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  • mar- 2025 -
    29 março

    Por isso, escrevo

    Aprender sobre literatura faz parte do meu dia a dia. Aposentei-me após trinta e cinco anos como servidora pública. Trabalhei mais cinco anos nessa condição, até decidir que era hora de dar espaço ao novo. Mas que novo? Os jovens que me substituiriam no trabalho? A nova rotina, sem horários rígidos ou prazos? Ou, mais que tudo, o novo que sempre esteve em meu subconsciente? A vontade de escrever, de me dedicar à literatura, de compreender meus autores favo

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  • 29 março

    PODRES PALAVRAS

    Elas não constam de glossários de expressões chulas. Não podem ser categorizadas morfologicamente. Têm em comum apenas a repulsão que provocam, por mais subjetiva e arbitrária que seja essa agregação. São repugnantes por natureza. Trazem o signo do horror em suas entranhas. Assim que ouvidas ou lidas, antes mesmo que nosso racional processe a interpretação de seu presumível significado, batem direto no emocional provocando imediata rejeição. Mantém linha d

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  • 28 março

    Considerações de véspera sobre a véspera

    Véspera. Do latim vesperae. A tarde, ao cerrar da noite. Poeticamente, ao encerrar um ciclo solar. Dos pequenos, claro. Deriva também de Vésper, a estrela que não é estrela, visível a olho nu quando a tarde cai. Véspera é o território preferencial da ansiedade. Quando estamos a poucos passos ou horas daquilo que desejamos. Ou não desejamos mas é inevitável que venha até nós. Dizem por aí que a arte reside em controlar a ansiedade da véspera. Papo. Eu já te

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  • 28 março

    Vida e tempo

    Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da brevidade da vida levava-as a intensificar seu trabalho. Era como se, intuitivamente, soubessem que não tinham tempo a perder. Ameaçadas por um número maior de doenças sem cura, não podiam se dar ao luxo de adiar projetos e sonhos. Nossos poetas românticos, por exemplo, deixavam este mundo na flor da idade, ceifados pela sífi

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  • 27 março

    Disputa

    Não é sempre que acontece, só às vezes, quando aquilo que o Camarão traz não é suficiente para dividir entre os dois. Eliseu e Célia primeiro ficam nervosos como bichos famintos dentro de uma jaula. Amaldiçoam o Camarão, a mãe dele e toda a família. Que morram todos! Depois passam à exasperação e, no minuto seguinte, partem para o confronto físico. Os dois rolam pelo chão, aos tapas. Cospem um no outro. Esse confronto nem de longe se assemelha ao que acont

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  • 25 março

    A Chuva

    Gotas esparsas trouxeram o chuvisco e fizeram subir um cheiro bom de terra molhada. A chuva anunciou sua chegada e pôs para correr quem estava distraído. A grama continuou seca e marrom, as plantas mantinham as folhas encolhidas pela desidratação, e uma leve brisa inundou o ambiente. De repente, a chuva despencou de forma torrencial — forte, densa e barulhenta — por poucos minutos. A primeira pancada recuou por um instante, apenas para voltar ainda mais in

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  • 24 março

    Poema #16 – Convidados

    Da janela da casa onde moroaguardo a chegada de algunsamigos para a festa deaniversário. Nada se move, exceto a minhasombra na varanda, vazada deangústia, silêncio e noite. Fecho as janelas da casaonde moro e ainda douuma última olhada atravésdas frestas da veneziana. Nada se move, exceto a noitecom a sua noção de simultaneidadedo tempo, das pessoas e das coisas. Nada se move, exceto o silêncioque domina o ambiente e repousana visão do telefone emudecidoe

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  • 23 março

    Sei lá… a vida tem sempre razão

    É no cair do sol que nossa leitura da vida insiste em revisitar páginas passadas. Ali, contemplando a luz que se esvai, as lembranças faíscam e, por alguns instantes, pincelam nosso tecido afetivo com novas tonalidades. As dobras cinzentas das amarguras que emboloraram com o passar do tempo agora se apresentam pontilhadas de rosa. Partículas de luz que revisitam pequenos gestos não revelados de ternura e a compreensão do quanto de bem-querer havia por deba

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  • 23 março

    Quando o tempo para: instantes de giz e asas

    “O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”. Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada humanidade. Aparentemente simples, a lição de hoje reprovou quase a totalidade dos alunos. O simples, nem sempre, é facil. O simples, muitas veze

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  • 23 março

    Crônicas, Filmes e Fotos

    Em Crônicas sobre uma foto falei sobre o tempo, falei um pouco do passado, falei de memória. Tomei emprestado um verso do grande Manuel Bandeira, “…tempos de eu-menino…” E, também, tomei por empréstimo Pasárgada. Mas o poeta há de entender. Retirei algumas fotos de caixas de papelão (quem hoje ainda faz isso?) e lembrei de mim e de pessoas que passaram pela minha vida. Muitos, ainda sempre vistos e abraçados. Outros, nunca mais vistos… Nã

