Cinema

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

  • Livros Restantes

    “Livros Restantes” é um filme nacional dirigido por Márcia Paraíso e lançado em 2025. Conta com as atuações de Denise Fraga, Augusto Madeira, Manuela Campagna, entre outros nomes do elenco.

    A história narra um momento específico da vida da protagonista Ana, quando ela se muda do lugar onde viveu toda a vida para Portugal.

    Desse fato, a história gira em torno de recordações e lembranças vividas por ela ao longo da vida no lugar onde nasceu e foi criada.

    Toda a história acontece tendo como pano de fundo um elemento muito importante na vida da personagem: seus livros. Como professora e apaixonada por literatura, Ana passou por um processo de doação de grande parte de seus livros em razão da mudança. No entanto, uma ínfima parcela, mais precisamente cinco livros, permanece em sua estante, permitindo que ela reviva momentos de seu passado.

    Dessa forma, ela decide devolver os livros com dedicatórias que recebeu de pessoas que passaram por sua vida em diferentes momentos. Tudo acontece sob uma grande carga de volta ao passado, seja para relembrar momentos bons, seja para recordar aqueles que são ruins.

    O filme se desenvolve com forte carga emocional, cercada por tudo o que perpassa a vida da protagonista. Desde sua intensa ligação com a família até o vínculo com o lugar onde nasceu e foi criada. É bonito ver a forma como o filme desenvolve as vivências dos personagens. Vale também destacar o modo como dá visibilidade a temas que ainda aparecem como tabus em uma sociedade extremamente conservadora como é a que vivemos. Entre eles, destacam-se a homossexualidade, o veganismo e a pedofilia.

    Por tudo o que foi exposto, sem deixar de destacar a impressionante atuação de Denise Fraga, uma gigante em cena, “Livros Restantes” se revela um filme leve, sem abrir mão da importância de abordar temas que precisam ser colocados em discussão. Vale a pena assisti-lo.

  • Retratos Fantasmas

    “Retratos fantasmas” é um documentário brasileiro que foi lançado no ano de 2023, dirigido, escrito e narrado por Kleber Mendonça Filho.

    Essa obra é muito interessante para que o público amante do cinema brasileiro possa conhecer mais sobre esse genial diretor. Kleber demonstra todo o seu amor pela cidade onde viveu, o Recife, pelo cinema e por suas memórias de família. Por meio desse trabalho, é possível entender melhor quem é ele como pessoa e por qual motivo suas obras tem a riqueza de detalhes como característica.

    É possível ver vários cenários que compõem os filmes dirigidos por esses diretores. No filme, aparecem os cenários utilizados para gravar filmes como “O som ao redor”, “Aquarius”, “Recife Frio” e até mesmo muitas ideias que foram utilizadas em “O agente secreto”. Por meio das histórias que são contadas, é possível perceber que o diretor usa suas vivências para ajudar na construção dos filmes que escreve e dirige.

    O documentário é dividido em três partes. Na primeira, ele fala sobre o bairro de Setúbal, onde foi criado e viveu muito tempo. Aliás, nessa parte é curioso ver que o filme “O som ao redor” foi gravado no apartamento onde Kleber morou. Chama atenção também a influência que Dona Joselice, mãe de Kleber, teve em seu posicionamento de vida e ideológico.

    A segunda parte é um grande mergulho sobre os antigos cinemas do Recife e pelo seu centro da cidade. Ele comenta os processos de metamorfose que a cidade sofreu ao longo dos últimos anos. O trecho já inicia com imagens de antigos cinemas que viraram igrejas, farmácias, shopping centers, e outras coisas.

    A terceira parte foca na transformação dos cinemas em igrejas evangélicas.

    Tudo o que foi falado, demonstra o cuidado de Kleber em construir um documentário com muita pesquisa histórica, afeto e conhecimento técnico. Ele utiliza técnicas de cinema o tempo todo, com destaque para o cinema de terror.

    Dessa forma, “Retratos Fantasmas” é uma obra essencial para entender esse diretor e saber o porque ele é tão celebrado nacional e internacionalmente.

  • O Céu de Suely

    O “Céu de Suely” é um filme brasileiro do ano de 2006, dirigido por Karim Ainouz. Esse filme contou com as interpretações de Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Zezita Matos.

