Literatura

  • A falta que faz

    Falta-nos um Nobel. A tão cobiçada e destacada honraria máxima de que ainda carecemos. Nós, o país mais exuberante. O país do samba, do Carnaval, do futebol. Temos de tudo um pouco e fazemos de tudo um pouco. O Brasil é um mundo particular que ninguém jamais decifrou completamente. Além disso, como sabemos, Deus é brasileiro. Só o resto do mundo ainda não percebeu. A Academia Sueca, então, nem se fala, parece querer constantemente desviar da terra de Deus. E nós continuamos sem um Nobel.

    Conquistamos cinco copas. Somos os maiores da história do futebol. Não interessa se estamos numa fase ruim ou se a Argentina nos humilhou na última partida, as cinco taças são nossas, ainda que uma delas tenha sido roubada. Isso, de fato, pouco importa. O mundo esteve literalmente aos nossos pés em 58, 62, 70, 94 e 2002. E, vamos combinar, a única coisa mais bonita do que as cinco estrelas na nossa camisa é imaginá-la com seis. A Olimpíada, que por muito tempo foi o nosso Calcanhar de Aquiles, conquistamos logo duas em sequência para mostrar quem é que manda. A primeira, por acaso, foi aqui no Brasil. Um capricho dos Deuses do futebol. Agora também voltamos a ter o melhor jogador do mundo. Tudo nos conformes. Do 7 a 1 nem lembramos direito, foi um vacilo momentâneo.

    Mudemos o foco por um instante. O Brasil tem as maravilhas da natureza. Me desculpem os europeus, os americanos do norte e o baixo clero dos países do médio oriente. Nós temos o Pampa, o Cerrado e o Pantanal. Nós temos a Amazônia e o litoral mais bonito do mundo. Nós temos as Cataratas do Iguaçu e o Cristo Redentor. Nós temos os Lençóis Maranhenses, o Monte Roraima e a Chapada Diamantina. Nós temos o Delta do Parnaíba, as Piscinas de Maragogi e a Gruta do Lago Azul. Nós também temos as cidades históricas de Porto Seguro, Ouro Preto e São Miguel das Missões. Salvador, São João del-Rei e Morretes. Petrópolis, Olinda e Manaus. E muito, muito mais. Não fosse a inflação um tanto descontrolada e o preço caloroso da gasolina, estou certo de que a população do país inteiro visitaria todas essas cidades. O turismo é claramente um dos nossos pontos fortes, mas é sempre bom ficar atento com carteiras, celulares e afins.

    Além dos conhecidos festejos carnavalescos de início de ano, invejados silenciosamente pelos países mais introvertidos, por assim dizer, temos também o Festival de Parintins e a Semana Farroupilha. Cada um com uma música, uma comida, uma história própria. Nós somos o país do forró, do baião e da bossa nova. Do xote, do frevo e do maracatu. E, apesar de estarmos novamente com um ex-presidente preso, no geral, somos boa gente.

    Agora temos um Oscar para chamar de nosso. Quem diria, hein? Até um Oscar conquistamos, numa festa digna de final de copa, com transmissão simultânea em várias capitais. Somos realmente bons na comemoração das nossas conquistas. Quem não lembra das cambalhotas do Vampeta na rampa do Palácio do Planalto?

    De fato, não sei de onde tiramos coragem para viver assim, tão bem, tão plenamente, sem um prêmio Nobel. Até me envergonho um pouco quando penso nisso durante as caminhadas matutinas. Talvez, se tivéssemos um Nobel, poderíamos tentar evitar o provável colapso financeiro dos próximos anos, sobretudo na Previdência. Talvez, se tivéssemos um Nobel, teríamos evitado o mensalão, o petrolão, os mandos e desmandos na pandemia, o desmatamento na Amazônia, os dólares na cueca, as fraudes no INSS. Pois é. A falta que faz.

    O curioso é que o prêmio Ig Nobel não nos falta. Aliás, até nos sobra. Temos oito. E Nobel que é bom, nada! Deus, que, sendo brasileiro, tem piedade de nós, desprovidos de Nobel, também perdoa, por certa conjuntura divina, a Academia Sueca, que não pousa os olhos sobre nós, os brasileiros, seus tão estimados conterrâneos. E Deus sabe o que faz. A Academia Sueca, por sua vez…

    E olha que nem estou falando das injustiças. Ao que tudo indica, Oswaldo Cruz deveria ter sido o primeiro laureado em terras tupiniquins. Não foi, entretanto. Também esqueceram do Carlos Chagas e do César Lattes. É desolador. Mal posso imaginar como seria avultado nosso orgulho patriótico com um prêmio Nobel. Só de pensar já fico alvoroçado. Não que precisemos de avultamentos dessa natureza, óbvio, e nem precisamos provar nada para ninguém. Mas, particularmente, não entendo como, na literatura, Guimarães Rosa não recebeu tal distinção. Nem ele nem a Lygia, a Clarice, o Cony e o Jorge Amado. É realmente constrangedor, Academia Sueca. Mas deixemos os traumas para outra hora.

    Como dizia, Deus é brasileiro e nos ensinou a não desistir. Então, ainda guardo uma fagulha de esperança de que, em 2025, o Brasil seja finalmente contemplado com um prêmio Nobel. O pesquisador Miguel Nicolelis é sempre um ótimo candidato. Há também outros grandes nomes da ciência no país, como Marcelo Labruna, Fernando Cunha e Carlos Barrios. Alô, Academia Sueca, chegou a nossa vez, não?

    Caso nenhuma dessas opções esteja à altura de tal distinção, tenho certeza de que temos ainda muitos candidatos ao Nobel de economia, visto que as livrarias estão empanturradas de publicações contendo infalíveis dicas para o leitor sair do salário mínimo diretamente para o bilhão em meses, às vezes em semanas, quiçá em horas. Dependendo, claro, de pormenores insignificantes. As cartas estão dadas, Academia Sueca.

    Por fim, com um Nobel poderemos deixar o ostracismo e nos tornar uma potência mundial. Num futuro não muito distante, lembraremos aos risos do tempo em que sustentávamos a síndrome de vira-lata. Abandonaremos, enfim, esse vice-campeonato moral para nos tornarmos golden retrievers, do alto da sua elegância despreocupada. No entanto, para isso, ainda nos falta um Nobel.

  • Poema #21: Eu Queria Fazer um Poema pra Você

    Numa ocasião em que eu estava
    (como das outras vezes) prestes
    a me naufragar no abismo do delírio,
    houve um sorriso de dentes postiços.

    Mas eu já não queria mais cair
    na cilada do amor fugaz e preferia
    estar quieto e fugir para longe do
    alcance de uma outra decepção.

    Então eu me internei num hospício
    e amarrei as minhas mãos ao pé
    de uma árvore frutífera de onde
    eu poderia escavar o chão de barro.

    Ao fim do terceiro dia de psicopatia
    veio a diretora dizer que eu deveria
    partir para um lugar que não sabia
    e me deram um endereço e o contato.

    Era um lugar acolhedor e distante
    coberto de grama e cerca de arame
    mas quando fui atravessar a ponte
    um cão vampiro me atacou de noite.

    Sobrevivi como alguém que se esqueceu
    da longa noite passada e caminha como
    se o dia estivesse amanhecendo de novo,
    apesar do rastro de sangue e a boca seca.

    Havia uma casa deserta e eu pensei em
    largar tudo o que eu não nunca tive e
    vir morar aqui no meio dos bichos que
    comunicam-se através de sinais e apitos.

    Lembro de uma escada pintada de verde
    e uma mulher bonita que veio me atender
    com as mãos estendidas e um sorriso
    encorajador para que eu dissesse tudo.

    Não havia o que contar além do fato
    de eu ter andado ausente e perdido
    e que, nesse período, eu havia criado
    enredos irreais para me manter vivo.

    Tudo era então uma simples questão
    de fechar os olhos para os pássaros e viver
    tranquilo como os homens banidos de si
    e que se refugiam no labirinto do amor.

    Ai que delícia que é poder acordar e dizer
    que estou vivo, mesmo não tendo nada
    ao redor a não ser o microfone em que
    digo isso e acompanhar o seu eco no abismo.

    O Jardim Simultâneo

  • Ela morreu

    Sentada à mesa de um restaurante, aguardando uma amiga para o almoço de celebração da nossa amizade, chegou aos meus ouvidos uma frase, com efeito de fogos de artifício, dita por uma voz feminina, provavelmente da mesa ao lado:

    — Eu confiava nela. 

    No momento que decodifiquei o som e o sentido se fez claro, fui tomada por uma tristeza absoluta e uma identificação imediata com a enganada da vez. 

    Sem que nos conhecêssemos ou tivéssemos intimidade, experimentei, por osmose, a dor causada pelo corte profundo da decepção. O sangrar hemorrágico de um fim que se impõe mesmo diante do perdão. Toda falsidade ou traição fere a eternidade do sentimento, a ingenuidade da confiança. Sem isso, ela é outra coisa. Perde o viço, a raridade, o estado nato de berço. Mas tem quem não se importe, quem acredite que uma vez ferida, ela, a confiança, feito lagartixa, se regenera. Quanto engano! 

    Seu ferimento tem dor profunda, pulsante e incurável. Sua cicatriz é feita de queloide. Impossível retornar ao conforto inicial de sentir-se em casa diante do outro. Esse é o maior luto. A certeza de que não se volta ao estado natural de ingenuidade. Impressionante que as pessoas não se deem conta do que perdem com o fim da fé em si. 

    Eu confiava nela. Que triste! 

  • Um escorrego de morfologia

    A frase abaixo foi retirada de uma matéria da IstoÉ sobre um medicamento contra a impotência:    

    “Por ser ingerido diariamente, não é preciso calcular quando ter relação (os outros remédios exigem um tempo para fazer efeito).”

    Li críticas de professores de português à flexão do verbo “ter” nessa passagem. Dizem que a forma correta é “tiver”, pois ele estaria empregado no futuro do subjuntivo. Um dos que defendem esse ponto de vista escreve: “Este (o futuro do subjuntivo) participa de orações iniciadas pela conjunção ‘se’ (condição hipotética futura) ou pela conjunção ‘quando’ (tempo hipotético futuro).”

    A explicação seria correta se o vocábulo “quando” naquele contexto fosse mesmo conjunção. Ou seja: se a oração iniciada por ele se classificasse como adverbial temporal. Não é isso que ocorre.

    Vejamos por quê. O autor da matéria se refere a um medicamento que, ao contrário de outros com o mesmo fim, pode ser usado todos os dias. Essa frequência traz uma vantagem ao usuário: não precisar calcular o momento adequado para ter relação. Tal vantagem não existe em drogas similares, que “exigem um tempo para fazer efeito” e, consequentemente, determinam que os usuários escolham a melhor ocasião de tomá-las.  

    Assim, a palavra “quando” naquela frase não é conjunção, mas advérbio. Introduz oração objetiva direta, na qual exerce função sintática. Considerar a oração indicada pelo “quando” como temporal deixaria sem complemento o verbo “calcular” e sem sentido a frase (calcular o quê?). De fato, o autor não quis dizer que se precisa calcular “alguma coisa” no momento de ter relação; esse momento (ou seja, o “quando”) é o próprio objeto do cálculo.

