Crônicas

  • A era do instantâneo

    Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo.

    Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados!

    O que estamos fazendo com o nosso tempo?

    Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo!

    O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas.

    Nunca, em tão pouco espaço de tempo, vimos um crescimento tão grande e significativo da informação. Há muita coisa sobre tudo, em qualquer lugar da chamada internet.

    No entanto, pobres mortais, somos sugados para a pequena tela e achamos feio o que não é espelho! Vidrados que estamos em olhar através do visor do celular, esquecemos o amor, esquecemos o céu, esquecemos o andar e o falar, esquecemos o outro e, aos poucos, esquecemos de nós mesmos!

    E tudo, ilusoriamente, parece mais prático, mais rápido, mais dinâmico, mais isso e mais aquilo.

    Com a era digital, surgiram problemas que, simplesmente, não existiam. Estamos nos robotizando? Deixamos de ser humanos para nos satisfazermos com o colorido e frenético mundo virtual!

    Para tudo, uma foto. Um evento comum tornou-se cena de filme: cabelo arrumado, roupa arrumada, discurso ensaiado. Registro de um almoço, de um jantar, de um encontro com amigos! Amigos? Cada qual com o seu telefone!

    Para tudo, um comentário! Da mais besta situação ao mais ridículo dos espetáculos, uma frase, uma curtida, uma reclamação!

    Nem o vírus escapa de tamanha comédia pastelão! Quando as coisas fazem sucesso, “viralizam”.

    Pensando bem, a imagem do vírus é até que bem apropriada: multiplica-se rapidamente e vai enfraquecendo a defesa (o raciocínio, a criticidade e o bom senso) até tomar o corpo (a vida, os sonhos e os relacionamentos).

    Temos pressa de tudo! Minutos são como a eternidade!

    Se a página não abrir, se o download falhar, se a foto não aparecer, esbravejamos, choramos, clamamos e teclamos!

    E assim, entre fotos no Instagram, vídeos no TikTok, palavras no X, mexericos no Facebook, conversas no WhatsApp e outros inúmeros aplicativos, passamos o tempo sem darmos conta do nosso próprio tempo!

    Outra vez, me recordo de Umberto Eco quando sinalizava uma época de imbecilidade!

    É claro que há coisa que merece ser vista, ouvida e comentada. É claro que há vida inteligente nos campos virtuais. É claro que há criatividade, sim!

    Mas, somando tudo bem somado, pensando tudo bem pensado e pesando tudo bem pesado, temos muita incoerência, muita fofoca, muito julgamento precipitado, muito preconceito, porrada para todo lado. Temos violência, aberração, pedofilia, anúncios, moda e enganação!

    Temos ainda nazifascismo, vício e adulação!

    Mas, peraí!
    Isso tudo não é a própria sociedade?
    Revista, ampliada e viralizada!

    Tudo o que fazemos de pior, na internet, ganha dimensão, tem volume e mais proporção! Tudo o que fazemos de execrável ganha o mundo, faz o mundo, globalização!

    Em um mundo invertido e confuso como o nosso, a imbecilidade toma contorno de salvação! Parece que tudo é explicado e explicável através do Google!

    Não há amadurecimento, não há ponderação. Tá lá, tá certo! Sem complicação!

    E, nesse mesmo mundo globalizado e antenado, exigem de nós imensa flexibilidade, fazermos várias coisas ao mesmo tempo, explicando que agora é assim, que somos multitarefas — ou devemos ser —, mas esquecem que cada vez trabalhamos mais com menos tempo!

    Otimização!

    Sei que, nessa era tecnológica (e admiro e sei da sua importância), estamos destruindo nossas florestas, acabando com a nossa água, intoxicando nossos alimentos, escurecendo nosso ar, matando os animais e desumanizando a nós mesmos!

    Era melhor ficar nas cavernas e continuar a fazer desenhos…

  • Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?
    — Não muito longe do seu destino.
    — Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…
    — Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
    — Você é muito filosófica, mãe.
    — Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.
    — Ele é bom de…
    — Bond. James Bond.

    Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que seguem as contrações ao redor dos olhos. Como se soubesse o fim e ainda assim quisesse brincar de caminho. Os sorrisos iam dos olhos à boca, atravessando os rostos, por inteiro. Como a chuva fazia no vidro do automóvel em movimento.


    As chuvas a atravessam sem pedir licença. Transportam-na — não de todo, nunca de todo — para cenas de sua infância: viagens de carro, a voz da mãe inventando mundos no meio da estrada, pequenos jogos de linguagem que não tinham regra fixa, só as duas e seus sorrisos desanuviados. A aurora de dias que não mais retornam, mas teimosos, não se vão completamente.

    A chuva não passa impune em sua vida. Nunca passou.

    A coisa mais impressionante sobre as gotas d’água é que elas sempre buscam o caminho mais facil.

    ” — Nós, seres humanos, não”.

    De quando em quando, nada melhor do que degustar uma chuva – se houver possibilidade de ser por uma varanda, melhor ainda. As gotas parecem maiores quando mudamos a perspectiva e olhamos por baixo delas.

    Caem com força nos olhos.
    nos cabelos
    na pele

    escorrem…

    Sentimos o impacto. Fechamos
    instantaneamente os olhos.

    respingam os pingos que batem no parapeito de
    pedra e ricocheteiam em nós

    Marise, debruçada em sua varanda no sétimo andar, vê o correr das pessoas para debaixo das marquises, ou armadas com seus guarda-chuvas apontados para o céu e… pump! Mais uma mancha arredondada escondendo pessoas, sacolas, crianças, pets e quaisquer tipos de sortilégios… Guardam-se, todos, da chuva. Não guardam a preciosidade do momento.

    As folhas das árvores balançam com o gotejar celeste. Marise ouve, talvez não se atentem os passantes, sequer os que se abrigam, os pássaros cantando, bem perto de todos. No topo das copas mais altas que o seu prédio, vislumbra espécimes solitários tentando proteger as penas sob diminutas aglomerações de folhagens esparsas. Cantam para avisar aos outros da revoada que ali ainda não é abrigo. Um repete o
    canto, em outra copa. E outro. E outro…

    As gotas caem.

    Sempre caem pelo caminho mais fácil.
    Se deixam abraçar pelas forças gravitacionais.
    Não hesitam: nada há de complexo nas chuvas.

    Talvez por ser da serra, e por faltar o mar e a vista do mar, Marise cultive um fascínio imenso pelas tormentas. Deixa-se molhar pelas tempestades; é seu ritual de fora para dentro. Respira ouvindo apenas o rumor alto tecido por gotas tão pequenas.

    Paz.

    É, para ela, quase a exata sensação de mergulhar no mar. A diferença é que é um movimento mais seu estancar-se à chuva, braços e coluna relaxados, rosto virado para o céu. Mais familiar. Menos salgado.

    Combina com as lágrimas que jorram de quando em quando. Quando chove, Marise não chora. Poupa suas águas, que já sabem o menor caminho dentro de si.

    Deixa-se banhar, um pouco mais, pelas lágrimas dos deuses…

    Há um certo privilégio em tomar um banho de chuva num pequeno pedaço de seu próprio abrigo.

  • AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia.

    Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros, sabia olhar nas pessoas e adivinhar-lhes as aflições e sonhos. Seu carisma era natural, da mesma forma que sua crença espontânea em si mesma. Rara autocrítica e coragem de sobra. Além de alguma sorte, é claro.

    Como futuróloga respeitada, Madame Suely ganhou o suficiente para criar as duas filhas. Seu marido, no começo avesso a essas coisas místicas, via com simpatia a grana que ajudava nas despesas.

    As filhas mal conseguiam disfarçar a vergonha da função da mãe, mas sempre deram valor ao dinheiro que lhes possibilitou estudo e a formação universitária. A mais velha formou-se em Comunicação, e a caçula, em Odontologia, fato aliás previsto por Suely nas cartas, embora as filhas nunca tenham acreditado.

    Verdade que suas previsões não se concretizavam sempre. Humanamente não era infalível. Quando ocorriam presságios ruins, jogava de novo as cartas até que o oráculo mudasse. Aos consulentes evitava as profecias trágicas e somente repassava aquelas que pudessem trazer algum alento ou consolo. No fundo, Suely era uma otimista.

    Com a morte do marido (que não foi previsto por ela), Suely decidiu parar com suas consultas. O tarô, agora, só em ocasiões emergenciais.

    Mesmo que procurasse evitar, tinha ainda suas premonições. Esforçava-se para que elas não se realizassem. Ao menos, completamente.

    Com o tempo foi aprendendo a se desligar desse mundo de vaticínios cheio de mistérios e falcatruas. Jogou no lixo seu baralho de tarô e aposentou-se, merecidamente.

    As filhas celebraram. Há muito aguardavam por isso. Sentiram-se aliviadas.

    Libertação e descanso era também o que Suely sentia no íntimo. Alguns poucos clientes que ainda insistiam em procurá-la, Madame Suely explicava que dali para a frente ela só poderia conviver com o presente e antever passados.

  • Digníssimo canalha

    Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogáveis no reino celestial.

    A ti, que acolhes a reverência do povo que, passivo, aguarda tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. A ti, que te vales das prerrogativas que te elevam acima dos simples mortais, relegados à sua insignificância, quando de tua boca ouvem o famigerado “sabe com quem estás falando?”. A ti, ente indigno que, indignado, bradas por direitos inalienáveis enquanto vives na intimidade inescrutável da tua vida privada de práticas inconfessáveis. A ti, que por exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

    Venho oficiar-te, honorável patife, que encontro maior retidão e honra na palavra sincera que brota do coração de um pobre inculto do que nos alfarrábios que sustêm tuas áridas sentenças intermináveis. As mesmas que ambicionas inscrever nos anais da imortalidade, onde ostentas para as gerações futuras tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambolesca sapiência estéril.