    O filme inicia com a personagem principal, Ermila, em um campo de terra junto com o pai de seu filho. Nessa cena, a personagem dança com um ar de muita felicidade, enquanto recita as promessas que seu companheiro, Marcelo, fez dizendo que faria dela feliz por ser o grande amor da sua vida. Tudo começa prometendo ser um grande romance…

    No entanto, o céu que Ermila, depois Suely, materializa em torno dessa promessa de seu ex-companheiro logo cai. A personagem, então, aparece retornando a sua terra natal junto de seu filho, Marcelo Jr., com a promessa de Marcelo de em breve ir encontrá-la na cidade onde se conheceram. Daí em diante, a vida de Ermila vira um misto de decepções e… sonhos. Sim, mesmo passando pelas mais diversas crueldades da vida, Ermila jamais deixa de sonhar.

    Essa história espelha a de muitas mulheres no Brasil que, acreditando na paixão, são enganadas pelos seus parceiros e passam a viver a realidade cruel da maternidade solo. Essa tarefa que é cansativa, por gerar a necessidade de cuidar de um ser humano e gerar sustento para o lar, e cruel, mas que mostra a força dessas mulheres diante desses desafios injustos impostos pela vida.

    “O céu de Suely” nada mais faz do que narrar uma realidade. Aquela que se constrói por meio de sofrimentos, mas também muita esperança. Nesse sentido, merece destaque a trilha sonora do filme que é carregada de regionalismo e mostra a riqueza cultural que o Brasil tem.

    Tudo isso que foi comentado, faz dessa uma obra muito interessante para ser lembrada como uma das grandes produções brasileiras. Esse é apenas o segundo longa-metragem de um dos diretores que considero, na atualidade, um dos grandes do cinema brasileiro. Vale a pena conferir.

    O Céu de Suely
    2006 | 16⁩ | Drama
    Sinopse: Para conseguir dinheiro, uma mãe decide rifar o próprio corpo para uma noite de paixão, chocando a cidadezinha onde vive com seu empoderamento feminino. Elenco: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, João Miguel, Zezita Matos, Mateus Alves, Gerkson Carlos. Direção: Karim Ainouz.

  • ‘Rio, Zona Norte’: de Nelson Pereira dos Santos

    Retornamos com os comentários sobre filmes brasileiros nesta página, falando sobre o filme “Rio, Zona Norte”, de 1957, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. O filme se passa na cidade do Rio de Janeiro e conta com as atuações de Grande Otelo, Jece Valadão e Paulo Goulart.

    Ele conta a história do sambista Espírito da Luz que, após sofrer um acidente em uma linha de trem e ter um traumatismo craniano, tem sua história revelada para o público que assiste ao filme. A trama se desenvolve em dois momentos distintos. Em um deles, são contados os momentos após o acidente sofrido pelo protagonista. No outro, os acontecimentos anteriores a esse mesmo acidente.

    Nelson Pereira dos Santos é, sem dúvidas, um dos grandes expoentes do cinema brasileiro, se não for o maior. Nesse filme, ele faz uma junção da abordagem da arte, por meio do samba, com problemas sociais enfrentados por uma população que, apesar de ter muito potencial e evidente talento, fica à margem da sociedade.

    Espírito de Luz é a representação das injustiças dessa sociedade que não olha com olhos de interesse para quem vem da periferia. Um sambista que tem uma capacidade ímpar de compor sambas, de uma forma que comprova ter nascido para fazer aquilo. Apesar disso, com seu espírito esperançoso e alegre, é constantemente enganado por pessoas que se aproveitam de seu talento para faturar, deixando-o em uma situação de miséria. Quantos Espíritos existiram ou ainda existem nesse mundo?

    Dessa forma, o filme de Nelson se aproxima muito de uma realidade marcada pelas injustiças sociais. Nesse contexto, a fronteira entre ficção e realidade passa a ser uma mera questão de detalhe.

    Essa obra mostra como o cinema brasileiro é rico e pode abordar temas variados de diversas formas. Ainda mais do que isso, só comprova que o cinema brasileiro já tem uma qualidade enorme desde muito cedo. É necessário que valorizemos nossa cultura pretérita para que possamos construir um Brasil cada vez mais carregado de identidade. “Rio, Zona Norte” ajuda a fazê-lo.

    Ficha do filme:
    5 de maio de 1958 No cinema | 1h 30min | Drama.
    Direção: Nelson Pereira dos Santos | Roteiro Nelson Pereira dos Santos.
    Elenco: Grande Otelo, Jece Valadão, Paulo Goulart.

  • Sobre “A melhor mãe do mundo”

    Nos últimos dias, tenho percebido nas redes sociais a grande repercussão que o filme “O Filho de mil homens” tem tido. Trata-se, realmente, de uma obra muito interessante e sobre ele quero comentar após ter lido o livro que o originou, de Walter Hugo Mãe. No entanto, gostaria de usar esse espaço para falar sobre outro que foi cotado para ser indicado ao Oscar e, também, está disponível na Netflix. Ou seja, “A melhor mãe do mundo”, de Anna Muylaerte.

