Crônicas
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jul- 2025 -5 julho
Direção Defensiva
Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da
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5 julho
Frio com Memórias
Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio! O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos! No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho,
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3 julho
Trama subjetiva nas mentes!
O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. Carrega a eternidade como sa
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1 julho
Deixa o mundo lá fora, vai
À primeira vista, nenhuma graça. A turma está lá fora, jogando bola, tomando cerveja no boteco, nadando no clube. E você? Está ali, concentrado, alheio, lendo. “Que programa mais besta!”, “Quem lê demais fica doido!” — já ouvi de tudo. Mas ler é outra história. Bem diferente de ver série, filme ou novela. Quando alguém filma, quer que você compre a ideia dele. No livro, a escolha é sua. Você decide o que quer, do jeito que gosta, no seu ritmo. E qual é a g
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jun- 2025 -29 junho
O crítico perfeito
Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos. Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário. São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo. São todos os fusos horários em um coro
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29 junho
Nada de Novo no Front
Nada de novo no front. Mais uma guerra… E as guerras não têm nada de bom… E esta crônica, infelizmente, se repete. Mais uma crônica sobre as guerras, quando não se deveria escrever crônicas sobre guerras! Contudo, mais uma vez, preciso escrever que não há nada mais estúpido do que a guerra! A guerra interrompe o canto. Paralisa o jogo. Congela sentimentos. A guerra separa amores, aniquila sonhos, pulveriza infâncias, desmaterializa as coisas e
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29 junho
Os Jardins de Áurea
O ambiente cheirava a alfazema, misturada ao odor morno da roupa de cama recém-trocada, que aguardava no cesto para ser levada à lavanderia. Do lado de fora, um beija-flor pairava diante da janela, como se buscasse algo que havia perdido. Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Vestia o traje estampado mais elegante do guarda-roupas, embora não fosse aquele que desejava usar. Sentiu as mãos ágeis de alguém prendendo seu cabelo com um elást
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28 junho
Sobre viver em tempos bárbaros
Acesso a internet e me deparo com o genocídio em Gaza, o ataque de Israel ao Irã, outra demonstração do exibicionismo doentio dos EUA e o descaso da Indonésia com a nossa menina brasileira. Respiro um ar rarefeito. Falta saliva para deglutir todo esse horror. Penso no sofrimento atroz pelo qual ninguém deveria passar para viver ou morrer… um misto de tristeza, temor e desesperança me atravessa. E, como se tudo isso fosse pouco, me deparo com o vídeo de um
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28 junho
O Poema da Crônica
Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador. Como assim, férias, se sou aposentada? Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida. No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito. É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tem
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28 junho
ORDEM, PROGRESSO E… AMOR
“O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezastes esta lei de Auguste Comte / E fostes ser feliz longe de mim” (POSITIVISMO, Noel Rosa e Orestes Barbosa) Bandeiras são símbolos que remetem à identidade de uma nação. Constituem-se em autênticas obras de arte por sintetizarem os valores de um povo usando apenas tonalidades e elementos gráficos e temáticos sobre um fundo retangular. Aqueles que conceberam a bandei
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27 junho
Crepúsculo da bruxa
A chuva forte não convidava a sair. Em outros tempos era o momento de dar uma ajeitadinha no visual, montar na vassoura e voar pelo mundo. Agora não. A vassoura está ali mas a confiança em subir nela desapareceu. Ou melhor, está adormecida. Não é de hoje que ela duvida se ainda sabe mexer com os poderes que a tornaram notória. No fundo ela acha que ainda conseguiria dar umas voltinhas sentindo o vento nos cabelos. Mas na dúvida prefere não arriscar. E no e
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27 junho
O verso e seu inverso
Frequentemente, uma leitura puxa a outra e acabamos em um fim diverso do que planejamos. Foi assim que caí em Massaud Moisés. Melhor, na sua obra A criação literária, que, há um bom tempo, aguardava na estante o meu retorno. Procurando ser uma introdução ao estudo da literatura, o livro nos traz uma abordagem sobre os gêneros literários, onde, em certa passagem, aparece a discussão sobre a adequação deles no trabalho do escritor. O ex-professor da USP fala
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26 junho
Ao final de tanto!