    Nesse tipo de construção a oração objetiva se diz justaposta, pois é introduzida por um termo que, ao contrário da conjunção, exerce função sintática. Além de “quando”, podem aparecer outros advérbios ou locução correspondente. Por exemplo:

    — “não é preciso calcular como ter relação” (modo)

    — “não é preciso calcular onde ter relação” (lugar)

    — “não é preciso calcular quanto ter relação” (intensidade)

    — “não é preciso calcular por que ter relação” (causa)

    O infinitivo, nesse caso, constitui o verbo principal de uma locução com auxiliar modal implícito (poder ou dever): “não é preciso calcular quando (se pode ou deve) ter relação”.

    Enganos como o acima referido mostram o perigo de classificar vocábulos ou orações sem atentar para o sentido da frase. Resultam de um hábito por vezes comum no aprendizado da língua, que é o de decorar classes de palavras. Quem faz isto parece esquecer que elas se definem de acordo com o contexto.

  • INTERTEXTUALIDADES

    .

    Um escritor nunca escreve sozinho…
    Antes, escreve com todas as vozes
    Que sussurram a todo instante
    histórias e versos
    Acertos e desacertos
    Melodias e ilhas
    Desconcertos…

    Sou Cecília…
    Oswald, Mário, Carlos… Andrades!
    Sou também Bandeira!

    Camões, Pessoa, Castro e muito mais.

    Sou Clarice…
    Veríssimo, Graciliano, Rosa,
    Sou também o cais.

    Jorge e Murilo e  muito mais.

    Sou o que sou: olha só os tais!
    Pouco, muito…
    E até coisas banais.

    E desfaço o ser quando entender…
    e é o que basta,
    mas

    não sou sozinho, sou inteiro,
    sou vários, por vezes inabitável,
    propenso e líquido

    e, ao mesmo tempo,
    uma cidade inteira
    contrassenso

    Sou Mia, Leminski, Milton
    Caetano!
    E não há engano!

    Sou Machado
    E o texto, ironicamente,
    É mais afiado.

    Sou Carlitos, o vagabundo,
    Sou parte itinerante

    Das lembranças do mundo!
    Sou e não sou a cada hora.
    E o relógio não tarda.

    Agora
    Sou todos os textos e canções
    Sou todas as rimas e emoções

    Um escritor nunca escreve sozinho…
    Antes, escreve com todas as vozes
    Que sussurram a todo instante
    histórias e versos
    Acertos e desacertos
    Melodias e ilhas
    Desconcertos…

  • Rebentada

    Caminha ereta, embora isso custe e doa. Os dois meninos, de cabeças enormes e pernas finas, acompanham como podem o ritmo da mãe. Parecem frangos doentes, ciscando inutilmente num terreno seco. Andam os três sobre uma terra rachada e poeirenta. O horizonte continua distante, tão distante quanto no dia em que iniciaram a jornada a pé. O sol permanece no alto, maltratando os olhos, a pele e a esperança.

    O menor dos meninos, vencido pelo cansaço, senta-se numa pedra e curva a espinha para a frente, até que seu peito quase toque o chão. Visto de longe, parece uma fruta que apodrece aos poucos, mas de perto é só um menino cansado, sujo e com fome. A mãe o ajuda a se levantar e o carrega nos braços, como se levasse um punhadinho de folhas secas caídas de uma árvore, embora naquelas bandas não haja árvore, só deserto.

    Levam já quatro dias andando e ainda faltam mais quatro para chegarem ao campo de refugiados. O outro menino, mais velho e mais esperto, sabe que não vai aguentar. Resolve interromper a caminhada e põe-se de cócoras, as mãos sobre a cabeça. Neste caso não há diferença se visto de perto ou de longe: é um menino que desistiu.

    A mãe põe o pequeno no chão e pensa. Avalia que será impossível avançar com os dois no colo, não terá forças. Levanta os olhos para o céu e chora sem lágrimas, rebentada por dentro. Sabe que vai morrer sob o punhal afiado da escolha, mas não hesita. Olha para um, depois para o outro e recomeça a caminhar, puxando só um deles pela mão.

  • Poema #18 – NA PENUMBRA

    .

    Na penumbra
    me faço grande
    como minha sombra na parede.

    Porém a parede
    não é intacta
    como a cerâmica do banheiro.

    Suas imperfeições
    remetem-me para além dela mesma
    e me vejo em cada detalhe
    mal sucedido de sua arquitetura.

    Na penumbra
    me faço gente
    como as presenças que me povoam.

    Porém o sonho
    não corresponde
    à realidade imaginada.

    Os monólogos com a sombra
    remetem-me para além de mim
    e me sinto em cada possibilidade
    de acender a lâmpada
    e não perder o mágico domínio.

    O Acaso das Manhãs

  • Por isso escrevo – parte II

    Estou revisitando meus contos, crônicas e estudos sobre escrita criativa. De vez em quando, tenho rompantes de “chefe”. Deve ser coisa do hábito — afinal, diz o ditado popular “o uso do cachimbo entorta a boca.” 

    Durante anos, fui supervisora na repartição onde trabalhei e, vez por outra, precisava revisar processos. O quê, como, quando, por quê, para quê.

    Agora estou aqui, na curiosa posição de algoz e vítima da minha antiga função.

    Revejo os cursos que fiz, as anotações, os exemplos, as descobertas. Tudo o que estudei, registrei e arquivei ao longo dos anos dedicados à escrita. Algumas descobertas me orgulham; outras, frustram — como em tudo na vida.

    De tudo tenho a certeza que é preciso coragem para deixar fluir minhas ideias e sentimentos, o caos da minha mente, ver o texto tomar forma e soltá-lo no mundo, para que encontre eco e sentido em meus leitores.

    Ainda assim, o saldo é positivo. Fiz muitos cursos, tive diversos mentores, explorei diferentes camadas da arte de escrever.

    Busco encontrar a essência da escrita criativa e nela me desenvolver.

    Sei onde posso pisar com segurança e onde prefiro não arriscar — como escrever romances, seguir roteiros rígidos, usar escaletas.

    Não, essa forma de escrita, não me atrai.

    Quero escrever. Gosto de contar histórias. Criar crônicas que dialoguem com o leitor, provoquem reflexões ou simplesmente narrem o cotidiano.

    Ainda não li o livro de Marcelo Rubens Paiva que inspirou o premiado Ainda Estou Aqui, mas imagino que seja uma história contada com alma. Uma literatura carregada de emoção, escrita por alguém que viveu aquele tempo e cenário, que sentiu na pele medos e dores. Diante disso, a última coisa que importaria seria a aplicação de teorias sobre escrita.

    É isso que quero dizer: quando um autor permite que sua alma fale, a técnica se torna secundária. O valor está na emoção, na verdade que extrapola a forma do texto.

    Isso significa que o estudo não importa? Claro que não! Mas, lá no fundo, gosto de acreditar que a história precede a escrita.

    E, pelo sim, pelo não, sigo estudando. Porque escrever faz parte de mim — de quem eu sou.

  • A coleira do cão e a coleira do homem

    Um homem de “maus bofes” passeia pela rua com seu cachorro de estimação que, apesar do jeito ranzinza do seu dono, vai caminhando ao lado dele alegre, saltitante, interessado, bem mais que o seu dono, nas alegrias do mundo.

    A alegria do cachorrinho é fascinante, parece totalmente livre e independente do péssimo humor do seu dono; homem que, ao contrário do cachorrinho, é quem parece estar numa coleira. Invisível, sim, mas uma coleira de qualquer forma.

    Bom, pessoalmente, gosto de um trecho das Escrituras Sagradas que diz que “Basta a cada dia o seu próprio mal”; o problema é que, preso por uma coleira invisível amarrada ao pescoço, o homem vai imerso nos seus pensamentos, apegado ao seu humor, sua má sorte; ao contrário do cachorrinho de estimação dele, que celebra dos primeiros raios de sol, cumprimenta os desconhecidos na rua com olhos sorridentes, pula, agita-se, late e, para desgosto do dono, puxa a coleira, arranca o dono de seus pensamentos automáticos, seu jeito robótico e aí o homem puxa violentamente a coleira do cachorro, puxa com raiva.

    Ora, a mesma cena vi em outros dias, outras praças quando, cúmplices da alegria do bicho de estimação, outros donos soltavam a coleira e deixavam o cachorro correr livre, olhavam de longe, deixavam o bichinho gastar energia, experimentar a alegria, o sol da manhã. Depois, chamavam o cachorro pelo nome, pegavam a coleira de volta, seguiam o rumo numa amizade tão bonita de se ver.

    Porém (ah, porém), este não é o caso do homem que vai agora na rua. O cachorro e seu dono, visivelmente incompatíveis, seguem o rumo deles até que, já distantes de mim e do amigo que voltava  comigo de um bloco de carnaval, somem das nossas vistas para sempre.

  • Por isso, escrevo

    Aprender sobre literatura faz parte do meu dia a dia.

    Aposentei-me após trinta e cinco anos como servidora pública. Trabalhei mais cinco anos nessa condição, até decidir que era hora de dar espaço ao novo. Mas que novo? Os jovens que me substituiriam no trabalho? A nova rotina, sem horários rígidos ou prazos? Ou, mais que tudo, o novo que sempre esteve em meu subconsciente?

    A vontade de escrever, de me dedicar à literatura, de compreender meus autores favoritos e sentir o gosto de transformar em palavras o que habita minha imaginação. Resolvi estudar. Aprendi muito, mas sei que ainda há um longo caminho a percorrer.

    Descobri a escrita criativa, o lirismo, o poder dos adjetivos bem escolhidos, a força das figuras de linguagem usadas no momento certo. Percebi que os acontecimentos não devem ser apenas narrados, mas transformados em literatura, com musicalidade, ritmo, beleza — e não simplesmente relatados como em um noticiário.

    Aprendi a selecionar adjetivos, a escolher substantivos, a encontrar poesia nas palavras.

    As narrativas devem fazer sorrir, refletir, provocar, revelar o mundo além do que se vê e se ouve. A riqueza da língua portuguesa deve encantar tanto a mim quanto ao meu leitor.

    A vida dança entre amores, desamores, honra, destino, vingança, ordem ou caos — inquietação e paz.
    Desses dilemas busco a matéria-prima da minha escrita, onde escolho as cores e sabores que coloco nas histórias que povoam a minha mente.

    Por isso, escrevo.

  • Considerações de véspera sobre a véspera

    Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro.

    Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai.

    Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que desejamos. Ou não desejamos mas é inevitável que venha até nós.

    Dizem por aí que a arte reside em controlar a ansiedade da véspera. Papo. Eu já tentei inúmeras vezes em mais de cinquenta anos de existência. Nesse tempo todo jamais – ou quase jamais – tive sucesso. Perco o sono que é uma beleza.

    Achei seis dicas para domar a ansiedade, reunidas pela BBC, British Broadcasting Corporation, fundada em 1922. As dicas da centenária BBC são:

    Monitore os seus pensamentos.

    Faça atividades físicas e pratique meditação.

    Encontre um propósito – nem que seja cuidar de seu animal de estimação.

    Veja o lado bom da vida (por mais que isso seja desafiador)

    Viva no presente.

