Crônicas Cariocas

  • Do avesso

    Mila Cox achou que Zími estava enlouquecendo de verdade quando ele lhe contou sobre um de seus dilemas. 

    Estavam no banco de trás da Kombi do amigo e vizinho uruguaio Silvano.

     Era um domingo pela manhã, e voltavam de um show que fizeram com mais três bandas em Indaiatuba.

    Foi quando Zími contou que estava a escolher se seria melhor estar vivo e ver o fim do mundo (o que seria para ele glorioso, mesmo tendo a vida interrompida simultaneamente a essa visão), ou que por algum milagre, tivesse vida longa, e a humanidade durasse mais, e ele morresse bem velho, porém antes do final da história dos humanos na Terra. 

    Nesse caso, o mundo continuaria como um trem desembestado e sem trilhos, e também sem ele. 

    Mila Cox usava uma camiseta do Bob Log III, e respondeu que somente a primeira alternativa era possível.

    Ela disse que ele bebia demais a cada vez que visitavam alguma cidade do interior para fazer shows, e que possivelmente perderia o controle se um dia tivesse a chance de fazer alguma turnê maior, que era o objetivo dela. 

    Não era a quantidade de bebida forte consumida na viagem, nem o tijolo inteiro de maconha que ele havia fumado com Silvano desde a véspera. 

    Ela sabia que ele era capaz de pensar coisas estranhas mesmo estando totalmente sóbrio, como costumava estar na vida cotidiana que tinham no apartamento que dividiam em São Paulo. 

    Ela atribuía esse tipo de pensamento dele a uma falta total de esperança num futuro viável para a humanidade, e tentava extrair daí o conteúdo para as músicas que faziam juntos. 

    Ela falou:

    “Nós vivemos num cenário pós apocalíptico. O que sobrou é surreal demais, embora eu esteja vendo com meus próprios olhos.”

    Mila Cox não havia passado por nenhum trauma realmente relevante na vida.  

    Havia, sim, muita insatisfação com convenções sociais que não faziam qualquer sentido, a não ser para um diminuto grupo anônimo que suga e controla as massas. 

    Embora ela amasse a avó materna, com quem viveu até os dezenove anos, não entendia como ela pôde levar uma vida envolta de tanto machismo, sem que tivesse se rebelado de alguma maneira. 

    Parecia até mesmo que sua avó materna gostava e apoiava o sistema patriarcal em que nasceu e cresceu, depois se casou e enviuvou.  

    Não era um apoio declarado, mas havia indícios de adesão a um tipo de conservadorismo que já não tinha (e nunca deveria ter tido) razão de ser. 

    Já sua avó paterna era diferente em todos os aspectos.

     Nunca se casou no papel, bebia, fumava e estava sempre fora do país.  

    Era chamada por parte da família de velha louca. 

    Essa era a opinião dos tios de Mila Cox, que se encontravam apenas no Natal e muitas vezes já chegavam bêbados ao encontro. 

    No fim das contas, era uma avó ausente, mas generosa, cheia de cultura e bom gosto musical. 

    A mãe de Mila Cox, que também vivia com ela, estava numa posição ideológica intermediária entre as avós, o que para a jovem significava apoiar, pela inércia, o fantasma do machismo e da estrutura familiar patriarcal.  

    Parecia haver em sua mãe um conformismo diante de algo ao qual as mulheres deveriam se opor incondicionalmente. 

    A hora de sair de casa se deu no momento em que não havia mais atritos e nem consenso sobre o que pensar da vida. 

    Então ela foi morar com o amigo e parceiro musical Zími. 

    Embora tivesse um aspecto jovial, pelo seu visual e pelo pensamento libertário, era um cara de meia idade, e aproveitava o estímulo que Mila Cox lhe dava para ter também mais dinamismo em sua vida, já que ele sempre a via agindo de maneira decidida, orientada para objetivos. 

    Se não fosse por ela, ele seria apenas um copywriter que sairia de casa apenas para ir ao mercado e fazer suas atividades de livreiro, comprando, vendendo e trocando livros nos sebos do centro da cidade. 

    Assim, fatalmente cairia num ostracismo artístico. 

    Ele tinha sempre um estoque de livros para ler e depois vender pela internet, para pessoas de outras cidades, onde há poucas ou nenhuma livraria. 

    Com essa rotina, conseguia se manter longe das bebidas e das drogas. 

    Enchia a cara quando saía para tocar, fosse em São Paulo ou alguma cidade do interior. Nessas viagens para outras cidades, ele sempre bebia quantidades transatlânticas de goró, especialmente depois de conhecerem Silvano, que sempre comprava várias garrafas de aguardente de produtores locais, que ele pesquisava na internet antes de viajar. 

    Com Mila Cox (que bebia pouco e quase não usava outras drogas) ao redor, ele continuou com essas atividades cotidianas, mas com bem mais ânimo e dinamismo, pois junto dela havia para ele a aventura, completamente abandonada por muitos de seus amigos da mesma geração. 

    Ele já teve banda de rock antes, mas até que começasse a tocar com ela, passou anos sem cogitar uma volta à música, fazendo shows em troca de cerveja e do dinheiro da gasolina. 

    Mas ela fazia com que ele, mesmo num misto de saudosismo e desencanto com essa vida, retomasse o entusiasmo e, ainda que apenas por rebeldia, enxergasse que não havia motivos para não tocar. 

    Cantava apenas trinta por cento das músicas, pois tocava bateria simultaneamente, mas sua poderosa voz rouca, que contrastava com seus hilários falsetes, tornava essas canções as preferidas da banda, que tinha apenas os dois como integrantes. 

    Era ela no baixo, sintetizador e vocal, e ele na bateria e vocal. 

    A constatação dessa preferência do público pelas músicas cantadas por Zími foi feita por Mila Cox, que cuida das redes sociais do duo, chamado Crop Circles

    Zími agora podia lembrar sem rancor que seu pai dizia que caso ele não seguisse certas diretrizes de comportamento social, viraria um morador de rua. 

    Olhando em retrospecto, era claro para Zími que apesar dos altos e baixos de sua vida, até então tinha conseguido se virar e perder completamente qualquer medo de virar um mendigo destruído pelas drogas e álcool, pois antes de seu pai, a professora Maria Eugênia já havia praguejado algo similar em 1983, quando Zími estava na segunda série do primário. 

    A professora não havia gostado de uma redação que ele fez sobre fraternidade. 

    A escola era católica, e o trecho da redação que irritou a professora criticava gente que humilhava outras pessoas durante o dia e rezava à noite. 

    Nessa época, a situação em sua casa também não era boa. 

    Sua prima mais velha, que ele encontrava nos fins de semana, havia lhe mostrado vários discos de sua coleção e criticava duramente medalhões da MPB que romantizavam a pobreza e os pobres, mas viviam em mansões e dirigindo carrões. 

    Isso causou distúrbio na casa de Zími, pois seus pais achavam que ele não tinha idade para contestar o que quer que fosse, pelo menos enquanto vivesse com eles. 

    Quando perguntado sobre o porquê de não ter tido filhos, ele explicava que ao entrar no ensino médio, não sabia qual profissão queria seguir de fato, mas sabia que fosse ela qual fosse, não serviria para sustentar filhos, pois ele próprio se ressentia por seus pais o terem tido. 

    A economia feita com essa escolha o livraria do destino miserável que lhe previam, de virar um mendigo bêbado e drogado.  

    A paternidade é definitiva, irreversível e cara, algo que não combinava com sua perspectiva de ser razoavelmente livre, tanto nos momentos de agonia como nos momentos de glória. 

    Dizia que estabeleceu desde cedo que seria um adulto com diploma universitário e sem filhos. Anos depois, com o advento da internet, consolidou essa perspectiva. 

    Na mesma manhã em que voltavam do show em Indaiatuba, leram a matéria sobre os jogadores de futebol que tomaram um golpe milionário da empresa de criptomoedas que prometia muito, não entregou nada, e usava nas redes sociais o lema ‘Deus, pátria e família’. 

    Para Mila Cox e Zími, Deus se manifestava em suas próprias consciências, individualmente. 

    Era algo que estava sempre com eles, direcionando-os para um caminho de ética, decência e respeito. Não era alguém ou algo exterior, que pudesse ser encontrado numa igreja, por exemplo. 

    O dinheiro para eles não era um deus, e sim, algo criado pelos humanos.  

    Tornou-se algo sem o qual não se vive na sociedade. 

    Torna as pessoas muito mais escravas do que livres. 

    Os poucos que conseguem viver sem dinheiro e com alegria, quando descobertos, são alvos de um tipo de atenção que os torna quase desumanos, por abrirem mão de um convívio padrão com os outros, sendo considerados anomalias humanas pelo senso comum. 

    Ela queria dinheiro para comprar instrumentos melhores, ele queria dinheiro para comprar de uma vez o apartamento alugado e poder gastar sua energia com outras coisas que não fossem sofrer com aluguel atrasado. 

    A pátria não significava nada, a não ser limites fronteiriços, divisões políticas que motivam guerras. O patriotismo, uma doença infantil, o sarampo da humanidade. 

    A família eram as pessoas com quem escolhiam conviver. 

    Eram temas que já tinham sido explorados à exaustão nas músicas que faziam, mas que pareciam inesgotáveis diante do que viam nas ruas e nos noticiários. 

    O prédio em que viviam era também uma fonte de inspiração, pois abrigava uma classe média há anos empobrecida, mas sempre orgulhosa e sedenta não por direitos, mas por privilégios, custe os direitos de quem custar. 

    Gente que precisa de um líder, e segue coachs messiânicos picaretas, e vivem sem entender que estão muito mais próximos da favela do que da mansão. 

