Literatura

  • Cento e vinte e duas folhas

    122 folhas caíram sem aviso prévio, de um dia para outro, do Manacá que resiste às intempéries da vida, aos seus altos e baixos, junto a outras tantas plantas, que já somam mais de 4 dezenas espalhadas pelas varandas e cômodos de um apartamento situado em rua tranquila, que nem parece centro de cidade média. Cercado por árvores urbanas, cujas copas privatizam a vizinhança, garantem a qualidade de vida e o cantar dos pássaros a um sem número de pessoas e situações, o número de folhas parece um número pequenino: cento e vinte e duas — não cento e vinte, nem cento e vinte e cinco: exatamente cento e vinte e duas. Seria tal montante uma mensagem do acaso ou um capricho da própria planta, que, desconfiada da mão humana que a cuida – aquela que escolheu tê-la em sua rotina, pelo prazer de cuidar e ver seus frutos como recompensa – decidiu ensaiar uma pequena rebelião?

    O verde da paisagem predomina. Mas são as folhas pontiagudas, firmes – de maioria idosa, outras que sequer chegaram ao seu tamanho final – que, mesmo jazendo no piso frio, transformados os seus verdes, vistosos e habituais, em amarelentas folhas, enrugadas folhas, são o foco da atenção – não as copas vibrantes do entorno, mas estas formas já amorfas ao rés-do-chão da varanda da casa de quem é responsável por as fazer florescer, e assim ter sombra, e receber a visita de pássaros, a bagunça causada pela passagem do vento, ambientando mais natureza ao lugar cinzento que configura as construções do homem, que tanto destrói pela simples ganância em criações. A morte ou a interrupção do que é esperado é instantaneamente mais interessante do que toda a beleza vivente ao redor. Colhidas na palma de uma das mãos enquanto a outra pinça as recém defuntas folhas, o subconsciente humano se questiona;

    – Foi o vento, foi o calor, foi a falta d’água?

    O Manacá então, com tantos galhos desfolhados, que casou-se com um copo de leite branco e anda trançando sua copa aos pecíolos da samambaia – no auge de sua fase esporófita – vai acabar perdendo a esposa para o jovem pé de café, destemido e energizado, que cresce aumentando vagarosamente suas folhas – sem as perdê-las – enquanto não tira os olhos das formosas folhas alongadas que já não tem forças para fazer brotar sequer um único copo de leite.

    – Um bom café com leite é uma combinação das mais perfeitas!

    – Sussurra o pé de uma das bebidas mais consumidas do mundo a sua amada, ao enxergar a traição injusta.

    A queda concomitante de cento e vinte e duas folhas pode ser por culpa. Não necessariamente excesso de vento, o sopro de uma consciência superior, ou do calor intenso deste verão (metáfora de uma paixão desmedida de férias): há o equilíbrio das chuvas, há o zelo da rega constante. A culpa, ou melhor, sua confissão, pode ser porque, quanto menos folhas, menos consegue o Manacá esticar seus braços em direção à amante. No fundo, a culpa pode ser por um ímpeto natural, cuja consciência o faz sofrer.

    As percepções podem ser tantas que, não fosse a necessidade do funcionamento humano de fazer sentido, o copo de leite poderia ser o adúltero, e a perda das folhas um sintoma de depressão do Manacá sofredor. A samambaia poderia apenas tentar ajudar um amigo, sendo sua confidente. O café poderia ser o grande vilão, disfarçado de herói.

    Ou, simplesmente, poderia tratar-se de uma troca de folhas necessária: caem as folhas como caem os dias. E a relação das plantas não ser outra que a organização preferida por seu cuidador, que brinca de ser Deus até na narração de tantas possíveis estórias.


  • Entrevista de Itararé (com o Barão Idem)

    Apparício Torelly, conhecido como o Barão de Itararé, foi um famoso jornalista que atuou na imprensa brasileira nas primeiras décadas do século passado. Notabilizou-se pelo espírito crítico e o humor ácido, expressos em tiradas como as que constam na entrevista abaixo. Fi-la (ele deploraria essa ênclise!) extraindo passagens da sua obra, que tem servido de estímulo e inspiração a muitos humoristas brasileiros. Vamos então às perguntas:

    P – O senhor promete dizer tudo neste bate-papo? Não vai esconder a verdade?

    R – Sou um homem sem segredos, que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas.

    P – Falemos primeiro de política. O Brasil discute agora o seu regime de governo. Muitos querem o presidencialismo – pelo futuro não do País, mas do presidente de plantão. Que pensa o senhor sobre isso?

    R – A moral dos políticos é como elevador; sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia …

    P – Por falar em política, o senhor tem alguma sugestão para o pagamento da nossa dívida?

    R – Tempo é dinheiro. Vamos então fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo.

    P – E como ficam os credores internacionais?

    R – Quem empresta, adeus …

    P – A mudança no regime de governo deve alterar o processo de escolha dos homens públicos, Barão?

    R – O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

    P – Falemos de outras coisas. O senhor considera que exista alguma regra para comer e beber?

    R – Comer até adoecer, beber até sarar.

    P – Verdade, Barão? E o fígado?

    R – O fígado faz muito mal à bebida.

    P – O álcool às vezes, realmente, é um consolo para os misantropos. Ou para os misóginos…

    R – Quanto mais conheço os homens, mais gosto das mulheres.

    P – Mas isso o levaria, por exemplo, a se casar?

    R – O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.

    P – Ora, dizem que os homens inteligentes dão bons maridos.

    R – Que tolice! Os homens inteligentes não se casam.

    P – Mudando de assunto. Como o senhor vê certos frutos modernos do engenho humano – como por exemplo a televisão?

    R – A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. Com o progresso, um ignorante pode somar maquinalmente.

    P – Ah, então o senhor é um passadista. Acredita, como Comte, que os vivos são governados pelos mortos.

    R – Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mais vivos.

    P – Dou-me por satisfeito, Barão. Muito obrigado.

    R – O “Muito obrigado” é sempre um pagamento módico.


  • Paraíso também fica nublado

    Não foi difícil achar essa cadeira de frente para o mar. O sol, que estava poderoso desde as primeiras horas da manhã, cansou da função e foi se esconder atrás das nuvens. Os turistas, ou melhor, os outros turistas porque também não sou daqui, bateram em retirada e se espalharam pelos bares e lojinhas.

    De onde estou, na ponta da praia, ouço distante o murmúrio da música. Nada que me agrade e por decoro estético e consideração com as pessoas que gentilmente me atendem na pousada não vou mencionar o gênero. Mas fica combinado que nem no meu enterro é para ser tocada.

    Um vento suave passa pelo meu rosto, braços e pernas. A saída de praia me cobre quase por completo. Sobre o mar, gaivotas aproveitam e descansam no ar quase imóveis, me lembrando Tom Jobim e seu Jereba.

    Suspiro. Início de ano. Sozinha. Ou melhor, sem ninguém para trocar uns sorrisos e fechar os olhos a dois. Mas nada que me faça ter palpitação. Depois de dois maridos, vários namorados e casos que não fico contando porque não é elegante posso dizer sem exagero que meu coração segue forte.

    Confesso que eventualmente sinto falta daquela arritmia que uns chamam de amor e eu, a partir dos meus poucos cabelos brancos, prefiro entender como momentos para compartilhar a curtição. Sim, porque o descompasso cardíaco também acontece nas pequenas situações, no olhar sedutor, nos cumprimentos gentis e nas palavras bem escolhidas.

    Pode durar pouco, é verdade. Mas se conseguiu acelerar a circulação, pode contabilizar na coluna dos bons momentos vividos. Não foi uma fantasia sua, existiu de fato. Mesmo efêmero, mesmo sem condições de ir adiante.

    Vale o momento, por que não? Para sentir-se bem, com o coração cantando, não é preciso ter uma estória de amor com música francesa, vinho e coisa e tal. Por muito menos, já dá para remexer o corpo e sorrir em sintonia com alguém que valha à pena. Não para a vida toda, mas para aquele momento especial que um foi posto diante do outro.

    Como saber que instante mágico é esse? Basta você prestar atenção.

    Porque a vida é assim e diante do mar não tem como deixar de lembrar de Lulu Santos. Um ir e vir infinito, de ondas, afetos, amores. Uns me marcaram, outros eu marquei. Alguns passaram sem deixar lembrança, em outros fui eu quem não deixou vestígios. Faz parte, sempre faz parte.

    O que não estava no roteiro era esse tempinho feio em pleno verão. Se continuar assim vão achar que passei as férias na Groenlândia vestindo burca.

    Porque sei que ninguém vai acreditar que o paraíso também fica nublado.


  • Abrir uma janela para a alma!

    Quando falamos na busca para a cura de problemas emocionais, um dos diferenciais para pensar melhor nossas vidas é utilizar uma teoria aberta que inclua diversas ideias diferentes, e permita uma discussão de opiniões distintas nessa árdua existência. 

    Uma dessas teorias é a logoterapia que utiliza uma abordagem psicoterapêutica reconhecida internacionalmente, e se baseia na premissa de que a principal força motivacional de um indivíduo é encontrar um sentido para sua vida. 

    Segundo Nietzsche, “quem tem por que viver aguenta quase todo como”. 

    Nessa área não podemos esperar uma resposta pronta porque não existe, e não cabe a nenhum psicólogo dizer ao indivíduo qual o sentido da sua vida.

     Seria sem desventura nenhuma nossos dias de perseguição e luta pelo prazer, e o encontro com a felicidade, se não dependessem muito de nosso interesse.

    O Dr. Viktor E. Frankl, um neuropsiquiatra 

    austríaco, foi o fundador da Logoterapia e Análise Existencial. 

    Ele ficou mundialmente conhecido após descrever sua experiência dramática em quatro campos de concentração nazistas, em seu best-seller 

    internacional: “Em Busca de Sentido”.

    Ele foi libertado somente ao fim da guerra quando tomou conhecimento de que sua mulher faleceu de esgotamento, e seus pais e o irmão, haviam morrido no Holocausto nazista. 

    Uma das pérolas que Dr. Viktor nos deixou é que “A vida é sofrimento e sobreviver, é encontrar sentido na dor. Se há, de algum modo, um propósito na vida, deve havê-lo também na dor e na morte”.

    Essa visão aberta da logoterapia traz a possibilidade da disseminação de múltiplas formas de felicidade e a discussão promovida na mesa, é a base do crescimento coletivo.

    O gatilho que mostra a felicidade em uma curva possível durante a busca, na verdade promove uma nova chance com dor e lágrimas, porém, capaz de proporcionar que sigamos em frente mesmo sem saber para onde ir, porque o durante, é onde se concretiza a experiência. 

    O andar desmonta o pesar e os sobreviventes serão os experientes de amanhã, que saberão empunhar novas armas para usar nesses quinhões de desafios. 

    Como definiu Dostoiévski, o ser humano é um ser que a tudo se habitua.

    Mas afinal, quando se encerra o drama de quem por vezes não sabemos quem somos.  

    Chorar ajuda, é uma maneira de abrir uma janela para alma e deixar esvaziar o sangue dolorido.


  • Tatiana está sangrando

    Era perto do meio-dia quando Tatiana saiu correndo da escola. Ela tinha ainda que almoçar antes de se encontrar com a Ju. Estava atrasada, e isso a fazia suar mais. Passou no meio dos meninos a tempo de escutar “A gorda tá com pressa?” Olhou para a frente e correu mais. Não dava tempo de chorar. “Corre mesmo, gorda, pra ver se perde meia tonelada”, ela ouviu antes de cruzar o portão e ganhar a calçada. Subiu no ônibus e procurou um assento no fundo da condução, onde ninguém a visse. Olhou pela janela e aí, sim, chorou um pouquinho. Decidiu não ir na Ju, depois ligaria para a amiga. Faria sozinha hoje.

    Entrou em casa, gritou “Cheguei!” e foi direto para o banheiro. Trancou-se, pegou o estilete na mochila e começou. Doeu tanto, tanto, no corpo e no coração, mas vai cicatrizar. Tatiana sabe que todas as feridas cicatrizam mais cedo ou mais tarde. Fica a marca por um tempo, depois some — um fio de sangue que corre pelo joelho, uma trilha que nasce no ponto do corte e busca, pela gravidade, alcançar o chão. Uma gota maior e mais robusta dilata o fio vermelho e morre no meio da gaze que a mão aperta contra a pele, estancando a hemorragia. A água fria da torneira termina de limpar o resto, só permanece aquele tom avermelhado e difuso, a mancha que denuncia a mutilação, a identidade do flagelo imposto por ela própria.

    Tatiana sabe que isso está errado, mas não consegue parar de errar. A mãe chama “Almoço pronto. Tá morta aí dentro?” Tatiana quis gritar “Tô”, mas só disse “Já vou”. Não queria ver ninguém naquele momento, não precisava de testemunhas na hora de lavar e expiar o que os outros consideravam pecado. Tampouco precisava que mais uma vez, outra vez, a julgassem e lhe apontassem com o dedo. Seca as pernas com papel higiênico e puxa a saia para baixo, escondendo os sinais.

    Semana que vem, quando a marca de hoje já estiver velha, uma nova será feita, porque ela precisa de ajuda e, na hora da ajuda, ninguém aparece. Só aparece a Ju, tão gorda, tão vesga, tão infeliz como ela.


  • O NARRADOR

    Nós, humanas criaturas, contamos, desde sempre, histórias. Histórias para ninar, histórias para assustar, histórias de amor e outras sem fim, histórias de nós mesmos e histórias para divertir… O fato é que não importa a finalidade, contamos histórias. E elas, as histórias, têm um dono!

    Não falo dos autores, não falo dos editores e tampouco dos que representam a indústria da arte contemporânea. Falo, simplesmente, do narrador.

    O narrador. Este ser criado e imaginado e experimentado por seus criadores.

    O narrador. Este ser entre o real e o imaginário, o ambíguo e o contraditório. Tímido ou panfletário…

    O narrador com pele e ossos e cabelo… Ou apenas uma voz que nos orienta.

    O narrador e o seu olhar sobre as coisas. A sua fala. As suas falas.

    Somos capazes de acreditar no que ele diz. Somos capazes de odiá-lo e amá-lo!

    Ao acabar o seu texto, o autor morre. O narrador não. A palavra é sua. As verdades e as mentiras, as nuanças de cor e as dúvidas que encerra. Tudo o que disser, sendo ele personagem ou não, sairá da sua boca como se fosse vida.

    Em Grande Sertão Veredas, o desesperoamorpaixão de Riobaldo por Diadorim é o desespero amoroso do narrador. As falas monossilábicas de Fabiano, em Vidas Secas, são a aridez e a contenção do narrador. O riso, a crítica, a língua e o olhar de João da Ega, em Os Maias, para além de Eça, pertencem ao olhar e à língua do ferino narrador.

    O narrador provoca, atiça, desorienta, como as vozes criadas por Clarice Lispector.

    O narrador brinca, observa, desenha os detalhes e prepara a armadilha.

    No entanto, entre diversos romances, contos, crônicas, dois narradores machadianos merecem destaque: Brás Cubas, o defunto-autor, e Bentinho, o homem traído.

    O Bruxo do Cosme Velho sabia criar narradores!

    O primeiro, do outro lado da vida, dedica: “Aos primeiros vermes que roeram as frias carnes do meu cadáver…” O sarcasmo e a mediocridade de Brás Cubas lhe cabem e lhe pertencem do primeiro ao último parágrafo. Seguimos com ele. Rimos. Confiamos e desconfiamos de Brás Cubas. Machado de Assis observa, apenas observa seu narrador-personagem discorrer sobre a vida e a morte, a mostrar todas as hipocrisias da sociedade de seu tempo. Muitos não compreendem o mistério: um morto que escreve. Mas escreve morto? E como se dá? É o narrador e o que diz: as suas verdades e as suas mentiras.

    Por meio do seu olhar e daquilo que diz, temos um cenário perfeito do Rio de Janeiro do final do século XIX.

    Brás Cubas, depois de morto, já não precisa usar a máscara social e, por isso, revela, com a ironia tão peculiar aos textos machadianos, sua total mediocridade! Brás Cubas é um intolerante, preguiçoso, presunçoso e interesseiro, enfim, um total idiota! Mas, a forma como conduz sua própria história, permite que nos aproximemos e, como mistério, mágica ou estratégia, nos afeiçoamos ao idiota genial. 

    Brás Cubas revela, a partir de si, a condição de miséria do gênero humano.

    Ponto para Machado!

    O segundo, entre o ciúme e a obsessão, a todo instante escreve sobre os olhos de Capitu: culpada! Não… Machado, mesmo que declarasse a inocência de Capitu, não nos convenceria porque Bentinho é incisivo e doentio: culpada! O que restaria ao escritor carioca diante de tão rochoso narrador? Bentinho é contundente, perseverante e, por que não dizer, envolvente! Ela é culpada segundo a versão do narrador. A versão é falsa? Distorcida? Isso não importa! Importa é que os fatos são apresentados por ele: as suas verdades e as suas mentiras!

    Bentinho se protege criando camadas e mais camadas e fechando-se por inteiro. É teimoso! Ensimesmado! É, por isso, o casmurro. Dom Casmurro.

    Bentinho acredita no que escreve! Bentinho fervorosamente acredita no que escreve!

    Não teremos a versão de Capitu. Bentinho não cria a oportunidade. Não quer. Não pode. O que sabemos é que os olhos de ressaca prenunciam Escobar.  O que sabemos é que o choro de Capitu provoca sentimentos e sensações diversas. Entre palavras e sentidos, postos e expostos, induzidos e conduzidos, os argumentos do narrador acusam a traição.

    Mais um ponto para Machado.

    Contar histórias define nossa identidade! Somos o que contamos e ouvimos.

    Reside aí a grande questão de tudo o que se entende como narrativa: as verdades e as mentiras são contadas e recontadas de modo a fazer das verdades, mentiras e, das mentiras, verdades… ou ainda embaralhar bem os dois conceitos para não se saber distinguir o que é verdade ou o que é mentira!

    Assim, todos os narradores contam suas histórias. E acreditamos nas mentiras ou verdades que são contadas através dos séculos.

    Assim, conhecemos uma parte da história de Capitu. Desbravamos as terras e o sertão dentro de Riobaldo. Esfarelamos a terra e sentimos o calor e a fome de Fabiano.

    Enfim, enquanto for possível abrir um livro, muitas vozes, inúmeras vozes se manifestarão. Serão as vozes de todos os narradores iniciando suas histórias e fazendo cada leitor acreditar nas suas verdades e nas suas mentiras


  • Sobre ontem

    Contrariada, acordei às 6h da manhã. Hoje é dia de Pilates e caminhada. Pensei em esbravejar, dizer o quanto eu odeio esse compromisso com o bem viver, mas melhor não.

    Faz tempo que aceitei que atividade física é remédio. Não importa se o gosto é ruim, se a drágea é muito grande, engole! Também cansei da cobrança de encontrar um exercício que me desse prazer, já fiz muito esforço para achar um amor, a empreitada é inglória. Então, me troquei e fui. 

    Na volta da caminhada, num calor de furar o saco da paciência, decidi passar na padaria para comprar um picolé Magnum. Adentrei no recinto e me lembrei da dieta que prometi começar hoje. Adio o projeto por mais um dia? Talvez não seja tão complicado, tenho adiado há 50 anos… não, melhor não. Perderia muito da minha admiração por mim. Preciso ter palavra. Me prometi ser mais honesta comigo. Quem sabe um picolé de fruta? Com certeza, é menos calórico que o Magnum. Não, melhor ficar sem nada do que aceitar remendas no desejo. 

    Superado! Hoje tem o meu programa favorito na tevê. É por ele que aguardo e me motivo a seguir em frente. 

    O tempo dança com os ponteiros do relógio de parede, enquanto espera o fim do meu expediente.

    Tomo um banho caprichado feito quem se prepara para a festa. Lanço mão do pijama preferido. Ligo a tevê, o ar, sim, mereço, nada de mesquinharias. Faço a pipoca, salgada, porque fiz promessa de ficar sem açúcar até o carnaval. Me estico no sofá. Mereço! Começa o programa. Um estrondo anuncia o fim da atividade laboral de um transformador. Acaba a luz. Breu. Da varanda, vejo uma tevê acesa no prédio em frente. 

    Será que o morador reconhece a sorte de estar naquele prédio, naquela sala, naquele momento? Será que assiste ao meu programa ou foi vencido pelo sono e dorme sem saber do seu privilégio? 

    Espero. Espero. Escrevo a crônica. O sono chega. A chuva leva para longe a irritação.

    Em algum lugar alguém deseja esse silêncio, esse tempo, essa chance de pensar no amanhã como possibilidade. 


  • Tudo novo de novo

    O início de ano, quando há troca de gestão municipal, não surpreende ninguém. E quando há troca de gestão estadual e federal, não é diferente. São comuns os discursos tarimbados, com argumentos fantasiosos e copiados dos governos anteriores (nunca cumpridos, de fato). São mais comuns ainda as votações de projetos polêmicos em ampla aceitação justamente nos dias em que ninguém está com paciência para a política.

