Crônicas Cariocas

  • Da glória ao fracasso

    Impressionam-me os casos, muito noticiados pela mídia, de pessoas que eram famosas, endinheiradas, e depois perderam tudo. Geralmente são artistas ou ases do esporte. Sabe-se que o sucesso é fugaz, mas há uma diferença entre sair dos holofotes e mergulhar na escuridão do anonimato ou nos confins da miséria.  

    Recentemente se noticiou o caso de Mário Gomes, que teve a mansão leiloada para pagar dívidas trabalhistas. Desconsolado, o ator revelou que estava por enquanto na casa de uma filha e não tinha ideia de onde ia morar – talvez “embaixo de uma ponte”!  

    Há muitos outros casos. Entre eles está, por exemplo, o de Regininha Poltergeist; depois da fama nos anos 1990, ela perdeu  o que havia conquistado e chegou a morar num posto de gasolina. Outro é o do ator César Macedo, que atuou na “Escolinha do Professor Raimundo” e, fora da TV, enfrentou muitas dificuldades financeiras. Veio a morar nas ruas depois que a esposa morreu.

    E quem não se lembra do ator Rubens Sabino, que fez o papel de Neguinho  no filme “Cidade de Deus”? Depois de abandonar a carreira, ele chegou a viver na Cracolândia, em São Paulo, por cerca de quatro anos.

    Muitos perdem seus bens e ficam mesmo sem ter onde morar. Caso não sejam amparados por um algum parente generoso, têm que apelar para a generosidade dos transeuntes. Na melhor das hipóteses, passam a vender cachorros-quentes, bombons ou água para sobreviver.   

    Se a ambição maior deles é galgar a escada da fama, o que os faz descê-la de forma assim melancólica? A explicação comum, e um tanto óbvia, é que não pensam no futuro. Deslumbrados com os aplausos e paparicos dos fãs, esquecem que essas manifestações passam e com elas o dinheiro que lhes permite o conforto de uma boa vida.

    Alguém já disse que, a ter e perder, é preferível nunca ter tido. A memória dos bons tempos dói mais do que a tristeza por eles nunca terem chegado. Enfim, não se perde o que não se teve.

    Outros atribuem a derrocada à fatalidade, que escolhe algumas pessoas para nelas imprimir negativamente a sua marca. Mas fatalidade não é destino. Para que nele se transforme, é preciso que a vítima de algum modo aceite o que lhe é infligido, ou vá ao seu encontro.   

    Talvez os que descem do chamado “pedestal da glória” façam isso por não se julgarem aptos a lá estar. Talvez procurem a obscuridade por não se acharem merecedores de ficar sob a luz. Nesse caso não é o descuido com o futuro que os leva a tal situação, mas algum tipo de prisão ligada ao passado.   

    Há quem ache que não faz jus ao sucesso que a vida lhe concedeu. Por alguma obscura falha interior, considera injusto o que alcançou na arte, na profissão ou mesmo nas relações sociais. Trata então de “reparar o engano”, infligindo-se um fracasso que compensa o que por equívoco lhe teria sido dado. A alma humana tem desses mistérios.

    Essa tese psicológica não se aplica a todos os casos e pode ser contestada. Mas não deixa de nos fazer pensar. Só ela explica que chegue ao declínio alguém que tanto lutou para alcançar o apogeu.

  • O meu amiguinho

    Sei que ele está indo embora, é só uma questão de tempo. Está mais fraquinho a cada dia, alimenta-se mal, come sem apetite. Cabisbaixo, calado, triste, tão diferente de outros tempos, não passa agora de uma sombra do que costumava ser. Sempre achei chato olhar para ele pelas grades da gaiola, mas com o tempo me habituei. Ainda que possa parecer egoísta, eu ficava reconfortado por saber que ele estava ali, pertinho de mim. Sua companhia me fazia bem e eu só posso agradecer por tanta generosidade. Com a presença dele, a solidão pesava menos. E, quando ele cantarolava, eu juntava minha voz à dele e éramos os dois mergulhados numa só melodia.

    A vida prática, porém, ensina que não é bom tomar-se de tanto carinho pelos bichinhos de estimação. Quando eles morrem, a gente fica só, desarvorado. A gente fica sem chão e tudo passa a não ter mais sentido. Como acontece agora. Meu amiguinho está indo embora e eu me sinto muito triste. Perdi a melodia, minha garganta secou. Minhas penas vão logo perder a cor e o brilho. Agora só penso com qual dos dois filhos do meu amiguinho eu vou ficar. O mais velho nunca se importou comigo. Talvez o mais novo queira me levar, não sei.

  • Poema #20 – CONFIDENCIAL

    Nada consta.
    Consta que seja um nada
    em face a uma constância
    de extremos inarredáveis.
    Enfim
    um nada consta sobre
    outro consta um nada
    — A vida incerta do homem —
    Nas folhas gastas do mundo
    não consta nada em
    detrimento desse nome.
    Um simples nome em meio
    a tantos outros no arquivo
    de uma gaveta metálica.

    O Acaso das Manhãs

  • Missão Pascal

    .

    Conto baseado na poesia de Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura 1945.

    Pascal foi incumbido de escolher a imagem de Cristo que iria ser utilizada na pregação da Sexta-Feira Santa. 

    Saiu à procura daquela que fosse capaz de comover a consciência dos fiéis, nesses tempos tão sombrios de conflitos, intolerância, violência e genocídios. 

    Buscava algo que transmitisse o sofrimento do Criador, não por sua condição de torturado no alto de uma cruz, mas sim pelo reflexo de sua dor naqueles que padecem no mundo dos vivos.

    Queria uma imagem que iluminasse o coração e o cérebro dos que a ela elevassem os olhos, e fosse capaz de acender uma centelha de reflexão, primeiro passo para a expiação das culpas de um rebanho desgovernado.

    Percorreu céus e terras analisando representações de Jesus talhadas em madeira, mármore, granito, mas, apesar de sua beleza, nenhuma delas conseguia transmitir o sofrimento terreno que achava importante representar nesta sexta-feira.

    Sentou-se para descansar em um banco de praça, e logo se deparou com uma cena cada vez mais comum na cidade. Uma família, abrigada na cobertura da marquise ao lado. Voltou-se para a mulher que embalava a criança e o observava com um meio sorriso. O que buscas? — Perguntou a desconhecida.

    — Estou à procura de uma imagem de Cristo para a pregação da Sexta-feira Santa. Uma que represente todo o sofrimento do Criador ao ver que sua palavra não tem conseguido refrear as injustiças, a violência e a falta de solidariedade de seus seguidores — respondeu Pascoal.

    — Se queres retratar o sofrimento, não procures nas estátuas, nos altares e templos. Vá buscar essa imagem nas ruas, entre as pessoas sem teto, onde há gente morrendo, crianças famintas, mulheres vítimas do abuso. Você vai encontra-la entre os pobres, uma imagem de carne e osso. 

    Pascal fechou os olhos por um instante para refletir sobre a revelação. Quando os abriu novamente, a mulher e a criança tinham desaparecido, como por encanto.

  • Ela morreu

    Sentada à mesa de um restaurante, aguardando uma amiga para o almoço de celebração da nossa amizade, chegou aos meus ouvidos uma frase, com efeito de fogos de artifício, dita por uma voz feminina, provavelmente da mesa ao lado:

    — Eu confiava nela. 

    No momento que decodifiquei o som e o sentido se fez claro, fui tomada por uma tristeza absoluta e uma identificação imediata com a enganada da vez. 

    Sem que nos conhecêssemos ou tivéssemos intimidade, experimentei, por osmose, a dor causada pelo corte profundo da decepção. O sangrar hemorrágico de um fim que se impõe mesmo diante do perdão. Toda falsidade ou traição fere a eternidade do sentimento, a ingenuidade da confiança. Sem isso, ela é outra coisa. Perde o viço, a raridade, o estado nato de berço. Mas tem quem não se importe, quem acredite que uma vez ferida, ela, a confiança, feito lagartixa, se regenera. Quanto engano! 

    Seu ferimento tem dor profunda, pulsante e incurável. Sua cicatriz é feita de queloide. Impossível retornar ao conforto inicial de sentir-se em casa diante do outro. Esse é o maior luto. A certeza de que não se volta ao estado natural de ingenuidade. Impressionante que as pessoas não se deem conta do que perdem com o fim da fé em si. 

    Eu confiava nela. Que triste! 

  • O que perdemos com o Wi-Fi

    A tecnologia nos trouxe muitas coisas. Mas o que ela levou embora? Creio que a pergunta poderia ser: as crianças ainda brincam? Acredito que brincam bem menos do que eu, meus irmãos e amigos! Os tempos mudaram.

    Ninguém mais fica na rua, na frente de casa. As famílias não têm tantos filhos. E com isso perdeu-se também o maravilhoso programa de irmos à casa da vó, onde os primos se encontravam e saíam esbaforidos para aproveitar o tempo e brincar.

    Passar anel, esconde-esconde, amarelinha, rolimã, pique, queimada, cabra-cega, “adivinha o que é?”, pular corda, cabo de guerra, telefone sem fio, cantiga de roda…

    Essas eram as brincadeiras antigas, normais e lícitas. Existiam também as perigosas: subir em árvores, descer de rolimã, guerra de sementes de mamona, roubar frutas nos quintais alheios, soltar espoletas…

    Quanta coisa existia em nosso mundo infantil! E os insetos? Será que as crianças conhecem os louva-a-deus, cigarras, esperanças, joaninhas, vaga-lumes?

    Os perigos eram conhecidos: não andar descalço para não entrar espinho no pé ou pisar em cacos de vidro; não subir no telhado para pegar a rabiola da pandorga; não sair sem avisar a mãe…

    A tecnologia mudou a vida dos adultos e a das crianças também.  Estimulou o aprendizado, os jogos lúdicos aumentaram a atenção e o foco, desenhos e filmes facilitaram o interesse por outros idiomas. Quem já não ouviu delas : Tem Wi-Fi?