    Uma soberba que desce ao patético. 

    Desde que se mudaram para o novo apartamento e conheceram Silvano, as viagens para tocarem em outras cidades ganharam mais estrutura, embora a força motriz do rolê ainda fosse gerida por uma paixão que eles só poderiam ter no amadorismo. 

    Um contrato, por exemplo, poderia fazer daquilo uma profissão chata e desgastante, especialmente no que diz respeito à autonomia artística. 

    Os vizinhos tinham curiosidade ao vê-los chegando ou saindo, enchendo ou esvaziando a Kombi.  

    Era uma curiosidade grande, inversamente proporcional à empatia que sentiam, pois viviam de outra forma, passando por cima das diferenças individuais e seguindo os velhos padrões de comportamento de burguês mal remunerado, querendo ser o que nunca serão, e querendo ter o que nunca terão. 

    Chegaram a São Paulo, depois de duas horas, com trânsito em pleno domingo de manhã, e a perspectiva de futuro naquele momento era uma semana trabalhando como copywriters, e fazendo uma música nova para ser lançada como single na internet, além de um show no sábado seguinte em Cosmópolis. 

    A essa altura, Donald debilmente fazia de tudo para antecipar o final.

  • Poema #65: Rio Grande

    O Rio Grande não é apenas
    grande, ele é também
    referencial de um sonho
    (ponte de água clara
    interligando abismos).

    Dreno com meus olhos líquidos
    a sua enseada como quem não
    drena nada, exceto a visão da água.

    E como a viagem não permite
    que se fique sempre às margens
    do Rio Grande, instalo uma sonda
    em suas águas e a outra ponta da
    sonda eu a trago encravada na alma.

    Inventário de Sombras

  • Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

    Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge.

    Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço.

    Sem esgotar nenhuma reserva biológica, sem aumentar a pegada de carbono — apenas respirando c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e… Pensar que passamos a vida tentando criar espaços no mundo — eu, literalmente, como arquiteta e urbanista — enquanto esquecemos que o primeiro espaço possível é, simples e essencialmente, o que cabe entre uma respiração e outra.

    Presença.

    Meio óbvio, né.

    Infelizmente, não.

    Não se trata da presença velada que registramos aos quatro cantos cibernéticos, marcando arrobas e hashtags sem fim. Presença mesmo. Analogissíssima.

    A nossa conosco | A nossa com o outro |
    Com os outros.

    Nada de conversinhas solitárias mediadas por telas brilhantes.

    Tive o privilégio de perceber isso ontem, sábado. Do fundo de uma sala lotada, com visão panorâmica do público e dos comandos de som e iluminação – ainda fui a responsável pelo soar das campainhas.

    Reestreamos nossa curta temporada de “Sem verba, com drama”, na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Segunda temporada, com uma única sessão prevista.

    Prevista.

    A gente sempre acha que teatro não vai lotar. A minha cidade – celeiro de artistas, reconhecido mundo afora – ainda tropeça numa carência básica brasileira: falta formação de plateia. Daí, pelo receio de não lotarmos um teatro de apenas 100 lugares, o elenco começou a pedir confirmações de amigos, amores (que, compulsoriamente tornaram-se parte da equipe) e parentes. Eu fiz o mesmo. Se cada um garantisse alguns poucos espectadores, alcançaríamos uma base mínima. Quando redigimos a lista final, para deixar na bilheteria, percebi, entre o êxtase e o desespero, que já não havia mais lugares disponíveis.

    — Buuuum! Conflito interno!

    (A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Essa fala é do roteiro e explica todo o nosso dilema).

    Na entrada, Felipe, o guardião das chaves da Usina Cultural, me informa novamente que, desde o dia anterior, pessoas perguntam pelos ingressos…

    Como receber o público orgânico sem espaço?

    Liguei para a diretora da Usina e pedi, quase sem jeito, mas introduzindo que era uma questão maravilhosamente boa e… talvez nem tanto assim…., a necessária possibilidade de abertura de uma sessão extra, logo em seguida.

    — Problema bom de resolver — ela me respondeu — Me dê uns minutos.

    Avisei o elenco:

    — Provável que tenhamos duas sessões! — abri a cortina da coxia/ camarim e soltei a bomba, assim, sem prepará-los.

    (Ser positiva, firme e aumentar as borboletas no estômago dos atores é o grilhão dos diretores de teatro). Os atores, notoriamente, foram à loucura. Frenesi e dor de barriga: combinação perigosa para uma estreia.

    Deem seu jeito com o emocional, complementei. Viver de arte no Brasil é isso: sem verba, com drama — e sem o luxo de perder oportunidades.

    Deu certo.

    Entre um baby liss e uma passada de rímel, uma outra de texto, pára tudo para novas chamadas com o breaking news para as redes sociais:

    “Nem liberamos os ingressos ainda… e já lotamos! Notícia fresquinha: temos mais uma sessão!”

    Holofotes, microfones, impostação de vozes, movimentação mantendo o equilíbrio do palco.

    Risadas… muitas.
    Crianças no colo, um mar de gente esperando.
    Gente se encontrando.

    Recepcionar o público, desejar bom espetáculo, subir ao palco e dar boas vindas com uma claquete em punho, dar uns informes e já arrancar umas gargalhadinhas humildes me fez perceber que todo mundo ali estava… presente.

    Sem o celular roubando completamente a atenção, e apesar deles, porque não são outro que próteses em nós, a produção (concentrada momentaneamente na minha pessoa, também — ser multifunção é também premissa de quem faz teatro) liberou o uso dos aparelhos, em modo silencioso e sem flash, desde que usassem os QR codes espalhados por todos os assentos para marcar a rede social do espetáculo.

    Silêncio e gargalhadas. Olhares atentos. Todos respirávamos juntos.

    Durante cinquenta minutos, três atores seguraram duas plateias inteiras. Poderiam estar em qualquer outro lugar — num evento de cerveja, que acontecia ali pertinho, num bar, em casa. Mas escolheram estar ali. Se arrumaram
    para estar ali.
    Assistindo.
    Vivendo.

    Uma criança de dois anos e meio chorou na cena final, enquanto os atores esgoelavam-se aos prantos e berros, exagerada e cômicamente, por serem despejados.

    Talvez o teatro ainda seja uma das formas mais bonitas de ir contra a corrente de um mundo que anda apressado demais para perceber que O₂ não é pauta.

    É vida.

    Infelizmente, e só de vez em quando, a gente lembra.

    Na fila de entrada. Na saída. No riso compartilhado com desconhecidos. No olhar que encontra outro olhar – talvez pela primeira vez em uma semana inteira observando telas.

    Pequenos gestos, desses que quase passam despercebidos, ainda nos provam que as -pessoas seguem sendo pessoas, não meros
    ecos silenciosos da tecnologia.

    Ainda respiramos
    Ainda nos emocionamos.
    Ainda nos deixamos sentir, refletir e sorrir.

    “Só a arte salva”, dizem.
    Talvez nem tanto; apenas o suficiente.
    De quando em quando, é o teatro que nos
    mantém na humanidade.

    Termino com uma frase que li e se entranhou pelas minhas veias, nos primórdios de 2007, na parede do SATED-RJ, quando, fui tirar meu registro de atriz.

    “Tratai bem os atores, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”.

    Shakespeare. Sempre atual.

    A arte é esse emaranhado bonito que insiste em nos lembrar de quem somos.

    Respiremos.

    E viva o teatro!

  • Vigília

    O relógio marcava três da manhã. Maria Augusta se revira na cama pela enésima vez. Maldita insônia. Olha agora o teto do quarto e procura entender por que não dormia. Luzes apagadas, silêncio, tinha acordado cedo, sentia-se cansada, mas o infeliz do sono não vinha.

    Havia contado ovelhas que pulavam uma cerca invisível. Desistiu quando elas começaram a querer dançar uma rumba em vez de saltar. Devia estar ficando louca ou as ovelhas mancomunadas com sua insônia.

    Trabalhara o dia todo no escritório, lidando com prazos impossíveis e um chefe boçal. O jantar leve, filé de frango e salada. Dez da noite desligou a tevê e silenciou o celular. Antes de deitar, um chá de camomila para garantir. Maria Augusta era contra remédios tarja preta. Temia a dependência. Já era dependente de tanta coisa….

    No meio da cama, de olhos abertos acostumados à escuridão da noite, revivia erros do passado: aquela briga com a amiga anos atrás, o projeto que dera errado. As sombras nas paredes ganhavam vida e transformavam-se em monstros de arrependimentos.

    Cogitou mudar seu nome de Maria Augusta para Maria Sônia. Insônia. Sorriu do seu senso de humor fora de hora. Mais apropriado seria chorar…

    Levantou-se para ir ao banheiro, pés frios no piso gelado. Fez xixi, e nem estava com tanta vontade. Foi até a sala, olhou pela janela. Teve a sensação de que a cidade inteira dormia. Uma quietude perturbadora. Respirou fundo, focando no ar que entrava e saía dos pulmões. Podia ser imaginação, mas pareceu ouvir um ronco ritmado vindo de algum apartamento vizinho. Morreu de inveja.

    Saiu da janela, foi até a cozinha e preparou um copo de leite morno. Dizem que acalma e faz dormir melhor. Para ela o efeito foi contrário: sentiu-se como se estivesse pronta para uma maratona.