    Então, ano sim ano não, a gente acaba passando pelo mesmo tipo de raiva. Não indico remédios, embora os conheça (alguns, inclusive, um nocaute), não indico nenhuma atividade além do saco de pancadas e do ódio, por mais infantil que pareça. Eu diria, inclusive, que sentir ódio da política brasileira é como a gripe: todos teremos um dia. Umas fortes, outras fracas, umas retornam depois de um tempo, outras são curadas rapidamente, mas basta um nariz entupido para o incômodo reaparecer e as lembranças poluírem a nossa memória. Com a política é também assim.

    E, de fato, a mudança de gestão é uma festa. A ala vencedora promete honestidade e transparência. A ala perdedora se cala, tenta um estreitamento de laços e, talvez, uma vaguinha como cargo comissionado, afinal, eles sempre podem precisar de um favor aqui ou acolá. Dois meses antes, se ofendiam mutuamente em debates na rádio ou na televisão, agora discursam em tom harmonioso. Isso é absolutamente normal, porque, como diz o jargão dos anos oitenta ou noventa (não sei, exatamente), a política é suja. Não há como discordar. E esse encardido não sai de jeito nenhum.

    Legislar em causa própria parece ser um dever tão importante quanto prometer melhorias para a saúde e para a educação durante a campanha. Passam meio ano dizendo que precisamos de alternativas, defendendo uma nova forma de fazer política, sugerindo que apenas com eles teremos uma saída para um mundo melhor, sem corrupção e, deveras, desenvolvido. Após a eleição, antes mesmo de assumirem os seus tão almejados postos, conseguem (de que maneira, não sei) angariar apoio e aceitação para votarem em regime de urgência o aumento dos próprios salários. Culpa da inflação, claro.

    Quando nós estamos pensando em descansar, planejando as festas de fim de ano, organizando a ceia de natal, o reencontro com familiares, as férias ou possíveis viagens, eles, nossos amigos vereadores (inclusive os que não se reelegeram ou não tentaram a reeleição), por sua vez, estão votando rapidamente o aumento dos seus honorários.

    Prefeitos, vices e secretários são também lembrados nessa barca, por obviedade. Eu sempre me perguntei por qual motivo os vereadores merecem salários tão altos, visto que, as sessões das câmaras municipais ocorrem, geralmente, à noite, e eles não precisam deixar os seus empregos para cumprir sua função política. Até entendo que, muitas vezes, viajam pra lá e pra cá, buscando apoio, emendas parlamentares e seja lá o que for; no entanto, ainda acho que o pagamento de diárias para esses translados já bastaria (embora recebam o valor da mesma forma, em adição ao salário). Além disso, as sessões, por vezes, não duram sequer uma hora. Então, poderíamos considerar que um vereador de cidade média ou pequena, recebe o equivalente a quatro ou cinco salários mínimos, quando pouco, para participar de quatro ou cinco horas de sessão por mês. Não parece estranho para vocês?

    Não ficarei aqui comparando o custo de cada vereador, nem calculando o salário dos vereadores com o do cidadão comum, tampouco dividirei esse montante por horas trabalhadas. Não gostaria de causar constrangimentos (na verdade, gostaria). Por isso, quero apenas expressar a minha desvelada indignação com os aumentos dos nossos representantes, que chegam, em alguns casos, a dobrar o salário dos ilustres.

    Não preciso lembrar que isso tudo sairá do nosso bolso, cada vez mais vazio. Sinceramente, me revolta saber que calculamos os centavos para pagar as contas, enquanto os impostos que nos consomem acabarão engrossando o feijão daqueles que tão humildemente vieram nos pedir votos e prometer renovações políticas, aqueles que, aliás, nunca mais apareceram. Me revolta ainda mais o fato de fazerem essas votações nos inícios de gestão e rirem quando questionados, defendendo a necessidade de tal acréscimo por conta da inflação, do acompanhamento do mercado ou da equiparação com cidades do mesmo porte.

    Gostaria de dizer um foda-se na cara de cada um que votou a favor do próprio aumento salarial, por mais rechonchudinhos e polidinhos que sejam seus argumentos. É inadmissível pensarem nisso em primeiro plano, quando as cidades enfrentam problemas sociais e ambientais, problemas de mobilidade urbana e segurança pública, problemas de habitação e saneamento básico, problemas com a educação e com a saúde, dentre tantos outros. Mas fazer o que, não é? Rir e desejar um feliz 2025, que seja um ano de muitas realizações, maravilhoso mesmo.


  • VALDIR E FONSECA

    Valdir e Fonseca trabalhavam na mesma empresa. Estavam na casa dos 50 anos bem vividos, um talvez mais do que o outro. Eram também vizinhos, o que não significava que eram amigos. Todos os dias saíam no memos horário, mas Valdir nem sempre voltava para casa antes do Jornal Nacional. Tinham algumas outras tantas diferenças. Valdir era quase mau humorado. Quase. Alto, magro, parecia estar sempre com fome. Mas preservava a cabeleira intacta, motivo de inveja de Fonseca. Quem o conhecia bem, dizia que era uma dama. Mas tinha cara de poucos amigos, talvez para se defender de puxas saco ou de gente chata mesmo. O que dá no mesmo. Ninguém sabia muito da sua vida particular. Muito não, quase nada. Nem mesmo Fonseca.

    Fonseca era quase o oposto. Estatura mediana, um pouco mais gordinho, quase careca. Era casado e achava que não precisava se cuidar muito mais do que um banho de manhã e outro antes de dormir e fazer a barba todos os dias. Não entendia como o vizinho estava sempre bonito e arrumado. E solteiro. Mas o que mais intrigava Fonseca era porque Valdir nunca lhe oferecera carona. Saíam religiosamente no mesmo horário, trabalhavam no mesmo local e provavelmente fariam o mesmo trajeto se Fonseca também tivesse carro. Se. Mas Fonseca ia de metrô, lotado, esmagado, suado, todos os dias. Se casou cedo, teve filhos logo, e, entre estar em casa com a família e estudar ou viajar para aproveitar as oportunidades que a empresa oferecia, preferiu a primeira opção. Não se arrependia. Gostava de ser um homem de família, com uma rotina fixa e a oportunidade de ver os filhos crescerem. Mas agora, com eles crescidos e a mulher cheia de hobbies que não lhe incluíam, sentia falta de algo mais.

    Já Valdir era diretor, só faltava ser presidente. Tinha galgado todos os degraus, de acordo com a cartilha da empresa. Fez todos os cursos, foi para todos os cantos que mandaram e hoje, ia com seu carro reluzente para a empresa. Era um modelo antigo, clássico e charmoso. Não tinha filhos e Fonseca não se lembrava se um dia ele fora casado. Parecia um lobo solitário. Mesmo assim, com todas as diferenças, eles se cumprimentavam todas as manhãs e cada um partia para o seu destino à sua maneira. Enquanto Valdir entrava no seu carro reluzente, Fonseca caminhava 3 quadras até o metrô, pensando o porquê desse comportamento do colega de trabalho. Seria timidez? Não queria se misturar com a ralé? Ou seria puro egoísmo mesmo?

    Resolveu puxar conversa na hora do cafezinho. Trabalhavam também próximos e resolveu esperar o vizinho sair de sua sala para tentar uma deixa. Ao chegar na copa onde todos se reuniam para tomar café, Fonseca atacou sem piedade:

    — Dia quente, hoje, hein?

    — Muito! Nem parece que não estamos mais no verão.

    — Pois é… o metrô estava lotado. Parecia uma sauna!

    — Imagino…

    E Valdir terminou seu café com a mesma cara de poucos amigos de sempre, deu meia volta e foi para a sua sala, sem antes dizer a Fonseca:

    — Até amanhã!

    — Até!

    Mas era muito cara de pau mesmo! O sujeito não tinha nem pena do ser humano que se espremia no metrô lotado. Não podia ser mesmo boa pessoa! Quem seria tão frio assim? Custava oferecer uma simples “caroninha”?

    Fonseca passou o dia todo com raiva de si. Chegava a ficar furioso toda vez que se lembrava da tentativa de amizade frustrada. Amizade não, carona. Chegou em casa praguejando:

    — Você acredita, Janete, que o sr. Valdir se acha muito bom para andar comigo?

    Nessa altura do campeonato, Fonseca já tinha formulado uma história na qual Valdir se achava superior e não consideraria ser amigo dele.

    — Que gritaria é essa, Fonseca? E que Valdir é esse?

    — O nosso vizinho, que trabalha comigo. Está se achando demais!

    — Eu, hein? Muito me admira você querer ser amigo dele. Aquele homem é muito estranho…

    — Estranho como?

    — Nunca reparou? Ele sai sempre no mesmo horário que você, mas nunca volta no mesmo horário. O apartamento fica com as luzes acesas até de madrugada e sempre tem barulho de música ou conversa até tarde. Mas ele nunca aparece com ninguém. Sei não…

    — Como você sabe disso tudo?

    — Às vezes eu acordo de madrugada com o seu…Quer dizer, tenho insônia, e vou beber alguma coisa. Sempre tem movimento por lá, isso as 3, 4 horas da manhã.

    Janete ia dizer que acordava com o ronco do marido, mas preferiu deixar para lá. Fonseca já estava nervoso demais.

    — Mas se ele vai dormir tão tarde, como acorda tão cedo?

    — Deve ser um zumbi! Janete levantou as mãos para dramatizar a sua opinião e Fonseca se benzeu de maneira instintiva:

    — Vade retro, Janete! Para de falar besteira!

    Mas aquilo ficou martelando na cabeça de Fonseca. Seu vizinho era, no mínimo, muito estranho. Não falava sobre a família – se é que tinha alguma – não ia nas festas da firma, não oferecia carona…não fazia nada de normal. Ele, Fonseca, ofereceria carona se tivesse um carro, por que não?

    No outro dia, no escritório, depois de mais uma saga no metrô, Fonseca resolveu tirar aquilo a limpo:

    — Você sabe por que o Valdir não oferece carona para ninguém?

    — Como assim?

    Fonseca ficou obcecado com o tema Valdir. Começou a achar que tinha mesmo algo estranho com o seu vizinho zumbi e resolveu perguntar para os colegas mais chegados o que eles achavam do chefe. Dona Telma, que era secretária de Valdir desde sempre, com certeza poderia esclarecer:

    — Ele já me deu carona uma vez, sim. Mas já tem algum tempo. Por quê?

    Hummmm…Então o vizinho zumbi oferecia caronas para mulheres e não para homens. Podia ser uma pista. Ou era só mais um clichê: chefe dá carona para a secretária na hora do almoço e acaba indo parar no motel. Não, era muito cliché, mesmo para Valdir.

    — Seu Lupércio, me responde uma coisa: O que o senhor acha do Valdir?

    — Seu Valdir é uma dama! Por que o senhor quer saber?

    — É por quê…Porque vamos fazer uma festa surpresa para ele e estamos pensando no que ele gostaria de ganhar. Alguma sugestão?

    — Para o senhor Valdir? Ele merece muita coisa! Pode contar comigo para o presente!

    Agora essa. Nem pegava carona com o dito e agora ia ter que fazer uma festa surpresa. Nem ao menos sabia a data do aniversário de Valdir. Vizinhos há quase 30 anos e nunca se parabenizaram por nada. Nem quando Fonseca se casou, teve filhos…Por que nunca foram próximos? A voz de Janete parecia ressoar no fundo da sua mente: É porque ele é um zumbiiiiii!!!!!!!

    Teria que dar uma olhada no mural da empresa, lá com certeza tinha o aniversário de todos os funcionários. Chegou até a letra V: Vagner, Valentina, Valdir…02 de março de 1964. 02 de março de 1964? Eles faziam aniversário praticamente no mesmo dia, Fonseca era do dia 04. Que coincidência. E nem assim eles eram amigos? Aniversário aproxima as pessoas, ora essa. Fonseca estava sentimental. Poderiam ser irmãos gêmeos praticamente. Precisava corrigir isso. Ia fazer uma festa surpresa para Valdir. Foi para casa cheio de ideias:

    — Janete, vou precisar de sua ajuda. Vamos fazer uma festa surpresa para o Valdir!

    — Ah, pronto…Agora que o homem endoidou de vez!

    — Não escutei, Janete!

    — Nada não, meu marido…Do que você precisa? – Tem horas que é melhor não contrariar.

    — Bolo, balão, salgadinho, brigadeiro…Será que ele gosta de brigadeiro?

    — Alguém não gosta?

    — Tem razão Janete. Todo mundo gosta de brigadeiro. Vamos fazer uma festa de arromba para Valdir.

    Janete só resmungava: Eu, hein?

    No dia seguinte, no mesmo horário, os dois se encontraram como de costume na porta do prédio. Valdir, todo elegante e cheiroso — chegava exatamente assim no escritório, sem nada fora do lugar — e Fonseca com ar de criança travessa, falando apressado:

    — Tá chegando, hein?

    — O que que está chegando?

    — Deixa pra lá…Rs… Melhor não estragar a surpresa!

    Valdir deu de ombros, um pouco confuso com essa mudança repentina do vizinho, enquanto Fonseca caminhou suas três quadras rotineiras de uma maneira quase eufórica. Se sentia leve, como se estivesse prestes a um grande feito. Tinha certeza de que seriam, afinal, grandes amigos. Com direito a carona!

    Dona Telma já estava de prontidão quando Fonseca chegou no escritório. Ela estava responsável por encomendar os salgadinhos e docinhos e queria algumas sugestões:

    — Kibe ou coxinha?

    — Eu adoro os dois!

    — Eu também, mas o Valdir é vegetariano. Talvez uma empada de palmito?

    — Vegetariano? Desde quando?

    — Sei lá. Só sei que é.

    Um zumbi vegetariano? E lá vinha a voz da Janete: Ele é um zummmmbiiiiiiiii!!!!!

    — Chega!

    — Eu, hein? Tá estressado Fonseca?

    — Não, desculpa, dona Telma. Vamos escolher empada de palmito. Mais alguma coisa?

    — Refrigerantes e sucos já forma comprados e deixei na geladeira do refeitório, todas com etiqueta para ninguém mexer.

    — Não vai ter uma cervejinha? Afinal, já será no fim do expediente…

    — O Valdir não bebe, Fonseca! Eu, hein? Por que você quer fazer uma festa para alguém que você nem sabe se bebe ou não?

    — Isso não importa Dona Telma. Mais uma coisa…O Valdir já foi casado?

    — Não acredito, Fonseca. Valdir é viúvo, já tem muito tempo. Sério mesmo que você não sabia nem disso?

    — A senhora há de convir que o Valdir é um tanto reservado, né? Mas depois dessa festa tudo vai mudar, a senhora vai ver. Nós não somos amigos ainda. Mas vamos ser!

    — Tem certeza?

    — Claro, Dona Telma. Seremos melhores amigos, a senhora vai ver! Seu olhar era quase vidrado. Pobre Fonseca.

    Mas o que ninguém sabia, muito menos Fonseca, era que Valdir, nessa vida, não gostava de 2 coisas: aniversários e de dar carona. Não gostava de festa, ficava ranzinza, se achava mais velho e não fazia questão nenhuma de ser lembrado da idade que avançava a cada ano. E a carona…Era mania mesmo. Tinha um carinho especial pelo carro: foi nele que ensinou a esposa a dirigir, aos trancos e barrancos. Ela não gostava, ficava tensa, mas no fim riam de suas inseguranças e da sua total falta de atenção. Como ela sabia rir de si mesma! E como era sensível…Uma vez quase atropelou um cachorrinho e chegou chorando em casa.

    — Mas foi quase, querida, ele não morreu!

    — Mas podia ter morrido Valdir… Não iria me perdoar nunca!

    E ele a consolava em seus braços e nada mais parecia importar. Sua sensibilidade e bom humor eram suas maiores qualidades e conquistavam Valdir todos os dias. Então, ele nem poderia imaginar alguém maculando aquele carro. Além disso, era uma negação pela manhã. Tinha verdadeiro horror, falta de paciência mesmo para conversas matutinas. Dormia pouco, pois adorava ver filmes até tarde – seu único prazer depois de ter ficado viúvo – e se achava péssima companhia pela manhã. Evitava que o outro também lhe achasse chato e ainda preservava seu carro de caronistas que teimavam em bater as portas sem a menor sensibilidade. Não era um zumbi. Era um cricri. Mas também uma dama, segundo seu Lupércio.

    Em casa, Fonseca ficou pensando na mulher de Valdir. Não se lembrava dela, nunca tinha visto uma foto no escritório de Valdir. Estranho…

    — Janete, você se lembra da mulher do Valdir?

    — Mulher do Valdir?

    — Sim. A secretária dele, Dona Telma, me disse hoje que ele é viúvo. Você se lembra de algo?

    — Agora que você falou, acho que a vi algumas vezes. Ana…não, Ângela. Mas isso tem muito tempo…O que aconteceu, eles se separaram?

    — Não, Janete. Ela faleceu.

    — Faleceu? Gente, mas…Fomos à missa, ao enterro?

    — Não lembro, Janete. Isso não é estranho? Será que somos tão insensíveis assim? Nem me lembro do rosto dela. E no escritório do Valdir não tem nenhuma foto, nada que lembre a mulher.

    — Isso sim é estranho… Zuuumbiiiiiiiiiiii!!!!

    Claro que Valdir tinha uma foto de sua Ângela. Uma foto linda, de close, tirada na lua de mel em Veneza. Os melhores dias de sua vida. Ela ficava estrategicamente guardada na segunda gaveta a esquerda da sua mesa de trabalho. Ninguém precisava vê-la além dele. E eles se viam várias vezes durante o dia. Sempre que algo novo acontecia, quando Valdir estava preocupado, sem saber como resolver um problema ou quando queria apenas fofocar. Sim, eles fofocavam muito:

    — Você acredita, Ângela, que a Telma insiste em voltar para aquele tal de Roberto? Já avisei que ele não presta, mas ele parece que não me ouve. Ah, se você estivesse aqui, com certeza saberia como falar com ela. Sinto tanto a sua falta…

    Valdir sorria um sorriso triste e Ângela lhe sorria de volta, como sempre. Seu melhor sorriso, registrado na sua melhor foto. Talvez por isso permanecesse no escritório até altas horas, entre conversas com sua amada e os problemas do dia a dia. Gostava do silêncio pós expediente, conseguia pensar melhor. Era um mundo só dele, como todos os outros. Em casa ou em qualquer outro lugar, era um homem absolutamente só.

    Pela manhã, no escritório, o clima era tenso. Muitos estavam se perguntando por que fazer uma festa para aquele chefe que não gostava de festas, não dava carona e não tinha amigos no escritório. Ou melhor, só tinha um: Seu Lupércio. Ele era o mais animado com os preparativos, junto com Dona Telma, que já tinha até pegado uma carona com Valdir. Vai saber o que aconteceu naquela carona! Chegaram a questionar Fonseca:

    — Por que essa festa em cima da hora para aquele chato do Valdir?

    — Quem disse que ele é chato? Ele é meu amigo, respeito é bom e eu gosto! – Rebatia Fonseca batendo no peito com orgulho.

    — Amigo? Nunca vi ele te dando nem ao menos uma carona…E sei que vocês são vizinhos!

    De novo aquele maldito assunto da carona. Por que raios o Valdir era daquele jeito? Não é possível que não tivesse nenhuma qualidade. Resolveu apelar para seu Lupércio, que insistia em dizer que “Valdir era uma dama.”

    — Você não sabe, Fonseca? Sr. Valdir é um homem muito bom, muito culto…Quando entrei para empresa, era um simples faxineiro. Ele conversava comigo todos os dias, perguntava sobre os estudos, sobre a minha família…Um dia, disse-lhe que gostaria de fazer uma faculdade de administração para ter alguma chance de crescer, melhorar de vida. Ele pagou o meu cursinho e a minha faculdade. Hoje, já sou gerente e pude dar ao meu filho a melhor educação, a que eu não tive. Quando meu filho entrou na faculdade no ano passado o Sr. Valdir fez questão de lhe dar um belo presente. Devo tudo a ele!

    Isso tudo deixava Fonseca ainda mais intrigado. Se ele era uma pessoa tão boa, por que fazia questão de andar de cara fechada e não dar muita bola para ninguém? Para Dona Telma ele dava, ah se dava…

    As perguntas de Fonseca sobre Valdir foram repercutindo na empresa e a insatisfação geral com esse puxa-saquismo repentino dele também. Claro que, mais cedo ou mais tarde, aquilo ia acabar chegando nos ouvidos de Valdir. E chegou.

    — Nunca vi ninguém fazer festa nessa empresa, e de repente o doido do Fonseca inventou de comemorar aniversário do Valdir. Justo daquela “mala”!

    — Pelo amor de Deus, nem me fala! Pior que todo mundo vai ter que ir, vai ser no horário do expediente… Até isso!

    Valdir sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao ouvir essa conversa. Estava chegando na salinha do café quando dois colegas acabavam de ter o diálogo. Eles se entreolharam rapidamente e tentaram disfarçar, falando sobre o jogo do Botafogo na noite anterior, que andava mal das pernas, mesmo com o novo técnico e um elenco estrelado. Mas o mal já tinha sido feito. Ele escutara tudo, mas fingiu que não tinha, digamos, entendido:

    — Vergonha, né? Tanto dinheiro investido e o Fogão não ganha uma!

    — O senhor gosta de futebol, Sr. Valdir?

