Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas mãos por todo seu corpo. Na frente, atrás… Que pele macia e sedosa você tem. Nenhuma mancha, nenhuma marca, nenhuma cicatriz. Você beija bem. Sim, eu beijei você várias vezes. Nossas línguas já se encontraram. Uma procurando a outra com avidez, lembra? Nossos corpos se encaixaram. Eu tenho a impressão de que você me deseja também. É claro que deseja. Sente tesão. Uma coisa forte e sincera. Da nossa última noite de amor você se recorda? Eu me lembro de cada detalhe. Você chegou usando aquele vestido vermelho decotado. Ele deixa você ainda mais sensual. Realça suas formas. Como se você precisasse desses artifícios… Eu estava ansioso, não parei de olhar o relógio até você chegar. Eu corri ao seu encontro, abri a porta do carro. Eu lhe preparei uma bebida. Sei o que você gosta de tomar. Eu sei tudo a seu respeito. Ninguém conhece você melhor do que eu. Nós bebemos juntos. A música que tocava era a nossa música. Você escolheu bem. Realmente, como você disse, ela parece ter sido inspirada em nós. É a vida imitando a arte. Ou seria o contrário? A gente dançou de rosto colado. Passei a língua na sua orelha. Mordi seu pescoço. Ficou uma marca. A sala na penumbra. Você me pediu que abaixasse a luz. O que eu não faço para contentar você? A gente subiu para o quarto. Eu carreguei você nos braços. Amantes em direção ao ninho de amor. Você sempre foi romântica. Sempre adorei as situações que você criava, suas fantasias… Que imaginação! Eu embarcava nelas. Elas se tornaram minhas fantasias também. A cama macia, lençóis de seda, uma comichão queimando nossos corpos. Você já sem o vestido. Você completamente nua. Seus mamilos rosados, seus pelos pubianos. Seu corpo… uma obra de arte. Que visão maravilhosa. Eu possuí você. Com carinho. Você teve um orgasmo. Você me abraçou e me disse que queria tanto que aquela noite não terminasse nunca. Era exatamente o que eu estava pensando quando você falou. Também adoraria que aquela noite fosse eterna, durasse para sempre. Você teve outro orgasmo. Você está percebendo a sintonia que existe entre nós? Nós temos sorte. Achamos um ao outro. A metade da laranja, a tampa da panela, almas gêmeas, seja lá o que for. Eu sou seu, e você é minha. Ou ainda vai ser um dia. Sei que vai. Tenho fé. Nós tomamos banho juntos. Nossos corpos se tocaram embaixo do chuveiro. Eu acariciei sua barriga. Eu enxuguei você carinhosamente. Passava a toalha pelo seu corpo, porcelana fina e delicada. Depois do banho, nos amamos de novo. Dessa vez no chão forrado com pétalas de rosas. Rosas brancas, suas favoritas. Em cima do tapete também, no meio das almofadas. Somos insaciáveis. Você gosta de variar, sempre rejeitou a mesmice, fugiu da rotina. Os laços que nos unem. Nós… A carta prosseguia. Alice, porém, resolveu não continuar a leitura. Desde a morte de Sandra, ocorrida três semanas atrás, aquela era a primeira vez que entrava no quarto da filha. Tudo estava exatamente como ela havia deixado. Dobrou o papel, colocou-o novamente dentro do envelope e o abandonou no criado-mudo, onde o encontrara. Apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.
Coluna ‘Contos’ de Sábado
-
NÓS
-
Catarina
Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.
*****
Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.
Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.
Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.
— Max, desce da cama! — Francisco ordenou.
— Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…
Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…
Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.
Uma e meia da manhã, cama do casal.
— Francisco, que dia é hoje?
— Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.
— Você conferiu o resultado do jogo?
— Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.
— O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…
— Gôndolas são de Veneza, esqueceu?
— No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!
— Ah, depois, deixa eu dormir…
Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…