    Os recursos do erário público que faltam no amparo aos desprovidos, amealhas sem cerimônia ou parcimônia para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que cinicamente intitulas como ‘Justiça’. Revestes com aura de magnificência e infalibilidade essa espetaculosa pantomima patética e embusteira sob a qual se vergam as vidas dos que se submetem ao jugo do teu julgar.

    Esgueiras-te por esse emaranhado de leis, decretos, normas, códigos, regimentos, resoluções, regulamentos que se presta como barreira ao acesso dos neófitos, vedando-lhe o acesso ao teu território demarcado. Atribuis a ti mesmo o monopólio do saber e das práticas legitimadas ‘por lei’. Para que, na mesma medida em que expandes a doutrina do DIREITO, reduzes o primado da JUSTIÇA.

    A chave de tua inoperância tem nome: PRAZO. Permites que os julgamentos se arrastem indefinidamente, sob a cínica presunção de que a justiça necessita de décadas para abarcar os infinitos meandros legais. E assim vais multiplicando as instâncias para alargar tanto os períodos de apreciação quanto o tamanho do teu patrimônio pessoal.

     Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, dilatas, encompridas, acresces, expandes, empurras com a barriga até ver coroada a prescrição do crime. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independentemente do trânsito em julgado? Devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja amargando a privação de um direito ou usufruindo do gáudio de uma pena descumprida, já é repositório do veredito, seja o que venha constar no papel. Todo esse ritual inesgotável serve apenas para tornar a justiça uma peça utópica, inatingível para quem dela necessita.  

    Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce do palácio de capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as ruas, distantes dos terraços dos palácios erguidos para te apartares da realidade de fato (e de direito), já não pertencem àqueles que nelas deveriam transitar, dominadas pelos malfeitores que libertaste das masmorras por artifícios legais e expedientes processuais, devolvidos à liberdade para continuar delinquindo, convictos de que os braços da lei jamais os alcançarão. Facínoras de toda espécie a quem remiste de pena, zombam daqueles que se pautam por princípios e honradez, sem armas, armações ou respaldo advocatício.

    Pessoas corretas vivem ao arrepio das formalidades legais que utilizas para agrilhoar os cidadãos, emparelhados pelo mesmo nível de calhordice que estabeleces tendo por referência teu espúrio padrão de valores. Com o intuito de que venham necessitar de tua mediação remunerada segundo a tabela do OAB.

    Sob o manto de teu propalado ‘estado de direito’, corruptos e ladrões escapam ilesos de suas falcatruas. Contam não apenas com tua plácida condescendência, mas com tua cruel cumplicidade. São para esses que aplicas a máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, concedendo-lhes draconiana indulgência. Cobrindo com o verniz legalista da imunidade a irrestrita impunidade. “Por falta de provas”, provas.

    Quando se erguem vozes contra tua ineficácia, a estratégia de defesa já está traçada: eximir-te de responsabilidade. Culpas os legisladores, a polícia, a escassez de juízes, seus salários insuficientes e o excesso de carga horária, a inexistência de vagas no sistema prisional, a carência de investimentos, os problemas sociais, a ausência de políticas públicas, a colonização portuguesa. Assim, absolves-te ‘in totum’.

    Todo teu empenho converge para um único objetivo: não punir. Inocentes ou culpados, pouco importa, prevalece sempre o princípio ‘in dubio pro reo’. Desde que teus honorários sejam quitados com precisão, integralidade e… justiça.

    Quando um crime hediondo mobiliza a opinião pública, tens à mão um arsenal para abrandar o rigor da pena: tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar, bom comportamento, atenuantes, progressão do regime, indulto, ‘saidinha’ de Natal, superlotação carcerária, penas alternativas, remissão, sursis, audiências de custódia. Tudo preparado para abrandar ou extinguir a punição. E criar novas possibilidades de utilizar teus serviços e criar vagas para a leva de recém-formados pelas faculdades de direito que abrem em cada esquina.

    Por todos os pretextos, vais libertando das grades os poderosos e seu séquito de advogados, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos das posses que bancariam teus emolumentos. Os que não colaboram com o pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas e consagra esse país como o paraíso da impunidade.

    Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar ao afirmar que personificas a Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, retribuindo-lhes com pérfidos serviços o dinheiro que garante o suntuoso padrão de vida que ostentas. Incluindo os penduricalhos incorporados a teu holerite, como ‘direito adquirido’.

    Quem te sustenta, respeitável biltre, são os safados. Crápulas que, desprovidos de considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes, qualificando-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do cafezinho do fórum, onde, por trás de indevassáveis paredes, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus colegas e cupinchas, uma associação fechada de rábulas parasitas.

    A verdadeira justiça é o oposto de ti. Consiste em tornar o mundo digno, prescindindo de teus sórdidos préstimos. Os princípios de retidão e civilidade, carregamo-los em nós. Num mundo de justos, tua ‘justiça’ não se ajusta. Que papel teriam juristas numa sociedade sem delitos? Os íntegros coexistem com harmonia, dispensando tua protocolar intermediação. Quem carece de lei são aqueles que dela vivem à margem.

    Data vênia, ilustríssimo, vai à p* que te pariu.

    (Adaptação de texto originalmente publicado em 2013 no livro O QUE DE MIM SOU EU)

  • Oração pelos peixes

    Sempre me intrigou que na Semana Santa não se pudesse comer carne mas se pudesse comer peixe. A carne dos peixes se exclui dessa restrição, embora nossos irmãos do mar sejam tão animais quanto a vaca ou o carneiro. É uma carne mais saudável do que as outras quanto à qualidade da gordura, mas certamente não foi por isso que a Igreja liberou seu consumo em ocasiões como agora. Naquele tempo ninguém tinha ideia do que era colesterol.

    Como faz bem tanto ao corpo quanto ao espírito, o peixe é comido sem remorso ao longo de todo o ano. Dos animais não nocivos ao homem, ele é certamente aquele para o qual menos se dirige a nossa piedade. Vejo e ouço protestos contra a morte violenta de bois, carneiros, raposas, ursos, mas raramente escuto uma voz contra a matança dos peixes.

    E olhem que a morte deles é uma das mais dolorosas. Ao contrário dos bois ou dos carneiros, que morrem de uma cutelada fulminante e indolor, os peixes se finam aos poucos, em tremores de agonia devido à falta de oxigênio. Matamo-los por necessidade e por lazer – para satisfazer nossas necessidades proteicas e para aliviar as tensões em longas e solitárias pescarias.

    Sabe-se que a ligação do cristianismo com esse animal tem razões históricas e também linguísticas. No tempo em que eram perseguidos, os cristãos usavam para se identificar a frase grega “Iesus Christus Theou Yicus Soter”, que em português significa “Jesus Cristo, de Deus o Filho Salvador”. Algumas letras dessa palavra formam a palavra “ichthyus”, que em grego significa “peixe”. Daí o vínculo com a figura do Redentor.

    O peixe servia mesmo como elemento de identificação entre os que se incluíam na cristandade. Quando dois cristãos se encontravam, um deles desenhava um arco no chão; se o outro fizesse o mesmo formava-se a imagem do animal marinho, e ambos se reconheciam como “irmãos na fé”. O resultado é que ele se tornou o mais importante alimento consumido na Sexta-Feira Santa, dia em que se recorda a morte de Jesus.

    Por ser a única comida animal permitida nesta época, o peixe ocupa um lugar de destaque no bestiário cristão. Seu sacrifício é um pouco como o de Cristo, que morreu para nos servir de alimento espiritual. Curiosamente, nem sempre foi assim. 

    No “Sermão de Santo Antônio ou aos Peixes”, Vieira afirma querer aliviar os peixes “de um desconsolo muito antigo”: o de não estarem, segundo a Lei Eclesiástica, entre os animais que Deus escolheu para serem a ele sacrificados. O motivo dessa exclusão, segundo o jesuíta, é que os peixes só podiam ir ao sacrifício mortos, “…e coisa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus altares”.

    É claro que há nessa passagem, como em todo o sermão, um sentido alegórico (a alegoria, “representação de uma coisa por outra”, normalmente comporta um valor moral). Vieira finge se referir aos peixes mas na verdade se refere aos homens, pois a “coisa morta” significa o ser humano como pecador.

    Quanto à recusa em levá-los ao altar por irem ao sacrifício mortos, há nisso uma ironia histórica: em respeito às leis da Igreja, hoje só eles se sacrificam. Ou não será sacrifício servir de repasto único, nestes dias, para matar a fome de toda a cristandade?

    O que não deixa de ser curioso é que a imagem do peixe sem vida, em vez de suscitar piedade, sirva para simbolizar o indivíduo sem fé. É uma “injustiça” com o animal que, de início, aparecia como um signo da autêntica vivência cristã.  

    Deixo aos doutos a tarefa de elucidar essa aparente contradição. Por enquanto, limito-me a pedir mais respeito com os peixes. Certamente ficamos indiferentes ao seu sofrimento porque, ao contrário dos outros bichos, eles ao serem mortos não gemem, não berram nem clamam com o olhar. Mas isso não significa que sofram menos.

    Enfim, já que o momento é de piedade cristã, façamos por eles uma prece silenciosa. Nem que seja para agradecer a boa digestão.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está à espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • Afinal, quem serve quem?

    Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”.

    Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma saborosíssima torta alemã — ou holandesa — com direito aos biscoitinhos, que geralmente vêm de brinde.

    Fomos ao primeiro piso, onde há uma famosa loja de chocolates, ambiente convidativo, mesas e — claro — o mais importante: a torta. Foi quando, ao chegarmos lá, vimos uma variedade imensa de tortas, cujo preço não era nada em conta. Mas, ao perceber que precisava fazer o pedido naquelas máquinas de autoatendimento, meu amigo perdeu a calma:

    “Ah, agora sou eu que trabalho pra eles.”

    E fomos embora.

    Alguns dias, penso que o mundo ficou mais fácil em muita coisa. Ninguém passa, hoje, pelo perrengue de chegar ao restaurante e a garçonete não ter troco — ou, em alguns casos, ter que tirar do próprio bolso o dinheiro que um freguês levou a mais. O Pix, o cartão de crédito ou débito resolvem tudo. Agora, uma verdade preciso reconhecer: ninguém mais quer servir ninguém.

