Crônicas

  • Dente na garganta

    Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o filho da puta, puta mesmo, de um pardieiro antigo do outro lado do rio. Deu a saída, gol na primeira jogada, o garoto na lateral levou no meio das pernas, os parceiros de time abaixaram a cabeça inconformados, ele era um desastre, ruim para um caralho, diziam no particular quando ele não estava por perto, mas ali, era tudo meio disfarçado, ninguém tinha peito pra reclamar alto, ninguém tocava nele, era o dono da bola, do terreno onde ficava o campinho, dos barcos ancorados ao longo do rio, das áreas de concessão na beira da estrada dos dois lados, alugados para construção de postos de gasolina e outros serviços, era dono da metade da cidade, era dono de parte do estado junto com outros sócios, era quem pagava o lanche depois do jogo, comprava a simpatia dos amigos, ninguém bolia com o menino.

    A reunião fora nos fundos do galpão, todo mundo sem camisa, celulares do lado de fora dentro da tampa de um tambor, sem secretárias, sem auxiliares, só os donos do negócio, o prefeito, o vice, o secretário de obras do município e o do estado representando o governador, o dono da empreiteira vencedora da licitação, edital arranjado, único qualificado capaz de cumprir as regras impossíveis, um cala-a-boca pro resto, todo mundo teria sua vez nas próximas, pacto de silencio, fundão do Brasil, inalcançável, leis próprias, gente de Brasília no bolso, desembargador do estado no bolso, oposição no bolso, suados, caldinho escorrendo pelas dobras do pescoço, mãos feito garras, unhas sujas de sangue, olhos vermelhos, saliva, baba, dente na garganta, a gente dona da engrenagem, da massa do cimento, das ferragens, tudo de segunda e que ergueria a nova ponte para ligar os dois
    estados.

    Numa clareira entre arvores altas, mato cerrado, três urdiam um plano. Ele morre amanhã, é o único jeito. Mas já vamos pedir o dinheiro hoje, a gente mata ele depois, vamos ter que sumir, não podemos mais voltar pra este lugar, e quem quer isto aqui? Vamos pra São Paulo, lá a gente desaparece, vira um traço, a gente é traço aqui, não é por isto que estamos matando? Eles riem, fazemos justiça social, e riem de novo mais e mais. Teu neto tá com a gente, dizia o bilhete. O prefeito urrou, ergueu-se e ergueu com ele a mesa, tombou-a com os braços gordos e fortes, chama o Jeremias, descobre quem escreveu isto, vai atrás do garoto, que não posso agora, tenho reunião, vai na casa dele, o celular da maldita não responde, deve tá metendo, é só o que aqueles dois fazem o dia inteiro, vê se tá no campinho, essa hora eles tão lá, é todo dia de tarde lá, descobre isso aí, mata todo mundo e joga no rio, mas quero os nomes, varre a cidade, ameaça todo mundo, quero esses caras no chão, mas me chama antes, quero ver a cara desses filho da puta, deve ser gente querendo mudar as coisas, algum desgarrado, algum comunista querendo fazer arruaça, vai e me chama, vai, vai.

    Três motos seguiam os garotos. Voltavam do jogo, algazarra, risos, deboche uns dos outros, o neto do prefeito na frente, sempre ele na frente, a bola embaixo do braço, os outros já ansiosos, já sentiam o gostinho do sanduíche, do copão de coca, era no McDonalds, o único da cidade, presente do prefeito para o filho do presidente da Câmara, amigo velho, amigo do peito, irmão. Três carretas, quatro carros, cinco motocicletas e os garotos atravessavam a ponte, um tremor, dos dois lados do rio abriram-se duas rachaduras, que se alargaram e balançaram a ponte, e tudo se desgarrou, um segundo e era o vazio, o estrondo na água, o reboliço das ondas levantando os barcos nas margens, o espanto, os gritos, a correria, o estupor, o topo dos caminhões sumindo nas águas, o resto já era nas profundezas, nem sinal dos meninos. No ar, um oco, Jeremias chegou na ponte, gritou para o outro lado, era de lá que vinham os garotos? Alguém respondeu. Foram todos, o menino também? Todos, o menino também. Jeremias abaixou a cabeça, sorriu levemente sem que ninguém percebesse, a vida é um sopro, pensou.

  • O futebol de hoje

    Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar…

    Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos, a euforia e o contágio: futebol. Simplesmente amar ou odiar.

    Deixando de lado os interesses escusos, as artimanhas do poder e os escândalos da política, o fato é que brasileiro e futebol se parecem com feijão e arroz, café com leite, queijo e goiabada, praia e samba. Estereótipo? Figuração? Muitos detestam o jogo bretão.

    Alegam que o esporte é o ópio do povo. Ou como também se costuma dizer, o pão e o circo! Outros, entretanto, adoram. Adoram com paixão. Adoram com desespero. Desesperadamente torcem!

    Em tempos de copa do mundo, as camisas amarelas saem dos armários: cornetas, enfeites, bandeiras e muitas outras coisas. Em tempos de copa do mundo, a letra do hino nacional é cantada com vontade e com firmeza. Verso após verso vê-se o Brasil brasileiro e toda a sua poesia. Em tempos de copa do mundo, unhas são pintadas de verde e amarelo, ruas inteiras recebem desenhos coloridos e carros desfilam com pequenas bandeiras.

    Há um milagre, um movimento, uma catarse! Patriotismo de chuteiras? Há uma aclamação, um mistério, difícil análise! Complexidades e besteiras… Mas o futebol é isso! Exatamente isso: falar mais do mesmo, falar o que todos veem, falar o que todos sabem. O jogo está ruim. O zagueiro é um cabeça de bagre (expressão antiga, mas muito apropriada). O meio-campo não ata nem desata. A culpa é do técnico! O pênalti não foi marcado. A culpa é do juiz!

    Mas a seleção não está jogando bem! E o Brasil, por sua vez, também não está! O país mudou! Está mais dividido, agressivo, poluído com os seus ismos. O futebol também mudou! E como mudou! Meu Deus! O que fizeram com o futebol brasileiro? Brasileiro mesmo! Cadê esse infeliz de futebol?

    Jogo marcado daqui e marcado de lá! Marca-se tanto que, às vezes, a gente nem vê a bola! É um jogo robótico, pegado, malhado. Às vezes nem parece futebol!

    E ainda tem o tal de VAR, o chamado árbitro de vídeo! Este árbitro virtual revê cada jogada polêmica e conseguiu fazer a alegria do gol virar um suspense, uma novela, uma frustração!

    Imagina! O seu time marcou um gol e a torcida comemorou com todo o entusiasmo. Então… Para-se a partida! Alguns minutos de análise e o juiz anula o gol! Mas e o grito genuíno de gol? E a razão de ser do torcedor? A espontaneidade do momento único do gol? Não importa! Importa é que o vídeo mostrou um impedimento de 0,2 cm!

    Tempos pós-modernos!

    Que saudade do jogo bonito, do lance certeiro, do drible desconcertante!

    Que saudade da poesia no futebol!

    Que saudade do olé, do chapéu e chuveirinho!

    Saudade de acompanhar a seleção e torcer! Torcer de verdade!

    Nem as ruas são enfeitadas como antigamente!

    Depois do terrível 7×1 pra Alemanha, as coisas só pioraram!

    Jogadores saem muito cedo do Brasil e vão brilhar (ou não) em outro lugar. Ásia, Europa, África, enfim, em todo o lugar em que se paga muito bem para jogar!

    Perder faz parte eu sei! Chorar também. Jogou feio ou jogou bonito. Vitórias e derrotas nos ensinam e fazem bem. Às vezes, como dizem alguns, não era a hora. Às vezes, dizem outros, isso já era de se esperar. O problema é quando você desconfia do próprio time!

    Melhor dizendo, desconfia do futebol brasileiro como um todo!

    A performance vale mais que o gol! A dancinha vale mais que a vitória! Os cabelos e os cortes precisam estar bombando nas redes sociais, caso contrário, já viu!

    E as polêmicas então? Valem um campeonato inteiro! Dão engajamento na internet!

    Hoje tem jogador simulando cartão pra ganhar dinheiro nos sites de apostas! O cartão amarelo ou o vermelho foram combinados! Que jogo é esse?

    Até a camisa da seleção, a famosa amarelinha, não é mais a mesma, sequestrada, coitada, por uma seita de malucos, passou a significar outra coisa que não futebol! Uma pena!

    A camisa, as boas jogadas e o craque de verdade ficaram em algum lugar…

    Em que lugar ficou o nosso futebol? Eu, sinceramente, não sei!

    Vamos pra essa copa com a certeza de que não temos um bom time, mas somos brasileiros! Como se costuma dizer, brasileiro não desiste nunca! E não desistimos!

    Que Deus nos ajude (e Ele vai precisar ajudar muito)!

    Que saudade do Pelé, do Garrincha, do Didi, do Romário (como jogador) e dos Ronaldos!

    Mas fazer o que? Bora Brasil!!!!

  • Habitar o intervalo é preciso

    “(…) Depois da chegada vem sempre a partida”

    Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida.

    A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso.

    Para outras idas e vindas não estamos no controle, mas existe um intervalo previsível, como é o caso dos fenômenos naturais. Vemos com naturalidade o alvorecer e o entardecer, as idas e vindas das marés, o prenúncio de mudança na estação do ano. Seu fluxo é esperado e a repetição dos ciclos dá uma sensação de continuidade, traz sentido a esse movimento.

    Já no caso da vida, o tempo entre a chegada e a partida foge totalmente ao nosso controle e não é previsível. Especialmente na cultura ocidental, tendemos a ver a chegada como o polo positivo e a partida, o negativo. Recebemos com júbilo o que chega, pois é o novo, o que traz expectativa, e com angústia ou tristeza a partida, que é a despedida, a separação.

    A ideia de um novo ciclo depende da crença de cada um, mas existe uma lei maior que a natureza nos ensina e que foi captada pelo poeta.

    “(…) nada renasce antes que se acabe, e o sol que desponta tem que anoitecer”.

    Entre a chegada e a partida, resta-nos aprender a habitar o intervalo.

  • INCONVENIÊNCIAS

    Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto.

    — Não nos conhecemos de algum lugar?

    — Acho difícil.

    — Difícil, por quê?

    — Eu me lembraria de você.

    — É?

    — É.

    — Sou tão notável assim?

    — Ô…

    — Você também chama a atenção, de tão bonita.

    — Preferia que não.

    — Por timidez?

    — Por conveniência mesmo.

    — Não entendi.

    — Não estamos numa loja de conveniências, então…

    — Você tem ótimo humor, Claudette.

    — Como você sabe meu nome?

    — No crachá. Claudette com dois “t”.