    Em todos os tempos existirão brincadeiras inocentes e perigosas. Algumas desconhecidas… Na sala de casa, um celular e um frasco de desodorante podem ser fatais.

    Crianças são crianças.

  • Retorno às névoas perfumadas

    Chegou antes da hora marcada. Uns minutinhos somente mas tempo suficiente para se acomodar no café. Escolheu uma mesa na parte externa que dava para o jardim interno da ala elegante do shopping. E ficou ali.

    Marcou o encontro com uma amiga de anos e escolheu aquele lugar para agradar a ela e, sendo sincero, também a si mesmo. A atmosfera do ambiente fazia seu senso estético se manifestar contente. A idéia do encontro era marcar o fim de dois anos de isolamento forçado. Eles não estavam desatualizados a respeito dos respectivos assuntos particulares e comuns. A internet ajudara bastante a manter as conversas constantes. Porém, faltava a proximidade física.

    Os dois encaravam aquele encontro como sua celebração pós pandemia. A volta ao mundo real. Mas o que ela não sabia é que para ele havia um algo a mais por trás daquele encontro. Sem alarde e em segredo ele decidira começar naquele dia um ritual íntimo que ele chamara de retorno às névoas perfumadas.

    Das ausências provocadas pela pandemia em sua vida uma das mais significativas foi a falta de aspirar perfumes. Conversar com as pessoas, manter um contato mínimo, pôde ser contornado com as webconferences. Mas sentir aquele aroma agradável especial, sem chance.

    Não perfume do vidro mas sim aquele cheiro perfumado que sobe das pessoas. Esse é insubstituível. Fica gravado na memória para sempre.

    E sua predileção era pelas fragrâncias que envolviam as mulheres. Sentia uma falta imensa de encontrar alguma mulher perfumada.

    Logo que tomou coragem para sair de casa, tentara um paliativo que era circular pela rua ou pelo shopping e passar pelas pessoas que emanassem nuvens perfumadas. Não dera certo.

    Tinha que entrar em contato com as mulheres para sentir de perto o perfume feminino. A química entre fragrância e a pele de cada pessoa era única, ensinava o senso comum e ele assinava embaixo com todas as letras. Sabia que não precisaria de muito para satisfazer seu olfato. O aperto de mão seria suficiente para trazer para perto de si a nuvem de aroma perfumado. Aspiraria profundamente arquivando na memória o cheiro suave e envolvente daquela névoa deliciosa.

    Aos poucos fora formulando em sua cabeça a idéia desse ritual íntimo. Não via maldade nem inconveniência em sua busca. Era um movimento puramente estético e sensorial, dizia para si.

    Nada abusivo ou ofensivo.

    Não se considerava invasivo, nem tarado ou pervertido. Apenas um apreciador desse aspecto sensorial do mundo feminino. Outra forma de justificar o que iria dar início naquele dia.

    Honestamente não tinha pretensão alguma em se envolver com ninguém. Bastava para seu prazer captar aquele aroma particular. O arrebatamento do encontro do perfume com suas narinas seria sem igual.

    Depois de muito pensar e pesar decidira passar a ação. Agora estava ali, prestes ao primeiro encontro de retomada do prazer sensorial provocado pelo perfume de uma mulher.

    Selecionara com cuidado quem seria sua primeira convidada e optara por uma amiga de longa data e apurado senso estético. Ela era um dos melhores exemplos de química perfeita entre perfume e pessoa. Não conhecia ninguém que combinasse tão bem com a fragrância daquele perfume de nome exótico.

    Portanto, para abrir os trabalhos seria com ela.

    Seus pensamentos foram interrompidos com a visão de sua amiga chegando. Ela caminhava devagar e sorridente. Ele se levantou sorrindo, aspirou o ar profundamente e pensou: seja bem vinda névoa perfumada.

    Crônica escrita originalmente em 5 de outubro de 2022

  • O cronista em caça

    O cronista é um caçador, não o homem que sai com sua espingarda a fim de conseguir algo para comer ou por pura diversão pela morte. É um animal eternamente faminto e em constante situação de caça. A todo momento, está em busca da sua próxima vítima, que alimentará a si e aos outros.

    Ser esse caçador é consequência de ser cronista.

    Onde estiver, estará em caçada. Não importa a situação, o momento ou o lugar. Qualquer um pode ser propício, todos são capazes de lhe oferecer uma nova presa. Ele sabe disso, está sempre à espreita. Diante de um alvo que se mostre, não titubeia; na primeira oportunidade, irá agir.

    Por onde passa, segue perseguindo algo, que os outros não veem e ele, talvez, ainda não saiba ao certo. Não sai de casa necessariamente com o intuito de executar o apresamento subsequente. Entretanto, para onde vá ou onde se encontre, o gênio de cronista está agindo dentro dele.

    Não é caçador apenas por escolha ou por aptidão adquirida, mas por uma condição intrínseca, ínsita ao seu próprio ser cronista. Ela garante o sucesso na localização do alvo de cada empreitada, seja mensal, semanal ou diária; por obrigação ou puro deleite.

    O predicado disso está na procura constante, mas também, por vezes, não deliberada. Está no instinto e nos olhos que só podem ser encontrados em indivíduos dessa espécie. Possui um olhar particular, olhar de caçador, olhar de cronista, essencial para produzir novas presas. Ele não enxerga como os demais. Seus olhos de rapina são capazes de transformar o mais insignificante elemento em uma preia útil.

    Esconder-se ou se esgueirar são desnecessários. Para o bote, precisa de ouvidos vigilantes, visão precisa e argúcia em seu faro. Todos muito bem treinados e experimentados. Assim como os seus gadanhos, que, se não forem cultivados e afiados cotidianamente pelo predador, tornam-se ineficazes no assalto.

    Essa fera não distingue suas vítimas. Qualquer um pode vir a ser o próximo. Tudo lhe interessa, desde o gesto mais inocente à hecatombe mundial, do último acontecimento político ao café que coa todas as manhãs. Não há nada que não esteja passível de se converter no seu mais recente abate.

    Mal tendo digerido o último, já se lança à procura do seguinte. Seu ímpeto jamais cessa, precisa estar sempre em caça. E ele estará.

  • Um escorrego de morfologia

    A frase abaixo foi retirada de uma matéria da IstoÉ sobre um medicamento contra a impotência:    

    “Por ser ingerido diariamente, não é preciso calcular quando ter relação (os outros remédios exigem um tempo para fazer efeito).”

    Li críticas de professores de português à flexão do verbo “ter” nessa passagem. Dizem que a forma correta é “tiver”, pois ele estaria empregado no futuro do subjuntivo. Um dos que defendem esse ponto de vista escreve: “Este (o futuro do subjuntivo) participa de orações iniciadas pela conjunção ‘se’ (condição hipotética futura) ou pela conjunção ‘quando’ (tempo hipotético futuro).”

    A explicação seria correta se o vocábulo “quando” naquele contexto fosse mesmo conjunção. Ou seja: se a oração iniciada por ele se classificasse como adverbial temporal. Não é isso que ocorre.

    Vejamos por quê. O autor da matéria se refere a um medicamento que, ao contrário de outros com o mesmo fim, pode ser usado todos os dias. Essa frequência traz uma vantagem ao usuário: não precisar calcular o momento adequado para ter relação. Tal vantagem não existe em drogas similares, que “exigem um tempo para fazer efeito” e, consequentemente, determinam que os usuários escolham a melhor ocasião de tomá-las.  

    Assim, a palavra “quando” naquela frase não é conjunção, mas advérbio. Introduz oração objetiva direta, na qual exerce função sintática. Considerar a oração indicada pelo “quando” como temporal deixaria sem complemento o verbo “calcular” e sem sentido a frase (calcular o quê?). De fato, o autor não quis dizer que se precisa calcular “alguma coisa” no momento de ter relação; esse momento (ou seja, o “quando”) é o próprio objeto do cálculo.

    Nesse tipo de construção a oração objetiva se diz justaposta, pois é introduzida por um termo que, ao contrário da conjunção, exerce função sintática. Além de “quando”, podem aparecer outros advérbios ou locução correspondente. Por exemplo:

    — “não é preciso calcular como ter relação” (modo)

    — “não é preciso calcular onde ter relação” (lugar)

    — “não é preciso calcular quanto ter relação” (intensidade)

    — “não é preciso calcular por que ter relação” (causa)

    O infinitivo, nesse caso, constitui o verbo principal de uma locução com auxiliar modal implícito (poder ou dever): “não é preciso calcular quando (se pode ou deve) ter relação”.

    Enganos como o acima referido mostram o perigo de classificar vocábulos ou orações sem atentar para o sentido da frase. Resultam de um hábito por vezes comum no aprendizado da língua, que é o de decorar classes de palavras. Quem faz isto parece esquecer que elas se definem de acordo com o contexto.

  • Maldades Obscenas!

    O que não pode ser visto, não incomoda, essa máxima nos protege dos males da natureza humana, que insistem surgir durante décadas e afetar as mentes mais frágeis entre nós.

    Mesmo no início do século XX, os doentes mentais crônicos eram vistos como “degenerados” e “escória”, o equivalente a criminosos e escroques, por isso a ideia de escondê-los em manicômios foi a saída na época para resolver as questões ainda desconhecidas de nossa alma. 

    Nossas dores emocionais são frequentes companhias sem que tenhamos encomendado sentimentos ruins ou algum interesse em especial pra fritar nossos miolos ainda crus. 

    Buscamos viver com leveza porque a ausência de um fardo leva o ser humano tornar-se mais leve e de fácil convívio, e assim atingir um status social atraente e com mais oportunidades mundanas. 

    O que nos atormenta invariavelmente transborda a frente da próxima companhia tornando assim pesado o relacionamento com o próximo. 

    O escritor Milan Kundera escreveu em seu espetacular livro “A insustentável leveza do ser” que o mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão, ao mesmo tempo, ele é a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. 

    Vivemos muito pela primeira vez, quase não há tempo para ensaios ao entrar em cena nas ruas, e eventualmente somos recriminados(as) por sermos diferentes, ou a frente dos tempos.