    Ele retrata uma série de acontecimentos na vida de uma catadora de lixo chamada Gal (Shirley Cruz). Nele, a personagem é obrigada a fugir da casa onde vive com seu companheiro Leandro (Seu Jorge) em razão das agressões que vinha sofrendo deste pelo consumo de álcool. Ela pega seus dois filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo), e inicia uma grande epopeia pela cidade de São Paulo.

    Nesse sentido, me chama atenção o fato de o filme não estar sendo tão comentado quanto deveria, pois diferentemente de atores famosos, o protagonismo fica com aqueles que ainda não são muito conhecidos. Entretanto, esse fato não tira o mérito das atuações, Shirley Cruz entrega uma excelente atuação no potente papel que lhe foi conferido. Os intérpretes de seus filhos também estão muito bem.

    Um dos fatores que merece destaque é a construção dos personagens. Isso porque, diante de uma atmosfera de miséria e precarização, não seria um crime se eles não dessem nenhum espaço para a felicidade. No entanto, a história demonstra um espírito brasileiro que, mesmo diante de sérias dificuldades, não renuncia às pequenas gigantes coisas que os mantém vivos, ou seja, seu churrasco, cerveja ou time de futebol, pois elas são essenciais para viver e sobreviver. Como diria o grande filósofo Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar”.

    Gal é, então, uma sobrevivente que utiliza a felicidade e a fantasia como recurso para a fuga de uma realidade cruel. Esse fator me fez associar o filme ao clássico de Roberto Benigni, A vida é bela. Eu diria que “A melhor mãe do mundo” é a versão brasileira desse filme com todas as adaptações que a realidade do país exige. A cena do banho na Fonte dos Desejos, especialmente, me levou a essa comparação.

    Vale, ainda, ressaltar a coragem de Anna Muylaerte ao trazer à tona a importância das ocupações diante da tragédia causada pela especulação imobiliária no centro de São Paulo. Embora eu nunca tenha morado e conheça pouco a cidade, sei que o tema é amplamente discutido e nele são evidenciadas injustiças sociais nuas e cruas do sistema capitalista. Por isso, falar sobre movimentos sociais, em um momento em que o fascismo faz coro para incriminá-los, é essencial.

    Por fim, destaco que esse texto não se trata de uma crítica ao protagonismo de “O filho de mil homens” pois esse é um filme que trata de importantes temas e merece ser assistido. No entanto, precisamos começar a olhar com carinho para a realidade dos esquecidos e marginalizados por nosso sistema e “A melhor mãe do mundo” é importante pois ajuda a fazê-lo.

  • Bilhete Premiado!

    Ficamos mais próximos de nós mesmos nesses últimos anos, foi inevitável o isolamento e descuido em relação aos outros, porém, crescemos sobre maneira evitando por vezes um desespero sem volta. 

    Os melhores estão aqui, os mais fortes e preparados se safaram da peste, e agora revivemos nosso passado na busca de respostas diferentes porque todas as questões mudaram, algumas de tamanho, outras de conteúdo. 

    A forma de revisar a vida, travada pelos artistas de cinema, tem um detalhe particular muito diferente dos reles mortais, é mostrada em grandes telas.

     Como o fez Steven Spielberg em seu filme “Fabelman”, já premiado e atraente para muitos. Ele conta sua história de vida, repensada justamente nos tempos de clausura, devido ao fato do vírus estar a solta na rua nos pulmões de muitos.

    Dramas familiares foram repensados, Steven misturou horror e comédia, com romance e “suspense”. Como sempre foram todas nossas vidas, que o tempo e o medo de sobra proporcionaram o pensar saudoso nos fatos marcados num passado esquecido pelo temor dos dias doloridos, mas que uma doença às soltas na calçada, empurrou nossas ideias para uma reflexão e revisão de um tempo guardado nas gavetas como recordação, para saudar um dia em especial com tenra alegria. 

    A guinada obrigatória nos deixou atônito e sem fala, porque até essa foi contaminava, por vezes com vírus, outras tantas com verdades, ou mentiras. Ficamos mais perto do limite de nossa frágil existência biológica, que nos deixou expostos à finitude dos corpos, calejados da busca pelo respirar saudável.

     Outro cineasta, o Belga Lukas Dhont, aproveitou a paralisia da indústria cinematográfica para voltar a sua pequena cidade Natal e ao pisar na escola onde estudou, se reconectou com uma parte de si. Daí surgiu outro filme, “Close”, um drama sofrido sobre homofobia e masculinidade tóxica, que tem nos medos e insegurança que ele vivenciou na infância.

