Minha avó Penélope

  • A vida em compasso de espera

    Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais geralmente não tem força para se manifestar ou buscar explicações. O tempo se encarrega de explicar.

    Viúva jovem, minha avó trabalhou como costureira para sustentar os filhos. A vida, para ela, passou a ser costurar e costurar. Uma vez tentou se distrair e cantou na festa da padroeira, mas desafinou. Recebeu muitas vaias, fez um escândalo, ficou furiosa, mas depois esqueceu. Não desafinava na costura, e isso a satisfazia.

    Nunca falou com tristeza do passado, nem reclamou de alguma dor de sentimento. Para dor física, tomava uma aspirina e tudo ficava bem. Quando sua visão começou a falhar, continuou costurando guiada pelo instinto. Com décadas sentada na frente daquela máquina, podia costurar até se tivesse ficado cega. Um ponto no direito, dois no avesso, sabia exatamente para onde dirigir a agulha e comandar o pedal. Fazia roupas sem moldes, dizia que não precisava porque conhecia de cor e salteado a medida das mulheres que apareciam em casa querendo um vestido novo, ou uma blusa, ou uma saia.

    Sempre me lembro dela costurando, mas não me recordo de nenhuma camisa ou vestido que tivesse sido fruto de suas horas de costura, como se ela simplesmente costurasse e a peça sumisse. Não tinha outro objetivo senão fazer uma roupa atrás da outra. Era um prazer infrutífero, não se importava com o resultado, apenas apreciava o processo. Talvez, todas as noites, enquanto dormíamos, ela se levantasse para desfazer o que havia costurado e voltasse para a cama sabendo que, com o amanhecer, poderia recomeçar do zero e assim adiar por mais um dia o fim inevitável, que nem sempre justifica os meios, mas justifica muitos medos.

    Minha avó Penélope sempre foi fiel ao marido, principalmente depois de perdê-lo. Permaneceu intocada após o sumiço dele e provavelmente nunca conheceu outro homem em sua vida. Talvez esperasse que o marido de repente voltasse um dia, sem avisar, vestido com trapos como se fosse um mendigo, e ela, mantendo sua dignidade celibatária, pudesse repreendê-lo: “Isso são horas de voltar para casa?” Ele certamente responderia: “Querida, você não vai acreditar no que me aconteceu. Estava voltando direto da guerra quando, de repente, fui capturado por um pirata monstruoso que tinha um olho só, um braço só, um pé só e um pensamento fixo: acabar com a minha raça. Consegui escapar e fui parar no quinto círculo do inferno, onde encontrei antigos companheiros de armas brigando entre si, e então todos nós fomos atraídos por cantos de várias sereias e depois apareceram umas bruxas que me enfeitiçaram e me obrigaram a deitar com elas. Mas essa é outra história, eu conto outro dia. Agora vamos dormir, que estou um bagaço de tão cansado.”

    Meu avô nunca voltou de sua odisseia, e minha avó continuou sua lida diária de tecer e desfazer sua vida até que não lhe restasse mais nenhum fio. Anos após sua morte, ficamos muito espantados quando aquele mendigo apareceu em nossa casa perguntando por ela. O homem fez segredo do próprio nome, não quis dizer como se chamava porque, segundo ele mesmo, seu nome era tudo o que lhe restava. Ofereceu suas condolências pela partida de minha avó, doeu-se pela nossa dor e se despediu. Foi assunto de toda a família saber que a vó Penélope, na idade dela, tinha pretendentes. Nunca mais tivemos notícias dele nem mencionamos esse acontecimento depois. Como sempre, ficamos quietos e esquecemos.

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