    — Pode me chamar de Valdir, amigão!

    Amigão? Valdir nunca tinha dado nenhum tipo de intimidade para ninguém no escritório. Os dois sorriram meio sem graça e, ainda desconfiados com a amizade repentina, continuaram a conversa com o “amigão.”

    — Então, amigão, estamos combinando de ir ao FLA x FLU no final de semana. Vamos?

    — Mas é claro! Contem comigo!

    Valdir não sabia de onde essas palavras tinham saído. Não ia a um jogo há anos e não sabia nem onde comprar um ingresso. Mas depois que foi praticamente crucificado pelos dois colegas, se sentiu na obrigação de tentar reverter essa impressão. Será que todos pensavam o mesmo? Meu Deus, estava tão envolvido em mostrar autoridade e ser competente, que tinha se esquecido do social. Desde que sua esposa morreu, tinha se esquecido também de si.

    — Dona Telma, preciso falar com a senhora urgente!

    — O que aconteceu, Valdir?

    Dona Telma era sua secretária desde que ele tinha chegado ao cargo de gerente e o acompanhara na ascensão à diretoria e à nova sala, muito maior e elegante. Eles se conheceram quando entraram para a empresa, há quase 30 anos, e se tornaram grandes amigos, confidentes até. Valdir foi o ombro amigo de Dona Telma quando ela perdeu os pais, o seu primeiro gato e depois de todos os foras dos canalhas que ela insistia em namorar. Depois de tanta decepção, resolveu, por fim, adotar outro gato e está feliz e solteira desde então. Da mesma forma, foi Dona Telma que esteve ao lado de Valdir quando a esposa morreu, cuidando de todos os trâmites cabíveis e, também, do coração do amigo, que se despedaçou de tantas formas que até hoje ele não tinha conseguido colar.

    — A senhora sabe que as pessoas me odeiam?

    Dona Telma fez uma expressão que ele conhecia bem: franziu a testa, levou a boca para o lado esquerdo e abaixou a cabeça. Se virou, fechou a porta e voltou-se para ele séria. Começou a frase com um sussurro:

    — Não é que eles te odeiam, Valdir…

    — Você sabia disso e nunca me disse nada? – gritou Valdir exasperado.

    — Fala baixo, pelo amor de Deus.

    — Falar baixo por quê? Eu sou o chefe dessa joça!

    — Valdir, olha só…

    — Conheço o seu “olha só”. Não quero saber de olha só!

    — Não é que eles te odeiam. Na verdade, acho que ninguém aqui te conhece bem. Você não vai aos happy hours, não oferece carona, não conversa muito…Até o Fonseca, que está preparando a festinha surpresa do seu aniversário, não sabia que você era vegetariano, por exemplo. Talvez, se vo…

    — Como é que é? O Fonseca está organizando uma festa surpresa para mim?

    Naquele instante, quem gelou foi Dona Telma. Ela mesma havia se esquecido que o seu chefe e grande amigo DETESTAVA aniversário, muito mais festa surpresa. Tentou se justificar:

    — A culpa é sua! Ele veio com uma conversa estranha se você oferecia carona, depois descobriu que o seu aniversário é colado no dele e agora resolveu que vocês serão grandes amigos depois da grande festa que ele está organizando. Quem mandou ser assim?

    — Telma, eu não acredito que você deixou isso chegar nesse ponto!

    — Ou era isso ou eu teria que contar que você é uma dama, que me deu carona várias vezes para eu visitar o meu pai no hospital e aí a sua fama de mal ia para o brejo. Qual vai ser?

    Valdir respirou fundo. Contou até 10…100…Parecia que ia explodir. Dona Telma fechou os olhos institivamente esperando a bronca homérica que estava por vir. Mas Valdir foi se acalmando quando chegou no 99. Seu rosto voltou a cor normal e o sangue parecia ter voltado a circular pelo resto do corpo. Estava em uma verdadeira encruzilhada da vida. Aquele momento em que você precisa tomar uma atitude drástica: Ou se mantinha durão e antipático, ou se tornava um chefe descolado e sociável, com direito a dar carona e a sorrir na festa surpresa.

    Quando finalmente abriu a boca para falar, nem mesmo Valdir se reconheceu. A fala veio mansa, suave, e ele disse:

    — Ajude Fonseca a fazer uma bela festa. E vamos pensar em uma maneira dos vizinhos darem carona uns aos outros. É isso.

    Dona Telma foi abrindo os olhos devagar, tentado enxergar aquilo que seus ouvidos não acreditavam. Parecia pronta para receber um grande impacto, mas seu corpo todo foi saindo da defensiva e voltando ao estado normal. Ainda sem acreditar, apenas respondeu:

    — Pode deixar.

    E saiu da sala ainda querendo entender o que havia acontecido lá dentro.

    Finalmente, o dia da grande festa chegou. Fonseca não se aguentava mais, quase havia deixado escapar para Valdir alguma pista nas várias vezes que se encontraram na hora do café, mas respirava fundo e dizia apenas:

    — Tá chegando!

    Esse “tá chegando”, que antes havia deixado Valdir apenas confuso, hoje lhe dava cólicas de aflição. Por já saber da festa, teria que fingir a surpresa, e mais: fingir que havia adorado a surpresa. ADORADO, como aconselhara Dona Telma, para que ele mudasse a sua má fama na empresa. Até treinar na frente do espelho Valdir estava treinando. Mas o seu maxilar parecia ter se esquecido de como era sorrir. Cada tentativa parecia mais falsa do que a outra e ele tinha medo de que a sua expressão se congelasse e ele nunca mais pudesse se mexer. Era como um botox eterno. Por que precisava tanto da aceitação do outro? Tudo estava tão bem do jeito que ele já estava acostumado!

    O dia foi passando normalmente. Valdir almoçou sozinho como de costume e, ao escovar os dentes, treinou mais algumas expressões que pudessem alegrar Fonseca. Teve medo daquelas caretas e tentou relaxar, dizendo um “Seja o que Deus quiser’. Tentou se concentrar nos problemas da empresa que não eram poucos, mas o relógio parecia ter se tornado seu inimigo: As horas se arrastavam da maneira que ele tanto havia pedido em outros momentos da sua vida. Quando descobriu a doença terminal da mulher. Quando escutava seu riso já fraco. Quando seus lábios não queriam se desgrudar e o abraço se fazia ninho. Como queria ter mais um minuto ao lado dela. Como sentia falta da sua companheira de vida!

    — Vamos?

    Era Dona Telma, toda faceira, despertando Valdir de suas lembranças. Ela estava toda arrumada, parece que a festa ia mesmo ser boa.

    — Tem certeza que preciso mesmo ir?

    — A festa é para você, tem graça se não for, né?

    — Delicada, hein?

    Eles riram juntos daquela cumplicidade boa. De repente, Telma parou seu sorriso com as mãos e disse:

    — É isso! Faz assim que será perfeito.

    — Obrigado amiga. E me lembra de ligar para a oficina depois, tenho que buscar meu carro.

    — Sim senhor! Ela esboçou uma continência, ele lhe deu um abraço. Foram juntos para o salão nobre da empresa, que já estava todo enfeitado.

    Assim que se aproximaram, Fonseca abriu a porta de repente e gritou:

    — SURPRESA!!!!!

    Talvez tenha sido a cara de felicidade de Fonseca ou o primor que tudo tinha sido feito. Mas a questão é que Valdir conseguiu dar um belo sorriso. Daqueles que veem do coração mesmo. Dona Telma enxugou uma lágrima teimosa.

    — O senhor gostou?

    — Está uma maravilha!

    Fonseca não se aguentou e partiu para o abraço. Aquilo era a glória. Meio desajeitados, acabaram preferindo um aperto de mão.

    — Excelente trabalho Fonseca, parabéns!

    — Parabéns para você, amigão! Na cabeça de Fonseca, já eram íntimos.

    E todos começaram a bater palmas e se aproximaram do chefe para cumprimentá-lo. Era uma bela festa, e Valdir realmente estava gostando. Era como um sopro de alegria em tantos anos de uma quase clausura. Finalmente parecia achar graça em algo que não tinha a ver com a sua casa e as suas lembranças da esposa. Desde o seu falecimento, só queria saber de trabalhar e rever os filmes que tinham visto juntos. Ele gostava de imaginar que ela estava ao seu lado, dando sua risada gostosa ou chorando das cenas bobas. Falava sozinho, tentava lembrar do que ela havia dito em cada cena, ria da mania que ela tinha de adivinhar em qual filme aquele ator italiano tinha atuado. Como sentia falta desses momentos…

    — Continue sorrindo assim que amanhã muitos já vão te adorar!

    Era Telma novamente o aconselhando. Mal sabia ela o motivo dos seus sorrisos. Mas é claro, estava se sentindo bem com toda aquela atenção e sabia que poderia ser uma pessoa melhor ao se aproximar dos seus colegas de trabalho. Resolveu começar por Fonseca:

    — Muito obrigada por essa festa, Fonseca. Realmente não tenho palavras para lhe agradecer. Faço questão de te dar uma carona hoje. Somos vizinhos, afinal!

    Fonseca mal se conteve na frente de Valdir. Lhe deu uns tapinhas nas costas e foi correndo para o banheiro. Chorou um choro de menino, aquele que finalmente teve aprovação do pai, mas ao mesmo tempo não quer que ele lhe veja emocionado.

    A festa fez tanto sucesso que entrou noite adentro. Alguns compraram cerveja, pessoas de outros setores acabaram dando uma passadinha, tudo ia às mil maravilhas. Valdir circulava entre todos, sempre ao lado de Dona Telma, que lhe dava um resumo rápido antes dele se aproximar de alguém:

    — Esse é o Ricardo, do Financeiro. Acabou de ter um filho.

    — Ricardo, parabéns! Ser pai é uma grande alegria, aproveite!

    E Valdir convertia mais um. Dona Telma seguia firme:

    — Essa é a Carolina, começou há pouco na empresa e já tem se destacado.

    — Carol, já estou sabendo que você está bombando!

    E recebia um ou outro beliscão de Dona Telma quando passava do ponto:

    — Carol, Valdir? Que intimidade é essa?

    — Me deixa, Telma. Sou iniciante nessa arte!

    E eles riam e voltavam à missão de fazer Valdir ser um ser social.

    Depois de vários abraços, comentários amigáveis e excesso de socialização, Valdir estava pronto para voltar ao seu refúgio. Não sem antes chamar Fonseca para a tão esperada carona.

    — Vamos Fonseca? Te deixo em casa!

    Era tudo que ele sempre sonhara. Foram juntos até o elevador e Valdir apertou o G. Estava mesmo acontecendo. Fonseca ia entrar no carro de Valdir. Iam trocar figurinhas, falar da festa, quem sabe eles não falavam um pouco de trabalho? Não, hoje não, hoje era dia de festa. Falariam sobre coisas amenas. Fonseca iria convidar Valdir para jantar na sua casa no dia do seu aniversário. Jantar não, ia fazer um churrasco no salão de festas, isso. Eles entrariam no carro e Fonseca talvez dissesse que estava pensando em comprar aquele modelo. Valdir lhe daria as dicas, quem sabe até lhe desse um aumento para lhe ajudar? Seria o começo de uma grande amizade, tinha certeza disso.

    Assim que o elevador se abriu, Valdir começou a procurar as chaves do carro. Colocou as mãos nos bolsos da calça, do paletó, da camisa. Pediu para Fonseca esperar enquanto abria a maleta e procurava as chaves dentro dela, em cada cantinho da sua bela maleta de couro. Fonseca achava tão elegante ter uma maleta de couro. Um dia teria a sua, tinha certeza. Quem sabe Valdir não lhe daria uma de aniversário?

    — Meu Deus, onde foi que deixei as minhas chaves?

    — Será que, por descuido, você não deixou dentro do carro?

    — Será? Do jeito que estou distraído ultimamente, pode até ser.

    — Onde ele está estacionado?

    — F1

    — Estamos no E, deve ser logo ali.

    E foram seguindo a direção que o dedo de Valdir apontava.

    — F0, F1… é aqui?

    — É. Ou melhor. Deveria ser.

    — Não tem carro nenhum aqui, Valdir.

    — Sim, estou vendo. Mas não estou entendendo.

    — Como assim? Você me faz vir até aqui, promete me dar uma carona, mas não tem carro nenhum estacionado?

    — Devem ter me roubado!

    — Ah, tá. Você passa a vida toda me esnobando, nunca me oferece carona, e no dia que eu faço uma megafesta para comemorar o seu aniversário, você me vem com uma pegadinha?

    — Que pegadinha, Fonseca? Você realmente acha que eu iria perder meu tempo mentindo para você? Se ofereci carona é porque sabia que meu carro estaria aqui. Ou pelo menos achei que sabia.

    — Ah, conta outra…

    — Meu Deus do céu, Fonseca. Juro que a minha intenção era te dar carona, mas que diabos! E outra: não te pedi festa nenhuma, você fez porque quis!

    — Ah, mas é claro! Estava só faltando essa! Eu pelo menos gosto das pessoas, e se tivesse carro daria carona para todo mundo!

    — Chega, Fonseca. Vou ligar para Dona Telma, perguntar se tem segurança por aqui e ver o que podemos fazer. Já parou para pensar que posso ter sido roubado? Tenha dó!

    — Aham…

    Já arrependido de ter oferecido a tal carona, Valdir liga para Dona Telma:

    — Telma, olha só. A vaga do meu carro sempre foi a F1, não foi?

    — Claro, desde que você se tornou diretor. Por quê?

    — Porque estou olhando para ela e meu carro não está aqui.

    — Claro que não está. Você o levou para a oficina hoje de manhã. Até pediu para que eu lhe lembrasse de ligar para lá amanhã.

    Valdir quis soltar um palavrão, mas ficou com medo da reação de Fonseca. Ele jamais iria acreditar naquela história.

    — Isso mesmo, Dona Telma. A senhora tem toda razão. Vou lá agora mesmo.

    — Ficou doido?

    — Boa noite, Dona Telma. Bom descanso.

    — O que aconteceu? Vai dar carona para Dona Telma e está disfarçando comigo?

    — Só me faltava essa agora, Fonseca. Dona Telma também acha que meu carro foi roubado e devo ir à delegacia dar parte. Vou pegar um táxi até lá, posso pedir um para você também.

    — Não preciso que você me peça nenhum táxi. Vou para casa da mesma forma que venho trabalhar todos os dias, de metrô. E não pense que eu caí nessa história para boi dormir não. Relações cortadas!

    E Fonseca foi andando duro, como se tivesse sido magoado pelo grande amor da sua vida. Pegou o cartão do metrô e encarou o seu destino. Nunca iria andar no carro de Valdir.

    Ainda parado ao lado da vaga, sem saber como pedir um táxi àquela hora, Valdir praguejava:

    — É por isso que nunca dou carona!!!


  • #05 – A Besta de Gevaudan (*)

    .

    “entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan, atualmente parte de Lazere, próximo das montanhas Margueride foram aterrorizados por uma criatura lupina que passou a ser conhecida como La Bête Du Gevaudan ou “A Besta de Gevaudan”

    eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha.

    a primeira mulher atacada conseguiu escapar e chegar até ao seu vilarejo, de onde passou a adotar um comportamento estranho e agressivo. Após esse episódio, seguiu-se um tempo de calmaria, mas próximo ao natal o cântaro de água derramou e mais uma pessoa desapareceu e localizaram os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina. Suspeitaram então que um nobre renegado estava por detrás daquelas mortes, transformando-se em um lobo demoníaco em noites de lua cheia. as pessoas do vilarejo foram ficando incomodadas com essa presença lupina comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo as suas propriedades. Montaram então uma expedição de militares com um arsenal de 50 mosquetes, lanças com mais de dois metros de comprimento, armas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar o intruso animal. Os homens da expedição usavam armaduras negras de couro batido e metal cheio de espinhos, cabelos moicanos e pinturas de guerra. As suas peles eram besuntadas com os despojos de uma loba no cio para atrair a fera sanguinária. Esses trajes exalavam um fedor nauseabundo. Tudo preparado para fazer o abate, mas a besta atacou antes e matou várias pessoas da tropa. Então os aldeões revoltados se armaram com ferramentas, paus e pedras e um desespero de iconoclastas, e nada. Tudo fracassou e contrataram então um taxidermista de Paris. A nova expedição ou empreitada contava com 40 caçadores e uma dúzia de cães farejadores. Os homens concentraram-se em uma área rochosa, repleta de ravinas e onde se dispunha de água potável ao que tudo indicava ser o covil da fera. Esta última tentativa se enveredou pela floresta tendo como líder um taxidermista especialista em folclore e superstições e que, armado com projeteis e balas de prata que foram abençoadas pelo pároco local. Chegaram num bosque próximo de Gevaudan onde recitaram uma série de orações e cantigas místicas. E logo a fera, na forma de um lobo, apareceu e então todos dispararam com suas pistolas e os projeteis de pura prata que vararam o corpo da besta que caiu fulminada. Para alguns aquela era de fato a besta carniceira e quando tiraram a máscara de pelos e sangue era um homem com trajes de um maluco monge e assim foi queimado e as suas cinzas espalhadas ao vento. Foi preciso o decurso de algumas semanas até que dessem falta do homem tosquiador e descobriram então que a besta não passava do camponês que tosquiava as ovelhas e se chamava “O Monstro” e a sua descrição batia ipsis litteris com aquilo que eu era na aldeia.

    eu já fui quase do tamanho de um touro ou de um urso, meu braço e dedos direitos, em função de sequelas, pareciam garras afiadas e o conjunto todo era de uma aparência medonha, ectoplasmática.

    Da Essencialidade da Água

    (*) transcrição livre e poética do famoso caso ocorrido na França do século XVIII


  • A primeira crônica do ano

    Esta é a primeira crônica do ano. Um ano novinho cheio de sonhos e projetos para o futuro!

    Esta é uma crônica de início. Uma crônica que cheira o novo, como presente recém-aberto, esperando ser tocado, usado, experimentado pela primeira vez…

    O que imaginamos de um ano que se inicia?

    Que sejamos felizes e tenhamos paz?

    Que conquistemos tudo aquilo que desejamos?

    Que nossos esforços sejam recompensados?

    Na virada do ano, quando os fogos de artifício colorem o céu das cidades, olhamos para cima, extasiados com a profusão de cores e luzes. Nesse momento, fechamos os nossos olhos e desejamos um ano incrível, diferente do anterior (sempre o ano que virá tem a promessa de ser melhor do que o que passou).

    A verdade é que desejamos um ano inteiro todo novo e melhor, mas não mudamos por dentro.

    Desejamos o novo, mas não somos o novo!

    Esta é a primeira crônica do ano e, por isso mesmo, cumpre seu papel de registrar o que fazemos nesse período: desejar coisas boas e querer o melhor!

    Entretanto, esta mesma crônica fica como uma reflexão: cuidemos de nós por dentro para que tenhamos um ano melhor.

    Sejamos melhores e o ano, de bom grado, será melhor também!


  • Humor e Velhice

    Fala-se que, na velhice, a vida perde a graça. Discordo. Quem perde a graça é o velho, não a vida, que sempre está aberta a quem quer desfrutá-la. Uma das formas de evitar que a graça se perca, mesmo sendo avançada a idade, é cultivar o humor.

    O bom humor diante das limitações que a idade impõe é uma forma de resignação ativa. Existe a resignação passiva, que leva à tristeza e a uma espécie de submissão ressentida aos percalços da idade. Não é essa a que o humor propicia, pois quem ri da própria condição mostra que não se submeteu a ela.

    O riso não apenas “castiga os costumes”, conforme a expressão latina; não é só um instrumento de crítica social e um recurso para transformar as instituições. Ele também constitui um meio de aferição das carências individuais. Concorre para que o indivíduo tenha a exata medida do seu valor e, sobretudo, reconheça suas fraquezas e impossibilidades.

    Rir de si mesmo é um gesto grandioso porque vai de encontro ao egoísmo e à presunção de superioridade sobre os outros. Só os grandes espíritos são capazes disso, pois não temem se ver como verdadeiramente são, quer dizer, sem as máscaras com que normalmente atuam na sociedade. “Atuam” é bem o termo, pois o convívio com as outras pessoas tem muito de representação. E ninguém representa o que é, mas sim o que pensa ou deseja ser.

    Rimos do absurdo de certos comportamentos, como o de se deixar filmar vandalizando a sede dos Três Poderes; da hipocrisia dos que no púlpito pregam virtudes, mas na prática são capazes de atos extremos como assassinar alguém; dos que falsamente invocam a pátria e a família para conquistar o poder. O riso atesta um descompasso entre o propósito e a feitura, a expectativa e o fato, a visão do mundo e o que o mundo realmente é.

    Fala-se que os humoristas são tristes, o que em nada surpreende. Se escolhem o humor, é porque há nele a revelação da impotência humana para mudar o que a vida tem de insuficiente e frustrante; os humoristas traduzem como poucos essa dura percepção. Toda manifestação de humor é, no fundo, um gesto de piedade. Só que o humorista não tem o propósito de salvar nada nem ninguém; ri desse ingênuo propósito, que não nos redime da nossa condição.