    Busque terapia – na sexta posição e, a meu ver, como último recurso se os demais falharem. Ainda não cheguei aqui mas é bom ter a lista à mão. Se bem que umas linhas acima eu admito que perco o sono por ansiedade. É, acho que já é o caso de terapia. Mas vejo isso depois de malhar na academia.

    Voltando.

    Há sucessos que só duram até a véspera, como o reinado daquele rei destronado em batalha no dia seguinte. Ricardo III que teve insônia – olha mais um!!! – na noite anterior ao combate e foi assombrado por fantasmas daqueles que morreram por sua culpa. Ao menos é o que está na peça de Shakespeare que já se sabe é historicamente imprecisa. Um detalhe que não ofusca sua beleza dramática.

    Seguindo.

    Véspera da decisão daquele jogo em que o craque de um time foi para a farra e o outro foi atender ao chamado de um menino que acordou na emergência infantil do hospital chamando pelo seu ídolo. Foi na zona sul do Rio de Janeiro, no século passado, o craque prometeu ao garoto o título. E no dia seguinte, com gol de barriga cumpriu a promessa.

    No século XVII o pintor, arquiteto e artesão espanhol Alonso Cano fez uma obra em madeira intitulada “Véspera” que está na catedral de Granada, Espanha.

    O bem humorado Adoniran Barbosa tem um samba chamado “Véspera de Natal”. Termina em comédia pastelão com direito a ação do corpo de bombeiros

    “Véspera” é o nome do terceiro livro da escritora mineira Carla Madeira. Não li mas espiei uma resenha e acho que deve ser uma obra bem interessante. Vou em busca.

    Todo esse papo aleatório porque hoje, sexta-feira, 23 de setembro, é véspera. Mais uma de muitas, dirão.

    Mas para mim, a mais importante das vésperas. Quando o sábado chegar será festa. Contemplarei o momento e o viverei na boa companhia das estrelas da minha vida. Andaremos pelo mundo, plenos de alegria e em busca de diversão tendo aos ouvidos “Ode à alegria”, de Beethoven. Ao cair da noite, estaremos juntos, cansados e felizes.

    Agora, na véspera, tentarei inutilmente ao longo do dia domar a ansiedade. E a noite, só me restará achar o sono.

  • Vida e tempo

    Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da brevidade da vida levava-as a intensificar seu trabalho. Era como se, intuitivamente, soubessem que não tinham tempo a perder. Ameaçadas por um número maior de doenças sem cura, não podiam se dar ao luxo de adiar projetos e sonhos. Nossos poetas românticos, por exemplo, deixavam este mundo na flor da idade, ceifados pela sífilis ou pela tuberculose, mas as suas obras pareciam consumadas. Eram o melhor que eles poderiam fazer.  

    Hoje é diferente. Graças aos avanços da medicina e da farmacologia, nossa média de vida aumentou. Não podemos nos queixar de falta de tempo. Quem antes tinha quarenta ou cinquenta anos se considerava um velho. Hoje o indivíduo com sessenta sente-se disposto a recomeçar a vida. Supõe que ainda terá muito caminho pela frente.

    Antigamente o desafio era viver mais. Hoje, é viver melhor. Fala-se muito em qualidade e não em quantidade de vida. Uma vida longa, mas deficiente, não parece valer a pena. Isso nos remete à velha questão: o ideal é viver pouco, mas com intensidade, ou viver muito porém de forma rotineira e insípida?

    Muitos alegam que viver da primeira forma é melhor, mas o que desejam mesmo é permanecer vivos (mesmo que isso implique enfrentar os contratempos da velhice). Há um consenso segundo o qual quem vive muito triunfa sobre os que morrem mais cedo. A longevidade aparece como um troféu que confere ao indivíduo admiração e prestígio, e só os incompetentes e desleixados se deixam colher precocemente pela morte.

    Para ganhar esse troféu é preciso se submeter a um tipo de corrida diferente, no qual ganha quem chega por último. Diante disso, é melhor não se apressar. Certamente a melhor fórmula para obter esse prêmio é viver com moderação, evitando o estresse e outros males que nos impulsionam a uma existência trepidante. São grandes os malefícios que essa trepidação traz ao nosso organismo.  

    Viver devagar, no entanto, é um enorme desafio num mundo em que se exalta a excelência e o acúmulo de realizações. Como botar um freio na rotina se somos permanentemente convocados à competição e, em vista disso, a nossa agenda está sempre cheia? Quem tenta frear o ritmo não raro se sente excluído. Ao buscar se desprender das amarras que o vinculam à engrenagem do dia a dia, é tomado pelo tédio e a insatisfação. Conheço gente que, embora se queixe do excesso de trabalho, não suporta os domingos e feriados. Acha que neles falta alguma coisa.   

    O fato é que, mesmo com as cobranças do mundo moderno, hoje vivemos mais. Isso não significa que vivamos melhor nem que o maior tempo de que dispomos nos leve a realizações significativas. Todos temos momentos em que as coisas de fato acontecem, e outros em que nos limitamos a “tocar” biologicamente a vida. Ninguém garante que, se vivesse mais de 24 anos, Castro Alves teria feito poemas superiores aos que fez. Viver mais também não deixa de ser um problema; implica um desafio maior para a conquista e a manutenção da felicidade.

  • Poema #16 – Convidados

    Da janela da casa onde moro
    aguardo a chegada de alguns
    amigos para a festa de
    aniversário.

    Nada se move, exceto a minha
    sombra na varanda, vazada de
    angústia, silêncio e noite.

    Fecho as janelas da casa
    onde moro e ainda dou
    uma última olhada através
    das frestas da veneziana.

    Nada se move, exceto a noite
    com a sua noção de simultaneidade
    do tempo, das pessoas e das coisas.

    Nada se move, exceto o silêncio
    que domina o ambiente e repousa
    na visão do telefone emudecido
    e inútil sobre o criado-mudo.

    Fecho a porta do meu quarto
    e a casa onde moro fica escura,
    imersa na solidão dos cômodos.

    Inventário de Sombras

  • Quando o tempo para: instantes de giz e asas

    “O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”.

    Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada humanidade. Aparentemente simples, a lição de hoje reprovou quase a totalidade dos alunos. O simples, nem sempre, é facil. O simples, muitas vezes, é um compacto complexo. Que equaçãozinha filo-matemática desafiadora!

    Sentada na primeira fila, Olivia presta atenção não só ao que está escrito no quadro, mas aos gestos da professora, ao tom da sua voz, séria, embora doce. Sempre voltada para o quadro, difícil dar de caras com ela. Voz, o barulho do giz na lousa, pausas, uma figura que se mexe delicadamente ao passo que injeta questões instigantes, ameaçadoras, apaixonantes e que desfazem o mundo tal qual pensamos que o conhecemos. Odor de lancheira do maternal, sabor da promoção de toda quarta-feira do salgado de queijo, tomate e orégano com batida de morango ao leite da cantina da faculdade. Nesta sala de aula não se sente nem frio, nem calor. Um mistério saboroso, sob o movimentar-se de uma discreta silhueta de longos cabelos brilhantes aprisionados lindamente por uma fita de cetim azul. O vulto veste uma peça única de corte reto, bem cintado, tom sóbrio que, ao ritmo dos passos encurtados e decididos, sem se voltar para os estudantes, prenuncia enigmas que jamais se deixarão decifrar.

    ***

    Vernon senta-se no mesmo lugar, todas as manhãs. Entre outros seres de luz, perfaz a rotina dos eternos sem pressa, deixa-se entreter com o canto dos pássaros e as migalhas deixadas pelo vento, na estrada de pedras lisas, de tom marrom, ao lado do rio cintilante que aponta a direção de sua casa, nada distante.

    Alta, trajando um vestido reto e bem cintado, a professora está atrás de uma lousa transparente. Escreve números, letras e símbolos com um giz branco. Todos estão capturados pela luz de seu rosto, lições simples e delicadas que são entendidas de primeira. Ninguém repara em nada além do rosto angelical da professora Vida, cujo cabelo está todo preso por uma fita cetim azul, e do giz que não pára quieto.

    Hoje, entretanto Vernon se sente diferente. Fixa o olhar em uma borboleta verde que pousou sobre a lousa translúcida. Aos poucos, a claridade rareia, as asas do pequeno inseto o hipnotizam e Vernon enxerga Olívia. O tempo para, o espaço físico se diluí. Olivia está crescida e sorridente, a melhor da turma, como sempre. Seu olhar compenetrado não mudou nada. A pele mais clara de quem perdeu o tempo do lazer e do sol de verão, o sol que sempre amou a queimar-lhe a pele e acender as sardas, por todo o corpo… algumas linhas de expressão mais duras se fazem perceber, perto dos olhos. Está mais magra e mais abatida, também. Mas ainda é bela e vívida..É ela, sua Olívia! Quanto tempo! O coração bate em seu peito como há muito não sentia. Vernon então compreende a dor que desde sua morte não sentira: a ausência dos entes queridos, das memórias, dos dias de aprendizado – e erro -, do amor que ainda corre em suas veias, tão incorpóreas, na forma de mulher humana com quem não teve tempo de se casar. A cena entre planos é orquestrada pela professora, a borboleta que bate as asas em um compasso sonolento. Olívia mexe o nariz do jeito de sempre. Vernon sorri. A borboleta invade a lousa transparente, fura o entre mundos, e sobrevoa a cabeça de Olívia. Pousa em seu nariz.

    Por um breve segundo, apenas um segundo, os olhos de Vernon encontram os de Olívia.

    “Vernon, quanta saudade!”, pensa a jovem estudante.

    A borboleta, então, levanta voo e irrompe pelas janelas do cômodo – o bater das asas sublinhando todo o silêncio do instante interminável -, sumindo em direção a um horizonte qualquer.

  • Precisamos falar sobre Elon

    “Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto os outros macacos morressem de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que diabos estaria acontecendo com ele. Quando os humanos fazem isso, nós os colocamos na capa da Forbes” (Prof. Emir Sader)

    Li recentemente que se os 3000 sujeitos mais ricos do planeta, num ato coordenado de filantropia, resolvessem doar 5% de sua fortuna, a dinheirama gerada seria suficiente para extirpar a fome do planeta. Esse distinto grupo, uma turminha que poderia ser acomodada confortavelmente no interior de um desses navios de cruzeiro, teria capacidade de resolver num passe de mágica o trágico problema que há séculos assombra a humanidade. Estamos nos referindo a apenas 3 mil felizardos, uma gotinha de 0,0000375% em meio ao oceano humano de quase 8 bilhões de criaturas que com eles partilham o mesmo planeta.

    Elon Musk está no topo desse seleto clube. O presidente-executivo da Tesla e dono do Twitter (atual X) tem um patrimônio de quase 300 bilhões de dólares, ou seja, 1,5 trilhão de reais. Convertido em papel moeda, resultaria em quase cinco vezes todo o dinheiro em circulação no Brasil! Equivalente a 15 bilhões de notas de 100 reais que, alinhadas, formariam uma fila de tamanho igual ao triplo da distância até a Lua, ida e volta! Essa grana toda que faria o tio Patinhas resignar-se à constatação de que não passa de um pato chucro, está nas mãos de um único indivíduo.