    Nos anos 1486, algumas mulheres foram consideradas bruxas por serem hereges ou conhecerem magias incomuns, e também por suas atitudes contra o machismo reinante, foram recriminadas pela Inquisição. 

    A maior inovação da obra do inquisidor Institoris (Kraemer) foi justamente atribuir exclusivamente à mulher a condição de “bruxa”. 

    Antes da publicação do livro Malleus Maleficarum, ou O Martelo das Feiticeiras, e de posse da bula papal, ele havia empreendido esforços para processar mulheres suspeitas de bruxaria. Sempre é mais fácil atacar o fraco, o desconhecido, porque o covarde precisa justificar seus atos como o fez Adolf Hitler, que certa vez disse a um de seus Generais, se não existissem os judeus, precisaríamos criá-los, pra justificar nosso ódio. O inquisidor Institoris, durante um interrogatório preliminar, procurou conectar a mulher a um desvio sexual feminino e a bruxaria. 

    Assim justificou suas maldades obscenas, contra as criaturas desavisadas.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em 11 de abr. de 2023, 23:24

  • Coisa de louco

    O que comentam é que Gabriel não tinha como saber a verdade, já que fora criado por freiras num orfanato. Não conheceu os pais nem ninguém de sua família biológica. Mal tinha nascido quando uma vidente, dessas que ganham a vida enganando gente ignorante, sussurrou no ouvido da mãe:

    — Essa criança nasceu com olho grande, a cabeça tem um formato estranho e prevejo tragédia no futuro. Livre-se dela o quanto antes.

    Foi o que fez a mãe de Gabriel: entregou-o às freiras, com a concordância do marido. O tempo passou e Gabriel ficou no orfanato até os onze anos. Um dia falou para as freiras com aquele sorriso irresistível:

    — Valeu, meninas, mas agora eu vou vazar. Tô indo, muito obrigado por tudo.

    E jogou a perna no mundo. Vagabundeou até os dezesseis, morou na rua, viveu de pequenos furtos, fumou umas quantas pedras e se deixou levar pela vida. Num dos assaltos em que se meteu, o homem gordo não quis lhe dar a carteira e o celular e Gabriel não hesitou em despachar o tipo com dois tiros na altura do coração. Escondeu-se por um tempo até completar dezoito anos.

    Já maior de idade, com o corpo ganhando contornos de homem feito, percebeu que agradava ao sexo oposto e conseguiu emprego como stripper num clube noturno. Todas as noites se vestia de marinheiro e se despia no palco para o aplauso e o grito das mulheres em êxtase. Foi quando conheceu uma mulher madura, viúva e muito rica, que lhe prometeu dinheiro e proteção em troca de carinho. Gabriel logo foi morar com a amante e em poucos dias virou o homem de confiança da dona da casa. Passou a desfrutar das delícias da vida abastada: dinheiro, carros, passeios, viagens, restaurantes, festas.

    Quando menos esperava, Gabriel recebeu a visita de dois policiais, que tinham provas de que ele assassinara o homem gordo, anos antes. Suas impressões digitais na roupa do morto o denunciaram. E, como o destino não gosta de deboche, o delegado cismou de fazer um exame de DNA em Gabriel e no gordo e o resultado foi uma tragédia, talvez única no mundo: comprovou-se que, na realidade, o homem assassinado era o verdadeiro pai de Gabriel. A prisão, então, era o seu inexorável destino e, sem alternativa, Gabriel pediu ajuda à velha amante protetora. Em vão. A mulher não era outra senão a viúva do homem gordo e, portanto, sua mãe biológica.

    — Meu Deus, que história inacreditável! E Gabriel, o que foi feito dele?

    Pegou prisão perpétua. Ficou que nem louco. E cego. Mal entrou na cela, num acesso de fúria incontrolável, arrancou os próprios olhos para não ter que encarar a realidade: ele tinha matado o pai e ido para a cama com sua mãe.

    — Que tragédia! Não me recordo de ouvir uma história parecida com essa em toda a minha vida.

    Eu também não. Coisa de louco, não?

    — Nem me fale. É de pôr os cabelos em pé.

  • A teoria da verruga

    Conheci a teoria da verruga num sábado nublado, na casa da benzedeira mais famosa da região, para onde fui arrastado por minha avó. Eu esperava sentado numa cadeira de palha ao lado da porta enquanto conversavam lá dentro. O marido dela podava as roseiras no jardim. Aquele homem tinha barbas longas e brancas se ligando aos cabelos também longos e brancos, o andar lhe parecia difícil, encurvado, arrastava o pé esquerdo e, sempre que preciso, se dobrava quase completamente sem mexer a perna, num balanço breve e repentino. Das suas orelhas saíam tufos de pelos pretos, que contrastavam com a cor gélida do entorno e aumentavam a minha vigília assustada.

    Eu já o conhecia. Na escola eram contadas inúmeras histórias sobre ele. Uns diziam que devorava crianças, outros que tinha pacto com o demônio, havia ainda quem jurava tê-lo visto vagando no cemitério em noite de lua cheia. A lenda mais conhecida, entretanto, confirmava que, na verdade, ele era o próprio Lobisomem. Nunca faltaram relatos alegadamente verídicos sobre suas metamorfoses. Ainda lembro de uma história que o Júnior contou e assustou a turma. Andava ele com o seu pai durante a noite quando avistaram um vulto parecido com o velho, caminhando arqueado a poucos metros de distância. Segundo o Júnior, o velho estava se transformando e os percebeu ali, então, num pulo entrou no mato fechado. Assim que chegaram lá, encontraram apenas pegadas de lobo se terminando de repente. E nada mais.

    Eu lembrava dessas histórias encolhido na cadeira com o coração a mil, contando os segundos para a minha avó aparecer. Pensei até que ela pudesse querer me trocar por algum serviço mais robusto da benzedeira. O velho começou a falar comigo ainda de costas. Tinha um tom calmo e soltava palavra por palavra com tal harmonia que me surpreendeu mais do que as próprias histórias sobre ele. Disse que a natureza tinha o seu tempo e nós deveríamos respeitá-lo. Disse que a poda das roseiras era importante para crescerem mais belas e saudáveis. Disse que a vida é também assim, pois precisamos, às vezes, enfrentar dificuldades para nos tornarmos mais fortes. Disse que era como passar Merthiolate na ferida, que mesmo ardendo um pouco, logo nos deixava prontos para outra. Só então se virou para mim, trazendo consigo algumas rosas negras. Me alcançou uma delas e sentou com dificuldade no degrau ao meu lado, enquanto eu sentia por osmose a ardência repulsiva do Merthiolate nos joelhos.

    O tom sereno da sua voz me ceifou o medo, ou talvez fosse a conversa sobre como podemos aprender observando a natureza. Não sei se foi por influência do velho que acabei me tornando biólogo, mas encontro seguidamente pesquisas científicas comprovando muitas das suas afirmações. Contou-me, naquela manhã, a teoria da verruga. Antes, no entanto, alertou-me que poucas pessoas conheciam a teoria e só uma fração delas é que a compartilhava com os mais novos. Eu mesclava o olhar entre o velho e as rosas. Os joelhos já não ardiam mais. Na verdade, poderia ouvi-lo o resto do dia sem que notasse passar um único minuto.

    Depois de um tempo a minha avó apareceu, trocou duas ou três palavras com o velho e fomos embora. Ele me entregou também as outras rosas antes de levantar e seguiu naquele andar lento e curvo para os fundos da casa. As rosas deram o que falar, decoraram a cômoda da sala intactas por semanas. São lembradas até hoje quando reunimos a família e relembramos as aventuras da infância. A Maria José acha que elas tinham algum feitiço mal explicado. Eu nunca levei essa história a sério. E até hoje não sei porque fomos à casa da benzedeira naquele sábado.

    Encontrei o velho ainda duas vezes. Num fim de tarde nos cumprimentamos aos risos como amigos, causando surpresa à minha mãe, que me apertou a mão. Ao que parece, também ela estava contaminada pelas falácias sobre o marido da benzedeira. Nosso último encontro foi estranho. Ele caminhava com uma bengala arqueada na rua. Mirava preocupado cada palmo do chão. Tentei conversar, mas fui alvo de grunhidos aborrecidos. E seguiu naquele passo, sem erguer os olhos, pegando a estradinha que levava à sua casa.

    Há trinta anos o velho me contou a teoria da verruga e, desde então, encontrei apenas outras duas pessoas que também a conheciam. O primeiro foi um simpático senhor com quem dividi quarto no hospital. Tivemos longas conversas sobre a vida durante os três dias em que fiquei internado e, de certa forma, senti saudades do velho e um doloroso remorso por não ter aproveitado mais os meus avós. Tive alta e jamais tornei a vê-lo. O segundo foi um bêbado na rodoviária. Chegou quieto e sentou no chão,
    achei que pediria dinheiro para outra dose, mas puxou conversa num tom filosófico e, sem mais nem menos, chegou na teoria da verruga. Atendi rapidamente o celular e quando desliguei ele não estava mais lá. O ônibus apontou, subi no primeiro degrau e ainda conferi o entorno uma última vez, sabendo que não o veria de novo.

    O curioso é que nas duas ocasiões, quando tive alta do hospital e quando assisti o bêbado filosofar na rodoviária, sonhei com o velho me entregando as rosas. Não posso garantir que exista alguma ligação entre a teoria da verruga, as rosas negras e o velho. Também não posso garantir que haja alguma veracidade na teoria. O fato é que, às vezes, as coincidências da vida aparecem assim, nessas idas e vindas, como se o tempo não passasse, como se pudéssemos voltar a um sábado cinzento de trinta anos atrás e lembrar de tudo, como se fosse ontem, como se qualquer suspiro se desse por um desdobramento daquele instante, daquela conversa despretensiosa entre uma criança e um velho, erigida com medos e narrativas, rosas e teorias.

