Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor.
Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade.
Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o destino da rua, para onde levamos nossas conquistas e feridas e de onde podemos sonhar.
Como num casulo, nela, abrigamos nossos ovos de ouro. Seja própria, não própria ou até mesmo imprópria.
A casa desde sempre fez parte do nosso mundo imaginário. A da infância nem se fala, fica marcada tal qual prensada por um ferrete em brasas. Perseguimos numa corrida de obstáculos, o ideal do doce lar, àquele lá de trás, perdido desde sempre, cujo endereço era a barriga de mãe.
Habitados pelo inconsciente, passamos a vida desejando retornar a este estado de puro prazer e assim emprenhamos de significantes a nossa casa edificada, como se a sua posse nos servisse como uma insígnia fálica.
De repente e por assombro, metem os pés nos nossos peitos, arrombando as portas. Escancara-se assim o nosso templo sagrado. A casa invadida, outrora pensada tão protegida, cai. Mas içada, remonta-se um novo castelo e assim deixamos a nostalgia ao relento, no sereno de um tempo que já passou.
Habite-se! Na sua própria construção, nesse lugar de afeto que poderá ser habitado com segurança. Conceder-se a propriedade do seu desejo, pode ser o maior de todos os bens. Aproprie-se do seu nome próprio, este que lhes foi dado com tantas marcas e histórias. Autorize-se das suas palavras e narrativas, essa pode ser sim, a chave tão desejada. Mas antes de destravar a engenhosa fechadura, e adentrar na casa idealizada, assegure-se que a escavação foi profunda e que a esculpiu com delicadeza. Sem esquecer de despejar os restos e as sobras. Despeje-se! Do gozo, que por natureza, carrega em si, prazer e dor. Despeje-se! Do eu cheio de si, que se desborda pela porta.