    Pois é, se esse sujeito sozinho resolvesse, numa ação iluminada de generosidade, abrir mão de meros 2% de sua fortuna, algo que obviamente não lhe passa pela cabeça, poderia impedir a morte de 40 milhões de pessoas que se encontram em situação de penúria extrema. Mitigar a fome de africanos pretos pobres e desmilinguidos definitivamente não faz parte dos planos do nobre empresário trumpista, empenhado que está em destinar seus preciosos bilhõezinhos a iniciativas de maior relevância para a raça humana como projetar naves espaciais para levar outros endinheirados para passear em Marte já que a démodé Terra, lugar de plebeu, já era.

    Mas, sejamos justos, nem todos os super-ricos são tão zelosos com a integralidade de seus estimados bilhões. Ao contrário do que se possa imaginar, alguns desses seres celestiais têm consciência de que a fortuna que amealharam ao longo da vida veio acompanhada da obrigação moral para com a sociedade que os possibilitou chegar a essa privilegiada condição financeira. Afinal, as estatísticas revelam que os principais expoentes dessa nata assistiram sua fortuna se multiplicar na última década, enquanto nós outros, pobres mortais, que já estávamos na pindaíba, afundamo-nos ainda mais em nossa indigência.

    Uma pesquisa recente revela que 3 em cada 4 super-ricos não se oporia à criação de impostos incidindo sobre suas posses. Um grupo de 200 magnatas (entre eles um brasileiro) lançou há pouco um manifesto reivindicando (acredite) pagar mais impostos.

    “Nosso pedido é simples. Nós, os muito ricos queremos ser taxados por vocês. Isso não vai alterar fundamentalmente o nosso padrão de vida, tampouco prejudicar nossas crianças ou afetar as economias de nossas nações. Transformará a riqueza extrema e improdutiva em investimento em nosso futuro democrático comum. (…) Quando vocês vão taxar a riqueza extrema? Se os representantes eleitos nas principais economias do mundo não adotarem medidas para lidar com o aumento dramático da desigualdade econômica, as consequências serão catastróficas para a sociedade”, diz o documento direcionado à elite econômica e política reunida no Fórum de Davos.

    É de se estranhar que nossa civilização tão diligente em alardear as conquistas no campo da ciência e tecnologia que pretensamente nos possibilitaram melhor qualidade de vida não seja capaz de equacionar esse simples probleminha matemático de distribuição de renda que traria maior paz e equilíbrio social, minorando o sofrimento de bilhões de seres humanos. É pródiga em criar novas tecnologias, mas inapta em permitir que todos tenham acesso a elas.

    No Brasil, a situação é particularmente alarmante. Estima-se que o 1% mais rico concentre nada menos do que 2/3 da riqueza nacional, enquanto os 50% da base da pirâmide detêm apenas 2% da riqueza.  Esse fosso gigantesco é absolutamente ultrajante.

    Ainda que tendo apoio da maioria da população (85% segundo pesquisas), a taxação de grandes fortunas, por incrível que pareça, encontra resistência na sociedade. Boa parte dos deputados de direita que tomaram conta do Parlamento votou contra projeto do atual governo de taxar bilionários (‘virou crime ser rico no Brasil’ disse o ex-presidente Bolsonaro, antevendo problemas com o fisco quando chegar a essa condição). 

    Para tanto, contou com o apoio dos evangélicos, adeptos da ‘teologia da prosperidade’, segundo a qual, os abastados são merecedores da bênção material que lhes foi oferecida por seu Deus empresário. Recusam-se a colaborar com um tostão que seja para um necessitado (‘fracassado’), mas doam de bom grado um décimo de seu parco salário para o nababo pastor, que foge da caridade (e dos impostos) como o diabo foge da cruz.

    Mas não são só esses que se opõem à ideia de taxar super-ricos. Diversos economistas neoliberais para quem ‘imposto’ é palavrão, também se posicionam contra.  Alegam que de nada adianta taxar os bilionários pois eles desviariam suas fortunas para outros países, em especial os paraísos fiscais, além de serem mestres em dar um chapéu na Receita, corrompendo fiscais e sonegando tributos. Ou seja, já que a sociedade não consegue enquadrar os larápios, deve-se curvar a eles. E fica tudo como está.

    Assim como os advogados, os economistas são especialistas em criar dificuldades para implementar mudanças de caráter social. Submetendo-se à frieza dos números, cortam nossos sonhos de ter um mundo melhor. Ao invés de conceber uma sociedade composta por humanos empenhados em viver em harmonia entre si, enxergam um ambiente mercantilizado, onde agentes se digladiam, cada qual querendo otimizar sua posição, com base em seus interesses particulares, visando maximizar seus ganhos materiais. Nesse campo de batalha, chamado mercado, os super-ricos desempenham o papel fundamental de investidores, os motores do capitalismo. Em direção ao apocalipse socioambiental.

    O que não enxergam é que esse é um tema que transcende a esfera econômica. Não é também uma questão ideológica, coisa de comunista. Exigir maior equidade e evitar essas aberrações na distribuição dos recursos é uma necessidade ética, de justiça social.

    O que a humanidade produz é mais do que suficiente para suprir a necessidade de todos os indivíduos, mas apenas uma minoria cada vez mais afunilada colhe os frutos e ainda se dá ao luxo de esbanjar as sobras em futilidades, em detrimento de legiões de famintos que perambulam pelos continentes à procura de um lugar onde consigam sobreviver com as migalhas. Taxar os super-ricos é um imperativo para que possamos superar esse dilema e nos tornar uma civilização superior. Pelo menos, no mesmo nível da dos macacos.

  • Terrores infantis

    Penso que as mais intensas lembranças da infância são marcadas pelo que dá medo. Existem as de aniversário, viagens, reuniões em família, e todas constituem um repertório gratificante que nos faz ter saudades do tempo em que éramos guris. Mas elas não se imprimem na memória com a força dos eventos que nos deixavam o coração em sobressalto.  

    Grande parte deles está ligada aos “fantasmas” da noite e aos tipos conhecidos como “doidos”. Qual a criança que não chegou a tremer sob os lençóis com medo da visão de algum ente sobrenatural? Podia ser a imagem de alguém que morreu ou de uma dessas personagens que povoam as histórias contadas em filmes, gibis ou por pessoas próximas.

    Eu ouvia das empregadas histórias de crianças perseguidas por entidades monstruosas que vinham puni-las em razão de algum malfeito. Essa espécie de pedagogia do horror maltratava como um castigo, e de noite eu me encolhia sob as cobertas com medo de encarar a escuridão. Sentia os pingos de suor escorrerem pela barriga, mas não me atrevia a remover o lençol e ficar exposto às tenebrosas visões. Podia ser a de um vampiro, uma mula decapitada ou uma tal de La Condessa, que saía de noite do túmulo para perseguir crianças desobedientes.  

    Já os “doidos” eram fantasmas concretos, que povoavam as ruas e não precisavam do escuro para nos assustar. Geralmente se tratava de pessoas feias e malvestidas, que associavam a bizarrice da figura a um considerável acervo pornográfico. Os nomes feios, diga-se a bem da justiça, vinham como resposta às provocações que faziam a elas.  

    Tenho vivas as lembranças de alguns desses tipos. Um deles era Leôncio, que costumava ficar sob uma marquise numa das ruas mais famosas da cidade. Ele pedia dinheiro aos passantes e descompunha sem cerimônia os que negavam. “Filho da p…” era das expressões mais leves. Como já o conheciam, ninguém o denunciava. Sua agressividade ficava mesmo no plano das palavras, pois nunca se soube que tivesse feito mal a ninguém.

    Certa vez eu passava pela rua com a minha mãe e o vi dirigir-se a nós. Risonho, desdentado, estendeu a mão me pedindo “um troco” (era assim que ele falava). Na inocência dos meus oito anos, larguei a mão que me segurava e desandei a correr. Depois dessa experiência, evitei de uma vez por todas passar por aquela rua.

    Mas a pior experiência foi com “Baleia”, como era conhecida uma mulher que costumava no fim da tarde passar pela rua onde morávamos. Nada provocava mais a sua ira do que a menção ao cetáceo com que inventaram de apelida-la. Justamente por isso os meninos insistiam na cruel designação, o que a fazia correr atrás deles enquanto aguentasse. Nunca pegou nenhum, e duvido que quisesse mesmo fazer isso.

    Certa vez, ao voltar de uma padaria perto de casa, percebi com o coração aos pulos que ela vinha na minha direção e que iríamos cruzar um com o outro. Mudei de calçada e ela fez o mesmo, atribuindo o meu gesto a uma tentativa de fugir por tê-la em algum momento provocado. Enquanto se aproximava, vociferou com uma voz rouquenha e arquejante: 

     – Diga “Baleia” agora! Diga, se tiver coragem! 

    Corri em pânico para casa e lá cheguei “branco”, conforme disse  minha mãe. Deram-me um copo d´água e buscaram me acalmar enquanto eu tentava explicar o que tinha acontecido.

    Houve outros além de “Baleia” e Leôncio, mas esses dois foram os que mais me impressionaram. Hoje vejo que não eram tão maus assim. A explicitude de suas figuras fazia com que nós de antemão os identificássemos e nos preveníssemos. Ao longo da vida eu me depararia com outros mais perigosos, que sob o disfarce da normalidade nos surpreendem neste mundo hostil e nervoso em que estamos confinados.  

  • Dois homens bons e generosos

    João Alfredo colhe a cada final de semana as verduras e legumes que semeia. Sua horta é cuidada com esmero, o solo é fértil e o produto de seu trabalho é considerado o melhor do povoado. A barraca que tem na feira é concorrida, todos apreciam sua colheita. Como não tem mulher nem filhos, ele costuma distribuir entre os vizinhos e amigos os vegetais que não vendeu. Todos diziam dele:

    — João Alfredo é um homem bom e generoso e as verduras e legumes que saem de sua horta têm muito boa qualidade.

    Assim, quando vai à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeia pelas ruas do povoado ou quando decide descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, João Alfredo é sempre saudado com simpatia por quem o encontra:

    — João, suas verduras e legumes são deliciosos. Sempre frescos e tenros. A cada semana se tornam melhores.

    ***

    Eu também planto e colho verduras e legumes na horta que tenho no quintal de minha casa, mas o meu solo não é tão fértil quanto o de João Alfredo, e por isso a colheita não é tão viçosa. Mesmo assim, é boa para consumo. Na feira, pouca gente frequenta a minha barraca. Também não tenho mulher ou filhos, de maneira que me sinto bem distribuindo entre meus vizinhos e amigos os produtos que sobram. Por causa disso sempre me considerei um homem bom e generoso. Mas quando vou à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeio pelas ruas do povoado ou quando decido descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, as pessoas não se mostram simpáticas:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são uma porcaria. Ninguém em casa gosta delas. Acho que nem os porcos gostam.

    Sempre que ouço reações assim fico com um nó na garganta. Mordo meu lábio para disfarçar o desgosto e a vontade de chorar.

    ***

    O tempo passou e todos ficamos mais velhos, inclusive João Alfredo e eu. As verduras e os legumes dele continuaram sendo um sucesso entre as gentes do povoado. As minhas, como sempre, um fracasso. Então, um dia, quando João Alfredo lavrava seu solo fértil e distribuía as sementes e mudas de verduras nos buracos que fazia na terra, eu me aproximei dele por trás e abri sua cabeça com a ponta de uma pedra. João Alfredo caiu e nunca mais se levantou. Com as provas coletadas pela Polícia Civil, um juiz e dois peritos forenses concluíram que João Alfredo tinha tropeçado e batido a cabeça numa pedra. Pobre João Alfredo, estava tão velhinho!

