A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.
Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.
A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.
A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.
Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.