Domingo

  • Pi-ta-da

    Pitada – palavrinha gostosa de pronunciar e quase sempre de provar. No gosto, desgosto, e até no desacerto. Tudo começou, pelo que sei, com a pitada de rapé (râper, do francês), tabaco em pó usado para cheirar e, segundo uma citação encontrada na obra clássica de João Manuel de Macedo — A Moreninha, avivar o cérebro.

    Do rapé para o uso na culinária foi uma pitada. Seu uso mais comum passou a ser uma medida do sal, recomendada nas receitas, para o desespero de quem não tem prática na cozinha. Aí a pessoa recorre àquele que é o melhor amigo dos desinformados, e lê a definição: “o que se pode segurar entre as pontas de dois dedos”. Dois dedos grandes, de um homem ou de uma mulher de dedos delgados? Dedos apertados um ao outro ou com espaço entre eles? E aí a pobre iniciante é reprovada na mesa.

    Tentar dimensionar corretamente a pitada é quase pior do que descobrir quando um bolo ou um suflê está no “ponto”, outro conceito culinário totalmente abstrato e que depende da perícia do cozinheiro.

    Voltando à pitada, alguns manuais vieram em socorro dos incapazes mestres-cucas, tentando dar uma medida menos especulativa para esse termo. Surgiu, então, um padrão que, a princípio, resolveria o problema: uma pitada equivale a 1/8 de uma colher de chá. Aliviados, os principiantes na cozinha lá se foram tentar dividir o conteúdo de uma colher de chá em oito partes – missão impossível, com potencial de levar alguns ao autoflagelo usando a própria colher, no caso de não haver uma faca por perto.

    Foi assim, creio eu, que começou um movimento de aproveitamento desse termo tão gracioso para outros fins mais poéticos, menos estressantes. A pitada passou a povoar os textos em prosa e verso, em diferentes porções: uma pitada de sorte, de poesia, de magia e, por que não, uma pitada de liberdade.

    Redimida, a pitada ganhou outro status e a licença de não se atear a nenhuma medida. Pitada é o que cabe na imaginação de cada um, é “a gosto” de quem se apropria dessa dimensão subjetiva para fazer valer a sua vontade, seu desejo, suas esperanças – inclusive de que aquele prato especial do domingo fique saboroso.

  • Malta

    Malta é um arquipélago no Mediterrâneo habitado desde cerca de 5200 AC e que foi invadido pelos mais variados povos. Os últimos a passarem por lá foram os britânicos cuja influência vai desde a língua inglesa, que divide espaço com o maltês, até a mão de trânsito pela esquerda. Tornou-se um país independente em 1964 e agora faz parte da União Europeia.

    As principais ilhas são Malta e Gozo, a primeira muito mais turística do que a segunda, mas ambas com sítios arqueológicos importantes. Quem se interessar pelo tema não deve perder as ruínas do templo de Hagar Quim datadas entre 3200-2500 AC. As construções desde os templos pré-históricos até hoje usam predominantemente a pedra calcária, a única encontrada na região. O pequeno e bem estruturado museu, The Limestone Heritage, ilustra a extração e o uso dessa pedra.

    Os malteses afirmam que por sua posição estratégica Malta foi o local mais bombardeado da segunda guerra mundial: localizada perto da Sicília e do norte da África era uma base valiosa para os britânicos e seus aliados. A reconstrução respeitou a arquitetura original e agregou elementos modernos de forma elegante. Pequenos balcões fechados e coloridos enfeitam as fachadas das casas dando às ruas um ar bastante peculiar. Valeta, a capital, é vibrante e muito bonita. Próximas ficam Vittoriosa, Cospícua e Senglea, conhecidas como as três cidades, igualmente interessantes. A costa é toda recortada e compõe cenários marítimos deslumbrantes. Há muitas marinas e passeios de barco disponíveis, uns que mostram vistas da cidade e outros que levam a grutas de águas azuis. No interior também é imperdível visitar Mdina, linda cidade com muralhas e palácios do século XV, Rabat onde existem catacumbas e Mosta com sua Rotunda que tem o terceiro maior vão livre do mundo. A história de Malta é fascinante.

    Em Valeta fica a sede dos Cavaleiros da Ordem de Malta, ou Cavaleiros de São João Batista, uma ordem religiosa fundada no Século XI como ordem hospitalar para acolher os feridos das cruzadas e que mais tarde se transformou em ordem militar; atualmente é uma organização humanitária. Restou uma grande Enfermaria que hoje é usada para fins culturais e vale a pena conhecer. Visita obrigatória é a Co-Catedral de São João Batista, em homenagem ao patrono da ordem, onde há obras de Caravaggio, um pintor excepcional e um encrenqueiro idem que se refugiou em Malta para escapar dos inimigos. Associada à ordem está também a famosa Cruz de Malta de oito pontas.

    Como destino turístico Malta, com menos de quinhentos mil habitantes, foi uma grata surpresa. Ponham na lista.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu —, em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.
    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Uma crônica para o Luis

    Eu não sei exatamente com quantos anos li pela primeira vez um texto de Luis Fernando Veríssimo. O que sei é que era ainda bem jovem. Um estudante de muitos e muitos anos atrás…

    Sei também que quando li, não parava de rir e de achar que o texto era simplesmente incrível! Leve, divertido e com uma linguagem muito acessível.

    Pra variar, o texto em questão, era uma crônica!

    E, desde então, estava com algum texto do Veríssimo pronto pra ler.

    Construí meu hábito de leitura com os quadrinhos e com as boas crônicas dos grandes cronistas de outrora, entre eles, Luis Fernando Veríssimo!

    Os grandes autores e os grandes livros são aqueles que nos tiram do sério, nos chacoalham ou então nos fazem rir! Rir do banal, do sobrenatural, da vida, do acaso, da morte, do improvável…

    E rir era o que sabia fazer com excelência!

    Ah! Luis! Você nos deixou e estamos tristes, mas nos seus textos você permanecerá vivo! Suas tiradas cômicas, sua ironia e capacidade para transformar o simples e o cotidiano em textos maravilhosos marcaram gerações!

    Em A metamorfose, trouxe Kafka para a crônica! O nome da barata não podia ser melhor: Vandirene! Em O homem trocado, os infortúnios de um homem terrivelmente azarado vira um texto inacreditável!

    No texto A foto, as questões familiares tão complexas e tensas se apresentam com a ironia e bom humor tão peculiares das crônicas desse genial escritor gaúcho.

    Eu poderia listar uma infinidade de textos hilários, mas termino esta crônica com um texto que reli alguns meses atrás para a minha irmã, Exigências da vida moderna.

    Nesse texto, a busca pela saúde e pela disciplina viram motivo para boas gargalhadas!

    E a leitura foi feita assim, entre muitas gargalhadas. Sei que o texto só terminou depois de pararmos diversas vezes, quase sem fôlego e com lágrimas…

    Luis, fica esta crônica como um abraço. Uma forma de agradecer por todas as boas histórias que contou e encantou a todos nós!

    Que a morte seja a última coisa a nos encontrar em vida!

  • Poema: #11: REMANSO

    Sem querer descanso
    Um espanto
    Voluptuosa corrente
    Sente que é noite
    Dentro da gente.

    Sem querer remanso
    Manso
    Mato verde molhado
    Sente que é sereno
    Enluarado.

    Sem qualquer pranto
    Pronto:
    Torre de vento e estrela
    Sabe que é madrugada
    Nada.

    Vem molhada de canto
    Quer tanto
    Boca de lua jogada
    Sol quente na estrada

  • Acaso e correlações à brasileira

    Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office:

    Uma joaninha.

    O corpinho vermelho hesita em emergir por entre asas a se debater, incessantemente. As características pintas pretas estão lá, e eis uma joaninha dentro da minha casa, a pousar sobre os intrincados nós da minha vida presente! Que auspicioso!, reflito comigo mesma. O exíguo inseto caminha um tanto quanto tremelicante sobre o título do espetáculo, passa pelo meu nome artístico, assinado à caneta (como se eu fosse alguém de prestígio na vida) e desliza para fora dos papéis, alcançando a laminação melamínica da chapa de MDF, o improviso de uma superfície de trabalho. Acima, nas paredes com tinta desbotada pelo tempo, veem-se adesivados o cartaz do espetáculo vindouro, desenhos, rabiscos, várias anotações e medidas que, à primeira vista, não fazem sentido. O ventilador às minhas costas tenta assoprar para longe o calor deste ‘pré-verão’, que veremos, sem dúvida, muito mais forte na próxima estação. A primavera já anuncia sua partida, ela que é a mais bonita e majestosa de todos os quatro ciclos, e soma mais um ano à minha vida – 2023 tem se revelado, especialmente, um ano desafiador e habilidoso na criação de emaranhados labirintos.