    Aos velhos, para os quais tendem a se fechar as possibilidades de viver plenamente, o humor é uma espécie de volta por cima. Um meio de superar as limitações de um corpo no qual mínguam os recursos vitais. Nessa quadra da vida, propícia ao cultivo do espírito, o riso aparece como um saber que consola – com a vantagem de reduzir a pressão e aliviar as coronárias. É preciso desconfiar dos velhos que não aprenderam a rir.


  • Clementina

    Este ano toca plantar e colher milho, já deram a ordem. Antes já foi feijão e trigo. Milho agora. A gente ouve, a gente cumpre. Mas não vai chover uma gota, disseram. Outra colheita perdida. Apesar de tudo, Clementina segue na lavoura, cavucando a terra seca com a enxada sempre à mão, fazendo valas, eliminando as ervas daninhas, arrancando cogumelos e caracóis, preparando o terreno.

    Edimburgo, que preciosidade, como veio gordinho e perfeito! Clementina viu a foto do pôr do sol na vitrine de uma agência de viagens antes de entrar no mercado para vender seus legumes e frutas. Estava para cumprir os nove meses e Edimburgo veio uma semana depois, que a natureza sabe agir como deve. No dia seguinte estava em casa e todos bateram palmas. O menino dormia.

    Clementina se lembra, seu casamento foi feito às pressas porque logo ia chegar a temporada dos tomates, depois a das azeitonas e em seguida seria o tempo dos morangos, e tempo era o que ela não podia perder. Foi quando Tereza chegou. De sete meses e meio, apesar dos três quilos bem pesados e de quase arrebentar a balança — era isso o que a avó fazia questão de contar naqueles tempos, sempre que via a neta arrumadinha para a escola. Depois Clementina percebeu que Tereza tinha vindo antes do tempo para abrir e apressar o caminho. A fila já estava preparada, era só descer.

    Foi um por ano. Marcelino, Isaura, Tomás, Percival, Marrocos, João Clemente e Célia Maria, sem contar os gêmeos, que chegaram feito duas folhas de papel transparente e até se via cada uma das veias das perninhas. Clementina quase nem percebeu, eles escorregaram de seu entrepernas quando ela estendia as roupas no varal. Não vingaram. Enterrou os dois lado a lado no canto do quintal, onde nunca falta flor.

    Clementina está cerzindo meias, entretida nesses pensamentos. Daqui a pouco vai fazer o cálculo de quantos braços dispõe para oferecer mão de obra ao dono da terra e incrementar o orçamento da casa. Célia Maria, apesar de muito nova, pode cuidar do Edimburgo, que é bebê ainda. Os demais, cada um já ganhou de presente a sua própria enxada. Não tem homem, não tem mulher: é todo mundo, sem distinção. Disseram que não vai ter chuva, mas o trabalho será feito. Clementina é quem garante.


  • Sílvia Maria

    Toda noite o barulho dos saltos de Dona Sílvia estalava no assoalho de madeira. O ritual era sempre o mesmo: ela conversava alguns minutos ao telefone, abria uma garrafa de vinho, tomava um banho demorado, se arrumava e esperava o próximo chegar. Ele tocava o interfone, ela calçava os saltos e saía apressada para abrir a porta. Parecia recuperar o fôlego antes de dar o primeiro “Oi!”, e o que se passava depois era sempre abafado por barulhos de beijos e outros um pouco mais comprometedores. Tudo durava no máximo duas horas e aí outro ritual começava: o rapaz se despedia, ela guardava as taças, abria a porta, talvez o beijasse, e descalçava os saltos no meio do corredor. Ligava a TV, abria mais uma garrafa de vinho e chorava vendo algum filme meloso até o dia raiar.

    Nunca vi Dona Sílvia sair de casa antes do meio-dia. Os motivos eram meio óbvios, mas ela estava sempre radiante no meio da tarde. Viúva, bonitona, ia sempre à academia, e talvez pela endorfina, parecia até estar de bem com a vida. Parecia. Dizem que nunca esqueceu o marido e todas as noites chamava um rapaz diferente para, digamos, conversar. Não sei exatamente se era falta de carinho ou mesmo de sexo. A questão é que ela era uma mulher realmente solitária. Os filhos quase nunca a visitavam e pareciam não aprovar essa nova forma de diversão da mãe. Mas, essa forma seria realmente nova?

    Menina bem-criada, educada em um conceituado colégio interno, aprendeu a tocar piano, sabia bordar como ninguém e se casou com aquele aprovado pelo pai. Não era só por amor, mas também por conveniência. Uniam-se sobrenomes, fortunas e filhos de maneira prática e constante naquela época.

    Como eu sei de tudo isso? Bem, isso é quase – ou bastante – constrangedor, mas um dia precisei entrar às pressas no apartamento dela. Digamos que algo saiu um pouco do controle e Sílvia se machucou com um dos rapazes. Como sou o vizinho mais próximo, acabei ganhando a missão de levá -la até o pronto socorro e trocamos algumas palavras – por educação, a princípio – mas nas visitas que lhe fiz, também por educação, fui me encantando com aquela mulher e seu modo de viver nada tradicional. Como consequência do ato impensado, Dona Sílvia quebrou o braço direito, o que a impossibilitava de fazer a maioria das atividades domésticas. Ela não me pediu diretamente, mas fez parecer que estava me fazendo um favor aceitando a minha presença em sua casa diariamente. Como eu estava tralhando em um livro e não tinha horários fixos – muito menos rígidos – para sair ou fazer algo na rua, podia dar a ela o privilégio da minha presença. Ou vice-versa, como ela colocou desde o início. O que poderia ganhar em tão insana companhia?

    No primeiro dia que fui ajudá-la encontrei a porta aberta e um cheiro doce de café e algum quitute que parecia estar sendo feito na hora. Dona Sílvia cantarolava uma canção e não parecia nada impossibilitada, mesmo com o gesso no braço direito. Sua casa era repleta de lembranças do que pareciam ser os seus áureos tempos. Além de várias fotos, provavelmente de filhos e netos, na parede principal da sala um quadro imponente se destacava. O homem retratado era tão imponente quanto e, tanto a moldura dourada quanto o semblante rígido traziam uma aura quase imperial. Quem poderia ser? Móveis pesados contrastavam com a leveza das cortinas e o colorido das almofadas. Tudo parecia requintado, caro, menos as imagens de Nossa Senhora que surgiam em diferentes estilos e tamanhos. Uma devota, com certeza. Sílvia também era Maria e naquela tarde ela vestia um robe salmão de cetim e parte do seu corpo podia ser vista entre uma e outra conferida no forno. Não me entendam mal, não poderia ter nenhum tipo de atração por aquela senhora que muito bem poderia ser minha mãe ou uma tia mais velha. Mas devo admitir que, para seus anos de experiência, ela estava mesmo em forma.

    – Você gosta de broa de milho? – Ela me perguntou entre uma estrofe e outra de alguma música de Maria Bethânia. Ou era do Roberto Carlos?

    – Adoro. Lembra as tardes da minha infância!

    – A mim também! Mas tenho certeza de que você nunca comeu nada igual à minha broa.

    Pode parecer loucura, mas percebi uma certa malícia na palavra “broa”. Ok, eu poderia estar delirando, pelo total marasmo sexual que se tornara a minha vida.

    – Esta receita é de uma beata que sempre fazia broa para os lanches de domingo na igreja que eu frequentava na minha terra. Era o primeiro quitute que acabava… não sobrava nem farelo!

    Realmente, nunca tinha provado nada igual. A broa de milho do Rio é seca, apenas com milho e farinha. A de Dona Sílvia vinha recheada de pedaços de queijo minas e ainda tinha raminhos de erva -doce. Ela derretia na boca e enchia todos os sentidos com novos cheiros e sabores. Acompanhada do café fresquinho, era quase um orgasmo gustativo. Ok, vou parar de fazer comparações sexuais. Dona Sílvia podia ser minha avó!

    – Nem sei como agradecer a sua presença, querido. Não sei o que faria sem você!

    – Pelo visto, a senhora está se saindo muito bem sem poder usar o braço direito!

    – Claro, querido! Sou canhota!

    Ardilosa, aquela mulher.

    – E, na minha época, ser canhota era como ser bruxa. Ou até mesmo o próprio belzebu. A mão esquerda sempre foi tida como coisa do capeta. Na escola, amarra- vam a nossa mão “errada” e nos forçavam a fazer tudo com a mão direita. Acabei aprendendo a usar as duas e nunca tive dificuldades em usar ambas. Ou cada uma delas da maneira que fosse preciso. Você sabia que até mesmo fazer o sinal da cruz com a mão esquerda era pecado? Nem sei se ainda é… Ainda se faz isso?

    – Sinceramente, não sei, Dona Sílvia…

    – Sílvia! Pelo amor de Deus! Não é porque tenho idade para ser sua mãe que você precisa me tratar como uma viúva italiana. Acho que devo fazer mais sexo do que você… Não tenho ouvido muitos ruídos vindos do seu apartamento!

    Sinceramente, não sei se estava comendo a broa ou tomando o café naquele momento, mas me senti tão envergonhado que só me recordo de ter cuspido alguma coisa… Ou ambas. Dona Sílvia, que poderia tanto ser minha mãe como uma das minhas professoras do ginásio, falava sobre sexo com a ousadia de uma ninfeta ninfomaníaca. Como assim, não escutava ruídos do meu apartamento? E a noite em que… E a que… Bem, venhamos e convenhamos que as coisas estavam um pouco paradas, eu estava concentrado no livro – que ainda estava no primeiro capítulo – mas ser humilhado por uma quase anciã era demais!

    – Dona Sílvia… – ou melhor, Sílvia –, me desculpe, mas eu não falo muito sobre esse tipo de assunto com pessoas com quem não tenho muita intimidade. Na verdade, acho que nunca falei sobre esse tipo de coisa com ninguém!

    – Meu Deus, mas por quê? Temos todos a mesma origem, somos seres sexuais, gostamos mais ou menos das mesmas coisas. Ou você não gosta de transar? Tem gostos bizarros?

    Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento e sentia um calor febril nas faces. Devia estar muito vermelho e gostaria apenas de sair daquele apartamento.

    – Realmente não entendo essa frescura toda quando o assunto é sexo. Se seu pai e sua mãe não tivessem feito nada disso, você não estaria aqui. Apesar de que, na minha época, a mulher transava mesmo para procriar. Você sabia que ninguém se importava se a mulher gozava ou não? E não tinha esse negócio de preliminar, não! Nosso corpo era como um santuário: não podia ser explorado, apreciado, revirado… Quanta bobagem, meu Deus! Algumas camisolas que usávamos na noite de núpcias tinham apenas uma
    abertura na… Bem, você sabe onde. Todo o resto do corpo ficava coberto, não tinha função. Fui descobrir as delícias de uma boa chupada no peito depois de viúva. Dá para acreditar? E é um manjar dos deuses, pode acreditar! Ainda atônito com a imagem de meus pais me concebendo, fiquei imaginado como uma pessoa poderia conjugar no mesmo parágrafo tanto Deus com um quase nome do órgão sexual feminino. Desculpem, mas me recuso a falar buceta. Que seja, então. Estava tonto demais com tanta informação.

    – E você? O que mais gosta na cama?

    Entendi como uma deixa: percebi que era hora de ir.

    Perguntei se ela precisava de mais alguma coisa, agradeci o lanche e deixei meu telefone para qualquer emergência. Nem meu terapeuta havia tentado invadir a minha intimidade com tamanha fúria. Levei um pedaço de broa para o café da manhã – ela insistiu – e ainda tentava esquecer a imagem de meus pais em atos obscenos quando cheguei em casa.

    Mas não foi exatamente essa imagem que não me deixou dormir. Tentava descobrir quem era aquela nova Dona Sílvia. Sílvia. Sabia que ela recebia seus amantes, que não era muito bem vista pelas outras mulheres do prédio, mas nunca imaginei que ela teria tamanha naturalidade ao falar sobre assuntos que me envergonhavam até em pensamento. Com certeza ela não teve uma criação liberal, não na época em que nasceu. Havia se tornado hippie? Era adepta do amor livre? Tinha uma vida secreta que escondera dos filhos e do marido? Quem era realmente Dona Sílvia? Ou melhor, Sílvia Maria.

    Esse era o nome que constava na conta de luz que usei como desculpa para rever a minha misteriosa vizinha. Toquei a campainha com a conta e uma vasilha com outro pedaço de bolo, esse comprado na confeitaria da esquina. Posso não ser um lorde, mas aprendi algumas coisas com minha mãe. E uma delas é que nunca se devolve um prato ou uma forma de bolo sem alguma coisa dentro. Comestível, de preferência.

    – Ei, menino! Que bom que voltou! Acho que te assustei um pouco ontem, não foi? Desculpa, mas fico muito tempo sem ter com quem falar e acabo extrapolando.

    – Imagina, Don… Sílvia. Gostei muito das nossas conversas. Talvez não estivesse mesmo preparado, mas…

    – Prometo que não vai se repetir, meu caro. Obrigada pelo bolo e pela conta.

    E fechou a porta. Como se algo urgente lhe esperasse do outro lado, como se minha presença fosse dispensável – de fato era – como se sua total independência houvesse voltado. Me senti um grande idiota. Um idiota careta, o que é pior.

    Alguns dias se passaram e não conseguia achar uma desculpa para voltar à casa de Dona Sílvia. Queria ouvir mais, falar sobre os meus dramas, os porquês da minha cama e de as páginas do meu livro estarem sempre vazias. Pensei na minha falta de inspiração e como ela poderia me ajudar. Resolvi ser sincero, me retratar. Talvez outro bolo me ajudasse. Ou uma broa de fubá.

    – Boa tarde, Sílvia. Tudo bem? Acabei de voltar da rua e não resisti ao cheiro dessa broa… Será que ela chega aos pés da sua?

    Ela sorriu de um jeito como quem não precisa de mais explicações e disse:

    – Só há um jeito de saber!

    Da cozinha vinha aquele cheiro familiar de café – parecia ter adivinhado a hora do lanche – e Sílvia Maria cantarolava uma nova música. Essa parecia ser de Gal.

    – O segredo da broa está no recheio. Esse pessoal novo não sabe disso. Broa, na minha terra, tem excesso de queijo, e queijo bom, fresco. Não queijo de supermercado, dentro de plástico. Queijo precisa respirar…

    Eu, como bom carioca da gema, nunca havia tirado leite de vaca, muito menos sabia como fazer um queijo.

    Mas Sílvia parecia ser uma expert no assunto:

    – Por exemplo: você sabe a diferença do queijo frescal para o curado?

    – Curado? O que é isso?

    – É um tipo de queijo, menino… Ele tem mais sal do que o frescal, é mais firme, mais amarelado…

    – Interessante. – Não consegui demonstrar nenhuma empolgação.

    – Mas você parece que não veio aqui falar sobre queijo, não é?

    Ela me olhou da mesma maneira maliciosa do dia da broa e – juro – eu não estava vendo coisas. Fiquei ruborizado e apenas mudei de assunto.

    – O braço da senhora está melhor?

    – Está tudo melhor, meu filho! Eu me sinto ótima, pronta para outra!

    – Por favor, Sílvia. Não vá se machucar novamente!

    – Se for da mesma maneira que da outra vez, vou adorar!

    Senti novamente aquele incômodo, e ela percebeu.

    – Me desculpa, querido… Não quero te constranger, mas não sou muito boa com as palavras… Sempre falei mais do que devia, fiz o que não podia e me dei mal quase todas as vezes.

    – Você não parece ter se dado mal na vida, Sílvia.

    – Ser mulher não é uma coisa fácil, meu filho. E para uma mulher que não se encaixa nos padrões, é muito pior.

    Sofri muito por ser diferente, por gostar demais das coisas ditas “erradas”. Hoje vejo que os errados são os outros, os que fingem sentimentos, escondem as emoções e passam pela vida alimentando mentiras. Nunca fui assim, mas não me arrependo de nada.

    – Mas a senhora parece ter tido uma vida tão normal… Foi casada, teve os seus filhos…

    – E logo, logo, serei avó…

    – Avó?

    – Na minha época, a gente se casava muito nova. Faz as contas, Carlos: tive o meu primeiro filho ainda menor de idade. Então, com 54 anos, já posso ser avó!

    Fiquei pensando que o seu corpo não condizia mesmo com a sua idade. Ela devia malhar ou aquilo tudo era fruto de uma excelente genética. Mas me desfiz dos próximos pensamentos, e continuei:

    – Que coisa boa! Está vendo, não tem como ser mais… comum!

    – Vamos deixar de ser hipócritas, Carlos. Você sabe muito bem o que eu faço todas as noites. Você me levou para o hospital depois de me ver na posição mais não-ortodoxa do Kama Sutra. Talvez nem você mesmo tenha experimentado a “Toda Poderosa”. É claro que eu não sou… comum!

    Quando ela me chamou pelo nome, me senti como se minha mãe estivesse me levando para o castigo. Mas esse sentimento desapareceu assim que ouvi a palavra “Kama Sutra”. Não sabia como tratar essa mulher. Não me sentia homem suficiente perto dela. Não era filho, não era amante… Seríamos amigos?

    – E eu até entendo esse espanto todo, pois com certeza você nunca ouviu uma mulher da minha idade falar sobre esses assuntos com tanta franqueza. E sabedoria, claro! Na minha época, a gente não tinha vez nem voz.

    Éramos apenas enfeites, seres não confiáveis, carnes penduradas no açougue para serem compradas. Só tínhamos valor se acompanhadas de um homem, fosse pai, irmão ou marido. Se não tivesse marido, depois de certa idade ficava para cuidar da mãe, porque não tinha outra serventia. Já imaginou?

    Claro que eu já tinha ouvido histórias assim, mas nunca de alguém tão próximo a mim. Apesar de ter nascido em plena revolução sexual, meus pais não eram de falar muito sobre esses assuntos e o máximo de conhecimento que obtive foi em filmes e documentários sobre algumas mulheres notáveis e o movimento feminista. Era chocante!

    – Só que eu nasci na época errada, entende? Nunca abaixei a cabeça para o meu pai; questionava todas as ordens que me eram dadas; tinha uma curiosidade feroz. Nunca aceitei não como resposta e era muito atrevida. Nossa empregada, uma senhora doce e sábia, neta de escravos, sempre dizia que o meu nariz empinado era sinal de que ninguém iria me domar. Se fosse hoje, eu acreditaria. Na época, apanhava sempre que me negava a obedecer. Um dia, talvez cansado de me bater ou de brigar, meu pai resolveu me mandar para o colégio interno com a esperança de que voltasse domada e pronta para me casar.

    Ledo engano. No primeiro dia de internato, machuquei as mãos na queda em um balanço e não conseguia me fazer entender. As freiras, francesas, viam minhas mãos sangrando e fingiam não ter como ajudar. Desesperada e com dor, fugi pela mata que circundava a escola. Me acharam toda suja e me levaram de volta. Fiquei uma semana de castigo por desobediência e lambia as mãos para acalmar o ardor das feridas. Quer mais café?

    Eu ainda sorvia as últimas informações e o derradeiro gole de café. Aceitei mais, para continuar a conversa e experimentar a tal broa que eu mesmo levara.

    – Claro! Está uma delícia! E vamos comparar as broas? Mas você acha que todas as freiras são ruins?

    – Você tem alguma dúvida de que a minha é melhor?

    Mas vamos experimentar a sua…

    Enquanto servia fatias generosas daquela broa que, com certeza, não tinha nada de queijo no recheio, ela continuou:

    – Sinceramente, acho que foi aí que começou o meu pavor por freiras. Bem, claro que nem todas. Durante um inverno muito rigoroso, meus lábios estavam muito rachados e não tínhamos acesso a quase nenhum remédio. Eu passava a língua, mas quanto mais a saliva entrava em contato com as freiras, mas meus lábios sangravam. Uma dessas freiras, bem novinha… – Não, ela ainda era noviça, ou seja, não havia se tornado freira – … pegou um pouco do óleo que alimentava as luminárias da igreja em que rezávamos e passou de maneira abundante na minha boca. As rachaduras sugaram aquele manjar e, em dois dias, eu já estava curada. Mas ela não precisava ser freira para fazer uma boa ação. Quem disse que para ser fiel a Deus temos que fazer voto de castidade? Quem disse que sexo é pecado? Você realmente acha que Jesus era casto?

    – Bem, diz a Bíblia que sim…

    – Bobagem, meu filho! Ele seria casto por quê? Na época dele não existia a tal Igreja Católica com todas essas regras sobre todas as coisas. Você acha mesmo que Deus nos daria tantas possibilidades de prazer se não pudéssemos usufruir delas?

    – Esse é um ponto interessante…

    – Mas é claro! O pecado está na cabeça de cada um. Errado para mim é proibir alguém de ser feliz. Imagina quantos padres não devem ter deixado de viver suas paixões por outros homens ou mulheres por acreditarem que era pecado? Muitos entravam para a Igreja porque as famílias eram pobres e não tinham como arcar com uma educação de qualidade. Na minha cidade mesmo tinha um que sempre almoçava nas casas das famílias mais abastadas. Minha mãe, carola que era, fazia questão de convidá-lo e sempre que ele ia embora, ela lhe emprestava um livro da coleção Saraiva. Eu era encarregada de buscá -los, mas não podia sair sem meu irmão mais velho. Em uma dessas idas até a casa paroquial, ele pediu que eu buscasse outro livro e deixasse meu irmão lá. Quando voltei, ele estava nu e meu irmão lhe acariciava o pênis. Fiquei tão chocada que deixei o livro escapar e os dois se assustaram com o barulho. Saí correndo e nunca contei a ninguém. Sabe por quê? Porque ninguém iria acreditar em mim. Também nunca perguntei se aquilo era consensual ou não para o meu irmão. Acho que prefiro não saber.