    ***

    Neste fim de semana colhi as verduras e os legumes de minha horta, vendi uma parte na feira e a outra parte distribuí entre os vizinhos e amigos. Depois fui comprar pão para o café da tarde, passeei um pouco pelas ruas e resolvi tomar um copo de vinho no Bar do Massa. Algumas pessoas se aproximaram:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são horríveis, intragáveis. Que saudade do João Alfredo, Deus o tenha!

    ***

    Na semana seguinte joguei veneno para ratos nas verduras e nos legumes que vendi na feira e nas que distribuí entre os vizinhos e amigos. Em poucos dias, grande parte da população morreu. A Polícia Civil investigou e, diante das provas coletadas, um juiz e dois peritos forenses me acusaram de assassinato. Fui condenado a trinta anos e levado à prisão, onde passaria os anos que me restavam de vida. Pensei que não fosse suportar, que morreria de tristeza, mas estava enganado.

    ***

    Estava muito enganado. O diretor do presídio me concedeu um pedacinho de terra ao lado do pátio, para que eu fizesse uma horta e plantasse e colhesse verduras e legumes, atividade que eu sabia executar com esmero. A vida na prisão não tem sido ruim: alimento-me bem, durmo com tranquilidade e ainda cuido da minha horta. Como não tenho a feira para vender nem vizinhos e amigos a quem distribuir meus produtos, compartilho tudo com meus colegas de penitenciária e com os carcereiros.

    Aqui me consideram um preso bom e generoso. Assim, quando passeio pelo pátio, quando descanso num banco para ver cair a tarde ou quando fumo calmamente um cigarro depois do almoço, os companheiros se aproximam:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e legumes são uma verdadeira delícia. Estão melhores a cada semana.

    É quando fecho os olhos e sorrio para mim mesmo, satisfeito e certo de ser um homem bom e generoso.

  • Poema #15 – EUTANÁSIA

    .

    Sob uma chuva de outubro
    o germe penetrou
    no solo árido de mim,
    onde as emoções se resguardavam.

    Mas o sol e o raciocínio
    dos meses subsequentes
    atrofiaram o germe ávido
    que havia trazido o amor.

    E foram tantos os desencontros
    do clima naquele ano
    que a meteorologia afetiva
    justifica-se culpando a ambos.

    Agora, numa sala de espera
    contígua à do esquecimento,
    resta-nos como única saída
    a eutanásia cúmplice
    do que restou do sonho.

    O Acaso das Manhãs

  • A moda passa, o sacrifício é eterno

    Há poucas décadas era moda fazer plástica no nariz. Um modelo pequeno e parecido com o adotado pelo Michael Jackson ficou popular. Já não se usa mais.

    Agora sobrancelhas grossas estão na moda. Como assim? Adotar sobrancelhas finas, como na época dos filmes mudos, é fácil, mas conseguir pelos onde não há folículos é impossível. No entanto, já estão oferecendo transplantes de sobrancelhas. Caríssimos. Não importa: sempre existe gente interessada em pagar alto para se ajustar ao estilo da vez, mesmo que os objetivos sejam despropositados e os resultados desastrosos.

    A gordura, execrada atualmente, já foi desejada em outras épocas e está ensaiando uma volta. As pessoas fazem dietas loucas tentando enquadrar-se em padrões inatingíveis para o seu biotipo e acabam arruinando a saúde. Até fumar voltou a ficar na moda!

    No início do século, quando as mulheres descobriram o botox, muitas abusaram a ponto de ficarem todas parecidas. Quase tive que etiquetar algumas das minhas conhecidas.

    Tudo bem, Sílvia?

    Sou a Renata.

    Ah, agora que você falou, estou reconhecendo a voz.

    Antes do botox era o silicone. Ambos se aperfeiçoaram, mas veio a harmonização facial. Não são poucos os casos em que o tiro sai pela culatra e a pessoa fica medonha. De vez em quando procedimentos realizados por gente inescrupulosa e sem qualificação fazem uma vítima fatal.

    Tatuagens eram coisa de marinheiro, hoje é difícil achar quem não as ostente. São doloridas, mas quem se importa? Se me contassem há trinta anos que isso aconteceria eu duvidaria. Pois aconteceu. Incrível como as pessoas se submetem a sacrifícios para seguir a moda.

    Não sei se sempre foi assim, mas uma coisa que está na moda há bastante tempo é ser jovem. Ou, no mínimo, parecer jovem. Conheci homens que pintavam o cabelo e mentiam a idade, e mulheres com testas de quinze centímetros que afirmavam nunca ter feito plástica.

    O mito da fonte da juventude vem sendo perseguido pela humanidade sem sucesso e a indústria cosmética tem explorado o assunto com direito a lances inimagináveis. Ganhei uma amostra grátis de um produto carésimo que prometia mundos e fundos sobre rejuvenescimento. Procurando informações mais detalhadas na internet, encontrei um blog em que a autora afirmava ter usado e aprovado o tal artigo, que teria sido muito eficiente na redução do seu bigode chinês. Perfeito, não fosse o detalhe do vídeo ser protagonizado por uma menina de vinte e um anos e, pior, tratando o assunto a sério!! Com que idade será que ela começou a achar que precisava rejuvenescer?

    A moda do vestuário não faz tanto estrago, mas também apronta. Não adianta avisar que saltos de vinte centímetros são um convite a problemas de coluna e a pés torcidos, nem que todo mundo fica bem com isto ou aquilo. Meninas se vestem como viúvas negras, idosos sem-noção se comportam como adolescentes. Sei de uma pessoa cujo apelido é Avó da Barbie, precisa dizer mais? Colocar a estética acima do bom senso é dar um tiro no pé.

  • Caçadores de eclipses

    Chuvas atrapalham planejamentos. Na realidade, chuvas atrapalham expectativas, e estas, nos frustram.

    [Aqui, chuvas podem se tratar de chuvas. Ou não. Use-a como metáfora, os textos pertencem a quem os lê, no momento da leitura].

    Hoje em dia é simples assistir eventos astronômicos com uma meteorologia ruim; eu, por exemplo, inspirada pela minha irmã, de vez em sempre, me surpreendo a mim mesma com o celular em punho, de noite, da varanda, de uma das janelas, da rua, apontando essa prótese humana para o céu, que pode estar límpido ou encoberto, não importa: lá estou eu girando no meu próprio eixo, tal qual uma lunática. Eis o app Stellarium, e a minha curiosidade pelo posicionamento de estrelas, outros astros e da Lua.

    Na madrugada da quinta para a sexta-feira última, fiz planos para ver a Lua de Sangue. Já com minhas vivências, velas e banhos engatilhados para a sexta-feira à noite, me empolguei com a magnífica poasibilidade de assistir a um momento envergonhado, enraivecido ou enamorado do nosso satélite natural, que teria o ápice de seu fenômeno às 3h26 da madrugada. Eu e muitos conhecidos e desconhecidos, aqui do lado ocidental e acidentalmente noturno da Terra, preparávamos nosso inconsciente para a madrugada em claro — que logo, tornaria-se escura, pela nossa própria sombra sobre a Lua. Mas, em Nova Friburgo, uma chuva torrencial, começou quando nem noite ainda era, minando o planejamento. Planejamento, uma pinoia!, diria minha avó; a tal da expectativa. A Lua vai passar pelo seu processo de eclipse, faça chuva ou passem nuvens. Estamos em março, as águas são certas e fecham o verão. Quem quer, que abrace a chuva e se molhe! Olhe para o céu, tome um banho de Lua. As energias podem até ser potencializadas. Há os que se preparem com telescópios ou cameras semi-profissionais com zoom 42x. Há ainda os que não se animem a sair de seus lençóis e pijamas, e liguem smart TVs, celulares, projetores, computadores ou outros — à exceção do Chrome Cast, que rapidamente instaurou o caos e um burburinho cibernético, com resets da configuracao padrão aqui e acolá, mudança de humores, por sair do ar, assim, sem explicações,dias afora…. em tempos de ansiedade impregnada nas veias, nada pior do que perder uma conexão que se espera onipresente e a nosso bel prazer — de novo, posso não estar me referindo à gadjets ou bandas largas, entenda como bem lhe convir. Por último, há os canais ao vivo no YouTube, com comentários que mais me mortificariam se eu não os acompanhasse no percurso da caça ao eclipse, sobre quatro rodas, suprimentos de café e tapiocas feitos às pressas, um spitz alemão com o focinho voltado para o céu, no meu colo, e um motorista que quase sucumbiu à frustração – e ao sono. Pouco antes das 2h, a chuva parou. Vibra a ligação via WhatsApp no pulso:

    — Alô…
    — Vambora? Anima, se não só em 2039!

    Enquanto todas as opções acima ocorressem por todas as Américas, dois adultos e um cachorro se embasbacavam com a Lua alaranjada que ora estava do lado do motorista, curvas depois do lado do carona. Nuvens e vegetações faziam necessária a presença do Stellarium.

    — Tá ali!

    Sobre a coxa do motorista, a tela do celular mostrava a Lua imensa, suas crateras, e exclamações que faziam a caçada ser mais interessante:

    — Está incrível, pessoal! Noooossa, olhem isso, está incrível! Já já essa nuvem passa, pessoal, por enquanto, façam um PIX de R$5,00 e mandem uma mensagem que respondemos aqui ao vivo.

    Seguimos o rastro da Lua, em busca de um descampado distante das luzes da cidade, quieto e seguro que nos permitisse parar, observar o fenômeno e fazer um lanchinho. Um bairro à esquerda, deixa fluir, lá vamos nós, 5G perdendo força, o 4G o qualquer G. Stellarium no more. Adeus YouTube.

    — Melhor voltar.
    — Vamos perder o ápice se voltarmos.

    De repente, uma pracinha digna de cidade de interior, um campo de futebol desses tomados pelas gramas selvagens, um ponto de ônibus, as casas que dormem. Paramos.

    A Lua.

    Para quem nunca presenciou com os próprios olhos, é difícil descrever; tem sabor de perfume de lavanda, sob o formato de brigadeiro; tem cheiro de um perfume marcante misturado ao odor de um café na madrugada, fumegante para que os olhos se abram. É de um vermelho revigorante. Parece final de copa do mundo, a experiência de se estar a ponto de gritar bem alto “É goooooooool!”. Mas não podemos, todos dormem — só os galos cantaram, cachorros-lobos uivaram e o meu spitz tenta inspirar de uma só tragada o pequeno piso concretado com suas narinas pequeninas. 3h26, o ápice. O mundo pára, por um instante.

    Ainda bem que, apesar de tudo, somos bons em desenvolver tecnologias. E ainda bem que sempre há lunáticos dispostos a vencer o sono, outros que se empenham em manter o planejamento e cachorros que nos fazem superar todas as (im)prováveis frustrações.

  • Dia Internacional das Mulheres

    Caras amigas, manas, iguais…

    Temos um dia.

    Sim, um dia dedicado a nós. Num mundo dominado pelos homens, isso não é pouco!

