VANILDA não será mãe

  • VANILDA não será mãe

    Acho que estou me tornando uma sociopata. Só fico à vontade quando estou enfiada no meu mundo. Concentrada, recolhida comigo, sem interferências. Os amigos me perguntam, Vanilda, você não vai conosco? Vanilda, você está tão sumida; Vanilda, você parece uma velha… Odeio ser colocada contra a parede. Será que não veem que preciso de reclusão? Não é pela idade, mas por escolha.

    A minha fase antissocial começou depois que constatei que odiava crianças. Podia soar meio absurdo, não convencional, eu sabia. Seria um desvio? O mundo é hipócrita desde os primórdios. Conheci muita gente que também pensa como eu, embora se recuse a admitir. Ou receie as repercussões. Que encanto, como é bonitinha, fofinha, uma princesa, e eu, calada, pensava: que peste!

    Nada de dedos melados de chocolate, brinquedos espalhados pelo chão e, definitivamente, choro estridente no meio da noite. O mundo lá fora pode estar cheio de mães com seus filhos, às voltas com joelhos ralados e tendo de responder perguntas intermináveis: por que o céu é azul, por que chove, por que os dinossauros sumiram? Não é meu caso. Não quis ter filhos. Prefiro viver a vida sem a obrigação de perder a identidade pessoal. O paraíso foi feito para se aproveitar, nunca padecer. Não nasci para abnegações nem lido bem com cansaço extremo. Se não durmo oito horas diárias, fico um caco.

    Ainda há a singela responsabilidade de ser a “mãe perfeita”. Um padrão de exigência quase irreal, acompanhado de uma culpa constante em não conseguir atender às expectativas. Dos filhos e da sociedade. Não vim ao mundo para me candidatar a mãe do ano.

    Os amigos contra-argumentavam: Vanilda, se sua mãe tivesse pensado assim, você não nasceria… Pode ser, talvez tivesse sido até melhor. Mamãe – que Deus a tenha bem guardada – não foi essas coisas como genitora. Nessas horas, celebro Machado de Assis: não ter filhos para não transmitir a nenhuma criatura o legado da sua miséria. Grande Brás Cubas.

    Já associei minha fobia ao medo do parto. A adoção poderia ser uma alternativa, se o adotado – ou adotada – viesse maior de idade, saudável e independente.

    O normalizado, o aceito, o natural é você pensar a criança como pura, inocente e coisa e tal. Vai nessa. Crianças também podem personificar o mal. Vide “A Profecia” ou “O “Exorcista”. Todo o cuidado é pouco. Quem vê cara não sabe o que lhe advém.

    E o que dizer daqueles pirralhos mal-educados, mimados e sem limites? Quando me deparo com um desses, tenho gana de lhe torcer o pescoço. Viva Herodes!

    Minha irmã ficou um tempo sem falar comigo, porque no nascimento do meu sobrinho, comentei que ele era feio demais. Parecia com um rato-toupeira careca. O que fazer se o recém-nascido tinha a cabeça grande, dois fiapos de cabelo pela testa, o rosto inchado e a pele avermelhada, enrugada, coberta por uma gosma?

    Aprendi a lição. Para evitar problemas, não falo aos outros da minha aversão. Procuro disfarçar e, em casos extremos, consigo até ser falsa e sorrir, dizendo que o menino (ou a menina) é uma graça, um presente de Deus. Por dentro, gargalho.

    Trabalhei durante uns anos numa creche. Minha implicância com crianças vem daí. Com o tempo, fui perdendo completamente a paciência. Trabalho mais aborrecido e entediante cuidar de bebês. Ainda mais dos outros. Reivindiquei adicional por insalubridade. Fui demitida.

    Como todo assassino que retorna à cena do crime, passei num concurso para professora do primeiro grau de uma escola pública, onde fiquei até me aposentar. Minha metodologia pressupunha hostilizar e perseguir os diabinhos. Quanto mais me divertia, mais eles se apegavam e me respeitavam. Criança gosta de tirania, castigos, sanções e repressões. Tudo junto. O pulo do gato era na hora dos testes e resultado das provas: eu surpreendia e era benevolente. Nunca reprovava ninguém. No íntimo, pouco me importava se no futuro estariam aptos ou não para alguma coisa. Só não queria me aporrinhar. Já imaginou ter de voltar a vê-los um outro período? Melhor não.

    O meu isolamento trouxe consequências, admito. Não posso afirmar que minha vida deu certo, que acumulei afetos ou cativei o mundo. Sigo apenas vivendo e de quase nada me arrependo. O que me incomoda é nunca receber presentes ou ser lembrada no dia das mães.

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