    — Ah, é mesmo, tinha esquecido…

    — Claudette, bonito nome. Vem cá, que horas você sai do serviço?

    — Pra que quer saber?

    — Queria te convidar para uma cervejinha.

    — Não costumo beber com estranhos.

    — Posso me apresentar a você.

    — Estou falando de caras estranhos, esquisitos.

    — Como você é difícil, Claudette.

    — Só não gosto de enrolação.

    — Como assim?

    — Você está a fim de me comer, né?

    O hom em faz cara de espanto. Olha ao redor para se certificar de que ninguém está ouvindo. A loja está vazia. Melhor assim.

    — Se quer me comer, por que não fala logo?

    — Papo reto, Claudette?

    — Isso, não curto enrolação.

    — Ok. Quero te comer, sim.

    — E quem disse que eu quero?

    — Mas não foi você quem propôs?

    — O fato de propor não quer dizer que estou a fim.

    — E você está a fim, Claudette?

    — Sei lá, nem te conheço direito.

    — Foi você que disse que a gente tem de ser direto.

    — Sou assim. Mudo rápido de opinião.

    — O que você sugere, então?

    — Não sei, acho que tem de rolar uma conexão primeiro.

    — Ok. Podemos tentar. Vem cá, Claudette, nós não nos conhecemos de algum lugar?

  • Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa.

    Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela não deixou. Preferiu diferente. Ele escutou calado que sempre estaria em sua memória com muito afeto.

    Doeu. Mas ele manteve-se calmo apesar de tudo. Não se briga com quem pensa em nós com afeto mesmo que isso não nos baste. Procurar motivos para justificar uma ação irada carrega em si o perigo de resvalar em coisas mesquinhas. Maldade com a memória a dois.

    O certo é que ninguém é obrigado a nada além do que possa dar. Nessas horas o querer e o conseguir se submetem ao poder. Não posso mais do que consigo ou quero, foi o que ele entendeu do que ela disse.

    Então era mesmo o fim. Daí em diante, quem sabe? A terra é redonda e as vezes os caminhos se cruzam acidentalmente. Ou não. Quem sabe o que virá?

    Não iria reprimir um sorriso quando a visse. Quem sabe de onde viria esse gesto? Qual impulso fará ele brotar? Qual emoção parada em uma curva da memória? Uma saudade, um momento feliz a dois? Aquela canção sussurrada?

    Mas será só um sorriso, que será difícil de reprimir, e nada além. Sem sonhar, sem imaginar, sem pensar, sem cogitar. Sem nada adiante. Nada mais de expectativas. Nada de “e se…dessa vez…”

    Não. Chega. Basta.

    Mas também sem querer mal. Isso não se faz porque ofende o amor em si. “Sem me vingar que a vingança não tem valor”, ensinam Pixinguinha e Paulo Cesar Pinheiro em “Ingênuo”. No depois, por mais que se faça uma faxina sentimental sempre permanecerá alguma lembrança da pessoa que se foi. Talvez doa, talvez chame um sorriso solitário, até uma lágrima. Quem sabe?

    Não há tempo certo de duração no durante. Para uns se foi no tempo certo, porque nada mais havia a ser dito ou trocado. Para outros caiu cedo demais, porque muito ainda havia a ser vivido a dois, compartilhado e sentido. Para ele quanto tempo terá durado? Não importa porque não há mais, agora é passado.

    Enfim. Se a vontade de um se vai, a determinação do outro fica sem sentido. Perde força. No fim, sempre restará algo. Entre palavras ditas, expressões feitas e memórias vivenciadas, sempre haverá lá no fundo um pouco de tristeza enrolada em lamento.

  • Esquinas da alma

    A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.

    Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, sabia que casa era onde aquelas duas sombras se encontravam.

    Hoje, um poste mais moderno substituiu o antigo, mas se fecho os olhos, vejo a mancha de ferrugem em forma de flor que marcava sua base: “Vivo na casa da esquina com o poste da flor de ferro”. Ninguém mais via a flor. Só eu.

    Do lado oposto, a mercearia do seu Manuel, não existe mais. Transformou-se em uma loja de celulares com luzes azuis que piscam sem calor. Mas na minha esquina particular, seu Manuel ainda arruma as latas de goiabada na vitrine, e o sino da porta ainda tilinta quando entro para comprar bala de café com um tostão suado na mão.

    Às vezes, paro o carro ali, no ponto proibido agora, e olho. Os tijolos da casa foram pintados de um cinza frio. Mas na minha memória, as parreiras de maracujá ainda se enroscam no muro baixo, e o desenho que fiz com carvão, um sol com olhos de botão, ainda sorri de um tijolo perto da porta.

    O menino que fui não se foi. Ele está congelado naquele espaço-tempo. Está subindo no muro para pegar a bola que caiu no quintal do vizinho. Está sentado na calçada ainda quente, contando as estrelas que surgem timidamente entre os fios dos postes. Está esperando, com o coração batendo no pescoço, a primeira namorada que vinha encontrar com ele “na esquina”, ainda escondida dos pais.

    O passado não vive dentro das paredes que habitamos. Ele fica retido nos espaços de transição, nos limiares. Lugares onde se fica entre o dentro e o fora, entre o partir e o ficar.

    A nova dona da casa deve achar estranho quando, às vezes, vê um homem de quarenta anos parado em frente ao portão, imóvel, olhando para o nada. Não vê que ele está olhando para tudo. Para o fantasma da bicicleta com rodinhas laterais que faz uma curva desengonçada. Para o eco das risadas escondidas noturnas. Minha vida atual acontece em outros lugares, com outros códigos postais. Mas meu passado, teimoso, não quis se mudar. Para lembrar que, antes de ser quem sou, fui aquele menino que acreditava que o mundo começava e terminava no ponto onde a rua fazia curva.

    A cidade muda, as casas mudam de donos, as ruas se modernizam. Mas as esquinas da alma permanecem intocadas.

  • Turbulência

    Queria escrever um texto calmo que saísse de mim e pousasse languidamente na virtual folha de papel. Não sou assim! Meus textos são ansiosos, temem não alcançar a luz. Temem alcançar a luz. 

    Tenho muita inveja de quem consegue ruminar seus escritos, escolher para eles o melhor tempo e lugar; a melhor palavra. 

    Não sou assim. Meus textos são ansiosos! Vomitam verdades e mentiras com medo do arrependimento. Saem pela fresta da porta espremidos, em fuga, porque não podem mais habitar apenas em mim. Querem vozes outras, olhares díspares para não morrerem sufocados. Saem, porque precisam de ar! 

    Há paz quando na folha de papel. Descanso merecido da turbulência em mim. 

  • Não fale com estranhos

    Natália percebeu a ausência logo ao acordar.
    Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio.

    O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso.

    Mesmo assim, algo tinha desaparecido.

    Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava perigos, puxava-a pelo braço antes de decisões precipitadas.

    Agora o quarto estava vazio.
    — Estranho — murmurou.

    Levantou-se devagar, como quem testa o chão de uma casa onde algo mudou.Ao sair de casa, Natália levou a mão ao bolso para conferir a carteira.

    Parou no meio do gesto. Dessa vez não conferiu.

    Era curioso: sempre conferia duas vezes — às vezes três — como se ouvisse aquela voz, advertindo que ela poderia ter sido roubada entre a porta e o portão.

    Só ouviu o burburinho das pessoas indo em direção ao ponto de ônibus.

    Como sempre, a condução estava lotada.
    Ao seu lado alguém fez um comentário inconveniente.
    Normalmente ela ficaria em silêncio.
    Dessa vez responde.
    E nada acontece.

    O telefone vibra, com a mensagem do chefe – sem aviso prévio, ele tinha mudado seu compromisso da manhã para outro endereço.

    Respondeu de pronto com um emoji de indignação — e nem ouviu aquela voz costumeira: jamais responda ao chefe.

    Cada vez mais intrigada com a ausência de seu companheiro, Natália pediu uma informação na rua, pois não conhecia o caminho para esse novo compromisso.

    Durante anos a voz teria dito:
    não fale com estranhos.

    Mas o homem apenas ajuda.

    Algo simples como:
    — A estação fica duas quadras para lá.
    Nada ameaçador.

    No fim do dia, no caminho de volta para casa, Natália percebeu que estava diante da rua que sempre evitara.

    Durante anos aquela voz repetira a mesma coisa:
    — Não passe por aí.
    — É perigoso.
    Mas a voz continuava em silêncio.

    Então atravessa.
    E encontra apenas:

    – Uma padaria
    – crianças brincando
    – um senhor regando plantas

    Já em casa, sobe as escadas saltando de dois em dois os degraus, como fazia quando criança. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, o ventilador rodando preguiçoso no teto, à sua espera.

    Mas algo havia mudado. Pela veneziana entrava um raio de sol que iluminava o seu lado na cama. No teto, a sombra dos galhos dançava devagar.

    Natália sorriu.

    Algumas sombras existem.
    Outras a gente inventa.

  • Lisboa revisitada

    Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro.

    Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agradável explorar os cantos dessa cidade tão vibrante. O Museu do Dinheiro recomendo. Além do lindo prédio-igreja a coleção é impressionante e exposta de forma primorosa. De brinde, para quem gosta de arqueologia, no subsolo podem ser vistos restos de uma muralha do século XIII.

    O museu está em um local bem central, cheio de atrações e restaurantes. Tanto se pode almoçar no badalado Mercado da Ribeira como seguir na direção oposta e ir para a Praça do Comércio onde, entre inúmeras opções, está o Martinho da Arcada, restaurante de 1782 que diz ser o mais antigo de Portugal.

    Ainda no rol de atrações um pouco menos conhecidas, os admiradores de José Saramago podem ir à Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago. As cinzas do escritor foram depositadas na frente dessa casa, à sombra de uma oliveira centenária trazida de sua terra natal.

    É impossível visitar Portugal e escapar das sardinhas. Você deve ter notado as de cerâmica ornamentadas com os mais diversos motivos. As originais são da fábrica Vista Alegre e a decoração é do Estúdio Bordallo Pinheiro. Esse artista falecido em 1905 é pouco conhecido fora de Portugal e morou uns quatro anos no Brasil. Em Lisboa existe um museu dedicado a ele, coisa pequena, afastada do centro, só para fãs.

    Falamos de sardinhas, vamos falar de bacalhau. Também ele tem direito a um museu em Lisboa, mas é muito fraquinho. Melhor encontrá-lo cozido ou assado no Martinho da Arcada que fica quase ao lado.

  • Cuidado, Dotô!

    “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré)

    Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério.

    Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando duro. Não duvido que sua grana foi ganha honestamente. Mesmo assim, desculpe falar, ela vem da exploração. Pois deveria por justiça estar nas mãos de um número bem maior de pessoas. Ao não fazer nada a respeito dessa má distribuição, o senhor é cúmplice de um crime.