    De volta à cama, deitou-se. Ligou o abajur e pensou em pegar um livro. Que não fosse um romance. Vai que se animava com a leitura e passava o resto da noite lendo. Melhor um de contos. Escolheu um antigo do Dalton Trevisan. No segundo conto, pareceu pressentir o sono querendo chegar. Ligeiro, desligou o abajur. Alguns minutos e, ao longe, começou a ouvir um som estranho, alguma coisa que se assemelhava a um ritmo repetitivo. Batuques. Um desventurado acabara de colocar um funk àquela hora. Acendeu a luz e olhou no relógio: quatro e meia da manhã. Não quis acreditar. Pensou em reclamar, ligar para a portaria. Mas desistiu. Apagou a luz, deitou-se novamente e colou o travesseiro nos ouvidos, mas o som parecia se infiltrar e crescer. Aquilo não podia estar acontecendo. Devia ser um complô organizado para impedi-la de dormir. O pior – se ainda pudesse haver um pior – em sua mente raivosa, agora Maria Augusta via ovelhas que dançavam ao ritmo do batidão.

  • O corpo de palavras

    O corpo de palavras é o poema e o conto e a crônica e o romance.

    O corpo de palavras. A palavra serpenteia, ondeia, se insinua e, nua, causa alvoroço no poeta, no romancista, enfim…

    A palavra e o corpo. O corpo de palavras por si só basta. E afasta.

    E afasta as coisas e o mundo e a realidade. Pensa ser real. Quer se aproximar do real. Mas não é. É corpo.

    Corpo de palavras que se fazem e se desfazem e se querem e se afastam.

    E afasta.

    E por si só bastam. Basta a palavra.

    O corpo de palavras é o ruído e a canção antiga e o bolso furado e o vento e a tempestade e o mar. As ondas e o mar e a palavra. As palavras. O corpo de palavras. O corpo apenas: só, mudo, nu, translúcido…

    E os dedos que se manifestam no momento da escrita seguram forte a pena e colorem, descrevem, enriquecem, dão forma a um mundo.

    Eu sou um corpo de palavras.

    Eu sou um mar de palavras. Eu sou um céu de palavras.

    E escrevo em mim e navego em mim e voo em mim. Uma escrita inteira, uma viagem entre os vagalhões e um risco no ar.

    O corpo de palavras basta e afasta e arrasta tudo e todos.

    E engole a si mesmo para, em seguida, fazer novo mundo, fazer novas as coisas, fazer novo corpo.

    E sou eu que me refaço no instante da escrita.

    Continuamente…

  • Alienação facial

    Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança.

    Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente. Mas o que vi me fez esfregar os olhos — certamente ainda não tinha despertado o suficiente, pois lá estavam as carinhas triangulares circulando alegremente, dando as notícias da madrugada.

    Corri para lavar o rosto com água fria e mudar de canal, porque, por alguma brincadeira macabra da memória, a tela parecia refletir meu sonho — aquelas moças do noticiário não podiam ter se transformado em alienígenas.

    Tentei então assistir à reprise de um capítulo recente de novela. Boa opção: ali, certamente, as atrizes estariam caracterizadas de acordo com seus papéis e o pesadelo estaria desfeito.

    Senti a cabeça rodar.

    O que apareceu foram minhas conhecidas de longa data, exibindo os mesmos rostos triangulares, sobrancelhas altas e arqueadas, bocas rasgadas, olhos esticados.

    Aquilo me perturbou a ponto de decidir me afastar completamente daquela visão grotesca. Sem dúvida, minha retina estava reproduzindo na tela da TV os efeitos do pesadelo com o E.T.

    Para cortar de vez aquela ilusão de ótica, fui dar uma olhada nas últimas notícias, e lá estava uma seção inteira dedicada à aparição da megastar Madonna no show de Sabrina Carpenter, no Coachella.

    Coloquei e tirei os óculos várias vezes, pensando que talvez meu grau de miopia tivesse aumentado. Nada feito. A imagem do alienígena continuava a me atormentar.

    Assim como aquelas figuras da televisão, tanto a estrela pop de 67 anos quanto sua companheira de palco, que acaba de completar 26, pareciam moldadas na mesma forma: maçãs do rosto salientes, boca rasgada, olhos arregalados, pele de tamborim — marmorizadas a tal ponto que pareciam ter quase a mesma idade.

    Não restavam mais dúvidas: a missão do E.T. estava sendo cumprida.

    E ele havia começado pela transformação das mulheres daquele primeiro batalhão chamado antigamente de líderes de opinião e agora de influencers.

    Essa onda logo atingiria as mulheres comuns — se é que muitas já não tinham sido abduzidas pelo visual padrão da nova era. E eu?

    Quis correr para o espelho.

    Num susto, abri os olhos.

    Ufa.

    Eu nunca tinha saído da cama.

    Então era tudo apenas o pesadelo… do pesadelo.

  • Audição criativa

    Vamos falar de surdos. Surdos no sentido coloquial, não surdos de verdade, isso é assunto para especialistas. Só percebi a diferença quando assisti a um diálogo entre um senhor e a atendente de uma loja que vendia aparelhos auditivos. Quando ele se queixou de que era surdo, ela foi objetiva:

    — O senhor não é surdo, se fosse eu não poderia ajudá-lo. Seria mais ou menos como fazer um cego enxergar usando óculos. Sua audição é deficiente.

    Tenho vários desses surdos no meu entorno. Como ouvem mal o que dizemos, ou simplesmente não ouvem, o diálogo é difícil. A maioria dos surdos tenta suprir as falhas de audição adivinhando o que está sendo dito. Se o tema é irrelevante, a gente deixa para lá, mas nem sempre é o caso.

    Não raro um diálogo vira monólogo por parte do surdo. Você fala uma coisa, ele entende outra e, a partir de certo ponto, continua sozinho a conversa, agindo como se o outro estivesse participando.

    — Você pegou o jornal?

    — Não, eu não passei mal.

    — Eu perguntei se você pegou o jornal.

    — E eu já respondi que não passei mal!

    — Onde está o jornal?

    — De novo? Estou ótimo, normal.

    — O JORNAL!! Onde está?

    — Ah!… A única notícia interessante de hoje é que “Vestido de Noiva” do Nelson Rodrigues vai ser reencenada. Você leu?

    — Como posso ter lido se nem sei onde está o jornal?

    — É realmente sensacional.

    — Esquece.

    — Concordo, o texto merece.

    — Eu vi há alguns anos, gostei muito.

    — Estreia semana que vem.

    — …(silêncio)

    — Um clássico do teatro.

    — …(silêncio conformado)

    — Você conhece a peça? Gostaria de assistir?

    — …(silêncio desesperado)

    A surdez rende situações hilárias, mas rende igualmente brigas e discussões. Duas amigas entraram numa loja de conveniência, deram uma voltinha, resolveram sair. A surda foi à frente e a outra, já quase na porta, decidiu comprar uma garrafinha de água. Pegou rapidamente a mercadoria, foi para a fila do caixa e avisou à surda:

    — Fulana, espere um pouco.

    A surda continuou andando, a amiga repetiu o pedido em voz mais alta. Repetiu uma, duas, três vezes, gritou uma quarta, mas não teve jeito. Ela não queria desistir da água, nem podia sair sem pagar. A surda desapareceu na rua e, dois minutos depois, reapareceu na porta da loja, furiosa.

    O surdo, protegido pelo silêncio, não acompanha as agruras de quem tenta se comunicar com ele. Costuma reagir indignado e rotular de impacientes os pobres interlocutores. Acredite se quiser, já ouvi a seguinte frase.

    — Eu não sou surdo, você é que não gosta de repetir.

    É óbvio que o surdo não consegue avaliar o quanto está deixando de ouvir. A surdez não se instala da noite para o dia, ele vai perdendo aos poucos o contato com o entorno.

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — FULANO, QUER IR AO CINEMA?

    — Está gritando comigo por que? Está pensando que eu sou surdo?

    Eu amo todos os meus surdos, mas acho que eles são impiedosos. De vez em quando um deles pergunta porque ando tão estressada. Se trocassem de lugar comigo por uma semana, entenderiam.

    Talvez eu tenha sido surda em vidas passadas e agora esteja pagando por isso. Deve ser carma.

  • Uma imagem ou mil palavras?

    Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

    Com o advento da Inteligência Artificial, essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas – computador, celular, televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular seja de fato o que julgamos enxergar.

    Uma maçã, recém-caída do pé, que se oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor, não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um suco Del Valle de maçã.

    O avanço dos recursos computacionais permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente.  A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de poliéster.

    A Inteligência Artificial proporciona uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.

    Mas se as imagens, frutos de adulteração, não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas. Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.

    Seja como for, entre imagens que não garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.

    No ambiente tecnológico ao qual nossa existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos éticos, permanece na idade da pedra lascada.

    Chegamos a um ponto em que a tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira da democracia.

    Some-se a isso a vulnerabilidade das pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.

    Ao ampliar suas potencialidades – e reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já somos.

  • Um trem sem destino

    Dora acordou cedo, decidida a embarcar no primeiro trem que partisse. Não havia destino no horizonte, apenas a necessidade de distância. Tomou banho, comeu, sem muita vontade, um sanduíche de queijo e presunto no pão francês do dia anterior e se arrumou. O vestido bege de zibeline, usado nas bodas de ouro dos pais dois anos antes, estava agora um pouco largo. A mala, pronta desde a véspera, a esperava ao lado do sofá. Em cima do piano, um bilhete escrito à mão depositado num envelope meio amassado. Parou um momento e mirou entorno, sentindo que poderia hesitar. Fixou o olhar em Valentina pela última vez enquanto a gata rodopiava pela sala antes de se instalar na poltrona preferida. Com um gesto brusco, fechou a porta, venceu dois lances de escada e seguiu a pé rumo à estação, aonde chegou após 15 minutos de caminhada resoluta. No guichê, uma pequena fila. Diante do funcionário, ficou muda por alguns instantes. Ele finalmente perguntou:

    − Para onde, senhora?

    − Para Felicidade & Paz, apenas ida. Posso pagar com cartão?

