar que eu e minha Pequena passamos a vida inteira aprisionadas juntas. Não de forma trágica – ou não apenas: um quê de prisioneiras livres. Crescer, penso, é como construir paredes de um material que não é tijolo, cimento ou drywall. É outra a técnica, outra materialidade. O cabelo que era melhor alisar. A palavra que era melhor não dizer. O choro que era melhor engolir. O sonho que era inconveniente. Silêncios. E mesmo assim, lá dentro, essa criatura continua fazendo piadas. Idealizando histórias. Apaixonando-se por palavras estranhas. Mudando o nome das coisas. Inventando saídas. Comendo pipoca.

    Como não percebi antes?

    Ela me olha, entende a pergunta não pronunciada e faz uma cara de “sei lá”, intensificada pelo levantar dos dois ombros. Volta a assistir à série.

    — Lembra da cabana da Barbie?

    Ela levanta a cabeça de imediato.

    — Claro, né? Montávamos no meio da sala. Papai era sempre quem ajudava com a estrutura: aquelas paletas de madeira, as junções de plástico, uma engenharia doméstica de altíssima complexidade e baixíssimo rigor normativo. Depois enfiávamos o meu colchão lá dentro. O colchão, maior que a cabana, vazava pela porta de tecido. Era o máximo dormir lá, com as pernas para fora.

    Havia alguma coisa extraordinária em construir uma casa que mal conseguia conter aquilo que nos fazia dormir. Será que era isso que me fazia sentir tão segura?

    — Agora temos aquela barraca de camping tamanho família — digo.

    — Aquela que também só usamos na varanda da mamãe?

    Rimos.

    — Somos péssimas nômades. Apesar de nômades sermos, verdadeiramente, agora.

    Minha Pequena discorda.

    — Somos ótimas em tornar qualquer lugar habitável.

    Fico quieta.

    Olho ao redor.

    A manta do avião. O sofá que não é meu. Pratos que não são meus, talheres de bambu que são. As malas.

    As coisas temporariamente permanentes.

    As coisas permanentemente temporárias.

    — Vai ver foi por isso que você se tornou arquiteta.

    — Nós nos tornamos, ela corrige.

    Isso. Nós.

    — Você pensa demais, diz.

    —Nós pensamos. Sempre foi assim.

    Minha versão Miúda se emburra imediatamente, como sempre, quando contrariada. A boca fecha. O queixo sobe. Os olhos acusam o mundo de um crime gravíssimo que ninguém ainda conseguiu identificar.

    — Ah, pode ir aprendendo a melhorar essa carinha aí. A vida vai bater na gente feito carne crua — aviso — Anos de terapia poderiam ser poupados se esse papo estivesse acontecendo um pouco antes.

    Rio.

    E estamos no Rio, penso. Ainda.

    Rimos juntas, duas nômades que constroem barracas em varandas. Duas arquitetas especializadas em fazer caber casa dentro de mala.
    Desmontar.
    Dobrar.
    Guardar.
    Levar junto.
    Montar de novo.

    Ela pega outra pipoca; ajeita-se ao meu lado, pousando a cabeça no meu ombro esquerdo. A febre continua. O trabalho continua. O abraço continua no ar; nada foi resolvido.

    Ainda assim, há uma casa improvisada debaixo daquela manta fina demais.

    Uma menina.
    Uma mulher.
    Um pote de pipoca.
    E uma próxima viagem batendo à porta.

    Acho que somos mesmo prisioneiras livres. Mas com uma prisão que desmonta.

    E cabe na mala.

  • Vai que…

    Severo olhou para a gaveta. Tentou desviar o olhar, mas viu a gaveta sacudir, tentando cuspir seu conteúdo.

    Piscou três vezes, tipo superstição das três ondinhas da sorte na passagem do ano. Mas o recado estava dado – de hoje não passaria a tarefa que vinha procrastinando – enfrentar os cabos.

    Imbuído do seu melhor espírito esportivo, arregaçou as mangas.

    Colocou uma lixeira ao lado da gaveta.

    (otimista.)

    Puxou o trinco.

    Ela, desacostumada a se expor dessa maneira, relutou – depois de uns minutos de embate capitulou.

    Soltou um guincho e, com um tranco digno de um carro velho, cuspiu dois cabos USB embolados.

    — Cabos USB, conectava o que, mesmo?

    — Na dúvida, melhor guardar.

    — Vai que volta

    Embaixo deles encontrou o Blackberry.

    Sorriu.

    — Esse nunca me pediu atualização.

    — Vai que o teclado QWERTY volta…

    — Melhor guardar.

    Mais para o fundo encontrou um cadeado de mala.

    Sem chave.

    — Onde será que anotei o segredo?

    — Vai que está naquele papelzinho de senhas

    — Melhor guardar

    Do lado esquerdo, ocupando um grande espaço da gaveta estavam três adaptadores. Saída de dois buracos redondos e um reto – inútil!

    — Será?

    — Vai que resolvem mudar o padrão de novo.

    — Melhor guardar.

    Lá no fundinho achou uma bateria 9v.

    Vazando.

    — Quem jogou aí?

    — Vai que mela a gaveta.

    Não teve recurso.

    Foi para a lixeira.

    Depois de reorganizar tudo…

    Tenta fechar a gaveta.

    Ela mal fecha.

    Empurrou.

    Empurrou de novo.

    Toc.

    Fechou.

    Severo sorriu.

    A gaveta também.

  • Os influenciadores

    Quem influencia você?

    Essa pergunta, feita há uns vinte ou trinta anos, teria como resposta muitas pessoas: pais, professores, escritores, jornalistas, grandes ícones da música e da atuação, enfim, homens e mulheres que tinham algo a dizer. E diziam!

    Hoje, essa mesma pergunta oferece como resposta as redes sociais. Geralmente, toda regra tem a sua exceção, as pessoas que influenciam não têm nada a dizer. Mas dizem! Eis o problema!

    Este o grande drama da sociedade em frangalhos da pós-modernidade. Indivíduos que não possuem estudo, tempo, maturação, experiências e lastro para falarem sobre algo, falam assim mesmo. E se dão a importância de autoridades no assunto (seja qual for).

    E tudo piora quando, mesmo à luz da ciência, de dados, de comprovação e pesquisa, os ditos influenciadores contestam, negam, se rebelam!

    Não há argumento! Não há lógica! Apenas esperneio e performance! Negacionismo!

    Os influenciadores vendem fórmulas de sucesso para todas as áreas da vida! Ensinam como viver, mas não vivem a vida real!

    Os influenciadores ostentam carrões, mansões, bebidas, luxo, sexo, lugares paradisíacos e um sem-número de ilusões!

    Os influenciadores vendem jogos como doces armadilhas! Tudo parece fácil, simples e direto! Você que não segue se sente um idiota de não ter visto, ouvido e aplicado antes o passo a passo iluminado!

    Quem influencia você?

    Quem influencia tem experiência sobre o assunto para falar sobre isso? Estudou, leu, pesquisou, escreveu, ponderou, anotou, perdeu noites de sono, enfim, viveu o chamado processo?

    Se quem influencia não viveu processo algum, não respeita o tempo de maturação das coisas e das ideias.

    Se não respeita o tempo de maturação, simplesmente, não tem autoridade para falar sobre nada!

    O que é um influenciador então?

    Guardadas as devidas e honrosas exceções, os influenciadores são os idiotas que não têm vergonha de sua ignorância e querem espalhá-la aos quatro cantos!

    Que saudade de Drummond, Chico, Milton Nascimento.

    Que saudade de Chaplin, Clarice, Cecília…

  • Benedita em Buenos Aires

    Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso.

    A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando.

    Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besouros numa caixa e morria de medo de bichos de pelúcia. Todos na família achavam esquisito a preferência da menina por verduras. Benedita não podia ver uma alface.

    Nunca foi de frequentar a sinagoga, preferia consultar o I Ching à Torá e dizia falar com espíritos, a quem chamava de amigos transparentes.

    Detestava televisão e era fã de filmes do cinema mudo. Quando podia, ia ao teatro, notadamente monólogos. Dizia ter a habilidade de penetrar na mente dos atores e mudar suas falas. Nada ficou provado.

    Estudou coreano e lia no original livros de Han Kang e Kim Un-su. Odiava futebol, mas tinha o costume de ir aos estádios para poder cantar com as torcidas. Seu time preferido era o Arsenal de Sarandi. Ninguém nunca soube o porquê.

    Tangos e milongas não lhe diziam nada, exceto “Adiós Nonino” de Piazzolla, que ela dizia lembrar o avô, falecido algumas horas depois de ela nascer.

