Crônicas
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abr- 2025 -15 abril
O azul e a lágrima
A manhã estava calma. Calma como um gato se espreguiçando. Tinha combinado de almoçar com um amigo, ali pros lados do Mercado Central. Um passeio tipicamente mineiro: caminhar pelo centro sem pressa, sem carros, sem aquela multidão apressada. Nem buzinas, nem o relógio invisível cobrando compromissos. Conversávamos sobre música, livros e algumas bobagens que fazem bem. Uma moça gritou: — Gente, olha ali! O que é aquilo, meu Deus? Na esquina da Augusto de L
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13 abril
Lambuza-te da tua fatia de tempo
Uma casualidade remeteria um leitor comum a uma pizzaria. Embasbacar-se-ia, pois, com o sentido literalmente delicioso de uma plaquinha assim, despretensiosa assim, alocada aleatória ou propositalmente junto a três relógios de paredes com o mesmo design, mesmo compasso, horários diferentes. “Lambuza-te ou te devoro”, é a moral da história – e uma citação que pretendo patentear, de tão boa que ficou [fique à vontade para citar, mas já faz
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13 abril
Ato falho
Pela frestas da veneziana, Niclas pode ver que já tinha amanhecido. Sentiu um certo alívio, pois assim poderia se livrar dos pensamentos que não o deixaram dormir em paz. Por outro lado, iniciar o dia significava enfrentar o problema que havia sido criado na véspera. Sentia o corpo cansado e a cabeça pesada. Sentou-se na cama, disposto a traçar seu plano de ação. Ao pegar os óculos na mesa de cabeceira, seus olhos se iluminaram ao ver a edição resumida do
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12 abril
Para Su e todas nós
Essa semana uma amiga viveu uma situação bastante traumática e corriqueira no universo das mulheres: foi intimidada verbalmente por um colega de trabalho e ameaçada de agressão física durante seu expediente. Notem: um homem de quase 2 metros de altura levantou a mão na direção de uma mulher de 1,60 metros enquanto lhe ofendia aos gritos. Não vou citar o motivo do desentendimento porque me parece óbvio que nenhuma situação justificaria esse tipo de violênci
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12 abril
Vamos tomar um café?
— Um café? Sim, obrigada!— Toma um café comigo? Claro, vamos!— Aceita um cafezinho? Sim, aceito! Vejam só: em todas essas frases há um convite que vai além da xícara. Há cumplicidade, um gesto de carinho, quase um abraço em forma de aroma. Da história do café, lembro de uma narrativa antiga — um pastor de cabras africano, com a ajudinha de um monge, teria descoberto os efeitos revigorantes daquele grão escuro. Verdade? Talvez. Isso não importa. O que impor
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12 abril
República Evangélica do Brasil
Eles estão espalhados pelos mais afastados recônditos do país, onde pode faltar creche, farmácia, delegacia e agência do Banco do Brasil, mas nunca faltará uma igreja evangélica. Dentro de poucos anos, serão a maior religião do Brasil que, para decepção dos servos de Francisco, deixará de ser o maior país católico para contar com um dos mais numerosos rebanhos evangélicos do planeta. Na liderança, os EUA, terra do capitalismo, do consumismo, do individuali
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11 abril
A esquecida
Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã: – E se ela deixar de tomar os remédios para pressão? – Precisamos ficar atentas. Pode ter um acidente vascular cerebral… – respondeu Soraia, que já pensava na possibilidade de contratarem uma cuidadora. &
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11 abril
Do anonimato e outras não-percepções modernas
Em meio a muitos, me diluo. Entre tantos, sou menos que um. Passo despercebido aos olhares. Percebo que alguns olhos passam por mim. Eu noto esses olhares discretos. Olhos que não me registram em sua retina. Não focam em mim porque não me percebem. Minha imagem sumirá da lembrança deles antes que percebam. Lembrança efêmera, tão consistente quanto a névoa diáfana que sobe do cubo de gelo. Nenhum registro, nem o da minha voz. O que eu disse não foi escutado
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10 abril
Tentar construir uma verdade!
