Dandara

  • Desperdício de amar

    Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer sinal de preconceito. Nossa amizade se formou no colégio. Meus pais, mesmo com pouco estudo, garantiram que eu estudasse num das melhores escolas da cidade. Papai era motorista de van escolar, enquanto mamãe trabalhava para a high society, elaborando roupas. Era levada aos shoppings para copiar os modelitos só de olhar. Um fato muito triste foi que meu irmão não entendeu a força de nossos pais e enveredou para as drogas. Ele era um menino bom e depois se tornou irreconhecível, inclusive pela agressividade. A família de Dandara descobriu que ele estava internado. Fui literalmente proibida de vê-la. Os pais de Dandara ajuizaram que éramos uma família desequilibrada. A dor foi profunda, em não poder mais brincar com a minha melhor amiga, ou mais do que amiga. Sentia sua falta escutando Laura Pausini. Lembrava-me da vez em que encostei minhas mãos, sem querer, nas suas pernas, e me demorei, olhando-a cara a cara; não tivemos reação. Cheguei mesmo a imaginar que estava apaixonada por ela, e não sabia lidar com isso. Me penitenciava. Pedia a Deus para não pensar mais em Dandara, a menina perfeita. O amor era tanto que cheguei a pegar um ônibus e ir até a sua casa. Bati à porta, e Jussara abriu. Pediu que eu fosse embora logo, porque podia dar confusão. Chorei por meses, e minha mãe pensava que tinha depressão, coisa do tipo, e me levou a um médico boboca, que passou um remédio que me deixava letárgica; eu já não era a mesma. Dandara mudou de escola, para uma melhor. Eu culpava o meu irmão. Na verdade, o odiava com todas as minhas forças. Jorge fez, ao mesmo tempo, que eu o odiasse e amasse Dandara mais e mais, dois sentimentos opostos. Ele me impediu de amar. Até hoje, passados dez anos, Jorge apronta bastante, exauriu as forças de meus pais, já tão sofridos, até gerou um infarto no meu pai, que felizmente se recuperou bem… E eu não consigo esquecer Dandara, a menina dos meus sonhos. Deve estar casada, com filhos, não se interessar um milímetro por meninas. E passo de relacionamento em relacionamento tentando encontrar aquele olhar vibrante, que, por tanto tempo, provocou o meu coração. É um desperdício de amar. A nossa história não vingou. Mas ainda sonho um dia poder lhe reencontrar, ainda que seja somente para vê-la, exuberante, como deve estar.

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