    Pouco é o quão precária ainda é nossa rede de apoio. Pouco são os que nos valorizam para ocupar lugares de liderança, chefia, comando. Pouco são os que reconhecem que homens e mulheres merecem o mesmo espaço de fala, de presença, de decisão na vida.

    No entanto, eu me aproprio da homenagem e da data: 8 de março.

    Não faço fila com quem acha que nada temos a festejar. Celebro com as mulheres da minha família, da minha vida acadêmica, do meu trabalho e com todas aquelas com quem divido esta grandiosidade que é a vida.

    Acredito que aprendemos a viver, sobreviver e sobressair neste mundo ainda tão machista.

    Nós, mulheres, temos a sabedoria de aquietar a mente, cultivar o silêncio, exercer o amor próprio.

    Uma pequena pausa — minutos, dias, anos, não importa… Logo renascemos,

    prontas para acreditar, nos reinventar, empreender.

    E para comemorar nosso dia, nada como esta frase de Clarice Lispector:

    “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

  • DIGNÍSSIMO CANALHA

    Pelo presente instrumento, venho dirigir-me a vossa excelência. Com minúsculas e na segunda pessoa, pessoa de segunda que és, mauricinho de nariz empertigado. Tu, que te ocultas, sorrateiro, por trás dessa impecável e pretíssima toga escrota. Tu que recebes aprumado a reverência do povo de joelhos à espera de tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. Tu que estás imbuído da divina prerrogativa, intransferível e vitalícia, de deliberar sobre o destino dos homens que habitam o mun­do dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisprudência, instância suprema à do teu Supre­mo. Tu que reclamas indignamente indignado por direitos inalienáveis e vives na intimidade inescrutável da tua vida pri­vada de práticas inconfessáveis. Tu mesmo, nobre calhorda, que de tanto exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

    Venho oficiar-te, honorável patife, que há mais retidão e honra na palavra espontânea e honesta que brota do coração de um humilde iletrado do que no alfarrábio que sustém tuas áridas, infindáveis, mirabolantes e ordinárias sentenças. As mesmas que apões em papel pergaminho com letras douradas, fazendo-as constar dos anais onde exibes tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambo­lesca sapiência estéril.

    Amealhas com vileza recursos subtraídos do povo injustiçado para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que qualificas cinicamente de Justiça, a fim de cobrir com aura de magnificência e infalibilidade essa espeta­culosa e suntuosa pantomima patética e embusteira que estarrece as legiões dos sem-justiça desse país, mantendo­-os sob o jugo do teu julgar.

    Cultivaste esse interminável cipoal de leis, decretos, normas, códigos, tratados, regimentos, resoluções, regula­mentações, pareceres, dispositivos e medidas provisórias para reservares a ti próprio o monopólio do conhecimento e das práticas a ti outorgadas tautologicamente “por lei”, afastando o povaréu inculto de teu demarcado territó­rio. Para que, na mesma medida em que amplias a doutrina do direito, reduzas o primado da justiça.

    A chave de tua inoperância chama-se prazo. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independente do transitado em julgado? Abstrais, emérito canalha, a variável tempo sob pre­sunção de que o tempo é uma mera ‘questão de tempo’. Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, protrais, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, esticas, dilatas, intervalas, encompridas, acresces, amplias, expandes, empurras com a barriga. Pois, então, devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja nutrindo a raiva da privação de benesses não fruídas, seja gozando do deleite de penas não cumpridas, já é repositório da sentença, seja esta qual for. Em meio a tantos réus, jurados e testemunhas, apenas um deve ser declarado culpado em todas as instâncias: tu, criatura ignóbil.

    Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce desse palácio de letras, capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as cruas ruas, inobserváveis das janelas do palácio que ergueste, sem decurso de prazo, para te isolares da re­alidade de fato e de direito, estão repletas de malfeitores que levianamente livrastes das masmorras. Não por um senti­mento benevolente de perdão ou por uma crença abnegada no poder de recuperação humana, mas por uma ardilosa interpretação das normas vigentes. Delinquentes de toda a es­pécie a quem remistes da pena, hoje libertos de punição, zombam, sob tua retumbante indiferença, dos tolos que se pautam em princípios e honradez.

    Vivem os justos à margem das formalidades legais que queres agrilhoar os cidadãos, a fim de emparelhares todos pelo mesmo nível de calhordice de que imaginas serem, por na­tureza, dotados. Por certo, espelhando tua maneira de te com­portar e de enxergares os homens para necessitarem de tua mediadora e interesseira presença,

    Sob o manto do teu venerável ‘estado de direito’, corruptos, patifes, ladrões de todas as espécies ascendem aos postos de direção com a tua máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, aplicando-lhes impiedosamente draconiana indulgência e intolerância zero. Cobrindo a impunidade com o manto legalista da imu­nidade.

    De quem é a culpa? “Dos legisladores, do governo, da polícia, da falta de juízes, da falta de vagas no sistema prisional, da falta de investimento, da má distribuição da renda, do desemprego, da falta de políticas públicas, dos baixos salários, da alta dos juros, do neoliberalismo, da crise do euro, da colonização portuguesa, da gripe suína, do derretimento das calotas polares”, bradas indignado. Tu, homo vermis, és o único triplamente qualificado como “not guilty” nessa história. Justo tu! “Por falta de provas”, provas.

    Todo teu empenho é de não punir. Inocentes ou culpa­dos, pouco importa. ‘In dubio pro reo’, desde que teus honorá­rios sejam quitados ‘in specie’ com correção, exatidão, integri­dade e… justiça.

    E assim, pelos mais variados pretextos, vais libertan­do das grades todos os poderosos tubarões, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos que não participam do pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas, consagrando esse país como o paraíso da impunidade.

    Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar dizen­do que és a fonte da Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, devolvendo­-lhes em serviços pérfidos o vil metal que banca o suntuoso padrão de vida que ostentas. A verdadeira justiça é o oposto de ti. É tornar o mundo digno, decente, com as pessoas podendo se olhar de frente, sem dissimulações, confian­do umas nas outras. Prescindindo de teus sórdidos préstimos.

    Justiça seja feita: quem te sustenta, respeitável biltre, são apenas os safados. Crápulas que, dispensando nobres considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes e qualificarem-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do papo do cafezinho do fórum. Onde, restritas às indevassáveis paredes que os protegem, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus amigos e cupinchas. Uma corporação fechada de rábulas parasitas. Justamente!

    Os princípios de retidão e civilidade trazemo-los dentro de nós. Num mundo de justos, tua justiça não se ajusta. Gente honrada entende-se entre si, sem necessitar da tua protocolar intermediação. Bastam os princípios. Quem carece de lei são os que dela vivem à margem. Se para os honrados, é des­necessária e para os bandidos, ineficaz, para os da escória que integras, é verba no bolso.

    Data vênia, vai pra p* que te pariu.

  • Romantismo anárquico

    Cerâmicas bejes, com um rejunte que nem se faz perceber, emolduram 1/4 de circunferência de uma toalha de Natal, assim disposta junto ao chão, em plena manhã nublada de sábado de Carnaval. Uma xícara moldada pretenciosamente orgânica, um falso orgânico, um orgânico em linha de produção, repousa sem o seu pires sobre o tecido dobrado, com viéis vermelho. Um café o está preenchendo, e a
    fumaça abraça um ramo de Alecrim, há o registro do envolvimento de ambos nas ondulações do líquido, escuro, quase confundindo-se com a própria xícara. O Alecrim faz as vezes de uma colher, mexendo um café sem açúcar.

    Café com aroma de alecrim, picnic solitário e instantâneo no chão da cozinha. Magia que preenche uma rotina, para que esta não exista, padrão de si. Rituais únicos. Anarquia poética.

    “Não vamos morrer por falta de coisas admiráveis, mas por falta de admirá-las”.
    Chesterton

    Memórias como pedaços do que somos, partículas palpáveis, feitas do mesmo material que as estrelas. Somos a explosão de partículas, nossas memórias, as memórias de nossos pais, avós, cidade, imenso planeta. Somos colagens belíssimas de micropartículas interestrelares, por vezes de galáxias antes impossíveis de se misturar, anos luz distantes. Somos arte. Somos instantes eternos, milagres pulsantes. Somos, além: despedidas. A todo tempo. Em todos os lugares. Somos instantes. Um breve momento em que se saboreia, com o congelar do tempo e o fechar dos olhos, o cheiro inesquecível do perfume da Dama da Noite, flor roxeada no meio de uma rua de pedestres, silenciosa no tarde das horas, que testemunham um pai ensinar ao seu filho como saborear as miúdezas de algo singelo e poderoso, beleza como promessa de se passar adiante, geração a geração. A Dama da Noite, branca, repousa e cresce as folhagens em um vaso plástico reciclado na minha varanda, sem brotar, como da primeira vez, anos antes, no aguardo, não se sabe do quê.

    Olfato. Visão. Tato.
    Paladar. Audição.

    Memória deveria pertencer ao rol dos sentidos, sexto membro. Ela não é um, tampouco outro. Por vezes os cinco, simultaneamente. Sem sombras de dúvida é um sentido, sentido da vida, do existir.

    “Estou me tornando um passageiro. E eu não sou um passageiro”.

    Filmes, pessoas e situações aparecem como resultado dos ouvidos atentos de uma tecnologia para melhorar nossas experiência de vida; ela é anterior às inteligências artificiais, e responde pelo nome de acaso. ‘Memórias de um Amor’ é uma película incrivelmente transbordante, que nos traz personagens passageiros de um veículo do qual não queriam ter embarcado.

    Memória é, na concepção que vou lhes apresentar agora, sinônimo de apego.

    Sou apegada às coisas, aos momentos, às pessoas. Herdei tal característica do meu pai, que, sem se dar conta em vida, transformou nossa morada em um verdadeiro “sebo” – definição da querida salvadora, que aparece de quando em quando para domar a bagunça e espantar o pó e os pelos do Zeca. Vassoura e
    microfibras em punho, pôs álcool, água sanitária e sacolas de lixo à obra, resgatando a dignidade arquitetônica daquele apartamento de mais de 100m², onde habitam memórias de cinco vidas, móveis para cinco casas e minha mãe. Pequeno demais para a vontade imensa de se viver que era o meu pai.

    Coisas, registros, pessoas; tenho uma queda por tudo o que é analógico, principalmente a relação que o tempo imprime às mesmas coisas, registros, pessoas. E aqui entendo a relação entre amar e a intensidade das reminiscências; não tem jeito: amo a risada dos meus amigos e, se me chegam por áudio em um smartphone, sinto-me compelida a escutá-los como se rebobinasse uma fita cassete insistentemente, a ponto de romper a fita magnética, ou arranhar um disco de vinil, fossem esses os meios. O som, as palavras, as vozes que atravessam o tempo me transportam ao passado-refúgio. Amo verdadeiramente os meus amigos. Ao voltar de Perugia, um mês que já se completou em 15 anos, colei os rostos de cada um dos que lá fiz, unidos pelo aprendizado da língua italiana, cujos endereços estão espalhados por todo o mundo, no pilar semi enterrado na parede do meu apartamento em Botafogo, acima da mesa de refeições. Assim, arrastava o prazer de tomar café todas as manhãs em suas presenças.