    – Mas os seus pais nunca desconfiaram?

    – Pai e mãe nem olhavam direito para os filhos. Imagina. Éramos sete, meu pai ficou viúvo quatro vezes, eu dava trabalho pelos outros seis. A gente nem abria a boca; tinha medo até de respirar mais alto.

    – Mas, e o colégio interno? Conseguiu endireitar à senhora?

    – É claro que não, né, Carlos? Fui expulsa por ter modos lascivos já no primeiro mês. Eu tinha comichão sexual, se é que posso dizer assim. Queria entender o meu corpo, tinha um prazer louco quando me tocava. Mas em um local com 20, 30 pessoas dormindo em camas muito próximas, era loucura se manifestar. Como tudo era pecado, abafava meus gritos no travesseiro e me esfregava no lençol depois que todas já estavam dormindo. Mas eu gozava de maneira abundante e meus lençóis amanheciam sujos e com cheiro de sexo. As freiras começaram a desconfiar e passavam a noite me observando. Me descobriram e me expulsaram.

    – E como seu pai aceitou isso?

    – Ele não aceitou. Me mandou para outro colégio, em outra cidade, pagou uma fortuna para que as freiras me endireitassem e deu ordens expressas de que eu só sairia de lá casada. Não o culpo, coitado. Ele não tinha a menor condição de cuidar de tantos filhos e ainda de uma fazenda. Não existiam pais solteiros nessa época; os homens não eram criados para essa função.

    – E então? Esse outro colégio deu certo?

    – Bem, para o meu pai, sim. Saí de lá casada com um bom moço. Muito bom, na verdade. Meu marido se apaixonou pela minha impetuosidade, mas não sabia o que fazer comigo na maior parte das vezes. Ele estudava em um colégio militar, bem próximo ao meu. À tarde, quando tínhamos permissão de ficar no pátio, alguns dos alunos desse colégio passeavam próximos às altas grades e deixavam bilhetinhos para as suas escolhidas. Se fossem aprovados pela família, os relacionamentos evoluíam – sob os olhares rígidos das freiras – e bons casamentos eram arranjados. Era uma excelente solução para a maioria das famílias, que garantiam filhas virgens e os rapazes não eram desmoralizados na sociedade.

    – Deve ser muito estranho se casar com alguém que você nem ao menos transou.

    – E transar com alguém garante que vocês serão felizes para sempre? É por isso que tudo hoje em dia termina tão rápido. As pessoas já perderam o mistério, não conversam mais, se impacientam rapidamente com os defeitos um do outro. Na minha época, o primeiro beijo era um acontecimento! Pegar na mão tinha a sua magia! Hoje, vocês mudam de parceiros como mudam de roupa.

    – E transar com alguém garante que vocês serão felizes para sempre? É por isso que tudo hoje em dia termina tão rápido. As pessoas já perderam o mistério, não conversam mais, se impacientam rapidamente com os defeitos um do outro. Na minha época, o primeiro beijo era um acontecimento! Pegar na mão tinha a sua magia! Hoje, vocês mudam de parceiros como mudam de roupa.

    – Olha, Carlos, o que eu faço todas as noites não tem nada a ver com amor. E o amor, de verdade, não tem a ver só com sexo. Eu já vivi o tal amor com o pai dos meus filhos. Não éramos exatamente Romeu e Julieta, mas nos amávamos. Construímos uma bela família e tivemos uma vida feliz. Nunca lhe faltou sexo, porque eu gostava até mais do que ele. Gostava não, gosto! Se não tivesse me casado com Augusto, acho que seria puta. Você já foi a um puteiro?

    – Não…

    – É tão alegre e festivo! Claro que nunca entrei em um, aí também seria demais. Mas um dia, voltando da escola – devia ter uns sete anos –, quis saber o que tinha em uma rua sem saída, um pouco afastada da praça principal da minha cidade. Sempre quando passava por lá com a minha mãe, ela se virava para o outro lado e fazia o sinal da cruz. Eu nunca entendia o porquê e morria de curiosidade de saber o motivo. Nesse dia, tomei coragem e entrei pelo beco. As putas ainda estavam se levantando após a noite de trabalho – e prazer – e pareciam seres quase angelicais. Elas estendiam as roupas íntimas nas janelas e lavavam os cabelos com água de alfazema. Era um mundo paralelo, com cores vivas e canções misteriosas, que nunca havia escutado nas missas dominicais. Mas todas, sem exceção, tinham expressões felizes. Muito tempo depois consegui entender o motivo.

    – Não vai me dizer que elas tinham uma vida fácil?

    – Claro que não. Mas eram livres! Exatamente por serem tão marginalizadas e colocadas de lado pela sociedade, elas podiam fugir dos padrões e usar calcinhas vermelhas e cantar músicas de cabaré sem nenhum pudor. Muitas apareciam nuas nas janelas e varandas, mas aquilo não me assustava, porque elas não tinham vergonha do seu corpo. Era tudo natural, livre, como deveria mesmo ser.

    – A senhora acha que deveríamos ficar nus nas janelas?

    – Ai, Carlos! Você é muito literal! Claro que não. Mas o que deveria causar mais vergonha? Um seio nu ou uma criança morrendo de fome?

    – Acho que não estamos preparados para as suas ideias!

    – Nem hoje, nem naquela época. Quando cheguei em casa e fui perguntar à minha mãe por que ela fazia o sinal da cruz quando passava pelo beco das moças alegres, levei um tapa no rosto que me feriu a alma. Entendi menos ainda o porquê de tanta raiva daquelas mulheres e fiquei algum tempo sem conversar com minha mãe. Ela morreu meses depois e não tive tempo nem de me desculpar. Ou de me fazer entender. Hoje, sei que a felicidade das putas era algo que deveria irritar profundamente uma mulher que só fazia parir e obedecer ao meu pai. Será que minha mãe gozou alguma vez na vida?

    – A senhora já?

    Sílvia me olhou, pela primeira vez, assustada. Não imaginava que eu, logo eu, seria capaz de constrangê -la.

    – Sim, Carlos, já gozei. Algumas vezes, com meu marido. Outras, com um belo amante que tive enquanto éramos casados.

    – A senhora teve um amante?

    – Ah, Carlos… Chegamos a um ponto do nosso casamento em que os filhos estavam criados, meu marido estabilizado e eu ainda me sentia inquieta. Chamei Augusto para conversar e acredito ter sido a precursora do tal “relacionamento aberto”. Mas não poderia imaginar que ele só aconteceria para mim. Meu marido ainda era apaixonado pela menina que conhecera no colégio interno e não admitia sentir desejo por outra mulher. Ou, então, fingia muito bem. Mas ele sabia que não poderia me segurar por muito tempo, e como não cogitávamos nos separar – não por comodismo, longe disso, éramos grandes amigos –, fomos até o final. Resolvi propor um acordo. Se eu me sentisse muito atraída por outro homem, proporia a ele termos um relacionamento consensual e discreto, apenas em locais que não seríamos descobertos, muito menos que pudesse expor Augusto de alguma forma.

    – E deu certo?

    – Deliciosamente! Conheci meu amante em um jantar da Sociedade Brasileira de Medicina. Ah, sim! Augusto era cardiologista, renomado. Ao sermos apresentados, esse homem beijou a minha mão de tal maneira que imediatamente criou uma corrente elétrica. Ela percorreu todos os recantos do meu corpo e conseguiu arrepiar a minha nuca. Tive a certeza de que seria ele, e Augusto também notou. Fiquei eufórica a noite toda, tomava champagne sem parar e quase fiz uma bobagem. Era correspondida de maneira eletrizante e flertávamos sem parar. Mas meu marido era um homem muito elegante; me chamou para conversar longe de todos e disse: “Se você quer tanto dar para ele, pelo menos marque em um local que ninguém os conheça”.

    Consegui me conter pelo resto da noite, mas logo pela manhã, com o cartão dele em mãos, liguei. Trocamos poucas e necessárias palavras e já estávamos juntos naquela mesma tarde. Me senti como a Belle de Jour, a própria Catherine Deneuve do filme de Buñel.

    – Quem?

    – Ah, Carlos! Se você soubesse mais eu seria sua…

    Alguns dias até me inspirava nas roupas da Belle de Jour para me encontrar com meu amante. Queria ter aqueles belos cabelos louros…

    Bem, tínhamos tardes tórridas, sempre em locais diferentes e longínquos. Dávamos nomes falsos, algumas vezes cheguei a usar perucas louras e ruivas para despistar algum curioso e, também, satisfazer as fantasias do meu novo homem. Éramos felizes por instantes eternos antes de voltarmos para as nossas realidades.

    – E por que vocês não ficaram juntos? Não se amavam?

    – Não sei se o que tivemos foi amor. Sei que eu precisava do sexo, da aventura. Ele concordava com a situação; também era casado e parecia mais carente do que exatamente com tesão. Tivemos uma atração muito forte no início, como duas almas que buscam a liberdade. Mas era só aquilo, tudo terminava no seu princípio. Não imaginava apresentá -lo aos meus filhos, refazer minha vida com ele. Era uma fuga, um… Momento feliz.

    – A senhora foi feliz?

    – Eu SOU feliz, Carlos. Por mais que todos pensem que sou uma mulher vulgar por pagar para ter prazer, sou uma pessoa totalmente realizada. O dinheiro é meu, faz parte da minha herança, e se posso ajudar alguns rapazes bonitos e me satisfazer, que mal tem? Cansei de lutar contra a minha natureza. Meus filhos até hoje não me aceitam. Acham que sou escandalosa, criticam meus decotes, minha risada alta, meu batom vermelho, minha alegria estampada. Acham que eu não respeito a memória do pai. Como não, se eu dei a ele, em vida, tudo que ele me pediu e mereceu? Se até na hora de trair eu o fiz com respeito? Tínhamos nossas diferenças, mas nunca deixamos de nos amar e de confiar um no outro. Nunca passamos dos limites que colocamos para a nossa relação. Já tentaram me exorcizar, Carlos. Já tentaram me podar de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Diziam que eu tinha o capeta no corpo, que nada daria jeito em mim, que ninguém jamais me escolheria do jeito que eu era. Mas fui escolhida, amada e respeitada como merecia. Nunca condenei ninguém, mas sempre me condenaram por crimes que não cometi. Pelo menos, não eram crimes para os meus valores. Hoje, eu canto para esquecer a saudade dos meus amores. Meu marido, meu amante, meu pai, que nunca me entendeu. Se me relaciono com garotos é para fugir um pouco da solidão, sentir um corpo quente no meu, receber um carinho. Meus filhos nem ao menos me abraçam. É muito fácil julgar as pessoas sem conhecer as histórias, os caminhos. Não quero ser exemplo. Só quero ser feliz. Já sofri muito, querido. Não preciso de mais dor nesta vida. Com um suspiro, percebi uma chuva chorosa através da janela. A tarde havia passado e a noite já chegava. Minha cabeça rodava entre desabafos e cenários que fui montando em minhas histórias. Repensei toda uma vida em uma tarde e mesmo assim não sentia cansaço, mas uma vontade louca de encher páginas e páginas dos mais delirantes diálogos. Já Sílvia Maria parecia exausta. No fim da última frase, uma rouquidão surgia e sua voz ficou quase sexy. Juro que não havia nenhuma intenção, apenas uma constatação. Precisava ir embora, mas não sabia exatamente se queria. Ficamos em silêncio por alguns segundos, como se digeríssemos todas as informações.

    – Já está tarde, Dona Sílvia, eu…

    – Mas é claro, querido. Te prendi aqui tempo demais. Já está tarde. Quase na hora da minha novela.

    – A senhora gosta de novelas?

    – Você mesmo não disse que eu sou bem normal?

    – Rs… Ainda temos que comparar as broas!

    – Volte quando quiser para tirarmos a prova… Mas acho que a minha ainda é imbatível!

    – Volto sim, Dona Sílvia.

    Voltamos a ser como no começo de nossas conversas e nos demos um abraço, como há muito eu não dava em ninguém, e que ela também não recebia. Foi rápido, como em novos amigos, mas suficiente para um bom começo.

    E durante toda a madrugada em que escrevi, com uma inspiração fluida, o meu novo romance, e durante todas as outras tardes e noites que trocamos impressões sobre bolos e memórias, ninguém mais subiu para o apartamento de Dona Sílvia. De uma forma estranha e até meio torta, nos bastamos.


  • O Natal do meu avô

    Natal, para mim, sempre significou o Natal do meu avô, o Natal de nossa família em sua casa e ao seu redor. Mesmo hoje – após a sua partida e o fim do que vivenciei por anos –, é a memória daquele apartamento e daqueles dias que me vêm à mente ao chegar dezembro. Ainda hoje, para mim, esta data continua a significar o Natal do meu avô.

    Antes de chegar a tão almejada noite, eu já a vivia. E a vivia com fervor e cupidez. A sua semana, os dias que a antecediam, era de expectativa e preparação. Fantasiando a respeito de como seria neste ano, ansiava que chegasse logo o momento de eu me entregar às brincadeiras e às delícias da mesa. A preparação imaginativa era ladeada pela preparação dos presentes e dos alimentos, das quais eu participava ou apenas acompanhava com vivo entusiasmo. Dos mais simples dos feitos aos mais notáveis, tudo aparecia dotado de um encanto singular, que só poderia ser vivido nesta época.

    Eis que era chegada a véspera e, assim, dirigia-mo-nos para a casa de vovô Chico, onde toparíamos com nossos velhos conhecidos. Tios, primos, parentes distantes e amigos se reuniam naquele recinto, com os mesmos abraços e os mesmos votos de todos os anos, que jamais fatigaram a criança que a tudo assistia. Era o momento da família se reunir, hora de vermos os que sempre víamos e encontrar os que só anualmente encontrávamos. Era a ocasião ideal para isso. Sem ela, possivelmente, tais contatos não viriam a ocorrer.

    Os parentes mais velhos e as visitas – ou, os adultos, como dizíamos – iam conversar, contar as novas e as antigas e bebericar na varanda, onde não faltava o Old Parr de meu avô e o pistache de meu tio. A felicidade tomava conta das crianças, afinal, teriam colegas para brincar a noite inteira. Reunidos os primos e incorporados os filhos dos amigos da família, folgueávamos pela sala. Depois, era a vez de passarmos aos quartos, procurando nos esquivar dos olhares vigilantes dos pais, que, a certa altura, nada mais vigiavam.

    As idades separavam os convidados, mas a comida sempre os unia. Postos à mesa, todos se entregavam às iguarias, das quais voltaríamos a nos servir no almoço do dia seguinte. E lá estavam a batata gratinada, o famoso salpicão de minha mãe e o indispensável peru, do qual a tradição sempre reservava a coxa ao meu avô.

    Sei que estas lembranças têm algo de idílico, fruto da afetividade dessas memórias ou da cândida visão de uma criança. Em boa parte de minhas recordações, já não estavam todos os meus. Perdi minha avó muito cedo e muito cedo se iniciaram as cisões. Não obstante, durante toda a minha vida, naqueles momentos, sentia a união da família, sentia a minha família.

    Quando vovô se viu doente e já não integrava a festividade como antes, o Natal seguia ocorrendo em torno dele. Com menos convidados, com menos comida e com mais silêncio no meu avô, celebrávamos. Todos os anos, continuávamos a nos dirigir à sua casa e a desejar passar aquela data ao seu lado. Como por uma força inata, ele – passivo e inconsciente – seguia a agrupar a família e a fazer com que prosseguíssemos juntos.

    Porém, dias obliteraram anos. Com sua ida, foi também o seu Natal, foi o nosso Natal. No vendaval que se seguiu, os conhecidos se desconheceram e os afetos que pareciam tão sólidos se evanesceram no crepúsculo familiar. Desde então, as noites do dia 24 passaram a ser menos luminosas, embora a luz de meu avô siga a brilhar na memória do seu Natal perdido.


  • Antes que seja tarde

    A chuva caí forte no solstício de verão. É de tarde. O barulho da água lá fora, junto com os trovões, atiça minha preguiça. Uma luz suave entra pela janela coada pelas gotas grossas do temporal, o primeiro do verão conforme indica o calendário.

    Em 10 dias mais um ano terminará. Penso em quantas pessoas eu não dirigi uma única palavra em quase 365 dias. Muitas mesmo. Com pouco mais de uma semana não será possível compensar essa desatenção da vida moderna.

    Ou seria minha mesmo? Ficar sozinho me agrada porque consigo conviver bem comigo mesmo. Conheço gente que acha que esse é um momento de reflexão. Papo furado.

    Quando estou sozinho não faço nenhum esforço intelectual. Seja sem ninguém em casa, seja envolvido pelo silêncio doméstico enquanto as melhores partes de mim mesmo dormem tranquilas. Silêncio é silêncio.

    Aos meus ouvidos chegam os sons dos passarinhos, o ronco baixo da cidade que não para nunca, só diminui de ritmo; e as teclas tocadas que transformam o que penso nisso que você lê.

    Mas não sou tão eremita como dou a entender. Gosto da companhia das pessoas, eventualmente. Me animo a ir ao encontro de quem conheço e até de desconhecidos, em lugares onde sou um anônimo que, pretensão minha, poderá despertar a curiosidade alheia. Nem que seja de um olhar ligeiro. E sigo.

    Oscilo sempre entre o silêncio confortador e o palavreado animado das conversas leves. A escolha não sei como faço, só sei que faço.

    E com 10 dias ou menos para terminar o ano não têm como falar com todo mundo a quem deveria ter ao menos dirigido uma palavrinha afetuosa.

    Mas sou bem relacionado e conto com essas boas relações para me fazer presente. Me refiro aos pássaros e não as pessoas.

    Dobrarei pequenos cumprimentos, palavras gentis e sorrisos afetuosos e os colocarei nas asas dos passarinhos que visitam minha janela. Rogarei para que eles vão até as pessoas com quem estou em falta para despejar sobre elas meus cumprimentos. Atrasados, mas sinceros.

    Chegarão em tempos distintos porque as distâncias e os temporais atrasarão as entregas.

    Mas chegarão. Antes que seja tarde e com a promessa que em 2025 não deixarei de falar com ninguém. Ou tentarei com mais afinco.


  • Glossário do “fica”

    A minha geração não conheceu esse tal de “ficar”. Isso não quer dizer que fôssemos mais bem comportados ou que, nos namoros e nos noivados, sempre honrássemos os compromissos. Havia as deserções, os desvarios, o imediatismo do desfrute físico. Só que essas atitudes eram a exceção e, como tal, não recebiam uma designação específica.

    “Ficar”, entre os da minha geração, era ficar mesmo – sem meios-termos nem ironias. Quem ficava com alguém escolhia-o como parceiro não apenas de uma noite, mas de anos, décadas, às vezes de toda a vida. O contrário de ficar era sair, deixar, partir para outra. Hoje, quem fica não está nem aí.

    Naquele tempo, ai do marmanjo se a garota soubesse que ele a queria apenas para uns instantes de prazer físico. Para uns amassos, como se diz hoje. Ele seria convidado a dar o fora, e nem sempre de forma gentil. As meninas tinham um nome a zelar e queriam estabilidade nas relações. Abraços e sobretudo beijos, que hoje são uma espécie de couvert do relacionamento, eram um prêmio à persistência e à fidelidade. Só os obtinha o conquistador perseverante e que acenasse com a promessa de vínculos futuros. É isso mesmo, leitor: naqueles tempos severos o sexo não vinha de graça. Era um trunfo, um troféu, um instrumento de barganha muito bem manipulado.

    Há algum tempo, pedi que meus alunos fizessem uma redação sobre “o fica” (assim ele é chamado), que alguns já consideram a nova forma de relacionamento entre os jovens. Queria saber a opinião deles. Para minha surpresa, muitos criticaram esse tipo de relação. As garotas, sobretudo, demonstraram certo desconforto com a natureza efêmera e pouco afetiva do “ficar”. Desejam algo mais sentimental e persistente.

    Mas o objetivo aqui não é comentar o ponto de vista deles. Como para entender qualquer segmento social, ou cultural, é preciso primeiro observar sua linguagem, resolvi a partir das redações compor uma espécie de glossário do “fica”. Achei que isso podia interessar ao leitor. Para mim, que sou de outro tempo e de outro mundo, é tudo novidade. Confiram:

    Balada: agito, festa onde se pratica ou não o fica.

    Fica (s.): o mesmo que ficar.

    Ficante: aquele ou aquela que fica.

    Galinha: rapaz ou garota que fica com muitos parceiros de uma vez (geralmente numa mesma noite).

    Garanhão: rapaz que fica com muitas garotas de uma vez (idem).

    Menino estribado: garoto rico ou famoso com quem se fica.

    Nega: garota com quem se fica; breve namorada que se arranja no fica.

