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nov- 2024 -17 novembro
PALAVRAS E ARTE
Mesmo que palavras sejam uma paixão e ferramenta de trabalho, as palavras não são naturais; vejam, me explico. Natural seria o canto dos pássaros e os latidos dos cachorros. Os sons guturais com que nos comunicamos na fase primeira de nossas vidas, o amamentar, o fazer sexo. Depois que o homem descobriu o fogo, inventou a roda e pintou o interior das cavernas – a cores! -, as ações modificaram-se; era o princípio do artifícios, a pedra fundamental da
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17 novembro
Arte da imperfeição
Perfeito vem do Latim “perfectus”, que na cultura grego-latina significa acabar, terminar, completar sem faltar nada. Nós, os que, como eu, fomos criados com esse modo de ver ocidental e dicotômico de ver o mundo, tendemos a buscar essa perfeição em tudo o que nos cerca. Cultuamos o prazer imediato, a busca do melhor, a valorização do maior – temos necessidade do completo. Maiores prazeres, melhores oportunidades, o desejo como valor que impuls
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17 novembro
A nossa vida dos outros
Queremos mais que uma vida. Queremos viver várias vidas. Desejamos ser piratas, mouros, cantores famosos, astros do cinema, reis e cavaleiros. Desejamos ser o outro e nunca nós mesmos. Não reparamos no espelho o nosso rosto… Em que espelho ficou perdida a minha face? Deixamos o tempo passar. Deixamos nossas coisas para deslumbrar outra vida, outras vidas. Nos assustamos depois com o que vemos: velhice. O pior de tudo é quando nos metemos na vida do o
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16 novembro
Só se vive no agora
Num almoço animado com as amigas, um engasgo rasga o tempo entre o vivido e o viver. O ar não passa pela garganta, os olhos arregalam diante da impossibilidade da salvação. Um ruído no peito anuncia o desengonçar dos segundos, a fragilidade do devir. Tento tossir, não consigo. O que parecia abundante se torna rarefeito. O ar não entra, não sai. Meu olhar aterrorizado de desespero encontra o olhar pronto da amiga médica. Uma manobra feita. Nada. De novo, n
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14 novembro
De passagem
Lembro-me bem daquela noite. Minha família e eu íamos começar a jantar quando ele chegou. Abri a porta e ouvi sua voz sumida na boca murcha dizendo “Boa noite. Estou de passagem. Posso ficar uns dias? Serão poucos.” Eu tentei disfarçar a enorme surpresa, disse “Claro!” e fiz com que entrasse. Ele cumprimentou minha mulher e meus filhos, depois olhou para mim e eu indiquei a direção do corredor. Mostrei-lhe o quarto em que poderia ficar. Ele agrad
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14 novembro
Uma Vida
Dramas gigantescos da humanidade oportunizam momentos para que indivíduos de bom coração se tornem heróis, e figuras lembradas por não terem se acomodado perante um drama, como é comum a muitos. Uma deles foi Sir Nicholas George Winton, que nasceu em Londres em 1920, onde mais tarde foi corretor da bolsa de valores de Londres e um socialista fervoroso do Partido Trabalhista. Tornou-se parte de um círculo de esquerda preocupado com os perigos represen
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13 novembro
Sobre as angústias de um pé-frio
Tenho muito medo da morte. Um medo estranho, próximo, escuro, paralisante por vezes, e por vezes aterrador. Isso não me obriga a amar demais a vida. Não acho tudo maravilhoso, não faço parte da galera do gratiluz nem gosto de acordar cedo. Geralmente, estimo a vida nas sextas após o expediente e nos sábados à tarde. Mesmo assim, ante o bafo azedo do óbito, até a semana corrida me apetece. Um dos motivos de preocupação e temor quando penso nesse assunto, em
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11 novembro
A Troca