  • Ataques de pitbulls

    Incidentes envolvendo pitbulls têm provocado comoção nacional e acirrado debates nas redes, nos porcões pets e até no Congresso. As vítimas — algumas fatais — incluem desde crianças de colo a idosos e, em alguns casos, os próprios donos. O episódio mais recente aconteceu na Cidade Ocidental, em Goiás. Stefane Xavier da Silva, 31 anos, foi atacada e morta pelo próprio cão dentro de casa. Segundo a Polícia Civil, ela estava acompanhada da esposa e do filho de apenas quatro meses.

    Outro caso emblemático, que simbolizou o auge da preocupação, foi o da escritora Roseana Murray, de 73 anos. Ela caminhava em Saquarema (RJ) quando foi brutalmente atacada por três pitbulls. Perdeu o braço direito e teve ferimentos graves, mas sobreviveu graças a um atendimento intensivo.

    Uma escalada de ataques

    Em São Lourenço da Mata (PE), um bebê de três meses morreu após um pitbull invadir a casa da cuidadora e atacá-lo no colo da babá. Em Ribeirão Pires (SP), um pedreiro de 52 anos foi morto pelo cão da casa onde trabalhava. Dias antes, em São Paulo, duas crianças de 11 e 12 anos ficaram feridas ao serem surpreendidas por pitbulls em um parquinho público.

    Os dados preocupam

    Segundo o Ministério da Saúde, 53 pessoas morreram em 2023 vítimas de ataques de cães — um aumento de 33% em relação a 2022. Entre 2021 e 2023, foram 126 mortes registradas. No mesmo ano, 1.430 pessoas precisaram de atendimento médico após ataques. É o maior número em décadas.

    Embora qualquer cão possa morder, a raça pitbull aparece com frequência nos casos mais graves. Em 2024, 13 ataques envolvendo pitbulls resultaram em seis mortes, segundo levantamento da CNN. Só no estado de São Paulo, a maioria das fatalidades em 2023 envolveu raças consideradas de grande porte e força.

    Entre leis, focinheiras e polêmicas

    Diante do cenário, alguns estados impuseram regras mais rígidas. No Rio de Janeiro, pitbulls, filas, dobermans e rottweilers são classificados como “animais ferozes”. Eles só podem circular em locais públicos com focinheira, guia curta e sob condução de um adulto. O descumprimento pode resultar em multa, apreensão do animal e até perda da guarda.

    São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso e Minas Gerais seguem caminhos semelhantes, exigindo uso de equipamentos de segurança e penalizando condutas negligentes.

    No plano federal, o Projeto de Lei 1265/2024, apelidado de “Lei Murray”, propõe proibir a criação, comercialização e importação de pitbulls no Brasil. Também sugere a castração obrigatória dos exemplares já existentes.

    Para o autor do projeto, deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), é preciso impedir a “proliferação de sub-raças com genes de violência”. A afirmação, polêmica, encontra apoio em parte da opinião pública, especialmente após tragédias com crianças.

    O verdadeiro foco: responsabilidade

    Não se trata de julgar uma raça. O pitbull — já injustamente estigmatizado — não é, por natureza, o vilão. O alerta vai além: é sobre a responsabilidade de quem convive com cães de grande porte e potência. A adoção desses cães não pode se basear apenas em boa intenção ou no impulso de “resgatar”. É preciso preparo. Regras claras. Compromisso diário com a educação do animal.

    Talvez seja a hora de pensar em algo semelhante a uma habilitação, um processo que avalie se o humano tem estrutura emocional, rotina estável e entendimento suficiente para lidar com cães dessa natureza.

    Cães não nascem perigosos

    O comportamento agressivo não vem da raça, mas do ambiente e da forma como o cão é conduzido. Cães que crescem em meio ao desequilíbrio aprendem a se defender com os recursos que têm — e, às vezes, atacam. Por isso, mais do que leis, precisamos de consciência. Mais do que amar, precisamos observar, compreender e educar com responsabilidade.

    Há ainda os que adotam cães potentes como quem escolhe um carro de luxo: para chamar atenção. Confundem força com status, e afeto com aplauso. É a vaidade disfarçada de carinho — o cão vira vitrine, não companhia. Mas um animal não é troféu nem extensão do ego. Quem se exibe com um cão forte, mas ignora suas necessidades básicas, brinca de roleta russa com a segurança alheia. Amar um cão não é colocá-lo numa selfie; é sustentá-lo na correria do dia a dia, no silêncio dos treinos, na coerência dos limites É pedir ajuda, se for necessário. Vaidade, nesse caso, é imprudência com coleira de grife.

    E, como dizemos no Treinamento Invisível: “Treinar um cão é fácil, mas antes de tudo, é preciso transformar a si mesmo.”

  • O azul e a lágrima

    A manhã estava calma. Calma como um gato se espreguiçando.

    Tinha combinado de almoçar com um amigo, ali pros lados do Mercado Central. Um passeio tipicamente mineiro: caminhar pelo centro sem pressa, sem carros, sem aquela multidão apressada. Nem buzinas, nem o relógio invisível cobrando compromissos. Conversávamos sobre música, livros e algumas bobagens que fazem bem. Uma moça gritou:

    — Gente, olha ali! O que é aquilo, meu Deus?

    Na esquina da Augusto de Lima com a São Paulo, dois moleques batiam num velho. Tentavam arrancar algo dele. O homem reagia como podia. Dava uns sopapos, levava outros.

    A cena corria diante dos olhos da cidade. O povo assistia. Comentava. Protestava — só com a boca. Braços e pernas, não. Esses estavam mudos. Uma moça gritou:

    — Eu filmei tudo! A polícia vai pegar! Tá tudo aqui!

    Até que um homem, forte e corajoso, entrou no meio. Encarou os pivetes. Eles correram. Sumiram como ratos quando a luz acende.

    A tristeza embaçou minhas vistas. A manhã perdeu o brilho. O sol, as árvores, os pássaros — tudo parecia cenário falso.

    Que cidade é essa que assiste calada um velho apanhar? A paisagem virou ruína.

    O homem forte correu atrás dos garotos. Não sei no que deu.

    Fui almoçar com meu amigo. Porque, mesmo triste, a gente almoça. Conversa. Toca a vida.

    Ficou só uma prece, em forma de crônica:

    Alguém, por favor, olhe para esta cidade.

  • Poema #19 – CAMADAS DE ÁGUA

    .

    “o peixe sabe de tudo e nada”
    autoria desconhecida, século XIII

    tenho dois meses
    para morrer
    o ódio
    me circunscreve
    como camadas
    de água que vem
    inundando tudo,
    desde as primeiras células
    aos últimos fios de cabelo
    e são águas salobras, escuras
    de quando faço a descida
    da ponte para beber
    desta água, o líquido, mas ai,
    tem gosto de peixes putrefatos
    peixes analógicos e peixes digitais.

    “São voltas da vida, voltas da vida”,
    como dizia o enfermo Valdemar
    em seu leito de morte e honradez.

    lembro de ser abominado pelo meu próprio sangue,
    por ser alcoolizado e desistente (“mas eu não sei
    por que me sinto assim, vem de repente
    um anjo triste perto de mim”). Ah, que merda!
    e algumas e diversas era esse o meu mote
    para a distração em histórias em quadrinhos
    e as primeiras letras e composições em cadernos.

    sessenta anos, soa o sino em meu tímpano.

    meu prazo e o peso desta incongruência
    dobra-me o pé direito na sandália surrada
    “Casa da Eternidade”, que em hebraico se escreve,
    bet kevarot, mas já não sou digno de cheirar o ar,
    a água límpida, o pensamento puro, inoxidável.

    deverei ficar circunscrito a este cemitério de angu,
    atolado até os joelhos junto com as fezes dos porcos
    que se procuravam alimentar para o sacrifício final,
    num circo fúnebre onde seriam então recheados
    com “pêlo de gato, pêlo de um aleijado, chocalho
    de cascavel, pés de rã, orelhas de sapo, dentes
    de cão e garras de coelho”, para o cardápio da
    criança ingênua pensando que ao sair da escola, ah,

    e ele pensava, defeituoso e ingênuo das Gerais
    “chegando em casa vou pegar uma jantinha”.
    o controle 44 era uma tecla onde soava uma música
    em todos os dias (July 28th) e era singela como as
    lembranças que não puderam ser nesta (sic) encarnação:
    “lembrei de nós, do que ficou, se ficou não vai ter final”.

    mas antes há de vir o controle 72, do aniquilamento,
    da vida quando se torna um fardo pestilento, e eu bato
    a cabeça no travesseiro como uma lagartixa inútil, de olhos
    arregalados e o estômago e o cérebro entupido de remédios
    num quadro consolidado e sem volta, assim como do meu pai.

    “São voltas da vida, voltas da vida”,
    como dizia o enfermo Valdemar
    em seu leito de morte e honradez.

    queria ter a grandeza e a percepção da vida num leito de hospital
    para morrer fazendo este balanço isento de que tudo. “são voltas da vida,
    voltas da vida”, e no dia seguinte o Sr. Valdemar já não acordava mais.
    que venha esta noite, em mim também, ó morte, como num plenilúnio
    será que, depois disso, a vida deixará de dar as suas voltas? acho que não.
    o que eu tenho hoje são resíduos, resquícios de ressaca e sequelas
    “sofrendo com as calças e tudo” como o parente eunuco já dizia,

    e o que quer que isso tenha significado para ele de pés em perpendicular.
    durante toda aquela noite de veneno e cobra eu implorava o advento da morte
    para, ao menos, dentro dos dois meses subsequentes, eu pudesse acordar,
    invariavelmente menor, com um resto de vida e uns versos de circunstância
    como esses de agora e me faço então um urso plausível, criando forças para criar
    em meio a esse caos de tantas dores e os músculos retesados repuxando no braço
    como fosse me virar do avesso, o que faz com que a minha cabeça não consiga
    pensar mais e eu lanço tudo no livro das horas, antes de fechar a brochura contábil.

