O mundo além do horizonte

  • O mundo além do horizonte

    O vô Júlio tinha umas ideias esquisitas. Uma tarde ele estava cortando cavacos – uma pilha de cavacos, todos iguais: um palmo, e um palmo tinha que ter vinte e dois centímetros. Encostou o pequeno machado no cepo onde realizava a delicada operação, enxugou o suor com o lenço do pescoço, e ficou olhando o horizonte.

    – O que é que tem para lá do horizonte, vô? – eu perguntei.

    – Ara, nada – ele disse.

    Eu fiquei matutando um tempo, o sol se pondo no alto do morro, sobre os cafezais e um pedaço de pasto com os seus altos coqueiros e umas árvores esparsas. O sol parecia queimar a paisagem, como uma coivara fumegando entre os troncos ainda verdes.

    Criei coragem:

    – Mas, vô. As terras depois daquele morro. Como é que são?

    – Não existem terras além do horizonte – ele pôs ponto final na conversa.

    Voltou a seus cavacos milimetrados: estendeu o palmo sobre uma acha de lenha, fez sinal de aprovação com os beiços, e cortou em dois, em quatro, em oito pequenos cavacos.

    Eu voltei àquele mesmo lugar, hoje, sessenta anos depois, não, minto, mais de setenta anos, depois de ter visto o mundo além do horizonte, e vejo que o vô Júlio tinha razão.

    A casa velha, quase em ruínas, as árvores secas, o pasto seco, o vento seco. É um mundo morto, onde estou. O vulto do vô Júlio é a única coisa viva. O vô Júlio está mais vivo do que quando era vivo. E estica o beiço mostrando o horizonte, quase com arrogância, enquanto balança a cabeça teimosa, resmungando seco:

    – Ara.

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