    Minha cabeça, que estava a mil há pouquíssimos segundos, reseta a si mesma enquanto observa o inseto — que cai por entre o espaço do MDF e da parede, e retorna, triunfante à marcação cênica iluminada pelos holofotes que são meus olhos.

    Joaninha…, mas… Por quê?

    Por qual motivo este minúsculo ser alado carrega o nome de uma dama? Fosse o início do ano, dirigiria a pergunta ao Google, mas temos o ChatGPT — que a esta hora se configura como uma das mais ilustres companhias, sem externar qualquer traço de cansaço; prontamente recebo um breve relato sobre a afinidade de São João e a dama sobre a minha mesa, Joana (peço desculpas pelo apelo ao vocativo, se o inseto em questão for do gênero masculino): geralmente a Coccinellidae aparece em 24 de junho, onomástico de São João Batista. Em outras culturas é ainda conhecida por “vaquinha de Deus” ou “vaca louca” — mais condizente com seu pouso em minha noite.

    Vaca por conta das manchas/ pintas, sublinha o resumo. E ainda compartilha o nome científico de sua linhagem com outros artrópodes, a exemplo das “marias-fedidas”. E ainda assim é associada a um presságio positivo, vai entender. O fato é que, vermelha como a nova tendência nas passarelas milanesas, “Jo” velozmente se adequa ao layout dos meus dilemas, conferindo elegância à minha noite repleta de inquietações. O silêncio da madrugada amplifica cada movimento, tornando os passos desajeitados da pobre criatura ainda mais evidentes e perceptíveis.

    Se a esta hora, em meio ao meu inferno astral, surpreendida sou pela visita de toda a sorte do mundo, bem…, é como acertar os números na loteria! Persigo os mais próximos, mais emblemáticos e percebo apenas letras. Construo uma lógica e uma contrária, e ainda outra que transforma o alfabeto em uma equação matemática. No entanto, passa da meia noite; a loteria federal sorteia aos sábados e quartas-feiras, já é domingo… Me resta o jogo do bicho, sorteio único domingueiro, na banca do Chico.

    Hoje vai dar vaca na cabeça!

    *Texto escrito originalmente em 12/11/2023 para o Crônicas Cariocas.

  • Manual atualizado da sofrência

    Nunca tinha me atentado para a existência desse termo. Com a morte prematura de Marília Mendonça e a retomada dos comentários sobre a autora, que faria 30 anos em 2025, a palavra ganhou espaço na mídia e me levou a pensar um pouco no sentido de se cantar a sofrência — e no quanto esse canto ecoou no coração de uma multidão.

    Procurando pela origem da palavra, descobri que se trata de um neologismo da língua portuguesa, formado pela junção de “sofrimento” e “carência”, sentimentos associados à falta de alguém, normalmente em uma relação amorosa.

    Acredito, porém, que a sofrência vai além disso: é o sofrimento causado também por outros tipos de vazio, ausência e perda.

    Durante a pandemia, depois de mais de dois anos de restrições, aprendemos a reconhecer algumas dessas ausências:

    1 – Sofrência pelo distanciamento dos amigos.
    Algumas pessoas mantiveram contato apenas com um círculo pequeno; outras, mais rigorosas, cortaram qualquer convivência. Os encontros virtuais, que no início tinham até certa graça pelo inusitado, com o tempo se tornaram enfadonhos. De amigos íntimos, passamos a conhecidos — a conversa já não fluía. Foi uma sofrência nostálgica, a percepção de que, pelo hiato imposto, a amizade nunca mais seria a mesma.

    2 – Sofrência pela perda do prazer gastronômico.
    Aqui não me refiro à perda de paladar, mas à impossibilidade de frequentar bares e restaurantes. O delivery banalizou o momento da refeição, tirando-lhe o brilho. Descobrimos que o sabor não está só no prato, mas no ritual, no encontro, no ambiente.

    3 – Sofrência pela inutilidade do que acumulamos.
    Roupas sociais, malas de viagem, louças de festa, cartões de visita… tudo ficou guardado, sem função. A sofrência, nesse caso, não era pela perda, mas pela constatação da inutilidade: “Fez sentido acumular tantas coisas?” Essas foram algumas das sofrências que marcaram aquele tempo. Mas a vida seguiu, e novos vazios começaram a se revelar.

    4 – Sofrência pela falta de tempo.
    Depois de uma rotina desacelerada, hoje a sensação é de estarmos sempre correndo para “recuperar o tempo perdido”. Voltaram o trânsito, as agendas lotadas e a pressa.

    5 – Sofrência digital.
    Se antes a queixa era a distância, hoje é o excesso de conexão: reuniões online que não acabaram, grupos de WhatsApp sem fim, redes sociais que nos roubam silêncio e presença.

    6 – Sofrência pelo custo de vida.
    Prazeres simples, como sair para jantar ou viajar, tornaram-se pesados para o bolso. A cada escolha, a saudade de uma vida menos cara.

    7 – Sofrência climática.
    Ondas de calor, enchentes e queimadas lembram que o planeta também sofre. E que nossa segurança depende de algo maior do que nós.

    8 – Sofrência das relações frágeis.
    Amizades e vínculos que pareciam sólidos revelaram-se frágeis. Algumas relações se fortaleceram, mas outras nunca mais voltaram a ser como antes.

    9 – Sofrência da memória.
    Muitos carregam ainda a sensação de que o tempo pandêmico ficou suspenso, deixando lacunas na lembrança, marcas sutis de ansiedade e esquecimento.

    Carência, perdas, faltas… poderíamos listar muitas outras. Mas, ao refletir sobre elas, me deparei com a mais grave das sofrências: perceber que, se tudo nos faz falta, é porque o que mais nos faz falta está dentro de nós.

  • Testemunho de um incêndio criminoso

    Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto isso, minha parte principal, a mais quente — e contraditoriamente, segundo minha natureza humana, a mais íntima e mais exposta, órgãos e sentimentos — segue descamadando, arranhada, soltando pedaços; Meu quinhão arcado e inflexível, frio inclusive ao toque, é o que parece rejuvenescer e ser digno de alguma coisa.

    De onde estou, vivo uma vida isolada, mesmo imerso no caos da vida, no burburinho. Minha principal alegria é o observar. Comportamentos, mudanças climáticas, o lugar tornando-se memória. Nada me envolve em regozijo mais profundo.

    Da mesma forma que me restrinjo na resposta sobre o advérbio temporal do aqui, não sei precisar a data em que iniciei o meu ofício. Muito novo, trabalho mais do que infantil, disto tenho certeza: prematuro. Cortaram minha ligação materna sem que eu tivesse a chance de compreender o básico da vida; me aventuraram por outras paragens, mesmo que minha sina seja sempre estar fixo. Sempre atento. Minha dádiva e, por vezes, castigo.

    Castigo como o que aconteceu recentemente. E me corta o coração, mesmo que física e até subjetivamente eu seja desprovido de um, eu tenho, sim, uma paixonite secreta por um vizinho. Sujeito intrigante, taciturno; todo conhecimento, todo em busca de atenção. É considerado ultrapassado, vive encardido, poerento. Há quem diga que parou no tempo, dono de um linguajar e um traje no mínimo vintage — eu o considero impecável. Nunca trocamos palavras, nem toques. Sonho com o dia em que alguém o escolherá e virá até mim, abrirá inebriado sua pele em camadas e, por um instante – que será todo o meu mundo —, o deixará sobre mim. O ápice da minha existência seria entendê-lo assim, aberto, nu, sua lombada roçando minha pele áspera, a espalhar letras e calor. Nesse toque, eu estremeceria inteiro; meu corpo de madeira se partiria em arrepios. Ouvir-se-ia o meu estalo íntimo, a dilatação do que me constitui, enquanto eu gozo no segredo que só os mobiliários públicos conhecem. Sou um banco, ele, um livro – quase acervo vitalício do sebo do seu Jorge. Vitalício.. quase…

    Por muito tempo meu deleite foi paquerá-lo de esguelha, seu perfil visível quando a barraca metálica estava aberta, ele sempre posto em uma posição, nem de destaque, nem de esconderijo.

    Cachorros marcaram-me como seu território. Compras foram descansadas sobre mim. Marginalizados sociais me tomaram como cama — mais de uma vez. Conversas animadas, mãos bobas, certas de que ninguém testemunhava as indiscrições do desejo humano — por vezes traições conjugais. Brigas, estilhaços de garrafas. A tinta que sempre vem marcando o fim dos mandatos de certos prefeitos, em busca de reciclagem de votos e de marcar fisicamente o que fizeram. As flatulências de crianças e idosos, que impregnam eternamente minhas fibras, chuvas e sol a pino. Tudo me marcou menos do que a existência daquele volume ameaçado de extinção.

