Conto no Crônicas Cariocas

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • A doença

    Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.

    Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.

    Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”

    “Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.

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