Na quietude da noite, em meio ao escuro do quarto, eles iniciam uma conversa.Uns indignados, outros seguros de si, e alguns, incrédulos.Como todos a conhecem, não poderia ser diferente.— Naturalmente, diz o preto, eu megaranto; vou com ela aos mais diversos lugares, do escritório às noitadas, restaurantes e bailes. Comigo ela fica tranquila, sabe que não sou inconveniente. Dou segurança e conforto. Portanto, serei o último a ser trocado ou nem
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10 novembro
A sucinta e individual força dos Verbos e Substantivos:
(…) “vence, leva, ‘sai-vitorioso’, fede, terminam, caminham, garantir, levou, votarem, vence,consolida, vence, conquista, foi-eleito, abandonaram, levar, conversam, ‘não-fará’, pede, nega, inclui, deixar” (…) Arizona, estados-chave, eleição; disputa, estado; estados-chave, eleição; vitória,eleições; contagem, delegados, ‘X’; maioria, câmara; mulheres, EUA, republicano;Arizona, vitória, estados-pêndulos; 7-Estados; presidente, pobres, ‘faxina’, pentágono, s
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10 novembro
Treinamento para habilitados
Dois dias atrás, o carro da frente do meu exibia uma placa: Em Treinamento para Habilitados. Achei fantástico esse serviço – dar um treinamento para os já habilitados. Isso pressupõe que, mesmo tendo sido considerada apta para a função a que se propõe, a criatura não tem domínio do assunto. Incrível, não? Como será, então, que foi considerada apta a exercer essa atividade? Quando se trata de carteira de habilitação de condutor, a nossa tão conhecida CNH, é
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10 novembro
Botas, cavalos e moscas
Embora eu adore cavalos, nunca aprendi a montar. Como bom-senso e juventude nem sempre andam juntos, quase comprei um pangaré em Águas de Lindóia que fica a mais de quinhentos quilômetros do Rio. O preço não arruinaria completamente as minhas finanças, mas obviamente a distância entre mim e o cavalo não nos tornaria próximos. Foi mais um sonho do que um projeto viável. Tempos depois uma amiga que também gostava de cavalos conseguiu comprar um e o colocou e
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10 novembro
Não existem mais heróis
Não Existem mais heróis… Estes, ficaram em fotos, figuras coloridas ou desbotadas, ficaram nas páginas de um livro velho, ou então, são relembrados de maneira torpe e fragmentada por aqueles que contam histórias antigas, mas têm já uma memória vaga das coisas. Hoje, o tempo é de homens perversos. Tempos de perversidade! Hoje, o tempo é de guerra e divisão, de discurso copiado na rede e de arma na mão! Hoje é o tempo de imbecis! É o tempo do fim da nação! N
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9 novembro
ENEM – cada inscrição uma história
Martina, quando pequena, adorava pegar a seringa de brinquedo e dar injeção nasbonecas. Aprendeu com seu pai que, quando crescesse, seria médica. Sua família incentivava, com gosto, a brincadeira da menina. Sabiam que, se a fantasiaganhasse espaço na realidade, o futuro estaria garantido. Estudiosa, a filha não era. Tinha dificuldade em matemática e português, e preguiçapara os deveres. Mas desde quando os sonhos respeitam os limites da verdade? Seu paijá
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7 novembro
Minha alma, meu cão, minha calma
Nesse armário guardo minha alma. Entre paletós, camisas e calças repousa, num cabide só seu, lavada e passada, a alma que é minha. É uma coisa preciosa, única, e por essa razão só a levo comigo em ocasiões especiais. Uma alma é para toda a vida, é artigo que não se dá, não se empresta, não se esquece. Quebrada, não haverá outra para reposição. Só vou com ela a lugares aonde não se deve ir sem alma. À literatura, por exemplo. A um roseiral, atraído pelo per
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7 novembro
Custos irrecuperáveis!