    Até a madrugada mais fria que já presenciei. E se tratando de Nova Friburgo, esse relato é alguma coisa. Começou sem que eu entendesse o que acontecia, eu, sonolento, ainda processando a chuva de verão em pleno inverno, dias antes, repleta de raios e granizo. Quando compreendi que pernas passavam cheias de más intenções. As solas dos sapatos, ainda as vejo, como se fosse agora; as reconheceria instantaneamente.

    Em instantes, fui trazido ao momento presente ao ouvir o estalo que mais arrepia a alma de quem é feito de madeira: o crepitar do fogo. A barraca, fechada, brilhava com a luz crescente. Foi rápido demais. Foi intenso e maldoso demais. Eu tentei gritar por ajuda, mas, paralisado, não tenho voz. Senti meu livro agonizar. Eu agonizei. Minutos lentos e horripilantes que se intensificaram com labaredas bailarinas, o sorriso no olhar meliante, a fuga traiçoeira e o barulho das sirenes quando eu já quase desmaiava de pavor.

    Eu vi tudo, sob angulos melhores do que o das cameras, estas mais silenciosas quando solicitadas do que minha imobilidade de banco de calçada. Ninguém nunca me vê como testemunha. De mim, nádegas a declarar.

    *Imagem retirada do site: https://ecoserrano.com.br/tag/incendio-quiosque-de-livros/

  • Cuidado: mosca na sopa!

    Em 1974, Raul Seixas lançou a música “Eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, marco de um período sombrio da ditadura no Brasil. Essa metáfora é genial, e tem sido aplicada a diferentes situações, nem sempre políticas.

    Quem não se lembra de moscas que pousaram em sua sopa para estragar a alegria, ou que estão sempre zumbindo no seu ouvido de forma desagradável?

    Pois é, eu aqui consegui identificar diferentes tipos de “mosca na sopa”. Um primeiro tipo é a mosca Desmancha-Prazeres. A inocente criatura vem contar que arranjou um novo emprego, depois de um bom tempo procurando, e está entusiasmada porque é numa boa posição e com ótimo salário.

    A Mosca:

    — Olha, fico feliz com a sua conquista, mas pensou bem antes de aceitar? Veja só: a empresa é longe, portanto vai ter que pegar três conduções. E o pior: Pelo horário que terá que entrar no trabalho, os ônibus estarão superlotados!

    — Não quero te assustar, mas o entorno é muito perigoso, se tiver que ficar até mais tarde trabalhando pode ser assaltada. E vai em frente no rol de desgraças, sempre com uma postura de quem está prestando um favor. Sem dúvida, uma mosca com alma de vespa, pica só para irritar.

    Outro tipo bastante comum é a Mosca Inconveniente. (o que, convenhamos, já é quase um pleonasmo).

    Reunião de família, todos à mesa, conversando sobre assuntos gerais, leves, próprios para um momento em que ninguém quer levantar temas polêmicos ou constranger alguém. A dona da casa preparou opções de cardápio, pois a sobrinha está levando o novo namorado que é vegano, e todos já estão cientes do fato.

    Eis que surge a Mosca:

    — Pois é, li recentemente em um artigo que veganos e vegetarianos têm maiores riscos de deficiência de ferro, e isso pode causar não só anemia como a diminuição da resistência às infecções por bactérias e vírus, como é o caso do Coronavírus. Pronto: a sopa azedou.

    Tem também aquela Mosca do Contra. Do tipo “Hay gobierno soy contra”. É aquele perfil de pessoa que não importa qual a sua colocação – ela vai sempre se posicionar ao contrário. Se o programa é, por exemplo, ir jantar em um restaurante italiano.

    A Mosca:

    — Ah não… italiano nem pensar. Por que não vamos a um japonês? Voto vencido, vai emburrada e dá um jeito de dizer que a comida estava péssima, implicar com o garçom e assim por diante. Se no dia seguinte, para agradá-la, o grupo propõe o japonês, ela então quer ir a um fast food. Se num passeio todos querem seguir pela trilha, ela diz que só participa se for caminhando pela estrada. Cuidado com essa, pois voa sempre na contramão!

    E tem a Mosca Negacionista…

    Se Raul fez da mosca na sopa uma bandeira contra a ditadura, eu faço dela um alerta para esses tipos que vivem zumbindo por aí, em ouvidos pouco dispostos à democracia.

    E você, qual mosca já pousou na sua sopa?

  • O Homem Perverso

    Esta é a história de um homem perverso! Mais um homem perverso…

    O que há de mais trágico na humanidade é que, de tempos em tempos, sempre um homem perverso assume o controle das coisas! 

    E, como todos os homens perversos, quer controlar todas as coisas!

    Como todos os homens perversos, não gosta de outros homens, seus semelhantes! Gosta de sua própria imagem! Gosta da adulação!

    Como todos os homens perversos, detesta livro, prefere queimá-los, comê-los, rasgá-los…

    A sua coerência é a bestialidade, por isso, odeia as palavras e o diálogo! Prefere sempre o monólogo!

    Como todos os homens perversos, dissolve melodias! O que interessa é apenas uma nota, a sua própria!

    Detesta arte e cultura, pois simplesmente, não aceita que a diversidade é essência de todo artista!

    Como todos os homens perversos, se sente superior mesmo aos outros, considerando toda e qualquer criatura que não possua o seu padrão, um ser fraco, inútil e, portanto, descartável!

    Assim, engolindo pessoas e ideias, atropelando bom senso e razão, este novo homem perverso estabelece mais um tempo de loucura! Mais um tempo de perseguição!

    Por fim, como todos os homens perversos, não sabe parar e não para!

    E, ao não saber ou não querer parar, leva o mundo para a estupidez da guerra, para a tragédia, para o caos…

  • Uma História de Pai, Filho, Avô

    Para Matheus, meu filho.
    Para Francisco, seu avô
    .

    Matheus fez trinta, a vida falou sem gritar,
    o corpo avisa, a alma aprende a escutar.
    A dor não pede licença: entra e ensina,
    quem ama, simplifica, ampara e ilumina.

    O tempo é lavrador: ara a gente por dentro.
    Quem aceita o sulco, colhe entendimento.

    Fala, meu filho, que hoje o verbo é ouvir,
    ouvir é cuidar: verdade a seguir.
    Se o fardo pesa, nós dois vamos dividir,
    a coragem é quieta, mas sabe resistir.
    O vô plantou raiz pra eu não me perder,
    agora, contigo, aprendo a renascer.

    Eu, que era resposta antes da pergunta,
    descobri que o amor é a pausa que junta.
    “Pai, respira. Vai no passo que dá.”
    No teu conselho simples, mora o verbo amar.

    O vô dizia: “Filho, firme o pé no chão,
    tradição é mapa, futuro é direção.”

    Tudo passa, menos o que a gente passa adiante,
    mesa posta, fé breve, silêncio constante.
    Três tempos, uma voz: o que foi, o que é, o que vem,
    sertão por dentro, onde a gente se mantém.

    Ouça, filho, o pai está aqui,
    a escuta é a forma mais pura de dizer “estou”.
    Se a vida insiste, a gente insiste em si,
    com o vô na lembrança, o amor que nos guiou.
    Raiz bem funda abraça qualquer vento:
    pai, filho e avô: três nomes do mesmo tempo.

  • Do Gerúndio ao Pão Quentinho

    Hoje passei quase uma hora tentando cancelar uma linha telefônica. No meio da espera interminável, lembrei de uma crônica genial de Paulo Mendes Campos, escrita em 1959: Coisas Abomináveis. Ele listou 60 situações insuportáveis e, pasme, muitas continuam valendo mais de meio século depois.

    A palavra “abominável” já soa quase arqueológica, não acha? Então, decidi atualizar com um termo que me parece mais divertido: Coisas Intragáveis.

    Da lista do cronista, selecionei dez que permanecem firmes no pódio do incômodo: passar pela alfândega; falta d’água em casa; pessoa que fala muito próximo do nosso rosto; criança de nariz escorrendo; mão suada; a penúltima hora de qualquer viagem; sala de espera; declarar imposto de renda; caixa que diz “volte amanhã”; e ser apresentado quatorze vezes à mesma pessoa.