    Parece que a pandemia inaugurou profundamente um novo pensar na forma de nos relacionarmos com o passado e a memória. Essa (auto) análise forçada, fez bem a quem soube aproveitar e entender que o resto de seus dias lhe foram presenteados como um bilhete premiado dado por acaso, ou sorte, aos que tinham mais saúde e anticorpos para lutar em conjunto por você. 

    Se Nietzsche, já havia percebido quando escreveu “Quando você olha para o abismo, o abismo olha para você”, nesse momento surgiu a oportunidade de refletir sobre a finitude, e encará-la para fazer uma escolha, que exigiu mais preparo. Ou você preferia abraçar a desistência e ficar no passado, com certeza não sentiria mais dor, na verdade, nem estaria lendo essa crônica.

  • O filme Vitória revela o Rio, tratando a questão do etarismo em interpretação corajosa de Fernanda Montenegro

    Saí do cinema pisando leve. Há uns dias, minha esposa vem dizendo que quer ver Vitória. Confesso que não estava muito empolgado. Sei lá. Talvez por uma frustração pirracenta de não ter podido ver uma penca de filmes nos quais eu estava super interessado, mas que só passam em algumas poucas salas de cinema das capitais, morando eu no interior.

    Pois bem. Nesta tarde, resolvemos o assunto e fomos assistir ao novo (e, dizem alguns, último) filme da primeira dama da dramaturgia brasileira. Entramos no cinema com o filme iniciado há uns dois minutos, no máximo. Não sei explicar o motivo, mas foi sentar e já chorar na primeira cena, com Dona Fernanda andando no calçadão de Copacabana, na pele da aposentada Nina, uma idosa que mora sozinha e faz bicos de massagista. Cenas comuns, sem grande carga emotiva – apesar de dramáticas -, iam se sucedendo, e as lágrimas não paravam de cair. Eu já estava preocupado com o que as pessoas iam pensar ao notarem que eu chorava. Um rapaz, inclusive, ria de cenas não cômicas, algo que já me causava aborrecimento. Pensei eu “Do que esse cara tá rindo? São cenas sérias, com a interpretação séria de uma das grandes atrizes do planeta no que se imagina ser o final de sua carreira”. Cheguei a ficar indignado, com vontade de perguntar ao cara “Qual é a graça?”. Na segunda metade do filme, minhas lágrimas cessaram. Tá certo. Não é um filme pra fazer espectador chorar. Não o espectador médio, normal. Não quero, com isso, dizer que como público de cinema, sou um espectador especial. Longe disso. Na verdade, nem me considero mais um cinéfilo. Meu choro, em boa parte da exibição, fugiu, aliás, da minha compreensão. Talvez eu estivesse muito mais emocionado com Fernanda Montenegro em cena, do que com qualquer outro aspecto.

    Vitória é um filme, a meu ver, irrepreensível. Fernanda está boa de verdade. A atriz praticamente se supera, como se isso fosse possível ou necessário. A personagem por ela interpretada é uma mulher de coragem ímpar. Uma mulher lutando para resolver um problema. Na trama (aqui, um pequeno spoiler), Nina tenta – e consegue – desbancar um esquema de venda de drogas envolvendo traficantes e policiais. Claro, sabemos que o crime no Rio de Janeiro é um negócio que gera milhões, sobretudo para alguns influentes “cidadãos de bem”, e, por isso, não são imagináveis soluções fáceis. No entanto, possíveis soluções não surgirão se os habitantes da metrópole maravilha mutante não fizerem, com alguma dose de coragem, sua parte.

    O que vi foi um filme enxuto, redondinho. Em alguns momentos quase minimalista. Tudo funcionou muito bem, fazendo de Vitória uma parte importante desse momento especial vivido pelo cinema brasileiro. Na figura da idosa Nina e de Fernanda Montenegro, que a interpreta, somos presenteados com um verdadeiro libelo contra o etarismo. Obrigado, Andrucha Waddington e toda a equipe desta produção tão especial, tão séria e tão delicada! Obrigado, cinema brasileiro!

  • A vida presta, muito

    A frase antológica de Guimarães Rosa, citada por Fernanda Torres em seu discurso na premiação do Globo de Ouro, me fez pensar nos múltiplos significados nela contidos. Na minha leitura do filme Ainda Estou Aqui, dois deles me tocaram sobremaneira:

    — O amor incomensurável de Eunice por seus filhos, a ponto de tentar, depois do trágico desaparecimento de Rubens Paiva, proporcionar a eles uma vida que “prestasse muito”. A cena emblemática da fotografia em família sem o pai consegue transmitir sua recusa em vitimizar os
    filhos que, agora, precisavam seguir em frente, sorrindo.