  • O fiteiro

    Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos.

    Instalado no apartamento, o fiteiro de Wilson aparecia no meu campo de visão e no trajeto diário para a universidade; entretanto, não na minha familiaridade. Não tardou, porém, para entrar nela, ou melhor, para eu entrar na familiaridade dele. Assim, o “- Bom dia. – Bom dia.” de todas as manhãs foi substituído pelo “- Bom dia, Horácio! – Opa, Lucas, tudo bem? Vê só…”

    Além de compor um cenário, o fiteiro está no cotidiano daquele local e dos que nele vivem. Existem sujeitos que apenas passam por lá, dando um alô sem se deixar ficar, ou somente vão comprar algo, partindo logo após receber o troco. Quando o indivíduo se distancia, vem o comunicado aos novatos, “é fulano, de tal bloco”, ocasionalmente seguido de uma história.

    Sem pauta pré-definida ou até interlocutor previamente conhecido, muitos se direcionam para Wilson, sabem que lá a prosa nunca falta ao encontro. Para determinadas pessoas, a ida ao fiteiro é tão habitual que a despedida vem com um “até amanhã”. Uns bebem, dividindo sua motivação entre o papo e a cerveja; mas tem os que só cavaqueiam, vendo nisso a única razão de estar ali.

    Quem observa à distância pode julgar que, nesses ambientes, só se fala futilidades.

    Elas sempre estão presentes, é verdade, e a isso devemos dar graças; afinal, as parolas são de grande utilidade para a vida. No entanto, no banquinho, na cadeira ou em pé, rolam as mais variadas conversas, desde a mais besta até a mais séria (e, pela besteira, as sérias).

    O menor acontecimento vira tema, tenha se sucedido em casa, no trabalho ou na família. Engana-se quem acha que comentar sobre o tempo é a melhor forma de puxar conversa, é o futebol; basta um “E o santinha, como vai?”, para – depois de receber um invariável “Tá difícil” – o papo se instalar. Assuntos vêm também pelas notícias, as dos jornais e das bocas, com cada um dando sua opinião. Há ainda a política, alguns a abordam fugindo, baixinho; outros possuem menor cautela, “Se Bolsonaro surgir aqui na barraca, eu não atendo ele”, bradou Leto certa vez.

    Diante de uma história que contei, um amigo perguntou sobre o fiteiro: “Dá uma crônica?” Com certeza. Dá crônica, samba e muito mais.

  • Coisas

    Dois amigos conversam após a aula de filosofia.

    – Viu que coisa?

    – Vi. Achei a aula coisificante!    

    – Ele não explicou o que disse que ia explicar.   

    – Pois é. O conceito kantiano da…

    – Isso! Da “coisa em si”!    

    – “O que está além da representação, inacessível ao intelecto e aos sentidos”. Esse era o espírito da coisa, mas terminei sem entender bulhufas.

    – Ele poderia ter explorado mais a noção de “coisidade” da coisa. Ou mesmo de alienação, apelando dialeticamente para Marx.

    – Marx?! Não misture as coisas.

    – Sei que o tema é complexo, mas com algum esforço ele talvez conseguisse.  

    – Talvez. A coisa só não foi pior porque ele acabou reconhecendo a falha. Essa foi para mim a melhor coisa da noite: o seu reconhecimento de que não é lá grande coisa.

    – Também não humilhe o homem… Isso é coisa de ressentido.

    – Ressentido coisa nenhuma.

    – Não podemos julgar o professor apenas por esse erro. Cada coisa tem sua medida, não é certo extrapolar.

    – Tá bom. Mas saiba uma coisa: se aquilo se repetir, eu pego uma coisa da sala e jogo nele. 

    – Que coisa?

    – Uma bem pesada, claro.   

    – Tolice. Isso não é coisa que se faça. Ele tem o seu valor.

    – Tinha! Veja como são as coisas: não faz muito tempo ele era o tuxaua, “uma coisa” em termos de filosofia.

    E agora?

    – Mas ele vai se reabilitar. Se há uma coisa certa neste mundo, é que um dia se segue ao outro.

    – Se reabilitar como? Fazendo o quê?

    – Sei lá. Qualquer coisa que nos leve de novo a confiar nele.

    – E qual seria?

    – Aí é que está a coisa: cabe a ele descobrir.

    – Desconfio de que não conseguirá.   

    – Por quê? Você está com má vontade… Pegue suas coisas e vamos embora.

    – Já vou. Mas tem uma coisa: se ele não se reabilitar, vou passar isso na sua cara. Você está defendendo demais aquele coisa-ruim.

    Parece até que há… alguma coisa entre vocês dois.

    – Vamos embora, antes que eu me irrite! Você já não está falando coisa com coisa!

  • História de Abelha

    Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o amor. A festa, mas porém, ai, quebra-se o encanto. Plec, plec, a flor nos dedos buliçosos da menina sardenta. A abelhinha zonza no ar – “Sua enxerida”, diz, e flecha um voo, o ferrão da morte no narizinho empinado. “Tomou, sua atrevida?” Tomou também a abelhinha, as duas mãos da garota no nariz, no negro aguilhão que a feria. A bichinha cai no chão, atordoada, sufocada de dor.

    O irmão prestativo – como é prestativa a maldadezinha das crianças – prende a pobrezinha num vidro. Ela mal que se mexe, as asinhas, o corpinho moído, suspirozinho só. “Eu prendi a assassina”, diz o menino. A menina enxuga uma lágrima, um pimentão o rostinho amassado no pranto. Ainda consegue força, numa admiração: “Ela é bonitinha!” “Queria te matar, sua boba”, diz o irmão. “Coitadinha”, ela diz. “Sua burra!” “Burro é você, seu malvadão.” “Gostou da picada, é? Tonta!” Ela chora, a abelha tão engraçadinha. Doeu, pois é. Mas foi sem querer, já está passando. Não é por isso que ela merece morrer. Ela não pode morrer. Está agonizando, olha só. Pobrezinha. Como estremece, pretinha a sua dorzinha – sem consolo! O vidro na janela, o sol cintila – o sol é o deus da vida, a luz, o calor que é a vida. A abelhinha freme as asinhas – um frêmito bom. O corpinho se ergue – viver, tão bom viver. Gira sobre si mesma, cai, cai. “A danadinha”, diz o menino. “Teresinha”, diz a menina, “ela tem o jeito de Teresinha. A Teresinha que estava morta, morrendinho mortinha, e volta para a vida”. “Fênix”, diz o menino, “é Fênix o nome, o pássaro que renasce das cinzas”. “Ah, e eu quero saber de fábula besta”, diz a menina, “eu quero a minha Teresinha, estava morrendinho, mortinha no medinho, e revive – que beleza!” “Beleza! Beleza nada. E ela é minha, eu que peguei”, diz o menino. “É minha”, diz a menina, “ela me escolheu, olha o meu nariz”. O menino ri. Ela, vermelhona, chora. Os dois avançam para o vidro, lutam, a tampa se abre, a abelhinha voa tonta na luz livre, livre, ó glória. Voa, voa, e plaft – bate na vidraça, e o menino bate nela, e a menina bate nela. “Assassina!” “A minha Teresinha!” Irmão e irmã se digladiam – tanto amor desperdiçado, a sina do muito amar, sua esquisitice.

    A Teresinha não fez plaft na vidraça, nem nada. Fez puf, um isso de sonzinho, estrangulado. Um pontinho se encolhendo, volteando no vácuo, sem apoio, parafusinho, e o vazio absoluto, frio, frio. A Teresinha não fez plaft nem nada, mas porém plaft e plaft e plaft fizeram as mãozinhas dos irmãos inimigos no seu amorzinho descontrolado. “Homem que é homem tem que se vingar”, ele diz. “Quem mata tem que morrer! Seu carrasco,” ela diz, “quem não perdoa não merece viver.” E plaft e plaft, a guerrinha dos irmãos. Tantas palavras? Muito mais sentimento. Tanto orgulho ferido! E pá e pá – o jeito é morrer, pensa a abelhinha, e puf – murchinha, se esvaziando a sua vidinha. Depois, num de-repente – pá, pum! – o pezinho, o pezão do menino. Teresinha, nem sombra! Sujeirinha no soalho, nem isso. “Conheceu, papuda”, diz o irmão. “Assassino”, diz a irmã, e segura o narizinho dolorido, se lembrando de chorar, a dor, dor e mágoa, mágoa e dor.

  • Enquete

    Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já convertido em defunto e com meu corpo se decompondo lentamente, que faria isso.

    Mesmo assim, dei uma olhada rápida, aproveitando que o celular ainda estava funcionando. A pesquisa era bem completa, como era de se esperar, e perguntava sobre o meu grau de satisfação — nota de zero a cinco — sobre aspectos relacionados com minha saúde, a idade que consegui atingir, os sonhos realizados, as metas cumpridas, os objetivos alcançados, os fracassos, as decepções, as ilusões perdidas. E deixava um espaço em branco para que eu escrevesse um comentário sobre minha passagem por este mundo a fim de contribuir, de alguma forma, para melhorar as condições dos últimos dias para os futuros defuntos. Havia também, claro, a indefectível pergunta: eu recomendaria essa experiência de sair do corpo físico a meus amigos e familiares?