    Você vai até o balcão, faz seu pedido, o pager vibra, você retira o pedido. Em alguns casos, depois de comer, um garçom recolhe a bandeja, os pratos, a xícara; em outros, você mesmo faz isso. Em situações assim, o bandejão e a cafeteria se igualam — com a diferença de que, na cafeteria, você paga o triplo do preço, trabalha pra eles e ainda sai se sentindo chique.

    Ao que me parece, comer fora de casa perdeu um pouco do prazer, do gosto.

    Certo dia, ali na região da Savassi, fui a uma loja de cookies — desses que, dizem, a gente come rezando. A empresária era jovem, uns trinta anos, mais ou menos, fazia cookies de todos os sabores. Ao perguntar se ela entregava em casa, respondeu:

    “Entregar a gente não entrega, sabe? Mas deixa disponível, caso o cliente queira contratar um motoboy.”

    Ou seja, o freguês ainda tem que contratar um motoboy.

    Sim, eles querem que a gente trabalhe pra eles. E, em alguns casos, a gente aceita.

    Ao sair de casa, tudo o que quero é o prazer de comer em boa companhia, dar boas risadas, ter uma conversa sem me preocupar com pager vibrando, buscar bandeja, recolher louça.

    Sem contar que idosos e gente simples nem sempre se viram bem com máquinas de autoatendimento. Dá vontade de gritar:

    “Tirem esses monstrengos do caminho. Minha vida precisa de mais sabor.”

    O sabor de uma boa companhia, de um papo olho no olho. Afinal, se a pessoa quisesse se autoatender, comeria em casa: fritaria biscoitos, faria uma broa, passaria um café quentinho.

    Mas, naquele dia, a gente não quis. Saiu pra bater perna, subiu para o piso seguinte e — adivinhem — encontrou um quiosque, uma cafeteria com garçons e garçonetes servindo todo mundo, com um sorriso e muita gentileza.

    Peguei uma torta holandesa, ele pegou outra. Pedimos uns cafezinhos quentes. E os biscoitinhos de brinde, claro.

    Aí, finalmente, pudemos colocar a conversa em dia, matar a saudade — tudo o que dois amigos querem.

    Quando a gente vence a preguiça, anda mais um pouco e encontra um lugar melhor, descobre que ainda é possível desfrutar a vida com muito mais prazer.

  • Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês.

    Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém se anime. Lembrem-se de que uma anamnese não é um teste de excelência, é apenas uma coleta de informações.

    Quem já for meu amigo pode ignorar o assunto: tem lugar cativo, quaisquer que sejam as respostas dadas. E se alguém achar que, em vez de respostas, deve enviar-me perguntas, prometo respondê-las com afinco e sinceridade.

    Lido mal com as perdas e na medida do possível quero minimizá-las, assim sendo dou preferência às pessoas que possivelmente viverão mais do que eu. Essa é uma das questões que mais me preocupa e está contemplada logo no início.

    Outra das minhas preocupações diz respeito aos encontros presenciais. Dou preferência a quem mora perto para facilitar o convívio ou a quem mora bem longe, o que dá direito a uma viagem planejada e prazerosa. As médias distâncias são uma encrenca: a Lei Seca, o preço do über, a insegurança de alguns trajetos cariocas, os horários noturnos, os engarrafamentos, não faltam motivos para desestimular o deslocamento.

    Um último comentário: essa coisa de virar amigo não tem regras nem explicações, portanto não há garantia de que o questionário funcione. De qualquer forma, é um começo. Aí vai.

    1. Você pretende viver muito ou é pelo menos quinze anos mais novo do que eu? Sim ( ) Não ( )
    2. Sua família é longeva? Sim ( ) Não ( )
    3. Você mora a menos de 20 km ou a mais de 200 km de mim? Sim ( ) Não ( )
    4. Você procura ser correto? Sim ( ) Não ( )
    5. Você concorda que na vida as coisas não precisam ser obrigatoriamente pretas ou brancas? Sim ( ) Não ( )
    6. Você ama a liberdade de expressão e abomina ditaduras de qualquer cor? Sim ( ) Não ( )
    7. Você convive de forma civilizada com opiniões divergentes? Sim ( ) Não ( )
    8. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito seus (não precisa confessar)? Sim ( ) Não ( )
    9. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito meus (não precisa contar)? Sim ( ) Não ( )
    10. Você consegue tolerar o defeito que encontrou em mim? Sim ( ) Não ( )

    Marque um ponto para cada resposta ‘sim’, sendo que as três primeiras valem dois pontos cada uma. Idem a última, porque amigos devem estar dispostos a perdoar (e esquecer) os eventuais deslizes uns dos outros, e eu possuo cá os meus.

    Se você somou mais de sete pontos, estamos bem encaminhados, pode me escrever no privado para darmos continuidade à conversa. Menos do que isso, penso que não vai dar certo e temos que nos conformar: unanimidade é algo inatingível e tenho certeza de que bastante gente está do seu lado.

    Um adendo: semana passada apareceu uma barata aqui em casa. Horror, horror! Mantenho a casa encharcada de inseticida, não sei se a barata saiu de alguma toca oculta ou se entrou voando. Apareceu já cambaleante, de salto alto, pronta para morrer. Foi caçada (não por mim!) e destruída convenientemente. Pensei, devido à importância que dou ao tema, em incluir na anamnese a pergunta ‘Você sabe matar baratas?’, mas refreei o impulso. No entanto, se você souber, não importa a pontuação que obteve no questionário acima, já quero conhecê-lo.

  • curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos

    Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobre a cama. Sinto olhares sobre mim, mas não vêm de fora; repousam baixos, quietos, sem pressa.

    Entre pensamentos, me perco, até que os acordes me trazem de volta.

    Quase desconhecidos, de uma canção que me é tão íntima.

    Insinuam-se instrumentos distintos, me puxando à pergunta: será mesmo essa música? ou eis que se desmancha, trocando a profundidade dos baixos e das guitarras por um pulso leve, desses que desconcertam as pálpebras, quase um chamado de xilofone para ninar?

    “sempre em frente…” — minha voz interna ensaia acompanhar o som — doce, familiar e, ao mesmo tempo, tão estranho — de algo que já não sei nomear. A melodia segue, e não. Algo em mim a suspende, feito estátua, por um instante. O cômodo parece recusá-la, e ela, a música, oportunista, se infiltra nesse hiato intangível, fazendo-se materialidade no vazio que me envolve.

    — Um quarto — meu por anos, alugado, com mobílias fixas que nunca escolhi. Mobílias castanhas, como a cor dos olhos que a música traz às minhas retinas.

    Tempo estancado, suspenso, quase palpável no espaço inexistente por onde minha respiração desfila seu ensimesmamento. Numa quinta-feira qualquer, em pleno horário comercial, sigo com os olhos, ainda deitada, o caminho desenhado por diminutas formigas.

    Desfazem as rotas que elas mesmas tecem, antes tão precisas sobre o corpo inerte de uma libélula. Há uma vigília silenciosa embaixo da minha cama.

    Peso morto no limite da minha esquadria — entre o de fora (minha varanda, o canto dos pássaros, o frenesi dos pneus) e o interno (a poeira da casa casada aos pelos brancos, a lâmina desbotada do piso; culpa da luz do sol, insistente, independente do humor celeste).

    Inerte, numa última postura de elegância, um ponto de exclamação ao revés. Asas indecifráveis — como o motivo de sua morada final, meu canto.

    Asas translúcidas, perfuradas. Linhas pretas, tão orgânicas quanto a chave suspensa na fechadura, há pouco mais de um metro acima do corpo do inseto — antes manjar de formigas; agora… procissão respeitosa?

    !

    Ritual orgânico, suspenso, leve. Já não respira — e ainda assim, persiste.

    Assim como o castanho do armário, o castanho daquele que habita minhas retinas — e que, por reflexo e extensão, também se fazem castanhas.

    A tempestade que chega é da cor desses olhos — quentes, atentos — que me observam do chão, em silêncio, entre os pelos que rolam por sobre o piso, como se guardassem o mundo para além do que o faro pode traduzir.

  • Devota

    O espaço era pequeno e fechado por uma porta metálica, com paredes de pintura descascada. A roupa e os poucos objetos pessoais pendurados em sacolas ou em pequenas prateleiras. O local era compartilhado com outras detentas. Quando podia ficar sozinha, Juliana pensava na vida, nas memórias daquilo que havia vivido.

    Dormia num beliche com base rígida e um colchão simples. Colado à parede, ao lado da cabeceira, um pequeno quadro com a imagem clássica de Jesus Cristo.

    Desde criança, Juliana demonstrava o desejo de seguir a carreira religiosa. Orgulho da família, fez a primeira comunhão na igreja perto de casa, ia todos os domingos à missa e prosseguia na catequese, vivenciando a fé no dia a dia. Foi crismada, iniciou seus trabalhos na pastoral e passou a frequentar semanalmente reuniões com um grupo de jovens da igreja.

    Juliana era tão carola e concentrada em seu fervor católico, que a família e os amigos passaram a temer aquela fixação. Ela não tinha olhos para mais nada, vivia em orações e decorando passagens da Bíblia. Algumas vezes se penitenciava pela humanidade, ao andar de joelhos pela casa.

    Mulher bonita, quando questionada sobre namorados, sua maior alegria era dizer a todos que estava noiva de Jesus.

    Numa dessas reuniões do grupo jovem, conheceu Francisco. Não soube explicar a sensação estranha, mas jurava que o rapaz era a cara de São Francisco de Assis. Os apelos da carne começavam a se manifestar e Juliana não conseguia mais conter as investidas de Francisco. Ela se entregou de corpo e alma a ele, esquecendo por um tempo do noivado com Jesus.