    Não alegue que não é culpa sua, dotô. Todos que vivem nesse país absurdamente desigual e lavam as mãos têm sim culpa no cartório. Mas nos mais ricos a culpa é muito maior. Não se trata de pedir um gesto de misericórdia em benefício dos menos afortunados. Os privilegiados que nem o senhor, dotô, têm OBRIGAÇÃO de fazer algo para mudar esse quadro de crueldade. Mas o que vejo é o oposto. Quanto mais abastado o sujeito se torna, mais pisa nos debaixo. Levar uma vida de ostentação e desperdício não é só uma atitude indecente. É um tapa na cara daqueles que suam para botar umas migalhas na mesa da família.

    Não falo da esmola no farol, da gorjeta pro entregador de pizza ou dos trocados para a instituição de caridade. Isso só serve para aplacar a dor na consciência mas não bota a mão na ferida das injustiças.

    Na boa, dotô: tem gente que ganha muito mais do que seria razoável pra um país miserável como o nosso. É grana demais! Não são só os donos de negócios, não. São aqueles engravatados, bacanas que tiveram uma educação de elite e conseguiram empregos que pagam bem. Também entram nesse saco políticos, juízes e esse punhado de gente que trabalha para o governo ganhando salários escorchantes mais auxílio-isso, auxílio-aquilo. Não aceitam abrir mão de um bocadinho de suas mordomias, mesmo sabendo que essa pequena fração daria para melhorar a vida de muitas famílias. É cada um por si e o resto que se lasque.

    O cara suga todo o sumo que consegue do país que lhe deu condições de prosperar mas não dá uma gotinha em troca. E ainda se recusa a enxergar a escandalosa realidade em volta.  Vive com sua prole em segurança numa ilha da fantasia, um condomínio de luxo protegido por cerca eletrificada, separado por grossos muros do inferno do país real, sem lei, sem emprego, onde as pessoas amedrontadas caminham por vielas imundas e mal iluminadas, sujeitas à ação da bandidagem.

    O senhor vai dizer que o cara trampou pesado pra chegar lá, não roubou e por isso merece o status que tem. Roubou sim! Pode não ter sacado o revólver. Seu crime pode não estar escrito nos códigos dos bambambans. Mas todo cara que goza uma vida de nababo e não mexe uma palha para minorar o sofrimento dos coitados, é um ladrão sacana. Não adianta se esconder por trás da carapuça de ‘homem de bem’.

    E ainda por cima elege os governantes safados que prometem manter tudo como está. Os que podem melhorar as condições, são tachados de ‘comunistas’. Não somos comunistas, dotô. Só queremos que todos tenham um mínimo para que possam levar comida à mesa e deem educação pros guris. O que o senhor chama de comunismo, eu chamo de dignidade.

    Eu não entendo de política, esquerda, direita… Só sei que direita a coisa não tá. E se tiver um Deus lá em cima ele vai estar de acordo comigo. Um Deus justo não vai querer que nenhum filho seu venha ao mundo em situação de desespero.

    Não aceito esse papo que todos têm as mesmas oportunidades e que quem tem talento, sobe na vida. Mentira! Concordo que tem uns poucos pés rapados que se deram bem e mudaram de lado. Tipo Neymar e outros jogadores, artistas populares, ganhadores de mega-sena, pastores pilantras, traficantes, golpistas. Gente que faturou uma grana preta em pouco tempo e agora se acham. Esses são os piores, não têm um pingo de solidariedade com os brothers. Promovem festanças de luxo, exibem carrões e roupas de grife e sentem orgulho em espezinhar os desvalidos que já foram um dia.

    Mas os que conseguiram quebrar a barreira e subir na vida, seja por que método for, são exceção. Um em um milhão. Já os que nasceram em berço de ouro, vão para as melhores escolas, com boas condições de vida e têm muito maior chance de se dar bem sem precisar contar com a sorte.

    Que porcaria de país estamos construindo em que meia dúzia vive em padrão gringo, enquanto os ferrados rastejam catando lixo? Tá tudo errado, dotô.

    Mas nada se faz impunemente. A paciência está se esgotando. Vejo os sinais. Escuto um burburinho crescente de gente reclamando nas periferias. Artistas sensíveis retratam esse inconformismo. Líderes da comunidade passam por cima dos políticos demagogos encorajando o povão a exigir seus direitos e começam a ser ouvidos. Nas escolas, professores esclarecidos ajudam a formar uma geração que entende que as coisas não precisam ser assim.

     Até quando, dotô, vocês acham que poderão impor essa exploração a uma imensa massa excluída, até aqui amansada pelos pastores charlatães, pelas mentiras da internet e pela repressão policial?

    Quem avisa, amigo é. Fique ligado, dotô, que o bicho vai pegar. A brutalidade dos brucutus e dos milicianos que humilham os mais pobres está próxima ao limite e a reação vai vir na mesma proporção.  Não se engane com essa aparente tranquilidade, dotô. Pode ser a calmaria que precede o tsunami. Essa lenda de que o brasileiro é conformado, tudo aceita, está mudando. O ódio nas redes sociais é incorporado pelo pacato cidadão e vai detonar no colo dos canalhas que o disseminam. É a lei do retorno.  Essa situação insustentável de injustiça está tornando esse país um barril de pólvora, prestes a explodir. E aqueles que não quiseram ontem dar os anéis, talvez tenham amanhã que entregar os dedos.

    Por isso, tome muito cuidado, dotô. A conta virá e não será barata.

    Recomendações à patroa.

  • Entre páginas e anos

    Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo.

    Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O estudo misturado aos devaneios.

    Quando adulta, já trabalhando, ao final de cada ano, os clientes nos presenteavam com agendas, sempre bonitas, variadas. Um presente esperado por mim, não pelo objeto em si, mas pelo uso que eu dava a ele.

    Eu folheava aquelas páginas organizadas, cheias de categorias que nunca foram do meu universo. Condomínio, CNH, passaporte, consórcio. Bastavam-me três ou quatro linhas. O restante ficava em branco, à espera de uma utilidade que não me pertencia.

    E assim, aquelas agendas viravam diários. No ano seguinte, eu começava outra, nova, como o próprio tempo que se abria diante de mim.

    Anos depois, ao folhear uma agenda antiga, às vezes eu não me reconhecia. O tempo e a idade são implacáveis. Aqueles sentimentos, ideias e planos já não tinham o mesmo peso. A vida é dinâmica, ainda mais aos vinte e poucos anos.

    Hoje, faço dessas lembranças um exercício de fim de ano, quase uma autoanálise. Escrevo contos, reminiscências, crônicas, muitas delas saudosistas. Liberei um lado meu que esteve por muito tempo guardado e passei a escrever também sobre o amor, sobre o desejo. E assim vou seguindo.

    Acredito que escrever é uma necessidade que nasce no coração. A mente apenas traduz. E então, escrevemos.

    Depois, lemos. Refletimos. Às vezes nos reconhecemos, às vezes não. Mas, naquele instante, aquilo foi verdadeiro.

    Se um texto desses se transforma em conto, em crônica, se desenha um sorriso ou arranca um suspiro de quem lê, então já cumpriu seu destino.

    E se um dia termina numa fogueira, como eu fazia, ou no descarte silencioso de papéis antigos, é porque cumpriu o seu papel.

    Literalmente.  

    🌷
  • A metafísica do corpo

    Não tenho papas na língua, falo palavras gordas de ouro ou bosta. Não quero brumas, essência incognoscível. Qual é a verdade? Quem sou eu? Que Deus, que sonho me move? Falo do que posso, a minha história é clara e suja como os olhos do homem. Vi claramente o mundo dos mortos. Voltei molhado do limo primitivo, trouxe a baba da inocência nos dentes. Derramei o meu sangue sujo no mundo dos mortos.

    Não tenho papas na língua, falo do sol e da noite como quem sabe e não sabe. Como quem não deve, falo da morte com as palavras que conheço. Como explicar o não dito? Como dizer o sempre visto no mito? Ah, é preciso arrancar a língua da boca velha. Furei os meus olhos para ver de novo. Para a tropa do trapo vazo a tripa, dizia Gregório de Matos e eu digo estou me cagando para essa merda toda.

    Isto é a metafísica da palavra. Uma cachopa de marimbondos no saco me fez homem aos sete anos de idade. Volto a ser esse homem: estar vivo é ser filho da vida natural. Isto é a metafísica do corpo. Arranquei a minha língua, arranquei os meus olhos, arranquei os meus colhões, sou o homem que volta a ser homem. Toda a metafísica está no veneno do escorpião. Tudo mais são imagens, quando o ser não é senão sob a máscara.

    A linguagem é pura e suja como a gordura de um porco frigindo. A palavra que não frege é morta. Eu vim dos campos da morte, eu posso me dizer da palavra morta. Como um sapo morto que faz chover. Eu sou o morto, eu estou chovendo. Eu tenho todo o sol do mundo no meu corpo e estou chovendo.

    Não tenho papas na língua, falo palavras espumando veneno verde. As panelas na cozinha, as verrugas da vizinha, os colhões verdes do escorpião, tudo fervendo no corpo. O corpo é a metafísica do corpo.

  • O derradeiro encontro

    A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida.

    Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por ela sem qualquer explicação. Ainda deitado em sua cama suspirou olhando o teto ante a perspectiva daquela conversa. Não tinha certeza de como se desenrolaria o encontro mas acreditava que provavelmente selaria a vida dos dois em definitivo. A partir de hoje seguiriam a vida juntos ou se tornariam dois seres espalhados em outras direções.

    Sentou-se na cama. Sentiu um peso enorme no estômago e os olhos quase se encheram de lágrimas. Respirou fundo, fez uma expressão séria para si mesmo e disse: é melhor resolver de uma vez porque a indefinição estraga a vida. Espantou o choro e se concentrou. Hora de levantar e enfrentar a vida e o que tiver de ser, será.

    Há semanas, melhor dizendo, já quase quatro meses, que a eloquente convivência deles se transformara em silêncio. Um silêncio frio que abria em sua imaginação as portas para as piores suposições. Ele sabia que não havia nada mais intenso que o silêncio do desencontro. Não falar era um dos momentos mais mortais em uma relação com problemas. E ai estava o primeiro deles: não fazia ideia porque ela se calara da noite para o dia. Qual seria afinal o problema que motivara ela a privar os seus ouvidos das palavras dela?

    Imaginava qual motivo o havia condenado ao mutismo gélido dela mas não chegava a nenhuma conclusão. Qual gesto? Qual palavra? O que provocara o silêncio dela? Ele pedira mais de uma vez para escutar dela palavras que fizessem sentido e que o ajudassem a entender a situação. Mas elas não vieram. Nem ela nem suas palavras. Até o dia de hoje, quando finalmente ela falaria com ele.