    Benedita tinha simpatia pelas canções afro-americanas e ouvia Billie Holiday nem tanto pela voz e mais pela trajetória de vida da cantora. Seu beatle preferido era Ringo. Tinha também uma queda inexplicável por Pino Donaggio. Nas artes plásticas, se identificava mais com o barroco e tinha as paredes do quarto decoradas com pôsteres e reproduções de Diego Velázquez. Algumas vezes usava um laço azul na cabeça e brincos iguais aos da “Menina do Brinco de Pérola”, quadro de Johannes Vermeer. Benedita era mesmo parecida com ela.

    No verão usava meia-calça térmica e dispensava roupas de baixo. Adorava vento e andar de patinete. Pintava o cabelo louro de vermelho-sangue nas pontas, detestava sapatos e vivia de sandálias de dedo japonesas. Durante o inverno, pouco saía de casa, passando o tempo em frente à lareira, hipnotizada pelo fogo.

    Benedita não comia qualquer produto de origem animal e arrumava confusão com quem portasse roupas de couro.

    No amor, foi um desastre. Casou-se com um cidadão russo migrado para a Argentina desde o início da guerra na Ucrânia.  Falando línguas diferentes, pouco se comunicavam. Não tiveram filhos. O casamento durou pouco, ela ficou viúva quando ele se engasgou com um pedaço de moela de galinha e morreu asfixiado. Ainda pôde ouvir, em russo, as últimas palavras dele, possivelmente “socorro”.

    Benedita terminou seus dias num lar para idosos. No dia em que morreu, choveu granizo em Buenos Aires.

  • O limbo da dúvida

    Nada mais shakespeareano que estar diante de uma encruzilhada. Ter que decidir para onde ir, o que fazer. Sem verborragia, sem teorias ou viagens intelectuais.

    Tudo resumido na questão mais famosa da humanidade: ser ou não ser.

    Escolher o caminho que leva a ser, evitando onde não seremos.

    Aparentemente simples mas verdadeiramente muito complexo.

    Não somos e queremos ser ou somos mas queremos ser diferentes? Onde seremos e onde não seremos? No lugar onde não somos será que não há nada em que seríamos se o aceitássemos?

    Ir por um lado e não pelo outro implica em abrir mão de futuros incertos mas não necessariamente ruins. Apenas diferentes.

    Mas como saber em qual deles está o melhor futuro se nunca foram percorridos? Se a respeito deles nada se sabe, qual optar? As dúvidas se amontoam à nossa frente e variam a medida que o tempo de indecisão cresce.

    Buscar o novo é realmente essencial? Não seria melhor ficar onde está e conviver com os demônios já conhecidos? Porém permanecer onde está não seria continuar não sendo?

    Escolher o caminho é abrir-se para o novo mas implica, eventualmente, em renunciar a algo. Deixar para traz uma parte nossa, mesmo que seja algo caro a nós. Abrir mão de nossas certezas presentes, boas ou ruins.

    Não há dicas, não há spoilers. Não há como antecipar. Nem garantias que o caminho é firme. Nem companhia.

    Toda decisão de encruzilhada é solitária. Para percorrer o caminho escolhido levamos pouca coisa, para o passo ser leve.

    Nossa bagagem de viajante traz a visão que temos das coisas, a coragem adquirida com a vida e os medos que ainda não nos livramos.

    Mas nem sempre é suficiente para garantir a escolha certa.

    Robert Frost, no belo poema “O Caminho não escolhido”, apresenta sua solução poética:

    Dois caminhos se separavam em um bosque amarelo,

    E, lamentando não poder seguir os dois,

    E sendo apenas um viajante, muito tempo eu fiquei parado

    E olhei um deles o mais distante que pude

    Até que se perdia na mata;

    Então eu tomei o outro, como sendo o mais merecedor,

    E tendo talvez melhor direito,

    Porque estava gramado e queria ser usado;

    Embora os que por lá passaram

    Os tenham realmente percorrido de igual forma,

    E ambos ficaram essa manhã

    Com folhas que passo nenhum pisou.

    Oh, guardei o primeiro para outro dia!

    Embora sabendo como um caminho leva para longe,

    Duvidasse que algum dia voltasse novamente.

    Direi isto suspirando

    Em algum lugar, daqui a muito tempo:

    Dois caminhos se separavam em um bosque amarelo, e eu…

    Eu escolhi o menos percorrido

    E isso fez toda a diferença.

    Na paisagem silenciosa do bosque amarelo de Frost a dúvida sopra suavemente vindo dos dois caminhos. O poeta seguiu seu rumo mas deixou dúvidas para o leitor atento:

    Menos percorrido por quem?

    Menos percorrido por que menos atraente?

    Menos percorrido por que mais seguro?

    Ou menos percorrido por que mais audacioso?

    Caminhar na corda-bamba das indefinições. Não saber se ainda é ou se já foi. 

    O limbo da dúvida é o pior dos mundos.

  • A riqueza fez suas vítimas!

    Quantos anos são necessários para reconstruir um belo e charmoso instante, que nos fez bem há muito tempo? 

    É uma tentativa lúdica Impossível de ser documentada, porque somente o tempo decanta o passado, glorioso e fértil, e que esteve às margens de nossas ideias e esperanças. 

    Muitos desses eventos se tornaram a natureza de novos rumos prósperos e saborosos, outros nem tanto, pois muitas cortinas se fecharam com tristeza e medo, de que retornassem a dor e o desassossego.

    Na quarta-feira dia 10 de maio de 2023, fez noventa anos da trágica e marcante queima de livros da nascente Alemanha nazista; (bücherverbrennung é a expressão idiomática que batiza essa ação insana).

     Foram destruídos milhares de títulos que desagradavam ao poder recém-instalado no país, que era a vanguarda da ciência e da filosofia na Europa. 

    Foi um sinal ardente do que vinha pela frente. 

    Não cremos que tal evento se repita sob nossos olhos, que andam esbugalhados de tanta atenção ultimamente. Por isso seguir atento aos eventos socialmente danosos, em todos as nuvens da informação, deveria ser a permanente tentativa de muitos, em vigília pela verdade e garantia intensa, da cultura e do conhecimento. 

    Histórias, poesias, contos, ciência e religião, são nossas referências como gente, e o que não conhecemos porque foi destruído, nos faz seguir com o tapete vermelho sem base, e sequer refletir de onde e como chegamos até aqui.

    Homens como o escritor David Grann, não deixaram de contar uma verdade. Ele descreveu o que aconteceu no período chamado Reino do Terror, em seu livro “killers of the flower moom”, algo como assassinos da flor-da-lua, onde narrou a história sobre uma série de assassinatos brutais aos membros da tribo indígena Osage, originários de uma região rica em petróleo no estado do Oklahoma nos EUA, na década de 1920. 

    Muitos membros da tribo tornaram-se milionários por causa da exploração de petróleo na região onde viviam, e os assassinos estavam interessados em obter acesso às riquezas dos Osage e suas terras. 

    Os crimes eram complexos e envolviam uma rede de conspiradores, incluindo pessoas de dentro e fora da tribo. 

    As investigações iniciais foram prejudicadas por corrupção local e dificuldades em obter justiça para as vítimas.

    A realidade exposta dá luz a verdade, mas a riqueza faz suas vítimas, a honestidade e as vidas perdidas, que ao final das contas valeram menos que a justiça e o ouro negro.

  • A loja

    “Ainda existe a Lobrás?”

    “O que é Lobrás?”. O outro, mais novo, não sabia do que se tratava.

    “Lojas Brasileiras”

    “Existem as Americanas, ainda, apesar dos balanços Mandrake”.

    “Eram concorrentes”.

    Aí o mais novo se ligou no que se tratava.

    “Ah, agora eu meu lembro. Eu era bem pequeno, passava de ônibus aqui com a minha mãe e via o letreiro da janela”.

    E foi exatamente por causa disso que a memória do mais velho foi buscar lá no fundo a lembrança de uma marca há anos falida.

    “Ficava exatamente aqui nessa galeria, eu também passava de ônibus por aqui”, e apontou, braço estendido, para a entrada do centro comercial. Estavam na Conde de Bomfim, quase na esquina com a Rua Uruguai. “Eu gostava de vir aqui com a minha mãe. Enquanto ela fazia compras, eu subia até o Maeda para ficar vendo as corridas de autorama”.

    O outro sorriu. Apesar dos anos que os separavam, chegou a pegar a pista, também ficava olhando os pequenos carrinhos correndo, com inveja dos donos, moleques iguais a ele.

    “Você teve autorama?”

    “Nunca”

    “Nem eu, nem aquele vagabundo com a cara do Emerson”.

    Sorrindo, o mais velho contemplava o lugar em que ficava a Lobrás, e era como se estivesse contemplando a própria lembrança, porque na verdade olhava sem ver. Suas vistas se desocupavam do presente e se enchiam da infância e da adolescência.