    Franciso logo abandonou a igreja e terminou o namoro. Já havia conseguido o que queria. Juliana continuava atrás dele, de joelhos, implorando para ele voltar. Francisco já estava de casamento marcado com outra moça.

    Juliana, desesperada, se consolou na religiosidade: “toda a nossa vida deve ser uma constante oração.” Sua fé venceria tudo. A sua alegria verdadeira vinha de se entregar a Deus. Para quem a chamasse de louca ou beata, respondia que onde houvesse ódio, levaria o amor e onde houvesse ofensa, levaria o perdão.

    Foi presa em flagrante, depois de ter dado dezenove facadas em Francisco. Aos policiais, justificou-se tentando explicar que a morte era apenas uma passagem da vida terrena para a eterna. Não haveria o fim definitivo. Os policias a algemaram mesmo assim.

    Ela não quis advogados e recusou-se a receber visitas. Na cela onde estava, a luz permanecia acesa durante toda a noite por questões de segurança. Juliana dizia que a luz simbolizava a verdade e o bem contra a escuridão da ignorância.

  • O que fica fora da foto

    Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado?

    O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo. Uma risada explode — e alguém já procura o celular. O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade.

    Não é que faltem sentidos. Eles continuam todos aqui: ver, ouvir, tocar, sentir cheiro, provar. Mas, na prática, parece que elegemos um só — e ainda assim, mediado por uma lente.

    A cena não passa mais direto pela gente. Antes, precisa caber na tela. E aí acontece uma coisa curiosa: quanto mais a gente tenta guardar o momento, menos ele parece nos atravessar de verdade. O pôr do sol vira registro. O sorriso vira conteúdo. O encontro vira material.

    A gente não olha — enquadra.

    Não presencia — captura.

    Não participa — publica.

    E, nesse movimento quase automático, alguma coisa se perde. Talvez a distração do vento, o calor do instante, o detalhe que não caberia na foto, mas que era justamente o que fazia tudo valer a pena.

    Há sempre um ajuste a fazer: o ângulo, a luz, a pose, a versão de nós mesmos que vai aparecer depois. Porque, no fim, a imagem não é só do momento — é também sobre quem a gente parece ser dentro dele.

    E assim, aos poucos, vamos nos afastando. Sem sair do lugar.

    Viramos uma espécie de intermediários da própria experiência. Nem totalmente dentro, nem completamente fora. Apenas ocupados em garantir que tudo fique… registrável.

    E curioso: pelas lentes do celular, quase sempre saímos bem. Talvez melhor do que estávamos.

    Mas fica a dúvida — em que momento foi que começamos a preferir a lembrança editada à experiência vivida?

  • O que eles dizem

    Eles dizem que tudo vai às mil maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar nossas vidas. “O que seria de nós – perguntam eles – sem a internet”? Nem dá para imaginar… Como poderíamos nos munir de fake news e organizar o cotidiano sem a enxurrada de opiniões alheias? E a saúde, como cuidar dela sem recorrer ao Dr. Google, especialista em diagnósticos instantâneos e automedicação virtual? Enfim, caminhamos para um futuro onde tudo será entregue pronto e mastigado. Nosso papel na formação de nossa própria vida será o de um mero espectador, um acessório de segunda.

    E as operações bancárias então? Antes, carregávamos dinheiro vivo em bolsos e bolsas vulneráveis, espreitados por gatunos. Agora que migramos para cartões e aplicativos, os gatunos migraram para o ciberespaço. Podemos nos fartar em gastos por 29 dias, antes que a chegada da fatura no 30º acabe com a festa. Tudo a um módico custo anual, diluído em doze parcelas e juros ligeiramente escorchantes.

    Games, tem para todos os gostos, para nos entreter (e nos viciar) nas brechas de tempo, destinadas a reflexão ou contemplação de árvores, mesmo que elas (as brechas e as árvores) não existam mais. Passatempos sobre pornografia, violência e ódio que nos engajam e dão sentido a nossa vida carente de emoção e transgressão, tornam-nos monstros cruéis, tarados, abusadores. Porém exímios em informática.

    E as compras? Como viver sem o opulento cardápio de inutilidades da Amazon? Tudo pelo prazer de nos autopresentear com quinquilharias primorosamente embaladas, sem precisar levantar do trono de onde governamos nossa vida, espremida nas polegadas de uma tela.

    Quanto ao saber, “que progresso!” Já não precisamos de faculdades e mestres para nos entulhar com seu inútil conhecimento acadêmico que no fim só nos rendem inteligência, um diploma e nenhum bitcoin. “Certificando-nos como sábios pobretões”, argumentam eles.

    E quanto às fotos que disparamos freneticamente feito metralhadoras giratórias para descartar 99 de cada 100, sem nos preocupar com a liturgia dos negativos e revelações da Kodak? Tanta foto que registra lugares de que mal lembramos, cuja beleza inerente permanecerá guardada em sua essência intangível. Paisagens e semblantes que atravessaram fugazmente nossa existência sem deixar vestígios. Mas as fotos estão lá! Redundantes, tediosas, iguais, testemunhas silenciosas de aventuras nunca experimentadas. Dissolvidas nos infinitos gigabytes, que deixaremos de herança para que nossos filhos nunca acessem.

    As músicas que apreciamos entulhamos em playlists para descartar como resíduos digitais, após uma semana, quando delas não mais nos recordarmos. Um rolo compressor de bytes, catalogados por ordem de insignificância. E pensar que houve um tempo em que músicos e artistas se dedicavam a criar arte em discos com capas, encartes, fichas técnicas, destinados a enriquecer as prateleiras de nossas salas? “Pra quê tudo isso”, perguntam eles? O que importa nessa efêmera existência é criar seleções no Spotify com os hits reciclados do momento. A própria plataforma, que parece nos conhecer melhor do que nós mesmos, decide o que gostamos, sem nos consultar.

    E os filmes que a Netflix renova a cada semana? Um dilúvio de blockbusters sem inspiração em que nos afogamos, sem saber com qual deles desperdiçaremos nosso balde de pipocas. O essencial, claro, ali não está. Os clássicos, os cults que passaram na Mostra. Aqueles que deixaram marcas profundas e armazenamos em nossa memória RAM afetiva. “Nem tudo é perfeito”, apressam-se em nos lembrar.

    Podemos apreciar nossa comidinha impessoal, pedida pelo iFood há 10 minutos. Basta um toque na tela e o objeto de nosso desejo se materializa à porta. Às vezes bate uma saudade (“saudosismo”, contrapõem eles) do prazer de preparar quitutes com o toque caseiro que a avó nos ensinou, aquele temperinho especial, saído quentinho do forno. “Mas a vida corrida de hoje não comporta essas pueris extravagâncias afetivas. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar tais minutos em sentimentalismo culinário.” É o que eles dizem.

    Se quisermos quebrar a rotina e ir a um restaurante ou ao teatro, uma chamadinha e o UBER providencia, num passe de mágica, um motorista robotizado com sorriso ensaiado para nos conduzir a nosso destino, teletransportados pelos mapas do GPS, onde não figuram parques, ipês, monumentos, casarões, pássaros, cães e crianças brincando… Sem preocupação com taxímetro, combustível e sem recorrer ao tumultuado transporte de massas.

    Podemos ainda usar e abusar das mensagens disparadas pela conta gratuita que o Gmail nos disponibilizou, condicionada, claro, aos ininteligíveis termos de uso que lhes permitem, com nossa anuência, manipular nossa vida, dela espremendo o que lhes interessa. Sem precisar recorrer ao velho Correio (lembra-se dele?) com aquele cerimonial de redigir, dobrar, selar, enviar e aguardar o recebimento incerto. “Atraso de vida”, proclamam eles.

    Tampouco precisamos memorizar os aniversários de amigos e familiares; o Facebook se incumbe dessa chatice. Podemos enviar felicitações via whatsapp por mensagem de texto (ou de áudio para mostrar que nos restou a voz humana). Nada de telefonemas, tendo que rebuscar palavras enfadonhas que traduzem emoções há muito esquecidas. O único esforço é encontrar o emoji adequado e… pronto, missão cumprida! Sem o calor de um abraço ou as sutilezas que o tempo estampa na expressão. Sem bolo, sem velas, sem beijinhos, essas cerimônias que o pessoal das antigas valorizava. E, convenhamos, quem precisa de amigos de carne e osso quando no Face temos milhares, com retratos, perfis, stories, a ficha completa. Se incluíssemos os crimes, teríamos um dossiê policial.

    Sim, a tecnologia nos abarrotou com trivialidades para transformar uma vida insossa numa insossa vida. Mas não há motivo para desespero. Chegou a Inteligência Artificial, prometendo solucionar os problemas com seus algoritmos infalíveis. “Fique frio que tudo ficará bem”. É o que eles dizem.

  • Os brincos

    1.
    Adriana recebeu um forte golpe na cabeça. O sangue escorreu, e, em alguns minutos, o piso da cozinha se transformou num tapete escarlate. Rastejando pelo chão, conseguiu deixar o local. No corredor, ouviu uma porta bem lá no fundo ser batida com violência. Escutou miados e sentiu algo semelhante a um conjunto amorfo de pelos roçar sua perna. Arrastou-se até o elevador. Apertou o botão térreo e lembrou que Pedro havia ficado no berço. Saiu do elevador e correu de volta ao apartamento. Dirigiu-se ao quarto do filho, ele não estava lá. Levou outra pancada, desta vez na face esquerda.

    2.
    Alguns dias – ela não tem a menor noção de quantos – haviam se passado. Deitada num quarto de hospital, Adriana tinha diante de si a mãe, olhos vermelhos de tanto chorar. Pensou em como essa situação sempre constituíra fonte de desconforto para Amália. Desde que tinha cinco anos, Adriana havia aprendido em casa que gente crescida não chorava. Só crianças podiam fazê-lo, crianças choravam por qualquer motivo, era natural que agissem assim. Quando um adulto chorava, era por uma razão muito grave,invariavelmente relacionada a morte, doença séria, falência ou ruína.