    E, já que entrei no clima, fiz minha própria lista de intragáveis: desconhecido que insiste em contar a vida inteira; dirigir para o endereço antigo no piloto automático; bater a porta e esquecer a chave dentro; alguém pegar o último pedaço de doce; atendente que me chama de “amorzinho”; URA telefônica; o famigerado gerúndio: “vou estar te ligando”; figurinhas dançantes no whatsapp; topada que arranca a unha; e, para fechar, crise de soluços no meio de uma reunião.

    Depois dessa overdose de azedume, me senti meio intragável também. Então fui buscar um antídoto – e achei. Em 1962, o cronista escreveu Coisas Deleitáveis, e suspirei aliviada. Tudo bem que tive que dar um toque mais atual ao termo – optei por Coisas Degustáveis. Escolhi dez para me inspirar: dormir cansada; aroma de madeira; rasgar papéis inúteis; vento da montanha; pão saindo do forno; café da manhã no hotel; descobrir que uma pessoa feia tem uma voz linda; ver crescer uma árvore que plantei; brincar com argila; lareira em noite fria.

    Se fosse acrescentar as minhas degustáveis, diria: ver um pôr do sol avermelhado, caminhar descalça na praia, tomar vinho com amigos, ganhar flores inesperadas, reencontrar alguém querido, passar a tarde lendo na varanda, mudar o corte de cabelo, andar de mãos dadas, receber um beijo e… escrever essa crônica.

    Porque, no fundo, a vida é isso: engolir algumas coisas intragáveis e saborear outras tantas deliciosas. No saldo, felizmente, ainda dá para degustar.

  • Rio abaixo…

    Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

    “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

    Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado.

    “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo,como todo mundo?” Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada. Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

    • Missão Clotilde em modo turbo:
    • Reforçou a academia (alô, personal trainer);
    • Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
    • Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
    • Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
    • Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

    Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

    E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

    “Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

    Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

    Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:

    “Casou?”

    “Tem filhos?”

    “Trabalha ainda?”

    “Mora onde?”

    “E seus pais, vivos?”

    Checklist da vida em andamento.

    Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

    A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

    Menos… na mesa de Clô.

    Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

    Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

    Sem rodeios, soltou:

    — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

    Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá.

    “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

    E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

    Para as amigas, para a noite, para a vida.

  • O dia em que não havia mais nada pra sonhar

    Olhou para o lado e não havia mais árvores…

    Olhou para cima e, o céu cinza, cheio de fumaça, impedia qualquer ser vivente de ver o sol!

    Olhou para o outro lado e… não havia mais água!

    Resolveu caminhar entre pedras e destroços, cascalhos, plásticos, objetos já sem valor algum.

    E havia no chão coisas que nunca foram usadas, sacolas e mais sacolas de todas as cores e espessuras. Sacolas cinzas, sacolas verdes, sacolas transparentes…

    Caminhou por um bom tempo sem ver vegetação alguma!

    Caminhou por um bom tempo sem ver água corrente!

    Depois de tanto caminhar, sentou-se perto de um veículo abandonado. Não sabia nem o porquê de estar ali! Qual era seu nome e sua história? Não sabia de nada!

    Sabia apenas que tinha fome e que tinha sede…

    Viu que usava um casaco de muitos bolsos e resolveu procurar nos últimos e óbvios espaços!

    Tirou de um dos bolsos algumas notas! Era dinheiro! Disso sabia! Disso se lembrava! E lembrava que comprava muitas coisas com o dinheiro!

    A fome apertava e a sede aumentava!

    Num gesto rápido, colocou as notas na boca, mastigando cada pedaço e engolindo os valores que nela se estampavam. Cinco. Dez. Vinte.

    A única coisa que pode fazer foi chorar. Soluçar…

    Depois de tudo, adormeceu seu último sono e não sonhou mais porque não havia mais nada para sonhar!

  • “Felicidade se acha em horinhas de descuido”

    Foi o Guimarães quem disse. O Rosa, que não é flor, tampouco cor. Ele disse, eu refleti. Me perdi nas horas, horas longas e não pequeninas, que atravessaram meu corpo, minhas ideias e minhas versões, desde o nascimento. Me descuidei, por um fio, horas a fio, fios de cabelos que ainda não embranqueceram.

    E foi neste descuido, chamado felicidade, que os fios de meus cabelos foram abraçados, silenciosa, vigorosa e funcionalmente por uma piranha cor-de-rosa.

    Não a ofensa feminicida, não o peixe;

    Apenas uma presilha.

    E não o Guimarães.

    Em tantos segundos misturados, um único observador acima de minha cabeça.

    No descuido de não arrumar sequer o cabelo, felicidade.

    Devolvo, sob a forma de texto-memória, a piranha que o Gabriel Cardoso me deu, uma escrita criativa registrada no tempo (obrigada!)

  • Aroma, meu guia

    Em outra vida, tenho certeza, fui um Bloodhound — aquele cão de faro imbatível, dono de 300 milhões de receptores olfativos. Os humanos comuns (não me incluo) mal chegam a 5 milhões. Sinto odores há quilômetros de distância, tanto os que me encantam como aqueles que me nocauteiam.

    Devo confessar que esse super olfato me leva a escolher locais pelo cheiro – sim! Lojas com cheiro de marca me seduzem: entro, respiro fundo, e saio com algo que nem queria, só para prolongar o prazer do perfume no ar.

    Sou capaz até de me tornar uma frequentadora fiel de um restaurante só pelo aroma de sua culinária que invade o ambiente. Isso sem falar na atração que sinto por pessoas perfumadas, para mim uma nota importante de sensualidade.

    Essa questão olfativa esteve sempre presente na minha rotina doméstica – mantenho sachês perfumados nos armários, borrifo água perfumada nos jogos de cama e banho e uso perfumes de acordo com o verão ou inverno, dia ou noite, até mesmo para ir fazer Pilates ou uma caminhada.

    Mas não fica só por aí – tenho uma gama extensa de incensos que acendo em casa, de forma a imprimir a minha marca no ambiente. Uma prática que iniciei há mais de quarenta anos e que me traz benefícios tanto olfativos como espirituais, para mim e para aqueles que compartilham da minha hospitalidade.

    Por isso, quando li sobre um projeto de arquitetura de luxo com “identidade olfativa própria”, vibrei. Um cheiro só do lugar? Maravilhoso! Estavam, enfim, falando minha língua nasal.

    Mas bastou seguir a leitura e… puft! O encanto evaporou: o metro quadrado custará R$ 100.000,00.

    Por esse preço, meu olfato prefere manter distância. Cheiro bom, sim. Mas com bom senso, de preferência.

  • Na extrema curva do caminho extremo

    Eu não deveria escrever sobre se a terra é de fato esférica…

    Eu não deveria dizer o óbvio!

    Eu não deveria repetir tantas coisas…

    Eu não deveria escrever e me esforçar para que as pessoas saibam e entendam que o nazismo foi um movimento de extrema direita.

    Eu não deveria escrever e me fazer entender que QUALQUER regime de exceção, que tira direitos e persegue pessoas é chamado de ditadura…

    Eu não deveria escrever sobre a desgraça que é o racismo, posto que as pessoas sabem e TEM CERTEZA de que isso é um câncer…

    Eu não deveria escrever sobre TODAS as coisas que, em uma sociedade dita civilizada, são ditas e certas como INDEFENSÁVEIS…

    Hoje, lamentavelmente, o que era indefensável toma forma, cor e se concretiza em palavras, atos, ideias e o que mais vier!

    Hoje, a mediocridade é exaltada, escancarada, premiada…

    Hoje, o medíocre espalha a sua mediocridade com cursos, palestras e verdades descartáveis…

    Agora, sem pudor, preconceitos são verdades e colocados como franqueza, como sinceridade…

    Na extrema curva do caminho extremo, brutalmente, escolhemos a intolerância.

    Na extrema curva do caminho extremo, fatalmente, desconstruímos um país, uma sociedade…

    Na extrema curva do caminho extremo, apagamos a história conforme nossas conveniências e fabricamos heróis…

    Na extrema curva do caminho extremo, matamos a voz, o abraço, o beijo e o afago e ficamos com o ódio, a violência pura, o conflito e o atraso…

    Na extrema curva do caminho extremo…

  • Onde Está Você?

    Cabelos desalinhados, Débora esfrega os olhos fundos, sonolentos. Busca o roupão na cadeira ao lado da cama e se debruça de novo sobre o travesseiro vazio que repousa ao seu lado. Sente o perfume de lavanda ainda presente na fronha — o que lhe restou.

    No silêncio da manhã, seu olhar se detém no fio de luz que atravessa a fresta da janela. Como uma adaga, ele penetra o recôndito dos pensamentos noturnos. Débora se envolve nos lençóis, à procura de um abrigo, algum consolo.