    “Aqui era legal por causa da pista de autorama, mas eu gostava também de ir nas Lojas Americanas, minha mãe me dava um pedaço de pizza com laranjada. Não era suco; era suco misturado na água. Era muito bom”, e pode sentir, revisitando o paladar, o sabor do molho de tomate e o da muçarela e o gosto do refresco.

    “Quando eu era menor, ela comprava também aqueles carrinhos de plástico, bem vagabundos. Eram tão vagabundos, que na outra semana já não prestavam para brincar”.

    “Eu tive um que o plástico era tão fino que uma dia esqueci no quintal, debaixo do sol, e o carrinho ficou todo molenga, quase derreteu todo”.

    Sorriram juntos da graça que alguns acontecimentos não perderam e jamais perderiam.

    “Lá em Brasília agora tem uma tal de Casas Brasileiras. Acho que abriu não tem tanto tempo, não tinha quando eu fui morar lá. Tem aqui no Rio?”

    “Não sei, se tem, eu nunca vi”, parado, o outro voltou o rosto para o chão, como se assim pudesse responder se havia ou não na cidade a tal loja.

    “São as mesmas cores que eram da Lobrás, as cores da bandeira, óbvio. Acho que vende o mesmo tipo de coisa. Não sei”.

    Mas ele sabia que vendia papel celofane, o que a loja da infância também vendia. E foi nesse momento, que um filete de reminiscência trouxe à tona um ar saudoso que ainda não se declarara em seu rosto. Seu sorriso, que era céu claro, nublou-se em décimos de instante, e em um estalar de dedos, seus olhos deixaram ir embora a vivacidade. Sabia que a tal Casas Brasileiras, de Brasília, vendia papel celofane porque em uma tarde de sábado, seis anos antes, Sabrina desceu apressada do bloco em que morava, com os cabelos ondulados sacudindo ao ritmar de seus passos inquietos e um vestido verde de flores alaranjadas escondendo pouco abaixo dos joelhos. Sabrina tinha um ar retrô de moça que viveu a juventude na virada dos anos setenta para os oitenta, e sempre que aparecia nos pilotis do prédio, era como se os maquinistas do passado puxassem uma antiga alavanca e o comboio desviasse para trilhos antigos.

    Tomando-o pelo pulso, correu com ele à loja da comercial da 708 norte. Eram quase quatro da tarde e os funcionários já encaixavam as estruturas verticais de metal para cerrar as portas. Ela entrou e saiu feito um relâmpago da loja, carregando dois rolos de papel celofane. “É para embrulhar o bolo”, explicou, o bolo da festa surpresa da Luciana, que fazia geografia com Sabrina na UNB.

    Ela o chamou para a festa, os dois torcendo para que acontecesse o que cada um queria, mas que não tinham certeza ainda se o outro queria realmente o mesmo. Quando viram e sentiram, os quereres eram siameses. Ficaram juntos, começaram a namorar e um amor imenso inundou suas vidas durante dois anos.

    Até que Sabrina se formou.

    E ganhou uma bolsa de pesquisa na França.

    E viajou para ficar três anos.

    E já se passaram seis, que pelo jeito chegarão a nove e logo serão doze, até que tudo se transforme em nunca mais.

    Nunca mais Brasil, nunca mais Brasília, nunca mais ele.

    Fica parado em frente à loja de sua meninice. Sem esforço, enxerga a mãe e suas sacolas, com o braço estendido segurando sua mão. Compondo a periferia da visão, estão o autorama, o carrinho de plástico vagabundo, a pizza e a laranjada. E sem que espere, surge Sabrina, com seus cabelos, vestido colorido e adereços que se coadunam com a imagem da mãe saindo com ele da loja que não existe mais. O imenso amor que resiste à distância e à falta de expectativa de que ela volte desenha em seus olhos abertos o movimento contente de Sabrina trazendo dois rolos de papel laminado e um sorriso apressado de que a vida é linda e pede a urgência da juventude.

    Ele dá dois passos à frente e gira o pescoço na direção contrária, de modo que o outro não o veja chorar.

  • Poema #85: A verdade sobre a mentira

    Tenho dito mentiras
    sem tomar consciência
    de sua contextura falsa.

    Não tenho desmentido o que digo
    pois tenho a concepção de que minto
    sobretudo para mim mesmo.

    Sendo assim as minhas mentiras
    não podem acarretar
    na perda de qualquer afeição.

    E já que é precisamente sobre a falsidade
    que se alicerça o convívio entre os homens,
    as palavras de mentira ou verdade que eu disser
    nada significam de permanente num relacionamento.

    Mas não posso deixar de convir
    que assim fazendo, a cada dia
    eu amanheço mais distante de mim.

    O Acaso das Manhãs

  • Sincronia

    As mãos ágeis dão forma a mais uma encomenda. Tecem em lã o desejo de alguém, na velocidade do som. A mulher de um metro e meio, se tanto, observa os carros passando a vinte quilômetros por hora e a vizinha no tanque.

    Conversam. Enredam dúvidas e certezas; criam histórias da vida alheia, sem nenhum pudor. Parecem amigas e são, até que deem as costas uma à outra.

    O ruído do motor na tarde. As mulheres que chegam e saem. O molde sobre a mesa. A almofada de alfinetes…

    A mulher grita com os filhos no quintal, abre a Manequim, faz sugestões…

    Anota as medidas de mais uma freguesa, ouve histórias. Discreta, silencia. O breve olhar diz: “Criança não participa da conversa dos adultos.”

    A mão na máquina, o pé no motor, a casa, os filhos. A vida sutilmente alinhavada.

    Sangue de vísceras sob as unhas e a pele encardida pela fumaça transformam-na em objeto do medo pueril.

    “Solteirona, feia, esquisita…”

    Vende chouriço e morcela. Dona Zinha da morcela.

    — Vou te dar pra D. Zinha! — amedrontam.

    Contrariando, seu riso agudo é fácil. Ri, porque é feliz.

    Ri, porque é bastante a vida que tem.

    Feminina, enfeita a casa com cheiros doces, memórias afetivas, com alegria subversiva; com amor.

    Briguenta, exigente, corajosa: mãe.

    Sedutora, bonita: mulher.

    Constrói a vida que deseja nos espaços que tem.

    Espera, esperneia, discorda… Harmoniza.

    Luta, porque é;

    Luta, para ser.

  • Íris

    “Às vezes, Deus não muda o cenário. Ele muda você…”

    Era domingo, chovia, e fazia aquela temperatura imprevisível de fim de inverno – “esse tempo bipolar..!”  (diria sua mãe). Com um guarda-chuva transparente sobre a cabeça, Íris leu a frase no muro da rua nove com a rua dois. Era a quarta cidade diferente, temporariamente sua, dentro de todo um ano. Um ano não exatamente de calendário; setembro ainda nem havia terminado. Era outra contagem. A de início e fim de ciclo de si mesma. Tinha a sensação de completar mais um aniversário dentro do mesmo período de rivoluzione del pianeta Terra. Revolução. Achava a palavra em italiano muito mais bonita do que a portuguesa translação. Aprendera com uma de suas pessoas-milho, um italiano de Rocchetta Nervina, cidade cujo nome composto sempre fazia Íris mover as mãos à moda italiana. Nunca dera um Google para saber onde ficava no mapa da bota. O nome bastava, era cenográfico, naturalmente. Parecia um vilarejo onde Deus, o mesmo da frase parcialmente sob a hera do muro da rua nove com a rua dois, tinha deixado o GPS sem sinal. Em Rocchetta Nervina, Íris tinha não um palpite, mas uma certeza particular: até a esperança, sentimento malandramente carioca, chegaria com dois dias de atraso.

    Nada italiana, nem por relações ancestrais sanguíneas, Íris trabalhava com marketing. Era muito boa em encontrar frases impactantes para produtos, ideias, empresas, clientes que nem sempre sabiam muito bem o que queriam dizer. Era a voz que precisavam, sem precisar emprestar o tom da sua. Passava os dias convencendo marcas de que promessa alguma sobrevivia a uma experiência ruim e, fora do expediente, demonstrava talento impressionante para acreditar exatamente no contrário.

    Vivia em mudança, era nômade havia exatos 365 dias. A empresa internacional para a qual trabalhava dera a ela um cargo de retirante premium no Brasil: cidade, projeto, mala, apartamento temporário, próxima cidade. Chamava tudo de mudança, nunca de viagem. Viagem pressupunha volta. E, sem volta, ficavam também suas relações, mesmo que pipocassem pessoas pelo caminho. Íris, pipocólatra assumida, sabia muito bem que pipocas não permanecem: estouram, fazem festa, aquecem o coração e, passado o entusiasmo, deixam pouquíssima sustância. Sua vida era uma panela inteira embebida em óleo, repleta de pessoas-milho que o acaso catava, aquecia e fazia estourar nesses movimentos migratórios sem fim aparente. Tinha as que viravam pipoca, aquelas outras que permaneciam milho e quase quebravam um dente. Ainda havia as mais perigosas que, por algum defeito de fabricação sentimental, Íris confundia com alimento para a vida inteira.