    Como disse anteriormente, eu não estava em situação de atender a todas essas questões, nem mesmo a troco dos valiosos prêmios aos quais, a pesquisa dizia, eu poderia concorrer ainda que estivesse morto (não entendi a que prêmios eu estaria apto). E, por mais que tivesse tentado de todas as maneiras, não consegui cancelar meu endereço de e-mail. Por isso é que agora, anos mais tarde, quando de mim não resta nem o pó de que fui feito, continuo atualizado com as últimas novidades e promoções das empresas.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui à escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão à parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • Raul Seixas: A Trilha Sonora da Minha Vida

    1968 – Raulzito e os Panteras

    É um disco da Jovem Guarda, com características e sonoridade próprias do movimento: letras ingênuas e guitarras bem ao estilo dos grupos de rock do exterior, sobretudo os Beatles. Particularmente é um disco que não me atrai se comparado ao que viria depois dele. Mas nem por isso deixa de ter músicas bonitas como no caso de “Dê-me tua mão” e “Menina de Amaralina”. Comercialmente, o disco foi um fracasso em todos os sentidos. Mas se por um lado não aconteceu do jeito que eles esperavam, pelo menos a intenção não foi das piores. Destaque para “Me deixa em paz”, um dos melhores rocks que Raul compôs em sua fase romântica.


    1971 – Sociedade da Grã – Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez

    É o disco mais louco do Raul. Aqui, o Raulzito de outrora foi embora dando lugar ao Raul Seixas que todos nós conhecemos. É bem provável que este seja o disco mais rebelde da história da música brasileira. Anárquico, tem de tudo: samba, rock, maxixe, chorinho, bolero…e vale até mesmo como uma crônica do Rio de Janeiro daqueles tempos, além de ser um registro histórico da parceria entre Raul e um outro grande compositor que poucos conhecem: Sérgio Sampaio.


    1973 – Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock

    Um disco de releituras dos grandes clássicos do rock nacional e internacional. Interessante é que quando foi lançado não trazia o nome do Raul na capa e sim de uma banda chamada “Rock Generation”. Na verdade, a suposta banda era formada pelo Raul, o cunhado Jay Vaquer e outros músicos. É barulhento. Foi reeditado em 1975 com o título de 20 anos de rock.


    1973 – Krig Há – Bandolo!


    O álbum é forte em vários sentidos: além do título “Krig Há – Bandolo” que é o grito de guerra do Tarzan e significa “Cuidado, aí vem o inimigo”, a faixa “Mosca na sopa”, já abre o LP dizendo quem é o tal inimigo. Além de ter sido o marco inicial da lendária parceria com o Paulo Coelho. Quase todo o álbum é feito de sucessos, alguns se tornaram clássicos eternos do rock nacional: “Al Capone”, “Metamorfose Ambulante”, a própria “Mosca na sopa”, a belíssima “How Could I Know” e “Ouro de Tolo”. Um dos melhores discos do rock brasileiro


    1974 – Gita


    Raul estava em sua melhor fase. Mergulhado cada vez mais no misticismo e nas ideias de Aleister Crowley, ele gravou um dos seus melhores discos. O disco é marcante por trazer a faixa “Sociedade Alternativa” que se tornou o hino de toda uma geração que acreditou e ainda acredita em uma sociedade unida por um mesmo ideal libertário. Além de contar com outros grandes clássicos como “O trem da Sete” que talvez seja a letra mais mística do Raul, a bem humorada “Super – Heróis”, “Medo da Chuva” com sua bonita melodia e “Gita”, um dos maiores sucessos da carreira de Raulzito. Discão. Mas o maior destaque é a capa, linda


    1975 – Novo Aeon

    Se no disco anterior Raul começava a botar indícios de misticismo em sua obra, neste disco isso está muito mais evidente. Muitos consideram esse o melhor trabalho de Raul Seixas. De fato, é um disco impecável do início ao fim. Tem algumas curiosidades como a introdução da música “Rock de Diabo” que é a mesma da música “Honey Don´t” do roqueiro americano Carl Perkins. A música “Peixuxa” lembra muito “Obladi- Oblada” dos Beatles. “A Maçã” é uma das músicas mais bonitas de toda a obra do Raul Seixas e pra fechar tem a minha música preferida dele: Para Nóia. Realmente é um disco muito bom, embora não seja o meu preferido.


    1976 – Há Dez Mil Anos Atrás


    É o último disco da fase mais produtiva do Raul e também o fim da parceria com o Paulo Coelho. Eles ainda voltariam a trabalhar juntos no disco “Mata Virgem”. “Há dez mil anos atrás” é um álbum recheado de letras consistentes. Em “Ave Maria da Rua” Raul solta a voz e emociona com uma interpretação marcante. O arranjo lembra muito a música “Bridge Over Trouble Water” da dupla Simon e Garfunkel. Já em “O dia da saudade” é possível notar semelhança com “Back in the USSR” dos Beatles. “Eu também vou reclamar” é uma das letras mais legais do Raul e é difícil não se emocionar com “O Homem”. É o único disco onde praticamente todas as músicas foram compostas por Raul Seixas e Paulo Coelho. Com exceção de “O dia da saudade” que é de autoria do Raul com o Jay Vaquer. É um dos discos que eu mais gosto


    1977 – Raul Rock Seixas

    Mais um disco com regravações de clássicos do Rock. As músicas desse disco nada mais eram do que sobras de gravação do LP “Os 24 maiores sucessos da era do rock”, a gravadora resolveu lançar essas sobras e Raul não gostou. De qualquer forma, vale como item de coleção.


    1977 – O Dia em que a Terra Parou

    A crítica não gostou, achou inferior aos trabalhos anteriores. É o início da parceria com o Cláudio Roberto, o segundo parceiro mais importante. Apesar das críticas, tem momentos bonitos. Das músicas menos conhecidas, “Sim” é uma das mais bonitas. Já em “Maluco Beleza” temos a síntese da personalidade de Raul, música que se tornaria uma espécie de identidade para ele. Não é dos melhores trabalhos dele mas também não é dos piores. Pelo contrário, esse disco é um exemplo de que a nova parceria do Raul com o Cláudio Roberto renderia bons frutos. O que acabou se confirmando nos discos posteriores.


    1978 – Mata Virgem

    Alguns fãs consideram um disco fraco. A parceria com o Paulo Coelho volta nas músicas “Judas”, “As Profecias”, “Tá na hora”, “Conserve seu medo” e “Magia de amor”. Mas percebe-se o cansaço entre eles. Acho um disco apagado, sem muito brilho. Raul coloca um tom bucólico nas músicas, mas sem deixar de lado o estilo que lhe era peculiar.


    1979 – Por quem os sinos dobram

    Todas as músicas desse disco foram compostas em parceria com Oscar Rasmussem. Dizem as más línguas que esse parceiro foi inventado pelo Raul, sendo assim, é uma parceria imaginária. Uma curiosidade que pouca gente sabe é que a letra da música “Na Rodoviária” não tem sentido algum. Isso foi feito de propósito pois Raul queria gravar um blues com uma letra sem significado. A melodia é nota dez. “O segredo do Universo” mostra um Raul Seixas flertando com o hard rock. A única música do Raul com guitarras verdadeiramente distorcidas. “Diamante de mendigo” tem um certo ar de sensibilidade e “Por quem os sinos dobram” é ótima para levantar a auto – estima. Último disco pela gravadora WEA.


    1980 – Abre-te Sésamo

    Ótimo é a melhor palavra para “Abre-te Sésamo. Um clássico indiscutível na carreira do maluco beleza. Marca a volta dele para a gravadora CBS após anos de separação. Gravado durante a abertura política, a ironia já começa pelo título do LP que faz uma sacaneada lembrando a história de Ali Babá e os quarenta ladrões. Nada fazia o Raul acreditar no Brasil e nesse disco ele coloca toda a sua crença em evidência, é o disco mais irônico e seco dele. E também é o mais politizado. Letras como a de “Aluga-se”, “Abre-te Sésamo” e “Conversa pra boi dormir” parece que sempre serão atuais em nosso país. Raul sabia das coisas.


    1983 – Raul Seixas

    É um disco “magoado”, embora não pareça. Raul estava cheio de problemas com o alcoolismo, estava há dois anos sem conseguir gravadora e com a imagem queimada no meio artístico. Este disco, lançado por uma gravadora independente, é uma espécie de “renascimento” para Raul ou como ele mesmo dizia, uma “reciclagem”. Pra mim é um álbum meio descaracterizado, me parece um disco forçado. “Coisas do coração” é muito bonitinha, tem uma levada country que ficou jóia. Destaque para o baixo de “Segredo da Luz”, sensacional!


    1984 – Metrô Linha 743


    Pra mim é o disco mais fraco de todos. Aqui começou a decadência do Raul Seixas como artista e como homem. O cansaço e a falta de criatividade são claros: “Canção do vento” é horrível, uma das piores coisas que o Raul fez. “Mamãe eu não queria” consegue até ser engraçada mas também não convence. As exceções ficam por conta de “Metrô linha 743” que é a letra mais inteligente de todas e “Geração da Luz”. As regravações de “Trem das sete” e “Eu sou egoísta” também valem a pena


    1985 – Let me Sing My Rock n´Roll

    Esse disco merece um comentário especial: trata-se do primeiro – e talvez o único – LP produzido e lançado por um fã-clube brasileiro, o Raul Rock Club. Teve tiragem limitada de mil cópias e hoje é considerado o 2º LP mais raro do Brasil, o LP mais raro é o 1º do Roberto Carlos. Com relação às músicas, são aquelas que não foram inclusas nos LPS oficiais, além de conter alguns depoimentos do Raul. A música “Canto para a minha morte” foi inclusa no LP a pedidos do próprio Raul Seixas.


    1987 – Uah – Bap – Luh – Bap – Lah – Béin – Bum!