    – Minha filha…

    – Onde está o Pedro?

    – Calma, ele está bem. Vicente está cuidando dele.

    – Eu quero vê-lo.

    – Você não pode fazer esforço… Por favor, não se levante.

    – Eu preciso vê-lo.

    – Olha, vem cá, eu tenho uma coisa pra você, sei que vai gostar. Eram da minha avó. Quando você for embora, vai estar linda.

    3.
    No dia em que deveria deixar o hospital, Vicente foi encontrá-la. Havia ficado acertado que Adriana não voltaria para o apartamento onde o pesadelo havia começado. Na recepção, burocracia resolvida num tempo surpreendentemente curto, ela preparava-se para ir embora com o ex-marido quando uma enfermeira veio lhe avisar que tinha esquecido um par de brincos no quarto. Ela agradeceu e em seguida colocou-os. Achou que lhe assentaram bem, mesmo não tendo conferido o resultado num espelho. Poderia ter perguntado a Vicente se eram bonitos ou mesmo adequados, se combinavam com sua roupa ou com sua personalidade. Bobagem. Momento nada oportuno para esse tipo de futilidade. Além do mais, talvez ele só prestasse atenção nas feridas de seu rosto e nem conseguisse enxergar a joia direito. Era muito estranho o fato de jamais ter furado as orelhas àquela altura da vida. Isso limitava bastante os modelos de brinco que poderia vir a usar. Adriana começou então a recordar as mulheres da família: a mãe, as avós, as duas irmãs mais novas, as primas mais chegadas, tia Hilda e tia Helena, velhas solteironas que bem poderiam ter sido criadas pela mente libidinosa de algum escritor pervertido. Cláudia, Valéria e Márcia, amigas queridas, todas elas de orelha furada.

    4.
    Vicente não estava de carro. Na porta do hospital, com Pedro no colo, tentava conseguir um táxi. Uma obra quase em frente à saída dificultava a circulação de veículos, obrigando os motoristas a realizar desvios. Ele afastou-se um pouco à caça de condução. Adriana resolveu dar alguns passos na direção do ex-marido. Fraca e um pouco tonta, escorregou. Caiu. Sua nuca encontra o meio-fio. Deitada no chão, é vista por um senhor que passava claudicante apoiando-se numa bengala. Junto ao corpo imóvel de Adriana, na altura da orelha esquerda, antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele reparou bem: uma pedra vermelha, fina e delicada, reluzia.

  • Os livros e seu mundo

    Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o amor são assuntos possíveis, justamente por serem elementos da vida.

    Desse modo, escrever sobre livros e questões do seu universo não representa necessariamente a procura pelo exercício da atividade crítica ou pelo discurso metalinguístico. Cavaquear com o último texto lido (e, no fundo, ler é dialogar) pode significar, no escopo de suas intenções, apenas abordar determinada experiência; ainda que, em última instância, produza-se também metalinguagem. Tratar de tais “objetos” ou da vivência entre eles é também falar do mundo em geral e de um em específico.

    Os críticos crípticos não enxergam isso, nem poderiam; pois, mesmo trabalhando com esse material, fecham os olhos para tudo que pulsa. O universo dos livros palpita como nenhum outro. O intelectual que se recusa a ver o mundo não pode compreender a leitura como a prática permeada de vida que é.

    Quem não se insere nessa relação de vida não compreende o fenômeno completamente. Todavia, ela não diz respeito a ofício ou frequência de leitura, mas a um tipo de vínculo e até a certa maneira de viver, na qual os livros possuem outra dimensão (muito além da materialidade do impresso) e aparecem como elementos fundamentais do cotidiano.

    E são só esses leitores, os de vida, que conseguem experienciar a dimensão transcendente contida nos livros. Tão imprescindíveis como o pão e a água, tão habituais como tomar café pela manhã, mas dotados de uma significação que nada disso consegue comportar. Fazem parte do dia a dia, porém, jamais perdem o encanto que possuem.

    Destarte, é plenamente natural que a vivência contida no correr cotidiano das páginas esteja presente no que se escreve. Não se pode falar sobre o que está fora da vida, e os livros estão inseridos nela. Mais do que isso, com eles, constitui-se especial forma de existir. Assim como engendram um mundo, que é, ao mesmo tempo, todos os mundos, existentes e possíveis.

    Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em Quarta, 24 de nov. de 2021

  • Abençoado quem?

    Quem convive comigo há pouco tempo nem imagina quão atacado das ideias eu já fui. Sim, o tempo amorteceu minha irritabilidade e ando menos propenso a erupções. Mas as vezes o passado aflora.

    Uma das ocasiões em que sou mais propenso a erupções é com o uso incorreto das palavras. Não faz muito tempo fui ao cinema no shopping com minhas filhas. Estávamos dentro do elevador indo para a garagem quando um cidadão veio correndo, eu o vi e segurei a porta. O cara entra e diz “obrigado, abençoado”.

    O filme divertiu e a companhia das minhas filhas é sempre muito agradável. Por isso escutei a bobagem e nem esbocei reação. Mas…

    Mas o vírus da irritabilidade mora em mim ainda, em estado latente, e por isso o assunto voltou a memória. Abençoado por que, caramba? Que diabo eu fiz para que ele, que nunca me viu mais gordo nem mais magro, me lançasse esse epíteto elogioso? Não dava para ser clássico, ou vintage, e dizer somente “obrigado”?

    Mas não para por aí. Outro dia esbarro no noticiário online na frase “Fulana explana beleza”. Na boa, eu dei um crédito ao autor e fui buscar no dicionário o significado do verbo explanar. Tá lá escrito: 1. fazer exposição verbal de; narrar minuciosamente. 2. tornar plano, fácil de entender; esclarecer, explicar pormenorizadamente.

    Faz sentido? Para mim, nenhum.

    E antes de terminar, aviso: ando de ótimo humor!

  • Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu prazer. 

    Em nossas mentes pode aparecer uma cena de horror quando os dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como estamos de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito felicidade, empacotada nas mãos a disposição de um instante para se expor, ou enxugar os olhos marejados. 

    Mas se a cena no palco partir de seres sem rosto, recém chegados nesse planeta, descobrindo o mundo como se acabassem de nascer, o que você escolheria para começar tudo de novo? Onde iniciaria sua desventura repaginada com uma lista de quero mais, ou nunca faria novamente o que tanto me desgastou? 

    O silêncio das ideias, traz a tona o sonho, a espera de um despertar magoado pela demora em se desmanchar em vida.

    Nem todos os atos nos levam imaginar existe uma luz no final do túnel, ou “Lanterne Rouge”, expressão tirada do transporte ferroviário, popular no século XIX, como o último vagão do trem que acendia uma luz vermelha para mostrar que era de fato a última composição.

    Nossas escolhas estão sempre em transformação, se modificam na fila da esperança de todos os dias, por isso fica difícil nos chamar de Lanterna nesse campeonato da existência.

    Manter-se a frente das novidades nos permite escapar da sinfonia do Flautista de Hamelin, que conduziu cento e trinta crianças para uma caverna sem saída. 

    “Ao final de tanto viver, não tenha pena dos mortos, mas sim dos vivos, dos que vivem sem amor”. J. K. Rowling.

  • O que não pode esperar

    A cena é a seguinte: um homem está numa fila de uma clínica médica — mas poderia ser do Detran, de um laboratório, de um cartório, já que o que vai acontecer é muito comum —. Ele, mesmo podendo fazer tudo pelo celular, coloca uma pasta em cima do balcão, apoia os cotovelos, ignora a fila que se formou atrás dele e vai mostrando exames que precisa apresentar para duas médicas, uma delas oftalmologista. São muitos papéis. Ele se confunde.

    Tudo isso de manhã, num sábado, com a cidade aparentemente mais calma. Olho para a máquina de café, quero pegar um cafezinho, mas penso em tomar um depois de passar no guichê, para ganhar tempo. Mas quero ficar ali, ouvir, embora eu não precise falar nada.

    Na fila, posso ver o muxoxo de um e de outro, geralmente jovens, meninos e meninas — acostumados com Pix, QR Code, aplicativos.

    A atendente diz:

    — Não, este aqui… deixa eu ver… este aqui o senhor traz na terça-feira.

    — E este aqui? — pergunta o homem.

    — Este aqui é na quarta-feira.

    Olho a fila: gente de braços cruzados, guardando o celular no bolso e pegando de volta várias vezes.

    O homem debruça os cotovelos no balcão, não olha em volta, não vê a fila se formando atrás dele. Ele, que vem de um outro tempo, parece ter um ritmo próprio, diferente dos outros — mais lento, mais pausado, mais calculado. Ele foi até ali, precisa resolver tudo para não ter que voltar. Vejo que, naquele dia, ele está sozinho — nem um filho, mulher, netos.

    Aí, de repente, me veio ao pensamento a pergunta: “O que não pode esperar?” Às vezes, ao sair de casa para trabalhar ou dar um simples passeio, somos engolidos por uma pressa que nem nos damos conta. Quando é assim, sempre me lembro de um ensinamento do meu pai: “A gente não existe no mundo sozinho.” E, para existir, a gente precisa entender que nem todo mundo vive no mesmo tempo, que, na vida, cada um se vira do jeito que dá.

    De repente, aquele homem que cresceu num mundo de telefone fixo, papéis, guias, boletos, carnês e carimbos acorda e dá de cara com um mundo feito de QR Codes, Pix, inteligência artificial.

    Existimos, sim, no mundo; mas não sozinhos — sempre com os outros. Por isso, do meu canto, tento entender aquele homem, a aparente tranquilidade com que confere os papéis que entrega para a recepcionista. Ela pega um dos documentos das mãos dele e explica calmamente:

    — Não, este aqui é o de terça-feira. Mas o senhor tem que trazer junto com o exame, tá bom?

    A voz da menina é calma, vem acompanhada de um sorriso, um tom afetuoso, de quem fala, talvez, com um pai ou com um avô.

