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Contos
O peso da vida
Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecen
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Contos
Matei
Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço cor
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Contos
A falta
Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras cois
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Contos
Herança
Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que
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Contos
Ano-Novo
Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas
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Contos
Inferno
Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se casou. Mudança brusca de comportamento. E eles ainda foram mor
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Contos
A dor do outro
Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai impunha moral, colocando-o rente ao chão, se preciso fosse, pa
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Contos
Eternidade
Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos
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Contos
Peregrinação
Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho
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Contos
Nova idade
Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio,
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Contos
Beleza
Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de e
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Contos
Espectro
Laura é do tipo cismada e encabulada. Quando quer as coisas, vem logo no colo do pai pedir para que eu resolva. Desde pequenininha é assim, manhosa. No começo, eu aceitava, por ser tão pequena e não ter condições de resolver suas questões. Agora, com dez anos, isso me incomoda profundamente, porque eu mesmo fui criado
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Contos
Diarista
Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais,
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Contos
Melancolia
A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha in
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Contos
O Sol
A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmament
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Contos
Apocalipticamente
“Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queri
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Contos
Bichanos
Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim qu
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Crônicas
Fixação
Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porq
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Crônicas
Por que os bons morrem cedo?
Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius d
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Crônicas
Nosso mundo
Enquanto meu filho brincava, eu atestava a sua inteligência e engenhosidade, emocionado. Como ele crescera rápido? Ao mesmo tempo em que me surpreendi, me assustei, como se um portal se abrisse em minha frente. A verdade é que não acompanhei bem seus últimos dois anos. Claro, ocupado com o trabalho e as infinitas obrig
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Crônicas
Brazilzão
Não falo de Clarisse, pelo contrário, ela se mostra ser uma pessoa de bem, engajada, fervorosa com os princípios das “quatro linhas da Constituição”. Falo de Sérgio, que se debandou para lá, pro lado comunista. É um tremendo de um traidor e vacilão. O casamento deles está um pandemônio. Imagine conviver com um comunist
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Crônicas
Desumanização
Acompanho a minha esposa na fisioterapia. Como vocês sabem, ela fraturou o braço há um mês e está entrando numa fase longa de recuperação. Estou cagado de cansado, de um dia todo de trabalho; peguei um trânsito maldito e estou agora, 18h30min, num tal Ginásio 2 – Pós-operatório, no prédio do plano de saúde. Foi u
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Crônicas
Doce Maria
Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronrona
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Contos
Uma grande amizade
Estava prestes a entrar na casa do Ricardo. O calafrio bateu, com a força do vento gélido, de um dia de chuva, que dava do décimo primeiro andar, de um prédio no nascente. Fiquei minutos paralisado, sem saber como proceder, o que dizer, para o meu tão grande amigo. Nós nos conhecemos no colégio, quando tínhamos cinco p
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Crônicas
Minha luta
Não sei se ainda estou perdida. As guerras de minha mãe e de meu pai devem ter afetado o meu psicológico severamente. Eles digladiavam com tudo, entre si, com o mundo. Tinham trabalhos que odiavam. Chegavam a casa resmungando ou gritando. Quase sempre eu era bucha de canhão. E olhe lá quando não me chamavam de menina m
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Crônicas
Sucesso ou o quê?
Linete não tinha nada a perder, pensava. Ela jurava que conseguiria rápido um emprego melhor, apesar de sempre escutar que o mar não estava para peixe, que o certo mesmo, e garantido, era fazer um concurso público, como o seu pai dizia, sendo funcionário público e ganhando um salário de miséria. Linete sonhava que podi
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Crônicas
O menino e o mundo
Nos idos de 1990, eu era um menino, com tantos sonhos. Nessa época já intuía o modus operandi da vida. Percebia as incumbências de meu pai, sempre muito atrasado para o trabalho, onde sequer às vezes podia tomar um café e era chamado de “cabra”, por seu chefe, por chegar atrasado; o calor do abraço de minha mãe, tão do
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Crônicas
Tudo muda
Um estalo e tudo muda. Bruna saiu de casa muito cedo, para ir ao treino na academia. Não tomou o café da manhã direito. Precisava ir rápido para poder, depois, trabalhar. Muita pressa para uma vida tão curta. E ela que tanto defendia o cuidado com o tempo… Na volta, bateu a moto num carro parado. Distração. Apagamento.
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