Me dói.
Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar.
Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substantivo, verbo e sentença. Encolhido no sofá, meio corpo dentro de uma febre que não termina de ir embora, meio corpo dentro de uma lista de coisas que também não termina nunca. Há trabalho espalhado pela casa: folhas sobre a mesa, o computador em estado de espera, o WhatsApp, talvez até dentro da geladeira, se houvesse forças e coragem para abri-la. Eu deveria estar fazendo alguma dessas coisas.
Não estou.
Estou debaixo da manta souvenir de uma viagem de avião emblemática.
Digamos que tal elemento foi incorporado ao meu enxoval-patrimônio-itinerante. A manta é fina demais para aquecer alguém, mas tem a qualidade invejável de me fazer pensar em aeroportos. E aeroportos, ultimamente, são uma espécie de esperança com portão de embarque e um caminho sem migalhas de pão para o qual retornar. Penso nas próximas viagens. Em cidades nas quais ainda não fui, nas que habitarei temporariamente em breve. Numa janela desconhecida, numa rua que ainda não sabe meu nome. Na minha versão ainda sem rosto.
Talvez seja a febre, mas penso também na estranha vontade humana de caber por alguns minutos no abraço de alguém. Nem sei de quem. Talvez nem importe. No meu encolher suado, sorrio. “Assim caminha a humanidade”, surge um pedaço de uma velha canção conhecida. A ausência tem dessas crueldades: às vezes nem rosto possui. Aperto a manta contra o peito.
E eis que alguma coisa se mexe ali dentro. Estremeço.
— Sai.
Nada.
— Eu sei que tem alguém aí.
Uma cabeça surge na altura dos meus joelhos.
Cabelos pretos. Cachos lindos, insolentemente bem definidos, como se nunca tivessem ouvido falar em progressiva, secador, escova rotativa ou no projeto feminino de pacificação da vida.
Depois vêm dois olhos enormes.
Pele branquíssima, jovem, intacta daquela maneira ofensiva como só a pele infantil consegue ser. Ela segura um pote de pipoca entre os dedos. Sorri sem mostrar os dentes.
Reconheço imediatamente.
A menina sou eu-de-antes.
A versão de mim que ainda não tinha aprendido que os cachos não eram um problema a ser resolvido. Na verdade, os cachos nunca foram um problema. Nem o corpo. Nem a vida. Ela se enfia mais para dentro da manta, ajeita as pernas sobre as minhas e pergunta:
— Vai rolar Netflix ou você vai continuar fazendo essa cara de mulher abandonada num romance russo?
Olho para ela.
— Estou com febre.
— Eu vi.
— Tenho muito trabalho.
— Também vi.
— E estou triste.
Ela mastiga uma pipoca.
— Isso eu senti da cozinha.
Ficamos em silêncio. Pego o controle remoto. Escolho uma série. Comédias com pessoas fazendo coisas moralmente questionáveis sempre me acalmam. Talvez porque a moralidade alheia seja um ótimo descanso do próprio cotidiano.
Minha criatura acompanha tudo com enorme concentração, enfiando duas pipocas de cada vez na boca, e depois de alguns minutos começa a emitir opiniões não solicitadas.
Aquela ali é meio burra, olhe bem.
A outra está mentindo; como mente mal, coitada.
A terceira deveria fugir.
Esse homem tem cara de quem pede desculpas e repete exatamente a mesma coisa depois.
— Você tem oito anos — digo.
Ela me olha.
— E você tem quantos e continua caindo nessa?
Não respondo.
É desconcertante ser chamada à atenção por uma criança que mora dentro da própria cabeça. Puxo mais a manta. Ela também. Lembro-me do cabo-de-guerra, minha/nossa modalidade preferida nas Olimpíadas da escola. Ficamos ali, empatadas, apertadas dentro da manta: duas mulheres ocupando o espaço de uma pessoa só, embora tecnicamente exista apenas uma nesse nós.
Começo a pensar que eu e minha Pequena passamos a vida inteira aprisionadas juntas. Não de forma trágica – ou não apenas: um quê de prisioneiras livres. Crescer, penso, é como construir paredes de um material que não é tijolo, cimento ou drywall. É outra a técnica, outra materialidade. O cabelo que era melhor alisar. A palavra que era melhor não dizer. O choro que era melhor engolir. O sonho que era inconveniente. Silêncios. E mesmo assim, lá dentro, essa criatura continua fazendo piadas. Idealizando histórias. Apaixonando-se por palavras estranhas. Mudando o nome das coisas. Inventando saídas. Comendo pipoca.
Como não percebi antes?
Ela me olha, entende a pergunta não pronunciada e faz uma cara de “sei lá”, intensificada pelo levantar dos dois ombros. Volta a assistir à série.
— Lembra da cabana da Barbie?
Ela levanta a cabeça de imediato.
— Claro, né? Montávamos no meio da sala. Papai era sempre quem ajudava com a estrutura: aquelas paletas de madeira, as junções de plástico, uma engenharia doméstica de altíssima complexidade e baixíssimo rigor normativo. Depois enfiávamos o meu colchão lá dentro. O colchão, maior que a cabana, vazava pela porta de tecido. Era o máximo dormir lá, com as pernas para fora.
Havia alguma coisa extraordinária em construir uma casa que mal conseguia conter aquilo que nos fazia dormir. Será que era isso que me fazia sentir tão segura?
— Agora temos aquela barraca de camping tamanho família — digo.
— Aquela que também só usamos na varanda da mamãe?
Rimos.
— Somos péssimas nômades. Apesar de nômades sermos, verdadeiramente, agora.
Minha Pequena discorda.
— Somos ótimas em tornar qualquer lugar habitável.
Fico quieta.
Olho ao redor.
A manta do avião. O sofá que não é meu. Pratos que não são meus, talheres de bambu que são. As malas.
As coisas temporariamente permanentes.
As coisas permanentemente temporárias.
— Vai ver foi por isso que você se tornou arquiteta.
— Nós nos tornamos, ela corrige.
Isso. Nós.
— Você pensa demais, diz.
—Nós pensamos. Sempre foi assim.
Minha versão Miúda se emburra imediatamente, como sempre, quando contrariada. A boca fecha. O queixo sobe. Os olhos acusam o mundo de um crime gravíssimo que ninguém ainda conseguiu identificar.
— Ah, pode ir aprendendo a melhorar essa carinha aí. A vida vai bater na gente feito carne crua — aviso — Anos de terapia poderiam ser poupados se esse papo estivesse acontecendo um pouco antes.
Rio.
E estamos no Rio, penso. Ainda.
Rimos juntas, duas nômades que constroem barracas em varandas. Duas arquitetas especializadas em fazer caber casa dentro de mala.
Desmontar.
Dobrar.
Guardar.
Levar junto.
Montar de novo.
Ela pega outra pipoca; ajeita-se ao meu lado, pousando a cabeça no meu ombro esquerdo. A febre continua. O trabalho continua. O abraço continua no ar; nada foi resolvido.
Ainda assim, há uma casa improvisada debaixo daquela manta fina demais.
Uma menina.
Uma mulher.
Um pote de pipoca.
E uma próxima viagem batendo à porta.
Acho que somos mesmo prisioneiras livres. Mas com uma prisão que desmonta.
E cabe na mala.