    Saiu da cama e foi ao banheiro. Sua cabeça não parava de pensar em sua situação. Todo desconforto, aflição e tristeza que passara nos últimos meses por conta desse misterioso silêncio dela. Tentara levar a vida normalmente mas foi impossível. Pensava nela em um dia e no outro também. Conseguia disfarçar bem perante os amigos e no trabalho mas por dentro se remoía.

    Ninguém fica imune a essa eloquência silenciosa e logo a ansiedade nascida da distância imposta por ela se transformou em angústia. Reuniu forças não sabia de onde e ao invés de transbordar em perguntas preferiu ser cauteloso. Ao longo desse tempo gelado questionou somente duas vezes a atitude dela. Usou palavras cuidadosamente escolhidas para não piorar a situação. Formulou perguntas envoltas na mais fina cortesia, temperadas por afeto mas que traziam em si toda sua ansiedade nascida da incerteza do tratamento que estava recebendo dela.

    As vezes se perguntava, por que logo ela o tratava daquela forma? Por que tanto descaso com ele? Onde se metera toda paixão que ela disse ter por ele? Era seu amor mais profundo e sincero e sempre deixara claro isso. Até antes do dia fatídico, um domingo para sempre nublado em sua lembrança, tudo entre eles eram amores. Mas sem excessos. Sabiam como temperar o amor, evitando as melosidades. Fantasiavam juntos, conviviam, chegavam ao ponto de por pura diversão compor prosa poética no ar: cada um dizia uma frase que completasse a do outro. Todo dia trocavam algo bonito e amoroso, falavam dos respectivos cotidianos e se apoiavam mutuamente.

    Por isso o choque com a atitude repentina dela. Sem aviso, sem alguma briga ou desentendimento preliminar. No sábado, era amorzinho. No domingo, nada. Difícil de acreditar mas era o que ela tinha feito com ele.

    Uns poucos dias depois ele decidiu tocar no assunto dizendo que ela havia se afastado dele. Impressionantemente ela negou o óbvio, falando coisas vagas e sem sentido ou conexão com o que ele questionara. Ele ficou perplexo e sem reação. Era algo inédito, estranho à proximidade e intimidade deles não admitir algo tão cristalino. A conversa não evoluiu, trocaram poucas palavras uns tons pouco acima do vazio do silêncio. Ficou sem chão e sem coragem para questiona-la. E fim.

    Dali em diante sua vida nunca mais foi a mesma. A poesia que eles tinham em comum mudou-se para bem longe e cedeu lugar a aridez das frases rasas, comuns e distantes. Clichês em cima de clichês na tentativa de manter alguma proximidade e preencher o vazio do silêncio. Esforço inútil. Aos poucos até o repertório de superficialidades foi se esgotando. Em pouco mais de duas semanas cessaram as mensagens de parte a parte. E nasceu a agonia nele.

    No meio do caminho, uma data de comemoração íntima, a memória de uma viagem juntos, a primeira deles. Achou que poderia ser o momento de uma retomada no tom amoroso das conversas. Quem sabe esse mutismo, essa frieza, não teria sido um período curto de reflexão dela? Não queria ser invasivo e se manteve respeitador, apesar da ansiedade enorme que corroía seus pensamentos.

    Ledo engano. A data amorosa veio e foi embora sem nada mudar. Ouviu dela somente frases-feitas, bobagens açucaradas e superficiais e se despediram no mesmo tom e forma que fazem os amigos e pronto. Tudo permaneceu frio para quem esteve acostumado ao calor daquele coração bem conhecido e amoroso.

    Suspirou sozinho em casa rememorando sua triste trajetória de afastamento. A lembrança veio forte e aproveitou que estava longe das vistas dela e chorou baixinho de profunda tristeza.

  • Duas eternidades de escuridão

    O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza, ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento de nós, desenvolvendo a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, se achou bonito, e como portador da Luz, se achou mais bonito que os outros. Sentindo-se individuado chegando ao ponto de dizer eu, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós. Porque todos seres criados eram nós, e esse demônio se achou melhor que os outros, e se tornou tão pesado, que caiu, segundo uma tradição, no golfo de Nápoles. Ele entrou em combate com dois terços dos anjos restantes, liderados pelo anjo Miguel, que vem do ebraico Micha’el, que significa, “aquele que é similar a Deus”. E o demônio caiu no inferno, vencido por Miguel, e de lá disse ao seu auxiliar:

    — Prefiro ser Senhor do Inferno a ser escravo do céu.

    A partir desse pecado de Lúcifer, surge a vaidade universal. E essa mudança de pensamento lembra aquele soldado Russo artilheiro, que retornou da guerra do Afeganistão nos anos 1980, cuja narrativa está escrita no livro “Os meninos de Zinco” de Svetlana Aleksiévitch: 

    — Aquela pessoa que você amava, se foi. Sou outro. Eu sou outro. Mesmo assim, eu gosto daquele homem de antes… Sinto saudade dele… Lembro dele…. Mas agora sou outro. 

    É claro que esse guerreiro mudou sua mente por causa de sua imensa ruína interior vivida no pós guerra, muito diferente da batalha vaidosa de Lúcifer.

    Olhar o sofrimento do outro é imaginar essa dor segundo nossos valores e referenciais. Enfrentar uma limitação quando somos adultos, é olhar a ameaça de não poder mais experimentar todos os prazeres vividos até então. Seria possível viver privado dos prazeres alimentados pela vaidade? Não seria melhor morrer? 

    O escritor japonês, Kenzaburo Oe pensou nisso, quando teve um filho que nasceu com má formação cerebral. Quis rejeitá-lo, mas após muitas cirurgias o menino Hikari, que significa “Luz”, passou a sofrer de epilepsia e vive num mundo silencioso. Durante anos ouvindo música clássica, Hikari aprendeu tocar piano sozinho, tornando-se rapidamente em best-seller da música.

    Nesse limiar do fio de nylon, afiado e transparente está nossa jornada desde a infância, por vezes acolhida e recebida à uma linda caminhada. Como escreveu Vladimir Nabokov, “Nossa existência não é mais do que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”.

    Alguns desabrocham talentosos tardiamente, e acabam por sofrer a falta de uma ajuda peculiar, que poderia ter servido de berço, a esse indivíduo esperançoso. Você não quer estar sozinho nesse meio, por isso avance em suas proposições e viagens emocionantes, outros aguardam por indivíduos inspiradores e que façam brilhar suas próprias caminhadas lentas e sem sentido. Andar em círculos atrás de sua própria sombra, não dá eco, se o resultado de seus esforços não aparecer a seus olhos, deixe ir, leve para além de você o que não vingou, assim não corre o risco de sentir saudades.

  • A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé

    Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das contas, não deixa de ser uma questão de dinheiro, com pouca ou nenhuma relação com os fatos e com a verdade.

    Aqui, no entanto, essa história de conflito entre Estados Unidos e Rússia não pega ninguém desprevenido. Para alguns, pode ser novidade, mas é preciso esclarecer: a verdadeira nacionalidade de Donald Trump é argentina. O seu pai vinha pescar no rio Uruguai, era um açougueiro conhecido e, por aqui, chamado de velho Trapo. Ninguém entendia bem aquele sobrenome, estavam mais acostumados com os López, os González e os Fernández.

    Vez ou outra, o velho Trump vinha com um amigo, um tal de Milei, avô do atual presidente. Esse sim, um baita encrenqueiro. Quando Milei aparecia, era difícil retornarem à Argentina sem um quebra-pau ou um tiroteio. Pegou mal também para Trump, claro. Naquela época, até o açougue começou a definhar. De fato, maus ventos vêm com maus amigos. O problema só terminou quando o próprio Erico Veríssimo interviu. Todo diplomata, chamou o velho Trapo para uma conversa e explicou a situação: — Pois então, nada contra você, sabe como é, mas o seu amigo ali é meio difícil, daqui a pouco vai acontecer uma tragédia, somos um povo pacífico… —. Isso foi em fevereiro de 62, pouco antes do velho Trump vender o açougue em Tapebicuá e partir de mala e cuia, sem contar nada a ninguém.

    O ano de 1962, aliás, foi mágico para o esporte gaúcho. Poucos comentam, é verdade, mas o antigo continental teve nas semifinais: Ypiranga de Erechim contra o Club Atlético Peñarol, e Guarany de Bagé contra o Racing Club. Dos quatro jogos, contando ida e volta, foram registradas apenas oito confusões, duas brigas de faca e um morto por bala perdida. Era um torcedor do Internacional. A final foi entre Ypiranga e Guarany, em jogo único, marcado em campo neutro, no estádio do Esporte Clube 24 de Maio, em Itaqui.

    A mobilização foi enorme. Veio gente da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande todo. Conta-se, inclusive, que uma caravana partiu diretamente de Assunção, no Paraguai, mas foi interceptada pela polícia e não concluiu o trajeto porque no ônibus havia mais peso em cocaína do que em seres humanos. O Guarany de Bagé tinha contratado um famoso ponta-direita uruguaio e por isso, muitos dos seus conterrâneos apareceram, inclusive o olheiro da seleção, Armândio Putin.

    Foi lá, durante a final do continental, num terreno baldio, ao lado do bar, que o filho de Putin ganhou do filho de Trump num jogo de bolita. Trump-filho, uma criança mimada e problemática, não aceitou a derrota. Putin-filho zombou fervorosamente do adversário. E o Guarany de Bagé se sagrou campeão com um gol do uruguaio Ghiggia. Quem capturou a história foi Paulo Santana, um jovem estagiário do Jornal Zero Hora, que bebia um refrigerante no bar enquanto as crianças brincavam. Dois dias depois, publicou um pequeno texto sobre o jogo, enaltecendo o Guarany e lembrando da breve e engraçada confusão gerada por uma partida de bolita. A reportagem teve o título: “Entre bolas e bolitas: Guarany de Bagé é campeão do continental”.

    Logo depois, Ghiggia se tornou um astro do futebol uruguaio, o olheiro Putin foi recrutado pela seleção da União Soviética, o açougueiro Trump se mudou para a América e o Guarany de Bagé, como é sabido por essas bandas, vendeu o título mundial para o Real Madrid. O resto é história.

  • Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozes
    Tantos abraços
    Entre tantos conselhos
    Em meio ao cansaço

    Quando sorrio
    Ou quando choro
    Se me surpreendo
    Ou me apavoro

    Se a alegria é tanta
    Ou a decepção é muita,
    Importa ter o teu colo, Mãe,
    Pra valer a pena continuar.

  • Inopinadamente, flores

    — para minha mãe, Lucia.

    Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante.

    De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam.

    Por um breve, quase memorável período, flores são flores pré queda:

    — murcham.

