Adriano Espíndola Santos

  • Apocalipticamente

    “Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo de meu pai, que queria me afastar da vida mundana, me colocando, forçosamente, na trilha dos estudos: “Ou estuda, ou nada!”.

    Luan era nosso líder e queria uma banda de rock subversiva, “apocalíptica”. O nome da banda, obviamente, já estava dado, era “Apocalipse Now”. A divisão de tarefas foi feita no ato da primeira reunião, no parquinho, enquanto espantávamos as crianças que queriam se divertir. A única certeza era a de que eu ficaria na bateria, pela lógica. Luan queria ser vocalista e guitarrista, como Max Cavalera, mas, infelizmente, não tinha a voz rouca – e falava que, para ser igual ao seu ídolo, teria de “esfarrapar” as cordas vocais, com muito cigarro. Só que ele não conseguia fumar; tossia e ficava doente, ficava doente e tossia. Junior foi para o baixo, e Marcos para a guitarra solo. Os nossos ensaios eram, no começo, no salão de festas. Alguns seres sobrenaturais apareciam para bagunçar a cabeça com o nosso rock incompreensível e diabólico. Lembro de um namoradinho de uma amiga, peruano, que sabia cantar em inglês e fazia os vocais mais pesados de Nirvana. Quase entrou para o grupo, se não tivesse acabado o namoro.

    Deixamos de falar com a menina, porque teria arruinado o nosso sonho. Por conta da zoada e da impregnação de alguns moradores, invadimos o que era uma sauna desativada, para colocar os nossos instrumentos e caixas de som. Tocávamos moídos e suados, no verdadeiro caminho do rock. Com pouco tempo, já atacávamos em festinhas de colégio e de bairro. Era o auge dos Titãs (Cabeça Dinossauro) e do Nirvana.

    Sabíamos tudo. Ensaiávamos como loucos – inclusive em horários escolares, porque faltávamos às aulas de inglês e o caralho. Ainda assim, na sauna hermeticamente fechada, éramos motivo de reclamação. Arranjamos um novo lugar, num estúdio que ficava na casa de um amigo de um amigo. Para compensar os ensaios, emprestávamos nossa aparelhagem de som. O que aconteceu no primeiro mês: o bandido, dono do estúdio, vendeu os nossos bens. Ficamos sem nada. Não podíamos mais tocar. Bateu a depressão e a impotência. Mas roqueiro não podia se abater. Prometemos explodir o espaço, e assim o fizemos. Numa noite, fomos lá na casa do bandido e soltamos bombas preparadas por nós. Já sabíamos que não seríamos presos, porque éramos menores de idade. Os pais do bandido pensavam que o mundo estava acabando. Ríamos, histéricos, vencedores. Nunca mais vimos nosso som, mas não deixamos de tocar o terror.

  • Bichanos

    Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.

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