Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.
Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.
Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.
Leitura da ata.
— Amém.
Leitura do orçamento.
— Amém.
Leitura da troca do capacho.
— Amém.
…
Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.
— Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?
A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.
Severo arregalou: — e o Hip-Hop?
— O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.
Severo ri: — Hoje está enxergando bem…
A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.
Severo ia contestar.
Suspirou fundo.
Severo olha o relógio.
Pensa no sanduíche.
Sente cheiro imaginário de pizza.
O estômago votou a favor do sorteio.
— Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.
Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!
Motim a bordo.
Síndico e administradora se entreolharam.
— Batem na mesa.
— Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.
O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!
— Não é confiável.
Recomeça a discussão.
Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.
Demora só 40’…
Finalmente, silêncio.
O software sorteia.
Prenderam a respiração.
O síndico anuncia: — Parabéns.
Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.
Amém!
Cadê o entregador de pizza?