    Queimação: censura, crítica. Aplica-se a quem fica em festa de família.

    Resenha: assédio a uma pessoa (geralmente uma garota) difícil.

    Rolo: fase entre o fica e o namoro. É sinal de que o relacionamento está ficando sério.

    Rodada ou queimada (adj.): garota que já ficou muito ou praticou o fica em local ou ocasião inadequada.  


  • Feliz Natal

    Ouvia logo cedo a música Why is it so hard, do Charles Bradley, enquanto bebericava uma cachaça Ambirá, trazida de Minas no verão passado. Acho que combinam, a música e a cachaça, fortes e encorpadas, uma canção não pasteurizada e uma pinga de alambique. Sim, sou dos que bebem pela manhã, sobretudo nas férias.

    Findava a primeira dose quando percebi estarmos em pleno 25 de dezembro. Uma data especial, sem dúvidas. Um dia para rezar, celebrar, agradecer, refletir. O natal é sempre tempo de rever conceitos, de perdoar, de amar o próximo. E, claro, de encaminhar um generoso feliz natal a todos.

    Começo, então, servindo uma segunda dose e desejando um feliz natal ao vizinho que ouve músicas pornográficas num volume absurdo em boa parte do fim de semana. Almejo, naturalmente, só o melhor para ele e para as caixas de som do seu Gol rebaixado. Feliz natal e boas noites de sono, vizinho!

    Noutro gole mando um feliz natal ao prefeito, ao vice e aos vereadores. Embora a opinião pública discorde, acho justo o aumento de 70% nos seus honorários, bem como os adicionais e férias. Nem todos demonstram essa coragem e discernimento, afinal, bons profissionais merecem salários compatíveis com a sua importância perante a sociedade e, além do mais, ainda há muito trabalho pela frente (todo, na verdade, pois recém foram diplomados e nem assumiram os tão almejados cargos). Queria eu ter a
    mesma sorte. Na adolescência, quando disse ao dono da serralheria que gostaria de ganhar duas vezes o que me oferecera, fui dispensado aos risos. Seria o meu primeiro emprego, veja só. Para os estimados políticos, entretanto, um ótimo, feliz e farto natal!

    Não posso esquecer do indivíduo que riscou o muro da minha casa na semana passada, desenhando nele um proeminente objeto fálico. Espero que descubra uma vocação artística e que esta data o faça refletir sobre onde enfiar os seus sprays. Gostaria de conhecê-lo, inclusive, pois se trata de um talento que merece ser enaltecido. Um feliz e protuberante natal!

    Feliz natal ao banco que jura meus débitos à velocidade da luz. Ainda aguardo o momento para debatermos o assunto, mas torço para que o 25 de dezembro o deixe amolecido, sobretudo quando negociar com esse pobre moribundo. Um rico e feliz natal! O Charles Bradley agora dá lugar à Janis Joplin, com Little girl blue. A trilha sonora perfeita para um trago.

    Nessa data importante, jamais deixaria de endereçar um feliz natal à Ford, que em irrelevantes tempos produziu um câmbio automático chamado Powershift e, naturalmente sem querer, causou-me um prejuízo de quase trinta mil reais. O importante é que essa mágoa já passou, ou melhor, está passando (depende também da colaboração do banco, mas isso é outra história). Torço por um natal renovador e cheio de esperanças para os engenheiros da marca. Um eficiente e feliz natal!

    Num último gole lembro dos Correios. Tenho certeza que os pequenos extravios ocorrem por motivos alheios à sua vontade. Devo dizer que hoje já não me importo com aquele livro raro perdido nalguma insipiente viagem dos seus caminhões Brasil afora. Talvez devesse pedir desculpas aos atendentes a quem ameacei. Quem sabe amanhã lhes envie um chocotone em sinal de paz. A estrada é mesmo sinuosa. Pois bem, apesar dos infortúnios, espero que desfrutem de um retilíneo e feliz natal!

    Antes de servir uma derradeira (ou não) terceira dose, desejo também um ótimo natal a você, amigo leitor! Anseio por dias melhores e realizações no próximo ano, com bebidas fortes e boa música, com harmonia e fraternidade. Que esta data o aproxime de Deus e que o bom velhinho não esqueça do seu presente. De minha parte, não se preocupe, rezarei por você. Feliz natal!


  • Poesias de 1 a 99

    04# – RÉQUIEM I

    Estou hoje calado
    como se houvesse
    roubado o silêncio
    dos mortos.

    Estou hoje tranquilo
    como se a calma
    fosse um atributo
    dos homens enfermos.

    Estou hoje festivo
    como se estivesse
    numa festa, e lúcido,
    como se a lucidez
    fosse a própria festa.

    Estou hoje vencido
    como se soubesse a verdade
    e sozinho vou indo mesmo
    a uma festa, atendendo ao
    convite dos mortos.


    05# – RÉQUIEM II

    cérebro inchado
    em recônditas gavetas,
    minha cabeça não deixa
    de doer. fui de mim
    o meu maior inimigo.


  • SEM TÍTULO, dezembro dois mil e vinte e quatro

    Ler – sendo eu o “recheio de um sanduíche” composto pelo conjunto de lençóis praticamente novos, verdes, vacilando entre o algodão 100% liso e o de arabescos geométricos, aroma envolvente de quem acabou de sair da máquina lava e seca -, confortavelmente descansando as intermináveis horas de trabalho que se seguiram nas últimas semanas – mal tive tempo de me deitar ou introjetar minha nova idade, não fosse a viagem – que sempre faz parte do meu ritual de ano novo pessoal. Pois bem.

    Aqui estou eu, a ler um livro pelo qual me apaixonei a partir de uma minissérie na Netflix; nos esbarramos em uma feira de sebos na praça central da cidade, eu que passei e ele que segurou decidido meu braço esquerdo, em meio a profusão de outros livros, e disse “desculpe.. hey, oi, tudo bem?! Olha quem está aqui, que coincidência! vamos tomar um café e ir para um lugar mais… privativo?” Sem ter como contradizer a cantada – muito da bem arquitetada – e com o tal apetite de leitor faminto e sempre, sempre à caça literária a me cutucar, paguei pelo café, onde fomos logo em seguida nos conhecer, e trouxe não só o homônimo da telinha para casa, como um segundo volume do mesmo autor, muito superior em páginas. Me dou de presente esses momentos após uma exaustão daquelas, na qual o único conforto é por em ordem a caixola pensante, como se organizasse meus armários, limpasse o banheiro e ordenasse os itens que descansam ou apodrecem na geladeira. Zeca me acompanha, pêlos brilhantes e cheirosos do segundo dia pós-banho profissional no pet shop – e incontáveis lenços umedecidos, escovações de pêlos e dentes -, em suas poses que fazem meu coração transbordar de amor, de agradecimento por sua companhia fiel e vigília incanssável.

    Pela inteligência sem igual e sempre sorrisos – e pedidos de comidas e petiscos. Sobre a cama, eu e Zeca nos entretemos em nossas atividades, cada um na sua. Um mesmo colchão, dois mundos que não se misturam, mas convivem em perfeita harmonia. E para saudar as festividades de fim de ano, que estão em baixa por aqui pelas baixas que a vida nos impôs ao longo dos últimos meses, pedi a Alexa que tocasse músicas natalinas.

    Jingles conhecidos, outros novos, alguns jazz e assim seguiram-se 40 páginas. Meu ser de quatro patas prefere o chão duro e o espaço imediatamente acima – quase inexistente – entre o fundo da minha cama box e a superfície preferida pelos pés descalços à cama delícia, colchão de molas. Em questão de instantes, divido-o apenas com Anthony Doerr. Entre pernas que se entrelaçam – as minhas -, e as que me devoram – o livro -, este texto poderia muito bem se encaixar na coluna Contos Eróticos, inaugurada pela minha querida amiga e também sagitariana Carol Meyer, mas basta um pouco de imaginação para perceber que Zeca e Doerr estão sempre pela cama, e nada além de pêlos e palavras servem como prova de uma tórrida cena de prazer – há distintas formas de se gozar a vida. Qual não foi minha surpresa, contígua a um sonoro “Happy Christmans everybody”, o preto no branco da sentença do último parágrafo do capítulo em que pausaria a leitura desta noite:

    “Madame morreu, madame morreu”.

    Respirei fundo, encarei a dupla página que me contava a notícia, levantei o rosto em direção a uma Alexa festeira às 23h de uma sexta-feira pré Natal. “Alexa, volume 2”. Zeca ronca alto, a cama estremece. Como podem, também, os personagens terem suas mortes ressoando dentro de quem as lê?

    Respiro profundamente. Fecho os olhos, medito, rezo. Pondero sobre ler mais umas páginas para aliviar o novo luto. Faltam poucos dias para não ser mais 2024. Guizos chacoalham minh’alma

    “Must be Santa… Must be Santa… Must be Santa…. Santa Klaus!”


  • A filha do Frankenstein

    Quando minha mãe ficou grávida de novo, meu pai me disse que, dali em diante, eu teria que ir sozinho à escola, pra que ela pudesse descansar. No começo, tive nojo dos vômitos dela, sempre na hora em que estávamos comendo, depois me acostumei. Ela vomitava numa toalha felpuda que logo era jogada na máquina de lavar. Depois os enjoos diminuíram conforme a barriga crescia. Passou a devorar tudo o que encontrava pela frente, até os meus salgadinhos. Por sorte meu pai sempre comprava mais, então não senti tanta falta. Minha mãe comia escondido dele, pra não levar bronca.

    Com o passar dos meses fui perdendo minha mãe. Aquela pata que andava pela casa arrastando os chinelos, com as pernas inchadas e a barriga como se tivesse engolido a lua cheia, não era a minha mãe. Ela parecia estar em outro mundo e já não se importava mais comigo. Não fazia a minha vitamina de manhã nem o bifinho do almoço. Estava sempre nervosa e deixou de corrigir minha lição de casa. Eu tirava nota alta, mas ela não me dava parabéns nem beijo como antes. Meu pai comprava comida congelada na mercearia do seu Jaime, e eu tinha que comer aquilo, mesmo quando eu falava que tinha vontade da comida que minha mãe fazia antes.

    Eu não gostei de ver minha mãe barriguda. Outro dia ela perguntou se eu queria ter um irmãozinho ou irmãzinha, e eu disse que pouco me importava e que era melhor que nem nascesse. Ou que nascesse com cabeça grande como uma bola de capotão, assim eu ia chutar ela no campinho atrás de casa.

    Uma noite, depois de comer sozinha uma lasanha inteira, minha mãe se levantou e viu que na cadeira tinha uma mancha de sangue. Meu pai correu com ela até o hospital e me deixaram com a Dolores, a empregada. Quando voltaram, disseram que era uma irmãzinha, mas que tinha nascido morta. Depois minha mãe foi pra cama descansar e meu pai falou pra eu ficar quieto e não fazer barulho. Eu matutei bastante, mas ainda não sei se fiquei feliz ou não. Já tinha me acostumado com a ideia de dividir o colo de minha mãe com essa outra coisa que estava pra chegar. Mas agora não vinha ninguém, e tudo ia continuar como antes. Acho que foi melhor assim.

    Comecei a imaginar que cara minha irmãzinha teria, mas no meu pensamento só apareceu a imagem da filha do Frankenstein, que eu vi num gibi e era a única menina morta que eu conhecia. Se minha irmãzinha fosse assim, seria muito feia. Ainda bem que ela não nasceu.


  • Por trás do muro azul

    Todos os dias ela saia às 16 horas em ponto. Seu destino era certo, mas ninguém sabia suas motivações. Nem mesmo seu marido, que nunca desconfiou dessas saídas no meio da tarde de Ana Maria. Ela nunca lhe deu motivo para desconfiança, mesmo sendo ainda muito bonita e com corpo esbelto. Devota, mulher prendada e dedicada a ele, Rogério saia tranquilo todos os dias para o trabalho sem nunca imaginar o que acontecia no íntimo de sua quase santa esposa.

    Ana se olhava no espelho de novo, querendo enxergar através dos seus olhos azuis que pareciam estar ficando cinza. Será que ela estava perdendo o brilho? A vida não tinha sido fácil, afinal. Nada a reclamar, pois tinha um bom marido, um belo lar… Ou melhor, uma bela casa. Um lar, para ela, era um lugar repleto de alegria e barulho. E filhos. Coisa que Deus não a permitiu ter. Teria sido mesmo Deus?

    Depois de três abortos eles finalmente desistiram. Seu corpo não aguentava mais, sua alma se dilacerava a cada perda e seus olhos perdiam aquela luz que se acendia a cada resultado positivo. Seu imaginário dançava novamente pensando em nomes, comprando roupinhas, pintando paredes do quarto, mobiliando sonhos. Tinha algo errado com seu útero, alguma doença com nome estranho e nada ficava por ali. Ela sorria por três meses, no máximo. Ficava de repouso, fazia promessas, evitava até beijar o marido para não ter vontades e colocar tudo a perder. Mas nada adiantava. Ela não tinha sido feita para ser mãe.

    Depois da dor quase enterrada, Rogério veio com a ideia de adotar. Tanta gente adota, afinal. Mas não seria a mesma coisa. Ana queria sentir a barriga crescer, seu filho ou filha mexer dentro dela, ter todo um processo de espera, de escolhas, do amor que cresce e transborda junto com a barriga e o leite que escorre quente pelos seios. Por que justo ela não poderia passar por todas as dores e delícias de parir? Será que era seca, como dizia a sua avó? Gente seca normalmente é ruim, pensou ela. Será que sou tão ruim assim?

    Esse pensamento a despertou para a hora. Não poderia chegar atrasada, por favor! Ela precisava estar presente ao seu compromisso, presente e inteira. Tentou se distrair pela rua, pensando em coisas boas. Mas estava especialmente melancólica naquele dia. Vendo flores e enxergando apenas flores, não o perfume, as cores e até os pássaros que cantam ao seu redor como percebem os apaixonados. Era como se previsse algo, com o coração apertado e o pensamento longe. Quase foi atropelada por uma bicicleta, tamanha a sua distração. Ouviu resignada o rapaz raivoso a mandar para lugares inomináveis e seguiu seu caminho. Tinha certeza que no próximo quarteirão se sentiria melhor. Seu compromisso ficava por trás de um grande muro azul e, lá, tudo era perfeição.

    Rogério chegou em casa como de costume às 19 horas e um cheiro bom de feijão vinha da cozinha. Ana Maria estava de costas e ele vislumbrou o corpo da esposa, um típico violão. Belas ancas, cintura ainda finas, os ombros delicados e penugens louras descendo pelo pescoço. Ela prendia os longos cabelos ao cozinhar e sua nuca, nua, ainda arrepiava Rogério como no começo do namoro. Ele a enlaçou pela cintura e lhe deu uma mordida leve no pescoço. Ana se assustou, mas deixou o corpo solto nas mãos do marido. Que susto, querido!

    Voltando seu rosto para ele, o beijo foi inevitável e parecia que o feijão ia queimar também. Há tempos eles não se amavam e a fome se transformou em ação. Talvez já fosse hora de esquecer um pouco as amarguras e deixar a vida mais leve. O corpo de Ana pedia esse carinho, mas as lembranças a impediam de gozar. O sexo era quase sempre um martírio, pois ela nutria esperanças vãs e o fato de não mais poder engravidar tornava tudo estranho ao seu olhar. Não se sentia mãe, mulher, nada. Não se achava nada mais.

    Rogério fechou os olhos e colocou a mão por debaixo da saia de Ana. Com movimentos doces, levou sua mulher a um gozo que ela há muito não sentia. Ficou quase constrangida com o líquido que escorria pela sua perna e tentou se segurar. Mas precisava de mais e trouxe Rogério para dentro de si. No chão da cozinha, como uma adolescente. Ele se espantou com tamanha impetuosidade e foi ainda mais doce, demorando a gozar e fazendo Ana se desmanchar agarrando seus seios com força enquanto jorrava entre suas pernas. Exaustos e satisfeitos, gargalharam com toda a situação: nus, no chão, mal conseguiam se levantar sem o apoio do fogão. Não temos mais idade para isso! Riu Rogério.

    Recomposta, Ana colocou a mesa e começaram a conversar sobre o dia. Ele, todo satisfeito com o trabalho, novos colegas chegando da filial de Salvador e Ana notou uma entonação diferente quando ele comentou sobre uma tal Larissa. Moça nova, trabalhadora e esforçada, dizia ele. É bonita? Ela pensou, mas não perguntou. Bobagem, devo estar na TPM e inventando coisas. Queria contar também sobre o seu dia, mas se restringiu a falar como os preços subiram no supermercado. Daqui a pouco, vamos comer farinha com água, dramatizou. Pratos recolhidos, se aconchegaram no sofá para ver o jornal. Ele, conferindo números e fazendo conjecturas como se o apresentador lhe ouvisse. Ela, pensando em como a noite seria longa até seu compromisso de amanhã.

    No meio da tarde, Rogério liga com a voz histérica querendo respostas. Ana, minha filha, você não pode acreditar. Vamos nos mudar! Mudar como, homem? A filial de Salvador precisava de um bom gerente e nada melhor do que alguém com larga experiência como ele. Acostumada com sua vida em São Paulo, Ana Maria declinou. Não vou mesmo. O que tem pra fazer em Salvador? Rogério se segurou para não dizer: o mesmo que tu faz aqui, mas não queria ofender a esposa. Sabia de toda a sua dor e sempre preferiu que ela ficasse em casa cuidando de tudo. Não por machismo, mas como o dinheiro sobrava, dava para manter muito bem os dois. Quando Ana teve o último aborto, pensou até em sugerir que ela voltasse a ser professora, mas achou que ela talvez fosse ficar deprimida perto de crianças. Ela se fechou no seu mundo, ele teve medo de entrar e dois deixaram as coisas caminharem por si. Mas agora a vida ia mudar!

    Ana desligou o telefone e ficou pensando em como iria tirar essa ideia maluca da cabeça do marido. Que se dane a empresa, ele pode muito bem se recusar a um pedido deles! Não poderia estar tão longe do seu compromisso, da alegria por trás do muro azul. Não aguentaria mais uma perda, não mais. Ia se separar, pronto. Ele que fosse e deixasse ela lá. Tirou logo a ideia da cabeça. Amava Rogério, sem dúvida que amava. E imagina ele em Salvador, solto. Deus me livre! Pensou em esfriar a cabeça e foi tomar banho. Sentiu a água quente descendo pelo corpo. Lembrou-se da noite anterior, os dois no chão da cozinha e seu gozo escorrendo pelas pernas. Sorriu para si. Sim, amava Rogério. Resolveu relaxar e se masturbou. Sentiu cada pedaço do seu corpo como há muito tempo não sentia. Se sentiu bonita. Seu corpo continuava firme, com curvas delicadas, penugens louras nas coxas e se tocou com ardor. Fez amor com ela mesma.

    O muro azul continuava ali, mas ela achava que ele tinha ido embora. Para Salvador, junto com ela, dentro da mala. Chegou no local às lágrimas, como se fosse mudar no outro dia. Que desespero, meu Deus. O que vou fazer? Contar a Rogério? Ele não entenderia. Talvez risse de mim. Por mais encantador e compreensivo que ele fosse, era homem. E como todo homem, era prático. Sentimentos e apegos não eram com ele. Nada que ela falasse ou que precisasse seria suficiente para ele desistir da ideia de Salvador. Será que essa tal Larissa também vai estar lá? Será que é por isso que ele quer se mudar? Que louca eu sou, meu Deus. Pra que pensar tanto? Às vezes queria ter um botão de liga e desliga para simplesmente parar de pensar. Claro que não acreditava que seu marido era 100% fiel. E foi ensinada a entender isso. Homens têm necessidades que as mulheres não têm, aconselhava a sua mãe. Se ele te der uma casa, te sustentar e não te bater, já se de por satisfeita.

    Sua mãe apanhou a vida inteira e é claro que seus pré-requisitos para um homem ideal eram bem baixos. Quando Ana começou a namorar, o único conselho que recebeu da mãe foi para casar virgem. Homem não respeita mulher que já deu. Nem que goste de sexo. Putaria ele faz com as putas. Seja uma mulher direita e uma boa dona de casa. Lhe dê filhos e o resto você finge que não vê. Ana conseguiu se segurar até o casamento, por mais que quisesse muito se entregar para aquele homem que mexia nos seus seios dentro do carro e fazia suas coxas umedecerem. Aquilo era gozar? Toda vez que ela molhava o vestido sentia uma culpa imensa e ficava com medo dele perceber. Tinha vergonha de querer ele tanto e medo dele achar que ela gostava de sexo. Custou a se segurar e fez de tudo para apressar o casamento. Queria Rogério dentro dela, sobre ela, para sempre.

    Na noite de núpcias, Ana Maria se fez a mais bela das mulheres. Depois do casamento na igreja, com direito ao seu pai levá-la no altar com um orgulho besta por ela ainda ser virgem, se refastelaram na festa oferecida pelo seu padrinho, fazendeiro rico do sul de Minas. Sua mãe, mais aliviada do que exatamente feliz – Ana era a última das filhas a se casar, suas irmãs já estavam parindo netos sem parar – eles finalmente foram para o hotel. Ela preferiu assim, passar a noite na cidade antes de embarcar para Buenos Aires. Não se aguentava mais e ficou com medo de morrer virgem no avião. Deus me livre! Colocou a camisola preta que havia comprado escondida – preto e vermelho eram cores de puta – e mais nada. Teve a coragem de não colocar a calcinha que vinha junto e apenas perfumou seus seios e suas coxas para quando Rogério finalmente a tomasse para si. Não tinha mais vergonhas nem pudores. Queria apenas ser do seu homem.

