Billy Joel

  • O agridoce amanhã

    I’ve been livin’ for the moment /But I just can’t have my way / And I’m afraid to go to sleep / ‘Cause tomorrow is today – “Tomorrow is today”, Billy Joel

    Há um livro e um filme chamados “O doce amanhã”. Escrito por Russell Banks, trata-se de uma cidade que lida com o luto após todas as crianças serem mortas devido a um acidente de ônibus.

    Vale a recomendação. Eu me recordei disso enquanto escrevo essa crônica inspirada por um poema de Eleazar Carrias. Com a autorização do autor, transcrevo abaixo o texto:

    Não na Palestina

    Acordo
    com o cheiro do café,
    me arrasto até a cozinha,
    mas, no centro da mesa,
    é uma esfera dourada
    refletindo a luz da manhã
    que desperta o meu desejo.

    Bom dia, meu amor,
    e pego a faca
    entre o pão caseiro
    e uma caneca fumegante.
    Parece que vai ser
    um dia bom.

    Corto a laranja ao meio,
    no exato momento
    em que uma criança
    tem um braço decepado
    e o olho direito
    de uma senhora, viúva,
    é estourado
    por um estilhaço de metal.

    Mas eu não sei disso.

    O sangue doce da fruta
    na minha boca
    e a visão do marido
    bebendo o café
    quase sem pressa
    confirmam:
    o dia vai ser bom.

    Por que o dia vai ser bom? Porque será um dia como qualquer outro. Com sorte, sem alguma surpresa desagradável pessoal. É um poema forte e sucinto, como um soco na cara, que confirma que para a vida seguir, precisamos aceitar que para muitos não será assim. Não é necessariamente sobre ser egoísta, mas desenvolver capacidades para lidar com a dor.

    No mesmo dia em que li o poema, também me deparei com uma crônica publicada pelo autor Alexandre Brandão em seu blogue “No osso”. Nela, ele discorre sobre a banalidade da violência em referência ao assassinato de um homem que foi linchado por ser confundido com um ladrão. A vítima, Cláudio Rafael Landeiro, costumava pegar a bicicleta emprestada da irmã para passear. Até o encontro fatídico, provavelmente era mais um dia em que, para se distrair, circularia pelas ruas.

    Convivemos com a morte diariamente como chupamos uma laranja, tomamos café e pedalamos. Nós nos importunamos dentro do que é sociável, mas evitamos que esses pensamentos criem raízes. Porque encarar nossa impotência diante da injustiça, pior, da morte, é terrível. Como os mortos pelo genocídio em Gaza ou o ciclista, não temos controle sobre como terminaremos. O máximo que conseguimos é contar os momentos agradáveis e usufruí-los, pois não sabemos o que virá depois. Ainda assim, criamos expectativas, como que implorando para que nada de ruim nos ocorra. “O dia vai ser bom”, encerra o poema. Se não será sua vez, é a de outro. Para alguém, nesse momento, o dia é inevitável e terrível.

    A vida é curta e preciosa. Para lidar com o agridoce amanhã, é necessário reconhecer o prazer e a beleza dos instantes. Por esse motivo, a indignação quando alguém tem retirada a habilidade de sorver as sensações por aqueles que deveriam saber a importância que é estar aqui. Uma pessoa que não aprecia a vida deve ser considerada um ser humano? É tentador taxá-la de “monstro”, mas é uma falsidade e uma forma de mascarar que a multiplicidade da humanidade envolve maldade e crueldade. Assim como nos emocionamos diante uma caneca quente de café, também somos alertados por aquilo que não se encaixa em nossos critérios. Isso pode ser propulsor para injustiça. E ainda há a convicção dos linchadores, que agiram em nome de uma moral. Não há diferença nos que condenam violência com violência daqueles que a praticaram. São os dois lados do vampiro que mostra seus caninos.

    A empatia e a calma, como a que exercemos enquanto cortamos uma laranja, são a única maneira de sobrevivermos. Eu não tenho medo de IA, temo os vizinhos. Se seguirmos nossos impulsos sem freios, não cortaremos a laranja, mas nossos próprios dedos. Ser humano é sobre sentir e pensar. Ambas precisam estar combinadas, caso contrário desperdiçamos o dom que é aproveitar a vida, em seu paradoxo de tempo infinito e limitado.

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