    — Agora o senhor entendeu?

    — Entendi sim, minha filha.

    — Não perde não, tá bom?

    Ele coloca, um a um, todos aqueles documentos numa sacola, devidamente dobrados, dentro de uma pasta.

    Ouvi, certa vez, não me lembro de quem, a seguinte frase: “Quando a gente envelhece, a mochila fica mais pesada.” Naquela idade do homem na fila, os pais já se foram, muitos amigos morreram, talvez ele seja viúvo, aposentado. E, com essa “mochila” que chamo de bagagem de vida, ele foi ali, junto com a atendente, achando um jeito de fazer as coisas do seu próprio jeito, no seu tempo, sem ligar muito para a pressa dos outros.

    Fico pensando que, no passado, ele pode ter sido alguém que organizou a vida de muita gente. Um porteiro? Talvez. Garçom? Pode ser, claro. Fico ali, tentando descobrir — ou inventar — uma profissão para ele. Manobrista, dono de um bar, caseiro. Alguém que, em algum momento da vida, organizou a vida de muita gente, tornou tudo mais fácil, não deixou nada fora de ordem. Agora, ali, com aqueles documentos.

    Ao sair de casa, você e eu — é comum que, ao atravessar a rua, tenhamos aquela sensação: “Puxa, aquele cara anda tão devagar” ou, em determinados dias: “Meu Deus, onde ela vai com essa pressa toda? Precisa?” É como se todo mundo quisesse um mundo só seu, uma rua só sua, um trânsito só seu, um guichê de atendimento próprio.

    Ninguém fala nada. Uns olham o celular, outros fingem conferir uma receita qualquer, gente olhando para um lado e para o outro. Mas todos querendo um mundo só seu.

    Mas, infelizmente, não é assim. Quer seja numa fila de banco, hospital, qualquer lugar, o negócio é encontrar a nossa cadência com a dos outros. Por isso, olho para o velho que estava na fila. O mundo não anda devagar demais nem rápido demais. Afinar nosso tempo com o dos outros — sempre. Não é fácil, mas é o que faz a vida valer a pena.

  • Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem

    Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença.

    Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certificação de se estar vivo.

    Mesmo que a milhas náuticas de distância, poética unidade que mede o mar a partir do céu, um belo dia, num domingo posterior ao original, o Domingos contestou-me:

    Por acaso você foi ao dicionário pesquisar o significado da palavra esquisito?

    Então aqui nasce a parte II de “Esquisito Íntimo” – é deselegante deixar um leitor sem respostas.


    “Esquisito:
    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels* preto e branco dançantes. Uma quase hipnose”.

    Ela estala na língua e, agora, reverbera no paladar. Em italiano, squisito escorre, redondo, como um elogio que desliza fácil. Sinto-o na boca como quem descreve um prato raro, delicado, escolhido a dedo. O dedo indicador, então, sem pedir licença, desenha pequenos círculos na bochecha — gesto “tutto buono” de quem prova algo bom demais para ser apenas cotidiano.

    E então, como quem puxa um fio antigo, chegamos ao latim: exquisitus.

    Aquilo que foi procurado com cuidado.

    Escolhido. Refinado. Raro.

    Esquisito, portanto, já foi elogio. E ainda é, na Itália. Também na Espanha.

    E talvez na nossa língua faceira ainda seja — em alguma versão paralela de universo onde as palavras não se apressam em caber no mundo. Aqui, neste português nosso de cada dia, esquisito virou outra coisa.

    Escorregou.

    Sofreu uma leve torção de sentido, sem fazer barulho, mas alterando destinos:

    1. O que era raro passou a incomum;
    2. O que era incomum, estranho;
    3. O estranho, caros leitores, por fim, tornou-se esquisito.

    Há algo de profundamente humano nessa queda semântica.

    Aquilo que exige mais olhar, incomoda quem não quer ver.

    Assisti Passageiros e, pela primeira vez, não me senti exquisita — no sentido latino da palavra. Não me senti escolhida, nem rara, nem lapidada pelo cuidado do mundo.

    Senti-me… esquisita.

    Nada elegante.
    Nada refinada.
    Nada desses termos que se provam com deleite.

    Mais próxima da apropriação brasileira do termo.
    Mais próxima de um desalinho.
    Mais próxima de todas as dúvidas.

    Houve um instante — curto, mas inteiro — em que me perguntei, com uma seriedade quase infantil:

    E se eu não estiver mais aqui?

    Não morta, no sentido dramático que os vivos gostam de dar às coisas. Deslocada. Imprecisa.

    Como se a minha existência escapasse um centímetro para fora do enquadro — o suficiente para que eu ainda me enxergue, mas não me reconheça.

    Lembrei de uma senhora em uma pegadinha televisionada. Do susto genuíno ao não encontrar o próprio reflexo num espelho que não era espelho. Da gargalhada que me tomou em São Paulo, livre, despreocupada, viva, espontânea.

    E, ainda assim, eis-me agora, dias depoiss, tocando a mesma ideia — mas por dentro, intimamente. De um jeito… esquisito íntimo.

    Quiçá o esquisito íntimo seja isso: não aquilo que o mundo estranha em nós, mas sim o ponto exato em que deixamos de coincidir conosco.

    Entre o que fomos escolhidos para ser e o que nos tornamos ao longo de travessias.

    Há distâncias que não se medem em quilômetros. Sequer em milhas náuticas: medem-se em pequenas falhas de percepção.

    Em lapsos de presença.

    Em segundos em que o real vacila — e vacilamos, com ele.

    Ainda assim, há uma beleza quase indevida nisso tudo.

    Ser esquisito — no sentido primeiro — talvez seja justamente não caber.

    Não se deixar reduzir.

    Não se tornar tão comum a ponto de desaparecer dentro do próprio reflexo.

    Talvez eu esteja, afinal, perigosamente viva.

  • O alfinete

    Fátima sentou-se ao pé da cama da pequena Pérola. A penumbra do quarto, o perfume de lavanda dos cachos recém-lavados e o calor que subia do corpinho sob o edredom florido a envolviam num torpor doce. Era seu momento preferido — quando tudo se calava, menos o amor.

    O tilintar de louça na cozinha a trouxe de volta. A dor reapareceu — fina, precisa, como a ponta de um alfinete invisível, cravado em algum lugar que não sabia nomear.

    Olhou mais uma vez para a filha, que ressonava baixo, e desceu.

    Cândido a esperava com a mesa posta e o mesmo sorriso tranquilo. Um homem de gestos simples, de amor constante. Às vezes, ela invejava a facilidade com que ele atravessava as coisas.

    Falaram do dia. Da escola. Do tempo. Das contas. E, por fim, de Pérola.

    Fátima comentou da festa de São João na escolinha. Disse que já estava tudo pronto: pés de moleque, cocada cremosa, pipoca caramelada.

    — E o vestido? — ele perguntou.

    Ela trouxe dois vestidos iguais, azul-claro, lisos.

    — Não era xadrez? — ele estranhou.

    A fisgada.

    — Xadrez de chita, Cândido? Não… — hesitou — assim é melhor. Mais discreto.

    Ele sustentou o olhar por um instante, como quem procura alguma coisa, mas não insiste. Depois cedeu, em silêncio.

    Mais tarde, Fátima foi para o terraço. A lua cheia clareava o quintal.

    Pensou no hospital, nos papéis assinados, na primeira vez em que segurou Pérola. Pequena, quente, os olhos escuros, os fios ralos. Amor imediato. Sem dúvida.

    Com o tempo, vieram os olhares.

    Nos parques. Nas lojas. Nas festas.

    Vieram as perguntas que sorriam antes de ferir.

    — É sua mesmo?

    — Que mistura linda…

    — Puxou a quem?

    E, com elas, algo começou a se deslocar.

    Pérola crescia. O cabelo ganhava volume. Os cachos se fechavam. A pele escurecia.

    Fátima começou a desejar — e odiou-se por isso — que ninguém reparasse.

    Passou a ajustar pequenas coisas. O tempo de sol. Os penteados. As roupas.

    O alfinete.

    Chamaram-na de dentro.

    Pérola estava em pé no berço, um brinquedo na mão, os olhos ainda pesados de sono.

    — Mamãe, posso ir com o cabelo solto amanhã? Igual o da Laurinha?

    Fátima hesitou. Laurinha — Cabelo cheio, solto, laços coloridos.

    — Melhor preso, filha… — disse, evitando o próprio reflexo no espelho — fica mais arrumado.

    A menina assentiu, devagar. Deitou-se.

    O alfinete.

    Na sala, Cândido folheava um álbum.

    — Lembra? — disse, mostrando a foto.

    Os três. O começo. O sorriso inteiro.

    Fátima sentou-se ao lado dele. Não disse nada. Chorou em silêncio. Ele também não perguntou. Apenas a envolveu.

    Na manhã seguinte, Pérola foi à festa com o cabelo solto, preso aqui e ali por pequenos laços azuis.

    O vestido era o mesmo.

    Mas sem o alfinete

  • A Bomba

    São tantas as guerras que a gente pensa que é assim mesmo…
    Que o ser humano é bélico por natureza… Pensando bem, o ser
    humano se parece com uma bomba…

    A bomba está prestes a explodir!

    Dentro do coração, do pensamento, num aceno, num senão.

    A bomba está prestes a explodir qualquer nação!

    Atenta e experiente na ganância dos seres, ela está prestes a explodir uma rua, uma vila, uma cidade inteira!

    Na televisão, vozes inflamadas pedem a bomba!

    Nos discursos raivosos das redes, vozes sem razão pedem mais bombas!

    A bomba esteve, está e estará na boca das gentes porque entendeu como funciona a coisa: divisão, ressentimento, validação, inveja e ambição a alimentam!

    Ao longo do tempo, a bomba está sendo muito bem alimentada!

    A bomba aprendeu que uma parte das criaturas humanas deseja a destruição, por isso, ela está prestes a explodir.