Um homem rico chamado Calvicius Sabinus, tinha um cérebro com uma memória minúscula, que o deixava com saia justa por diversas ocasiões sociais. Por isso resolveu gastar uma fortuna contratando escravos culturais, para preencher seu vazio intelectual, mesmo sabendo que nunca conseguiria absorver nada estudado pelos contratados. Suas vagas lembranças eram tão ruins que em alguns momentos os nomes de seus amigos, Ulisses, Aquiles e Príamo, sumiam
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6 abril
Jabuti descalço
Estão abertas as inscrições para o Prêmio Jabuti 2025, a estatueta mais cobiçada pelos escritores brasileiros. Não pude deixar de me lembrar que, ano passado, assisti à cerimônia de premiação pela televisão, curiosa para saber quem seriam os ganhadores, uma vez que, desde 2019, tenho acompanhado mais de perto as publicações literárias de autores brasileiros. Enquanto aguardava a divulgação dos premiados em cada categoria, me veio à cabeça uma curiosidade:
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5 abril
A eterna mania de estar pronta para reagir
Ontem foi dia de esperar a chuva torrencial prometida pela meteorologia. Não fui ao Pilates, imagina ter que voltar ensopada para casa às 8h da manhã. Lá pelas 11h, olhei o céu da minha varanda, dia claro. Só nuvens fofinhas a decorar a paisagem. Mas decidi não fazer a caminhada diária, vai que o tempo muda de repente e a danada da chuva me pega desprevenida. À noite, teria o aniversário de uma amiga queri
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5 abril
Comunista
Sou comunista! Antes que essa escandalosa revelação afaste os leitores de minha repugnante companhia (tal qual acontecia com os leprosos e lazarentos da Idade Média), apresso-me em oferecer alguns esclarecimentos para tentar aplacar a aversão de meus detratores. Aviso logo: não sou comunista tipo saudosista, na acepção estrita do termo, o autêntico comunista que se espelhava nos antigos regimes da URSS e da China. Dos tempos, em que para fazer jus ao títul
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5 abril
Por isso escrevo – parte II
Estou revisitando meus contos, crônicas e estudos sobre escrita criativa. De vez em quando, tenho rompantes de “chefe”. Deve ser coisa do hábito — afinal, diz o ditado popular “o uso do cachimbo entorta a boca.” Durante anos, fui supervisora na repartição onde trabalhei e, vez por outra, precisava revisar processos. O quê, como, quando, por quê, para quê. Agora estou aqui, na curiosa posição de algoz e vítima da minha antiga função. Revejo os cursos que f
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4 abril
Maria Lattes
Eu tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não, ela não é parente do Cesar Lattes, físico e prêmio Nobel ainda não reconhecido, e que dá nome ao serviço do CNPq que registra a vida acadêmica e profissional de pesquisadores e estudantes. Não sabe o que é CNPq? Pesquisa, vai, porque a estória que vou contar é outra. Como eu dizia, tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não existe Maria Gasolina? Maria Chuteira? Então, ela é Maria Lattes. Só sai com alguém depois de
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3 abril
A maldição suspensa sobre a história!
Nosso mundo altivo com defeitos e qualidades, ainda é o único lugar que possuímos pra ficar e respirar normalmente. Por isso não é possível aceitar um bebê fujão que foi devolvido para a barriga da mamãe, porque achou esse lugar horrível, sendo necessária realização de uma manobra chamada parto reverso. Ele não queria assumir sua responsabilidade em sobreviver aqui fora, porque, ao final das contas, é o que devemos aceitar na chegada aos berros
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2 abril
O umbigo de Faustino
Dentre todas as anomalias enfrentadas no consultório durante esses trinta e seis anos, a mais estranha foi a de Faustino. Jamais encontrei alguma lógica no seu transtorno, nem sequer cheguei a compreender o processo de cura. Um caso realmente complexo e sem registros na literatura médica. Cheguei inclusive a debater o assunto com um professor da Faculdade de Medicina no Turfe, embora não gostasse de falar sobre os pacientes fora do trabalho. Apostei errado
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1 abril
A coleira do cão e a coleira do homem
Um homem de “maus bofes” passeia pela rua com seu cachorro de estimação que, apesar do jeito ranzinza do seu dono, vai caminhando ao lado dele alegre, saltitante, interessado, bem mais que o seu dono, nas alegrias do mundo. A alegria do cachorrinho é fascinante, parece totalmente livre e independente do péssimo humor do seu dono; homem que, ao contrário do cachorrinho, é quem parece estar numa coleira. Invisível, sim, mas uma coleira de qualque
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mar- 2025 -30 março
pausas: cotidiano em . p.o.n.t.o.s .
Bateu. O passarinho no vidro imóvel do topo da porta da varanda. Reflexo de algo ou transparência que não parecia obstáculo? Não se sabe. O barulho foi intenso e assustou a menina, que estava naquela casa, sozinha com seu cachorro. Ambos prestaram atenção, alertas. Silêncio. Bateu. Uma mão contra a outra. Uma vez. Duas. Três. Silêncio. De novo; uma voz auxilia o movimento. Nada. A campainha não funciona ou… não há ninguém? Sem sinal – de vida. Repeti
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30 março
O BICHO LIXO
As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco. Assim termina A revolução dos bichos, brilhante livro de George Orwell. Animais que se rebelam contra a opressão humana, conquistam a ideia de liberdade para, com o tempo, perceberem que apenas passaram seus destinos para outro opressor: o porco. Um animal, portanto. Ou hum
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30 março
Direto ao ponto
Falta de objetividade é uma característica, no mínimo, enervante! Ela se manifesta de várias formas, em diferentes situações, e não é típica do avanço da idade, muito menos da falta de capacidade intelectual. Como diriam os advogados em suas argumentações, senão vejamos: Às vezes ela é um subterfúgio do interlocutor que não entendeu a pergunta ou o assunto a ser tratado, então responde com evasivas para ganhar tempo. O mais comum é a pessoa simplesmente ol
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29 março
PODRES PALAVRAS
Elas não constam de glossários de expressões chulas. Não podem ser categorizadas morfologicamente. Têm em comum apenas a repulsão que provocam, por mais subjetiva e arbitrária que seja essa agregação. São repugnantes por natureza. Trazem o signo do horror em suas entranhas. Assim que ouvidas ou lidas, antes mesmo que nosso racional processe a interpretação de seu presumível significado, batem direto no emocional provocando imediata rejeição. Mantém linha d
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29 março
Alguém mais a viu por aí?
