Finjo que consigo viver assim

  • Finjo que consigo viver assim

    Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do autismo. Acho, talvez, que ele tem pena de mim, por isso não me põe para fora; ou mesmo porque, como tenho muito foco, consigo terminar as atividades a contento. Nessas reuniões, passo ideias às vezes confusas até para mim. Definitivamente, não sei me expressar. Mas estou há três anos na empresa, e até hoje não recebi feedback sobre o meu comportamento. Meu chefe sabe que tenho autismo, mas prefere esquecer; ele me trata como um sujeito “normal” – até gosto disso. Não desejo ter “privilégios”, somente ser aceito com minhas intrínsecas condições. Tem vezes, como hoje, que quero ficar isolado; tenho medo do mundo. Luana me dá todo o suporte, porque é sensível à situação. Ela está há menos de um ano na empresa e me pede, sempre, conselhos sobre o que fazer, sobre como se portar. Digo, sempre, para agir de maneira espontânea e leve, como de fato ela é – e eu a admiro por isso. A pobre tem receio de ser demitida, e diz que procura outras opções. Não consegue, absolutamente, se acostumar com a inconstância emocional do nosso chefe. Hoje mesmo ele chegou nervoso, estilo vendaval; bateu na mesa, chamou Luana para que “prestasse” atenção nos aluguéis em atraso. Luana é casada, possui dois filhos e marido, e é praticamente arrimo de família. Tenho pena de sua decisão, do que está passando. Tenho um apego emocional a ela, porque sei que me entende, por isso faço de tudo para que fique no escritório. Mas não teve jeito, na segunda-feira passada ela chegou superanimada, dizendo que tinha sido chamada para outro trabalho. Que passou numa seleção acirradíssima. Ela é uma mulher de muitos valores e merece ser feliz, é assim que penso agora… O que posso fazer? Nada. Desejei-lhe toda a felicidade do mundo. Wilson e Renato, meus colegas, ainda me dão um suporte, brincam para me distrair, pelo menos sei que não ficarei sozinho. No entanto, tenho muitos medos; o trabalho pode se tornar um ambiente hostil, e ter de me virar sem Luana é mesmo angustiante. Ela já saiu sem dar um tchau. E entendo a sua euforia. Não tenho filho para criar, sequer sou casado. Moro num flat que era do meu pai, que ele me deixou de herança. Tenho uma vida moderada, às vezes – ou muitas vezes – reclusa. E assim vou me virando para viver nesse mundo cão, que não entende a neurodivergência. Meus colegas de trabalho brincam, e tenho certeza de que sequer lembram que sou autista. As pessoas fingem que me entendem. E finjo que consigo viver assim.

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