    Preciso encontrar a saída. Me perdi outra vez nessa última tentativa. Tantos obstáculos a vencer. Sinto-me incapaz de descobrir um novo caminho sozinha. Onde está você? Ouço, lá no fundo, sua voz dizendo para seguir em frente. Tento, mas fracasso.

    Vou me embrenhando cada vez mais nesse poço lamacento. Me canso, desanimo, tento tomar fôlego e recomeçar. Procuro apoio, um chão que me sustente — se é que ainda resta algum chão nessa busca infindável. E me pergunto por que não consigo. Tantos conseguem encontrar a saída. Por que não eu?

    Já tentei traçar um mapa dos caminhos que percorri em vão, um guia que me orientasse a descobrir outro rumo. Mas, quando percebo, estou de novo envolvida na neblina das lembranças que sempre me levam ao mesmo lugar. Parece um vício. As mesmas pistas, as mesmas pedras, as mesmas barreiras — tudo se repete, como ondas do mar revolto da saudade em que me afundo cada vez mais.

    Sinto-me aprisionada, cativa desse labirinto, condenada a uma busca sem fim. Não consigo te ver, mas ainda escuto baixinho sua voz, insistindo para que eu siga sem olhar para trás. Mas como seguir, se tudo me traz de volta ao ponto de sua partida?

    O despertador toca. Débora se levanta, conformada, para enfrentar mais uma reunião do grupo de terapia do luto. Ao abrir a porta de casa, lembra-se de uma estrofe do tema de Lisbela e o Prisioneiro.

    Agora, que faço eu da vida sem você?

    Você não me ensinou a te esquecer.

    Mas, desta vez, a canção não soa apenas como um lamento. É quase como se fosse uma companhia silenciosa, uma voz que caminha ao seu lado, lembrando que a saudade também pode ser abrigo.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu — , em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.

    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Nada de Novo no Front

    Nada de novo no front.

    Mais uma guerra… E as guerras não têm nada de bom…

    E esta crônica, infelizmente, se repete. Mais uma crônica sobre as guerras, quando não se deveria escrever crônicas sobre guerras!

    Contudo, mais uma vez, preciso escrever que não há nada mais estúpido do que a guerra!

    A guerra interrompe o canto. Paralisa o jogo. Congela sentimentos.

    A guerra separa amores, aniquila sonhos, pulveriza infâncias, desmaterializa as coisas e desumaniza os humanos.

    A guerra vive de farrapos e de figuras esquálidas. A guerra se alimenta do medo!

    E por que fazemos tantas guerras?

    A mesma ganância, o mesmo poder, a mesma influência…

    Às vezes, faz-se guerra pelo simples prazer de guerrear. Assim, animalesco e brutal.

    Às vezes, faz-se a guerra por não ouvir. Por não querer ouvir! Por jamais ouvir o que é diferente!

    Outras vezes, faz-se a guerra por querer gritar verdades específicas que um grupo toma para si como a única verdade!

    No entanto, a verdade mesmo é que as guerras ensinam dor e solidão.

    A tradução de uma guerra está nos olhos marejados de uma mãe que não receberá seu filho.

    A tradução de uma guerra está nos traumas e nas memórias de uma nação inteira que segue enfrentando fantasmas…

    A guerra e os estúpidos que a veneram.

    Estes estúpidos amam bombas, flertam com mísseis, beijam metralhadoras e se insinuam com tanques. Não sabem nada da vida! Não querem vida!

    Tragicamente, são sempre os estúpidos a governar e a iniciar todas as guerras…

    Nada de novo no front…

  • Os Jardins de Áurea

    O ambiente cheirava a alfazema, misturada ao odor morno da roupa de cama recém-trocada, que aguardava no cesto para ser levada à lavanderia. Do lado de fora, um beija-flor pairava diante da janela, como se buscasse algo que havia perdido.

    Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Vestia o traje estampado mais elegante do guarda-roupas, embora não fosse aquele que desejava usar. Sentiu as mãos ágeis de alguém prendendo seu cabelo com um elástico no alto da cabeça. Indefesa, agradeceu em silêncio por não haver espelhos ali. No escuro das lembranças, preferiu se ver de pretinho básico, desfilando pelos corredores como Audrey Hepburn, com ares de Bonequinha de Luxo. Quis afastar a lágrima que ameaçava escorrer em direção ao pescoço, mas era impossível. Conformada, fechou os olhos e abriu a fechadura do seu jardim das maravilhas.

    Nesse instante, Carlota entrou, com seu inseparável relógio pendurado no pescoço. Nas mãos, um copo d’água e a sequência de comprimidos amargos do horário. Seu andar era firme, mas automático, como quem já não pensa no caminho. Áurea, com o olhar perdido, viu nas pupilas enevoadas surgir a figura do Coelho Branco, gentil e solícito, oferecendo-lhe os copinhos. A cada gole, o sabor de torta de cerejas, de caramelo, de creme de leite, de torradas amanteigadas. Um fio do líquido escapou pela boca trêmula, aparado de imediato pelas luvas do coelho.

    Tudo pronto. Áurea foi conduzida ao salão, onde balões vermelhos pendiam do teto e cadeiras estavam alinhadas rente às paredes. Aos poucos, vultos silenciosos, de fisionomia pálida e olhar vazio, ocuparam os lugares. Imobilizada em sua poltrona de honra, ela passeou os olhos pela plateia, em busca de algum sinal familiar. Nenhum lampejo. Apenas rostos indecifráveis, sombras de um tempo esmaecido.

    O chá começou a ser servido, cada residente com sua porção, cada qual em seu canto, resignado. Quem a auxiliava era um rapaz magro, de longos cabelos encaracolados presos sob um boné. Seus dentes brancos, manchados aqui e ali, lembravam um teclado de piano desafinado. O olhar impaciente queimava mais do que o chá pelando que descia pela garganta. Ele precisava que Áurea terminasse logo, para atender o próximo da fila. Meio adormecida pelo calor da bebida, ela se viu diante do Chapeleiro Maluco, seu relógio pendurado na lapela, repetindo que o tempo não gosta de ser marcado.

    Então, voltou os olhos para os balões vermelhos, que oscilavam sob a brisa do ar-condicionado. Hipnotizada por seu movimento pendular, começou a rodopiar pelos salões de baile da memória. O tempo brincava com retratos amarelados: ela adolescente, a filha se casando, ela no colo dos pais, as brincadeiras com os netos. Tempos em que a vida resplandecia, de fora para dentro.

    Mas veio o tempo em que, num estalar de ponteiros, a ordem da Rainha foi dada: “Cortem-lhe a cabeça!” E então, nenhum movimento restou — só as pupilas escuras, insondáveis, opacas. Era sua chave para o túnel que a levava ao jardim dos sonhos. Lá onde tudo é luz, onde tudo se reveste de cores, perfumes e sabores.

    De volta ao quarto, Áurea foi colocada em sua cadeira, diante da janela. O entardecer deixava entrar os últimos raios de sol de outono, refletindo em seus olhos imóveis. Sentiu-se diminuindo de tamanho, como Alice após a poção mágica, até que se viu fora de si, pairando no ar. Seguiu então o beija-flor que ainda batia no vidro à sua procura — leve, invisível, em paz.

  • Dois cafés e um canto de bar

    Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nunca testei, para ser sincera, apesar da curiosidade latente; pensei em fazê-lo hoje, mas já se vai um tempo relativo desde que me levantei e não encontro nenhum metro à minha disposição no momento. Fakenews da década de 90? Pode até ser. Mas a questão aqui é sobre como tudo em nossa existência é relativo. Vou contar-lhes um pouco sobre o Bochecha.

    De altura mediana – não me recordo se há alguns anos parecera mais alto – um senhor de olhos castanhos, barba feita, uma cabeleira que desafia estatísticas etárias, não totalmente esbranquiçada, e roupas descontraídas caminha pelas ruas da cidade, cumprimentando conhecidos (um número bem significativo, estamos falando sobre uma cidade de interior) e aproveitando a vida na sua fase ‘aposentadoria’. Como todo ser humano que se aproxima da sétima década de vida, tem lá suas manias. A terceira idade é uma libertação, nesse sentido: todo mundo releva as manias de velho de alguns, justamente por estarem… velhos. É quase como as luas femininas, que também vêm e vão com seus próprios ritmos.

    Bochecha, que por definição de um documento primeiro de vida chama-se Antônio, senta quase todos os dias em algum banco da praça principal do centro da cidade, com a ‘galera’ do seu tempo de adolescente. Com os amigos de verdade, toma um café em um bar ali perto. Conversam sobre trivialidades, futebol, política, família e memórias. Isso acontece há um bom tempo e, por isso, é conhecido no estabelecimento.