    “A Solidão Clandestina” foi demais e única companhia, amigo, falecido antes de mim.
    “O Himalaia de um Vaso” era alto demais para eu escalar, falecido conterrâneo, e então
    eu caía de borco com a cara no meio do barro, palhaço, cheio de livros e dentes partidos.

    Se ao menos eu tivesse tido, o quanto antes, a droga de um buril e punhais amolados.

    Da Essencialidade da Água

  • Lambuza-te da tua fatia de tempo

    Uma casualidade remeteria um leitor comum a uma pizzaria. Embasbacar-se-ia, pois, com o sentido literalmente delicioso de uma plaquinha assim, despretensiosa assim, alocada aleatória ou propositalmente junto a três relógios de paredes com o mesmo design, mesmo compasso, horários diferentes. “Lambuza-te ou te devoro”, é a moral da história – e uma citação que pretendo patentear, de tão boa que ficou [fique à vontade para citar, mas já faz um pix! 🙂 ]

    A história, que não é estória, refere-se a todo mundo. Todos os seres, todos os movimentos precisos de ponteiros desalinhados. A vida escorre por entre os dedos. É preciso lambuzarmo-nos, sem o tal do medo de ser feliz.

    Felicidade. Sentimento inquieto e por vezes [desa]brochante, viajante de nós, quando queremos a ela nos agarrar num abraço bem dado e eterno; tal qual uma intrigante corriola, flor azul do alvorecer, argyreia nervosa, flor de campana ou glória da manhã, cinco nomenclaturas para a espécie “ipomoea”, que desabrocha no anonimato das beiras de estradas… um gargalo de uma bexiga que já foi preenchida com o ar de pulmões sadios, que já conheceu a plenitude de se sentir completa e, por um triz pffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
    ffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
    ffffffffffffffffffffffff!

    murchou.

    Acordar entre os cantos e as foligens, adufes e pandeiros transviados, vistas semisserradas que saboreiam a preguiça da manhã pós-carnavalesca em cinzas; dia útil, e não; corpo ressequido de um tépido entremeio, exaurido e extasiado a indagar as horas – preguiça em se esticar na busca inevitável do celular- e o tempo, que ressoa por entre a transparência opaca do sutil tecido das cortinas.

    Carnaval, carne ao aval social. Retumbam canções com tan-tan-tan-tans que deixam fluir a vida. A felicidade deveria ser encapsulada, posta como pingente em um cordão junto ao coração, por dentro da camisa. Ao alcance. Nem precisaria ser aberta, por estar coladinha, assim, na ideia de estar aqui.

    Apegos e desapegos; safra nova de uma safra primeira. Primeiro, aprendemos o funcionamento do mundo. A escola serve para isso, as matérias, as séries e as provas. Então, ao conhecer vem a liberdade; mudamos. Afronta seria não nos transformarmos. Conhecer as coisas empodera as coisas, e nós. Um suposto erro ortográfico pode ser a concepção criativa – e intencional – de uma definição que ainda não foi definida. Troca-se uma letra e um erro é instantaneamente evidenciado em vermelho por uma
    tecnologia de análises de ponta. Enganei você, máquina! Acho, assim, que a revolução tecnológica está em um outro percurso que o meu, enfim; não vislumbro pois a extinção da minha espécie, modifiquei meu próprio caminho com as ferramentas que tenho em mim, o saber. Desvairadamente, assim, lambuzo-me do que enxergo, das minhas lentes-bagagem. Me mimetizo à paisagem urbanizada. Teletransporto-me ao som de uma cuica à segurança analógica de mim mesma, tão evoluída em ser desvairada.

    O mundo é dos loucos, afinal.
    Das glórias matinais, anônimas, sem eira
    bem beira.
    Da felicidade (des)encapsulada.

  • Ato falho

    Pela frestas da veneziana, Niclas pode ver que já tinha amanhecido. Sentiu um certo alívio, pois assim poderia se livrar dos pensamentos que não o deixaram dormir em paz. Por outro lado, iniciar o dia significava enfrentar o problema que havia sido criado na véspera. Sentia o corpo cansado e a cabeça pesada.

    Sentou-se na cama, disposto a traçar seu plano de ação. Ao pegar os óculos na mesa de cabeceira, seus olhos se iluminaram ao ver a edição resumida do Iching, livro que costumava consultar antes das grandes decisões. Sim, a resposta virá dele! Pensou.

    Concentrado em sua pergunta, fechou os olhos e abriu na nágina sorteada. O hexagrama chinês SUI apareceu e, com ele, o conselho do oráculo: “Há uma mensagem latente de adaptação às exigências que o momento traz consigo. É inútil criar uma falsa resistência, que não levará a lugar nenhum. A melhor atitude é ser condescendente inicialmente e, em seguida, adotar uma postura flexível e inteligente.”

    Niclas se jogou de costas na cama, a cabeça em redemoinho. Adaptação? Atitude condescendente? Postura flexível? Mas o que é isso oráculo… está jogando a favor ou contra?

    Resignado, resolveu colocar no papel o que deveria falar, para ver se conseguiria seguir exatamente o conselho recebido. A todo momento repetia o mantra: “Inútil criar uma falsa resistência!” Sabia que o sucesso iria depender da entrada inicial, portanto tinha que medir bem as palavras.

    Primeiro rascunho: “Acho que está na hora de termos uma conversa franca sobre o que me falou ontem. Queria que entendesse minha posição.” Não, não, não… pensou. Assim já sinalizo que minha posição é contrária. Onde está a atitude condescendente?

    Partiu para a segunda tentativa: “Gostaria que pensasse melhor sobre o que me propôs ontem, acho que tenho uma alternativa melhor.” Releu e riscou imediatamente: Cadê a postura flexivel? Já estou partindo para o convencimento logo de início, nada inteligente… Esfregando os olhos, Niclas escreveu a terceira versão: “Estou te ligando porque nem consegui dormir depois da sua proposta de ontem. Não queria que pensasse que sou resistente, quero muito que me de o seu ponto de vista e estou disposto a negociar.” Analisou a frase, identificando os pontos que seguiam o conselho do oráculo: “Mostra não resistência, é condescendente, se propõe a ser flexível. É por aí!”. Tomou um copo d´agua, e pegou o celular.

    — Estou te ligando, porque nem consegui dormir depois da sua proposta de ontem. Não queria que pensasse que sou resistente, mas … quero que entenda o meu ponto de vista e não estou disposto a negociar – casar agora nem pensar!

  • INTERTEXTUALIDADES

    .

    Um escritor nunca escreve sozinho…
    Antes, escreve com todas as vozes
    Que sussurram a todo instante
    histórias e versos
    Acertos e desacertos
    Melodias e ilhas
    Desconcertos…

    Sou Cecília…
    Oswald, Mário, Carlos… Andrades!
    Sou também Bandeira!

    Camões, Pessoa, Castro e muito mais.

    Sou Clarice…
    Veríssimo, Graciliano, Rosa,
    Sou também o cais.

    Jorge e Murilo e  muito mais.

    Sou o que sou: olha só os tais!
    Pouco, muito…
    E até coisas banais.

    E desfaço o ser quando entender…
    e é o que basta,
    mas

    não sou sozinho, sou inteiro,
    sou vários, por vezes inabitável,
    propenso e líquido

    e, ao mesmo tempo,
    uma cidade inteira
    contrassenso

    Sou Mia, Leminski, Milton
    Caetano!
    E não há engano!

    Sou Machado
    E o texto, ironicamente,
    É mais afiado.

    Sou Carlitos, o vagabundo,
    Sou parte itinerante

    Das lembranças do mundo!
    Sou e não sou a cada hora.
    E o relógio não tarda.

    Agora
    Sou todos os textos e canções
    Sou todas as rimas e emoções

    Um escritor nunca escreve sozinho…
    Antes, escreve com todas as vozes
    Que sussurram a todo instante
    histórias e versos
    Acertos e desacertos
    Melodias e ilhas
    Desconcertos…

  • Para Su e todas nós

    Essa semana uma amiga viveu uma situação bastante traumática e corriqueira no universo das mulheres: foi intimidada verbalmente por um colega de trabalho e ameaçada de agressão física durante seu expediente. Notem: um homem de quase 2 metros de altura levantou a mão na direção de uma mulher de 1,60 metros enquanto lhe ofendia aos gritos.

    Não vou citar o motivo do desentendimento porque me parece óbvio que nenhuma situação justificaria esse tipo de violência e covardia. Mas, se você se perguntou “o que ela fez para ele partir para cima dela?”, sugiro que você faça uma análise profunda sobre o nível de entranhamento da misoginia em seu comportamento.

    Fato é que ninguém interveio na cena nem a protegeu.

    O chefe da seção considerou justo ouvir todas as partes, como quem busca razão para perdoar o absurdo. Para agravar o desamparo, aproveitou para repreendê-la por ter usado uma palavra de baixo calão na discussão com o sujeito. Dando provas que os homens sempre se apoiam, defendem e blindam uns aos outros, validou a máxima: a mulher é sempre culpada.

    As colegas de trabalho preferiram não se meter, vai que apanham também… E minha amiga ficou ali, sozinha, vulnerável a todo tipo de manobra permitida por uma sociedade machista, misógina e escrota.

    Por que será que nós, mulheres, não nos unimos, apoiamos, protegemos umas às outras? Não formamos grupos, clãs, clubes que nos fortaleçam e amparem. Estamos constantemente julgando quem engordou, quantas celulites cada uma de nós tem, quem é mais brega ou rejeitada.

    Penso que a ideia do amor romântico, produto que só nós, mulheres, compramos, faz parte de um megaprojeto separatista. Afinal, competimos entre nós para sermos as mais bonitas, desejadas. Nos vestimos para suplantar as outras, nos medimos e criticamos em relação àquelas que julgamos sensacionais. Dificilmente oferecemos um abraço genuíno, uma guarida provisória, sem críticas, julgamentos ou comparações.

    Estou convencida de que essa luta inglória para ser “a tal” do pedaço, a poderosa do trabalho, a gostosona do reino nos enche de espinhos sem que nasçam pétalas. 