    Numa segunda-feira, em uma padaria perto da casa da vez, pediu um chá de capim-limão. O quadradinho preso à linha dizia:

    “Sorria sempre.”

    Íris sorriu, mas por desprezo profissional.

    — Preguiçoso, genérico, aprovado pelo cliente na primeira rodada — pensou.

    Depois riu sozinha. Foi quando ele entrou.

    Tinha alguma coisa de personagem que perdera o próprio século, um “quê” de um Botticelli que pegara o ônibus errado e, por orgulho, decidira seguir a pé até o século XXI. Vestia alguma coisa escura — dark, pensou Íris, sem saber por quê — e não era bonito segundo os termos e condições vigentes da beleza. Talvez um algoritmo passasse direto. Mas Íris não era máquina ou algoritmo.

    Ele falou com a moça do caixa. Foi o raio da voz, que não era particularmente grave, nem cinematográfica. Era pior. Parecia conhecer o caminho. Não até ela — seria cedo demais para tamanha presunção —, mas até algum lugar interno seu que Íris ainda não sabia nomear. A tal voz fez surgir na memória uma velha canção italiana. Duas estrelas. A noite. O tempo. O tipo de canção que fazia parecer muito razoável supor que o universo tivesse interesse específico na vida amorosa de duas pessoas.

    “Excelente conceito”, pensou. Universo, desejo, eternidade. Público-alvo: qualquer pessoa emocionalmente vulnerável depois das oito da noite. Ainda sorria quando ele olhou para ela.

    Ele não sorriu.

    Mas os olhos castanhos sem íris sabiam olhar.

    E Íris, que fazia profissão de interpretar mensagens e hobby de interpretá-las mal, considerou aquilo um sinal: ela se especializara em identificar uma promessa mal posicionada a quilômetros. A menos que viesse acompanhada de olhos como aqueles. Ou de uma fala qualquer, dita naquele tom de voz que parecia acertá-la diretamente na boca do estômago.

    Era uma pancada.

    Mas tinha um organismo surpreendentemente competente para transformar impactos: dali em diante, ouvidos, cérebro, coração e alvéolos pulmonares davam conta do recado. Sempre. E ainda trabalhavam em equipe na manhã seguinte, quando algum objeto doméstico surgia disposto a confirmar a tese da véspera.

    Dessa vez, foi a caixa de leite vegetal. No topo: “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris parou.

    Profissionalmente, reconheceu uma excelente chamada. Emocionalmente, já se contaminara. Paixão era mesmo aquilo: risco. Não um rabisco, mas vertigem. Queda, aceleração, uma espécie de irresponsabilidade temporária dos órgãos internos.

    Não tinha, necessariamente, relação alguma com amor. Amor era outra campanha. E, suspeitava agora, exigia entrega. Sua, claro, mas não só. Também daqueles outros olhos que precisavam saber olhar de volta, mutuamente, e não só de forma profunda.

    Na terça-feira, passou outra vez pela rua nove com a rua dois. A hera parecia ter avançado alguns centímetros sobre a frase de Deus.

    Na quarta, uma folha caiu em seu ombro.

    Na quinta, um pedaço pequeno de reboco acertou sua bolsa.

    Na sexta, absolutamente nada aconteceu.

    Íris achou isso suspeito.

    Depois vieram outros dias. Mensagens nos pacotinhos de açúcar. Vozes de transeuntes. Promessas em sua própria cabeça. Silêncios.

    Voltou à padaria, todos os dias. Testou ir em horários diferentes. Uma frase se movia dentro dela, ciclicamente, como ponteiros de um relógio analógico:

     “Espero que ele chegue. Espero. Ele chegará. Espero que ele chegue”.

    Esperava, desconstruindo os anos de estudo, pelas coincidências. Esperava a mesma voz atravessar outra vez algum lugar e encontrar o caminho. Esperava como quem trabalhava numa campanha que já havia ultrapassado o orçamento, mas ainda jurava que a próxima peça resolveria tudo.

    Até que procurou aquela velha canção italiana, leu a tradução pelo Google. A música era original de 1977. Sete e sete. Brincadeira antiga de azar, como costumava procurar a dupla de números em placas de carros, quando adolescente. Sem perceber, já de então treinava o universo para lhe responder alguma coisa. Olhando atenta para a letra completa da música, descobriu que sempre a havia entendido pela metade.

    Falava de estrelas, sim. De duas. Falava de encontro, de sombra, de corpos refletidos nas ondas.

    Mas, na meiuca das estrofes, sem qualquer constrangimento cósmico, despedia-se. Addio, ragazza, ciao. O “ciao” que brincava de cumprimentar com oi e com até loguinho. Ou “até nunca mais, ragazza”.

    Íris encarou a tela.

    — Era isso? Todo aquele céu para terminar em tchau?

    Achou uma falta de responsabilidade afetiva astronômica mobilizar duas estrelas para dizer adeus. E depois dizem que italiano é romântico! Romantismo, que nada. Era uma língua educada pela ironia bem-feita. Pensou no italiano-milho de Rocchetta Nervina, percebeu que talvez algumas pessoas não mentissem, exatamente. Apenas interrompiam a música antes do verso que as denunciaria.

    No domingo seguinte, voltou à esquina da rua nove com a rua dois.

    A hera já cobria metade da frase. Lia-se somente “Deus”, “cenário”, “você”.

    Passara semanas recolhendo mensagens em caixas de leite, sachês de açúcar, quadradinhos de chá, músicas italianas, olhos alheios e promessas mal-acabadas. Foi quando, no seu percurso diário pelas tais ruas numéricas, uma caixa caiu do alto e acertou sua cabeça.

    — Ah, ótimo. Agora até a botânica me agride.

    Era um baralho. Íris olhou para a hera.

    — Taróloga também?

    Sentou-se na calçada e abriu a caixa.

    Vieram primeiro seis de espadas | sete de espadas | sete de ouros.

    6♠:Travessia; afastar-se de águas turbulentas 7♠: Estratégia, evasão, aquilo que talvez não tivesse sido dito inteiro.

    E depois a pergunta inconveniente do 7♦: onde ainda valia a pena investir tempo, cuidado e energia?

    Íris estreitou os olhos para a planta.

    — Excelente diagnóstico. Péssima gestão de relacionamento com o cliente.

    Olhou o fundo do baralho. Dois de copas.

    2♥: Conexão, encontro, reciprocidade.

    — Ah, claro. O amor sempre entra no briefing.

    Puxou mais três: Seis de copas | cinco de espadas | dez de copas.

    6♥: aquilo que romantizava. A memória doce, o passado ganhando iluminação melhor do que tivera enquanto acontecia.

    5♠: os fatos. Um conflito em que continuar tentando vencer poderia significar sair perdendo de qualquer maneira.

    10♥: para onde sua energia queria ir. Inteireza. Afeto compartilhado. Uma vida que não precisasse ser persuadida a acontecer.

    Íris ficou em silêncio.

    —  Um lindo abuso de marketing! – concluiu.

    Ela, que se julgava racionalmente fora do público-alvo – sempre se julgava – era a profissional questionando a segmentação e a emocional compradora da campanha de marketing com o ♥ batendo forte.

    Olhou para o muro, com a hermenêutica dentro de si. A hera não respondeu.

    Na manhã seguinte, a caixa de leite vegetal ainda dizia:

    “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris leu outra vez.

    Sorriu. O risco nunca tinha sido esse. Apaixonar-se era apenas parte da revolução, seu movimento próprio de translação com o mundo.

    O risco real era confundir órbita com espera. Guardou o leite na geladeira, pegou a bolsa e saiu.

    Ao passar pela rua nove com a rua dois, não pediu sinal algum.

    A hera, pela primeira vez, também ficou quieta.

    Íris seguiu.

    Ainda esperançosa. Só não pensava mais: espero que ele chegue. Mudou de padaria.

    Tinha a próxima grande jogada de marketing na ponta da língua.

  • Xeque-Mata

    Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo.

    — Peão quatro do rei.

    Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação.

    — Cavalo três do bispo do rei.

    Rafaela começa a descobrir que Eduarda responde de imediato ao jogo. Certamente para se exibir. Pudera, sem ir à praia, devia ficar em casa estudando, lendo os manuais de xadrez, estudando aberturas clássicas, confronto dos mestres… Eduarda acha que Rafaela poderia jogar bem melhor, se não bebesse tanto durante a partida.