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  • 22 março

    Dia sim, dia não

    Seria pouco honesto dizer que Shirley não tentou caber na mesmice dos dias. Todos somos testemunhas de sua dedicação: levava o cachorro na rua, duas a três vezes, o filho na escola, no futebol, na explicadora, fazia mercado, voltava de lá com os braços lotados de sacolas pesadas e ainda arrumava tempo para vender os panos de prato que ela mesma bordava. Uma vez, a observei limpando os vidros da janela da sala, metade do corpo para fora do apartamento, apoi

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  • 22 março

    Precisamos falar sobre Elon

    “Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto os outros macacos morressem de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que diabos estaria acontecendo com ele. Quando os humanos fazem isso, nós os colocamos na capa da Forbes” (Prof. Emir Sader) Li recentemente que se os 3000 sujeitos mais ricos do planeta, num ato coordenado de filantropia, resolvessem doar 5% de sua fortuna, a dinheirama gerada seria suficiente pa

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  • 22 março

    Outono, bem-vindo!

    O outono chegou, espalhando seu tapete de petalas de flores pelas ruas e enchendo o ar com um frescor renovador. Hoje é o primeiro dia dessa estação que sempre me traz simbologias e memórias. Que época maravilhosa! O poeta Carlos Drummond de Andrade enalteceu os dias de abril: “Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É preciso proclamar!” E eu concordo. O céu de um azul inigualável, a temperatura amena, o ar mais leve — tudo parece nos tocar de forma s

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  • 21 março

    Terrores infantis

    Penso que as mais intensas lembranças da infância são marcadas pelo que dá medo. Existem as de aniversário, viagens, reuniões em família, e todas constituem um repertório gratificante que nos faz ter saudades do tempo em que éramos guris. Mas elas não se imprimem na memória com a força dos eventos que nos deixavam o coração em sobressalto.   Grande parte deles está ligada aos “fantasmas” da noite e aos tipos conhecidos como “doidos”. Qual a criança qu

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  • 21 março

    Cry me a river

    Se você de repente descobrir que se perdeu de mim, não sofra muito. Ou ao menos faça como eu e tente não sofrer muito. A falta da presença minimamente incomoda e honestamente se não conseguir tudo bem porque eu mesmo nem sei se isso é possível. Mas sei que se perder acontece. Lamentavelmente. Pode ter sido algum caminho que eu ou você escolhemos. Ou nem isso, fomos apenas jogados nessas direções, opostas ou paralelas mas sem nos cruzarmos. Circunstâncias,

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  • 20 março

    Confundir e preencher os olhos!

    Movimentos sociais levam décadas para implantar suas regras e conceitos prodigiosos, que por vezes chegam às raias do lamentável.  As atividades culturais se diferem no tempo durante seu processo de maturação, tornando-se belos quadros sociais para serem apreciados ao longo de nossa era.  Na política, são anos para estabelecer uma nova ideia, convencer o povo que será a melhor opção de bem-estar, seu, e de sua família, mesmo que essa nova partitu

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  • 20 março

    Dois homens bons e generosos

    João Alfredo colhe a cada final de semana as verduras e legumes que semeia. Sua horta é cuidada com esmero, o solo é fértil e o produto de seu trabalho é considerado o melhor do povoado. A barraca que tem na feira é concorrida, todos apreciam sua colheita. Como não tem mulher nem filhos, ele costuma distribuir entre os vizinhos e amigos os vegetais que não vendeu. Todos diziam dele: — João Alfredo é um homem bom e generoso e as verduras e legumes que saem

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  • 19 março

    O seleto grupo dos iluminados

    Há poucos dias finalmente descobri o meu lugar no mundo. Depois de vagar entre planaltos e ribanceiras por anos e anos, depois de me notar perdido, ansioso e angustiado, tive, por fim, a revelação. Foi um instante daqueles em que o coração não acelera porque sente que algo tranquilo abrandará para sempre as aflições. E o futuro de repente abre as portas para um andar sossegado, como se a vida até então fosse um longo pesadelo. Depois da epifania as cores f

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  • 17 março

    Poema #15 – EUTANÁSIA

    . Sob uma chuva de outubroo germe penetrouno solo árido de mim,onde as emoções se resguardavam. Mas o sol e o raciocíniodos meses subsequentesatrofiaram o germe ávidoque havia trazido o amor. E foram tantos os desencontrosdo clima naquele anoque a meteorologia afetivajustifica-se culpando a ambos. Agora, numa sala de esperacontígua à do esquecimento,resta-nos como única saídaa eutanásia cúmplicedo que restou do sonho.O Acaso das Manhãs

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  • 16 março

    Botafumeiro

    Incensos sempre estiveram presentes na minha casa. Desde que, na juventude, comecei a praticar Yoga, sua fumaça perfumada me encantou e daí para frente fez parte do meu ritual de meditação e recolhimento. Passei a acender um incenso para estimular minha criatividade na hora de escrever, desenhar, deixar fluir novas ideias, mas também para afastar os maus fluidos de um lugar que me pareça meio carregado. Escolho cuidadosamente a procedência, a fragrância e