    E assim abubam solos com próximas florações. Semeiam, na compacta existência, motivos para seguirmos, talos tensos, pétalas abertas em busca constante do sol.

    Botões como ovários: dilatam-se até romperem em humanidade.

    Das entranhas de todo data-base concebido, da terra revirada do jardim do vizinho, misturam-se memórias, adubo, formas e cores. Vidas.

    Da paciência surge a atenção,
    Da atenção brota o entusiasmo
    Deste, o encantamento

    Aplausos na praia do Arpoador; reverência.

    Ecoa a obra maior da natureza divina:

    MÃES

    Feliz dia a todas as cores que moldam e perfumam todas as existências.

    Bom domingo a todas vocês!

  • Dia das Mães

    Mãe. Palavra pequena que significa tanta coisa! Abraço, afago, aconchego mesmo no cansaço, presença, cuidado…

    Mãe. A matemática de contar feijão! Um a um na palma da mão…

    Mãe. Saber a palavra certa ou não ter palavra alguma e mesmo assim, falar com os olhos.

    Mãe. Toda mãe tem seus silêncios! E os silêncios continuam a dizer coisas, só que como um sussurro…

    Há coisas que não precisam ser ditas com palavras, não é?

    Há coisas que chegam assim, num sussurro…

    Não dá pra colocar em um único texto tudo o que uma mãe representa pra cada ser vivente!

    E é muita coisa! É a dor da vida, é a dor de dente! É o medo do escuro, é o medo de gente! Mesmo diante do improvável e do impossível ela fica contente!

    Ela dá força e ela é a própria força!

    Mãe!

    Queria que essa crônica pudesse capturar por um breve momento o seu abraço, o seu sorriso e a sua proteção!

    Queria que cada palavra aqui representasse um pouco da sua sabedoria.

    Mas a crônica não é mãe, é crônica! E, como se diz, mãe é mãe!

    E não, a crônica não vai dar conta disso!

    É muita coisa pra dar conta! Só mãe mesmo!

    Por isso, mesmo sem jeito, a crônica deste dia coloca sobre a mesa uma toalha, os talheres, os copos e os pratos.

    A comida que chega quentinha, como lembrança gostosa de almoços em família, lembra de novo o cuidado, o cuidado de fazer sempre o melhor.

    E vão chegando à mesa os filhos, que já não são crianças, mas retornam ao tempo em que os sonhos tinham um contorno especial.

    Na mesa, conversas, risadas, mãos que se ajudam com este ou aquele prato ou uma bebida… O tempo para.

    Mãe… obrigado por acreditar nos nossos sonhos!

    O menino que escrevia versos já não é mais um menino, mas guarda e guardará pra sempre as contas feitas com feijão na velha mesa de madeira.

    O cronista, homem feito, agradece a oportunidade de poder estar presente em mais um dia das mães!

    E a crônica termina assim, nessa cena de almoço, tão simples, mas tão certa!

  • O outro pé da meia

    Noite fria, escura.
    Abre a portinhola. A roda gira.
    De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.
    Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.
    Segue em passadas trôpegas seu caminho.

    ****

    Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o coração encaramujado.

    Era hora de arrumar a mala. Organizar o que levar e o que deixar para trás. Partiria em busca de um elo capaz de aproximar passado, presente e futuro — distante das referências e afetos acumulados ao longo dos vinte anos de existência.

    Sentou-se diante da escrivaninha e abriu uma gaveta há muito esquecida. Foi retirando os guardados, um a um: fotografias do primeiro dia de aula, do campeonato de futebol, dos pais cantando parabéns em seu aniversário de dez anos.

    Cartões-postais da primeira viagem com os amigos. O recorte de jornal com seu nome grifado entre os aprovados no vestibular. Sorriu ao encontrar as bolas de gude, tesouro absoluto das disputas de caçapinha.

    O primeiro exemplar do Achados e Perdidos, que colecionava avidamente.

    Folheou também o álbum da Copa de dois mil e quatorze, completo graças à generosidade dos pais, que lhe compravam pacotes e mais pacotes de figurinhas.

    Foi tomado por uma ternura funda ao pensar nos dois.

    Continuando a escavação, encontrou no fundo da gaveta uma meinha azul-clara de bebê. Ficou olhando para ela, tentando entender como fora parar ali.

    Nunca a tinha visto antes. Um pé só. Aquilo parecia guardar um recado. Por instinto, colocou a meinha na mala.

    Algo lhe dizia que aquele pequeno pedaço de pano tinha relação com sua chegada ao mundo — e com o pouco que conseguira compreender da revelação feita pelos pais adotivos. Depois do acidente que lhes tirara a vida, tudo acontecera rápido demais. Restaram apenas fragmentos: Itália, Finestra, esperança.

    Decidira partir em busca dessa Finestra. As perguntas martelavam em sua cabeça exausta pela noite em claro: onde, como, por quem procurar?

    Ainda aturdido, deitou-se na tentativa inútil de descansar antes da jornada que começaria na manhã seguinte.

    ****

    Tarde ensolarada em Milão.

    Sentada na varanda do apartamento, absorta em pensamentos, Angela não percebeu a chegada do marido. Havia tomado uma decisão e precisava compartilhá-la com aquele que, havia dez anos, a acolhera sem perguntas, cuidara de suas feridas e amara até os silêncios.

    Chamou Domenico para o café recém-passado, ritual das tardes de sábado.

    Procurou abrigo em seus braços e deixou que a memória vagasse pelo tempo.

    A cabeça escondida no casaco de lã abafava os soluços e turvava a lembrança daquela noite distante em que se virou e partiu.

    No abraço do marido afogava a própria história: a miséria do corpo desnutrido, os seios secos, a penúria do abandono familiar. O remorso que nunca cicatrizou. A ausência que permanecia acesa, silenciosa, à espreita dos dias.

    Assim ficaram por algum tempo, quietos, até que as palavras finalmente transbordassem.

    Contou-lhe que decidira voltar a Milão, à Finestra da Esperança. Lá deixaria seu nome, o endereço onde agora vivia e um pé da meinha azul.

    Roda a roda da esperança: que algum dia o outro pé daquela meinha encontrasse o caminho de volta.

  • Rosane desistiu

    Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar.

    A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde que
    mostrem vida inteligente. Sou daquelas que curte quem pensa e se expressa bem. Não precisa ser um gênio nem um pesquisador científico.

    Basta não me envergonhar na frente dos outros.

    Se é adepto do fisiculturismo, joga futebol americano ou ouve rap ou sertanejo, ligo o sinal de alerta, estou fora. Para mim, o tesão é o intelecto. Um entendimento mínimo de quem sabe a diferença entre meio advérbio e meia para sapato. Um simples erro de concordância já me dá um nó na garganta e calafrios. “É nóis” ou “a gente vamos” é a senha para o portal do inferno.

    Pode ser praga ou justamente por só buscar homens com certa cultura, mas todos aqueles de quem me aproximo, mostram-se uns tapados congênitos. Parece proposital, uma trama urdida para me tirar do sério.

    É só eu me interessar por alguém e lá vêm os barbarismos.

    Outro dia, no metrô, avistei um homem elegante e com ótima aparência. Usava óculos, estava em pé, lendo um livro. Puxei conversa e perguntei qual o livro que lia. Era um manual desses para ansiedade.

    Autoajuda clássico. O indício foi claro, mas ainda insisti. Perguntei para onde ele estava indo. O golpe veio avassalador: vou a um bazar “beneficiente”. Brochei. Nem com toda a boa intenção e filantropia.

    Num bar, um rapaz veio pedir se podia me fazer “compania”. Respondi que “compania” não seria possível. Companhia, sim. Ela pareceu não ter entendido. “Posso me sentar com você, “menas” se estiver esperando alguém. Ainda frisou o “menas”. Emudeci. Fiz cara de ódio. Ele desistiu a tempo, acho que finalmente havia entendido.

    A fim de evitar esse tipo de encontros tóxicos, passei a frequentar lugares mais de acordo com minhas perspectivas: museus, bibliotecas, lançamentos, vernissages. Num sábado, Centro Cultural, parada na porta aguardando uma amiga, um carinha lindo se aproximou e me disse: pode entrar que é tudo “gratuíto”. Cheguei a me arrepiar.

    É um tal de “soltar” do ônibus, “resistros” de chuveiros, vamos “tudo” na praia, “seje” em vez de seja, mulheres “estrupadas”, “mindingos” pelas ruas e “imbigos” à mostra. Uma desgraça.

    Prestes a desistir, encontrei um tipo especial. Lia Proust no original, conhecia astrologia e mapas astrais, ia a festivais de cinema e tinha um papo ótimo. Era gay. Quis cortar os pulsos.

    Quem sabe um dia, ache um companheiro que combine atração física e intelecto. Sem gostar de “mortandela”, sem “cardaço” no tênis, que não tenha “ramela” no olho, não more numa casa “germinada” nem tenha medo de chuva de “granito”.

    Talvez desista. Pode ser uma grande “perca” de tempo.

  • Mundos Paralelos

    As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar.

    Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos.

    Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.”

    Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas pela produtividade.

    Mas não é exatamente sobre esse trabalhador que penso agora. Nem sobre o trabalho honesto que sustenta famílias, constrói empresas, alimenta sonhos e atravessa gerações.

    Penso nos trabalhadores do mal.

    Os que aplicam golpes, criam perfis falsos de vendas, driblam mecanismos sofisticados de bancos e enganam pessoas.

    Eles também acordam cedo, tomam café e vão para os seus trabalhos.

    Como são essas pessoas que se afastam da verdade, se dispersam nas próprias paixões e, com impressionante naturalidade, executam diariamente os seus ofícios?

    Elas são aparentemente comuns.
    Dessas pessoas que passam por nós na padaria, reclamam do calor, aguardam atendimento em consultórios e perguntam o preço do tomate na feira. Talvez conversem sobre futebol, tenham dores na coluna, paguem boletos atrasados e levem os filhos à escola antes de começar o expediente.

    O expediente.

    Essa talvez seja a parte que mais me inquieta.
    Porque o mal, quando imaginado, costuma surgir grandioso, quase teatral. Entretanto, a vida real parece preferir os gestos pequenos, repetidos e discretos. Há pessoas que organizam cuidadosamente o próprio dia para enganar desconhecidos. Criam métodos, estudam abordagens, aperfeiçoam narrativas. Aprendem a falar com delicadeza, a parecer confiáveis, a reconhecer solidão, ingenuidade, carência ou desespero do outro lado da tela.

    Existe quase um profissionalismo nisso.

    E essa constatação produz um desconforto difícil de explicar.
    Não falo aqui do criminoso impulsivo, do rompante de raiva ou do erro desesperado. Penso nos que transformam o engano em rotina. Nos que acordam já sabendo exatamente quantas pessoas tentarão lesar naquele dia, como quem estabelece metas silenciosas para si mesmo.

    Será que sentem culpa?

    Ou será que a consciência humana possui uma espantosa capacidade de adaptação?
    Talvez ninguém acorde, de repente, completamente deformado. Imagino que exista um caminho lento. Pequenas concessões interiores. Uma mentira tolerada hoje, uma vantagem injusta amanhã, até que a própria consciência passe a funcionar de maneira diferente, como um relógio que continua marcando as horas, embora já esteja desregulado.

    E então o absurdo se normaliza.

    O sujeito toma café, responde mensagens, organiza contatos, liga o computador e vai trabalhar.

    Trabalhar no erro.

    Curioso como até o mal exige disciplina. Alguns desses homens talvez sejam pontuais, organizados e persistentes. Talvez façam pausas para almoço, conversem sobre assuntos banais e encerrem o expediente cansados, com a sensação íntima de “mais um dia cumprido”.

    Isso me causa um espanto silencioso.
    Porque, no fundo, não é difícil compreender grandes monstros históricos. O horror explícito se apresenta sozinho. Difícil mesmo é compreender o homem comum que aprendeu a conviver pacificamente com a própria fraude.

    Talvez o mais assustador nos trabalhadores do mal seja justamente isso: eles não parecem habitar um mundo separado do nosso. O que nos separa é a verdade deformada em que eles vivem.

    No mesmo mundo.

    🌷
  • CARAS E COROAS

    “Esse cara sou eu” (Roberto Carlos)

    Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.

    Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa’ para seu ocaso.

    Apesar disso, tento me conservar em formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu fedelho!”

    Não nego certa dificuldade em encarar os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes. Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.

    Mas, caramba, não sou saudosista. Ser cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança, curiosidade, inconformismo, rebeldia.

    Às vezes me sinto pregando no deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.

    O que me deprime é ver a transformação dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos pais”. O fato é que muitos caras – pessoas que nos foram caras – por divergências políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as chineladas enquadradoras de que foram vítimas. Descarados.

    Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.

    Pior são os caras que, na maior cara dura, deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.

    Para quando dermos de cara com o dia final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não haverá mágica – por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras de novo.

  • Ulisses à beira da lagoa Rodrigo de Freitas

    Alguém já disse que um dia de sol no verão do Rio de Janeiro chega a ser musical. Há no ar uma atmosfera positiva, de bom humor e de vontade que a vida dê certo. As pessoas circulam mais leves, esbanjam-se sorrisos e há uma eletricidade positiva no ar conectando a todos. O clichê que diz que o carioca é um ser solar se encaixa com perfeição quando chega o verão.

    Esse era justamente um domingo desses. Ele acordou cedo desperto pela claridade intensa que invadiu seu quarto. Na véspera ficara em casa vendo “MacBeth”, a versão estrelada com Michael Fassbinder, acompanhado de um bordeaux achado no supermercado e surpreendentemente ótimo. Tomou café, espiou pela janela e encontrou esse domingo radiante. Sorriu, trocou de roupa, vestiu sua camiseta do “Poderoso Chefão”, o tênis de atividade física com calcanhar reforçado e foi para a rua. Seu destino era a Lagoa Rodrigo de Freitas.

    Nada de praia. Decidiu que hoje queria caminhar, quem sabe pedalar e se desse sorte encontrar alguma capivara nadando. Tomar água de côco, o clichê dos últimos anos de quem circula pela Lagoa, faria parte do cardápio. Sem patrulha estética, só curtição.

    Foi de metrô. Desceu na estação Jardim de Alah e caminhou até a Lagoa. De saída a vontade de pedalar falou mais forte e pegou um desses modelos que os bancos espalharam pela cidade. Ali perto chamou sua atenção uma barraca de frutas enorme, com uma mulher quase do tamanho da barraca vestida de vermelho e preto. Na hora lhe veio a mente que a figura se adequava bem ao lugar onde estava porque afinal, ali pertinho ficava a sede do Flamengo. Ela falava muito, cumprimentou ele e mais quatro pessoas sem perder o fôlego, seguindo sua rotina de vender frutas, sucos e dar bom dia.

    O rapaz achou graça, escolheu uma bicicleta e ganhou a ciclovia na direção do Clube Naval, onde as capivaras nadavam nas proximidades. Pedalava contente, em ritmo pouco acima do passeio e bem abaixo do treino. Queria rodar sem compromisso fora o de desfrutar esse prazer.

    Parou junto a outras pessoas que buscavam as capivaras e nada viu. Tinha gente aborrecida com isso mas ele disse em alto e bom som: hoje é folga das capivaras e com esse calor devem estar em casa no ar condicionado. Todos riram espantando o clima de decepção dando lugar ao astral leve e contagiante do dia.

    Depois de passar pela sede náutica do Vasco, ao virar o rosto um instante na direção do bairro, veio a memória que do outro lado, lá na avenida Jardim Botânico, estava o parque Lage. Um dos lugares preferidos dos dois. Parou de pedalar e ficou sério.

    Suspirou fundo. Já havia passado um tempo desde a conversa que ele tivera com ela naquela manhã, no quiosque na encosta do Leme. As palavras trocadas foram de certa forma amenas mas definitivas. Não havia mais espaço para eles dois existirem juntos. Ficou chateado, óbvio, mas aliviado porque a tensão da incerteza desaparecera e podia enfim tocar sua vida. Achava, portanto, que estava curado. Mas não era bem assim.

    Naquele instante as lembranças vieram fortes e intensas o suficiente para interromper seu passeio e mudar seu humor. Sentiu percorrer por seu corpo uma sensação fria, como um jorro de água gelada descendo pela coluna vertebral. Sua memória se inundou com as lembranças dos momentos felizes, dos piqueniques a dois no parque Lage, regados a vinho branco e queijos. Os olhos ficaram úmidos e sentiu um travo na garganta.

    Suspirou, afastando a vontade de chorar e fez força para retomar as pedaladas. O ar fresco e a necessidade de prestar atenção às demais pessoas na ciclovia ajudaram a se desconectar daquelas lembranças. Seguiu de olho na ciclovia espiando o que a paisagem lhe mostrava, como garças e outras aves aquáticas. Valia tudo para voltar ao estado de tranquilidade que estava nele antes da interrupção.

    Decidiu dar outra parada, mais adiante na altura do corte do Cantagalo, um pouco antes do acesso a Copacabana. Desceu da bicicleta para beber água de côco. O vendedor esbanjava alegria e comentou com ele: hoje está um dia daqueles. Ele sorriu e respondeu formal que sim era um belo dia de sol. O moço piscou o olho para ele, com aquele jeito masculino cúmplice, e disse: hoje só não encontra alguém quem não quiser. O rapaz deu uma risadinha e deixou escapar um “quem sabe” mas o outro, ao que parece, percebendo que algo não ia bem com ele continuou: basta prestar atenção em volta, ter olhos de olhar e coração de sentir. Ele se espantou com a frase bem estruturada e nem teve tempo de falar nada porque o vendedor disse: espantado? Olha meu amigo eu não nasci vendedor. Antes de vender côco eu era professor e fazia mestrado em literatura grega.

    O rapaz arregalou os olhos e ficou mudo. O vendedor resumiu sua vida explicando que chegara a barraquinha de côco por falta de alternativa para se sustentar, depois que um incêndio criminoso destruiu a fábrica da família e matou seus pais. Ele ia falar algo quando o moço o interrompeu com um gesto: eu vivo um dia depois do outro e você deve fazer o mesmo. Portanto vá e quem sabe aquela que vai te fazer sorrir está por aí, na próxima curva da lagoa.

    O rapaz agradeceu, pagou, subiu na bicicleta e antes de partir perguntou: como você se chama. O vendedor sorriu e apontou para o nome escrito em sua barraquinha com rodas – Tirésias – e gargalhou alto.

    Pedalou para longe do vendedor ainda incrédulo e espantado por ter passado por aquele impressionante encontro. Tirésias, o profeta cego de Tebas, quem diria, vendendo côco na Lagoa. E em sua versão carioquíssima ele não me alerta dos perigos por vir mas me anima com palavras gentis e espirituosas. E eu, o Ulisses moderno e desprovido de Penélope mas navegando a esmo, o escutei. Cada uma que me acontece…

    Estava distraído quando quase na frente da sede náutica do Botafogo viu uma moça parada ao lado da ciclovia segurando sua bicicleta, igual a dele emprestada por um banco. Ela olhava atenta ora para um lado ora para outro. Ele parou a meia distância observando-a. Não era linda mas muito charmosa, sem sombra de dúvida. Nas costas levava um colchonete enrolado, que daquela distância lembrava uma aljava. Nossa, pensou ele, é Ártemis, a caçadora, diante dos meus olhos. Será que ela precisa de ajuda? Como me dirijo a uma deusa?

    Como não se decidia se ia até a moça ou não se manteve parado, absorto com a bela visão. E tão concentrado estava que não percebeu a moça com o corpo virado na sua direção o encarando. E custou a escutar ela o chamando até que ela gritou: ei, você é surdo ou é estátua de sal? Assustado ele respondeu: bem vivo. Então senhor “bemvivo” me diz: para que lado está a barraca de frutas da Creusa? Creusa? É, sim, uma mulher grande, assim, gordona que se veste de vermelho e preto mas não é flamenguista. Ela não torce para o Flamengo? Que nada, Creuza detesta futebol, ficou viúva depois que o marido enfartou em um jogo do Vasco. E por que se veste com aquelas cores? Porque são as cores de Exu. Ah, nossa, nem tinha me tocado. Pois é, e sabe que combina com ela. Por que? Porque uma das atribuições de Exu é ser o orixá da comunicação. Puxa, nem imaginava, mas por que combina com ela? Porque a Creusa fala pelos cotovelos e dá bom dia até para passarinho. Verdade, eu percebi isso. Mas sem crítica a ela, por favor, é coisa do orixá dela. Olha como não sou religioso nem imaginava que ela se vestia em atenção a Exú. Nem eu sou religiosa. E como conhece sobre candomblé? Sou professora de cultura afro-brasileira. Ah tá.

    E ficaram nessa conversa mais uns minutos até ele lembrar de informa-la para que lado estava a barraca de frutas da Creusa. Como também era a direção que ele seguiria, foram pedalando lado a lado, se desviando ocasionalmente dos demais ciclistas porque sempre tem muita gente na ciclovia, ainda mais nos domingos de sol. A conversa seguiu leve a respeito da natureza que os cercava até chegarem ao seu destino. Os dois devolveram as respectivas bicicletas e sem parar de conversar foram a barraca da Creusa. Pediram o especial do dia, suco de abacaxi com laranja, e beberam ali mesmo. Foi só nessa hora que ele se lembrou que não sabia o nome da moça. Sorriu, comentou e se apresentou. Ela sorriu de volta, estendeu a mão e disse: prazer, Diana.

    Ele teve um acesso de riso e ela não entendeu a razão. Ele explicou que Diana era o nome romano da deusa Ártemis, a caçadora. E isso é engraçado desde quando?, quis saber ela assumindo um ar sério. Ele tremeu.

    Não era de fato engraçado. Rira de nervoso porque quando a viu achou que ela fosse a personificação da deusa grega. Deu uma tossidinha e já estava ensaiando algo para se justificar quando ela riu com vontade e disse: seu bobo, foi só sacanagem minha, até porque estou acostumada que façam brincadeiras com meu nome. Ah é? Sim, os mais eruditos fazem referência a Diana, a caçadora, versão romana da deusa grega. Claro, confesso que foi o que me passou pela cabeça. Mas aqueles mais sintonizados em cultura popular fazem referência a Diana Prince. Diana quem? Menino, a Mulher Maravilha! Ah claro, nossa sim a Mulher Maravilha! Pela sua cara acho que era fã dela. Eu e todos os garotos da escola adorávamos o seriado da televisão.

    E ficaram mais um tempo por ali, sentados em um banco de madeira rememorando séries de televisão do tempo em que eram jovens, os aparelhos tinham tubos imensos e as opções de canais se resumiam a uns quatro ou cinco. Quando do nada ela alegremente propôs: se você não for fazer nada hoje, que tal um cineminha logo mais? Topo, respondeu ele sem hesitar. A gente se encontra na estação Botafogo do metrô e espia o que está passando em algumas daquelas três salas que tem por ali. Assim, sem ver a programação antes? Será impossível não ter nada que a gente não queira ver, concorda? É, acho que sim. Tenha fé, querido e vamos confiar em Ifá, o orixá do destino. Mesmo? Claro, afinal pode ter sido obra dele esse nosso encontro? Ou de Moros, o deus grego do destino, rebateu ele. Touché, disse ela com um sorriso.

    Se levantaram e ele a acompanhou até seu carro que ela estacionara ali perto. Se despediram com dois beijos, como manda a boa cortesia carioca. Já no carro ela disse antes de partir: Você é engraçado, um tantinho estranho, mas bastante agradável. E foi embora. Ele ficou olhando o carro seguir e suspirou sorrindo. Como era o destino! Por no seu caminho Diana a caçadora! Era um presságio maravilhoso e se conhecesse algum oráculo iria correndo fazer uma consulta.

    Quase rindo ao se imaginar no templo de Apolo consultando o deus sobre seu destino, se virou para tomar o rumo da estação do metrô do Jardim de Alah quando sentiu, vindo por trás, uma brisa suave meio perfumada. Um arrepio percorreu seu corpo. Uma brisa como aquela vinda do nada, não parecia obra do acaso. A lembrança da ex veio forte. Ela sempre se referia a si mesma como bruxa e que eventualmente conversava com os elementos. No início achava engraçadinho mas depois achou aquilo uma bobagem arrogante, sem sentido. Mas naquele instante a lembrança dela se fez presente naquela brisa perfumada.

    Ficou parado sem se mover. A impressão que tinha era de ser observado por um par de olhos, provavelmente muito conhecidos seus. Ia se virar para conferir quando inesperadamente seu corpo não se mexeu. Olhando fixo na direção da estação do metrô pensou um instante e sorriu para si. Resistiria a tentação de conferir simplesmente porque não estava mais interessado. O que passou, passou. Agora é seguir em frente, disse para si, sentindo-se bastante aliviado com sua força de vontade.

    Qual Ulisses não se dobrou a tentação do canto das sereias. E caminhou firme para longe dali. Porque hoje à noite iria encontrar Diana. E não se deixam as deusas esperando.

  • Um gênio e um louco

    Em 1879, o Professor James Murray candidatou-se para liderar a tarefa de elaborar o célebre Oxford Dictionary of English.

    Monstruosa empreitada que consistiu em colocar toda a língua inglesa em livros, bem como a etimologia das palavras e o sentido de cada termo.

    O filme “O Gênio e o Louco”, que foi aos cinemas em 2019, contou essa história: um grupo de sábios reuniu-se para resolver a pendência de 20 anos da Universidade de Oxford. No papel do Dr. William Chester Minor, Sean Penn atuou novamente com maestria. Encarnou o médico, militar, esquizofrênico e solitário. Mel Gibson, ator tenaz e intenso, representou o Professor James Murray, o sábio da época. A trama mostra o professor vencendo os preconceitos dos mestres de toga de Oxford para encarar a empreitada nunca antes realizada. Mesmo não sendo acadêmico de formação, mostrou sua capacidade de homem letrado, estudioso e muito dedicado aos livros, cujas habilidades o autorizaram à confecção desse dicionário. Assumindo o compromisso, que sem algum grau de loucura não levaria adiante, teve a brilhante ideia de pedir ajuda ao povo para compor sua equipe. Através do envio de milhares de cartas à população do Reino Unido, recebeu respostas com as origens das palavras, que foram parar em seu dicionário.

    Dr. William, um louco maior que James, após se tornar assassino, decidiu unir-se à busca das origens dos vocábulos e muniu o professor com milhares de palavras.

    Dr. William foi preso e diagnosticado com esquizofrenia aguda e, durante sua dedicação ao dicionário, teve melhora considerável, imaginando ser possível resolver tal doença ao se envolver com esse tema tão valioso.

    “O medo é o afeto da ordem, do egoísmo e da covardia moral” (Christian Dunker). Por isso, o medo de se manter perseguido pela doença em seus pensamentos doloridos e maldosos o fez entrar de corpo e alma nessa empreitada. Ele enviou ao professor centenas de palavras para inserção no dicionário. Recebeu dezenas de livros para suas pesquisas e, com dedicação benevolente, entregou seu precioso tempo à confecção do primeiro volume desse dicionário, que, em sua totalidade, chegou a vinte volumes.

    Nos primeiros meses de trabalhos incessantes, concentrou-se como em uma perseguição à sua própria saúde.

    E, por doce desgraça do destino, a viúva do assassinado cruza sua vida carcerária.

    O povo daquele Reino, Unido, contribuiu com sua boa vontade e conhecimentos, sendo partícipe de um evento histórico de sua terra.

    Todos envolvidos no mesmo objetivo, pensando juntos naquele mesmo tema, crescendo com o evento, que, em seu término, entregou um grandioso resultado, fruto de um tempo dedicado com prazer.

    Que força incomensurável pode um povo em conjunto surtir, causando um forte efeito na existência de todos, como, por exemplo, extirpar uma peste utilizando-se do bom senso em prol do bem e do futuro da sociedade.

    Quão belos são os esforços que se despejam resolutos na união dos povos. Famílias inteiras proporcionaram para si um novo mundo, pois os livros deram outro rumo às gerações vindouras, que passaram a ser instruídas por sábios que, de antemão, tiveram essa visão promissora, oportunizada por um gênio e um louco.

  • SITUAÇÃO

    Alguma coisa se move e não é pouca. Contudo não sabemos definir exatamente sua natureza e extensão. Não obstante algo acontece e estamos inseridos, como blocos de nuvens a caminho do abismo. Somos protagonistas meio tontos no mundo e não sabemos ao certo o seu desfecho. E se vivemos de uma forma obscura é porque é assim que sempre acontece nas cavernas em tempos sombrios. Nossa percepção das coisas anda meio embaçada, mas são as teias dos nossos olhos que as fazem assim. Um dia poderemos ser nós mesmos, ainda que dormindo.

    Inventário de Sombras

  • O que há de velho?

    Li, há muito tempo, um conto em que o protagonista se queixava de que os amigos sempre lhe faziam a mesma pergunta: o que há de novo? Não recordo o nome do conto nem do autor, a quem humildemente peço desculpas, embora estas soem falsas dado que ele deve ser falecido.

    O protagonista do tal conto, cansado da mesmice repetitiva da pergunta, decidiu vingar-se e passou a responder com notícias bombásticas. Lembro-me que uma delas dava conta de um avassalador terremoto em Lisboa. O herói dava detalhes sobre mortos e feridos, deixando o interlocutor assustado e boquiaberto. Só então revelava a data exata do evento: 1755. Não sei como terminava o texto, no mínimo pararam de pedir-lhe novidades, mas é provável que tenha perdido os amigos.

    Se tivéssemos que modernizar essa história, acho que a pergunta que caberia hoje em dia seria o inverso: o que há de velho? Porque a todo momento a internet ressuscita conteúdos antigos como se fossem novos. Muita notícia velha é divulgada como atual. De boa e de má fé.

    Mensagens de cunho político com frequência apresentam fatos passados como novidades. Quase sempre se trata de propaganda disfarçada que intencionalmente omite datas e contextos. Ajudaria se cada matéria pudesse vir acompanhada de um certificado imutável informando a origem e a data da primeira publicação. Uma espécie de certidão de nascimento.

    Mas nem toda a desinformação é deliberada: há também uma série de bobagens que circulam por pura ingenuidade. Basta que alguém de má memória ou de outra bolha ‘descubra’ algo que julgue interessante e dê a partida para que aquilo volte a se espalhar como um rastilho de pólvora.

    É por isso que, se você sabe do que estou falando, recebe de vez em quando aquele texto sobre o ano chinês do bolso cheio de dinheiro que se repete a cada 827 anos. Um clássico.

    Assim se espalham muitas coisas falsas, quer como notícia, quer como autoria. O Arnaldo Jabor vivia reclamando disso (entre outras, insistiam em atribuir-lhe uma crônica sobre bundas que ele repudiava), mas qualquer figura pública sofre do mesmo.

    Deposito minhas esperanças numa IA cada vez mais eficiente para identificar plágios e más intenções. Por enquanto a internet continua sendo uma terra de ninguém.

    O personagem do conto pelo menos avisava que a notícia era velha – e não mentia.

  • No raso, a/mar não ensina — derruba

    Aquosa, a superfície reflexiva.

    – custa a –

    Imprópria ao banho… Mergulhar machuca [jamais acolhe]; rasga, sangra, desfaz a um e à outra sem que se fundam; era ela o acaso.

    – …entender que aquela é –

    (A/) Ela – narrativa, aqui; não fofoca – que, sem distorcer o sentido da prosa, faleciam palavras para exprimir o que sentia. Sentia – e segue sentindo – a falta de si, dela própria; demora-se na compreensão da charada. Só então veste-se de si mesma.

    – … mesmo ela, –

    Que ama o mar — mas não é a/mar para ninguém.

    Os olhos estão sempre, em qualquer tentativa, no mesmo plano; ou não. Realidade x expressionismo fajuto.