    Meu disco preferido do Raul Seixas. Cru, visceral e sem firulas, aqui a gente nota um Raul sem questionamentos, sem complicações existenciais, apenas com uma guitarra na mão e uma vontade enorme de tocar o bom e velho rock n´roll. Parece que com esse disco o Raul queria provar pra todos que ele ainda era o maior roqueiro do Brasil. Ele mesmo chegou a declarar na época do lançamento: “Eu fiz esse disco para os roqueiros ouvirem, para eles não deixarem o rock and roll morrer”. Em meio a nova onda de bandas e cantores do rock nacional que estavam no auge do sucesso, a gente vê um Raul Seixas ainda forte e fiel aos seus valores, indo direto ao ponto e mostrando que rock é coisa de macho. “Cowboy fora da lei” estourou em todas as rádios do país, gerou um videoclipe e colocou o Raul novamente nos programas de TV. Destaque para o ótimo blues “Canceriano sem lar”, onde Raul descreve os dias vividos na clínica Tobias


    1988 – A Pedra do Gênesis

    A qualidade do som não é lá essas coisas, Raul começava a falar em tom de despedida. A depressão que ele sentia aumentava cada vez mais. Esse disco é um aviso do que seria a Panela do Diabo e consequentemente, a própria vida dele. “Fazendo o que o Diabo gosta” é a mais louca declaração de amor feita por um homem. Aleister Crowley volta em “A Lei”, uma espécie de regravação mais detalhada de “Sociedade Alternativa”. Raul cantou “A Lei” em todos os shows com o Marcelo Nova, era sempre a última música. Esse disco tem a música mais triste que o Raul gravou: Lua Bonita. Tem também a primeira música em inglês que ele compôs: I don´t really need you anymore, feita em parceria com o velho amigo Cláudio Roberto. Disco deprê.


    1989 – A Panela do Diabo


    Raul Seixas e Marcelo Nova, um encontro que deu certo. Marcelo bem que tentou – e muito – ajudar Raul. Mas Raul era rebelde por excelência, nada seria capaz de fazê-lo mudar de idéia. O que ficou dessa união foi esse disco, resultado de uma parceria entre dois amigos e porque não dizer, irmãos. Raul se despediu com muita coragem. Como disse o próprio Marcelo Nova, Raul já não tinha fígado, não tinha pâncreas, não tinha nada. Mas a vontade de lutar e de vencer, fez com que ele subisse no palco, cantasse e fosse aplaudido de pé por qualquer multidão que estivesse presente para assisti-lo. A Panela do Diabo é isso: a vida e a morte do Raul, o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar. Tchau Raul, um abraço e até outra vez

  • Não tô nem aí

    Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É assim quase sempre, dia sim, dia não. Ontem meu chefe me deu um rala de graça, sem motivo algum. Disse que eu havia feito um trabalho porco, porque não teria colocado nas fichas a expressão “correta” – para ele, do jeito que ele quer; nos moldes do absolutismo. E isso se repete incontáveis vezes. Parece que sou um menino em suas mãos. Não tenho pulso para enfrentá-lo, não só porque ele é grande, mas porque tem uma cara amarrada de botar medo; é como se em cada erro ele fosse partir para cima de mim e me esfolar vivo. O pior mesmo é que não tenho reação. Sou um fracote, que não sabe responder à altura, e vou engolindo sapo calado. E toda a questão gira em torno de dinheiro. Quando o patrão não tem dinheiro, desconta na gente, como se tivéssemos culpa. Ele faz um escarcéu se não estivermos atentos para as contas do mês, para o que deve entrar. Às vezes, fazemos papel de gerente de banco, arrumando as contas como se fôssemos, todos, contadores ou economistas. Gregório diz que, com razão, tenho medo de sair porque tenho filho e família, e um monte de conta pra pagar. Ele, por sua vez, é solteiro e declara não dever nada a ninguém. Como um excelente profissional, pode botar essa banca. Seria aceito em qualquer empresa séria. E eu também, não posso me menosprezar. Faço muito além das minhas capacidades. Passo dias na frente do computador e mal tenho tempo de ir ao banheiro. Não ganho mal, disso não posso reclamar, mas a relação trabalhista é abusiva (mesmo eu sendo contratado e tendo todas as características de CLT). O homem disse que, se as coisas não mudarem, vai ter de fechar as portas do estabelecimento. É uma ameaça que sempre faz, porque precisamos, não só eu, mas a Maria da limpeza, o Fausto contador, e a Noélia do atendimento. Todo mundo fica em polvorosa quando ele diz, claramente, que vai fechar as portas. Na verdade, ele não sabe lidar com as emoções, é impulsivo e não mede as palavras; torna-se, muitas vezes, um monstro desgovernado. Semana passada pegou Noélia para Cristo e quis que ela atualizasse duas pastas de processos – grossas –, ainda tendo, a pobre, de lidar com os clientes chatos. Estou farto, exausto e sem forças. Não sei até onde darei conta. Essa semana foi difícil, extremamente difícil, e o patrão não vê o esforço. Somos máquinas inúteis, inservíveis, que podem ser trocadas a qualquer momento. Não sei o que fazer, não tenho perspectivas no trabalho. Vou levando como dá. E o fim é só um prognóstico que me espanta.

  • O outro pior encontro casual

    Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo.

    Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim.

    Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectual do rolê”.

    É aquele tipo de sujeito — pode ser uma mulher também, claro, já conheci várias — que quer ser o mais culto da turma, o mais sábio, um professor.

    É aquele sujeito que, ao te ver, por exemplo, com um livro nas mãos, quer arrancar o livro das suas mãos e colocar outro no lugar: “Você comprou este livro? Não acredito.”

    E vai, sem cerimônias, tirando o livro das suas mãos, colocando outro no lugar, jurando, claro, que vamos agradecê-lo no futuro.

    É aquele amigo que, num bar, não conversa, mas discursa: dá palestras, conferências. “Você acha que vou ouvir este tipo de disco? A vida é curta para eu perder tempo com música ruim.”

    Para gente assim, o gosto musical dos outros é sempre fútil, idiota, pura perda de tempo.

    É um tipo de amigo que, depois que alguém fala que foi ao cinema, estufa o peito e diz: “Eu não sei há quanto tempo não vou ao cinema. Esses filmes de hoje em dia…”

    É daqueles que, num passado — lá pela Renascença —, já viu todos os filmes, ouviu todas as músicas que tinha que ouvir, leu todos os livros, foi a tudo quanto é peça de teatro.

    Aquele amigo que diz: “Eu não vejo filmes no cinema, prefiro os que tenho em casa.” “Eu não tenho mais paciência para ouvir música, já ouvi tantas.”

    Este homem é sempre o intelectual da turma, o conselheiro, o sábio. De repente, quando ele chega, alguém fala em surdina: “Agora ninguém mais fala. Só ele.”

    Disco bom é só o que ele descobre; livro bom é só o que ele cita; teatro bom é só o que ele viu.

    E nós, claro, os amigos, vamos sumindo, como verdadeiros analfabetos, anotando, claro, as dicas dele, que serão importantes para o futuro.

    E continuamos, claro, gastando nosso salário com nossos livros tolos, nos divertindo com filmes ruins, vendo a vida passar em brancas nuvens, sem ter visto todos os filmes, sem ter ido a todas as peças, nos emocionando com um balé insignificante.

    Pois é, meu bom Antônio Maria, os chatos só aumentam desde que o mundo é mundo.

    Mas sua crônica continua muito boa — e cada vez mais atual.

    Não me canso de ler.

    Pelo menos a gente ri um pouco.

    Bebo uma cerveja por você, meu caro cronista.

  • Poema #64: Reta final

    Em tese
    tudo é possível
    mas na prática
    nada acontece.
    Eu sou a antítese
    de todos os axiomas
    benéficos.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Esteta

    Então ela completou dezoito anos e ia para a faculdade.

    O tempo era de guerra, Donald estava botando tudo a perder, e o que ela tinha aprendido de mais relevante sobre o que quer que fosse, foi através de sua tia, que apesar de jovem, estava muito à frente do resto da família em maturidade e cultura.

    Algumas ideias sobre música, política e amor eram os pilares sobre os quais a sobrinha se sustentava naquele momento de guinada, e agradecia por ter naquele momento alguma referência que não fossem aqueles passados pela escola, pela mídia ou pelos pais.

    Até porque os pais eram completamente teleguiados pela mídia, e reproduziam em suas vidas exatamente o que era pregado pelas peças publicitárias que eram enfiadas goela abaixo do povo.

    Mas ela tinha algum discernimento instintivo que fora alimentado pela tia, e por isso já era chamada de rebelde pelos outros parentes.

    Anos antes, na ocasião em que perguntou à tia sobre o que era o amor, teve a seguinte resposta:

    “Isso depende. Caso eu vá muito longe na divagação, peça, por favor, pra que eu volte ao foco da pergunta. 

    A maior parte do rebanho acredita que ele está em situações como aquela em que uma transação bancária é efetuada com sucesso numa propaganda de cartão de crédito. Isso naturalmente não corresponde à realidade, mas as pessoas acreditam que sim, e se frustram. Até porque aquilo que é comprado com o cartão pode ser algo que nada tem a ver com amor e pode ser algo que está muito longe de ser realmente útil pras pessoas que aparecem na cena. É apenas um mecanismo publicitário raso pra estimular o consumo e que mesmo assim, convence as massas.