    Por sorte, minha amiga me ligou naquele dia horrível e juntas rogamos milhares de pragas naquele infeliz. Depois, rimos das nossas armas. Elas não são capazes de derrubar o inimigo, mas protegem a vítima da solidão imposta pela violência sofrida sem amparo e rede de apoio.

    Te amo, amiga! Esse infeliz há de ter um prejuízo financeiro grande, ou pior, vai ver seu time do coração perder a final do campeonato. De virada.

    O que mais seria capaz de afetar um homem?

    Voltamos a sorrir porque juntas somos mais. Juntas sabemos/podemos nos defender. Juntas somos nós!

  • Vamos tomar um café?

    — Um café? Sim, obrigada!
    — Toma um café comigo? Claro, vamos!
    — Aceita um cafezinho? Sim, aceito!

    Vejam só: em todas essas frases há um convite que vai além da xícara. Há cumplicidade, um gesto de carinho, quase um abraço em forma de aroma.

    Da história do café, lembro de uma narrativa antiga — um pastor de cabras africano, com a ajudinha de um monge, teria descoberto os efeitos revigorantes daquele grão escuro.

    Verdade? Talvez. Isso não importa. O que importa é o que ele representa: esse pequeno ritual que cabe numa xícara e aquece a alma.

    Tomar um café com alguém é mais do que saciar um gosto — é um tempo concedido, uma pausa generosa, um olhar que escuta. É o gesto de quem diz: “estou aqui com você”.

    O perfume do café pela manhã invadindo a casa é quase um sinal de que o mundo segue. É continuidade, é calor, é o anúncio de que mais um dia começou — e, com sorte, com afeto.

    Ainda que o café seja solitário, mesmo assim  ele faz companhia. É o cheiro que abraça. O gosto que desperta. O silêncio compartilhado com a gente mesma.

    O café da tarde tem seus rituais. Com a vizinha, com o parceiro, ou mesmo que você esteja só e com a cadeira vazia à sua frente, o valor de uma xícara é incontestável. Ele tem esse poder de reabastecer não só a energia do corpo, mas a ternura do coração.

    Ninguém convida um desafeto para um café. Isso diz muito. Café é símbolo de reconciliação, de recomeço, de partilha. Já esteve em cenas emblemáticas de filmes, já foi desculpa para uma boa conversa, já foi até poesia.

    Hoje, com o preço subindo mais do que o aroma na cozinha, na cafeteria ou no escritório, convidar alguém para um café virou quase um luxo afetivo. Mas vale cada centavo. Porque o café, mesmo caro, é a essência da cordialidade, do apreço e da simpatia. Por isso sempre vai ter o seu valor.

    Então, não se furte a um convite:
    Vamos tomar um café?

  • República Evangélica do Brasil

    Eles estão espalhados pelos mais afastados recônditos do país, onde pode faltar creche, farmácia, delegacia e agência do Banco do Brasil, mas nunca faltará uma igreja evangélica. Dentro de poucos anos, serão a maior religião do Brasil que, para decepção dos servos de Francisco, deixará de ser o maior país católico para contar com um dos mais numerosos rebanhos evangélicos do planeta. Na liderança, os EUA, terra do capitalismo, do consumismo, do individualismo e do protestantismo, com seus 160 milhões de adeptos. Entretanto, ao contrário do que ocorre aqui, na terra de tio Sam os evangélicos estão em baixa, sobretudo entre os jovens. Para compensar, conquistaram popularidade na América Latina e na África, onde estão em franca expansão.

    Mas em nenhum lugar do mundo o crescimento é tão vertiginoso como no Brasil. Há meio século, havia um deles a cada 50 brasileiros. Atualmente, um em cada 3. A retórica simplória que utilizam ajustou-se à nossa natureza crédula (chamados que são de ‘crentes’). Nos locais que se ressentem da presença do Estado como nas favelas e nos morros cariocas, áreas controladas pela bandidagem e pelas milícias, estenderam sua influência, convivendo harmonicamente com o tráfico e a contravenção.

    Os neopentecostais ganham espaço dando respostas concretas a problemas cotidianos do povão e uma pregação mais próxima à sua sofrida realidade, cujas razões não lhes interessa compreender. Através da ‘ideologia da prosperidade’, oferecem a promessa de rápida ascensão social, ainda nessa encarnação, que ninguém aguenta esperar a redenção post mortem no paraíso celestial. Tudo mediante uma módica contribuição mensal de 10% dos proventos, através da qual os missionários intermediam a intervenção de Jesus, com quem mantêm uma estreita relação de compadrio.

    Inspirado no american way of life, estimulam a cultura do empreendedorismo em que cada um é (ou julga ser) senhor de si mesmo, sem que o patrão lhes extraia a mais valia. Esse modelo se adequa à precarização da força de trabalho em que o indivíduo se desdobra 18 hs ao dia por uns trocados, na ilusão de que, com a bênção do pai celestial, virá a se tornar um Neymar.

    Mas se os espoliados fiéis penam sem sair do lugar, o mesmo não se pode dizer dos bispos. A apropriação dos dízimos mais as generosas isenções tributárias a que têm direito, possibilitou aos aspirantes a pastor exercer uma modalidade lucrativa de negócio. Investindo pouco e sem necessitar de grande preparo, a não ser um desempenho verborrágico convincente, puderam encontrar uma oportunidade de rápido enriquecimento. A ponto de alguns deles amealharem gigantescas fortunas, ostentando vidas de luxo, com bênção divina. Comportamento bem distante do ideal franciscano de opção preferencial pelos pobres, inspirado nas palavras do Mestre: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:24), versículo que os crentes gostariam de expurgar do Novo Testamento.

    A vida singela e despojada do homem de Nazaré que repelia os mercadores fariseus e se aproximava dos pecadores e marginalizados presta-se melhor, segundo avaliam, à de um esquerdopata. O deus que evocam assemelha-se mais a um agente financeiro que retribui as colaborações pecuniárias, não com a felicidade eterna, mas com polpudos retornos monetários e a perspectiva de um mundo de abundância material regado a grana e luxúria.

    Os evangélicos não se mobilizam em praticar ações sociais em prol da coletividade. Se alguém padece em condições aviltantes, a culpa não é do sistema, mas unicamente do indivíduo que falhou em seu empenho pessoal.

    O crescimento evangélico foi possibilitado pela permissiva facilidade com que são tratados pela legislação. Num país onde montar uma barraquinha de doces exige um mar de obrigações, abrir um templo requer um mero registro em cartório. E para habilitar-se pastor não há necessidade de graduação em teologia ou qualquer outra exigência. Enquanto na calvinista Europa, sua formação exige uma série de pré-requisitos, aqui qualquer charlatão pode exercer de imediato o ofício.

    Curiosamente, o primeiro governo de Lula, hoje acusado de perseguição, criou facilidades para a prática da religião, isentando as igrejas de uma série de responsabilidades estatutárias. Nesse período ocorreu uma explosão na quantidade de igrejas. Segundo o IBGE, o número de estabelecimentos religiosos no país em 2022 superou os de ensino e saúde juntos!

    Se o PT foi condescendente com o crescimento vertiginoso dos evangélicos, foi Bolsonaro quem capitalizou com competência o apoio dessas igrejas angariando através de medidas populistas o apoio da classe, vindo a se tornar um ser ungido, enviado pelos deuses para salvar a nação do perigo ‘marxista’ e ‘ateu’. Conseguiu até difundir sua política armamentista e seu discurso raivoso recheado de palavras chulas num universo em que deveria prevalecer tolerância e amor ao próximo. E ainda colocou no STF um juiz ‘terrivelmente evangélico’ que acima dos preceitos jurídicos, julga pelo que reza a Bíblia.

    Mesmo sabendo que jamais terá apoio deles, Lula teme exercer maior fiscalização aos evangélicos e acabar com a farra de privilégios. Se os militares e os políticos medem palavras, os pastores soltam o verbo com a certeza de que não existe, sob o céu de Jeová, força capaz de refrear sua atuação.

    Conseguem assim emplacar o que lhes agrada. Ficam incomodados com a existência de homossexuais (direcionando-os à ‘cura gay’) e de banheiros unissex, mas não estão nem aí com os desvalidos famintos. Passam o pano para os estupradores Robinho e Daniel Alves (ambos evangélicos) mas amaldiçoam meninas que querem tirar de seu corpo o fruto de uma violência sexual.

    Contam com o suporte da poderosa Frente Parlamentar Evangélica. Não há no Congresso corporações de católicos, espíritas, muçulmanos, judeus, budistas, umbandistas ou ateus. Tampouco, existe ‘bancada verde’, ‘bancada indígena’ ou ‘‘bancada antirracista’.  Mas tem a ‘Bancada da Bíblia’ que, ao lado da ‘Bancada do Boi’ e a ‘Bancada da Bala’, formam a famigerada tríade BBB, unidas em prol do atraso.

    Dispõem também do controle de meios de radiodifusão, obtendo concessões públicas que deveriam promover assuntos de interesse de toda a coletividade. Recentemente, perceberam maior eficácia nas redes sociais onde conseguem com baixos custos obter comportamento bovino da massa de fiéis. Os pastores dispõem de milhões de seguidores repassando-lhes fake news.

    Os evangélicos enfiam goela abaixo seus princípios morais a todos os brasileiros e brasileiras inclusive aos que professam outros credos. Ao contrário das outras religiões, boicotaram medidas de combate à COVID porque obstavam as aglomerações (e consequentemente a receita financeira).

    Na Amazônia, mantêm boas relações com desmatadores e garimpeiros ilegais, quase todos evangélicos (a quem enxergam como ‘empreendedores’). Querem ‘catequizar’ na marra índios e quilombolas, levando-lhes ‘a palavra de Deus’. É conhecida a virulência com que atacam o candomblé e as religiões de matriz africana que associam ao diabo.

    Alinham-se a governos de direita que desprezam os princípios da democracia e os direitos humanos a que associam ao comunismo. 