    Numa briga de trânsito, ela explode.

    Numa esquina incerta, ela explode.

    Numa discussão em família, ela explode!

    Na briga entre torcidas de futebol, ela explode!

    Na discussão política, ela explode!

    Nos discursos de ódio, ela explode!

    A bomba explode em todos os lugares e em várias situações para explodir de novo e de novo e de novo…

    A bomba será a nossa essência? Somos inevitavelmente explosivos?

    À espera de um simples deslize, a bomba aguarda a próxima explosão e nos aprisiona num ciclo interminável de poeira, cinzas e lamentação!

    A bomba está prestes a explodir!

    Em todas as guerras, sem exceção, a bomba explode… Seus fragmentos se tornam memórias ambulantes daqueles que sobrevivem…

  • Feliz no simples!

    A frase acima vem sendo usada, não sei se por deboche ou pelo sentimento que alguém expressou, de encontrar felicidade, nas coisas cotidianas e simples da vida.

    Um papel e uma caneta, o aplicativo de notas, a tela com o word.

    A observação despretensiosa, um conto relido, uma cena ou dialogo interessante, um espanto, uma frase solta, enfim. Me sinto motivada a escrever, narrar, contar os fatos como a minha imaginação propõe. 

    A vida mostrada com diálogos que prendam o leitor, que o coloca como se fosse o protagonista, que o incomoda ou alegra, pode ser considerado simples. Mas não deve envergonhar o escritor, uma vez que ele nao se prenda a modismos, nem tenha a pretensão de fazer literatura esnobe e muitas vezes vazia.

    A simplicidade não é um defeito, mas sim uma forma de narrar usando os instrumentos de que a escrita se utilizou e utiliza ao longo dos tempos.

    O simples é lindo, e está sempre a nossa disposição, como um dia de domingo.

    Sol quente, areia queimando os pés, algazarra, sucos, cervejas, caranguejos sendo quebrados e socados com um martelinho de madeira, num quase ritual pela busca da carne branca e rija dos crustáceos.

    Na mesa, umas oito pessoas falavam e riam. Era uma família alegre, típica, que viera aproveitar um domingo à beira-mar.

    “Queijo coalho!”, ouviam-se ao longe os gritos dos vendedores que caminhavam pela areia com fogareiros acesos, garrafinhas de melaço e saquinhos de orégano, levando a iguaria justamente onde sabiam reconhecer seus prováveis clientes. Onde há crianças, a venda é quase certa. Paravam, balançavam o fogareiro, as fagulhas se avivavam com o vento. Com destreza, giravam o palito entre os dedos e, num instante, o cheiro do queijo assado tomava conta daquele pedaço de praia.

    “Olha o amendoim!”, gritava outro, passando a xicarazinha com três ou quatro amostras de amendoim torrado ou a castanha de caju, docinha de tão boa, servida num fundinho de copo plástico. Vai querer? O saquinho de papel pardo mudava de mãos, o garoto recebia o pagamento e seguia adiante.

    “Olha o picolé!”, repetia mais um, aproximando-se e juntando a gurizada em volta do carrinho.

    Além das guloseimas, surgiam vendedores de bijuterias, cangas, tatuagens de henna, camisetas e brinquedos que fariam sucesso apenas naquele verão, mas que, ali, eram tesouros indispensáveis.

    Quase onze horas. Lá vinha o menino com o peixe vermelho cru, temperado e vistoso, oferecendo aqui e ali. O almoço desfilava entre os banhistas: “Num instantinho estará assado acompanha farofa e vinagrete. Tamanho? Dá para até seis pessoas. Se a madame quiser trazemos uma porção de batatas fritas enquanto o peixe fica pronto.” O garoto passava com a sua cantilena, na certeza que na volta a venda seria certa. Faro de vendedor…

    O desfile de ofertas não tinha fim.

    — Esse menino não passou aqui agorinha?

    — perguntou a senhora à sobrinha.

    — Não, não era esse. Aquele já foi, esse está vindo. Tia, quantas cervejas a senhora já tomou?

    — Ah, mas é praia. E só uma vez ao ano — interveio o tio.

    — Que é isso, menina? Me respeite!

    Domingo na praia.

    O mar em seu balanço constante, no ir e vir das ondas, ora chegando junto das pessoas, ora recolhendo-se à própria imensidão.

    Parecia participar da festa, da comilança, da gritaria, da lambuzeira de óleo de bronzear, do gurizinho ranhento, da mocinha orgulhosa do biquíni novo, da senhora feliz com a cerveja na mão e a folga da cozinha, os pés afundados na areia fofa ao lado do marido, dos netos e da sobrinha.

    E ele assistindo tudo. Alegrava-se com os garotos que plantavam bananeiras, com os rapazes que improvisavam um futebol, com os senhores que caminhavam carregando os tênis nas mãos. Naquele vai e vem paciente, era o astro do grande cenário que sustentava o espetáculo.

    O domingo foi indo. Guarda-sóis se fecharam, cadeiras se dobraram, sacolas foram recolhidas até que não sobrou mais ninguém e o mar ficou sozinho.

    A lua subiu no céu e prateou a imensidão da água, que tomou um tom de chumbo iluminado. As ondas murmuravam baixo, deixando trilhas de espuma branca sobre a areia ainda morna.

    No vai e vem tranquilo, pareciam guardar ecos do dia. Um resto de riso espalhado no vento, passos descalços marcados e logo apagados, cheiro de queijo assado que já não estava ali.

    O mar ali… Sereno.

    Como quem sabe que amanhã haverá outra família, outras vozes, outro domingo inteiro para acontecer. Qualquer que seja o dia, estarão “Felizes no simples”

  • A ira do Irã

    O esporte sempre manteve a tradição e a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.

    Do mesmo modo, quando um país sedia uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.

     A iniciativa de sediar um evento esportivo de grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.

    Mesmo em tempos de Guerra Fria ou situações de conflitos, as competições esportivas trascorreram com normalidade, como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva, a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.

    Alguns casos vêm à memória como as Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a excelência que o regime queria demonstrar.

    Outro exemplo é o do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura, quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu trabalho.

    Caso semelhante ocorreu por aqui durante os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’, comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.

    De fato, o esporte pode se orgulhar de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências, um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam,  o jogo sujo é chutado para escanteio e a trambicagem recebe cartão vermelho.

    Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.

    A seleção futebolística do Irã teve um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da competição com partidas programadas para o território do país que perpetrou o ataque.

    Em relação à nação dos aiatolás, por mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que, nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da delegação. Ora, isso significa que os EUA deveriam ser desqualificados a sediar o evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores de uma das seleções habilitadas a participar.

    É ainda mais absurdo o fato de gabando-se de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis, mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.

    Esse comportamento antidesportivo não é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual do mandatário cossaco, de envenenar bebidas de desafetos políticos.

    Atitudes como essas partindo de 2 dos maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.

    Estamos voltando aos tempos da barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil permanente, pondo abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes líderes comportam-se como trogloditas?

    A atitude de Trump é parte de seu perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.

    No Brasil, essa conduta deplorável foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.

    A prática de cumprimentar o oponente (diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.

    Essas atitudes de confronto permanente são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.

  • Um velho amigo me deixou

    Meu velho amigo parou de funcionar. Estava em plena atividade quando simplesmente apagou. Uma tristeza.

    Estou falando do barbeador elétrico aí da foto. Sério. Estamos juntos há mais ou menos 45 anos. Mais para mais do que para menos. Ganhei do meu pai quando a barba encorpou.

    E desde então ele está comigo. Me viu na puberdade, escutou meus resmungos pelos mais variados motivos. Não poucas vezes, testemunhou minha animação em frente ao espelho me arrumando para encontrar aquela garota bonita que me causava taquicardia. Mas nunca soube da minha frustração na volta do encontro depois de escutar as palavrinhas amargas “você é legal, mas quero ser só sua amiga”. Vida que segue.

    E seguiu e você, meu velho amigo, periodicamente estava lá, comigo, me ajudando a ficar melhor apresentável. Há quem discorde mas como gosto de fazer a barba, o barbeador sempre teve lugar de honra no meu banheiro.

    Mesmo quando, por muitas vezes, o troquei pela lâmina de barbear nunca deu qualquer demonstração de ciúme. Ao contrário, cada vez que era convocado para enfrentar minha barba cerrada, herança do meu pai, nunca recuou ou mesmo engasgou. Cumpria sua parte com admiração transformando lixa em bumbum de neném.

    Enfim, mas nada é para sempre. Nem as pirâmides e muito menos meu barbeador elétrico.

    O que me resta? Lamentar? Ou buscar algum arqueólogo de apetrechos elétricos capaz de reviver meu amigo?

    Não sei, não me decidi. Por ora, olho meu velho camarada deitado inerte. Mas, se há um fio de esperança quem sabe ele não volta à ativa? Porque a gratidão pelos serviços dele é grande.

    Afinal, ainda lembro naquela vez, lá no século passado, quando aquela moça, uma das que povoam minhas doces lembranças, sorriu para mim. Tenho certeza que foi depois de ver meu rosto bem barbeado. Ela até disse algo como “olha que ele se arrumou mesmo só para mim” e não foi ao sentir o aroma do poderoso RogerGallet. Não foi mesmo, meu velho amigo…

  • A mágica aparece!

    Às vezes a vontade de desistir não é só uma ideia passageira, porque já acordamos cansados, sem saber o porquê. Tudo parece inútil e cada passo é arrastado, cada dia, um fardo. As pessoas falam, o mundo gira, mas dentro de você tudo está parado, escuro e frio. É como se ninguém visse, é como se ninguém soubesse que por trás do “Tá tudo bem”, existe um grito preso na garganta, implorando para ser ouvido.

    Mas aí, mesmo, no fundo do poço, algo pequeno ainda pulsa, quase imperceptível, uma lembrança, um rosto, uma promessa, e por um triz você se segura, não por força, mas por instinto, porque por mais-que-tudo esteja desmoronando, ainda existe uma parte de você que recusa a morrer, uma parte que não entende o caminho, mas sente que precisa continuar.