    E na propaganda de margarina, a família está feliz tomando café da manhã, com um tempo que só teriam se acordassem às três da manhã. Isso anularia a alegria que demostram na cena. O que acontece em qualquer família normal, por força das circunstâncias reais, é que estejam pela manhã todos completamente aloprados, já atrasados, não importando o quão cedo tivessem acordado. O banheiro está ocupado, então há mais uma treta por causa disso. A condição financeira da população em geral também é um empecilho, e pouquíssimos tem tanta comida à mesa logo cedo, e a correria matinal está diretamente ligada à necessidade de ter comida para o almoço e para o jantar. Sem contar que o jantar muitas vezes só é possível com a venda do almoço. Há também propagandas de carros sendo vendidos em prestações que parecem tentadoras e que vão enforcar o escasso orçamento dessa família. É o cúmulo da estupidez e da desumanidade pensar em status num mundo como esse, mas o poder midiático consegue controlar essas milhões de mentes fracas, estabelecendo um padrão, que embora não corresponda à maioria da população, e embora as pessoas saibam disso de alguma forma, ainda assim se sentem frustradas caso não obtenham o que a propaganda determinou como condição pra felicidade. Aliás, pra não falar só da sordidez do controle midiático sobre essa questão, vamos deixar muito claro que amor não está relacionado necessariamente à necessidade de você ter um namoradinho e ser feliz pra sempre com ele. Isso é patético, antes de mais nada, porque essas relações muitas vezes têm prazo de validade. E a sordidez vai mais longe ainda quando você lembra que é preciso ter alguma independência financeira pra não cair na cilada de se casar e se dar mal e não poder sair porque depende de um Zezinho qualquer, machista e escroto. Amor tem mais relação com a sua capacidade de controlar o seu destino, na medida do possível. Você muitas vezes não escapa do capitalismo, então tem que lidar com isso sem enlouquecer, e é por isso também que esses bancos asquerosos deitam e rolam na exploração do povo através de financiamentos que tornam as pessoas eternamente inadimplentes. E é por isso que muitas mulheres não mandam o marido às favas pra começarem outra vida. É a porra da dependência financeira. O sujeito trabalha, paga as contas e a mulher que trabalha em casa se esgota até o talo e não tem um puto furado no bolso pra nada. Essa é a tônica de muitos casamentos farsários que duram décadas e que na verdade são consequência de comodismo ou falta de opção, principalmente por parte da mulher. Nesses casos, o contrato do casamento vale muito mais do que o amor. Eu, particularmente, penso no amor, ou na falta dele, de acordo com as circunstâncias de cada dia, e o atribuo àquele momento mágico em que me sinto livre, depois do trabalho, com vinho, baseado e música decente. Com ou sem algum Zezinho da vida por perto. Até porque eles estão por toda parte e sempre tem algum disponível, especialmente nesses tempos de comunicação instantânea. A vantagem disso é que a solidão deixa de ser motivo de medo e passa a ser uma alternativa momentânea e necessária para o bem estar e para a sanidade.”

    Numa outra ocasião, a sobrinha perguntou:

    “Tia, o que leva um sujeito a ser mesário voluntário numa eleição?”

    Tia: “Você já conheceu algum?”

    Sobrinha: “Não, mas vi na televisão que isso é possível.”

    Tia: “Isso é só pro Estado testar até que ponto as ovelhas do rebanho podem chegar. Quando deveria estar sendo discutido a não obrigatoriedade do voto, e quando as pessoas deveriam estar se perguntando sobre porque não deixar de votar mesmo com o voto obrigatório, surgem propagandas como essa. Entre os mesários que conheci, não havia nenhum que não estivesse deprimido com antecedência. Mas de repente o poder midiático pode fazer mesmo fazer com que exista, porque alguém acreditou que seria jogo se sujeitar a isso. De qualquer maneira é mais fácil acreditar naquilo que vemos com os próprios olhos, como a proibição da maconha, feita por quem quer que você acredite na ressurreição de um carpinteiro, nascido de uma virgem e uma pomba e que até hoje fazem as pessoas comerem ovos de chocolate trazidos por coelhos bípedes numa data específica. O coelho bípede trazendo os ovos, você não vê. Apenas os comerciais que fazem as crianças acreditarem neles para fins comerciais. Para que haja o convencimento de adultos sobre coisas surreais, as estratégias são semelhantes. O caso do mesário voluntário trata de alguém que vai além de acreditar que o Estado existe pra servir o povo, e não que o Estado seja uma doença apresentada como cura.”

    Um dia, elas estavam ouvindo música e a sobrinha perguntou:

    “Você tem esperança no futuro da humanidade?

    A tia: “Ainda tenho alguma esperança, mas não tenho otimismo algum. Parece ser uma espécie que é movida a catástrofes pra que busque caminhos que justifiquem o que entendemos por ‘humano’. As pessoas que estão no poder são homens brancos velhos, e não se preocupam com o longo prazo. Não podemos esperar qualquer atitude positiva de mudança por parte dessa gente. São lacunas em qualquer escala evolutiva. É difícil aceitar que aparentemente só uma desgraça em grande escala pode mudar as coisas, porque nesse caso, teríamos que sobreviver a isso pra ver a mudança esperada. O que não falta é urgência para que algo seja feito, e atualmente não é por esse caminho que estamos indo. De qualquer forma, toda grande mudança é precedida pelo caos.”

    Sobrinha: “Que música é essa que está tocando? Essa moça canta bem!”

    Tia: “O nome da banda é Affinity. A música é ‘Night Flight’.  Gravaram só um disco, autointitulado, que é maravilhoso. O nome da vocalista é Linda Hoyle, que gravou dois discos solo belíssimos.”

    Sobrinha: “Por que isso nunca toca no rádio ou não se torna popular de alguma forma?”

    Tia: “Os donos das rádios convencionais não queriam que suas ovelhas tivessem acesso a vários artistas brilhantes que ficaram no anonimato. Com a internet, pode rolar um resgate de muitas coisas, mas ainda assim é preciso ter algumas referências pré-internet  para que o resultado da pesquisa seja relevante. Outro consolo é que hoje você pode ter sua rádio pela internet, compartilhando música. De qualquer forma é preciso que alguém queira saber do que se trata, mesmo que por curiosidade.”

  • Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

    Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

    lia.

    Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

    lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

    — “Já amanheceu”, percebe.

    A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

    Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

    Não molhei as plantas
    nem levantei da cama
    ambos, os três, ausentes

    como se o dia não me chamasse pelo nome
    ou eu já não atendesse-entendesse

    Abri os olhos
    permaneci
    presa na inquietude dos pensamentos,
    único ruído possível
    no mar quieto
    das palavras que dormem sem vento

    Lá fora, talvez escureça
    talvez eu que me apague

    antes que a luz aconteça

    Talvez se ouçam pneus,
    pessoas que passam correndo,
    respiros curtos,
    solas riscando o tempo
    indo, vindo, indo, vindo
    como se soubessem
    onde termina um [qualquer] momento

    Já amanheceu,
    dizem sem dizer as horas sem voz
    Eu escureci antes,
    por dentro de mim,
    antes de nós

    Não defini o que comer
    se almoço, se jantar
    um desjejum suspenso
    no gesto de não escolher
    o que sustenta continuar

    Escureceu
    repentinamente
    como um corte no dia
    ou uma fenda da mente

    Isso — um trovão?
    ou o mundo desabando em vão?

    Já escureceu
    E, mesmo assim,
    insiste
    quase teimosia
    um novo dia
    dentro e fora de mim

    lia.

  • Cansaço miúdo

    Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário.

    Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber.

    As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído.

    Pequena tarefa que atribuía à grande dona-de-casa com quem considerava ter se casado.

    As pequenas argumentações da esposa, a respeito do grande inconveniente, eram tratadas como desvios — e, como tais, corrigidas.

    A pequena esposa, munida de grande paciência — essa virtude que se elogia mais em quem suporta do que em quem provoca — encarava a pilha de bolinhas de meia com um pequeno mau humor que já não fazia tanta questão de esconder.

    Desenrolava uma a uma para lavar no tanque, sentava-se no banquinho da cozinha e pensava — afinal, o que é uma pequena mania, perto do grande marido com quem me casei?

    Às vezes, ao devolver uma gaveta “quase” perfeita,
    ele refazia uma ou outra bolinha em silêncio.

    Não por implicância, diria — mas por princípio. Aos poucos, o grande marido foi se tornando um pequeno maníaco.

    E a pequena esposa foi deixando de diminuir as coisas para que coubessem melhor.

    O pequeno casamento foi durando um grande tempo.

    Mas a tarefa de desenrolar e enrolar bolinhas de meia foi crescendo até ocupar mais espaço do que devia — maior, talvez, que o próprio casamento.

    A pequena discussão a respeito das meias foi se repetindo, sem alarde: ganhou tom, corpo, tornou-se um grande embate. Até que ela, parada diante da pilha de meias sujas, pensou — não mais com paciência, mas com precisão:

    Até quando esse pequeno marido vai me infernizar com sua grande exigência de mundo dobrado ao meio?

    A grande esposa desenrolou as meias e enrolou o pequeno casamento.

  • Coisas de vento para prosa

    Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento.

    Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão.

    Coisas de vento que nos pega e nos prende em um tempo. O tempo único do coração. O tempo em que tudo é permitido e, com as próprias mãos, desenhamos os sonhos e, também, os enxergamos. Contenção.

    O vento cessa e a bola e os moleques não estão mais lá… Não estão mais no chão. A poeira e os meninos desapareceram assim como as pedras, as pedradas.

    O horizonte continua intacto e mudo. E sol a sol. O tempo. São coisas de vento…

  • Orgulho ferido

    Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista.

    Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos impossíveis. Também não duvidava da existência de duendes. Acreditou piamente que havia encontrado a sua cara metade. Casaram-se depois de seis meses, alugaram um apartamento minúsculo em Botafogo e juraram amor para sempre.

    O tempo, como uma maré insistente, foi erodindo tudo e deixou à mostra algumas verdades. Começou com pequenas bobagens. Ivana odiava aquele jeito de deixar as toalhas úmidas no banheiro e não admitia quando o seu amor chegava tarde do trabalho, cheirando a cerveja. O pior eram as desculpas: mais uma reunião com amigos, hora extra no trabalho, uma parada no bar para fugir do trânsito… O bate-boca virou rotina. Discussões constantes e brigas por tudo e por nada.