No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu bel-prazer. Em sua mente pode aparecer uma cena de horror quando seus dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como você está de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito, felicidade,
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25 junho
Temístocles, a filosofia e o ônibus
Por muitos anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 7h17, e o levava para a escola. Aos amigos ele contava qual curso faria na Universidade. Tinha planos, como todo jovem sonhador, um tanto bobo, claro. Pouco ciente de suas prováveis desventuras. Por dois anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 13h01, e o levava para o curs
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24 junho
O porteiro que era dono de uma ilha de livros
No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros. Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros. Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca
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22 junho
Dois cafés e um canto de bar
Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nun
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22 junho
Crônica para Cronistas
Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo… Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve… Você sabe o peso de uma crônica? Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto… Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso rever
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22 junho
Bandeira branca
Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós. É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas. É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar
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21 junho
Algoz Ritmo
Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas. No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa. Foi-se a época e
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21 junho
Modo Economia de Energia
Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta. Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas. Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas. Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa es
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21 junho
Paratatá
A experiência de não ser entendido, tampouco entender o que o outro diz, é de uma angústia visceral. Isso acontece, mais rotineiramente, nas desavenças, nos mal-entendidos, no ciúme, mas refiro-me, aqui, à vivência de estar num país de outra língua que não arranha o inglês ou o espanhol. É curioso constatar que duas pessoas podem não conseguir se comunicar, ainda que queiram ou precisem. Ambos podem ter vocabulário farto, palavras na boca para usar,
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19 junho
Bilhete Premiado!
Ficamos mais próximos de nós mesmos nesses últimos anos, foi inevitável o isolamento e descuido em relação aos outros, porém, crescemos sobre maneira evitando por vezes um desespero sem volta. Os melhores estão aqui, os mais fortes e preparados se safaram da peste, e agora revivemos nosso passado na busca de respostas diferentes porque todas as questões mudaram, algumas de tamanho, outras de conteúdo. A forma de revisar a vida, travada pelos ar
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15 junho
[com]penetrante:
Convencer-se profundamente sobre algo; Concentrar-se intensamente em algo. […] Quantas toneladas de cimento erguem-se do solo em direção ao céu, na cinza e tão loquaz São Paulo? Quanto de densidade vital se esfarela nas sombras penetradas por passos, sapatos, solas, pés descalços, arte de rua, pombos, cachorros, bolsas de senhoras que, sem querer, lançam-se, desobedientes, ao rés do chão das calçadas, a testar a humanidade: ajudo a senhora com seus pertenc
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15 junho
Melhor não rir na sexta…
Todo mundo conhece aquela velha metáfora do copo: meio cheio ou meio vazio. Virou referência clássica para distinguir os otimistas dos pessimistas. Basta um gole de convivência em família ou entre amigos para perceber quem vê a vida com espuma no topo e quem enxerga apenas o fundo do copo — seco, é claro. Na minha roda de infância, havia uma amiga que levava o conceito de copo vazio a um novo patamar. Era praticamente um poço — mas um poço sem fundo. Desde
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14 junho
Namoro Fake
Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável. Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto. Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimen
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12 junho
Trama subjetiva nas mentes!
O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. Carrega a eternidade como sa
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11 junho
O último reduto da boa prosa
O último reduto da boa prosa é o bar. E quem discorda é clubista, é demagogo, é coach dos bem mequetrefes. Não adianta procurar argumentos contrários. O último reduto da boa prosa é o bar. E ponto. Simples assim. Sejamos razoáveis, em que lugar ainda encontramos uma prosa destituída de mimimis, de blablablás, de ramerrames? Uma prosa despreocupada com a opinião da vizinha lacradora com milhões de “seguimores”? Uma prosa afastada da prévia censura do politi
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8 junho
A beleza do mundo, hein, tá no Gantois!
Amanheceu e Janaina, cantarolando Dorival Caymmi, se preparou para mais um dia de trabalho na entrada do Casa Espiritual do Gantois. Mais que depressa, arrumou a cesta com os alimentos responsáveis pela manutenção da energia dos orixás e que servem de caminho entre o céu e a terra: os frascos embrulhados de vermelho com azeite de dendê, as trouxinhas brancas onde colocou o vidrinho de álcool e alguns recipientes para o vinho, o mel e o fumo preto. Além dis
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7 junho
Tempo de ler devagar
“A comparação envolve confrontar a sua vida, ou um aspecto dela, com a de outra pessoa, procurando pontos de semelhança ou diferença.” Fui ao Aurélio em busca do significado exato da palavra comparar. Que bom que tive essa preocupação. Fiquei aliviada com a descoberta: não me comparo, não devo me comparar; e, se o fizer, jamais será no sentido literal da palavra. O que me levou a essa reflexão? Um passeio despretensioso, que terminou por me tocar profundam
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7 junho
O silêncio dos culpados
“Cauby cantando “camarim”, Orlando “faixa de cetim”, Milton, “o que será” e Dalva, “poeira do chão”. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio, só João” (Caetano Veloso, “Prá Ninguém”) O sol exausto salpica seus derradeiros, débeis e sonolentos sinais de despedida, aquecendo com leveza minha pele e abrindo delicadamente seus poros para o que o universo possa com ela se conectar. De o
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