    — Bispo seis da torre da dama.

    Eduarda tem um pescoço liso, com destaque para uma veia fina e a impressão de que nascera para alvo de vampiros. Para Rafaela, Eduarda faz gênero. Jogar xadrez é como dama, sudoku ou gamão. É só um jogo. Serve mais uma dose de uísque com gelo e saboreia. Já Eduarda, mais elitista e menos etílica, classifica o xadrez como um desafio de estratégia e tática. Necessariamente sóbria.

    — Peão cinco da dama.

    Rafaela opta por tomar a iniciativa. Não tem nada a perder arriscando. Eduarda se defende e prepara um contra-ataque. Rafaela sente-se provocada e agora se concentra nas artimanhas do jogo. Eduarda sorri, demonstrando uma calma irritante. Meio arrogante.

    — Torre dois da torre.

    Nesse momento, Rafaela planeja um ataque com a dama. Eduarda pressente. É melhor pensar numa defesa segura.

    — Dama sete do bispo do rei.

    Gradualmente, Eduarda avança. Visa o xeque mortal, com paciência.

    — Cavalo come bispo.

    Rafaela pega mais umas pedras de gelo e completa seu uísque. Acha um caminho. Como não havia pensado nisso. Suas chances
    aumentam, ela calcula, e recomeça a gostar do jogo. Eduarda hesita e demora a responder.

    — Dama come peão do cavalo.

    O jogo parece caminhar para o empate. Qualquer movimento arriscado pode significar a derrota. Eduarda não tira a mão do queixo e olha fixamente para as peças. No fundo, considera uma humilhação perder para Rafaela. Inveja o jeito da oponente encarar a vida, uma forma sedutoramente irresponsável. Queria ser assim, levar as coisas menos a sério.

    — Roque pequeno.

    Eduarda posiciona o bispo e o cavalo do rei atuantes no centro, mantendo o semblante provocador e a segurança de quem tem agora o controle da situação. Rafaela confia na sua intuição e se esforça em encontrar saídas diante do ataque fulminante (ou galopante) do cavalo que…

    — Cavalo seis do bispo… e xeque.

    Rafaela ainda vislumbra uma saída. Meio suicida. A melhor defesa é atacar. O jogo fica tenso. As investidas vão se sucedendo e Eduarda consegue neutralizar as mais importantes. Após uma troca forçada de peças, nenhuma grande vantagem para ambos os lados.

    — Peão come pão.

    Rafaela propõe empate. Eduarda recusa. Rafaela ri, amarelo…

    — Peão come cavalo.

    Eduarda, enquanto aguarda a vez de jogar, desabotoa a blusa e começa a passar a mão pelos seios, alegando calor. Rafaela reclama que ela está tirando a sua concentração. Eduarda sorri.

    — Torre quatro do cavalo.

    Eduarda responde com um avanço de peões. Enquanto aguarda a resposta de Rafaela, olha para ela: é uma morena bonita, de lábios, carnudos, corpo de atleta e os olhos pretos que pedem por carinho. Pena ser doidivanas.

    — Bispo defende a torre.

    Rafaela não consegue tirar os olhos dos seios de Eduarda. Ameaça parar de jogar. Aquilo não está nas regras e nem tem cabimento. Eduarda não dá bola. Rafaela tenta se concentrar.

    — Dama cinco do rei.

    Rafaela cada vez mais encurralada, com seu rei sem muitas opções para escapar, reúne as últimas forças para tentar uma saída.

    — Peão sete da dama.

    Eduarda sabe que o xeque-mate é iminente. Vai coroar seu peão da torre. Sugere que a adversária admita e abaixe o rei branco. De repente, Rafaela dá um pontapé no tabuleiro, derruba as peças, pula em cima de Eduarda, a agarra e beija com raiva. Eduarda, depois de esboçar uma pálida reação, acaba cedendo e retribui o beijo. As duas, deitadas sobre as peças e o uísque com gelo entornado, se enroscam agora. O jogo havia terminado. Começavam se apaixonar e nem se davam conta.

  • Rebeldias do mundo

    Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra?

    Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador.

    E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima.

    Isso sem falar na meia que desaparece na máquina e reaparece meses depois, sem par e sem explicações — como quem não deve satisfação a ninguém.

    Agora, o que realmente me tira do sério é a fila do lado andar mais rápido. Seja no supermercado ou no pedágio. Quando decido trocar, a antiga, vingativa, flui imediatamente, e eu fico lá atrás, acompanhada apenas do remorso.

    Tento entender a lógica dessas rebeldias do mundo e começo a desconfiar de que não sejam falhas. Talvez sejam combinados secretos entre as coisas, uma forma discreta de me fazer companhia.

    Penso nisso quando saio pela esquerda em vez da direita, quando chego para embarcar no voo das oito da manhã com passagem para as oito da noite, ou quando chamo a namorada atual do amigo pelo nome da anterior.

    No fundo, gosto de acreditar que as coisas erram por solidariedade. Um gesto silencioso para quem, como eu, também falha, esquece, tropeça — e tenta de novo.

  • A Bola de Neve e seus encantos

    — Mãe, abre o portão.

    É a Bárbara. Ela vem me ver às quintas-feiras.

    — Ué, você mudou os móveis?

    — Como?

    — A mesinha de café, aquele canto ali… Da última vez que estive aqui, não tinha! Andou garimpando, né? Já te falei: você não deve mais sair sozinha.

    Bom… tomei um pito. Mas vou guardar esse assunto para outro dia.

    — Falando nisso, filha, faz dois cafés. Mesmo estando calor, eu tomo meu café nesse horário. É costume.

    — Mas aí tem tomada elétrica?

    — Coloquei uma extensão.

    — Jesus! Mãe, até isso?

    Desenvolvi tantas qualidades nesta fase da vida…

    Uma delas é não retrucar na sequência de uma fala preocupada.

    Ainda mais quando é quase uma cópia das que ela ouvia quando criança.

    Entro com algo leve. Pergunto se o sapato é novo, ou o brinco, qualquer coisa que mude a energia.

    É tiro certo!

    Mas, voltando à sala, nada é novo. Nós, eu e a minha “jardineira fiel”, brincamos de decoradoras.

    Agora, com o advento da Inteligência Artificial, não há mais razão para uma sala permanecer inerte através dos anos.

    Sendo assim, não precisei andar por lojas, nem comprei nada novo. Apenas “repaginei” a minha casa.

    Ficou muito linda. Entrou um frescor, me renovou, me alegrou.

    É claro que foi a Terê que me ajudou. Ela também tem o espírito assim, meio nômade. Tanto que eu a conheço desde quando nem tinha filhos. Agora já tem netos.

    Assim como a minha casa, ela não gosta de ficar sempre ali, daquele mesmo jeito.

    Já me acostumei. Ela vai. Mas volta.

    Faz dois anos que voltou.

    De onde?

    De outras salas, outras patroas, outras vivências.

    Minha filha tomou o café, deu uma volta pela sala e parou em frente ao móvel onde havia um antigo globo de neve, com a miniatura de um trenó e Papai Noel.

    — E este enfeite? A senhora já tinha?

    — Sim! Tenho há quase cinquenta anos. Era da sua avó.

    — Hum…

    Senti que sua dureza ao me julgar, amolecia…

    Ela se afasta.

    Ofereço um pedaço de bolo, pergunto do Alfredo, das crianças. Quero a normalidade, o trivial.

    A conversa então flui, a tarde passa e nos despedimos até a próxima quinta-feira.

    Felizes e gratas .

    Mudamos os móveis, trocamos as coisas de lugar, criamos hábitos novos e conservamos outros por décadas. Terê vai e volta. Bárbara chega às quintas. Eu tomo meu café sempre no mesmo horário.

    Manias. Costumes. Rotinas.

    E, entre uma coisa e outra, nós três desenvolvemos uma habilidade que talvez só o tempo ensine: para ser feliz, é recomendável fazer “cara de paisagem,” em determinadas situações.