Nossos telefones celulares oferecem dopamina digital 24 horas, 7 dias por semana, aos indivíduos conectados com seus interesses apenas, e alheios ao que acontece ao seu redor. Estamos vivendo em uma época de acesso sem precedentes a estímulos de alta recompensa e muita dopamina: drogas, comida, notícias, jogos, compras, sexo e redes sociais. A variedade e a potência desses estímulos são impressionantes, e todos somos vulneráveis ao consumo excess
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3 novembro
Equilibristas!
Somos equilibristas! E fazemos isso com muita eficiência e profissionalismo! Não sabemos o tamanho da nossa força até que somos forçados, por circunstâncias várias, a viver a vida nas suas complexas contradições! Como não falar da vida e dos seus altos e baixos!? Na verdade, vivemos entre o riso e as lágrimas, o sol e a chuva, o sabor do tempero e o insosso. Vivemos entre dias quentes e dias frios, oscilando agudos e graves, pagando as contas, sonhando os
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3 novembro
Flashes, vazios e universos paralelos: Leila
Em meio a um comercial de televisão de sábado à tarde, coisa que não lhe é por nada usual assistir – excetuando-se as ocasiões em que se encontra à casa de seus pais -, algo que Leila não se recorda ao certo acendeu umas memórias preguiçosas, episódios de infância, o cheiro da sua lancheira do maternal (que sente como se a estivesse segurando agora mesmo, uma maleta plástica de proporções retangulares na cor amarela, com alça branca); lembranças vári
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3 novembro
Papilas gustativas do viver
Na última semana, por ocasião do aniversário de uma grande amiga, me deparei com o desafio de escrever um cartão de felicitação. Não me servia aquele que já vem com a mensagem pronta e só precisamos assinar. Tampouco queria escrever apenas: Parabéns! Saúde e Paz. Muito embora essas palavras, por si só, já representem as joias raras da sorte, queria desejar algo a mais. É certo que dependemos da saúde para realizarmos qualquer feito e da paz para desfrutarm
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3 novembro
Tirando a máscara todo mundo é fantasma
Outubro me lembra Halloween, até porque, como uma bruxa legítima, nasci no dia 31 à meia-noite. Bruxas, vassouras, abóboras e todas as figuras fantasmagóricas que povoam o imaginário popular são inspiração para as mais diversas fantasias: esqueletos, vampiros, mulas sem cabeça, ao lado de figuras famosas como o Conde Drácula, Morgana, Cruella, Freddy Krueger e outras encarnações do mal. Para as crianças, 31 de outubro é um dia de alegria, pois significa a
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out- 2024 -31 outubro
Livro, o cachorro encadernado
Tenho uma relação antiga com o livro. E feliz. Acredito que ninguém é obrigado a ler tudo. O básico de cada um é o resultado de suas predileções e inclinações, momentâneas ou não, ditadas por tantas coisas que reúnem um pouco de tudo que se chama você. Mutante por natureza, esponja que absorve e que despeja os excessos pelo caminho. O olhar muda com o tempo porque é forjado por nossa maturidade. Não ter idade para ler alguém é uma verdade, mesmo que incomo
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31 outubro
Mês da História da Mulher!