    Sou apaixonada por refeições sem pressa e arrumadas para o ato de se comer, saboreando tudo ao redor. Só os que me conhecem sabem de sua importância e simbolismo – e como transformei uma
    inauguração da árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas em um aniversário mais do que emblemático, um entra e sai de amigos, dedilhar de violões, toalha xadrez, frutas e muitos quitutes, fogos de artifícios… dificilmente um picnic se tornou memória em tantas pessoas, como aquele – talvez o que teve de ser recolhido às pressas, no ano seguinte, com tenda e tudo, da Praia Vermelha, por conta de uma (baita) tempestade. Meu diminuto apartamento em Botafogo se transformou em uma releitura da confraternização ao ar livre.

    Açaís, cervejas, vinhos e limãos sicilianos. Pizzas. Karaokes/ palcos/ microfones; amo MUITO cafés. Amo mais ainda reencontros. Sou techfriendly por necessidade. Amo a vida. Amo gente (ok, ok, talvez menos do que o que sinto por cachorros – e percebo que me tornei o discurso da minha avó paterna, o que me fazia torcer o nariz).

    Amo, ainda, e talvez mais que todos os outros: cartas. Meu maior tesouro repousa em uma caixa de papelão em formato de mala – que já quase cospe papéis mais velhos que meus afilhados -, verdadeira guardiã das memórias mais preciosas. Insubstituíveis. Primeiro amor. Primeiros registros da escrita. Primeiro namoradinho. Primeiro namorado. Quase todos os outros à exceção do primeiro casamento, que evoluiu de memória ao posto de uma importante lição, apenas. Verdade seja dita, lhe sou imensamente grata pelo amadurecimento forçado e finalmente aprender que existem pessoas passageiras. Compreendi a necessidade de respeitar meus próprios limites, a limitar o acesso, consciente, de quem tira os sapatos e transpõe a porta da minha casa.

    Dentro da caixa, não estão apenas vestígios dos romances que se foram; se encontram meus melhores amigos, a “sogra” que certamente foi minha mãe em outras vidas, todos os muitos e imprescindíveis bilhetes e cartinhas dos meus pais – e do papai Noel, e do coelhinho da Páscoa. Os primeiros registros da minha irmã, nossos primeiros bilhetes. Cartões de aniversário e Natal da vovó, sempre acompanhados de um “tico-tico”. O último bilhetinho da minha avó austríaca, a melhor vizinha, que me deixou primos e tias de alma como legado. Papéis dobrados com desculpas entre primas dinda/afilhada (como brigávamos e nos ameaçávamos com “não sou mais sua dinda”, e vice-versa!). Bilhetes de “deixei o café preparado, bom dia”, da tia- mãe que me abrigou no início da faculdade. Bilhetes de amigo contendo bombom durante a aula da Pós, para amenizar minha TPM… tantas recordações… medalhas, páginas de jornais, entrevistas, prêmios… Há ainda papéis que são lembranças do que já não existe, como o embrulho de balas cujo sabor é inesquecível, passagens de ônibus com valores que beiram o surrealismo na cotação atual, de tão baratos. Cartões fidelidade de supermercados. Minha primeira viagem de avião. O recibo do primeiro aluguel da vida. A primeira compra na Italia. Camisas assinadas por todos das turmas, sempre ao final de cada série. Declarações de amizade de coleguinhas que não sei nem por onde andam. Cartas que se desenrolam em mais de um metro de papel, simbólicas entre as meninas da minha época. Elos atemporais. Bilhetes de museus. Fotografias 3×4. Polaroids, negativos, fotos 10×15, autógrafos de celebridades. Ingressos de cinema cuja tinta já impossibilita dizer de qual filme se trata – e quando. Provas de que o tempo passa deixando marcas, e que, elas mesmas se modificam. Aqui, nas cartinhas, a felicidade me espera, e me arranca lágrimas e risadas, sempre.

    Eu amo a vida que eu construi e as memórias que me construíram. Minhas lágrimas, percalços, dores, conquistas, fundos do poço, reconquistas. Meus erros, que eram primeiros passos em outras direções. Meu passado, amo-te, como amo meus livros! Biblioteca eternamente ao alcance do coração, que me empodera de mim mesma, me lembra que os meus dons são importantes – e não permite que se percam. Lanterna mágica a iluminar os momentos obscuros da estrada que percorro sozinha, de buracos e belezas necessárias.

    Um barulho irrompe pelos vidros, vibrantes e fechados das portas-janelas; sombras de serpentinas e confetes imaginários. Minha folia de 2025 não tem espaço para alegorias e adereços; fantasiei-me das minhas profundidades. Embriaguei-me dos meus sentimentos mais verdadeiros. Fiz picnic com novos amigos, abracei os de sempre, tomei vinho com cartas fresquinhas e chorei com amigos inesperados. Não preciso das fuligens, assim como carnavais não precisam de fins. Como trunfo, posso pedir reforço a querida salvadora, ocasionalmente a postos com os materiais de limpeza. Meus planos são outros, percorrem calendários e sites de viagens. Há sempre o amanhã. Há sempre recursos. E há de existir sempre uma Bia por aqui, como um você, para você, com você, por você. Eu me permito ser meu eterno e original carnaval sem quartas-feiras de cinzas.

  • IMAGINE

    (“Imagine there’s no countries” – John Lennon)

    Costumamos enxergar o mundo através de mapas, uma colcha de retalhos em que cada pedacinho colorido é um país diferente. Cada um com um governo próprio que estabelece as regras que o habitante do respectivo território tem que cumprir.

    Para dizer a verdade, não tenho nenhuma simpatia por essa concepção. Ao contrário do senso comum, não me entusiasmo em celebrar ideais como ‘patriotismo’ e ‘nacionalismo’. Tampouco me ufano em glorificar símbolos pátrios. Acho que essas manifestações arcaicas só se prestam a separar as pessoas umas das outras.

    No máximo, torço pela seleção brasileira na Copa. Mas, passado o evento, volto a me considerar, acima de tudo, um cidadão da aldeia global chamada Terra. Esse formoso planeta azul que, a despeito das agressões praticadas pelos humanos, segue cumprindo diligentemente sua jornada no espaço sideral e cuja beleza inspirou Caetano a criar-lhe versos como “por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria”.

    Sentimentos de enaltecer a pátria só se prestam a estimular valores nocivos como competição, hegemonia e exclusão que levam a guerras e fazem os governos gastar bilhões em armamentos de extermínio, sugando verbas que poderiam ser utilizadas em saúde, educação e para tornar as pessoas mais felizes. Desviando recursos da vida para a morte. Considero muito mais nobres valores como cooperação, solidariedade e humanidade.

    Não entendo por que um ‘compatriota’ parido no território situado entre o Oiapoque e o Chuí deva ser considerado mais meu irmão do que um aborígene australiano do outro lado dos mares. São ambos indivíduos pertencentes à mesma espécie, diferenciados apenas pelas peculiaridades que fazem da raça humana esse rico painel de diversidade, onde criaturas semelhantes permitem-se ser tão maravilhosamente diferentes. Todos merecem ser amados igualmente, com suas abençoadas dessemelhanças. Afinal, somos filhos da mesma divindade que, ao nos dar a bênção da vida, não estava preocupado em checar nosso pedigree.

    Acho que mesmo outras categorias de vida, animais, plantas e até formas inanimadas como pedras, montanhas, nuvens e rios devem ser objetos de devoção e reverência pois são elementos que compõem nossa existência na Terra, o astro mãe que generosamente nos acolheu, sem que a ninguém tivesse sido solicitado passaporte.

    A natureza não impôs segregação às pessoas. Foram os humanos que a si próprios criaram barreiras, demarcando territórios. Essa apartação foi reforçada pela tendência dos homens de se agruparem em bandos que rivalizam entre si: tribos, gangues, torcidas organizadas, religiões, partidos políticos, nações.

    Um mundo sem fronteiras, onde os interesses gerais se sobreponham aos grupais não vai surgir nessa década nem na próxima. Há muitos obstáculos para viabilizar essa utopia. Mas como disse John Lennon (“you may say I’m a dreamer, but I’m not the only one, I hope someday you’ll join us”), se juntarmos os sonhos e lutarmos por eles, quem sabe nossos netos possam viver num planeta onde a fraternidade universal esteja acima do orgulho nacional.

  • UM SUJEITO PECULIAR

    Silas Arruda é um sujeito peculiar, do tipo que, vagando pela cidade dentro do ônibus, observa pela janela as pessoas que andam apressadas pela calçada e tenta encontrar seus olhos, adivinhar sua história, criar-lhes uma vida. Registra tudo com o olhar silencioso. Não conversa com ninguém, fechado nos próprios pensamentos.

    Na padaria, enquanto aguarda sua vez, fixa os olhos na vitrine cheia de pães e escolhe dois do fundo, aqueles que — ele acredita — ainda não foram tocados pelo atendente. Vai se sentir mais seguro quando, ao preparar seu lanche habitual, colocar na boca um produto sobre o qual ninguém pôs as mãos. No miolo estenderá três fatias de queijo e duas de presunto, sobras da noite anterior. Se ainda houver tomate na geladeira, cortará duas fatias pequenas e as colocará nas extremidades do pão, nunca no meio. O copo de leite com chocolate amargo em pó será o complemento líquido de sua refeição noturna e solitária, degustada na frente da televisão.

    Costuma passear pelo bairro à noite, depois que assiste ao jornal de notícias. Não se olha no espelho antes de sair. Também não leva guarda-chuva, mesmo que esteja chovendo. Prefere se esgueirar pelas marquises das lojas e supermercados e até se molhar um pouco, se não houver outro jeito. Anda com as mãos nos bolsos, os passos ritmados, uma sombra com olhos de carcará que tudo vê e pouco é visto. Respeita os faróis e nunca atravessa fora da faixa de pedestres. Se decidir parar para tomar um café, ficará em pé na extremidade do balcão, de onde poderá observar, em silêncio, o movimento das pessoas; verá, por exemplo, quem passa por ele para ir ao banheiro sem se importar com sua presença.

    Trabalha vendendo seguro de vida de porta em porta, e não se incomoda nem um pouco quando lhe respondem secamente “Não me interessa” ou se apenas o espiam por trás da cortina e nem se dão ao trabalho de abrir a porta. Silas Arruda, o corretor, está acostumado com isso e não leva essas grosserias em consideração.

    Andando pelas ruas para fazer o seu trabalho, escolhe aleatoriamente a casa do próximo cliente. O instinto o guia e raramente o engana. Na maleta de mão, além de formulários e outros documentos, carrega sempre uma garrafa de vinho, porque lhe apraz comemorar com uma taça o fechamento de um negócio. Toca a campainha e espera. Hoje quem abre a porta e o atende com surpreendente gentileza é a Dona Jurema, viúva que mora sozinha. Silas põe os pés na sala e olha em volta. Enquanto a dona da casa lhe serve um café, avalia em pensamento, e por antecipação, o quão fácil será tudo.

    Antes de sair tem o cuidado de verificar se a sala continua do mesmo jeito, com tudo em seu lugar, e se o corpo está bem acomodado no sofá. Fecha a porta da frente e caminha devagar até o ponto de ônibus. Sobe no coletivo, senta-se no banco dos fundos e solta o nó da gravata. Pela janela, observa em silêncio as pessoas que andam apressadas pela calçada.