    Rogério continuava imaginando a nova vida em Salvador com um sorriso besta no rosto. Quem sabe Ana não se animava, tomava uma cor e toda noite seria como a anterior? Tinha tempo que eles não faziam amor e Rogério estava quase desistindo da mulher. Pensou até em pagar uma puta, tamanha era sua aflição. Resistiu bravamente às investidas de Larissa, que há tempos debruçava sobre a sua mesa mostrando muito mais do que documentos. Acabou falando o nome dela por puro problema de consciência, como se fosse uma novata. Que Deus me perdoe, mas não queria magoar a esposa. Era o estilo pijamão com muito orgulho. Os amigos até tentavam apresentar mulheres para ele, levar para a caça, mas Rogério era fiel a Ana. Até em pensamento. Desde o primeiro dia que se viram. Ele nunca imaginou sentir aquele amor todo por alguém, mas quando deu de cara com Ana imaginou: Essa mulher vai ser a mãe dos meus filhos.

    Pena que nem tudo que ele pensou para os dois se concretizou. Rogério ficou casto até o casamento, por mais que quisesse dar suas escapadas. Você é muito trouxa, diziam os amigos. A Ana, tudo bem, se guardar para você. Mas tu, Rogério, que já pegou metade de Saquarema? Faça-me o favor! Trouxa! Mas Rogério não queria nem ao menos outro perfume. Dormia e acordava com o cheiro de jasmim de Ana no seu travesseiro e imaginava aquele corpo branco deitado na sua cama. Imaginava a boca de Ana se abrindo para ele, os cabelos deslizando nos seus lençóis e suas pernas longas com aquelas penugens louras se cruzando em suas costas. Como amar outra mulher se ela era tudo que ele um dia imaginou ter? Filha caçula de pai militar, Ana havia sido muito bem criada, frequentado ótimos colégios e tinha um caráter inabalável. Sua mãe sempre se gabava da filha, apesar de levantar suspeitas por várias marcas roxas pelo corpo. A mãe de Rogério dizia que ela bebia até cair, mas ninguém nunca viu nada e Ana continuava sendo o melhor partido da cidade. E foi gostar justamente dele. Que sorte maior ele poderia ter?

    O telefone tocou estridente despertando Rogério das lembranças. Deve ser Ana, mudando de ideia, tão boa ela é. Vai me pedir desculpas por ter pensado o contrário e vai acatar a minha decisão, como sempre. Mas era uma voz de homem, rouca, ameaçadora. Você sabe onde a sua mulher está agora? É melhor ficar de olho! Um frio absoluto passou pela espinha de Rogério. O que seria isso? Uma brincadeira de mau gosto? Mal teve tempo de retrucar e a voz do outro lado havia sumido. Estava tão perdido que nem ouviu o clique do desligar. Estava zonzo, como se houvesse tomado de uma vez só a dose da cachaça da fazenda do seu primo de Minas. Ela desce arranhando a garganta e abre o chão que a gente pisa. Se apoiou na mesa e tentou raciocinar. Que bobagem era aquela? Desconfiar de Ana? Nunca! Olhou para o telefone e pensou em ligar para casa. Claro que ela estava lá, pensando no que fazer para a janta daquela noite, talvez até mesmo pensando em colocar uma lingerie nova para ele, surpresa das surpresas! Mas não custava conferir. Pegou o telefone. Discou. Ridículo, Rogério, ridículo. Não vou ceder ao jogo desse cretino que me ligou, é isso que ele quer. Ridículo. Mas não resistiu. Discou tremendo os números e começou a ouvir angustiado o som do telefone. Chamando uma, duas, 10 vezes. Deve estar tomando banho, pensou. Ligou de novo. Mais uma eternidade. Só pode ter ido ao supermercado. Claro! Rogério já suava frio e começou a imaginar Ana na cama com outro, como em um filme de Luis Buñel. Catherine Deneuve, a bela da tarde, olhava para ele de rabo de olho e dava uma piscada, alisando a perna de penugem loura de Ana enquanto esperavam o próximo cliente. Louco, só posso estar ficando louco.

    Ana Maria saía finalmente pelo muro azul e foi apreciando, de verdade, a paisagem. Como uma apaixonada pela vida. Como quem voltar a respirar. Se sentia bem todas as vezes que saía de lá e o trajeto para casa sempre era mais colorido, mais perfumado, mais feliz. Abriu a porta de casa cantarolando alguma daquelas canções que grudam na cabeça da gente e deu de cara com um Rogério transtornado. O rosto vermelho, como um lobo furioso, começou a pedir explicações. Por onde ela andava, afinal? Pega de surpresa, Ana gaguejou e sentiu o primeiro tapa na cara. Com a força, caiu no chão e começou a chorar. Rogério, ainda mais transtornado e sem saber o porquê de ter batido com tanta força na mulher, não sabia se a ajudava a levantar ou se dava outro tapa. Perguntou de novo onde ela estava, mas Ana mal conseguia mexer o maxilar. Ele se aproximou, e sentindo o cheiro do perfume e o vermelho do batom da mulher, não titubeou. Deu outro tapa e saiu. Vagabunda!

    Ana ainda segurava o rosto quando percebeu que o marido havia saído e se levantou. Ela tinha sangue nos lábios, talvez tivesse mordido a boca durante a briga. Não reconheceu naquele monstro o marido que havia passado por tanta coisa com ela. Um homem bom, educado, quase casto, como sua mãe mesmo dizia. Rogério era de família rica, nunca precisou se esforçar muito para ter o que queria. Seu pai, médico paulista renomado, sempre fez gosto com o casamento, enquanto a mãe teimava em achar defeitos em Ana. Como não conseguia nada, começou a atacar sua mãe. Inventava que a Dona Vivi bebia até cair, por isso vivia roxa. Mal sabia ela que cada roxo era um soco que o pai de Ana desferia quando ela se recusava a algo. Ou simplesmente por existir. Militar reformado, comandante Reis era duro com as filhas e insuportável com a mulher. Queria tudo perfeito, da cama até os pratos na cozinha. A comida tinha hora marcada, tempero certo e a hora da refeição era sagrada. Não podia ter conversa, barulho, os cotovelos para fora da mesa e até o jeito de pegar no talher era inspecionado por ele. Todas as filhas o temiam e nenhuma se lembra do seu abraço. Dona Vivi se resignava pela vida, dando desculpas pelo roxos, ouvindo maledicências e descobrindo, aqui e ali, os casos do marido pelos puteiros de Carmo do Rio Claro. Ela e todas as esposas da época.

    Ainda zonza, Ana Maria resolveu se levantar e entender o que havia acontecido. Aonde ela estava, era isso que ele queria saber? Meu Deus, será que alguém havia descoberto? Mas, se sim, seria motivo para tanto ódio de Rogério? Ficou com medo do retorno dele e resolveu sair de casa, pelo menos até entender o que havia acontecido. Juntou algumas roupas, calcinhas e cremes, ligou para uma das poucas amigas que ainda tinha e se foi. Nem um bilhete deixou, ele realmente não merecia. Ou melhor, ia deixar o número da casa da amiga. Melhor. Melhor? Não, não ia deixar nada. Ligaria no outro dia para o escritório, isso sim. Bateu a porta e pegou um ônibus até a Vila Mariana. Assim que entrou no pequeno apartamento, deu de cara com o rosto boquiaberto da amiga. Ela havia esquecido o quanto deveria estar roxa, pois a sua pele branca havia sido alvo de dois fortes tapas. Meu Deus, é por isso que todos me olhavam no ônibus, pensou. Vamos agora mesmo para uma delegacia, ele não pode fazer isso com você! Não, não precisa. Ele estava fora de si. Ainda não sei o que aconteceu. Deve haver uma explicação. Para isso? Acredito que não!

    Depois de andar como um zumbi pelas ruas, Rogério tomou coragem de voltar para casa. Meu Deus, porque tinha batido em Ana? Nem ao menos perguntou nada, nem esperou ela se defender. Talvez se ela não tivesse chegado cantando, toda feliz como uma mulher no cio, ele tivesse conseguido pensar. Mas ela estava linda, cheirosa, satisfeita…Claro que estava me traindo, claro! E voltou sem compras, então nada de supermercado. Vagabunda, era o que ela era. Meu Deus, mas não era possível. Eles tinham se amado na noite anterior, era real aquilo. E Ana nunca gostou muito de sexo, não teria porque trair. Será que ela estava apaixonada por outro? Mas quem, meu Deus, quem? Agora que ela está acuada, vai ser difícil descobrir alguma coisa. Por isso que ela não queria ir para Salvador, claro. Que burro eu fui, achando que ela era apegada a cidade, as amigas…Tinha macho na parada, é claro! Burro, meu Deus, burro. E ainda sendo fiel, resistindo a Larissa, sem pegar nenhuma puta, respeitando uma vagabunda…Burro!!!

    A noite, Ana não conseguiu dormir. Ainda tinha muita dor no rosto, por mais que sua amiga tivesse lhe dado 2 analgésicos. A dor era muito mais profunda e ela estava tentando montar as peças de um quebra cabeças bizarro. Tinha certeza que alguém deveria ter feito fofoca com Rogério, inventado algo para lhe desmoralizar. Quem? E porque? Rogério deveria estar pensando que ele o estava traindo, mas nunca poderia ter tido aquela reação, meu Deus. Ela, que sempre foi uma esposa devota, nunca lhe deu motivo para desconfiar de nada. Como ele poderia ter pensado isso dela? Ia ligar, com certeza, para o escritório. Com calma, tentar entender tudo. Depois? Não sei. Estava muito confusa ainda. Será que ele sentia falta dela? Será que já tinha voltado para casa? Deve ter ido pegar mulher, claro. E ainda ia se justificar, inventando uma traição dela. Canalha. Bruto. Preciso dormir. Ainda não sei se vou ligar.

    Em casa, Rogério só encontrou o vazio. Nada de Ana, de jantar, de nada. No quarto, poucas roupas e o cheiro de jasmim na penteadeira. Levou o perfume para o outro, vagabunda. Nenhum bilhete dava conta do paradeiro de Ana e Rogério entrou em desespero. Poderia estar sendo estúpido o bastante perdendo sua mulher sem nenhum motivo? Mas, por que então, ela havia saído de casa? Deve ter montado casa com amante, claro! Meus Deus, estou ficando louco. Preciso encontrar minha mulher. E se tudo tiver sido um grande mal entendido, como ela poderá me perdoar? Eu bati na minha mulher, meu Deus. A noite ia ser longa e Rogério nem tinha certeza se gostaria que o dia chegasse.

    Mas o dia veio e com ele novas dores no rosto de Ana. Com as bochechas inchadas e o coração aos pulos, ela ainda não sabia ao certo o que fazer. Olhou no relógio. 07:15. Dormiu mais do que achou que conseguiria. Com certeza foram os analgésicos. Pensou em fazer o café para amiga, se vestir e ir de encontro a Rogério, ainda em casa. Mas teve medo. Não sabia se ele ainda estava com raiva e nem ao menos o porquê. Imaginou o marido no puteiro, chegando em casa com cheiro de álcool e perfume barato de mulher, como tantas vezes viu seu pai entrar em casa de manhã antes de alvejar sua mãe, que ainda se dava ao trabalho de fazer o café para o seu carrasco. Tentou apagar a imagem suja da cabeça e pegou o telefone. Vou ouvir a voz dele primeiro, para sentir o seu ânimo. Seria melhor assim.

    Do outro lado da cidade, Rogério, ainda de camisa e gravata, se revirava no sofá. Não teve coragem de dormir na cama que foi, durante tantos anos, o local de encontro com Ana. Do amor com ela. Das negativas e tentativas frustradas durante os meses após os abortos. Ele sempre respeitou a dor da mulher, ficava imaginando a sua tristeza, o seu sofrimento. Até parava de pensar em sexo. Burro! O telefone tocava ao fundo e ele levantou ainda cambaleante com a cabeça zonza de raiva e culpa. Quem poderia ser tão cedo? Será que aconteceu alguma coisa com ?Ana? Meu Deus, o que ele teria feito? Era ela. A voz calma, perguntou com ele estava. Falsa, vagabunda. Como poderia estar o novo corno da cidade? Ótimo, claro! Ana não riu e ignorou o sarcasmo do marido. Ele parecia mais calmo, mas talvez fosse ainda pelo efeito do sono. A voz estava embargada e é claro que ele passou a noite na gandaia. Filho da puta. De qualquer maneira, precisamos conversar. Conversar? Pra que? Acho que devemos explicações. Podemos almoçar como pessoas civilizadas. Cretina, quer me contar o caso e ainda levar meu dinheiro. Claro, vamos almoçar, mas já vou avisando: Já falei com meu advogado.Tanto faz. E Ana desligou.

    Rogério tomou um banho rápido e foi para o escritório. Não tinha cabeça para nada, mas notou um burburinho incomum quando chegou na empresa. Não sabe o que aconteceu? Larissa foi encontrada morta em casa. Estão desconfiando do ex marido. Ele era muito ciumento, parece que nunca aceitou o fim do casamento e jurou acabar com a vida de todo mundo que ela dava em cima. Rogério sentiu o mesmo frio que gelou a sua espinha no momento do tal telefonema. Seria a mesma voz? Lembrou do tal ex marido de Larissa, um homem alto, forte, com jeito de poucos amigos. De vez em quando ele dava um perdido na porta da empresa, esperava Larissa sair e a pegava pelo braço, tentando colocá-la no carro. Ela esperneava e as vezes apelava para Rogério, que saia em defesa da menina, dando um chega pra lá no armário em forma de gente. Invariavelmente o grandão cedia, mas nunca sem antes soltar, em tom ameaçador: Vai cuidar da sua mulher, senão eu cuido! A voz, era sim, a mesma do tal telefonema. Será que ele estava seguindo Ana? Meu Deus, que loucura! Será que ele desconfiava dos dois? Rogério correria perigo? Mais essa,agora. Já não bastava ser corno agora era alvo. Nem teve tempo de ficar consternado pela morte de Larissa. Era um problema a menos afinal.

    Na hora do almoço, Ana se dirigiu para a porta do escritório do marido. Marido, ainda? A cabeça estava confusa e não sabia se conseguiria perdoar Rogério. Será que suportaria seu toque novamente? Será que ele ainda a desejaria? Que idiota, meu Deus. Ela havia apanhado, ele era um escroto, porque se sentia culpada? Não tinha feito nada, nunca fez. Pensou, claro. Se sentiu atraída várias vezes por outros homens, mas nem se sentia mais tão pecadora assim, apesar de ter aprendido a pedir perdão até por pensamentos impuros durante a catequese com dona Ondina. Quase freira, Maria Ondina desistiu de entrar para o convento para ensinar crianças a amar e respeitar a Deus sobre todas as coisas. Será que ainda estaria viva? Meu Deus, precisava ir a Carmo do Rio Claro visitar as pessoas, sua família, sua mãe. Será que iria ao túmulo do seu pai? Vontade não tinha, acho que jamais havia rezado nem ao menos pela sua alma. Duvido que ele tivesse uma também.

    Com um cumprimento estranho, dois beijinhos desajeitado, eles se uniram por poucos segundos e foram caminhando até o restaurante mais próximo. A comida era só um pretexto, Ana queria mesmo era um local público para se sentir segura. Rogério estava aparentemente calmo, talvez até dopado. Será que ele bebeu cedo assim? Mas não, parecia um torpor infantil, como quando adormecemos após chorar por horas a fio. Como que acomodado, resignado com um fato. Pediram os pratos, ele pediu cerveja e ela, água Queria estar sóbria, lúcida pra falar e ouvir. Tomou coragem e começou com um por quê? Ele a olhou como quem tem vergonha de si e contou tudo que tinha passado nas últimas horas. Falou da desconfiança, do ódio, do arrependimento, das lembranças boas, do medo de perder a mulher da sua vida. Pediu perdão com as mãos sobre as dela e chorava feito uma criança perdida dos pais. Mas em momento algum perguntou o que ela estava fazendo no dia anterior. Não se sentia digno de saber algo além do que ela quisesse contar. Entendeu que foi vítima de uma cilada e não queria mais sofrer. De repente, Ana se sentiu mãe do seu próprio marido. Nunca o tinha visto tão frágil, tão bobo, tão desprotegido. Era como os fetos que ela colecionava nas estantes da sua dor, cada um com um nome e sexo. Seus filhos e filhas que ela nunca pode colocar no colo, ninar, amamentar. De repente, ela se deu conta que só queria ir para casa com Rogério, se despir para o marido e deixar ele sugar seu leite e seu gozo como em sua noite de núpcias. E dormir feliz esperando o dia trazer o que há por trás do seu muro azul.


  • Poesias de 1 a 99

    #01 – METAMORPHOTHRILLER

    Liberdade ilusão
    Vontade reprimida
    Prisão de si mesmo
    Encaixe em moldes
    DECEPÇÃO…
    Nunca foi o que realmente era, considerava o seu próprio ser repugnante aos grandes olhos dos filtros sociais. Lamentava, vestia a máscara e… FIN-
    GI-A…
    DECEPÇÃO…
    Continuava a Tentar…Encaixar…
    Nos moldes | Nos padrões
    Eram pequenos, causavam desconforto
    O Desconforto… DESconfortava
    DECEPCIONAVA…
    Necessidade de…FUGA
    Medo/co…co…co…co…
    CORAGEM!
    Coragem/necessidade

    ATITUDE…
    Olhos fechados ao alheio
    Poder sobre as próprias escolhas
    Atitudes e… CORAGEM
    NOVA VIDA | VIDA NOVA


  • Entrevista com Angel Ferreira

    O monólogo Sidarta marca o primeiro projeto solo no teatro do ator e diretor Angel Ferreira. Desenvolvido ao longo de quatro anos, o espetáculo aborda temas existenciais, explorando a ambiguidade entre extremos como sagrado e profano, sucesso e fracasso, prazer e privação, solidão e pertencimento. Ambientada na Índia, durante a época do Buda histórico, a peça é livremente inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Embora Angel Ferreira seja um artista experiente, muitos talvez o reconheçam melhor pelo nome de batismo Igor Angelkorte. Recentemente, o ator revelou ter mudado de nome por sentir a necessidade de se transformar, um gesto que reflete sua busca por autenticidade.

    O artista usou suas redes sociais para comentar que uma das apresentações contou com apenas 12 espectadores, destacando os desafios de divulgação e alcance do público no teatro contemporâneo. O post gerou um grande interesse pela peça o que resultou numa lotação para as últimas apresentações.

    A seguir, leia a entrevista que o autor concedeu com exclusividade para o Crônicas Cariocas:


    Francci Lunguinho — Você está no teatro com o espetáculo Sidarta, uma adaptação da peça de Hermann Hesse. O que você espera desta última semana em cartaz?

    Angel Ferreira — O que espero desta última semana em cartaz? Bem sinceramente, espero casa lotada. Não há alegria maior para um artista do que ver a peça cheia, e então, está sendo a coroação de uma trajetória de crescimento do público, de uma terceira temporada no Rio, onde a gente observa um engajamento mesmo, uma relação de carinho, de intimidade das pessoas com essa história. Isso me emociona muito, porque o teatro só existe no encontro, né? Da peça com o espectador. É nessa troca que ele existe. Então, saber que ele faz sentido, que contribui com a vida das pessoas, que apresenta insights, né? Expande…

    Muitas pessoas, às vezes, me falam: “Caramba, estava com um problema aqui na minha vida. Eu vi a peça e redimensionei isso tanto, observando a imensidão da existência, toda essa saga da vida dessa personagem… Saio mais leve. Saio mais tranquila”. Já ouvi tantos relatos dessa natureza, de pessoas que mudaram uma percepção que elas tiveram de alguma coisa que elas estão vivendo. Então, espero que a gente siga enchendo o teatro para poder distribuir essa possibilidade da medicina, que é o teatro.

    Francci Lunguinho — Como foi a adaptação para o palco e do que fala a peça?

    Angel Ferreira — A adaptação para os palcos se deu ao longo de quatro anos. Eu fiquei lendo e relendo esse livro, trabalhando nele próximo à cachoeira, ouvindo o rio, como uma personagem mesmo se dedica a fazer muitas vezes. Então, foi muito calmo, dando tempo ao tempo, mas deixando isso amadurecer em mim, para que na hora certa tudo se revelasse. Comecei a contar a peça, ao longo dos anos, para pequenos grupos, de maneira improvisada, e fui ganhando confiança. Foi se formando essa maneira de contar, que é viva, claro, porque cada apresentação se dá de um jeito, mas que foi formando alguns pilares, algumas bases através de uma tradição oral, dos contadores de história, daqueles que dedicam a vida a investigar a linguagem do solo narrativo, enfim, muitas tradições que contam histórias a partir da palavra, do corpo, e que depois se tornam algo escrito.