    – … só… –

    Era o acaso. É o acaso. O caso é (ela).

    – no raso.

    Não longe, às três e quarenta e seis da manhã, do escuro ouve-se um galo cantar, repetida e ritmicamente. Seria um galo ou… o toque insistente de um celular?

  • Sucesso

    Diana Duran, cantora e compositora, planejava lançar seu novo álbum com músicas inéditas. Algumas faixas em inglês. Quando Diana cantava em outro idioma, inventava erros linguísticos somente pela graça do viés poético. Adorava aliterações, repetições de sons para dar ênfase ao conceito. Para ela, certos sons se encaixavam melhor nas canções, ainda que pudessem soar algo inusuais.

    As letras simples falavam de amor e solidão. Tinha um tipo de poesia blasé com um toque nostálgico, um gênero que nem saberia direito explicar. Suas melodias, em algum momento, passavam uma certa levada de bolero pop e balada new age.

    Para seu novo trabalho, decidiu que o formato ideal seria a simplicidade de voz e violão. Convidou um velho amigo violonista. Os dois resolveram que os arranjos mereciam um beat a mais e acrescentaram batidas e sintetizadores em algumas faixas.

    Discutiram a respeito da divulgação, palavra-chave para o sucesso do lance. Devido a uma lombalgia crônica e a uma crise existencial, Diana Duran havia ficado um tempo afastada dos palcos. Isso pesava um pouco contra. A favor, uma grande quantidade de amigos. No conjunto, seu público era, na maioria, underground e imprevisível.

    A ideia inicial era divulgar o trabalho nos shows começando pela periferia. Diana desejava cantar todas as músicas novas, mas como se tratava de um disco curto, poderia acrescentar também hits de outros artistas, fazendo questão de esclarecer não se tratar de covers, e sim, de releituras.

    Diana e seu violonista ensaiavam exaustivamente. Os encontros seguiam no apartamento dela, causando desavença com vizinhos e uma longa discussão com a síndica do prédio. Ao se sentir pressionada, Diana optou por terminar os ensaios em um estúdio.

    Muito esforço e, enfim, tudo pronto.

    Agora era definir data e local para o show de lançamento. Conseguiram um bar com ambiente dark fashion, que Diana adorava. Um lugar alternativo, um pequeno palco improvisado e uma vontade imensa de acertar.

    Diana se desdobrou em mandar os convites, dar pequenas amostras do disco na internet, elaborar a lista amiga e providenciar o figurino. Comprou à prestação sua roupa, assentada em mistério, poder e sensualidade consciente. O preto como cor predominante. Escolheu uma peça com transparência, blusa top e short de couro com textura wet look para uma vibração mais gótica e punk, combinando com suas tatuagens e piercings. Tudo bem calculado nos detalhes.

    Chamou para o show alguns artistas conhecidos, que ela, na verdade, não contava que fossem. Mas, nunca se sabe…

    Um ator de teatro amador, amigo de infância, prometeu prestigiar. Como Diana tivera vários romances casuais, temeu convidar todos para o show. Podia surgir um clima ruim. Dane-se. Não poderia se dar ao luxo de dispensar ex-ficantes: tinha dado garantia ao dono do bar da presença de, no mínimo, trinta pessoas, correndo o risco de o espetáculo não acontecer. Era dura a vida da cantora nova.

    Terça- feira, 22 horas, tudo acertado.

    Diana chegou antes para a passagem de som. Notou que seu violonista aparentava um certo nervosismo. Procurou acalmá-lo e o aconselhou a não beber. Uma dose para esquentar, mas que não fosse encher a cara. Ela era a voz e ele o violão, necessitavam estar em completa sintonia…e minimamente sóbrios.

    Umas duas horas antes do horário do show, despencou um temporal. Muito azar. Só podia ser olho grande. Pegou um táxi, apanhou o violonista, a aparelhagem de som e partiram rumo à glória efêmera ou ao fiasco retumbante debaixo d’água.

    Quando Diana chegou, um grande susto. O interior do bar, apesar da chuva, lotado. Gente em pé. Seu coração bateu forte diante de tanta responsabilidade. Cumprimentou pessoas e bebeu um chope com um antigo namorado.

    Passava das 22:30. Tinha chegado o aguardado momento. Diana não queria admitir, mas sentia um vazio enorme. O violonista entrou no palco e checou o som. Não foi notado. Após alguns minutos, Diana surgiu. O pessoal continuou bebendo e conversando. Pessoas de algumas mesas a observavam. Diana encheu-se de coragem, deu sinal ao violonista e começou a cantar.

    Num canto do bar, em pé, uma figura de óculos escuros e boné parecia estar filmando no celular. Depois de algumas canções, o público continuava a conversar alto. Diana, então, se apresentou, falou de sua carreira e do disco. A próxima canção era de sua autoria e falava de um amor sofrido. Só o ator amador, amigo de infância, bateu palmas. Diana obteve mais sucesso quando cantou Ronda, do Paulo Vanzolini e Como eu Quero, do Kid Abelha. A plateia mantinha-se fria, palmas ocasionais sempre ao final de cada música. E muito barulho e risadas. O tipo de óculos escuros, no fundo do bar, continuava filmando. Quando ela anunciou a última canção, pairou no ar um certo alívio. Diana agradeceu a presença de todos e saiu. Não houve o bis.

    Na saída, falou com alguns conhecidos, recebeu elogios e se despediu. Quase virando a esquina, ouviu um chamamento: era o cara de boné e óculos escuros. Ele falou que tinha gostado das suas músicas e se apresentou como agente de várias cantoras. Deixou seu cartão e pediu que o procurasse. Ainda sugeriu que ela pensasse em incluir um tecladista e, talvez, um percussionista para o próximo show.

    A chuva tinha parado e Diana sentia-se nas nuvens. Chegando em casa, abriu uma garrafa de espumante nacional e brindou, em silêncio. Pensou em Lady Gaga e imaginou-se a estrela que nascia…

  • Arca em regime fechado

    Como se não bastassem os quarenta dias de dilúvio, ainda teve o Pandê.

    Consta que tudo começou com um morcego infiltrado — desses ressentidos — que embarcou sem autorização enquanto Noé se distraía organizando a fila dos puros e impuros. As corujas, sempre oportunistas, deram cabo do invasor. Tarde demais.

    Instalada a contaminação, veio a ordem: isolamento imediato. Cada casal no seu quadrado. Sem visitas. Sem circulação. Sem desculpas.

    E assim começou o verdadeiro dilúvio.

    No papel, a Arca comportava todos. Na prática, nem tanto. Sobrava espaço para os coelhos (desde que fingissem bom comportamento), faltava para elefantes e rinocerontes. As reclamações se acumularam na porta de Noé até serem diplomaticamente abafadas pelo casal de corvos, especialistas em crises e carniça.

    Resolvido o espaço — ou fingido que — veio o problema real: convivência.

    Cento e cinquenta dias. Vinte e quatro horas. Sempre o mesmo par.

    Dividir ração, ar, silêncio, mau humor. Decidir quem limpa, quem cede, quem respira primeiro. Um experimento ousado: juntar dois seres diferentes num cubículo e chamar isso de harmonia.

    Deu muito certo. Claro.

    Os leões, por exemplo, entraram em colapso narcísico. Sem plateia, a juba perdeu o sentido. Passaram a competir diante do próprio reflexo: quem já foi mais admirado. Pequeno demais o espaço para tanto ego.

    Os elefantes transformaram a escassez em campo de batalha. Ela, ansiosa, comia por dois e justificava pelo confinamento. Ele, inflado de si, ameaçava abandonar o barco na primeira oportunidade. Trombas voaram. Gritos ecoaram. E, curiosamente, para os vizinhos, ele seguia sendo um exemplo de parceiro dedicado. As paredes afinam tudo — menos a aparência.

    As raposas optaram pela sutileza. Ela, doce como mel envenenado, sempre “sugerindo” que fosse servida primeiro. Ele, concordando — enquanto uma voz interna gritava o óbvio. Mas educação é isso: perder espaço com elegância.

    Já as gralhas aboliram qualquer protocolo. Brigavam alto, sem filtro, revisitando cada desavença desde o início dos tempos. Minutos depois, trocavam juras eternas. Um espetáculo completo, com direito a reconciliação.

    Para quem assistia, melhor não escolher lado.

    E os bodes — ah, os bodes. Permaneceram fiéis à tradição: chifradas por qualquer motivo. Porta, feno, respiração inadequada. Constância é uma virtude.

    Noé, dizem, passou a evitar os corredores.

    Moral da história: com ou sem dilúvio, cada um vive confinado na própria Arca.

    O problema não é o casal que você escolhe. É o bicho que você insiste em achar que não é.

  • Crônica sobre uma foto: a estação rodoviária

    Organizando algumas caixas no armário, umas com papel sem importância ou importância pouca e burocrática — notas de cartão de crédito, documentos, tíquetes de estacionamento —, deparei-me com algumas fotos antigas. Fotos do tempo de eu-menino, como diria Manuel Bandeira. Mas não era Pasárgada, não. Era São Roque, cidade do interior de São Paulo.

    É… O cronista que agora tece esta crônica morou um bom tempo em São Paulo. Precisamente no interior: Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Cruzeiro, Lorena, Itapeva, Sorocaba, São Roque. Uma cidadezinha de pouco mais de 60.000 habitantes. Tempo de eu-menino. Mas mãe-d’água não me chamava. Chamavam-me os amigos, a poeira, as brincadeiras e o sol.

    Uma das fotos era da antiga estação ferroviária. Paredes amarelas e telhados vermelhos. Quantas corridas foram feitas sobre os trilhos… Parece que sinto agora o calor do trem! Quantas pedras jogadas de um lado para o outro. Algumas, as pequenas e pontudas, jogadas uns nos outros. E as conversas? O campeonato de futebol (e a briga era grande, porque cada um torcia para um time diferente e achava que o seu era o melhor), a menina de olhos verdes. Eu não lembro o seu nome, mas lembro dos olhos: olhos verdes! As incontáveis histórias da escola.

    É… Uma foto faz lembrar tanta coisa! O tempo parado, como se fosse nosso. Como se pudéssemos pegá-lo com as mãos, agarrá-lo à força. O tempo tem vozes! As vozes, todas elas, guardadas num pedaço de papel. E chego a escutar algumas: “Olha a pedra!”, “Aposto que eu ganho de você!”, “Até perto da cachoeira!”.

    Não sei o que fazem ou por onde andam alguns desses intrépidos personagens das minhas lembranças. Não sei. Sei que sinto saudade.

    Não vou embora para Pasárgada, entretanto. Quando relembro um tempo, relembro a mim, e a viagem que faço é inesquecível!

    Tempos de eu-menino…

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar