Crônicas Cariocas

  • Poema #06: olhar-eclipse

    tivemos um olhar-eclipse
    após
    anos
    e
    anos

    foi tão lindo
    que até os deuses
    pararam pra ver

    e foi assim
            mais
        uma
    vez

    até o sol dos seus castanhos partir
    para um canto
    e restar
    somente
    essa lua
    minguante
    no céu
    da solidão

  • A luta desigual

    Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes, dirige um olhar de ódio à água que lambe seus pés. Engole as lágrimas e jura que vai se vingar.

    À noite, pôs seu plano em prática. Ninguém percebeu quando ele, sem fazer barulho, saiu de casa e correu na direção da areia. Ninguém foi testemunha da batalha desigual que teve início naquele momento entre o mar imenso e um menino armado de espada de brinquedo. Ninguém o viu quando o dia amanheceu. Ninguém o verá nunca mais.

  • Poder desarmado

    Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir. Seu poder está no tilintar metálico quando caminha, no gesto de tocar o bolso como quem confirma uma arma secreta. Ele fala pouco, mas quando fala, as pessoas se inclinam levemente, como gravetos sob um vento súbito. Do outro lado da rua, na sombra de uma árvore, está a Menina do Livro. Não é mais criança, mas carrega no rosto a perplexidade perpétua de quem está sempre descobrindo algo. Seus livros são velhos, emprestados, com anotações nas margens. Ela não tem chave alguma, mas sabe coisas: sabe por que o musgo cresce no lado norte dos troncos, conhece a história da rua antes do asfalto, decifra os padrões das nuvens antes da chuva. Seu saber é silencioso, despretensioso, como o zumbido de abelhas numa colmeia distante.

    Por anos, achei que poder e saber eram duas ruas paralelas que nunca se cruzavam. O poder era barulhento, imediato, concreto. O saber era paciente, acumulativo, às vezes invisível.

    Até o dia em que a chuva forte alagou nosso bairro. O Senhor da Chave saiu à porta, tilintando seu símbolo, dando ordens. “Fechem as comportas!”. As pessoas corriam, mas a água subia, desobediente, sem hierarquias. Foi então que a Menina do Livro, de calça encharcada, apontou para o beco dos fundos. “A água não vem só do rio, vem das antigas galerias romanas que passam debaixo do mercado. Estão entupidas com entulho da obra nova. É por ali que ela força a passagem.” Ela sabia da história que os mapas não mostravam, da rede subterrânea que os tubos modernos ignoravam. O Senhor da Chave parou, olhou para a chave no bolso, e pela primeira vez, seu poder parecia pequeno. O que se seguiu foi uma dança curiosa. O poder desarmado, precisou se inclinar ao saber para se materializar. Precisou do poder de convocar pessoas, máquinas e recursos. Juntos, o homem com sua autoridade e a menina com seu conhecimento, dirigiram o esforço para o lugar certo. A água recuou. O Senhor da Chave agora conversa com a Menina do Livro. Pergunta sobre histórias, sobre os nomes antigos das ruas. Ela, por sua vez, aprendeu algo sobre o peso das decisões, sobre a solidão de quem precisa escolher por muitos, sobre como uma chave simbólica pode abrir espaços para que o saber chegue onde é necessário. O verdadeiro mistério talvez não esteja em escolher entre um e outro, mas em reconhecer que eles são irmãos separados na infância. Quando vejo o Senhor da Chave e a Menina do Livro conversando na esquina, percebo que a maior sabedoria seja saber quando ceder o poder. A vida é um permanente aprender quando tilintar, e quando ficar quieto, apreciando a paisagem.

  • Fragmentos de mais uma noite em claro

    Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta.

    —  Carlos Alberto! Você está bem? —  pergunta Miriam, minha vizinha de porta.

    —  Vou deixar aqui um remedinho pra você. Toma! Vai melhorar! —  insiste aquela que talvez tenha sido meu mais fiel anjo da guarda.

    Com a boca seca e a cabeça latejante, tento refazer, mentalmente, o percurso da noite passada. Mas é tudo tão confuso! Memória e imaginação misturam-se como duas amantes que compartilham entre si os mesmos lençóis. Um turbilhão de imagens e de sons passa pela minha cabeça, sem que eu possa compreender o que significa tudo aquilo.

    Vejo em minha frente uma rua iluminada, algumas mesas sobre a calçada, muitas pessoas animadas. O vaivém de copos e de garrafas enfeitiça este passeante já desobrigado de eventuais compromissos. O sorriso naquele rosto dá continuidade a uma sequência de ações e reações não planejada para aquela noite. Já não estou mais sozinho, pois escuto sua voz alternar momentos de doçura com outros de altivez. Com facilidade, a conversa flui e explora diversos assuntos: música, literatura, política e até futebol. A atração provocada pelo seu olhar só poderia ser mantida por seu humor inteligente e sarcástico. O gosto de seus lábios e a maciez de sua pele impelem-me a querer mais de sua companhia.

    —  Já está tarde, preciso ir embora  diz aquela com quem combino um próximo encontro.

    Não estou mais em sua companhia. Dou um passo à frente, respiro fundo e vejo outras pessoas igualmente alvoroçadas. O ambiente é outro, mas a música alta e a excitação generalizada sugerem que a noite ainda chegará ao seu ápice. Três mesas de sinuca dispostas ao fundo do salão oferecem mais uma opção de diversão a uma pequena súcia de boêmios. Parece que a saudável confraternização do fim de semana começa a dar lugar para os excessos de uma noite imprevisível. Mas eu continuo lá… Necessito permanecer onde estou! Não sei como exatamente, mas aquilo tudo me dá força para respirar com mais vigor. As amarguras de uma vida mal concebida são anestesiadas a cada gole daquela bebida enganadoramente milagrosa.

    De repente, o barulho da jogatina é interrompido por gritos e alguns copos quebrados. A algazarra toma conta do bar, alguns tentam se proteger, outros são enxotados de lá. Minha mente e meu corpo já não interagem da mesma forma. Minhas percepções de tempo e de espaço alteraram-se, completamente. Enfim, as muitas lacunas que se apresentam em minha memória começam a distorcer a narrativa que eu tentava, em vão, construir.

    Vozes altissonantes e rostos desfigurados surgem aqui e acolá. Como se estivesse em um baile de máscaras, não consigo mais identificar aqueles que me cercam. Não são amigos, pois querem sugar o pouco de energia que ainda me resta. O cenário, mais uma vez, mudou! Não há mais mesas, não há mais alegria. São poucos os remanescentes. O fogo daquele isqueiro é ofuscado pelo farol dos poucos carros que cruzam a avenida em alta velocidade. Não tenho ideia de que horas são, mas os pássaros já começaram a cantoria. Não sei onde estou, mas começo a caminhar. De alguma maneira, sei que ainda tenho um endereço para onde me dirigir. Passa uma viatura de polícia, um rapaz faz a sua corrida matinal, a senhora faz suas compras na feira do bairro. Um novo dia começou! E eu aqui… Desgraçado e só!

    Não adianta negar e tentar se enganar, inconsequentemente. Se continuar na mesma toada, essa vida de excessos ainda vai me matar! Chegou o momento de tomar uma resolução e de acabar com tudo isso. Vou atender o telefone, organizar essa bagunça e dar início a uma vida nova!

    —  Alô! Carlos Alberto, você vai demorar? Esqueceu que hoje é aniversário do Marcelo?! Tá todo mundo aqui! Não se esqueça de trazer algumas bebidas! – ordena uma voz conhecida, porém não identificada.

    Na verdade, as palavras que acabei de ouvir soaram mais como um cândido pedido do que como uma maliciosa ordem. E que bom saber que sentiram minha falta! Posso dar uma rápida passada por lá, dar um abraço no aniversariante e voltar cedo para casa. Quer saber?! Que se foda tudo! Não fiz mal a ninguém, e tudo o que fiz foi com o meu dinheiro. Vou tomar um banho, comer alguma coisa e ir, sim, àquela festa! Somente amanhã será uma nova segunda-feira, dia de valorosas resoluções e de intrépidos recomeços.

  • Desmedida

    Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos como crianças. Mas isso é o de menos, porque ela nos encheu de amor, da dádiva do carinho, do zelo. Sempre que posso, vou visitá-la. E ela faz uma recepção daquelas, com bolo e café no bule. A prosa passa de horas, perco o tempo, amando ser amada… Nunca tive o amor de pai, aliás não sei do que se trata. O tal genitor nos abandonou (ou nos trocou por bebida). Logo no meu terceiro ano de vida ele partiu. Não deixou saudades. Não lembro sequer de seu rosto. Muito menos o meu irmão, que tinha somente um ano no tempo do abandono. As más línguas dizem que ele queria fugir da responsabilidade e preferia vagabundar. Mas talvez ele seja doente, ou coisa que o valha. Já não me interesso por novidades a seu respeito. Deve bem morar em outro Estado. Nunca nos procurou, e é melhor assim. Artur, meu irmão, tem ojeriza a tocarmos no nome do genitor. Para ele, é como um lixo inservível. Tem ódio à sua figura. E me recrimina sempre que bebo, porque tem medo de eu me tornar como nosso genitor… Então, desde muito cedo aprendi a ser independente. Saía pelas ruas vendendo doces preparados por mainha, na porta de bares, nas faculdades, nos locais mais movimentados. Mainha ficava com o coração na mão, mas precisávamos – e ela dava força a minha verve de autônoma. Eu queria mostrar, também, que era capaz, e queria tirar-nos do atoleiro das contas atrasadas. Mainha, sim, deu todo o suporte emocional de que precisávamos. Não sentimos falta de pai algum. Aliás, quando ele ainda estava presente, batia nela até sangrar – essa é a história que sei por minha avó. Ela nunca fraquejou, mesmo trabalhando em casa de família e dando conta da nossa humilde residência. Perdi a conta das vezes que a vi chegar do trabalho, lavar roupa e engomar. Tudo numa delicadeza ímpar. Não fazia diferença entre o trabalho remunerado e a sua casa; aliás, talvez tivesse ainda mais zelo com as suas coisinhas. Mainha é meu mote para a poesia. É ela quem me dá substância para viver. A maior entusiasta dos meus livros. E diz que um dia serei a maior poeta que esse Brasil já conheceu. Exagero de mãe, por amar assim, desmedida.

  • Poema #76: “141 A”

    Sequência final
    numa casa de 24 m²
    com vista de frente
    para um beco lateral.
    O piso era grosso
    antes de eu assimilá-lo,
    mas como a vida
    permaneceu em
    desalinho eu adormeci
    deitado de lado e tombado
    em lençóis queimados
    no espaço entre as camas.
    Com uma aliança invisível
    na mão direita e um cheiro
    forte de esgoto vindo do banheiro.
    E pensar que havia promessas
    veladas feitas a mim mesmo
    no escuro de uma vida desfalcada.
    Pinturas metálicas malfeitas
    no fundo de um espelho manchado
    e de brilho opaco.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #04: Motivo

     ( A Cecília)

    Antes que chegue o dia da mudez,
    Cantemos!
    Cantemos elegias
    Cantemos heavy
    Cantemos baladas
    Cantemos !
    Que em nós haja uma eterna canção
    Indescritivelmente bela,
    Inevitavelmente original
    Por sermos, cada um de nós, 
    a própria melodia, 
    a harmonia curativa 
    No desconcerto do mundo.

  • Poema #08: Alteridade

    Este que vos premedita
    Devia dizer-lhes algo
    Mas o profundo que é o sereno
    Mais errôneo que o acaso tornou-se

    Então dizes ao papel:
    Das tuas palavras fizestes
    De pouco caso;
    Que se bastasse um punhado
    ‘Inda que só coubesse o que lhe atava.

    Sonoridade tal das águas já lhes assoavam
    Os cascos empoeirados da vigília
    E tu sonhastes teu atraso…

    O não que dizes é certeiro
    Ressoa pra longe, bem longe se estende.
    Caronas apanhas; onde te encontras?
    Ao retorno te encostas
    De onde trazes teu perdão e tua luta.

    A complacência sempre ouve teu discurso
    E a vergonha nunca toma tua teima.
    É que de verdade, amigo, lhe juro
    Veneno bom fizestes, em fatos,
    Contigo ninguém pode;
    Comigo, jamais pude.

  • “digitando… ”

    |

    Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético.

    Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário:

    Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário.

    Uísque.

    Na única mesa redonda ocupada, um casal.
    Casal de poetas conhecendo-se.
    Flertando com a rima que enxerga o narrativo; o tom, e não a beleza do outro.
    Há ausência do encontro.
    Há frequência do oposto.

    Um traço vertical.

    |


    De repente, a linha imperativa deita-se

    _

    Desmancha-se em circunferências pululantes. Três.

    Reticências

    Duas pessoas podem, paradoxalmente, preencher xícaras fumegantes à distância. Dedilhar acordes. Entoar palavras baixinho costurando o tempo e qualquer afastamento.

    Encontramo-nos

    justos, apertados, acariciados e no não-existir-e-esperar de uma tela iluminada ao alcance das mãos

    Dedos que abraçam uma caneta esferográfica: reflito.

    Na mão que me rotula destra ou canhota, dedos avançam na comunicação do meu corpo estrutura emocional e sensorial que não mais espera e esperneia para além tudo instantaneamente.

    Na margem branca entre uma caneta e outra

    no pulsar ritmado de um cursor em linha rígida, ditam e de gélido recado – cheia
    de nuvens – do outro lado da interface, espera

    “digitando… ”

    hesitação
    o quase
    o inteiro no “pronto.., foi ”

    Digitando a paga -se an tes da palavra,

    Ganhou forma na perda de seu sentido

    A carta incendeia ainda no ventre da máquina.

  • A vida como deveria ser

    A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer!

    E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar.

    A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há!

    E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar!

    A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e, quando vê, não há mais nada o que fazer.

    A urgência mesmo é a própria vida nas suas explosões e contradições.

    A urgência simples das coisas é viver a vida a cada dia…

    A urgência urgentíssima é sentir, olhar, perceber, respirar, encontrar, fazer acontecer na conversa na varanda entre samambaias.

    Nas risadas entre um jogo e outro de futebol. Nos olhares cúmplices de irmãos trocados na cozinha e nas palavras que deveriam ser ditas e foram ditas… A vida no seu cotidiano!

    Que tal escrever aquele poema que estava esperando sair do papel?

    Que tal subir uma montanha e gastar os pés e o calçado?

    Que tal parar tudo e escutar o som da própria vida?

    A vida como deveria ser…

  • BELINDA diante do espelho

    Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável.

    Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza.

    Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu corpo. A verdade era que sempre dera total atenção à aparência.

    Preocupada com o visual, fixava-se nos detalhes, assimetrias ou características que fugiam aos padrões de beleza. Implicava com estrias, sardas, celulite e qualquer mancha na pele. Seu maior problema era o que os outros achariam dela.

    Tinha os dentes um pouco afastados, mas não se dava conta que eram um charme. Os ombros, um pouco largos, tentava disfarçar com vestidos. Achava os lábios grossos, sem perceber serem ótimos para beijar. A longa cabeleira ruiva recebia exagerada hidratação com óleos vegetais e queratina. Toda noite, antes de se deitar, o ritual de limpeza facial, sem que conseguisse evitar o constante aparecimento de espinhas. Sua preocupação com a imagem acabou por se tornar uma obsessão.

    Era complicado, mas teria de superar seu complexo de feiura. Está certo que seu nariz meio adunco não cooperava. Mas ninguém era perfeito. Seus um metro e cinquenta e dois de altura podiam ser resolvidos com saltos plataforma. Baixinha, mas com classe e equilíbrio.

    A fim de se sentir mais confiante, fez uma tatuagem com os dizeres “Eu não sou a minha imagem” na parte inferior direita do abdômen, por cima da cicatriz da operação de apendicite.

    Não costumava sair de casa. Adorava ver filmes, mas nunca ia ao cinema. Preferia a televisão. Revia diversas vezes a versão clássica de Zefirelli do amor trágico de Romeu e Julieta. Sua cena predileta era quando Julieta tirava a própria vida ao ver o amante morto. Belinda era dramática.

    Essencial era evitar a negação psicológica. Até admitia a existência de gordura localizada na cintura, mas considerava um suplício abrir mão da batata frita, do pudim de leite e dos bombons. Juntaria dinheiro para comprar umas canetas emagrecedoras. O importante era ela se sentir feliz com o seu corpo. Belinda seguia tentando.

    Numa noite, enquanto retocava a maquiagem, a grande epifania. Resolveu apagar a luz e olhar-se no escuro. Pela primeira vez viu, no breu, o seu verdadeiro rosto. Ou aquilo que gostaria de ter visto. Acendeu a luz e, com calma, retirou toda a maquiagem e reconheceu seu melhor ângulo na coragem de se mostrar como era, sem artifícios ou truques. Chegou mais para perto do espelho: Belinda, cabelos vermelhos, sardas, meio dentuça, bocão, acima do peso, celulite, espinhas pela cara e imperfeita como toda gente.

    Sempre que ouvia a ária de La Bohème, quando Mimi (Lucia) canta a sua paixão pelo primeiro sol da primavera, as lágrimas rolavam pela face, tomada de espinhas. No fundo, era uma feia romântica. Incorrigível.

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

  • Quando Jesus encontrou os Orixás

    Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

    Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

    Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

    —  Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

    — A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

    O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

    — Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

    Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

    — Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

    — Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

    — Isso é o que não falta nesse mundinho.

    Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

    Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

    De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

    — Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

    Era Iansã.

    — As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

    Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

    — Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

    Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

    Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

    O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

    À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

    Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

    — Toda sede merece respeito.

    Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

    O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

    — Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

    — Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

    Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

    Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

    Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

    — Justiça… — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

    Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

    — Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

    Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

    — Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

    Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

    Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

    Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

    Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

    — A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

    Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

    — Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

    Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

    — Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

    Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

    Ali avistou Iemanjá.

    Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

    — Os seres humanos choram muito.

    Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

    — Porque amam muito.

    Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

    — E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

    — Talvez seja essa sua maior coragem.

    Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

    Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

    — Engraçado…, comentou, surgindo da penumbra.

    — O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

    — Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

    Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

    — Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

    Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

    — Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

    Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

    Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

    O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

    Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

    Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

    — Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

    Jesus respondeu:

    — Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

    Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

    — Que os caminhos então permaneçam abertos.

    — Os corações também.

    Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.

  • VENDE-SE

    Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um silêncio intimidador que não combinava com a atmosfera da casa da minha infância e adolescência. Às vezes, um cachorro da vizinhança injetava um pouco de vida ao redor, assim como pássaros escondidos na folhagem das árvores do entorno. No quartinho escuro, o cheiro era muito forte. O galinheiro ficava ao lado, um ambiente que eu frequentava bastante. Era o encarregado de cuidar dos animais. Fazia de tudo e acabei estabelecendo com eles um relacionamento amistoso. Em algumas ocasiões, podíamos contar com caseiros e empregadas, o que, com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais raro. Os bichos me esperavam e sentiam minha falta quando eu ficava um tempo maior sem aparecer. Galinhas e coelhos. Patos e marrecos no lago próximo à mangueira. Comecei ajudando meu pai. Você tem sorte, ele dizia, se criássemos porcos e cabritos, o trabalho seria muito mais pesado. Um dia ele nos deixou. Sem aviso. Minha mãe fechou-se no quarto e quase morreu. Tia Berta então veio ficar com a gente. Cuidava dela e de mim, mas não se aproximava da criação. Agora eu era o único responsável. Até que ela também foi embora. Na época, vovó ainda era viva e nos visitava de vez em quando. Minha mãe passou a me trancar no quartinho sempre que recebia algum convidado. Homens, em sua maioria. Eu os via de relance, pelas frestas, descendo de carros elegantes. Dentro do quarto ao lado do galinheiro, penumbra. A lâmpada pendurada no teto queimava e demorava a ser substituída. A janela de madeira velha estava emperrada, era praticamente impossível abri-la. Na época, eu não conseguia. Cogumelos nasciam nas partes podres, devoradas por cupins.

    O doutor Frederico chegou de táxi. Desceu do carro e começou a bater palmas e Na chamar meu nome diante do portão. Fui ao seu encontro. Ainda no jardim, passou a me falar das propostas que havia recebido pela casa. Documentos pendentes e providências à espera de resolução. Burocracia enfadonha, enfim. Você não assinou os papéis que pedi? Estamos perdendo tempo. Talvez tenhamos de reduzir um pouco o preço. As pessoas se interessam, mas não têm dinheiro, são tempos de crise. Você sabe, Felipe, o local se desvalorizou depois que o restaurante e o posto de combustíveis aqui da rua deixaram de funcionar. O sistema de transportes também não é dos melhores, sejamos realistas, acho que o metrô nunca vai circular nas redondezas. Sem dúvida, essa relativa proximidade com o mar continua sendo um atrativo. Como você é o único dono, acho que…

  • Despreparar

    Ou preparar. Quem sabe?

    A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece?

    Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade?

    Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado formal. Apenas a vida acontecendo.

    Então surge uma febre repentina. Chamamos o pai. Só que ele também está aprendendo. Ontem era um rapaz sem grandes preocupações. Hoje tenta descobrir por que o bebê chora, aprende a fazê-lo arrotar, troca fraldas, anda pela casa com a criança no colo durante a madrugada. Tudo isso enquanto o pequeno tem cólicas, regurgita e volta a chorar.

    Ninguém entregou um manual.

    Faço essa reflexão e me vem à mente a ideia de que carregamos uma memória antiga, quase genética, exemplos silenciosos e uma rede invisível de proteção.

    Há sempre os anjos da guarda da vida real: mães, tias, vizinhas, amigas, sogras, primas.

    Há também as heroínas dos livros, dos filmes e das histórias. Mesmo sem perceber, somos influenciados por elas.

    Talvez seja assim que sobrevivemos. Escutamos a música e, intuitivamente, sabemos dançar.

    É por isso que acredito nessa sabedoria sem nome. Uma mistura de experiência, instinto, coragem e referências que vamos recolhendo ao longo da vida.

    Algumas nascem conosco. Outras nos são emprestadas por quem passou antes de nós.

    Depois de tantos anos sendo exigidos pela vida, atravessando fases tão diferentes, é natural que chegue o tempo de colher um pouco do que plantamos e aproveitar as benesses da terceira idade.

    Também aprenderemos a envelhecer. Como aprendemos a ser adultos. Na prática.

    Talvez a velhice não peça tantos aprendizados novos. Ela nos convide apenas a desaprender. Que não há culpa de pensar em nós primeiro. Nem ter a necessidade de resolver tudo.

    Desaprender a acreditar que nossa felicidade deve esperar a de todos os outros.

    Acredito que precisemos nos despreparar.

    Deixar pelo caminho algumas exigências que fizeram sentido durante tantos anos, mas que já cumpriram sua missão.

    Quero crer que envelhecer também seja isso: reconhecer que continuo responsável pela minha vida, mas que agora posso escolher um ritmo diferente.

    Porque viver nunca foi uma escolha. Aprender a viver, sim.

    E, depois de ajudar a sedimentar o caminho de quem um dia dependeu de nós, talvez seja chegada a hora de caminharmos com mais leveza pelo nosso próprio. Intuitivamente, mais uma vez!

    🌷

  • ANTIGAMENTE

    As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, deparamo-nos com um arcaísmo que nos faz voltar à infância (esse “deparamo-nos”, com o pronome enclítico, já não seria um?).

    Outro dia eu estava listando uns termos que ouvia quando era menino e que hoje praticamente não se dizem mais. Alguns se tornaram esquisitos; outros preservam um sabor que nos desperta o desejo de resgatá-los.

    Hoje se diz de alguém convencido e presunçoso que é esnobe. Antigamente, uma pessoa desse tipo “só queria ser as pregas”. Por que as pregas? Pedi a ajuda da minha mulher, que logo matou a charada: na roupa feminina, as pregas são o que dá mais trabalho. Constituem um requinte, uma marca de distinção.

    Pirralho mal-educado a gente tratava “no cascudo”. Ou no “cocorote”. Levei vários deles, por sinal, e nem por isso fiquei ruim da cabeça. Ruim da cabeça? Naquele tempo ninguém falava assim. Dizia-se “leso”, “abilolado”. Os cascudos eram para mostrar que a criança tinha de obedecer aos pais “sem tugir nem mugir”, eu seja, sem murmúrio nem grito.

    Homem usava “brilhantina”. Mulher, “laquê”. Cheguei a acompanhar meus pais a alguns bailes em que os cabelos dos homens eram um lustre só. Ainda não entrara em cena o xampu com a sua variedade de nutrientes que se ajustam aos vários tipos de fios. Fossem os cabelos secos, oleosos, lisos, encaracolados, louros, pretos ou brancos, a inevitável brilhantina os untava da mesma forma e impedia, se fosse o caso, que se revolvessem no atropelo da dança (mas que risco para isso as dolentes valsas podiam representar?).

    Nesses bailes, por sinal, chamava-se a mulher para dançar pedindo-lhe que “concedesse uma parte”. Ela nem sempre se dispunha a saracotear com o “janota”, que achava “espeto” receber a negativa. “Espeto” se aplicava a pessoa ou situação difícil de suportar. Surgiu, certamente, por analogia com o objeto perfurante encontrado hoje nos rodízios de carne, peixe, pizza. A rejeição da mulher era mesmo um golpe, um furo na autoestima do cavalheiro, que tinha vontade de por causa disso provocar um “sururu”.

    Mas ele nem sempre se dava por vencido, e às vezes conseguia se vingar. Dando uma “rabiçaca” em quem o rechaçou, por exemplo, ou esfregando-lhe na cara um “pedaço de mau caminho”. Isso: uma garota boazuda, fornida, “de fechar o comércio”, que fazia a outra se sentir um “sibito baleado”.

    E os nomes? Naquele tempo os homens se chamavam Anfilófio, Eleutério Salustiano. As mulheres: Eudóxia, Escolástica, Alaor. E os utensílios? Como nos quartos não havia banheiro, fazia-se xixi no “urinol”, que após o uso era pudicamente colocado embaixo da cama. Comida se guardava no “petisqueiro”, e no guarda-roupa se amontoavam sapatos ao lado de roupas. Algumas, para o gosto de hoje, muito “ababecadas”.

  • AUTO JUDICIAL

    O adjunto de promotor público, representando contra o cabra José Joaquim Faustino, conclui que no dia 26 do mês de Nossa Senhora Aparecida, quando a mulher do João Cruz ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ela se recusasse, o dito cabra apoderou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará.

    Ele não conseguiu conúbio porque ela gritou e vieram em amparo dela José Damante e Espiridião Costa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer sufrágio ou naufrágio são prova suficiente do sucesso.

    Considero, portanto, que o cabra Joaquim Faustino agrediu a mulher de João Cruz para deitar por cima e fazer com ela coisas que só ao marido dela competia, porque casados pelo regime da Santa Igreja Católica Apostólica Romana;

    que o cabra José Joaquim Faustino é um suplicante debochado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer conúbios carnais com a Inês e a Maria da Luz, moças donzelas;

    que José Joaquim Faustino é um sujeito perigoso e que se não tiver quem atenue o fogo aceso dele, amanhã estará metendo medo até nos homens, condeno o cabra José Joaquim Faustino, pelo malefício que fez à mulher do João Cruz, a ser capado.

    A capação deverá ser feita a macete.

    A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta vila.

    Nomeio carrasco o carcereiro Jorge Ferro de Sousa.

    Cumpra-se e apregoem-se editais nos lugares públicos.

    José Felício da Silva Campos
    Juiz de Direito de Santa Cruz das Almas, 26 de Outubro de 1799.

  • Tudo o que cabe num instante

    Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses. “Eu te amo”, diz ele, mordiscando sua orelha. Todos se sentam à mesa, e os pequenos contam como foi o dia na escola.

    Em silêncio, Celina aproveita a paz do momento. O marido pega sua mão e diz que, na próxima semana, pedirá férias na empresa e a família toda poderá passar uns dias no litoral. E que depois disso ela poderá pensar em seus estudos de pós-graduação, um sonho há muito acalentado. Celina estava prestes a responder quando um murmúrio chegou aos seus ouvidos: “Acorda!”, ouviu uma voz vinda de longe. “Acorda, sua vadia!”, a voz foi ficando mais nítida. “Acorda, sua merda!”, e ela não conseguiu mais ouvir as crianças nem o marido. Sentiu tontura, levantou-se da cadeira e, antes que alguém pudesse segurá-la, caiu. Ao abrir os olhos, percebeu que estava no chão. Sua cabeça doía e sentiu um gosto metálico e quente na boca. “Levanta já, sua fingida!”, disse a mesma voz. “Eu não te bati tão forte, não seja dissimulada. Anda, levanta e me traz outra cerveja.” Celina se levantou, limpou o sangue com as costas da mão e andou até a geladeira, implorando aos céus pelo próximo golpe que lhe trará alívio e a levará de volta à outra família.

  • No fim das contas

    Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século. Seu apartamento minúsculo era seu laboratório de clima interior. As pessoas que a visitavam, esperando talvez um santuário de positividade tóxica ou uma fria fortaleza de racionalidade, saíam confusas. Havia espaço para tudo. Num cantinho, um travesseiro macio para os dias de tristeza fina, daquela que não precisa de discurso, apenas de um canto para se aninhar. Na estante, uma coleção de pedras lisas, frias ao toque, para quando a raiva dava uns sopros quentes por dentro e precisava ser contida na palma da mão, até esfriar. A regulação emocional não era um botão de liga e desliga, nem uma represa que contém um rio. Era mais parecido com a arte do agricultor que conhece a terra. Há hora de plantar a semente da paciência, há hora de colher o fruto da alegria, e há, principalmente, tempo de deixar o campo em repouso, quando a exaustão toma conta. Ela deixava o calor da ansiedade subir, mas abria as janelas da respiração profunda para criar uma corrente de ar.

    Seus amigos a chamavam de “a equilibrista”. Num dia de grande contrariedade no trabalho, em vez de explodir na reunião ou definhar na cama, ela se dirigia direto à feira. Comprava limões, e passava a tarde fazendo uma torta de limão e merengue, batendo os ovos com uma força concentrada e metódica, ralando a casca amarela que soltava um aroma ácido e vívido. A frustração se transformava em energia motora, e no final, tinha um doce para dividir. A emoção não havia desaparecido; havia sido cozinhada, transformada.

    O grande mal-entendido sobre regular as emoções, é achar que se trata de uma guerra a ser vencida. Um combate contra a própria humanidade. As pessoas buscavam anestesiar-se com distrações infinitas, com otimismo forçado, com uma hiperprodutividade que é apenas outra face do pânico. Queriam silenciar o termômetro interno a marteladas. Ela preferia aprender a lê-lo. Havia, é claro, os dias em que o termômetro parecia quebrar. Em que a tristeza era um oceano e não uma poça, ou a raiva um incêndio e não uma fagulha. Nesses dias, sua regulação assumia a forma mais humilde e sábia: ela recuava. Desligava o telefone. Deitava-se. Sabia que tentar “consertar” um tsunami com um balde era vaidade. Às vezes, a maior regulação está na rendição temporária, no deixar a tempestade passar, confiando na arquitetura básica do próprio ser, que sempre busca o equilíbrio. A paz, no fim das contas, não é a ausência de tempestade o maior valor, mas a habilidade de lembrar-se de como fazer uma boa torta de limão.

  • Não sou desse mundo

    Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez minutos olhando para o nada – naturalmente, para as nuvens escassas, que teimam em se afastar, porque podem se movimentar a esmo; eu, pobre de mim, já não tenho forças para avançar. Peço a um ser celestial que me proteja, sem vontade de continuar nessa peleja. Não sou crente nem nada, mas devo confessar que me apego a algum ente superior para me tranquilizar; a ansiedade é grande. O coração está a mil, e o dia nem começou direito. Sei que vou enfrentar Matias, Augusto, César e Eveline, todos meus chefes, que passam orientações descoordenadas e depois exigem coerência no trabalho. Levanto, lavo o rosto e escovo os dentes, automático. Passo alguns minutos olhando as rugas no rosto, ao mesmo tempo em que aplico um hidratante para a pele ressecada – ainda assim sou vaidoso, para manter a aparência. Preparo o café e penso no que virá. Deixo o café esfriar, pensando, disperso. Me embaraço nas minhas próprias alucinações. O dia pode não ser tão ruim assim. O dia pode ser o pior que já vivi. Os sonhos não me deixam mentir. Invariavelmente sonho com Matias e com César, os mais rigorosos, me pedindo para preparar o controle de caixa do mês, insistentes. Acordo, várias vezes, aperreado, até perco o sono. Essa noite sonhei com Eveline, a mais mandona, me pedindo para desviar um dinheiro do caixa, que não iam perceber. Eu, atordoado, como se fosse verdade, acolhi os seus mandos – tenho medo dela. Logo mais estava sendo preso pela polícia e encaminhado para a delegacia. Lá, sofri com os maus tratos infligidos, a mim e aos meus colegas de cela. No total, pelas minhas contas fajutas, fiquei sete anos preso, por desvio de dinheiro – roubo, precisamente. Por isso acordei assim. Hoje, sim, pode ser um péssimo dia. Eveline irá me encontrar e falar pela milésima vez que eu estou acabado, com olheiras. “Não dorme nunca esse malucão!”. Matias, que é casado, tem um caso com Eveline, que é solteira, a mandachuva da empresa. Estou em tempo de pedir as minhas contas e fazer de suas vidas um inferno, entregando as relações escusas e os rombos praticados por César, com a justificativa de sempre estar muito complicado de dinheiro, como se a empresa fosse um banco… Enfim, paro agora de falar dessas pessoas imundas, que escarram seriedade, quando, na verdade, são sujas. Como diria o meu pai, eu não sou desse mundo. Prefiro sair para viver o meu sonho de ser escritor por tempo integral, viver da arte. Só me falta a coragem, a fuga do medo de viver em dificuldade.

  • A reciclagem

    Passei a semana aturando o discursinho mequetrefe de que quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. É isso mesmo, vou até repetir: quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. Dá pra acreditar? Imagina só, aguentar três horas e meia sem intervalo nem cafezinho, por cinco noites seguidas, ouvindo um gordo mórbido de voz fina soltando esses impropérios, um atrás do outro. O seu vocabulário por certo tinha escolhido a empatia como termo-mãe. Uma frase terminava com empatia, outra tinha empatia no meio, logo depois, a empatia embalava mais seis ou sete palavras para que a próxima, novamente, terminasse com empatia. Empatia, empatia, empatia. PeloamordeDiós, quem aguenta?

    E pior, ele falava meio mastigado, por obrigação, como se contasse os minutos para degustar a próxima coxinha. Além disso, sequer olhava para mim ou para os outros delinquentes com a carteira suspensa. Na primeira noite, fixou os olhos em algum ponto da parede no fundo da sala e assim recitou, hora após hora, versinhos decorados, como se ensaiasse um monólogo contemplando alguma capa da Playboy. Pensando bem, acho que ele mirava mesmo um grande bolo de chocolate, babava um pouco do lado esquerdo, inclusive. Ou teve um AVC, não sei. Mas, puta merda, aquilo realmente era um longo e triste monólogo.

    Perder a carteira e ter de aguentar a conversa fiada dos taxistas e motoristas de Uber foi fichinha perto desse martírio. Cogitei até a possibilidade de ofertarem o curso de reciclagem exatamente desse jeito para nos torturar. Aliás, isso é obvio. A tortura sempre foi e sempre será uma alternativa. É aquela coisa, o seu filho fez algo terrível? Faça-o assistir aos jogos do Grêmio. Repetiu a traquinagem? Piore tudo, faça-o assistir aos jogos do Grêmio ouvindo um sertanojo universitário. Se mesmo assim não funcionar, entregue-o para adoção. Não dá, nem tudo tem conserto.

    Eu tinha. Quer dizer, eu tenho. Na verdade, eu nem merecia passar por uma reciclagem. Sejamos razoáveis, dessa vez não ameacei ninguém com um facão nem causei grandes problemas. Tudo isso por conta de três ou quatro multinhas de trânsito. Cadê a empatia do governo nessas horas? Santo Deus. Haja empatia, empatia, empatia. Aliás, aquele gordo com fala fina nunca coube dentro de um carro. É fisicamente impossível. Nem se retorcendo muito. Ele então deve ser um daqueles donos de caminhonetes gigantes com micropênis que fecham todo mundo por aí e se acham os reis da estrada. É tudo uma questão de compensação, no fim das contas, quase senso comum.

    Eu até sonhei com alguém declamando: empatia… empatia… empatia… Depois a gente surta e a culpa é nossa. Falando sério, não sei se consigo imaginar o trânsito sem xingamentos. É como a espuma do chope, sabe? Acho que o pessoal da empatia deveria considerar também o insulto como algo terapêutico. A gente sai do trabalho depois de um dia tenso, xinga um ou outro retardado no trajeto e chega em casa mais tranquilo. É isso. E tem mais: uma ofensa morna e sem ameaças, que não leve à luta corporal, não deixa de ser um xingamento com empatia.

    Não vou mentir. Apesar de tudo, esse troço repetido mil vezes no cursinho de reciclagem me obrigou a refletir sobre algumas coisas. Não muitas, é verdade. Mas, talvez eu até tire o tacape do porta-malas. Estou começando a achar que é melhor não ter armas no carro porque quase todo mundo se transforma no trânsito. Empatia é o caralho.

  • A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

    Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

    Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

    Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

    Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

    De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

    Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

  • A burocracia universitária que expulsa e nega o direito de voar

    É difícil ver uma grande oportunidade bater à porta e saber que as chances de dar certo são poucas.

    Digo isso porque o processo de inscrição para a mobilidade acadêmica está aberto na UFBA. Eu sempre soube que, ao concluir minha graduação, gostaria de tentar fazer mestrado no Nordeste — independentemente do estado, contanto que tivesse bolsa. Pois bem, logo na graduação apareceu essa oportunidade. O pior é que eu só a vi no início desta semana e a ignorei de primeira; afinal, não tenho condições financeiras nem rede de apoio para me ajudar a sair do Rio de Janeiro e custear a vida em outro estado.

    Deixo claro que sou beneficiária de auxílios governamentais e de permanência estudantil. É isso que me mantém viva. Sem isso, sou só mais uma pessoa em extrema vulnerabilidade social, empurrada de volta para o mercado de trabalho precário e, muitas vezes, informal. A vida acadêmica foi a minha oportunidade de sair de Belford Roxo para estar na maior universidade do Brasil em termos de ciência e cultura.

    Infelizmente, a atual política de assistência estudantil não permite que você receba bolsas institucionais quando está em mobilidade acadêmica. Os auxílios são suspensos até o retorno, e você ainda precisa enfrentar a burocracia de avisar para que não os cancelem de vez. Esse é o meu medo: ir com uma mão na frente e outra atrás. Eu quero ir pela oportunidade. Sei o quanto isso vai me agregar academicamente e proporcionar enriquecimento sociocultural. Afinal, é a Bahia!

    Abri até uma campanha no Apoia.se, mas, na minha cabeça, poucas pessoas vão querer ou poder ajudar uma moça que faz universidade. É capaz de me mandarem trabalhar, assim como a minha própria família nuclear faz sempre que tem a oportunidade. É frustrante.

    Eu canso de falar que pobre não consegue estudar plenamente. Tem dificuldade de fazer os estágios obrigatórios, de participar de projetos de extensão e de pesquisa porque as atividades acontecem nos horários em que precisam estar trabalhando. Também não consegue ir a congressos da área em outros estados por falta de tempo e de dinheiro, além das passagens muito caras. Eu mesma só consegui ir apresentar um trabalho para o qual fui aceita na Escola de Enfermagem da USP porque pagaram para mim, para que eu não perdesse a oportunidade. E graças ao ID Jovem, claro, que me garantiu ao menos a passagem com 50% de desconto para diminuir as despesas que eu jamais teria como arcar devidamente sozinha. Nós precisamos urgentemente atualizar as políticas de assistência estudantil para esses casos.

    Que oportunidade nós, estudantes da classe trabalhadora, temos de desfrutar de tudo o que a universidade proporciona? Eu não trabalho fora, porque a própria universidade exige que você se dedique exclusivamente para receber as bolsas de pesquisa, ensino e extensão. E convenhamos: R$ 700,00 não é um valor que arque com as grandes despesas de um estudante. Tinha que ser, no mínimo, um salário mínimo para custear a vida do aluno, já que é exigida exclusividade para o ambiente acadêmico. Estudar é direito, mas também é trabalho. Você lê, estuda, produz ciência e conhecimento por meio da pesquisa, contribui para a sociedade por meio da extensão e não recebe o suficiente para subsistir.

    Bolsas de mobilidade acadêmica deveriam existir e se manter, principalmente para os alunos que, assim como eu, não trabalham, dedicam-se integralmente à universidade, estão inscritos no CadÚnico e são inseridos em programas de transferência de renda. Só assim a educação pode realmente mudar vidas. Mas sabemos que isso não é do interesse da burguesia e da classe política que está no poder. Para a direita e os defensores do sistema capitalista neoliberal, a educação seria totalmente privada. Os pobres continuariam exercendo funções servis para que poucos lucrem e encham os bolsos — e, com os bolsos cheios, forneçam redes de apoio para que seus próprios filhos façam mobilidade acadêmica tanto dentro do território brasileiro quanto internacionalmente.

    Eu sou uma mulher negra, periférica e universitária. Por que eu não tenho o direito de ter uma trajetória dentro da universidade que me abra portas e possibilidades?

    Mandei uma mensagem no WhatsApp para o atual vice-diretor do meu curso de Serviço Social pedindo orientações. Espero que ele consiga me responder, porque as inscrições se encerram no dia 30/06 e eu ainda preciso abrir processo no SEI, falar com a COAA e com os setores de mobilidade acadêmica das universidades, ir ao médico pedir atestado de saúde física e mental, além de outras demandas burocráticas que me fazem querer desistir e deixar tudo como está.

    A data final foi prorrogada (era para ter sido encerrada no dia 31/05). Talvez seja um “sinal” do universo? Seria cômico se não fosse desesperador. Também penso na possibilidade de onde vou deixar minhas gatas, no que fazer com meus móveis e, agora, no curso de escritora que estou fazendo na ABL — uma oportunidade incrível para a minha carreira como escritora, mas da qual não conseguirei mais participar se eu for. Fico com o pé atrás de deixar as duas oportunidades passarem. Como será quando eu retornar para o Rio? Cheguei a comprar uma passagem de ônibus para Vitória da Conquista com o ID Jovem 100%. De trezentos e cinquenta e poucos reais, paguei apenas uma taxa de R$ 21,51 para o dia 1º de agosto.

    É uma luta diária e constante. Essa seria uma ótima oportunidade, e eu quero conseguir fazer tudo a tempo, mas realmente não sei se vai dar. É triste viver em uma sociedade que menospreza e acaba perdendo bons estudantes que poderiam garantir mudanças significativas para o mundo.

  • Apenas uma bolinha

    Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”.

    Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que escorria do seu ouvido direito e que deixava uma crosta ressecada por dentro da orelha. Na primeira que vez que aconteceu ele procurou o médico, um velho amigo da faculdade da cadeira de medicina. O diagnóstico foi enigmático: “isto acabaria acontecendo qualquer dia”. Não questionou. Considerou tratar-se de mais uma das tantas bobagens daquele professor esquisitão, que apesar da amizade de longa data, lhe causava um certo ranço por conta de suas posições políticas.

    Parou diante da rampa que levava ao piso do anfiteatro e das salas de música onde lecionava todas as manhãs. Parecia estranhar o lugar. Sabia que ali era o seu local de trabalho, mas, com o pescoço curvado para a tela do celular, tudo o que vinha na sua cabeça era a imagem de extratos bancários, programas de TV sobre investimentos financeiros e lançamentos imobiliários em Miami, para onde viajava a cada ano com toda a família. Ergueu a cabeça por um instante e olhou para a rua. Percebeu que além do outro lado da calçada não havia nada, um vazio, como se a paisagem de edifícios que se estendia até os altos da cidade tivesse sido apagada com uma borracha. Sentiu-se tonto, achou que ia cair e sentou-se num banco de ripas ao lado da rampa. Isto já acontecera outras vezes e tornara-se mais frequente junto com outras anomalias que ele percebeu surgirem nos últimos tempos.

    Começou a rir quando viu um boneco balançando em frente ao posto de gasolina, na esquina depois da grade que cercava o terreno da universidade. Incomodou-se e parou de rir. Estranho aquilo, pensou. Outro dia quase perdera o folego ao gargalhar de forma descontrolada da água que escorria em espiral na pia do banheiro masculino. Sorte que estava sozinho, pensou no momento.

    Chegou tarde em casa, mais do que de costume. Tinha entrado no metrô na direção errada e de tão apressado acabou passando direto pelo grupo de amigos que o chamava para um vinhozinho no pergolado, numa área ajardinada do condomínio.

    O socorro chegou na madrugada. O mal cheiro que vinha do seu apartamento começou a incomodar logo ao anoitecer. Sumira do convívio e do trabalho havia dias. Bateram em sua porta, tentaram seu celular, mas nenhuma resposta.

    O bombeiro derrubou a porta do apartamento e levou a mão sobre o nariz. Apesar da máscara, o cheiro era repugnante. E o assombro ao entrar em seu quarto: as paredes forradas de bandeiras verde e amarelo, cartazes de manifestações, chapéus, bonés, cornetas, e ele mesmo deitado sobre a cama enrolado em uma bandeira do Brasil. Estava imóvel. O bombeiro se aproximou e virou lentamente sua cabeça. Viu a mancha escura imensa que se espalhava por sobre o travesseiro. Uma bolinha pequena escorreu do ouvido do defunto e acomodou-se numa dobra do lençol. O policial que acompanhava o procedimento pegou a bolinha e a olhou cuidadosamente.

    “Parece um cérebro em miniatura”.

    Riram. Depois colocou a bolinha num saquinho plástico e saíram.

  • Poema #75: 459 A

    Abandono total
    numa casa de 29 m²
    com vista de fundo
    para um bambuzal.
    O piso era claro
    antes de eu pisá-lo,
    mas depois a vida
    converteu-se em
    desordem e acordei
    deitado de costas
    num corredor
    do lado de fora,
    com a chave na mão
    esquerda coberta de
    sangue e a fúria cega
    de quem não se lembra
    de nada.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #07: Parado há duas horas

    Estou parado há duas horas.
    Já fui de um lado a outro
    Fui de esquina a esquina
    Percorri cada quadrado de chão.

    É que me cansaram as pernas
    Então deixei-me aqui.
    Por um lado parece-me um tanto sagrado,
    De outro, nefasto e ridículo.

    É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
    Cumprimenta-me o passo do outro
    Que por um lado atravessa a rua
    Do outro, acena e desvia
    Ou o de mais longe, que caminha
    E eu, que já não soube de onde vinha
    Só, via.

    O movimento do mundo me desloca,
    Por isso a pausa.
    A náusea desta vida, caro Sartre,
    É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
    Sem saber por onde se ia,
    Sem esperar pela chegada.

    É que todos pareciam tão certos.
    — “É por ali”, saltou o jornaleiro.
    — “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
    Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
    — “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
    Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.

    Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
    — “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
    Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
    Quantas coisas me aguardam
    E eu aqui, parado, a pensar.

    Mas queria tanto ficar…
    Cogitei o primeiro passo.
    Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
    E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.

    — “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
    E aí terá de ser levado pelos outros…
    Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
    Ainda há teu lugar!
    Enquanto puderes estar contigo,
    Não te faças isso de deixares-te levar.”

    Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
    — “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
    Fincados no mundo, eu suspirava…
    Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
    Que me aguardavas.
    E então caminhei.

    Desde então, por duas horas caminhava.

  • Caso verdade

    Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente,  já estava configurado o abuso. Educadamente o “dono” da calçada resolveu pedir à proprietária do bar em frente – responsável pela primeira saca de lixo – que, por favor, não mais deixasse lixo em sua calçada. A mulher não gostou. Foi logo dizendo que não era a única da rua a colocar o lixo no local. Ainda com paciência, o homem disse que falaria com todos e o bar apenas tinha sido o primeiro lugar a ser visitado por ele. A mulher, sentindo-se menos injustiçada, comprometeu-se a não mais depositar seu lixo na calçada vizinha. Assim também fizeram todos os outros anfitriões, confessadamente arrependidos.

    O homem voltou pra casa satisfeito. Comentou com a esposa que não mais teriam problemas. Muniu-se de um balde, desceu as escadas e pôs-se a lavar a calçada certo de que a teria limpa na manhã seguinte. 

    Um barulho furtivo acabou por despertá-lo quando dormia em frente à tv. Resolveu olhar sem  se deixar ver. Decepção! Cada um daqueles que, pela manhã, havia se comprometido com ele, agora vinha apressadamente, quase correndo deixar seu lixo  às escondidas. A mulher ofendidíssima era novamente a primeira a fazê-lo enquanto o marido já a esperava com o carro ligado. Outros fingindo naturalidade, repetiam o malfeito.

    O homem na janela espumava. Daria um jeito naquilo ou mudaria de nome.

    Quando o dia começou, o bairro agitou-se. Havia lixo espalhado em todos os cantos. Principalmente em determinados estabelecimentos e portões.  

    O morador voltava de sua caminhada matinal e a mulher do bar gritou:

    — Quero ver se é homem pra fazer na minha frente! 

    Não ouviu resposta. Aliás, nenhuma reação foi percebida. Silêncio.  

    Não se dando por vencida, ela tenta mais uma vez:

    — Deve ter ficado nervosinho. A mulher dormiu de calça jeans, brabinho?

    Enquanto ela provocava e os vizinhos comentavam, Valmir, lá de dentro do bar, estava pronto para filmar caso o homem perdesse a cabeça. Ela não paravs e o homem resistia.

    — Tu é um frouxo! Quer bancar o nervosinho? Vem me encarar! — disse, batendo no peito. — Tá com medinho? 

    Boa tarde!

    Seguem texto e sugestão de imagem.

    Atenciosamente,

    Valeria Soares

    De súbito o portão se abre e uma esposa furiosa vai com tudo pra cima da mulher do bar. 

    — Vavá! Socorro!

    — Você tá provocando meu marido pensando que ele vai cair na sua armadilha?! Manda o Vavá filmar agora.

    Só a polícia conseguiu separar as duas. Ninguém foi preso. Ultimamente a calçada anda limpíssima. Cada um deu um jeito de cuidar do próprio lixo  sem poluir o bairro. Todo mundo aprendeu a lição.

     Principalmente: ninguém quer cair nas garras da esposa.

  • O Rei, o poeta, a mulher e o mar

    Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar

    Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo.

    O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuvens o mistério, dos gritos do mar os apelos, da musicalidade do tempo o motivo. Conhecia os palmos, os metros, os quilômetros, enfim, a extensão real e a extensão imaginária do seu reino. De cor e de olhos e de boca e de memória sabia os rios, as matas, as aves, os bichos todos. Sabia os rostos e os nomes dos soldados vivos e mortos do seu exército.

    Quando abria as mãos, as linhas que se desenhavam nas palmas pareciam os limites, as fronteiras postas, justas, expostas. Aquelas que se alargariam com o tempo e com as batalhas e com o sangue de muitos.

    O rei fitava, do alto da torre mais alta e mais larga, tudo o que conquistara e tudo o que deixara: mocidade, amores, filhos…Vislumbrava uma riqueza sem tamanho e sem medida. Entretanto, o que há pouco tempo era motivo de orgulho e sagacidade, transformara-se em silêncio e tristeza. Silêncio primeiro.

    Tristeza depois.

    Os barcos iam e vinham do leste a oeste, de uma ponta a outra, com o frio e com o calor… Inúmeras bandeiras: vermelhas, amarelas, azuis e brancas…

    Velas e mastros inúteis. Marujos e mais marujos imprestáveis! Muralhas, pedras, visgos estéreis. Exército desassombrado de espadas sujas e pó. Heróis e nada.

    Léguas e léguas e terras e terras sem fim. Havia um fim. O homem que sabia e tinha tudo e que era senhor das coisas e de outros homens e de outros sonhos não via mais sentido em nada.

    De súbito, deixou o trono, no canto largou também as vestes reais, depositou a coroa sobre a mesa e de si para si pensou que o viço do mar o vislumbrava, que o barulho das ondas o chamava, que o cheiro do amor o excitava…

    Do grito do mar os apelos. Os apelos. Os apelos!

    Abriu as grandes portas de madeira e os soldados, mudos e espantados, não ousaram perguntar o motivo da nudez real. O rei, por sua vez, olhou um a um, de cima a baixo. Homens servis e sem vontade própria. Apenas temor e obediência. Basta!

    Avançou para o pátio e a guarda, também atônita e silenciosa, acompanhava os seus movimentos cada vez mais rápidos, cada vez mais decididos. Após atravessar toda a extensão do pátio central chegou ao portão primeiro, àquele chamado de principal. Do mesmo modo, os que guardavam mais uma entrada nada disseram, nada fizeram…

    A rua, as ruas. Pequenas. As casas, as pessoas, os bichos, as plantas, todos olhavam para o rei. Este, com passos largos e firmes, seguia em direção ao cais. Os apelos do mar!

    Mas eis que um velho e louco poeta o interrompe. Estava nu! Um rei nu! Não podia estar nu! Ninguém ousara dizer, contudo, ele dissera. Estava nu e pronto! Imagine um rei nu! Prestava-se a um papel ridículo!

    Os olhos reais, graves e sérios, emudeceram o poeta. Não! Não estava nu! Estava livre… Completa e absurdamente livre! O reino era uma coisa inventada, um poema, um conto quem sabe! O rei, uma peça, um senão, um coitado! O que diria o poeta com as suas mais belas e fortes palavras? Hein? Escreveria sobre o ouro do sol e das paredes do palácio, das tempestades e do mito real destroçando um monstro marinho. Heróis e nada! Os apelos do mar… Nem mesmo as palavras o prenderiam… O poeta, estupefato, tentou tocar-lhe o ombro, no entanto, a decisão estava tomada: era o mar. E prosseguiu acelerado rumo ao cais. Maravilhado pela vontade real, o poeta resolveu acompanhá-lo, mudo, mas feliz em ver um homem tão firme em seus propósitos.

    Agora dois homens buscavam o mar.