    Embora parta de um livro, de um romance, a adaptação se deu de uma maneira absolutamente oral. A peça conta a saga de um jovem, de uma pessoa que, ao longo da vida inteira, vai em busca radical de si mesma, de encontrar uma paz interior. Ela se passa há 2.500 anos, na época do Buda histórico. Um jovem de família rica sai, abandona a casa dos pais para encontrar-se com o mundo. Nessa jornada, ele vai passando por um turbilhão de acontecimentos, pela roda da vida, e vai experienciando tudo isso sempre de forma muito inteira.

    Nesse caminho, ele se encontra com uma cortesã que ensina tudo a ele sobre o amor. Eu fico imaginando que ela era uma mestra tântrica. Um  comerciante, discípulo do Buda, o próprio Buda, um balseiro e, enfim, conhece o rio, o próprio rio enquanto entidade, divindade. Ele vai nesse percurso até ficar mais velho. É uma vida inteira contada ao longo de 1 hora e quarenta de espetáculo. Então, é um trabalho que fala muito de autoconhecimento. Para quem gosta de narrativas que nos convidem a refletir profundamente sobre os caminhos da vida, da existência, de como a gente lida com todo esse mistério, é perfeito.

    [smartslider3 slider=”5″]

    Francci Lunguinho — Qual é sua visão sobre o futuro do teatro no Brasil?

    Angel Ferreira — Angel Ferreira — Olha, eu vejo com muita esperança, pra ser sincero, o futuro do teatro no Brasil e no mundo, né? Porque acredito que, em um tempo cada vez mais intermediado por telas, onde a gente fica, todos nós, encarcerados dentro dessa lógica do celular, da televisão, do computador, sobretudo do smartphone, dedicamos boa parte das nossas horas diárias a eles, seja no trabalho, nas relações, no estudo… Enfim, essas tecnologias tomaram todas as áreas das nossas vidas contemporâneas. Acho que o teatro se torna cada vez mais revolucionário, e eu acho isso chocante, essa qualidade de fênix que o teatro tem. É mesmo impressionante.

    A gente ouve falar disso… Às vezes, o teatro parecia morrer, e anunciaram a morte do teatro — a morte simbólica, o desinteresse, a diminuição dele enquanto importância artística. Quando apareceu o cinema: “Ih, o teatro vai ficar pra trás”. Não aconteceu isso. Apareceu a televisão: “Ah, agora, com a tela dentro de casa, quem vai sair para ir ao teatro?” Também não aconteceu. O teatro passa, às vezes, por algumas baixas, alguns ciclos assim, mas ele ressurge com força.

    E agora, nesse momento tão tecnológico, de informações tão rápidas, o teatro está numa curva ascendente, na minha visão. Eu percebo que os teatros estão muito cheios, lotados, e que as pessoas estão carentes, sedentas por essa arte da comunhão. O ritual da presença, de você estar ali pulsando junto, num campo vibracional único, com todo o público, com os artistas, atores e atrizes que estão em cena. Isso é insubstituível. Isso só as artes performativas oferecem: essa qualidade da presença, daquilo que é efêmero, irrepetível.

    Então, estou muito animado, na verdade, com o teatro, confiando nele cada vez mais, entendendo esse “futuro ancestral” de que Krenak fala. Dentro de uma cosmovisão indígena, a gente pode também absorver e aprender com ela para pensar o teatro. O teatro também é o futuro ancestral. Por isso, estou tão animado de estar fazendo teatro e feliz por estar vendo tantas peças e o público abraçando todas elas.

    Francci Lunguinho — Como iniciou a sua trajetória no teatro e no cinema?

    Angel Ferreira — Angel Ferreira — Comecei estudando na Casa das Artes de Laranjeiras, a CAL, no Rio de Janeiro, com 18 para 19 anos. Comecei lá fazendo uns cursos livres. Na época, fazia Direito. Estudava em uma universidade, mas não estava satisfeito; parecia que não era o meu caminho, e a vida estava nublada, esquisita… De repente, soube de um curso de teatro que ia abrir. Me inscrevi nele, achando que faria como hobby, me enganando, achando que aquilo seria só para eu brincar, fazer um pouco de terapia. Achava que o teatro era algo terapêutico e que isso poderia me ajudar a ser um advogado melhor.

    Pronto. Quando entrei lá, me senti tão pertencente, tão acolhido, tão profundamente livre para ser quem eu sou e para descobrir tantas possibilidades, múltiplos potenciais em mim, que me senti muito estimulado. Eu, que não gostava de estudar, de ir ao colégio, etc., fui me tornando cada vez mais um estudante rebelde. De repente, me vi como um apaixonado: queria ler tudo, estudar tudo, ver todos os filmes, assistir a todas as peças, fazer todos os cursos. Falei: “Nossa! Acho que tem uma força aqui diferente.” E fui ganhando confiança para realmente acreditar que era uma profissão, um ofício possível, né?

    Então, deixei o Direito de lado e me engajei no teatro. Quando estava perto de me formar na CAL, uns produtores de elenco da Rede Globo, que acompanham peças e turmas em formação, para pesquisar novos atores e atrizes, viram minha peça de formatura. Lauro Macedo, que era um pesquisador de elenco da Globo, assistiu à peça e me chamou para fazer um cadastro lá na Globo, com um vídeo. Um ano depois, demorou um tempão, me chamaram para fazer um teste para uma novela. Entrei. E qual era a profissão do primeiro personagem que fiz? Um advogado. (Risos).

    Francci Lunguinho — Como o teatro nacional pode se reinventar para prosperar?

    Angel Ferreira — Acho que vou responder essa pergunta pensando em como estou procurando me reinventar para prosperar (risos). Tenho buscado, cada vez mais, cruzar saberes na minha vida. Quanto mais me aprofundo na vida, parece que mais aprendo sobre a arte da atuação. No começo, me dedicava muito a ler Stanislavski, Deitovski, assistir a todas as peças, e também aos pensadores da África, da Ásia ou, sei lá, de algum canto do mundo, como a América Central. Os grandes brasileiros, né? Zé Celso, Augusto Boal… Enfim, toda essa galera, o que eles pensaram ou estavam pensando. E isso é muito importante.

    Mas, hoje em dia, tenho procurado cruzar isso com outros saberes: o que o pessoal da agrofloresta está pensando, o que os monges falam há milênios. Como o estudo do tantra pode ajudar a abrir meus canais internos, a conhecer meus centros de energia. Como a medicina chinesa pode contribuir para o pensar na cena, para se abrir à cena, para se entregar a um trabalho de jogo. Capoeira da Angola, como a ayahuasca e os saberes indígenas podem desembaraçar as minhas vísceras e abrir espaços internos desconhecidos para que eu possa fluir e fruir em cena. Tenho procurado expandir meu repertório de gestos, pensando no corpo enquanto filósofo, como Angel Vianna sugere. Ela partiu há tão pouco tempo, nossa mestra.

    Acho que essa renovação, para mim, passa por um processo de cura, seja lá o que essa palavra signifique, mas um cuidado de si. Para que a gente possa realmente fazer esse percurso de 40 centímetros, que é a trajetória mais longa da nossa vida: que é da mente para o coração. Sair desse mundo excessivamente barulhento, desse ruído de uma voz interna que não para de falar e de produzir informação, essas informações que a mente fica ruinando. Todas as nossas mentes costumam ser bastante adoecidas, neuróticas, e se colocam entre nós e a vida, como se a gente não fosse a própria vida. É como se fosse um ruído que impede a gente de estar presente.

    Eu acredito em uma renovação das artes e do teatro, onde possamos compreender que o principal trabalho que temos para fazer é o de sermos portais para o agora. Para que possamos, de fato, sentir e experienciar a vida, deslocando-nos desse vício mental que nos faz pensar incessantemente no futuro ou no passado, deixando a vida passar. Acho que o exercício do teatro pode ser muito curativo, porque, para uma apresentação ser viva, o artista precisa estar presente, momento a momento, em cena. E essa prática que ela está realizando ali é testemunhada pelo público, que, ao observar alguém profundamente inteiro, intensificando o seu estado de presença, também tem um vislumbre, uma amostra de algo que ele próprio pode experimentar: estar lavando uma louça… ali, lavando a louça. Estar comendo… ali, comendo. Ao fazer amor, fazer amor. Parece simples, talvez até ingênuo, mas, se a gente parar para observar mesmo, quando estamos almoçando, por exemplo, a mente está falando tanta coisa, coisas repetitivas, que a última coisa com a qual temos contato mesmo é com a mastigação, o sabor do alimento, o tempo de degustação daquilo. Parece que o sabor fica em segundo plano. A gente sente, mas está absolutamente tomado por uma ilusão egóica de alta importância, de separação do mundo, de uma mente que o tempo inteiro precisa se firmar e se afirmar, produzindo conteúdo.

    Então, para mim, a renovação do teatro passa por esse lugar: sermos portais do aqui e agora!


  • Poesias de 1 a 99

    #03: Paredes

    Estou cercado de objetos
    sem expressão ou significados
    (utensílios para o desempenho
    de um trabalho sem utilidade).

    Tenho as mãos ocupadas
    na tarefa de preencher
    o vazio com papéis
    de números impressos.

    A cabeça gira à procura
    de lembranças que possam
    desviá-la do tédio
    de ver gentes.

    Arquiteto planos
    sem propósito algum
    além de preencher
    as horas de um expediente.

    Estou cercado pelos
    quatro lados de um cômodo
    onde recebo clientes
    de um banco de dados.

    Tudo é muito lento
    como o motor ligado
    de um ar-condicionado
    a esfriar meus pés.

    Tenho um olhar cansado
    de olhar o silêncio e
    estar calado, ouvindo
    vozes que não decifro
    e tenho medo.

    Inventário de Sombras


  • A e I; ou:

    Antônia, astuta, a afastar abelhas altivas, alertou Adélia, a angelical, ao avistar Altevo apaixonado. Ambas apáticas, antes apreciavam a aurora anêmica, amarelada, anormal, alva, altíssima: amanhecer acolhedor, animado, adorado! Alargou-se a atenção; a alameda aparecia, abria-se, acompanhando as “asas”: albatrozes, animais alados, aves, aviões – alumínio autêntico, atraente – abrandavam a ascensão acertiva: azul. Acima, alusão, altitude. Abaixo, asfalto, Antônia a abraçar Adélia:
    — Amanhã, amor, amoras… Agora, amiga, ameixas!

    Enquanto espreguiçavam-se, enquadrados em espelho, Eduardo e Erick esvaziavam epopéias e estórias. Esvaiam-se em epígrafes, enlevados em enésimas estrofes. Entre esquinas enlatadas, elucidavam escadas, envelopes, estrelas e elefantes. Estes, em equipes, enganchavam-se. Enlameados, esforçados, educados, esfomeados. Enormes, eles. Ecos escondidos, Eras exclusas. Escusas esperanças? Esclusas.

    Inteligente, ímpar, incomparável/ inigualável, imponente, impotente, irreverente, irresistível… Ideal, indivisível, irreconhecível, irritada:
    — Infiel!
    — Imparcial!
    — …Infame!
    — …Indulgente!
    — …inconsciente!
    — …insensata, intransigente!
    — …incrível!!

    Igualmente inquieta. Ia interagindo, irremediável ilusão.
    — Inté!

    Interface inteira, indivíduo invenerável, impávido, impenetrável, impecável, imparcial, iminente. Imprescindível, indicariam. Indagações, inconveniências, indecências, ilimitados interrogatórios. Intangível inimaginável, incalculável, irreal: Internet.

    Opa, Odila?
    — Olívia.
    — ok, Olívia. Ouça:
    (ouvido opaco. Orquestras operantes, ocultas…)
    — Olá?
    (outro orifício, obediente)
    — Olha, Olívia!
    (olhar obscuro, olfuscante).
    — Onde?
    (olfato observador, onipresente: ondas… outra opção) Ofegante, Olívia, orgulhosa,oscila:
    — OSTRAS??
    O órfão ofende-se, ouriçado:
    — Oi?!

    Ossos, ortografia, obrigação, oração. Ontem, oficialmente organizado. Oferta-se o Oggi, orvalho, ocorrência odiada, ocaso objetivo: outro obsceno outono.

    Utópico, ubíquo, ultra-humano, usurpador, urgente, ultrafamoso; usado:
    — hum….
    — útil?
    — uhum!
    — único?
    — hnhum…
    — urbano?
    — hnhum…
    — ultrapassado?
    — urbano?
    — umbigo?
    — Ufa, uh-uh!
    — útero?
    — ultrassônico?
    — Unânime?
    — ….universo?
    — Uhuul!!!

    (…)
    — Usuário ulterior:
    — Úmido, urbano, útil, uniforme, unidade, umbral:
    — UMBRELLA!
    — Uau!!

    (…)

    — Unânime, unidade, universal:


  • Encontro com o redentor!

    O espírito do tempo eventualmente demonstra uma apatia quando não tomamos as rédeas de nossas vidas. Aquela sensação de enxugar gelo decorrente das escolhas estressantes e exaustivas, nos faz adoecer ao invés de sentir a real emoção saudável que uma vida deve proporcionar. E a cada época o espírito se apresenta diferente porque as escolhas que você fez passam a ser mais seletivas e com conteúdos complexos, formulados pela impaciência nossa de cada dia. 

    Zeitgeist é o termo alemão cuja tradução significa espírito da época, ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa o conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural de um determinado lugar em uma certa época da história, em um determinado período. 

    Os alemães construíram o espírito da época como um argumento histórico de sua defesa intelectual.

    Hegel acreditava que a arte refletia a cultura da época em que esta foi realizada, que são conceitos inseparáveis porque um determinado artista é um produto de sua época e, sendo assim, carrega essa cultura em qualquer trabalho que realize. Por isso o mundo moderno não consegue recriar a arte clássica que surgiu do Zeitgeist da antiguidade Clássica. A arte clássica depende puramente da filosofia e da teoria da arte, sem o acréscimo do mundo moderno, de uma função social moralizante e transformada pelas vicissitudes contemporâneas, que surgem no instante que assumimos um novo espírito nesse tempo de agora.

    Os exageros da atualidade, as síndromes alarmantes, a exclusão de ambientes sociais e os aumentos de “stress” derivados da carga de trabalho, não permitem a construção de um espírito desse tempo com características saudáveis cultural e socialmente, porque o homem se afastou do cerne de sua origem lúdica e se debruçou nas entranhas da competição pelo ganha a ganha, e sequer procura observar ao seu redor o que lhe passa em frente aos olhos esbugalhados de dopamina e ansiedade definhando em sua condição de ser, humano, passando a situação de ter, o que for possível, somente para preencher seus dias vazios e a espera do encontro com o redentor.


  • Alienígenas do futuro

    A precisão temporal inexiste, mas quando perceberam já não havia mais tempo. Dentre os estudos publicados, podemos destacar uma corrente pregando o retorno às origens, que não angariou grandes esperanças na virada de prumo. Nesse período, confiaram em Deus, retocaram ensinamentos, refizeram passos, adoraram falsos Messias, mataram inocentes, morreram por déspotas, fizeram e foram feitos de bobos.

    O valor moral do trabalho decaiu quando tudo, ou praticamente tudo, foi abarcado pela tecnologia. Eles a veneraram como uma Deusa, entregaram-se abertamente, aprimorando ferramentas, construindo máquinas, trabalhando, um tanto inocentes, em utensílios facilitadores. Acreditamos que o marco principal dessa derrocada foi quando suprimiram a distinção entre o trabalho braçal e o digital. Na
    próxima imagem ficará mais claro.

    Como podem ver, houve uma naturalização da tecnologia e de uma espécie de conceito civilizatório global a ponto de acharem-se homogêneos. Banhados em hipocrisia, lutavam por uma justiça rasa enquanto fingiam desconhecer as colônias de trabalho escravo em cantos obscuros do planeta. Esses locais, em particular, realizavam o serviço pesado, sujo e desumano, enquanto os demais habitavam uma verdadeira realidade paralela.

    Na próxima animação é possível observar como cada conquista tecnológica foi comemorada, sobretudo por quem desconhecia o seu funcionamento. Nem tão de repente, notaram-se escravizados, dependentes de um prazer insosso e previsível, num processo semelhante ao que faziam com ratos em laboratórios, quando mapeavam os seus reflexos e depois os condicionavam. Não impressiona, entretanto, terem liberado seus instintos primitivos, simulando relações sexuais despudoradas em quaisquer manifestações culturais, numa aversão crescente à inteligência, que, não muito antes, parecia estimada.

    A teoria, até o momento, sugere ter sido a dopamina diária em níveis elevados mais devastadora do que qualquer outro entorpecente. Os poucos a preverem essas consequências foram tratados com desdém, acabaram esquecidos e subjugados, ou cometeram suicídio. Vocês terão mais detalhes nos relatórios completos.

    A animação seguinte desenha um panorama geral da vida estudantil. Em resumo, as novas gerações foram mostrando cada vez mais dificuldades de compreensão, até o momento em que passaram a depender totalmente da tecnologia para sobreviver. Rapidamente as inteligências artificiais tomaram conta do conhecimento de todo e qualquer assunto. Alguns, cínicos, duvidaram da catástrofe. O quociente de inteligência que esteve sempre em lento crescimento, decaiu bastante e jamais tornou a subir, como visto neste gráfico. O fim da história todos conhecemos.

    Resgatamos um pequeno grupo, mas ninguém sobreviveu. A princípio nos trataram como salvadores. Estavam debilitados e delirantes. Um deles deu indícios de recuperação; porém, morreu no dia seguinte. O seu corpo foi trazido para estudos genéticos mais aprofundados. Quando finalizarmos as pesquisas, faremos uma nova incursão até o local. Queremos entender a proliferação e superpopulação de insetos e
    galinhas. Além disso, pretendemos encontrar mais exemplares dos discos do Rush e do romance Moby Dick, talvez as únicas produções humanas a justificar tal esforço. Na sequência, vocês terão a apresentação de um estudo sobre a geologia vulcânica pré-colapso. Muito obrigado.


  • Uma história de desapego

    C. considerava ter uma vida normal. Geralmente, sua rotina era casa/trabalho. Neste ele era um sério senhor que fazia tudo conforme mandavam as regras. Em sua casa, libertava seu lado criativo e passava suas horas escrevendo.

    Todos os dias saia do forno um novo texto. Não considerava ser um escritor, mas jamais imaginou conseguir viver sem exercitar esse seu lado. Às vezes, se dava ao luxo de sonhar em ter seus trabalhos reconhecidos e fazer sucesso. Quando isso acontecia, logo procurava desviar seu pensamento. Preferia guardar seus trabalhos em uma gaveta, pois não suportaria a crueldade dos críticos. Seu medo era limitante, mas não se importava, queria somente conversar seu hábito.

    Não costumava revisar nada que escrevia. Por isso, as vezes perguntava se conseguiria reconhecer suas crônicas escritas no passado.

    Quando não estava criando, costumava assistir ao telejornal da noite. Não gostava de ficar desinformado. Certo dia, viu uma notícia sobre um escritor que ficou famoso nas redes ao escrever uma crônica sobre a condição humana. Ficou maravilhado. Enquanto o homem falava sobre seu texto, ele apenas movimentava sua cabeça em tom de concordância. Passou a admirar aquele artista. Quem sabe um dia seria igual…

    Não satisfeito com a reportagem, foi procurar a crônica. A cada parágrafo ficava mais encantado. Não conseguia discordar de uma palavra. Foi buscar entrevistas, podcasts e qualquer coisa em que ele participasse. Realmente tornou-se um fã. 

    A grande admiração por aquele artista trouxe a vida de C. a inédita experiencia da incapacidade de escrever. Ficava se perguntando como duas pessoas poderiam se interessar pelo mesmo assunto, mas expressá-lo de forma tão diferente. Sua sensação era de indigestão diante da incapacidade de escrever com maestria. Passou a ser mais exigente com sua escrita. Não conseguiu mais concluir nada.

    Desanimado diante desse momento de interrupção criativa, resolveu revisitar seus textos antigos. Quem sabe essa atitude não poderia reativar sua mente. Sentou-se em sua poltrona e começou a ler seus trabalhos. Era bem crítico em relação a grande maioria. Ao ler alguns deles, chegou até mesmo a sentir vergonha

    Quando já estava chegando no final do material guardado, pegou uma crônica e começou a ler. Ela falava sobre a condição humana. De repente pensou “espera aí, esse aqui eu conheço muito bem”. Na realidade, saberia recitá-lo de trás para frente, mas fez questão de continuar lendo até o final. Como aquele texto saiu da gaveta e foi parar no mundo? Decidiu guardá-lo por último no lugar onde achou que nunca estivesse saído. Naquele momento, sua mente era uma avenida metropolitana em horário de rush.


  • Poesias de 1 a 99

    002# – AGUACEIRO

    A chuva cessou de chover
    e já agora eu posso
    tirar as mãos dos bolsos
    e atravessar a rua.

    Mas já não tenho mãos
    e nem tampouco posso
    atravessar esta rua, pois
    a água levou-me as pernas.

    E a rua, embora chovida, está seca.
    Eu fui a chuva que choveu e ninguém viu.

    Milton Rezende in “O Acaso das Manhãs”


Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar