A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se estendia pela cozinha ou varanda – somente quando vovó estava cozinhando, e pegávamos pequenas sobras de rabanada e de bolo, por exemplo. A bendita sala de estar tinha um querer de abençoada, por Nossa Senhora das Graças, de devoção de vovô e de vovó. A imagem ficava bem no centro da sala; era grande, para que pudéssemos controlar as nossas maluquices, talvez. Partilhávamos a aura leve e envolvente, e, não raro, nós, os netos, preparávamos peças teatrais, para que tios, pais e avós pudessem se divertir. Prestavam atenção com uma curiosidade estranha, já que tio Neto e tio Fagner queriam participar, com falas enviesadas, que nos atrapalhavam (era o sinal de que a bebida já havia tomado de conta de suas mentes sãs – ou nem tanto assim). Claro, não havia bom repertório, mas conseguíamos arrancar boas risadas das tias orgulhosas. Logo que vovó adoeceu, as reuniões ficaram esparsas, íamos mais para vê-la do que para nos divertirmos. Se vovó estava doente, era motivo para a minha mãe, sua filha, dar uns beliscões em mim ou no meu irmão, se saíssemos da linha. Eu não sabia, mas a doença de vovó era fatal; ela estava em fase terminal, com câncer. Após seis meses, entre idas e vindas ao hospital, vovó faleceu e deixou um rastro de dor. Vovô não tinha mais ânimo para nada. Eram muito apegados. As reuniões aos sábados se transformaram num purgatório, pois não podíamos brincar (para mamãe, era uma grande falta de respeito com meu avô, que convalescia com a dor da perda da mulher mui amada). Conto essa história toda para dizer que amei muito a minha vozinha, que fazia de tudo para ter a família unida, fortalecida. Nas voltas que o mundo dá, depois de engenharia, terminei a faculdade que fora “proibido” de fazer, a de teatro. As atuações na casa de vovó, levadas a cabo por mim, invariavelmente como diretor, ficaram marcadas numa memória pura e saudosa. Ainda hoje, quando apresento uma peça, rezo a minha vozinha e a Nossa Senhora das Graças, para que me ilumine, para que a performance seja agradável e catártica. Do meu palco me lembro da sala de estar, e o aconchego me inunda. Talvez eu possa ser, para sempre, um ator das pequenas coisas, da formosura, da vontade de viver expressa em meu rosto úmido. Sou desses que amam sem saber o porquê. Amor à vida e gratidão.