    Há cerca de um ano ele se prepara para sair de casa como se fosse encontrar alguém especial. Se esmera na escolha da roupa, embora ainda assim não seja nada formal. Há em sua vestimenta e no próprio corpo um luxo de quem se desacostumou à pressa. O sorriso frouxo no rosto é o adorno final que veste, seguindo para o bar. O local que não tem mesas, apenas o balcão com alguns assentos, está quase diariamente vazio entre às 14h30 e 15h45. É então que ele cumprimenta Manoel, o atendente, e se senta em frente à televisão sem volume. Ali, no canto, nem o dono do bar se atreve a iniciar uma prosa, é quase um lugar sagrado na casa. Bochecha pede dois cafezinhos e, mudando as feições como quem se prepara para encarnar um personagem, vai ter com os seus pensamentos.

    Os cafés vêm no copo americano de sempre, aquele líquido preto, com uma colherzinha de inox que descansa como um bicho domesticado e, muitas vezes, não serve para adoçar a bebida, apenas fica ali, uma companhia silenciosa; o vidro do copo é grosso e sua boca enfeitiça: por ela sobe um vapor lento, denso, visível, de aroma que promete um sabor estonteante. Parece alguém que sopra seu hálito quente para uma paisagem de inverno e brinca com a materialização do ar fabricado em seu próprio corpo. Bochecha não percebe pessoas passando pela calçada à sua direita, não sente sequer o cheiro da fritura que borbulha com a produção de salgados destinados à estufa quente da vitrine. Olha para frente, mas não a vê. Olha para dentro.

    Da primeira vez que isso ocorreu, Manoel estranhou. Primeiro, porque Antônio, sempre simpático, chegara com o rosto repleto de dor. Pedira dois cafés, ao invés de um, como quem pede desculpas. Sentara por primeira vez naquele canto apertado do balcão com o corpo mal posto, encaixado torto entre o banco sem encosto e a falta de vontade. A coluna, que antes exacerbava o orgulho de quem está vivo por tanto tempo, era em Bochecha um mero gancho — segurava o corpo pela metade, o resto parecia pendurado em outro lugar, distante, onde a vida ainda fazia algum sentido ou pelo menos fazia barulho. O silêncio ao redor de Antônio é quase palpável nessas ocasiões.

    Desta última vez, ficou por um bom tempo com um dos copos na mão. Despertou do transe de olhar só para a TV e encarou o outro copo. Olhou para os dois copos. Às vezes olhava para o próprio reflexo torto que se desenhava no líquido escuro. Às vezes pro copo do lado, como se ele pudesse responder, sem reflexo. O café já estava frio. Tomou o dele. Segurou o outro copo, sem aproximá-lo de seu corpo. Sorriu. Olhou para Manoel que, vendo o cliente de tanto tempo ali, sorrindo, perguntou:

    — desculpe a intromissão, mas… é que eu fico curioso: por que deixa sempre o segundo café sem tomar? É pro Santo?

    E, com um sorriso só de lábios, sem mostrar os dentes — que não era o seu — , Bochecha respondeu, olhos marejados e o dedo indicador da mão esquerda em riste, apontando para cima:

    — É para o meu amigo.


    O amigo do Bochecha é o meu pai. Esta semana, ao encontrá-lo entre os tapetes de Corpus Christi e ver o tanto de amor genuíno em sua presença, meu coração se alargou. Porque enquanto houver alguém que ainda pede o segundo café, meu pai continuará vivo — nas conversas de quem (ainda) o ama, no gesto repetido, na xícara – ou no copo americano que ele tanto gostava – intacto.

    Obrigada, Antônio.

  • Bandeira branca

    Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós.

    É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas.

    É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar justificá-las com o imensurável ou o imprevisível. Fazer isso seria apenas colocar novas imprudências na linha de frente.

    Não adianta escavar valas profundas onde deixamos projetos de vida natimortos, à procura de uma cura milagrosa. Estaríamos apenas tentando prolongar a sobrevida de ideias que talvez só façam sentido em outro tempo, em outro corpo.

    Abrir as campas dos amores decompostos? Pura ilusão. Mesmo que ali estivessem intactos, seriam apenas mortalhas ocas, refletindo — como espelhos — o amor que um dia foi.

    Batalhas perdidas. Depois de muitas vidas vividas, chega uma hora em que é preciso fazer as pazes com elas. Para seguir mais leve, com mais espaço dentro da alma.

    Para mim, essa hora chegou. Bandeira branca hasteada.

  • Crônica para Cronistas

    Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo…

    Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve…

    Você sabe o peso de uma crônica?

    Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto…

    Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso reverenciar quem tornou a crônica esse texto tão especial, multifacetado e acessível!

    Quando penso em escrever uma crônica, peço licença aos mestres que escreveram tantas crônicas simplesmente geniais!

    É impossível pensar na palavra crônica e não pensar em tantos cronistas…

    O domínio do humor em Veríssimo! A sensível ironia de Machado! O manuseio das palavras e o senso de observação de Drummond!

    E a poesia de Rubem Braga!!? Passarinhos e passarada!

    A vida conflitante de Clarice!? Apertos, acertos e desacertos! Quem foi que me disse?

    E ainda apresentam o corte, a força, a leveza e o tempero Paulo Mendes Campos, Lourenço Diaféria, Fernando Sabino…

    Ah! E o cenário carioca sem igual em João do Rio? O Rio tão belo em João, nas suas ruas e nas suas cores! João e sua emoção!

    Você já ouviu falar no Sobrenatural de Almeida? Definitivamente, a crônica esportiva ganhou sua forma com Nelson Rodrigues!

    Gingando com as palavras, soube driblar os adjetivos desnecessários outro cronista do futebol: Armando Nogueira!

    A crítica e o engajamento de Lima Barreto! O Brasil e os seus fantasmas!

    E muitas crônicas certeiras e, por que não, faceiras, escreveram também Cecília, Antônio Maria, Vinícius, José Carlos Oliveira…

    Otto Lara Resende e Stanislaw Ponte Preta.

    A crônica deve a todos os cronistas de ontem a caminhada, a formidável estrada, construída texto atrás de texto!

    A partir do momento em que início uma nova crônica, sei da responsabilidade que tenho ao escrever!

    Sei de todos esses nomes e histórias que fizeram da crônica o texto mais brasileiro de todos: irresistivelmente irreverente!

    Um texto tão feito da gente que parece conversa, olho no olho, fala ao ouvido, abraço convidativo, enfim, a crônica nossa de cada dia…

  • [com]penetrante:

    Convencer-se profundamente sobre algo; Concentrar-se intensamente em algo.

    […]

    Quantas toneladas de cimento erguem-se do solo em direção ao céu, na cinza e tão loquaz São Paulo?

    Quanto de densidade vital se esfarela nas sombras penetradas por passos, sapatos, solas, pés descalços, arte de rua, pombos, cachorros, bolsas de senhoras que, sem querer, lançam-se, desobedientes, ao rés do chão das calçadas, a testar a humanidade: ajudo a senhora com seus pertences ou… me lanço agilmente e as tomo para mim? Há várias pessoas ao redor, transeuntes, turistas, vendedores locais, menores e maiores infratores.

    Quanto de manutenção não fica registrado no transfixar violento de marteletes nas calçadas – penetra, rompe, quebra, mais profundo, fundo: buraco, valeta, exposição das veias desta cidade. Um “cimentinho” aqui, outro acolá: rápido encobrir, ato abusivo, mácula de um amador – sem técnica – a desenhar sobre a pele virgem de alguém que sonha com sua primeira tatuagem, perfeita: cicatriz horrenda no passadiço sem o emblemático ladrilho hidráulico com o mapa de SP em PB, chão que também é teto de um crescente número de imigrantes.

    Em plena Paulista.

    A Paulista: ápice de topografia urbana da Pauliceia, selva de pedra onde pulsam, vorazes, a cultura, o comércio, os restaurantes, a ilegalidade, as manifestações; sexo (todos os gêneros), drogas (psicoativos e muitas farmácias) rock ‘n roll (principalmente aos domingos, quando os carros são proibidos e a música toca solta, tal qual uma salada de frutas).

    Aqui pululam centros culturais, essas velhas-novas Igrejas. Para além de um confronto silencioso com seu próprio existir, é possível encontrar um lugar seguro em meio às fricções civis – tamanha potência erótica de atrito urbano nas vias térreas, pernas, muitas pernas, e rodas, tantas e mais e outras rodas. Um viajante poderá decorrer o tempo entre o turistar e o embarque nos corredores, salas, cinema, lanchonetes e até restaurante do IMS, por exemplo – com banheiros sem distinção de gênero, guarda-volumes e conhecimentos à disposição, gratuitos, até tarde da noite, ou madrugada adentro, em algumas ocasiões. Os centros culturais são os eixos, em opinião privada, de indivíduos encapsulados em seus tempos mundanos. Na terra da garoa há também padarias pecaminosas, com cafés cremosos, lanches tentadores, bolos molhadinhos, recheados de todos os tipos. E de tipos “Sampa” está cheia. De gente, de estilos arquitetônicos, de clima, de histórias.