    Com tanta dúvida e indisposição eventual, fica fácil entender que não somos normais para decidir quem aceitamos em nosso mundo social, e quem rejeitamos. É hora de reconhecermos que o normal é uma ilusão prejudicial, como escreveu Roy Richard Grinker, PH.D em antropologia social, em seu livro “Ninguém é Normal”.

    Ele desmonta os mecanismos de exclusão e as práticas de silenciamento psicológico que, em diferentes épocas, oprimiram seres humanos em função de gênero, raça, classe, religião, sexualidade ou deficiências físicas. E aponta o poder criativo e transformador da cultura como caminho para reduzir cada vez mais o medo, a vergonha é a dor.

    Quando ficamos mais velhos a impressão que nos dá é que necessitamos justificar nossas vidas e escolhas feitas no passado, por isso acabamos por buscar erros que nos trouxeram até aqui. Porém, a esperança é a coisa mais jovem que existe e ela nos questiona a cada instante querendo saber qual é o tempo que é mais importante.

    Quando você reduzir a velocidade vai entender que o mundo funciona ao contrário do que imagina. Você solta o apego a vida te dá mais. A inspiração surge quando você se permite descansar. Quando você parar de querer se encaixar em alguma turma, vai encontrar sua tribo. E passa atrair muito quando deixa de precisar demais. E quando você se atreve a ser você, a mágica aparece. Saiba aprender a conviver com a solidão, e nunca mais se sentirá só, e ao passar a se sentir em primeiro lugar, os outros vão te tratar melhor. As coisas e pessoas passam a te encontrar quando você para de procurar e a vida acontece quando você está ocupado fazendo outros planos.

  • A alegria dos outros incomoda

    Na Praça do Coração Eucarístico, que parece uma ilha cercada de botecos por todos os lados, eu conversava com uma amiga quando ela avistou uma conhecida. Quis cumprimentá-la, mas parou – a outra andava olhando pro chão, cara de poucos amigos, sem erguer os olhos pros outros que passavam. Só o hábito automático de espiar um lado e pro outro pra atravessar a rua. Minha amiga comentou: “É tão esquisito dar um oi pra quem não tá num bom dia”.

    Ao redor, os bares lotados de gente bebendo feliz da vida. O Coração Eucarístico é onde fica a PUC – o que dá ao bairro uma cara jovem: mulheres lindas, rapazes animados, sem tantas preocupações. Gente triste deveria evitar lugares assim em dias de sol.

    Minha amiga, naquele dia, tava no auge. Ria fácil, cantarolava umas músicas, cheia de novidades pra contar. Ninguém num dia tão bom quer esbarrar na dor alheia. E aquele medo – de chegar, soltar um “Oi, tudo bem?” e a pessoa resolver despejar tudo. Aí a gente atravessou um bar, parou e pediu uma cerveja. Ela falava do rapaz de quem tava gostando, do trabalho, de tudo.

    Ela tava certa. Vocês já repararam? Tem gente que sempre tem um problema novo pra contar. Parece parte do DNA dela – esse jeito de levar a vida, como se o mundo devesse alguma coisa. Pra esses, a alegria da gente pode ser irritante mesmo.

    Gente assim costuma ficar de cara feia quando os outros estão felizes. Eu, da minha parte, acho que quando não tá num bom dia a pessoa devia pelo menos fingir que tá. Pra gente não precisar esconder o sorriso quando ela passa com a dor dela.

  • Tudo começa com “veja bem…”

    Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples.

    Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo.

    O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção.

    E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem…Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época.

    Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, e lá vem de novo: “veja bem…”

    Sou vítima frequente dessas três modalidades.

    E vocês, o que acham?

    Mas, por favor, respondam sem começar com “veja bem”.

  • Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.

    Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.

    No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.

    Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.

    Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.

    A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.

    — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.

    A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.

    — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.

    Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.

    O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.

    — O que você pensa sobre a morte?

    Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.

    A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.

    Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.

    A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.

    Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.

    — Você consegue ter orgasmos?

    Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.

    — Se masturba com frequência?

    Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.

    As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.

    — Posso lhe receitar alguns remédios.

    Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.

    Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.

    A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.

    Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.

    — Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…

    Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.

    A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.

    — Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.

    Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.

    Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.

  • Saída de emergência

    Trepida.

    Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo.

    Depois, o conforto de um ambiente climatizado.

    Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse].

    Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão.

    Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas.

    O silêncio é extremamente necessário na vida.

    As desilusões, saídas de emergência.

  • Gênese

    Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”

    Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra?

    No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como numa sala vazia. E é criado o universo. Uma explosão que quebra o caos ou o nada, e é criado o universo. Deus deu o petardo na bola de papel. Dizem que Deus é inteligente. Um belo jogador de futebol. Falam na ordem do universo. Um belo petardo nos colhões do universo. E instaurou-se o caos, se é que caos já não havia.

    Caos é o que sempre houve. Ingenuidade falar-se em ordem. Prova da existência de Deus. A ordem ou o caos? A ordem ou o caos, antes ou depois de Deus? Haverá um antes de Deus? Deus há porque há a ordem, mas se não há a ordem, se o que eu vejo é sempre caos?

    Olhe para as estrelas, a harmonia eterna das estrelas. Mas a astronomia nos ensina que não existe harmonia eterna. Existe o caos dos corpos celestes. O universo vive numa harmonia periclitante. Por um triz, e zás!, não existimos mais. Zás!, e nem deveríamos existir.

    Quem somos? Partículas ao acaso, dançando no vácuo. Um dia cairemos. Um dia? Não estamos já no vácuo? E estar no vácuo não é já não existir?

    Querer compreender quem sou, que infantilidade! Querer compreender qualquer coisa é infantilidade. Quem somos? E ainda mais, quem somos quando crianças.

    Quem seremos quando adultos. Crianças, somos obrigados a ser, no futuro. O homem é uma eterna criança.

    O futuro a Deus pertence, diz o ditado popular. Pois fiquemos com o ditado popular. O futuro a Deus pertence. Não às crianças. Deixem-nos a nós, crianças, em paz. Mesmo que já sejamos adultos. O homem é uma eterna criança.

    Eu não quero ser mais nada. Eu sou, ainda, uma criança. E eu, criança, já sou. Eu existo, e pronto.

    Lá fora o meu gato continua miando para a lua, a minha mulher suja os pés na
    lama do jardim para buscá-lo, entra com ele nos braços, resmungando. Olha para mim, como se eu fosse o responsável por tudo: o gato, a lama, a noite, as estrelas. É como se me dissesse: O que você conclui disso?

    Não me venham com conclusões. A única conclusão é morrer, disse o poeta.

  • Livraria do Luiz: espaço de cultura

    O que é uma livraria? Os incautos dirão que é onde se vendem livros. Não deixa de ser uma resposta verdadeira. Se recorrermos ao dicionário, é isso que estará lá, Aurélio e Caldas Aulete até a classificam como loja. Porém, como a vida não cabe nas definições lexicais e, do mesmo modo que os livros não se resumem à sua materialidade objetal, uma livraria é muito mais do que um estabelecimento comercial.

    Quem, após andar entre os negócios e os negociantes do centro de João Pessoa, adentra na Galeria Augusto dos Anjos e, nela, na Livraria do Luiz, facilmente constata o que acima afirmei.

    Cruzando a porta, já se apercebe que está em um universo próprio, dotado de uma aura especial, que inspira e expira cultura. Se as livrarias são mais do que meras casas de comércio, há as que conseguem ser mais do que livrarias. É o caso da Livraria do Luiz, como foi, em certa época, da José Olympio.

    E é isso que faz o encanto do lugar. Muito mais do que o café ou os exemplares à venda, é o ambiente, o que ele representa e o que traz. É aquela aura que se instaurou no número 88 da praça 1817.

    Para alguns, aquele local é um ponto de encontro. Combinam-se reuniões para discutir assuntos, resolver questões ou, simplesmente, prosear enquanto as horas correm. Para os escritores da cidade, funciona como uma verdadeira confraria. A literatura não está apenas nas estantes, mas também, entre um gole e outro, na boca das pessoas.

    Há quem vá para lá sem um encontro marcado. Acontece que, para muitos, esse ato já é algo do cotidiano. Vão, olham uma obra, sentam-se, tomam uma xícara, aparece um conhecido, a conversa se desenvolve, esse se vai, e o ciclo retorna ao início. Não é necessário um objetivo específico e determinado, o próprio estar na livraria possui um significado próprio.

    Conhecendo-a previamente ou não, existe, evidentemente, quem vai apenas comprar algo e, logo em seguida, sai. Geralmente, têm a aquisição já definida de antemão. Esses são os que não se dão o direito à doçura que o acaso fornece nos encontros e descobertas que ocorrem entre as prateleiras.

    Outros, sentados, pouco falam, mas tudo veem. Livro na mesa, xícara ao lado, observam e apreendem o movimento. Talvez, captem algo para a próxima crônica a ser publicada ou, de súbito, sejam tomados por um verso; pode ser até que saquem uma caneta e iniciem um bosquejo ali mesmo.

    Em uma de suas crônicas, a partir de fala em ocasião relacionada a esse mesmo local, Hildeberto Barbosa Filho asseverou: “não se faz história cultural de uma cidade, sem que se esse necessariamente por certos espaços.” Sem dúvida. Não se pode pensar na vida literária de João Pessoa, sem levar em conta a Livraria do Luiz, palco e agente da vivência cotidiana da cultura nesta cidade.

    Essa importância vai além dos lançamentos realizados e dos volumes expostos. Está também – e principalmente – pelo ambiente que se constituiu e que ela representa. Como o espaço que é, a Livraria do Luiz assume um papel de grande relevância para a cultura da cidade e do estado, especialmente para a literatura paraibana. Afinal, a vida literária também é feita disso. Além de leitura e escrita, há a vivência, sem a qual nenhuma daquelas vale.

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