    A medida em que caminhavam, deixavam mais pessoas boquiabertas. Vilas ficavam para trás. E outros bichos e outras gentes contavam a respeito do rei nu e do velho e louco poeta que atravessavam o reino em busca do mar. Dois homens que andavam firmes e ligeiros. Dois homens apenas…

    Uma mulher.

    E isso tem significativa importância para uma história – qualquer que seja – a presença de uma mulher. Não era tão bela, não era tão baixa, não era tão triste. Uma mulher que carregava um enorme saco, o rosto cansado, cabelos longos e claros e os olhos que denunciavam lágrimas de outrora. O poeta a viu. O rei a viu. A mulher os viu. Postos os olhares e as almas, a mulher largou o que tinha e os seguiu sem dizer palavra. Sentiu-os como a brisa, sentiu-os como o mar… O rei estava livre, o poeta estava absorto e a mulher… Bem, a mulher levava consigo os pensamentos, o coração e os sentidos de uma mulher…

    O mar já próximo estava daqueles três seres. O cheiro e o sabor das águas tomavam cada qual de um jeito: a excitação real, a translucidez do poeta e os sentimentos da mulher. Força, palavra e coração. Vento, barco e desejo.

    O último obstáculo: a montanha do sul. Elevada formação rochosa. Pedra. Pedra-pedra. Pedra-só. Pedra inteira e decididamente pedra. Três criaturas que voavam pelo caminho, deixando poeira e mais gentes e bichos perplexos. A história do rei e do velho poeta agora contava, também, com uma mulher de olhos cansados. Decerto desamara a infeliz. Desamara a vida. Desamarrara, no entanto, o que havia feito, pensado, sentido. Estava pronta para o que ainda não fizera, pensara ou sentira.

    O vento forte daquelas terras castigava todos os três. De mesma forma. Mesma medida. Pele seca, carne pouca, mãos pesadas, ouvidos raros, porém, olhos acesos e pisadas precisas… Toda pedra tem sua função de pedra. Toda pedra tem sua porção de mal: machuca, rala, corta, sangra, corta, rala, machuca, sangra, corta. Mas passa.

    O mar… O mar já se via! O mar já se via! Ah! O cheiro do mar e o gosto do mar e o sabor das ondas… As águas e os olhos. Assim como um poema breve, como um poema apenas. E os três caminhantes respiravam já o mar, sentiam o que se tem para sentir quando se busca o mar: amor água sal vento vela palavra muda descoberta.

    Não demorou nada e as mãos reais tocaram as águas e as lágrimas da mulher e as palavras do poeta se misturavam àquela cena. Um barco queria. Um barco só. E os homens que estavam no cais não disseram coisa alguma, apenas consentiam com o baixar de cabeças. Tomou-lhes o barco branco, cujo nome, AURORA, fazia gosto, desde o primeiro olhar, ao coração da mulher.

    Sobreveio a chuva.

    As amarras foram retiradas e os ventos desenhavam as ondas e o amor impulsionava a embarcação. Uma nau e sua pequena tripulação. Todos os que assistiam tão insensata cena, horrorizados estavam com o tempo e com a chuva e com os fortes ventos. Ninguém vai ao mar assim! Ninguém vai ao mar assim! O que se quer é a morte. O que se quer é o fim…

    Mas.

    O rei, o poeta e a mulher não responderam. Não olharam para trás. O barco, a nau, os sonhos, o que quer que sejam, estavam soltos estavam no mar. Eles eram o mar agora.

    Nenhum ser daquele reino jamais voltara a vê-los. Entretanto, no dia da partida não anunciada, os que se lembravam do rei, do poeta e da mulher, guardaram nos olhos, na cabeça e nos sentidos vários o último contorno da embarcação na linha do horizonte…

  • Quem foi Maria?

    Outro dia fiquei alarmada com a possibilidade de ficar demente a ponto de não reconhecer mais quem sou. Pensei: vou escrever para mim mesma. Um diário, talvez possa ajudar a resgatar a minha identidade. Um fio de esperança porque não há garantia de que tal leitura venha a me atrair no futuro: recordar o passado pode nem interessar a essa outra pessoa em que eu terei me transformado.

    Melhor deixar para lá. Afinal, mais cedo ou mais tarde, vamos desaparecer como todos os nossos antepassados, tanta gente que nos precedeu e a quem devemos tanto, mas que já perdemos de vista. Quase nada deles chega até nós, e a maioria do que chega vem como histórias repetidas ao longo de gerações em que verdades e invenções andam lado a lado.

    Só vamos em geral até aos avós, quando muito aos bisavós. Fazemos árvores genealógicas com nomes e datas, mas ninguém sabe quem realmente foi Maria, como pensava, se foi feliz, qual a sua cor predileta, se gostava de feijão.

    Viraremos cinzas. Talvez por isso insistamos em deixar uma marca para a posteridade. Alguns conseguem, nem todos por boas razões. A posteridade é um ente imaginário e real que habita um futuro que não viveremos. Uma quimera que perseguimos e que, como disse o Groucho Marx, nunca fez nada por nós. Ainda assim a desejamos, vá entender. Acho que essa contradição está no cerne do medo que temos de perder a nossa pouca importante individualidade.

    Quando menina tive um diário. Reli e não vi nada de interessante. Eu já fui aquela pessoa, ainda sou, mas também não. Será o mesmo se escrever um novo. Deixar a vida seguir talvez seja o melhor caminho, a demência é mais problema dos outros do que do demente em si. Pode até ser menos doloroso, quem sabe?

  • Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia?

    — Sei lá. Não está funcionando.

    — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né?

    — Calculo.

    — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme?

    — Então…

    — Então, o quê?

    — Mangueira enorme, uma piada…

    — Sem ironias, Noêmia.

    — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor.

    — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim de médico e você reclamou da falta de um estetoscópio; inventou um salva-vidas e faltou a boia. Agora a mangueira é o problema. Assim não dá.

    — Tive uma ideia.

    — O que será dessa vez, Noêmia?

    — Super-heróis. Sempre tive atração por super-heróis.

    — Pronto! Só falta agora me vestir de Batman.

    — Não, você está mais para Robin.

    — Que tal, He Man?

    — Inviável, você não tem a “Força”. Tinha pensado no Homem-Aranha.

    — Não acredito!

    — Você até se parece um pouco com o ator que faz o Peter Parker.

    — Nem sei quem é.

    — Começamos a conversar e você já mostra um desânimo danado. É broxante, sabia?

    — Você levou em conta, Noêmia, que aquela fantasia de Homem-Aranha deve dar um calor danado? Está fazendo quase 38 graus.

    — Ligamos o ar.

    — Não vai dar certo.

    — Você não disse que faria tudo para me satisfazer?

    — Mas não me desidratar.

    — Então, o Hulk.

    — O da televisão?

    — Não, o verde.

    — Onde vou arranjar tinta para o corpo? E também vai sujar a nossa cama toda.

    — Pensei também no Homem de Ferro, mas acho que não vai combinar com você…

    — Por quê?

    — Deixa pra lá. Apaga a luz. Vamos dormir.

    — Ei, Noêmia, sabe o que pensei? Posso me fantasiar de Wolverine. O que você acha da ideia?

    — Você está mais para Professor Xavier, querido.

    — Depois não vá reclamar que não quero participar das suas maluquices.

    — Wolverine é demais, meu amor. Deita e dorme.

    — O que foi agora, Noêmia?

    — Pensei na Mulher-Maravilha.

    — Fantasias homossexuais a esta altura?

    — Por quê, não posso?

    — Não vou passar por esse ridículo.

    — Bobagem, você ficaria uma graça de maiô com cinto e uma peruca.

    — Sem chance…

    — E aí, Noêmia, gostou?

    — Foi bom. Mas rápido demais.

    — Mas você não pediu o The Flash?

    — Não era ao pé da letra. A rapidez era só para tirar a minha roupa.

    — Sabe de uma coisa, melhor deixarmos pra lá esse negócio de sexo com super-heróis.

    — Logo agora que eu tinha pensado no Thor?

    — Desisto…

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