    Em meio ao leito carroçável de toda a Terra da Garoa, percorrem motoristas de aplicativos que também são executivos, ex-militares, professores de línguas estrangeiras, aposentados, estudantes, recém-casados, endividados e pessoas com depressão, ou burnout. Ou um pouco dos dois. É o caso do Seu David.

    De origem portuguesa, segunda geração nascida em solo brasileiro, é ex bem sucedido funcionário de uma das primeiras importadoras do Brasil o uber que nos busca em frente ao shopping Iguatemi, um dos pontos mais Faria Limer da minha viagem – e quase nada a ver comigo, não fosse a livraria da Travessa, caloroso vermelho vivo em seu gingado carioca, que desbanca qualquer Tiffany, gélido azul com previsões de divórcio e acabamento escorregadio, em cetim. Voltemos ao nosso motorista e a um percurso, sem trânsito, de menos de 30 minutos, até Pinheiros.

    Ele vem de Alveiro, norte português cuja tradição se tricota em meias verdes e vermelhas pela avó, cores de Portugal, presentes esperados por netos, filhos, noras e genros. Um dia, apareceu um gajo que se deu bem com uma tia. Conquistou a mãe, sua avó. Inaugurou as produções de meias para não parentes. A avó, figura emblemática em sua vida – e já falecida -, uma vez perguntara em voz alta a Deus se algum dia teria bisnetos homens. Já contavam 9 herdeiras. Já idosa e temendo nao ter a vida útil dos Albuquerque assegurada pelas próximas gerações, deu com o jovem David, que lhe prometera dois bisnetos homens. Assim cumprira, mesmo que a avó o houvesse deixado logo em seguida, não presenciando a dádiva. Avó que, além de vó fora também mãe. Tantas em tão pouco tempo. Várias mães: mãe-avó, tia-avó, Tia que não teve filhos. Todas se foram antes de David tonasse homem feito.

    Um homem assim nostálgico e de verbo solto nos conduz por um trecho já familiar e continua a prosa. Diz que trabalha de uber para não enlouquecer. Discursa sobre a rotina de seu trabalho, suas viagens sem espaço para horas de turismo, tudo findado em 1983. Prometeu-se voltar aos lugares dos quais gostou, Brasil afora ou exterior, quando de sua aposentadoria. Amarra o assunto trabalho com sua rotina de motorista de uber: remédio contra a depressão, pois é viciado em adrenalina. Não consegue e não quer ficar parado, perda de tempo, perda de vida. E desfia mais um pouco de sua biografia.

    Nos conta do tênis de “luzinha” , que mostrou aos empresários brasileiros em primeira mão entre batidinhas dos calcanhares dos calçados em suas mãos, numa grande mesa de reunião, quase uma Dorothy desejando voltar para casa. Se empolga tanto nos ouvidos do banco de trás que erra a entrada da nossa rua. Não há retorno próximo. O taxímetro do aplicativo inflaciona, mas seu David está feliz.

    ….

    Estes últimos dias em São Paulo tem sabor das coisas descartadas pelo tempo, endereço onde ponteiros entalhados dormem sob uma poeira espessa. Essência dos olhares privados de vida, apreciadores das reminiscências da vida de ninguém. Diplomas, fotografias, castiçais, vinis com caligrafias de donos primeiros. Tapetes e cadeiras aguardando ansiosos amantes do analógico para um resgate que os devolva a dignidade mínima de objeto de decoração. A dignidade das escolhas, quaisquer que sejam. O amontoado de coisas é uma coisa – e não coisas em si. As funções se esvaem, a utilidade perpassada… o entusiasmo [já] nem perto.

  • Melhor não rir na sexta…

    Todo mundo conhece aquela velha metáfora do copo: meio cheio ou meio vazio. Virou referência clássica para distinguir os otimistas dos pessimistas. Basta um gole de convivência em família ou entre amigos para perceber quem vê a vida com espuma no topo e quem enxerga apenas o fundo do copo — seco, é claro.

    Na minha roda de infância, havia uma amiga que levava o conceito de copo vazio a um novo patamar. Era praticamente um poço — mas um poço sem fundo. Desde pequena, ela fazia questão de apontar todas as chances de dar errado. E não se contentava em prever tragédias apenas para si: distribuía o pessimismo como quem passa repelente em roda de criança — generosamente.

    Quando a brincadeira era subir em árvore, ela se plantava embaixo e alertava:

    — Cuidado! Isso aí não vai acabar bem.

    Se a turma queria brincar de esconde-esconde no escuro, arregalava os olhos e decretava:

    — Isso é perigoso. Vai que alguém se perde?

    Na adolescência, seus avisos começaram a ganhar contornos mais sofisticados — quase uma espécie de bullying afetivo. Bastava a gente se empolgar com uma festinha para ela nos puxar num canto e murmurar:

    — Olha… não fica triste se ninguém te chamar pra dançar, tá?

    Era um balde de gelo na autoestima. Eu, que já era tímida, ouvia aquilo e perdia o rebolado antes mesmo da primeira música.

    E no vestibular, então? Ela fazia uma careta de dor antecipada e soltava:

    — Cem candidatos por vaga? Humm… então esquece. É quase impossível passar.

    Dava até medo de abrir o jornal no dia da lista de aprovados.

    Importante dizer: ela não fazia isso por maldade. Era pessimista até com os próprios sonhos. Morria de medo de se empolgar e depois quebrar a cara. Então, preferia não subir — nem a escada da esperança.

    Com o tempo, seu pessimismo foi ficando tão aguçado que beirava a feitiçaria. Se falávamos em ir à praia:

    — Melhor nem se animar, vai chover. Se saía um filme novo:

    — Ouvi dizer que o final é triste. Se queríamos só uma fatia de bolo:

    — Melhor evitar, engorda.

    E para fechar cada previsão sombria, vinha a sentença final:

    — Ouçam o que eu digo: melhor não rir na sexta pra não chorar no sábado!

    Hoje, sempre que me pego com a alma meio nublada, lembro dela. E dou um passo atrás.

    Porque, veja bem, pessimismo pode até parecer prudência, mas é traiçoeiro — e, segundo um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, reduz a expectativa de vida em até 15%.

    Então, se você se identificou com a minha amiga… cuidado.

    Ria na sexta.

    Ria na segunda.

    Ria quando quiser.

    Porque chorar, a gente já faz de vez em quando — sem precisar de aviso prévio.

  • A beleza do mundo, hein, tá no Gantois!

    Amanheceu e Janaina, cantarolando Dorival Caymmi, se preparou para mais um dia de trabalho na entrada do Casa Espiritual do Gantois. Mais que depressa, arrumou a cesta com os alimentos responsáveis pela manutenção da energia dos orixás e que servem de caminho entre o céu e a terra: os frascos embrulhados de vermelho com azeite de dendê, as trouxinhas brancas onde colocou o vidrinho de álcool e alguns recipientes para o vinho, o mel e o fumo preto. Além disso, delicadas essências carregadas de energia, envoltas nos papelotes coloridos, faziam a ligação necessária com cada Orixá, proporcionando ajuda e proteção para o dia que haveria de ser intenso.

    Colocou sua vestimenta branca com barrado dourado e o turbante de crochê azul claro, tecido por uma das filhas de santo. No pescoço, a longa guia de contas azuis e brancas. Azuis para proteção, necessária quando contra os maus-olhados. Brancas, que além de terem caráter refletor do mal, induzem às coisas puras, e boas. Assim preparada, seguiu para a recepção dos que vão em busca das bençãos dos Orixás, sua maior missão no terreiro.

    Sentada em seu posto, ela aguardou a chegada dos iniciados, não sem antes espalhar algumas pipocas como oferenda para o orixá Obaluayê. Os alabês já estavam a postos em seus lugares e começaram, com seus atabaques, a chamar os iniciados para a seção da tarde.

    Uma pessoa se aproximou. Janaina levantou o olhar e foi invadida por uma grande comiseração ao ver seu estado. Teve a sensação de que a fisionomia era familiar, mas não foi capaz de reconhecer. Estatura alta, tórax muito grande para o tamanho do resto do corpo. Cabeleira vasta, mas com alguns tufos queimados. A pele engelhada. A boca seca, o olhar embaçado, a respiração ofegante. Pensativa, ela observou que era uma criatura ainda jovem, extremamente depauperada. Sua capacidade mediúnica a fez intuir que tinha sido castigada pelos maustratos por parte de quem a deveria ter cuidado, nutrido, protegido.