  • NÓS

    Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas mãos por todo seu corpo. Na frente, atrás… Que pele macia e sedosa você tem. Nenhuma mancha, nenhuma marca, nenhuma cicatriz. Você beija bem. Sim, eu beijei você várias vezes. Nossas línguas já se encontraram. Uma procurando a outra com avidez, lembra? Nossos corpos se encaixaram. Eu tenho a impressão de que você me deseja também. É claro que deseja. Sente tesão. Uma coisa forte e sincera. Da nossa última noite de amor você se recorda? Eu me lembro de cada detalhe. Você chegou usando aquele vestido vermelho decotado. Ele deixa você ainda mais sensual. Realça suas formas. Como se você precisasse desses artifícios… Eu estava ansioso, não parei de olhar o relógio até você chegar. Eu corri ao seu encontro, abri a porta do carro. Eu lhe preparei uma bebida. Sei o que você gosta de tomar. Eu sei tudo a seu respeito. Ninguém conhece você melhor do que eu. Nós bebemos juntos. A música que tocava era a nossa música. Você escolheu bem. Realmente, como você disse, ela parece ter sido inspirada em nós. É a vida imitando a arte. Ou seria o contrário? A gente dançou de rosto colado. Passei a língua na sua orelha. Mordi seu pescoço. Ficou uma marca. A sala na penumbra. Você me pediu que abaixasse a luz. O que eu não faço para contentar você? A gente subiu para o quarto. Eu carreguei você nos braços. Amantes em direção ao ninho de amor. Você sempre foi romântica. Sempre adorei as situações que você criava, suas fantasias… Que imaginação! Eu embarcava nelas. Elas se tornaram minhas fantasias também. A cama macia, lençóis de seda, uma comichão queimando nossos corpos. Você já sem o vestido. Você completamente nua. Seus mamilos rosados, seus pelos pubianos. Seu corpo… uma obra de arte. Que visão maravilhosa. Eu possuí você. Com carinho. Você teve um orgasmo. Você me abraçou e me disse que queria tanto que aquela noite não terminasse nunca. Era exatamente o que eu estava pensando quando você falou. Também adoraria que aquela noite fosse eterna, durasse para sempre. Você teve outro orgasmo. Você está percebendo a sintonia que existe entre nós? Nós temos sorte. Achamos um ao outro. A metade da laranja, a tampa da panela, almas gêmeas, seja lá o que for. Eu sou seu, e você é minha. Ou ainda vai ser um dia. Sei que vai. Tenho fé. Nós tomamos banho juntos. Nossos corpos se tocaram embaixo do chuveiro. Eu acariciei sua barriga. Eu enxuguei você carinhosamente. Passava a toalha pelo seu corpo, porcelana fina e delicada. Depois do banho, nos amamos de novo. Dessa vez no chão forrado com pétalas de rosas. Rosas brancas, suas favoritas. Em cima do tapete também, no meio das almofadas. Somos insaciáveis. Você gosta de variar, sempre rejeitou a mesmice, fugiu da rotina. Os laços que nos unem. Nós… A carta prosseguia. Alice, porém, resolveu não continuar a leitura. Desde a morte de Sandra, ocorrida três semanas atrás, aquela era a primeira vez que entrava no quarto da filha. Tudo estava exatamente como ela havia deixado. Dobrou o papel, colocou-o novamente dentro do envelope e o abandonou no criado-mudo, onde o encontrara. Apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.

  • “Zerou” a vida?

    Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game.

    O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a praia de Copacabana. Leio a legenda: — Zerei a vida! Ela é ainda tão jovem, pensei.

    Não. Zerar não significa tirar nota zero. Zerar é a possibilidade de recomeço de um novo jogo e, portanto, abrem-se novamente as possibilidades de vitória, na aposta de que o sucesso esteja pleno de conquistas, e que possam ser vistas pelos outros.

    Na lógica do “corre” , desacelerar seria escolha de quem está frustrado ou de quem está esgotado, fugindo da captura algorítmica.

    Na matemática da vida real também zeramos o saldo de créditos e débitos e assim iniciamos o próximo ciclo de resultados. O circuito se repete neste jogo em que somos impelidos a “lacrar”. O entusiasmo está contido em cada possibilidade de gozo, como se assim descobríssemos o sentido da vida.

    Zerar a vida não seria secretar sentidos da própria experiência de viver? Se a coragem necessária para enfrentar a única partida para valer só se justifique com um sentido, estamos todos “lascados”! Melhor será esvaziarmos o cofre das ilusões onde esbarramos naquilo que não tem sentido.

    Entre perdas e ganhos, que o saldo seja em créditos de desejos, assim, mesmo sem prêmios ou troféus, a vida sempre valerá a pena.

  • Maldito Ipê Amerelo

    Dia desses, acordei desagradavelmente surpreendido, ao avistar pela janela um objeto estranho sublevar-se na paisagem urbana a que estou habituado a contemplar pelas manhãs. Em meio à monocórdica retitude dos edifícios cheios de sacadas, num cenário perfeitamente simétrico, ornado com veículos, postes, bueiros, muros, grades, fios elétricos, guindastes, betoneiras, tapumes, andaimes e fumaça, eis que se sobressai ao pálido grafite, uma intrusa árvore carregada de flores… amarelas.

    Que significa isso agora? Só me faltava essa… Não podemos nos assentar sossegados por um segundo na sepulcral paz matinal costumeira, apreciando o turvo panorama carregado de monóxido de carbono e dióxido de enxofre, sem sermos agredidos por grotescas manifestações festeiras desse meio-ambiente rebelde.

    A natureza parece não conhecer limites, não tem consciência de seu lugar. Não bastassem as vastas áreas em parques, reservas e na Amazônia em que foi devidamente alojada, ocupando espaços que deveriam ser usados para plantar soja e criar gado, agora temos que aturar resquícios florestais a invadir as calçadas das cidades com esse amarelão cafona, tão vivaz que parece saltar pra fora da imagem.

    Ao chegar essa estação, a coisa se espalha como praga por tudo quanto é canto. Num irritante ciclo que se repete anualmente, somos obrigados a conviver por dias com essas abusadas plantas floridas, afrontando a paisagem e escancarando aos olhos suas espalhafatosas tonalidades.

    Ainda por cima, atraem pássaros barulhentos e legiões de abelhas, lagartas entre outros insetos asquerosos que ameaçam nosso estéril habitat em apartamentos dedetizados e shoppings higienizados.

    Quem lhes dá o direito de subverter a paisagem construída por nossa asséptica civilização? Quem foram os imbecis que as plantaram, subtraindo preciosos metros quadrados do passeio público? E as autoridades municipais, onde estão, que não tomam as necessárias providências coercitivas?

    Ao invés de ficar poluindo visualmente nosso espaço urbano, poderiam ceder suas madeiras para as fábricas de móveis e pisos, estabilizando os preços dessa matéria-prima tão escassa em nosso mercado de construção civil. Ao invés disso, deixam-nas viver impunemente.

    Até o nome soa patético, “ipê”, expressão tupi, herança maldita do tempo em que os selvagens conspurcaram nossa sociedade com seus valores retrógrados. Que eu saiba, esse vocábulo estridente inexiste em inglês ou qualquer idioma civilizado. Língua de índio. É palavra típica desse ‘paiseco’ atrasado. Faz parte da nossa ridícula cultura terceiro-mundista, maculada com influências espúrias de africanos e silvícolas, acostumados a viver descalços e seminus no mato.

    Por sorte, esse abuso durou pouco. Após emporcalhar o concreto com suas pétalas, a árvore ficou desnuda e passou a exibir apenas galhos esquálidos, com aparência cadavérica, em harmonia com seu entorno. As coisas retomaram a normalidade. Poderei voltar a acordar sem sobressaltos apreciando o maravilhoso acinzentado que dá significado a minha insípida existência.

    Sem folhas, sem flores, sem cores, sem amores, sem indigestos ipês amarelos.

  • A bela da porta

    Era assim. Durante a semana eu caminhava logo cedo para o colégio Santo Agostinho. Percorria uns quatro quarteirões de onde eu morava na época, no Leblon. Era no século passado, entende, então eu, como todos os demais garotos de 12 anos, levava uma bolsa a tiracolo com livros e cadernos, pendurada em um dos ombros, que àquela hora pesava uma tonelada. Bem diferente de hoje quando só se vê para cima e para baixo malinhas de escola com rodinhas. Ao que parece a tal da ergonomia é invenção recente, desse século. Hoje quando lembro da minha situação indo para o colégio imagino como era possível um menino carregar tanta coisa sem passar o resto do dia reclamando de dores. Vantagem da pouca idade, claro.

    Enfim, seguindo. Não lembro bem o mês mas acho que deve ter sido entre o verão e o outono ou de outra maneira entre janeiro e julho. Não, foi entre março e junho tenho certeza. Sabe por que? Porque em janeiro e fevereiro fazia um calor danado, além de parte do tempo ser férias, e na minha memória não lembro de fazer calor. E julho, como hoje, era mês de férias escolares. Bom, acho que deu para entender quando era né?

    Retomando. Eu vinha caminhando devagar pela rua General San Martin, inclinado para um dos lados como um navio adernado por conta do peso. Até que um dia eu a vi. Ela era linda, cabelos castanhos claros meio cacheados. Não lembro a cor dos olhos mas a expressão no olhar era muito séria. E muito linda.