Lutar por causas importantes tornam pessoas desenvolvidas e preocupadas com o futuro de todos. Pensamentos racistas, homofóbicos, xenofóbicos, sexistas, misóginos, mantém mentes e comportamentos presos ao Renascimento. Por isso movimentos como o racismo e a misoginia seguem seu próprio código civil descrito na idade média, ou seja, sem sentido em nosso tempo que tem sede de respeito, que deseja se manter moderno e intelectualizado, desenvolvido para o
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31 outubro
O SACRIFÍCIO
Dinah, nascida da mãe de Caim e Abel, era irmã desses dois. Irmã legítima, de mesmo sangue, mas diferente pelos músculos menores, pelas tetas, pelas pernas roliças. Diferente também por dentro: tinha útero. Olhavam-na. A mãe: “É uma mulher como eu, quando chegar o dia certo vai sangrar no meio das pernas.” O pai: “Não tem força pra me ajudar na lavoura, não serve de muita coisa.” E os irmãos: “É como uma ovelha, só que maior; quando chegar a hora, Deus se
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30 outubro
Os signos da crítica
Costumo ler em voz alta quando estou em casa. Peguei esse hábito da minha mãe, que todo sábado à tarde distribuía na mesa da sala uma penca de cadernos e livros para corrigir trabalhos, ler e reler textos, planejar as aulas da semana seguinte, tudo em alto e bom tom. Uma resma de folhas em branco e o mimeógrafo aguardavam na estante, ali ao lado. Eu podia destruir a casa desde que não relasse naquela mesa. Trinta anos depois, não temos um mimeógrafo e nem
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27 outubro
Nunca iguais, revisitadas
Assim como as folhas altas nas copas das árvores balançam com o prenúncio de intensas chuvas… tal qual o som de passos ligeiros em direção a um compromisso que estar por iniciar… ou ainda a terceira badalada de uma campainha teatral que, após outras duas de igual duração, alerta os desavisados de que o espetáculo se iniciará, assim é a vida dos recomeços. Nunca iguais, revisitados. E entre tantos reinícios em minha vida ao longo deste último an
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27 outubro
A vida pela janela
Ver a vida pela janela! A janela de casa, com a rua e as pessoas que pintam o cenário de cada dia. Com suas cores e sons! Com seus dramas e tons! A janela do carro ou do ônibus e a velocidade de tudo o que se vê na cidade: placas, cartazes, rostos, histórias… Ver a vida pela janela! E ver, com a pressa dos urbanoides de plantão, num frenesi e caos que não dão a certeza de nada. Ou ver, com a calma do poeta, com a atenção para todos os lados e lugares, sabo
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27 outubro
O lixo que não é lixo
Se você fosse responsável pela limpeza de um local e encontrasse duas latas de cerveja amassadas no chão, decerto as recolheria para jogar no lixo. De agora em diante pense duas vezes: isso aconteceu com um funcionário zeloso em um museu de Amsterdã, porém as tais latas eram uma obra de arte propositalmente deixada no chão de um elevador já que o museu acredita que a arte deve ocupar todos os espaços, inclusive os mais inesperados. O erro foi descoberto a
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27 outubro
O Beco
Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os
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26 outubro
Recado ao senhor 903, 1003 e 2024
A aula teve início com a seguinte frase: o texto que vamos trabalhar hoje é muito conhecido. Com certeza, todos vocês já leram. Antes mesmo de descobrir que eu estava na contramão das certezas, jamais tinha lido tal texto. Me indaguei a respeito do propósito dessa afirmativa. Ela não tem nenhuma utilidade para quem endossa a fila dos aplicados (a não ser que ofereçam uma estrelinha dourada) e, ao mesmo tempo, causa grande desconforto/culpa em quem não acom
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24 outubro
K-Pop apresenta Tom Jobim
Respeito muito a ideia de que cada geração tem sua música. Nem sempre concordo com o que é tocado, já vou avisando. Mas respeito. Em outro momento, volto a falar sobre música geracional, mas confesso que meu respeito é movido menos por qualquer elevação espiritual e mais pelo medo de ser apedrejado em praça pública. A execração na ágora me arrepia; ser apontado nas ruas é meu pior pesadelo. Mas, voltando ao que interessa: a música, e não as minhas fobias.
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24 outubro
Quando um amigo me visita
Amigos. É assim que os chamo. Caracterizam-se por exalar nítido cheiro de afeto. Dessa nitidez brotam o contorno de seus ombros, seu nome, suas palavras e gestos, sua presença, mesmo quando já não estão perto de mim. São o contrário da pedra dura. São o revés do espinho. São o oposto do metal cortante. Gosto de pensar neles como esponjas com formato humano. Eis que um deles chega à minha casa. Aperto sua massa corporal entre meus braços e fico feliz por me
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