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  • 16 março

    A moda passa, o sacrifício é eterno

    Há poucas décadas era moda fazer plástica no nariz. Um modelo pequeno e parecido com o adotado pelo Michael Jackson ficou popular. Já não se usa mais. Agora sobrancelhas grossas estão na moda. Como assim? Adotar sobrancelhas finas, como na época dos filmes mudos, é fácil, mas conseguir pelos onde não há folículos é impossível. No entanto, já estão oferecendo transplantes de sobrancelhas. Caríssimos. Não importa: sempre existe gente interessada em pagar alt

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  • 16 março

    Caçadores de eclipses

    Chuvas atrapalham planejamentos. Na realidade, chuvas atrapalham expectativas, e estas, nos frustram. [Aqui, chuvas podem se tratar de chuvas. Ou não. Use-a como metáfora, os textos pertencem a quem os lê, no momento da leitura]. Hoje em dia é simples assistir eventos astronômicos com uma meteorologia ruim; eu, por exemplo, inspirada pela minha irmã, de vez em sempre, me surpreendo a mim mesma com o celular em punho, de noite, da varanda, de uma das janela

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  • 16 março

    Admirável mundo novo

    Admirável mundo novo: prédios que desafiam a gravidade, veículos que se movimentam cada vez mais rápidos, produtos e aparelhos eletrônicos que prometem revolucionar a vida de todos nós… E compramos e acreditamos e nos iludimos. Admirável mundo novo! Problemas sempre os mesmos. A fome sempre a mesma. A violência sempre afiada. A palavra dos políticos desgastada. O poder e o pudor, desequilibrados e distantes. Caminhos errantes. Mas compramos a ideia.

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  • 15 março

    Quaresma

    Hoje, me pego pensando. Em quê? No tempo, esse estranho tão íntimo de nós. Culpado, amado, detestado — ele simplesmente é. Nunca, em todo esse tempo, me ocupei em entender ou julgar a Quaresma. Lembro-me da infância… Meu pai, minha mãe, abuelas, tios e primos, todos paraguaios de origem. Nesse período, a vida ganhava um tom especial. Para nós, crianças, era uma época de brincar com os primos, comer coisas gostosas e ser quase invisíveis para os adultos, oc

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  • 15 março

    Prazo de validade

    Desde criança me intrigavam as relações que sobrevivem ao lodo do tempo. Talvez por ter avós e pais separados, a união indissolúvel de duas histórias me comovia profundamente.  Na infância, gostava de assistir aos avós de uma amiguinha caminharem pela rua. O andar lento, inseguro de cada um, se amparando na união das mãos enrugadas, nos braços pintados de manchas vermelhas, que depois descobri se chamarem fragilidade capilar, causavam, simultaneamente, uma

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  • 14 março

    O real motivo

    A função da publicidade não é apenas vender. É despertar em nós recônditos impulsos, criando necessidades até então inexistentes ou, pelo menos, ignoradas. O comercial age um pouco como a droga, que o indivíduo propenso ao vício despreza enquanto não conhece. Depois de tê-la experimentado, não consegue mais viver sem ela. A publicidade também faz registros curiosos e sintomáticos da vida moderna, funcionando como documento antropológico ou retrato psicológ

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  • 14 março

    Padre no avião

    Tem mais de 20 anos eu estava em um vôo para os Estados Unidos. Ao meu lado estava um padre brasileiro que foi deslocado para a diocese de Chicago. Sujeito de conversa agradável e bom de copo. Cada vez que o carrinho de bebidas passava não menos que quatro pequenas garrafas ficavam ali com a gente, duas para cada um, é claro. Nesse ritmo nós dois nos igualamos ao avião e estávamos bem altos. Foi nessa hora que o papo ficou mais animado. Lá pelas tantas o p

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  • 13 março

    Preconceitos repetidos!

    O que vamos fazer com um mundo devastado depois da pandemia, já que a Organização Mundial da Saúde decretou o fim da emergência sanitária da Covid-19. Vamos reconstruir ou renascer nossos sentimentos saudosos por tudo e todos que perdemos? O que mais pesa é a decência na busca pelo respeito aos que sobreviveram e são o nosso presente, com frequente marca na construção do futuro, que em breve instante bate na sua porta quase sempre encostada. Preconceito e

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  • 13 março

    A trama

    Assim que chega a manhã, as esposas dos pescadores se dirigem às docas e ali se sentam, os pés dentro d’água. Todas trazem linhas e agulhas de tamanhos variados e se dedicam à tarefa de fechar os buracos das redes que seus maridos utilizam no trabalho. Cantarolam enquanto cosem, e cosem com diligência e sem distração: ao entardecer, seus homens precisarão das redes prontas antes de saírem para o mar em busca do alimento e do sustento de todos os dias. Em d

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  • 11 março

    POEMA #01 – QUARENTENA – QUARESMA – QUARESMEIRA

    Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa. O horizonte anunciou um desafioNa época que trariaTanta luz e liberdadeChegaram tempos de trevasFomos convidados ao exílioUm inimigo invisívelUma tal gripezinhaQue surgia na ChinaE, de repente, fez vítima,Seu José da esquinaE com o perigo iminenteMe isoleiNos tempos das quaresmeirasRoxas como um suplícioPré-milagre de Crist

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