    Na primeira vez que eu a vi não acreditei. Ela estava em pé, diante da porta de casa, de uniforme escolar esperando acredito o transporte para a escola. Era linda demais. Diminui o passo à medida que me aproximava. Devo ter feito uma expressão de imbecil porque a menina nem me olhou. Não parei, segui adiante porque tinha aula e não podia me atrasar.

    A partir daquele dia minhas manhãs de ida à escola mudaram, ficaram mais radiantes e animadas. Tomava café correndo e me jogava na rua em direção a casa dela.  Aos poucos fui ajustando meu horário para sempre coincidir com o dela. Com um pouco de sorte no meu esforço de tentativa e erro eu consegui. Sabia exatamente a que horas eu tinha que passar pela rua para vê-la. Isso tinha um lado muito bom e outro nem tanto. Era bom poder ver a bela menina da porta. Era ruim porque não podia ficar muito tempo, tinha aula e chegar atrasado era uma opção inexistente na minha vida.

    Na minha memória foram várias as semanas em que eu a via ali paradinha. Honestamente não sei dizer quantas foram as vezes de ficar passando e observando a bela na porta da casa. Sol ou chuva, não importava, eu ia ao encontro da bela menina na porta de casa. Você pode achar estranho mas eu nunca, repito, nunca me dirigi a ela. Era tímido e fechado como uma ostra.

    Por isso passei a arquitetar um plano para falar com a bela menina. Escrever um bilhetinho e entregar a ela quando passasse foi a primeira das idéias. Mas esbarrou num problema insolúvel: minha caligrafia. Minha letra era, e ainda é, tão feia que estava mais para escrita hieroglífica do que para algo minimamente legível. Portanto se eu deixasse o bilhetinho ela teria que buscar um especialista no Museu Nacional para decifrar minha mensagem. Fora o vexame que eu passaria por ter uma letra horrorosa. E tinha outro aspecto terrível no plano: o que eu escreveria? Uma saudação? Um cumprimento carinhoso? Um versinho copiado? Nada me parecia adequado. Assim a idéia foi obviamente abandonada.

    A solução talvez fosse a mais simples mas ao mesmo tempo hiper difícil para o meu eu daquela época: parar diante dela e conversar. Falar o que? Sobre o que? Provavelmente eu gaguejaria, daria vexame, ela riria da minha incapacidade e eu sairia dali praticamente morto em vida. Na indecisão de minha adolescência, escolhi nada fazer.

    Assim eu a via, ela não me dirigia um mísero olhar e eu seguia para o Santo Agostinho transbordando de alegria e fantasiando muito. Qual seria seu nome? Como seria a sua voz? Será que gostava de ler? De ir ao cinema?

    Um dia eu me lembro quando me aproximava dela como sempre a menina do nada sorriu na minha direção. Um sorriso lindo, de outro mundo, de orelha a orelha. Parecia iluminar a calçada àquela hora da manhã. Pego de surpresa, parei de olhos arregalados. Engoli o coração que parecia uma batedeira e queria sair pela minha boca. Tomei coragem e quando sorri e as primeiras palavras começaram a sair da minha boca um vulto surgiu e se abraçou nela. Era um garoto mais alto e pelo visto mais velho do que eu, cheio de atitude com sorrisinhos, “bom dia gata”, ela ronronando de volta e…beijo! Os dois estavam se beijando bem ali, na minha frente. O sorriso afinal não era para mim.

    Fiquei parado, mortificado. As lágrimas vieram aos meus olhos e corri para longe deles. Nem devem ter me notado. Parei próximo a entrada da escola para me recompor. Enxuguei as lágrimas, jurei nunca mais passar na porta dela e de não me encantar com nenhuma garota bonitinha como ela. São fáceis, fúteis e mentirosas, resmunguei para mim mesmo.

    Bom, a segunda parte do juramento eu não cumpri tanto que casei três vezes e uma delas com uma miss Verão Fluminense, o clube tá? Já a primeira parte eu pus em prática na manhã seguinte. Mudei meu caminho e passei a ir para a escola pela avenida Ataulfo de Paiva. Na porta dela nunca mais passaria em frente.

    Quando isso aconteceu? Faz as contas, eu tinha 12 anos na época portanto foi há décadas.

    E ela? Ah, sei lá. Nunca mais a vi nem soube dela. Lembra, nem sabia como ela se chamava nem nada. De repente casou com aquele bobalhão. Ela também não era assim essa maravilha toda. Se mereciam, afinal.

  • Loteria Sagrada

    No fastiar dos dias, nos cruzam rotinas que trazem novas oportunidades, e outras que quase não tentamos tocar. Simplesmente porque escolhemos a que nos arrefece o caminhar, como um templo de braços abertos, com ofertas a seu critério. “Estamos procurando fora de nós por força e confiança, mas elas vem de dentro, e estão lá o tempo todo” (Anna Freud).

    Um desses templos com múltiplas ofertas, é o “Omikuji”, construído em Tóquio, na área de Asakuda. Ele recebe por ano cerca de 30 milhões de pessoas, que vão em busca de uma palavra mágica. É parada obrigatória pra quem visita Tóquio, e um dos tradicionais templos japoneses, onde encontramos algo como uma “loteria sagrada”, que nada mais é do que um pequeno papelzinho da sorte oferecido à escolha do visitante. Por apenas ¥100 (R$ 3,50 ), o visitante segue um rito: coloca uma moeda em uma lata e retira uma das varetas de dentro do compartimento da vez. Com o número escrito nela, busca a referida gaveta e retira o primeiro papel disponível. Se a mensagem for positiva, guarda-se no bolso, caso contrário, é só amarrá-la em uma das balizas do local, com o objetivo de deixá-la pra trás. Parece que nesse curto encontro literário você descobre que não é a vida que vai te dizer o que você quer ser. E tenta se enganar, porque na verdade, é você que vai dizer pra vida o que vc vai ser. Na gaveta da sugestão, seu poder de escolha filtra oportunidades que a brincadeira torna realidade, e trás reflexão para os casos agradáveis, porém, expõe sua vida íntima, quando o recado descartado mostra o seu critério excludente, daquilo que pode ser mais complicado resolver. É muito difícil construir uma boa história de vida, que leva tempo e toma sua energia, mas pra acabar com ela, só necessitamos de um instante. A escolha que podemos fazer, somente das coisas boas, exclui a possibilidade de encontrar lá na frente um prazer maior do que esse imediato. Como o fez Caio Augusto Siqueira, que ganhou a Olimpíada Internacional de Física aos 17 anos, em 2021, considerada a mãe de todas competições científicas. Desde criança dedicou-se as dificuldades das ciências exatas e ganhou duas medalhas douradas brasileiras na Olimpíada, em 2011 e 2012. Estudou livros do ensino superior e em outros idiomas. Comumente permanecia até tarde da noite com obras em inglês, russo e francês. Em uma prova que durou cinco horas, demonstrou seus conhecimentos que lhe concederam o ouro olímpico.

    Mais ou menos assim você pode mostrar sua habilidade pra fora de si, com o gesto de aceitar o que lhe foi posto, e assim conferir sua capacidade de realização perante os seus. É a morte que pergunta ao tempo que horas são, e por isso não lhe confere a pressa diária. Coisa que por sua decisão o impede de curtir a paisagem que passa em seus olhos, em troca de vãos minutos ganhos pela decisão afoita na busca de uma atitude certeira, por vezes baseada num pequeno papel, escrito num mundo que ainda não está pronto, sem antes olhar pra trás.

  • Cinzas

    Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor.

    Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado.

    Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver.

    Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o inferno dentro de mim e que me enfeitiçava com um beijo gentil em meus lábios.

    Nesse descompasso, perdi o controle das horas, dos dias e de mim mesma. Tudo que eu tinha era um quarto escuro, borrado de lágrimas que insistiam em cair.

    Fui velada viva, enquanto amaldiçoavam meu nome em meus ouvidos e desejavam que eu ficasse. Meu luto por mim mesma continuava, envolvendo tudo que fui no passado, o nada que eu era naquele presente, e o futuro jamais seria o mesmo.

    Depois de velada e cremada, voltei ao início: como cinzas. Dessa vez, em pequenas andanças, fui recolhendo minhas cinzas. O fogo que antes ardia em mim começava a amornar. Esse era meu recomeço, meu acordar.

    Começava minha corrida contra o tempo. Era a hora. Eu precisava refazer meus passos pra não cair em descompasso.

    Revivi por mil anos todos os sentimentos que já habitaram em mim, encontrei flashes esquecidos de felicidade e amor.

    Vivi a eternidade desses momentos e colei entre meus ossos e minha pele, para que nunca mais saíssem de mim.

    Despedi-me do meu outro ser, porque sabia que esse começo queimava, mas de vontade de ser, estar e viver. Era o tipo de fogo que incendeia e não o que queima.