    Se com 30% já conseguem manipular o país, imagine o que farão quando se tornarem maioria! Sua intenção é claramente implantar uma teocracia, a República Evangélica do Brasil. Converta-se voluntariamente antes que seja obrigado a fazê-lo.

  • A esquecida

    Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã:

              – E se ela deixar de tomar os remédios para pressão?

              – Precisamos ficar atentas. Pode ter um acidente vascular cerebral… – respondeu Soraia, que já pensava na possibilidade de contratarem uma cuidadora.  

              Aos lapsos de memória, acrescentavam-se a tristeza e a apatia. D. Zulmira passava horas numa poltrona da sala, o olhar perdido. Recusava até que ligassem a televisão. Não lhe empolgavam mais as novelas nem os programas gastronômicos, dos quais chegara a copiar receitas para agradar o marido. Valfredo era um gourmet, e a mulher vez por outra lhe preparava comidas diferentes.   

                Para ver se distraía a mãe, Soraia propôs que se mostrasse a ela fotos da família. Sobretudo aquelas em que aparecia com Valfredo, para lembrar-lhe o tempo que passara ao lado do marido. Eram muito bem casados, e certamente as imagens da vida em comum concorreriam para reavivar-lhe a memória e deixá-la mais animada.      

               Assim foi feito. Letícia tirou da gaveta do velho guarda-roupa a caixa em que dormiam, já um pouco amareladas, fotografias da família. Havia muitas dos dois juntos, algumas tiradas quando as filhas ainda nem tinham nascido. O casal aparecia em festas juninas, risonhos, ou enlaçados em bailes de Carnaval. A garota fez uma seleção das que melhor traduziam o convívio amoroso dos dois.

             Numa tarde em que D. Zulmira seguia a rotina de nada fazer e ficar olhando para o tempo, Letícia sentou-se junto dela e começou a mostrar as fotos. Tinha feito uma seleção cronológica, apresentando primeiro as do tempo em que namoravam. Depois vinham as do período em que eram noivos, e por fim as de casados.   

            D. Zulmira olhou de início sem curiosidade, as imagens pareciam não impressioná-la. Mas a partir de certo momento seus olhos começaram a brilhar, e o rosto adquiriu uma expressão intrigada. Olhou para a filha como se não entendesse o que via. Letícia também não compreendeu essa reação, e muito menos quando a mãe lhe fez a pergunta:

            – Quem é essa que está com seu pai?

            – Quê?! Quem poderia ser, mãe? É a senhora!

            – Não sou eu! Tire esses retratos daqui!

            A garota não sabia o que fazer. Chamou Soraia e lhe explicou o que estava acontecendo. A outra ficou surpresa. Não era ela?! Pediu à irmã que recolhesse as fotos e as levasse para a gaveta do guarda-roupa. Antes que Letícia fizesse isso, a mãe pediu para vê-las de novo. Como se quisesse se certificar.  

             – Não sou eu! Seu pai está com outra. Agora fiquei sabendo que ele tinha uma amante…    

            As duas se olhavam, perplexas. D. Zulmira até então esquecia objetos ou nomes de pessoas. Agora parecia não se lembrar do próprio rosto. No dia seguinte, enquanto tomavam café, viram a mãe se dirigir à sala com uma tesoura. Assustaram-se e ficaram imaginando qual seria o seu propósito.    

            Depois de se sentar na poltrona onde costumava passar o dia, D. Zulmira falou:

             – Vão buscar aqueles retratos.

             – Para que a senhora quer? – assustou-se Letícia.  

             – Você vai ver. Quero os retratos aqui.  

             A moça obedeceu e pouco depois voltou com a caixa. Antes de entregá-la, pediu: 

              – Não vá, por favor, fazer nenhuma besteira.   

               D. Zulmira abriu-a e começou retirar as fotos. Olhava-as uma por uma e confirmava:    

               – Não sou eu. Não tenho esse cabelo, nunca usei essas roupas nem esses brincos.  

               Pegou então a tesoura e começou a cortá-las para delas extrair “a outra” que ocupava o seu lugar. As filhas tentaram detê-la, mas logo viram que seria impossível. A mãe tinha uma expressão raivosa e pareia capaz de agredir quem procurasse impedi-la.  

              D. Zulmira colocava as partes cortadas numa mesinha contígua à sua poltrona. Com o tempo, era grande o número de recortes que a mostravam em situações diversas, vestindo diferentes roupas e com variadas expressões fisionômicas – ora risonha, ora atenta, ora plácida, olhando para alguém que não se conseguia ver. Nas caixas restaram as fotos mutiladas, em que também não se sabia quem Valfredo fitava ou tinha nos braços.  

             Terminada a obra, ela fechou o recipiente e deu um suspiro, como se tivesse passado por algo muito incômodo e enfim sossegasse.

             Letícia apontou para os recortes em cima da mesa e perguntou:   

             – O que a gente faz com eles?  

             – Pode esconder ou dar fim. Para mim tanto faz.

  • Do anonimato e outras não-percepções modernas

    Em meio a muitos, me diluo. Entre tantos, sou menos que um. Passo despercebido aos olhares. Percebo que alguns olhos passam por mim. Eu noto esses olhares discretos. Olhos que não me registram em sua retina. Não focam em mim porque não me percebem. Minha imagem sumirá da lembrança deles antes que percebam. Lembrança efêmera, tão consistente quanto a névoa diáfana que sobe do cubo de gelo.

    Nenhum registro, nem o da minha voz. O que eu disse não foi escutado. Se fui ouvido, minhas palavras não ficaram na memória. E se algo permaneceu gravado, será atribuído a outra pessoa aparentemente mais presente.

    Os atos que fiz não deixaram rastros. Nenhuma pegada. Nada será atribuído a mim mesmo tendo feito algo. Minhas realizações não ecoarão na eternidade. Ou serão creditadas a outros. Sou capaz de ir antes, vasculhar e retornar acompanhado sem que percebam que lá estive. Completamente despercebido exploro sem ser notado. Vejo, sem ser visto. Nada de especial, perfeitamente mimetizado na paisagem.

    Mas estou ali. Estive ali. Ocupei espaço, me movimentei. Mesmo ignorado.

    Anônimo, eu sou.

  • Rebentada

    Caminha ereta, embora isso custe e doa. Os dois meninos, de cabeças enormes e pernas finas, acompanham como podem o ritmo da mãe. Parecem frangos doentes, ciscando inutilmente num terreno seco. Andam os três sobre uma terra rachada e poeirenta. O horizonte continua distante, tão distante quanto no dia em que iniciaram a jornada a pé. O sol permanece no alto, maltratando os olhos, a pele e a esperança.

    O menor dos meninos, vencido pelo cansaço, senta-se numa pedra e curva a espinha para a frente, até que seu peito quase toque o chão. Visto de longe, parece uma fruta que apodrece aos poucos, mas de perto é só um menino cansado, sujo e com fome. A mãe o ajuda a se levantar e o carrega nos braços, como se levasse um punhadinho de folhas secas caídas de uma árvore, embora naquelas bandas não haja árvore, só deserto.

    Levam já quatro dias andando e ainda faltam mais quatro para chegarem ao campo de refugiados. O outro menino, mais velho e mais esperto, sabe que não vai aguentar. Resolve interromper a caminhada e põe-se de cócoras, as mãos sobre a cabeça. Neste caso não há diferença se visto de perto ou de longe: é um menino que desistiu.

    A mãe põe o pequeno no chão e pensa. Avalia que será impossível avançar com os dois no colo, não terá forças. Levanta os olhos para o céu e chora sem lágrimas, rebentada por dentro. Sabe que vai morrer sob o punhal afiado da escolha, mas não hesita. Olha para um, depois para o outro e recomeça a caminhar, puxando só um deles pela mão.

  • Tentar construir uma verdade!

    Um homem rico chamado Calvicius Sabinus, tinha um cérebro com uma memória minúscula, que o deixava com saia justa por diversas ocasiões sociais. 

    Por isso resolveu gastar uma fortuna contratando escravos culturais, para preencher seu vazio intelectual, mesmo sabendo que nunca conseguiria absorver nada estudado pelos contratados. 

    Suas vagas lembranças eram tão ruins que em alguns momentos os nomes de seus amigos, Ulisses, Aquiles e Príamo, sumiam rapidamente sem deixar vestígios. 

    Os escravos seriam sua memória pra cada tema que lhe fosse interessante conhecer, e conversar com os intelectuais de sua época. Nada o impediu de querer parecer um homem culto, por isso não mediu gastos na contratação dos escravos.

     Um deles seria para conhecer a fundo Homero, outro para poder conversar com Hesíodo, e assim atribuiu a cada escravo, a tarefa de conhecer muito bem cada um dos nove poetas líricos. 

    O custo da empreitada foi tão alto que daria pra comprar uma biblioteca com diversas estantes, possíveis de preencher qualquer criatura com conhecimentos atraentes.

    Seria muito interessante se pudéssemos deixar outras pessoas carregarem nossas partes mais íntimas, que nos tornam nobres, mas estaríamos desvalorizando quem sempre consagramos com talentos especiais, aqueles que carregam somente consigo, habilidades extras de valor social, e não em malas a tiracolo para preencher suas falhas.

    Transgredir nossa natureza é tão melancólico quanto querer viver eternamente. Assim como a velhice é a principal fase da sabedoria, nossas limitações a cada tempo, nos servem de marca registrada, e não de acúmulo de perdas, porque formam o conjunto de resultados da construção pregressa. 

    Reinventar-se ou reconstruir-se, não são sinônimos de atos que devemos incluir escravos intelectuais para suprir nosso ego. 

    Entre 1626 e 1628, um potente navio de guerra foi construído pelo governo Sueco. Como o Sr. Calvicius, o Rei Sueco gastou uma fortuna para fazer navegar o navio Vasa. Foi uma obra inovadora, porém, com a parte superior muito pesada, pois continha setenta e dois canhões com 24 libras cada um, além disso o navio não tinha lastro suficiente, e sua falta de estabilidade o levou a naufragar poucos minutos após zarpar do porto. 