    O apartamento que já era apertado ficou ainda menor, opressivo. Ivana passou a conviver e a se incomodar com a solidão. Mesmo com alguém dormindo a seu lado, era como se estivesse sozinha.

    As horas pesavam, os instantes de prazer ainda mais raros. Ivana mergulhava no celular, rolando feeds infinitos para fugir daquela inércia regada a desprezo e apatia.

    Uma noite, após uma briga sobre contas não pagas, Ivana estourou. “eu não aguento mais você!”. O primeiro tapa veio rápido e estalado. Ainda com a face ardendo, Ivana não acreditava. O chute na barriga, a seguir, deixou-a quase sem ar. Agachada, protegendo a cabeça, Ivana ainda ouviu ameaças: “aqui não se fala mais em separação, se não quiser tomar outra surra!”.

    Ivana pensou seriamente em terminar tudo, fugir, mas não teve coragem. O amor de sua vida não era daquele jeito. Resolveu esquecer o episódio, mas prometeu para si mesma que não haveria uma segunda vez.

    O pior era a sensação de impotência e vergonha.

    No dia seguinte, Ivana nem soube o motivo pelo qual tinha tomado aquele empurrão. Ameaçou reclamar e tomou um soco na cara. Olho direito. Ao cair, bateu com a cabeça na cadeira. Sentiu-se tonta e custou a se levantar. Mesmo com compressas de gelo, o olho logo inchou. Estava na cara, literalmente, a marca da violência. Não dava mais para ficar ali. Acabaria sendo morta.

    Decidiu nada falar, nem pedir ajuda. Foi para o quarto, pegou uma mala, algumas roupas no armário, livros, objetos pessoais e se preparou para fugir. Sairia do apartamento como uma estranha, sem um adeus, nem um olhar sequer.

    De quem seria a culpa por aquele amor ter acabado daquela maneira. Sentia-se apequenada, reduzida a um traste. Às vezes não se gostar é o primeiro passo para se achar insignificante, sem reação. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e ela fosse despertar.

    Ivana ouviu ruídos de alguém se aproximando por trás: “onde você pensa que vai?”. Ivana tinha um canivete guardado na bolsa. Naquele instante concluiu que não tinha mais nada a perder. A única coisa que Ivana queria era se ver livre daquela prisão. E sair viva. Ivana encarou a amante, de canivete na mão. As duas se encararam. “Ivana larga isso, você não vai ter mesmo coragem de usar”. Ivana parecia decidida. Era tudo ou nada. Alguns segundos de hesitação e o golpe desferido com força e precisão inesperadas. Ivana, agora, olhava a amante, que, sem acreditar, apertava com as mãos o ferimento na altura do umbigo: “mulher maluca, o que você fez?”. Ivana guardou o canivete ainda sujo de sangue, pegou sua mala, pediu licença e saiu.

    Encontre ajuda: ligue 180.

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • O Circo

    Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando:

    — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi?

    — O que você viu, guri? Conta logo!

    — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo!

    — Verdade?

    — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz.

    Pronto! Era verdade sim!

    Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. Nesse belo dia, passava em frente de casa a charanga com alto-falantes gritando a novidade. E todos corriam para a frente de casa a fim de ver e ouvir aquele que anunciaria a chegada da magia e da alegria, para toda a cidade!

    — Breve nesta cidade, o Gran Circo das Américas! Malabaristas, palhaços, globo da morte, e o inconfundível homem-faca.

    — Venham todos, teremos várias atrações: a mulher barbada, macacos, elefantes, tigres, girafas e os pequenos macaquinhos jogadores de futebol! Teremos também os desfiles dos pôneis e dos cavalos dançantes! Venham! Venham todos!

    A expectativa era criada na cidade, os ares mudavam, pelo menos para nós que queríamos ir ao espetáculo, mesmo sabendo que não tínhamos dinheiro!

    Meus irmãos, assim como outros garotos, caprichavam nas engraxadas de sapatos. Iam para a frente dos hotéis, lojas de fazendeiros e faziam seu merchandising.

    Homens com botas brilhantes e sapatos limpos e cuidados voltavam a ser vistos circulando pelas calçadas, porque todos estavam no clima bom do circo! Nossa mãe fazia seus milagres também, porque as meninas tinham que ver as bailarinas, os palhaços, os trapezistas, e ela iria junto, claro!

    O circo da minha infância se instalava num terreno pertencente à Companhia de Rodagem CER-3. Então, esse lado da cidade, onde se concentrava a praça, o coreto, a Prefeitura, o Clube Municipal, a Igreja Matriz, o Cinema, o Ginásio e a sede da Companhia, era o lugar mais cheio dessa época.

    Nós chegávamos para a sessão da tarde do circo. As bandeirolas coloridas enfeitavam o pátio. Carrinhos de pipocas, vendedores de balões, aviõezinhos feitos de latinhas brilhosas, pirulitos puxa-puxa, algodão-doce, sonhos; se o circo fosse dos completos, teria atrações pelo lado de fora, como pescarias, tiro ao alvo, trens fantasmas. Em filas, com uma alegria só, íamos adentrando e nos posicionando, mas sem deixar de cutucar uns aos outros com nossos saquinhos de balas ou pipocas. Os mais abastados sentavam-se em semicírculos de cadeiras, os ingressos populares iam para arquibancadas de madeira chamadas de “poleiros”.

    Mas o que interessava era que estávamos lá. Dentro do circo! A música? Constante! Alegre! Apropriada! O frenesi? Aumentando! E o palhaço? Andando pelo meio do público, fazendo suas graças, se tornando criança de novo. As bailarinas lindíssimas testando as cordas de malabarismos, e lá ao fundo o globo da morte só esperando para ser trazido ao centro do palco. Acima de nossas cabeças, os cabos dos trapézios com a corda bem esticada e a rede embaixo. Eram tantos e tão variados os mistérios coloridos de um circo, que quando tocava a terceira sirene, as luzes diminuíam, e retumbava a voz:

    “RESPEITÁVEL PÚBLICO, BOA TARDE! EIS AQUI O GRAN CIRCO DAS AMÉRICAS”, o povo explodia em gritos e palmas! Pronto: estava criada a MAGIA DO CIRCO! A magia que me acompanha por toda a minha vida!

  • Líbano libre

    Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

    Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

    A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

    No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

    Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Que bom!

    Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark,  Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

    A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus…

    Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

    Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

    É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

    A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

    Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

    Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel apoiadas pelos EUA têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacífica, sem envolvimento com atividades belicosas, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia.

    Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se desconectado de suas origens.

    Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

    Textos assinados não representam necessariamente a opinião do Crônicas Cariocas.

  • A outra

    Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

    Zuleide pensou em tirar satisfação. Explicaria que era a mulher de Osvaldo e lhe daria um ultimato: ou ia embora da vida dele, ou alguma coisa de muito grave poderia lhe acontecer. Chegou a pegar o telefone e ligar. Depois de ouvir um “alô” do outro lado, tentou ser direta:

    – Aqui é a esposa de Osvaldo!

    – Pois não.

    A voz tranquila, quase glacial, tirou-lhe a vontade de dizer qualquer coisa. Chegou a sentir remorsos por ter se rebaixado tanto. A outra dissera “pois não” como quem perdoa um incômodo ou se dispõe a fazer um favor.

    Zuleide passou a ter Ernestina como uma obsessão. De noite, ao se deitar, só pensava nela. E quando dormia, era o fantasma da outra que vinha perturbar seu sono. Ao acordar (sempre muito cedo…) e ver o marido placidamente ressonando, imaginava que aquela placidez se devia aos bons momentos que ele passara com a amante.

    Despeito, raiva, vontade de matar Ernestina –- a vida de Zuleide agora girava em torno disso. Já não tinha disposição para trabalhar, nem ânimo para se divertir. Gerente numa loja de brinquedos, vez por outra suspendia o serviço para ir ao banheiro chorar. Na volta, percebia que as colegas faziam comentários sobre seus olhos vermelhos.

    Noutros tempos, quando estava de folga, gostava de ir à tarde ao cinema; era fã de desenhos animados americanos. Agora, quando fazia isso, ficava pensando que naquele momento Osvaldo poderia estar trocando olhares com a outra, fazendo planos para se encontrarem mais tarde. Se ele vinha de noite com aquela história de “hora extra”, ela já sabia de que se tratava.

    Um dia tomou coragem e foi ao prédio onde a mulher morava. Tocou o interfone e pediu para subir.

    – Pode deixar que eu desço – respondeu a outra. Zuleide não esperou.

    Contava intimidar a rival, acossá-la, dar-lhe um ultimato. Em vez disso, era Ernestina que se dispunha a falar com ela. Sem nenhum escrúpulo ou hesitação. Quem afinal estava errada? Quem tomava um marido? Quem desrespeitava um contrato? Remoía-se por dentro ao pensar nessas contradições.

    Como a obsessão se tornara insuportável, resolveu tomar uma atitude. Não podia continuar pensando na outra daquela forma. Queria viver, respirar, sair daquele circulo de ferro… Círculo de ferro! Essa imagem a fez, quase inadvertidamente, olhar para a aliança no anular esquerdo. O círculo. O ferro. A dor.

    Então era isso! Num rompante, tirou a aliança e jogou-a contra a parede. Vendo que errara a pontaria, apanhou o pequeno objeto e o arremessou pela janela. Agora pronto: não havia mais Osvaldo, nem rival, nem traição. Sentiu-se aliviada e triunfante. Quando o marido chegou, minutos depois, comunicou tranquilamente a ele a decisão de ir embora.

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • Um tom diferente na tinta da retina!

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

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