Estou convencida de que a felicidade, aquela menina nada popular e tão cobiçada por nós, é fruto de uma disponibilidade interna para o bom estado de espírito. A menina parece acompanhar somente os que desfrutam de uma inclinação nata para viver no agora ou os que são habitados por uma espécie de fé, inabalável, na pureza dos seres e na dinâmica generosa da vida. É possível, também, que sua presença seja consequência de alguma alteração na estrutura d
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29 março
Por isso, escrevo
Aprender sobre literatura faz parte do meu dia a dia. Aposentei-me após trinta e cinco anos como servidora pública. Trabalhei mais cinco anos nessa condição, até decidir que era hora de dar espaço ao novo. Mas que novo? Os jovens que me substituiriam no trabalho? A nova rotina, sem horários rígidos ou prazos? Ou, mais que tudo, o novo que sempre esteve em meu subconsciente? A vontade de escrever, de me dedicar à literatura, de compreender meus autores favo
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28 março
Considerações de véspera sobre a véspera
Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro. Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai. Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que desejamos. Ou não desejamos mas é inevitável que venha até nós. Dizem por aí que a arte reside em controlar a ansiedade da véspera. Papo. Eu já te
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28 março
Vida e tempo
Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da brevidade da vida levava-as a intensificar seu trabalho. Era como se, intuitivamente, soubessem que não tinham tempo a perder. Ameaçadas por um número maior de doenças sem cura, não podiam se dar ao luxo de adiar projetos e sonhos. Nossos poetas românticos, por exemplo, deixavam este mundo na flor da idade, ceifados pela sífi
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25 março
A Chuva
Gotas esparsas trouxeram o chuvisco e fizeram subir um cheiro bom de terra molhada. A chuva anunciou sua chegada e pôs para correr quem estava distraído. A grama continuou seca e marrom, as plantas mantinham as folhas encolhidas pela desidratação, e uma leve brisa inundou o ambiente. De repente, a chuva despencou de forma torrencial — forte, densa e barulhenta — por poucos minutos. A primeira pancada recuou por um instante, apenas para voltar ainda mais in
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23 março
Sei lá… a vida tem sempre razão
É no cair do sol que nossa leitura da vida insiste em revisitar páginas passadas. Ali, contemplando a luz que se esvai, as lembranças faíscam e, por alguns instantes, pincelam nosso tecido afetivo com novas tonalidades. As dobras cinzentas das amarguras que emboloraram com o passar do tempo agora se apresentam pontilhadas de rosa. Partículas de luz que revisitam pequenos gestos não revelados de ternura e a compreensão do quanto de bem-querer havia por deba
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23 março
Quando o tempo para: instantes de giz e asas
“O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”. Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada humanidade. Aparentemente simples, a lição de hoje reprovou quase a totalidade dos alunos. O simples, nem sempre, é facil. O simples, muitas veze
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23 março
Crônicas, Filmes e Fotos
Em Crônicas sobre uma foto falei sobre o tempo, falei um pouco do passado, falei de memória. Tomei emprestado um verso do grande Manuel Bandeira, “…tempos de eu-menino…” E, também, tomei por empréstimo Pasárgada. Mas o poeta há de entender. Retirei algumas fotos de caixas de papelão (quem hoje ainda faz isso?) e lembrei de mim e de pessoas que passaram pela minha vida. Muitos, ainda sempre vistos e abraçados. Outros, nunca mais vistos… Nã
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22 março
Dia sim, dia não
Seria pouco honesto dizer que Shirley não tentou caber na mesmice dos dias. Todos somos testemunhas de sua dedicação: levava o cachorro na rua, duas a três vezes, o filho na escola, no futebol, na explicadora, fazia mercado, voltava de lá com os braços lotados de sacolas pesadas e ainda arrumava tempo para vender os panos de prato que ela mesma bordava. Uma vez, a observei limpando os vidros da janela da sala, metade do corpo para fora do apartamento, apoi
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