    Se concentrou, fechou os olhos e começou, então, suas rezas: Ó soberana mãe das águas, vinde a mim neste momento de aflição. Com minha fé e devoção, acendo esta vela azul para iluminar meus pedidos e caminhos. Ó minha Ialorixá, intercede por mim à Iemanjá para que ajude a manter vivas as águas que podem nutrir esse corpo desidratado. Que assim seja feita a vossa vontade. Odoyá!

    Ó soberano pai da caça, vinde a mim neste momento de aflição. Ó meu Oxóssi que protege os animais e as florestas, lança seu arco e flexa contra os que matam sem necessidade. Ajude a manter vivas nossas espécies em extinção, e a caça como o alimento que esse corpo precisa para sobreviver. Com seu manto verde orvalhado, cubra sua cabeça já tão devastada. Que assim seja feita a vossa vontade. Okê Arô!

    Ó soberano pai do vento, vinde a mim neste momento de aflição. Ó meu pai Oxalá, que protege o ar que inalamos ajude-nos, descarregando todas as impurezas jogadas na atmosfera pela ambição do homem. Com suas vestes brancas, lava esse rosto asfixiado, para que seu pulmão volte a respirar. Que assim seja feita a vossa vontade. Êpa Babá!

    Para poder anunciar, então, a entrada do visitante no Gantois, onde receberia a benção da Mãe Menininha, Janaina pediu que o visitante dissesse o nome. Ao que ele respondeu: Brasil.

  • Gestuais domingueiros

    Inequívoco:

    É pleno e gélido outono, o sol perpassa a concentração de nuvens brancas, total unificação de cor, reflexo intacto da luz no rebatedor que se faz teto do dia. Olívia espreguiça e se deixa ficar, é domingo, ela pode ser toda preguiça. O amanhecer vem calmo em quase tudo.

    Quase.

    Pouco a pouco, as árvores exibem seus galhos desnudos, pelados; as janelas das casas perdem privacidade – e vizinhos levantam-se despreparados para os olhares um tanto desatentos, hoje, das ruas.

    Os aromas confundem o hálito azedo do acordar; cheiro de café passado, cheiro de bolo de fubá no forno. O pão recém assado na padaria, ali perto. Alguém passou pelas ruas com um emaranhado de essências: perfume em demasia e teor alcóolico, sinal de um sábado que teima em se concluir. Todas as notas sobem em câmera lenta, uma dança invisível.

    Rompem as barreiras de portas fechadas, cortinas, narinas.

    Inequivocamente, nem tudo é imobilidade.

    Certamente não na arvoreta-menina, solitária, bem na esquina. Encarcerada em um quadrado de terra, limitada à expansão de suas raízes para os fundos do concreto rotineiro e sem vida, seus fartos e imbebes
    galhos vão desenhando braços aturdidos e atrevidos. Galhos de parca sombra, a desabrochar flores a partir de botões maduros, generosos e abundantes botõezinhos. É pleno outono. Até os pássaros concluem – para uma felicidade em forma de revoada – que, inequivocamente, presenciam uma das mais belas forças de resistência.

    Resistência de vida. De não lamento. De esperança.

    Num piscar de olhos, os aromas ao entorno de Olívia, são os mesmos. Ela se demora por entre as cobertas. Olívia pisca, um botão estoura; seus olhos teimam em se abrir, a árvore revela pétalas brancas. Uma flor rosa pende da árvore e se lança ao rés do chão, seis pétalas em formato de coração. As folhagens outonais de todas as outras árvores, verdes adoecidas, ganham nuances de possibilidades. Olívia brinca com o temporizador dos alarmes. O domingo é uma tela verde pigmentada de vida.

  • Ladrões de tempo

    Há um instante na vida — e ele chega sem avisar — em que o elástico do tempo começa a encolher. A gente passa tanto tempo acreditando que ele se estica infinitamente, que leva um susto ao perceber que a ponta já está ali, bem mais próxima do que parecia.

    Para os otimistas, os esperançosos, os que ainda querem aproveitar o máximo do plano terreno, só resta puxar esse elástico com jeitinho, torcendo para que ele não dê uma estilingada inesperada e se despedace. E, se tiver que se romper, que seja lá no finzinho da linha — o que, convenhamos, já seria uma benção.

    Esses dias, lendo A contagem dos sonhos, de Chimamanda Ngozi Adichie, me deparei com uma expressão que ficou zanzando na minha cabeça: “ladrões de tempo”. No livro, ela fala de amores que não valem a pena, relações que atrasam a vida amorosa das protagonistas. Mas fui além.

    Não pensei em amores antigos, nem em nós do passado. Foi o presente que me cutucou. Quantos tipos de ladrões de tempo existem por aí? E quantos estamos deixando entrar pela porta da frente, com tapete vermelho e cafezinho?

    Alguns são quase impossíveis de evitar. A burocracia, por exemplo, é um clássico ladrão. Quem nunca perdeu horas preciosas enfrentando a famosa URA — aquela Unidade de Resposta Audível que promete atendimento e entrega desespero? Seja para falar com o banco, a companhia elétrica, o plano de saúde ou qualquer outro órgão onde o tempo vai escorrendo sem dó. E não vamos nem começar a falar das filas, dos congestionamentos, da papelada sem fim. Já pensei até em criar um “cronômetro da perda de tempo”, tipo o impostômetro. Mas desisti: imagine a crise existencial?

    Esses são ladrões conhecidos, e com criatividade dá até para reciclar o tempo que eles roubam — ouvir uma música, mandar mensagens, ouvir um podcast, ler umas páginas, divagar sobre a vida. Um pequeno protesto poético contra o sistema.

    Mas o que realmente me preocupa são os ladrões silenciosos. Aqueles que a gente convida sem perceber. Os pensamentos negativos, por exemplo, são verdadeiros assaltantes da alma. Sugam o tempo interior, roubam a leveza do dia, encurtam a vida emocional em câmera lenta.

    A sabedoria, dizem, vem com o tempo. E talvez ela esteja justamente em aprender a proteger o nosso elástico — envolver a linha com cuidados, risos, fé e pequenos bálsamos que o mantenham flexível. Porque a vida já corre por si só. Se a gente não cuidar, quando piscar… ela estoura.

  • CORDEL MAIS ENROLADO

    José e Marta. Mas qual Marta? Ainda um nome frágil. João e Maria. Simplista. Vida bruta e comedida. Olho no olho e um arranhão. Árvore de amendoeira. Prisão. José e Marta, ambos, enrolados no chão. Frio, Muito frio com José e Marta. João e Maria, não.

    O céu nublado, José e Marta na calçada, roxos de frio. Pensei em João, pintor nordestino e falador; pensei em Maria, Maria das Dores, moça prendada, também nordestina, recatada, muito nova ainda.

    Um arranhão. Olho no olho e a amendoeira molhada. Triste fim a prisão. O que é uma pessoa abandonada? Frio. José e Marta, então…

    Céu nublado, João e Maria na casa, roxos das brigas. Pensei em José, balconista de pequeno armazém; pensei em Marta, pobre ninguém! Não tinha um quarto pra dormir. Há mesmo um lugar pra ir?

    Marta sem quarto. José balconista. Não conhecem João, pintor de parede, tampouco Maria das Dores, muito moça ainda. Coitada! Vivem como se nunca soubessem do sofrimento alheio.

    Sucedeu certo dia, a fruta deliciosa e madura, brilhava nas mãos de José e Maria das Dores queria apenas a maçã. Recebeu um beijo ardente, um bilhete, um olhar apaixonado. Maria, faceira, disse que não, muito obrigada. Recebeu outro beijo e um agrado.

    Não demora veio a chuva. Baita chuva. Grossa como a desesperança. Não se trata de criança! Soube João. Virou uma fera! Mal-agradecida da Maria. Vai ver o que espera.

    José e Marta não se falavam mais. Amor, um nome escrito na amendoeira, já gasto e quase ilegível, frágil… João brigou, passou a faca e o vestido de flor murchou-se de vida. Olhou nos olhos de Maria a desfeita ocorrida. A polícia sem demora prendeu o marido traído e o quarto agora era um mar vermelho, moça vermelha, flores vermelhas de um amor não resolvido.

    A calçada acaricia os corpos frios e desiludidos de José e Marta. Não se olham. Não se amam. Ela não sabe de Maria, Maria não sabe de João, João não sabe de José e o amor não sabe de ninguém.

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