  • Dilema

    Uma decisão da maior importância para uma mulher é qual o formato vai dar para o seu penteado. Primeiro porque ele é um cartão de visitas, a primeira coisa que as outras mulheres vão reparar e comentar. Ele diz muito a respeito do estilo da pessoa, demonstra o quanto ela está antenada com as tendências da moda, e, muitas vezes, dependendo do grau de maldade das amigas “intimas”, é uma pista sobre o tipo de salão que a pessoa frequenta, ou seja, um salão de primeira ou de segunda linha.

    Até aí, nada de novo. Outro dia, porém, me vi em frente ao espelho, cabelos molhados e uma decisão a tomar: “devo pentear o meu cabelo com as pontas viradas para fora ou para dentro?” falta esclarecer que se trata de um cabelo bastante liso, portanto esse detalhe das pontas é que dá o toque ao visual.

    Comecei a pensar que essa escolha não é somente estética; existe aí algo mais subjetivo que norteia o ímpeto de virar as pontas para dentro ou para fora. Passei a lembrar em que momentos decidi pelo estilo mais Channel, e aqueles em que a decisão pendeu para o mais esvoaçante, ajudada por algumas fotos.

    A relação da direção das madeixas com o estado de espírito ficou claríssima! A escolha dos cabelos voltados para dentro estava relacionada a momentos de maior introspecção, maior formalidade, sugerindo até um certo romantismo.

    Os cabelos com as pontas jogadas ao vento estavam presentes em situações de alegria, diversão, informalidade, passavam uma impressão mais jovial.

    Essa descoberta me trouxe um sério problema — comecei a aplicar a regra para analisar os cortes de cabelos masculinos e fui buscar algumas relações.

    — Cabelo comprido? Pessoas criativas, mais sonhadoras. Entre os mais velhos, denota uma tentativa de manter a eterna juventude, resquícios da vivência nos anos 70.

    — Cabelos raspados? Mais comum entre homens inteligentes e decididos, que gostam de marcar presença, serem notados e criar um estilo marcante.

    — Topete? O preferido dos sonhadores, nostálgicos, românticos.

    Virou um vício, uma coisa terrível da qual não consigo me livrar. Fico observando as pessoas na fila do caixa do supermercado, no ponto de ônibus, no trabalho, e acabo fazendo outras relações entre a personalidade e estilo de cabelo, tanto dos homens como das mulheres.

    Solução? Pelo menos em relação ao meu cabelo, decidi usar reto, nem para fora nem para dentro. Interpretem como quiserem.

  • Ilusões

    Surgem como uma pulsada, naquela subida de sangue que invade o cérebro, insufla as veias, tonteia, bambeia as pernas.

    Se fazem presentes no sonho desperto, no pensamento à toa, na dispersão do foco. Se estabelecem, prosperam.

    Na quentura do coração, fermentam. Levain que cresce a cada dia. Da própria farinha imaginária se alimentam. Regadas por nossos sonhos se multiplicam, se agigantam.

    Atingem seu auge, ocupam os vazios, preenchem, inebriam. Esplendor colorido de uma bola de chiclé sabor tutti-frutti.

    Pingue-pongue! A costura da vida alfineta, impiedosa. A esfera estala, murcha. Lá se vão as quimeras com que inflamos nosso balão de ilusões.

    Resta só uma goma indigesta que gruda na nossa cara, perplexa.

  • UMA CRÔNICA PARA ANNE FRANK

    Olá Anne!

    Bem, eu imaginei diversas formas para começar esta crônica e, na verdade, creio que o melhor começo seja agradecer a sua resistência!  

    E eu começo com uma pergunta que você mesma faz: “…por que as pessoas não podem viver juntas em paz? Por que toda essa destruição?”

    O seu diário fez toda a diferença pra mim! O seu diário fez diferença para milhares de pessoas! É um sucesso em todos os lugares do mundo! Acredito que não há um lugar que não conheça a sua história!

    E, voltando às perguntas feitas, o ser humano, nas suas complexidades, frustrações e influências, age de maneira irracional, por vezes, busca a guerra…

    Como você observou muito bem, “há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas…”

    Estou escrevendo esta crônica porque, infelizmente, mesmo passado tanto tempo da guerra que você viveu e conheceu, o mundo parece não aprender nunca. No tempo em que estou, bem distante da Europa de Hitler, ainda vivemos com guerras. Pior, os homens maus nunca desistem do poder. Os homens maus não deixam de existir

    Muitos homens maus já passaram desde então, no entanto, neste meu tempo de absurdos, há um homem sem sorriso que definitivamente assusta boa parte de nós. E, não, ele não é da Europa! Ele é o presidente dos Estados Unidos! O nome dele é Donald Trump.

    O mais estranho, trágico, triste, enfim, são tantas as palavras que não consigo escolher apenas uma… O mais estranho é que esse homem parece ter aberto uma espécie de caixa de Pandora. Uma caixa do passado, com todos os fantasmas da Grande Guerra: autoritarismo, intolerância, perseguições, soberba e um olhar de superioridade que você enfrentou e conheceu muito bem!

    Anne! Falo de você para as pessoas! Falo do seu diário e da importância de tudo o que você viveu! E eu fico com esperança quando vejo o brilho nos olhos de todos os que ouvem e se emocionam com a sua história.

    Anne! Esta crônica não é um relato pessimista, mas uma forma de te dizer que é necessário resistir e acreditar nas pessoas, apesar do contrário! Olha que este mundo em que vivo parece virado de cabeça para baixo!

    Temos muitas tecnologias neste tempo, contudo, elas não nos aproximaram, ao contrário, deixaram maiores as distâncias, modificaram as relações e estão roubando de cada um de nós, a cada dia, um pouco do que insistimos em chamar de humanidade!

    Em muitos momentos, quando vejo que os erros do passado se repetem, me sinto anestesiado, confuso, desanimado, mas sei que não posso desanimar! Isso não seria justo com o seu diário, com a sua história ou com a história de tantas pessoas que passaram pelo que você passou.

    Aprendi a resistir escrevendo. Alinhando as palavras, juntando sons, criando sentidos e costurando, em prosa ou em verso, o que importa dizer: a vida e as suas cores! A vida e as suas dores!

    Anne, seu diário atravessou o tempo e chegou ao meu tempo e continua reverberando, atual e tocante, sincero e certeiro, simples, mas verdadeiro…

    Obrigado por ter resistido!

    Este cronista segue resistindo neste tempo de corações duros e verdades descartáveis…

  • O CACHORRO ENCADERNADO

    Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Eu acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações. Momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho.

    O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomode nossa vaidade intelectual. Acontece. As vezes você retorna ao livro mais adiante na sua vida. As vezes ele desaparece pelo caminho.

    Nossa estante de livros, a metafórica quero dizer, não é melhor nem pior do que a dos outros. São nossas escolhas, sem competir com ninguém.

    Na adolescência uns amigos se tornaram fãs do J.R.R. Tolkien e sua saga “O Senhor dos Anéis”.

    Eu descobrira Garcia Marques a partir de “Cem anos de solidão”. Nossos caminhos literários não se cruzavam.

    Eles insistiam em me dizer que eu não sabia o que estava perdendo por não conhecer a Terra Média. Lá em Macondo eu balançava minha rede e suspirava.

    Influências externas podem te empurrar na direção de uma estante. Ou te afastar dela. Mas o que dizer dos estalos que nos chegam de repente? Sabe quando nosso olhar examina a obra e uma voz baixinha nos diz “acho que vou experimentar esse ai”…

    Ser leitor é muito bom.

    Houve uma época da minha vida em que levava, por baixo, uma hora e meia de casa ao trabalho. E para voltar também, não tinha refresco.

    Pegava duas conduções e na primeira, a de uma hora, eu conseguia viajar sentado. Como sempre pegava o ônibus no ponto final, tanto na ida quanto na volta, era tranquilo. E para ocupar o tempo, eu lia.

    Foram mais de seis meses nesse trajeto até mudar de casa. Nesse tempo, Guimarães Rosa me fez companhia. Li “Grande Sertão: Veredas” nessas duas horas diárias de viagem. Lembro até o que eu fiz no dia em que Riobaldo uivou de tristeza. Interrompi a leitura, completamente afogado pelas emoções do jagunço e lancei um olhar perdido na cidade à minha volta. Sertão bruto me cercava. E Riobaldo uivava.

  • Errata celeste

    Os que acreditam na influência dos astros em suas vidas devem ter ficado chateados com Parke Kunkle, professor de uma instituição americana. Segundo ele, “está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela astrologia para determinar os signos de acordo com a data do nascimento das pessoas”. Isso porque os mapas astrológicos, produzidos 3.000 anos atrás, estariam há muito defasados. Com a mudança no posicionamento do eixo da Terra, uma pessoa que se imaginava capricorniana, por exemplo, é na verdade de Sagitário. Um suposto taurino, como eu, pertence ao signo de Áries.  

    Sem querer ser presunçoso, confesso que no íntimo eu desconfiava disso. Sentia certo descompasso entre o meu modo de ser e o desenho do meu signo, que me colocava sob a égide de um touro (bicho grosso e intratável), quando em minha alma pasta um cordato carneirinho. Não exagero se disser que essa foi uma das razões para eu nunca ter dado muita importância aos astrólogos. Sempre confiei mais nos genes e na força das circunstâncias. 

    Imagino a confusão que esse quiproquó planetário está causando na cabeça daqueles que programam suas vidas conforme o alinhamento da Terra em relação às estrelas. Eles têm na cartografia celeste um roteiro que, revelando-se ou não acertado, lhes serve de guia. Alguns a primeira coisa que fazem, antes de sair da cama, é consultar o horóscopo para ver se devem ou não fechar um negócio, fazer uma viagem, iniciar um caso amoroso. De repente vem esse professor e os deixa sem chão, ou melhor, sem céu em que possam ver delineado seu mapa existencial.    

    Não deixa de ser estranho que pensemos que Marte, Vênus ou alguma daquelas constelações distantes tenham a ver com o emprego que devemos assumir, a roupa que devemos vestir ou a mulher com quem devemos nos casar. Crer nisso não tem fundamento, mas para muitas pessoas faz todo o sentido. O mecanismo pelo qual tais crenças lhes parecem coerentes é o mesmo que fundamenta as religiões; explica-se pelo desejo de fugir ao desamparo, à incerteza quanto ao futuro e, sobretudo, ao medo da morte.   

    Ninguém pense que a descoberta de Kunkle vai mudar a crença de quem depende dos astros para conseguir a paz interior. Desde quando se crê em alguém, ou em alguma coisa, com base em evidências racionais? A  razão serve de esteio para o que se conhece, e não para aquilo em que se acredita. O fermento da ciência é o saber; o da crença é a ilusão.

    No máximo os adeptos da astrologia farão um pequeno ajustamento em seus signos – há os que vão continuar lendo as previsões segundo o mapa antigo. Se mudou o lugar das constelações, endireite-se o eixo da Terra, corrija-se o Cosmo. O importante é que, ao acordar, eles possam iniciar o dia com a certeza de que farão as escolhas certas. E, sobretudo, de que alguma força transcendente os protege contra as armadilhas do Acaso.

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