    O naufrágio seja pela vida inventada ou desestruturada em seu projeto inicial, é inevitável.

    Assim como a engenharia, a natureza humana tem suas particularidades e formas adequadas de funcionar.

    Basta que façamos um pouco de mea-culpa, e exercitemos a empatia, caso contrário, nos tornamos vítimas de nosso capricho, ao tentar construir uma verdade fatal a realidade.

  • O filme Vitória revela o Rio, tratando a questão do etarismo em interpretação corajosa de Fernanda Montenegro

    Saí do cinema pisando leve. Há uns dias, minha esposa vem dizendo que quer ver Vitória. Confesso que não estava muito empolgado. Sei lá. Talvez por uma frustração pirracenta de não ter podido ver uma penca de filmes nos quais eu estava super interessado, mas que só passam em algumas poucas salas de cinema das capitais, morando eu no interior.

    Pois bem. Nesta tarde, resolvemos o assunto e fomos assistir ao novo (e, dizem alguns, último) filme da primeira dama da dramaturgia brasileira. Entramos no cinema com o filme iniciado há uns dois minutos, no máximo. Não sei explicar o motivo, mas foi sentar e já chorar na primeira cena, com Dona Fernanda andando no calçadão de Copacabana, na pele da aposentada Nina, uma idosa que mora sozinha e faz bicos de massagista. Cenas comuns, sem grande carga emotiva – apesar de dramáticas -, iam se sucedendo, e as lágrimas não paravam de cair. Eu já estava preocupado com o que as pessoas iam pensar ao notarem que eu chorava. Um rapaz, inclusive, ria de cenas não cômicas, algo que já me causava aborrecimento. Pensei eu “Do que esse cara tá rindo? São cenas sérias, com a interpretação séria de uma das grandes atrizes do planeta no que se imagina ser o final de sua carreira”. Cheguei a ficar indignado, com vontade de perguntar ao cara “Qual é a graça?”. Na segunda metade do filme, minhas lágrimas cessaram. Tá certo. Não é um filme pra fazer espectador chorar. Não o espectador médio, normal. Não quero, com isso, dizer que como público de cinema, sou um espectador especial. Longe disso. Na verdade, nem me considero mais um cinéfilo. Meu choro, em boa parte da exibição, fugiu, aliás, da minha compreensão. Talvez eu estivesse muito mais emocionado com Fernanda Montenegro em cena, do que com qualquer outro aspecto.

    Vitória é um filme, a meu ver, irrepreensível. Fernanda está boa de verdade. A atriz praticamente se supera, como se isso fosse possível ou necessário. A personagem por ela interpretada é uma mulher de coragem ímpar. Uma mulher lutando para resolver um problema. Na trama (aqui, um pequeno spoiler), Nina tenta – e consegue – desbancar um esquema de venda de drogas envolvendo traficantes e policiais. Claro, sabemos que o crime no Rio de Janeiro é um negócio que gera milhões, sobretudo para alguns influentes “cidadãos de bem”, e, por isso, não são imagináveis soluções fáceis. No entanto, possíveis soluções não surgirão se os habitantes da metrópole maravilha mutante não fizerem, com alguma dose de coragem, sua parte.

    O que vi foi um filme enxuto, redondinho. Em alguns momentos quase minimalista. Tudo funcionou muito bem, fazendo de Vitória uma parte importante desse momento especial vivido pelo cinema brasileiro. Na figura da idosa Nina e de Fernanda Montenegro, que a interpreta, somos presenteados com um verdadeiro libelo contra o etarismo. Obrigado, Andrucha Waddington e toda a equipe desta produção tão especial, tão séria e tão delicada! Obrigado, cinema brasileiro!

  • Poema #18 – NA PENUMBRA

    .

    Na penumbra
    me faço grande
    como minha sombra na parede.

    Porém a parede
    não é intacta
    como a cerâmica do banheiro.

    Suas imperfeições
    remetem-me para além dela mesma
    e me vejo em cada detalhe
    mal sucedido de sua arquitetura.

    Na penumbra
    me faço gente
    como as presenças que me povoam.

    Porém o sonho
    não corresponde
    à realidade imaginada.

    Os monólogos com a sombra
    remetem-me para além de mim
    e me sinto em cada possibilidade
    de acender a lâmpada
    e não perder o mágico domínio.

    O Acaso das Manhãs

  • Jabuti descalço

    Estão abertas as inscrições para o Prêmio Jabuti 2025, a estatueta mais cobiçada pelos escritores brasileiros. Não pude deixar de me lembrar que, ano passado, assisti à cerimônia de premiação pela televisão, curiosa para saber quem seriam os ganhadores, uma vez que, desde 2019, tenho acompanhado mais de perto as publicações literárias de autores brasileiros.

    Enquanto aguardava a divulgação dos premiados em cada categoria, me veio à cabeça uma curiosidade: por que o nome “jabuti” foi escolhido para nomear um prêmio literário? Numa rápida pesquisa, descobri que a escolha do nome foi influenciada, sobretudo, pela valorização da cultura popular brasileira, das raízes indígenas e africanas e de suas figuras míticas. Entre o final do século XIX e o início do século XX, grandes figuras como Sílvio Romero, Mário de Andrade, Luís da Câmara Cascudo e Monteiro Lobato, entre outros, foram responsáveis por transmitir esse legado de uma geração a outra.

    Monteiro Lobato foi, provavelmente, o mais prolífico na recriação literária das histórias desses personagens meio enigmáticos, meio reveladores e sempre sedutores do folclore nacional. Um deles, como se sabe, é o jabuti.

    O pequeno quelônio, já familiar no imaginário das culturas indígenas tupi, ganhou vida e personalidade nas fabulações do autor das “Reinações de Narizinho”, como uma tartaruga vagarosa, mas obstinada e esperta, cheia de tenacidade para vencer obstáculos, para superar concorrentes mais fortes e chegar à frente ao final da jornada. Com essas credenciais, o jabuti ganhou também a simpatia e a preferência dos dirigentes da CBL (Câmara Brasileira do Livro), que o elegeram para inspirar e patrocinar um prêmio que
    homenageia e promove a literatura.

    Meu pensamento voou para a figura desse jabuti com sua carapaça lustrosa, por onde saem pequenas e desajeitadas patas. Tive um pouco de pena… elas parecem fazer um enorme esforço para sustentar o peso do casco.

    Tive um pouco de pena…elas parecem fazer um enorme esforço para sustentar o peso do casco. Não sei por que motivo me surgiu, como por uma lente invertida, a imagem de pés diminutos levantando, a cada passo, enormes tamancos de madeira.

    Enquanto me divertia com essa alegoria, fui observando a subida dos premiados ao palco. Os ganhadores nas diversas categorias literárias, e suas subcategorias de crônica, poesia e romance, foram galgando as escadas para receber o prêmio, os abraços, as palmas e a foto oficial.

    A câmera registrava, com um zoom preciso, os passos dados pelos felizes escolhidos rumo ao palco, de um ângulo em que era possível notar o que estavam calçando.

    Comecei a perceber uma regularidade nos pés femininos que me deixou perplexa — um após outro foram desfilando calçados robustos, escuros, com solados ora de couro, ora de borracha, a maioria fechados até o tornozelo, mas sempre em um mesmo padrão estético.

    Deles saiam pernas finas ou largas, não importa, sempre desproporcionais à calota que tocava o solo — a figura do jabuti imediatamente povoou minha lente, e a cada passo eu só conseguia ver aquele simpático cágado com pequenas variações de cor, seguindo rumo à fama.

    De imediato, tive a certeza de que esse é um “dress code” de quem pretende entrar para o seleto círculo de escritores com potencial ao prêmio. Olhei para os meus pés, fiz uma vistoria no meu armário, dei uma olhada no site das lojas de calçados que conheço.

    Nunca, jamais, um exemplar como esse habitou o meu guarda-roupa, e mesmo que quisesse ser aceita nessa confraria do calcante, nem saberia onde encontrá-los.

    Minha conclusão foi simples — nunca entrarei para o rol dos ganhadores da cobiçada estatueta, independentemente de ter ou não talento literário. Eu não preencho o requisito básico dos pés de Jabuti.

  • Poema #9 : Tudo é poesia

    .

    Tudo é poesia
    A agitação da rua
    O sinal
    E a correria!
    A voz do vendedor
    O som do dia.

    Tudo é poesia
    A propaganda
    O chafariz
    Até a melancolia
    O engarrafamento
    O papelão pra noite fria.

    Tudo é poesia
    Os menores na esquina,
    Uma bola ou um limão
    Acrobacia
    No alto dos edifícios
    A vida silencia!

    Tudo é poesia
    Nas placas, andaimes,
    Guindastes
    Não há monotonia.
    Há tremor, rumor
    A amarga dor,
    Sinestesia!

    E quando tentam tirar
    As coisas do seu devido lugar
    Autofagia!
    Não importa!
    Pois tudo na cidade
    É poesia!

  • A eterna mania de estar pronta para reagir

    Ontem foi dia de esperar a chuva torrencial prometida pela meteorologia. Não fui ao Pilates, imagina ter que voltar ensopada para casa às 8h da manhã. Lá pelas 11h, olhei o céu da minha varanda, dia claro. Só nuvens fofinhas a decorar a paisagem. Mas decidi não fazer a caminhada diária, vai que o tempo muda de repente e a danada da chuva me pega desprevenida. 

    À noite, teria o aniversário de uma amiga querida e depois um show. Por volta das 19h30, ouvi umas trovoadas, depois vinte minutos de chuva forte com pingos grossos e o receio de passar sufoco para chegar nos eventos ou sair de lá. Botei o pijama e aguardei com paciência o dilúvio. 

    Enquanto observava o asfalto secar, senti uma admiração profunda por todos que apostaram na sorte. Pelos amigos que foram encontrar a aniversariante e pelos desconhecidos que curtiram a noite dançando no show.

    A vida sempre ensina: palavras, promessas e previsões o vento leva. A realidade é feita da aposta no agora. 

    Será que amanhã vai chover? 

    Não importa!

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