    — O desprezo pela vida que caracteriza as ditaduras persecutórias, como foi o caso do Brasil, entre 1964–1985. O interrogatório de Eunice, mostrado de uma maneira extremamente cuidadosa por Walter Salles, foi suficiente para escancarar o lado sanguinário do ser humano, quando cooptado por um regime que não dá nenhum valor à vida.

    Esses dois significados associados à fase “A vida presta muito” me fizeram relembrar outra frase, “A vida é bela”, título do filme de Roberto Benigni (1997).

    Só para avivar a memória, A Vida é Bela se passa durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália. O judeu Guido e seu filho, Giosué, são levados para um campo de concentração nazista. Afastado da mulher, ele tem que usar sua imaginação para levar o menino a acreditar que estão participando de uma grande brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam. Seu único objetivo era não permitir que o filho perdesse a inocência perante o evidente cenário de terror, numa verdadeira demonstração de amor.

    O motivo maior que levou Roberto Benigni a realizar este filme foi a sua vontade de contar uma história de amor e humanidade num contexto extremo, da mesma forma que Walter Salles em Ainda Estou Aqui.

    Duas propostas que procuram mostrar o lado reverso da tragédia, oferecendo ao espectador o que há de mais sublime na maneira de enfrentar a dor. Curiosamente, em 1999, A Vida é Bela ganhou o Oscar de melhor ator e melhor filme estrangeiro, vencendo o filme brasileiro Central do Brasil, que ficou com o Globo de Ouro.

    Não acredito em coincidências e sim que a vida tem um roteiro já traçado. Vinte e cinco anos depois, Walter Salles volta ao palco com Fernanda Torres, a filha, para dar à Fernanda Montenegro, com 95 anos, a alegria de se ver lá representada no Globo de Ouro de melhor atriz.

    A vida é bela, e presta muito!


  • Ainda Estou Aqui, Oscar e os ventos atuais

    No final da última semana fui ao cinema assistir ao filme “Gladiador II”. Muito além da esperada continuação do longa de Ridley Scott, o surpreendente mesmo foi ver que a sala estava com poucas pessoas. Indiscutivelmente, a preferência do público era outra, o magnifico e brasileiríssimo, “Ainda estou aqui”.

    Inicialmente, pensei estar vivendo em um sonho onde o cinema nacional consegue se destacar diante de uma superprodução norte americana. Quem dera essa realidade fosse constante… Agora, conforme a triste realidade tem demonstrado, esse episódio é uma exceção que raramente foge à regra. Mesmo sendo brasileiro e vivendo no Brasil, sabemos o quanto é comum ver as obras produzidas nos Estados Unidos recebendo mais espaço em nossas salas de cinema do que os nacionais. As razões podem ser objeto de tese.

    Deixando essa discussão de lado e falando especificamente desse filme. Em termos de análise, como avaliar o impressionante trabalho feito por Walter Salles? Os comentários aos quais tive acesso nas redes sociais antes de assistir geraram tanta expectativa que até tive medo de sair do cinema decepcionado. Isso, não aconteceu. Sai, ao contrário, emocionado. Essa obra de arte cinematográfica sobre esse tempo nefasto vivido em nosso país foi capaz de me causar o sentimento mais genuíno, a emoção.

    Dito isso, entro no ponto almejado ao fazer toda essa introdução, o tema do longa nacional. Vivemos em tempos muito sombrios da história. Aliás, essa tem sido cada vez mais esquecida diante de um esforço de muitos fazem para isso. O Brasil viveu uma ditadura. Ela foi muito cruel e suprimiu liberdades. Assim como na ficção, pessoas foram capturadas, torturadas e caladas. Jamais podemos deixar isso acontecer novamente. Esse é o ponto. Por esse motivo, precisamos aproveitar o chamado “hype’’ desse filme para falar sobre assuntos que alguns nos fazem diariamente tentar esquecer, ou seja, história e ditadura.

    E o Oscar? É um privilégio poder assistir a uma atuação tão magnifica de Fernanda Torres. A atriz não merece somente uma estatueta, merece o mundo! No entanto, ganhar ou não o prêmio não fará de “Ainda estou aqui” gigante. Ele simplesmente o é, e sempre será. Por isso, independente de vencer ou não um prêmio, historicamente voltado majoritariamente a indústria cinematográfica norte americana, precisamos abraçar esse filme, falar sobre seu tema principal e, sobretudo, ter orgulho por viver em um país culturalmente tão rico, com atores tão magníficos e que sabe fazer cinema de qualidade.


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