    Tudo era avassalador. Um pequeno sorriso, uma pequena paixão e milhares de momentos que começavam a se repetir, fazendo de mim a criatura que mais rogava por desejo.

    Fui, enfim, sentenciada. Liberdade era a palavra que gritava em minha cabeça. Eu podia morrer de outras mil formas, mas não dessa, porque nenhum pedaço meu era mais da minha dor.

    Fechei a conta. Fui aceita no céu.

  • O velho saudosismo de todos nós

    Por alguma razão que desafia meus parcos conhecimentos, todos nós somos mais ou menos saudosistas. Com isso, não quero dizer que estejamos, naturalmente, inclinados a um pungente estado de melancolia. Talvez o caso requeira alguns cuidados, mas não chega ao absurdo de tal fatalismo. De toda forma, creio que o passado seja um personagem que insiste em ser valorizado, mesmo quando seus atributos só podem ser, medianamente, apreciados.

    — Bom mesmo era no tempo do finado Clécio! Aquele galego era dos bons! Com ele, não tinha essa bagunça que virou esse condomínio!

    Peço desculpas pela interrupção, mas a amiga haverá de entender a indignação do infeliz morador. São altas horas da madrugada, e o pobre coitado ainda não conseguiu pregar os olhos. O antigo síndico, Clécio de Andrade, era um capitão reformado do Exército. Sujeito de poucos amigos, com sessenta e tantos anos de idade, fazia da administração daquele condomínio a sua grande profissão de fé. Após tantos anos de caserna, gerenciava-o com a mesma disciplina que um jovem tenente costuma liderar seu pelotão. Aqueles eram outros tempos, e, de fato, os moradores do Edifício Baronesa de Itu não desfrutavam mais das mesmas paz e tranquilidade. Hoje em dia, seu Clécio não está mais entre nós, aquelas antigas famílias já não moram mais ali, e a maioria dos condôminos é formada por estudantes que vieram do interior do estado. Não se tem mais aquele senso de comunidade, sabe?

    — Antigamente, os jogadores honravam a camisa do time. Agora, só querem saber de dinheiro, festinha e badalação. E é um mais perna de pau que o outro!

    Já esse é o seu Manoel, um ilustre futebolista frustrado do bairro. Nunca o vi jogar, mas todos dizem que era bom de bola. Parece que foi até selecionado para jogar por um grande clube de São Paulo, mas uma grave lesão no joelho o tirou dos campos. Privado de seu sonho de menino, continuou acompanhando os jogos do seu time do coração como torcedor fanático que é. O problema é que a atual fase não é das melhores, e aquela esquadra tem sucumbido com frequência aos adversários. Para contrastar com o presente de sucessivas e vexatórias derrotas, o longínquo passado de gloriosos títulos ainda alenta o sofrido coração daquele aficionado. Mas é impossível não associar a decadência atual do futebol local aos problemas contemporâneos da juventude e aos excessos midiáticos que envolvem as estrelas do mais popular dos esportes. As mais disseminadas teses sociológicas de botequim convergem em afirmar que o futebol de outrora era muito melhor do que o praticado atualmente. Também pudera! Como comparar Pelé e Garrincha com o que se tem hoje?

    — Essa roubalheira toda não tem fim, mesmo! Antigamente, a gente ainda via político honesto e de brio! Hoje é só sem-vergonha corrupto!

    Essa foi a primeira reação de dona Marina, ao ler a notícia de que o fundo de pensão dos servidores municipais estava envolvido numa falcatrua das brabas. Dos pormenores do esquema, ela não sabia dizer muita coisa. Mas estava convicta de que, quando jovem, essas maracutaias não ocorriam. Claro está que sempre houve malandros ali e acolá querendo levar vantagens indevidas. E, evidentemente, na política não era diferente. O problema é que, para ela, a desfaçatez tinha se difundido tanto, que o que costumava ser a triste exceção virou a perniciosa regra. De suas reminiscências mais distantes, nada havia de menção aos desvios de verba pública tampouco às compras de votos. Não é para menos! Prestes a gozar de sua aposentadoria do serviço público municipal, preocupava-se com os efeitos que um possível rombo naquele fundo geraria sobre sua renda. Naquele edulcorado passado, não tinha tantas contas para pagar nem uma custosa artrite reumatoide para tratar.

    O passado brindou-nos com uma vida mais tranquila e pacata; Pelé e Garrincha não mais encantam o mundo futebolístico; e os larápios de hoje envergonham os de ontem. Frente a sentenças do tipo, o presente resigna-se com a sua contumaz inferioridade. Sujeito de boa autoestima, sabe que mais cedo ou mais tarde suas qualidades serão reconhecidas e rememoradas por todos nós. O desprezo com que muitas vezes ele é tratado não é capaz de sustentar sua condenação de primeiro grau. Quando essa injustiça salta aos olhos, o próprio tempo dá um jeito de reparar os erros de nosso incauto juiz interno. Diferentemente do passado, tipo impertinente e egocêntrico, o presente tem paciência de sobra para que seus defeitos sejam esquecidos e suas qualidades, realçadas.

    Não sei por que me estendo em demasia nessa argumentação. Antigamente, conseguia ser mais claro e objetivo. Já hoje em dia, quando sou interrompido abruptamente, perco-me em divagações e em solilóquios. Na verdade, acho que bom mesmo era quando não havia tempo a perder com especulações desse tipo. Mas naquela época eu reclamava da escassez de tempo… Ah, esse velho saudosismo de todos nós!

  • Um beijo ardente

    O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também.  Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k! 

    Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, abaixa-se, procura no chão, embaixo da cama, debaixo dos lençóis… Que foi?, pergunta de novo a jovem secretária amante. Os dois se abaixam pra procurar juntos. Em vão. Ele tem um insight mesmo sem saber o que isso significa, e se pergunta: será? 

    Que foi?, ela quer saber outra vez de novo. Não é possível, ela diz depois de ele contar. Será? 

    Difícil seria explicar pra esposa, chegando o empresário às 2 da matina, sem um dente – e de ouro 24k! Caiu na rua, no bueiro, caiu na privada, um assaltante… ela, a esposa, não engoliria. Sua vida, a dele, viraria um inferno.

    Abriu o jogo: minha jovem secretária, hã, amante, hã, engoliu. 

    Seu dente?!, exclama a esposa estupefata. 

    De ouro 24k, ele responde embaraçado.

    Pediu perdão. Era íntegro. Momento de fraqueza. Mil promessas. Amava a esposa. Como a ninguém. 

    Inútil, em vão, outro vão. A vida dele virou um inferno. 

     A esposa processou a amante: “Garimpo ilegal, além do mais!. Quero o dente – o pré-molar de ouro 24k! – de volta. Custe o que custar!”. 

    Não pelo valor, poderiam comprar uma dentadura inteira de ouro 24k. É questão de honra!, afirmou a esposa, peremptoriamente.

     Processo de rico corre mais rápido que entregador de pizza. Contra pobre, é quase instantâneo. O juiz deu 24 horas pra jovem secretária amante desengolir o dente. Métodos, ele disse, existem aos magotes – juiz gosta de enxundiar o verbo.

    Sentença cumprida, o dente foi devolvido são e salvo. A esposa guardou o agora suvenir no porta-joias. A essa altura o empresário já tinha reposto o dente, dessa vez mais modesto, de acrílico. Até porque, obviamente, um dente que passou pelo que passou o pré-molar de ouro 24k, entrando por onde entrou, saindo por onde saiu, quem teria coragem de usar?

    O beijo da jovem ex-secretária ex-amante marcou pra sempre, como uma nódoa de cajú, o cuore do empresário. 

    A esposa passou o resto da vida conjugal tentando um beijo daquele pra agradar o marido. Em vão. A vida toda arrancou dinheiro dele, mas nunca conseguiu arrancar sequer um incisivo.

    O caso ficou conhecido como O Beijo de Lingote. A jovem ex-secretária ex-amante, ganhou fama como A-Garimpeira-do-Pré-molar-de-Ouro-24k. Coitada.

  • Retrato

    De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem.

    Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só.

    O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência planejada, ao rumo escolhido.

    Entre os coqueiros, aceleramos e assistimos ao vento. Uma torre de telefonia informa que o aparente isolamento não existe.

    O gado branco e magro descansa. Longos espaços sem ninguém. Mal sabemos em que dia da semana estamos.

    O peixe rosado é escamado, as senhoras conversam, a varanda é gradeada, a casa é verde e rosa, a lavoura é de camarão.

    Uma Assembleia de Deus, um jardim de mandioca, uma conversa animada no botequim.

    O vento dança nos coqueiros. Os pensamentos vão devagar… Devagar, a vida passa nos olhos de ressaca do homem que olha a segunda-feira.

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