Crônicas

  • Retrospectiva 2025

    Sandra saiu do Pilates, numa segunda-feira qualquer, em direção à parada de ônibus. Na cabeça, a lista de coisas para fazer: acupuntura, mercado, roupa para lavar, para passar, almoço, banco. Quinze minutos esperando a condução e nada. Repassava pela vigésima vez a lista de afazeres quando sentiu um aperto no pescoço, uma ponta de faca na orelha e uma voz de mulher gritando coisas que ela não conseguia entender. Alguns segundos foram suficientes para constatar que havia sido escolhida como refém por uma doida qualquer. 

    Eu, assistindo pela tevê, me indaguei: o que se pensa numa hora dessas? Com certeza deve ser aquela famosa retrospectiva do adeus. Já tinha lido algo sobre isso: na hora da morte, a vida passa em quadrinhos… um arrepio de horror me abraçou. Coitada dessa moça. Imagino o desespero. 

    Qual não foi minha surpresa ao descobrir que, naquele momento, Sandra estava às voltas com uma dúvida insistente: “faltando à acupuntura sem avisar, perderia a vaga no programa de assistência? Ainda daria tempo de bater a roupa na máquina e passar as que ficaram em cima da cama? Dependendo do quanto a maluca se demorasse naquela baboseira, iria direto ao banco. Ah, não…meu ônibus está vindo. Tanta coisa para fazer e eu parada aqui.”

    Ao ouvir esse curioso relato, de primeira, achei tratar-se de uma saída cômica diante do trauma, como acontece com algumas pessoas que têm crise de riso em velório. Depois pensei que pudesse se tratar de uma resposta irônica. Lembro de rir da situação. Mas, aos poucos, fui percebendo a terrível mensagem embutida nessa cena: a vida que se tem para viver é muito menos importante do que as obrigações de produtividade que temos que cumprir. Morrer esfaqueada não é o problema, o inadmissível é perder o ônibus, não colocar a roupa na máquina e pegar a agência bancária fechada. Nunca me dei conta do risco que nos espreita no automático da existência, embora Belchior já alertasse em sua canção:

    “Mas se depois de cantar
    Você ainda quiser me atirar
    Mate-me logo à tarde, às três
    Que à noite tenho um compromisso e não posso faltar
    Por causa de vocês”

    Eu, de minha parte, diante dessa lição televisionada de desprendimento de si ou da raridade da vida e, de certa forma, confrontada com a nossa similaridade para lidar com a servidão, me belisquei e me perguntei: tenho vivido?

    Nem esperei a resposta. Corri para minha listinha de promessas 2025 e acrescentei no topo da página: nada será mais importante do que estar vivo em minha vida, atenta às delicadezas, gentilezas, sutilezas e desejos. Reli as prioridades e adivinha? Nutricionista, cortina pro quarto, revisão do carro. Risquei tudo e anotei em letras garrafais:

    1. Ver a aurora boreal
    2. Finlândia

    Com que dinheiro? Não sei. Mas missão dada, missão cumprida!


  • O desafio de manter o foco

    Hoje se fala muito em manter o foco. São incontáveis os livros sobre o tema, que a meu ver implica basicamente dois tipos de atitude: ter em mente um objetivo e persistir até alcançá-lo. Muitos não sabem o que querem e se esforçam em vão. Outros até miram com clareza o alvo, mas não têm constância para chegar até ele.

    O problema não atinge apenas pessoas comuns ou de mediana inteligência. Acomete também os gênios. Um caso famoso é o de Leonardo da Vinci, que costumava deixar os trabalhos pela metade (embora, segundo seus biógrafos, o motivo para isso fosse nobre: a sua imensa curiosidade por tudo). Outro caso é o de Jean-Paul Sartre; em texto que li há algum tempo, Wilson Martins criticava no filósofo existencialista, entre outras interrupções, o fato de não ter dado prosseguimento a “O ser e o nada”. Ele teria morrido devendo isso à humanidade.

    Quem não completa o que começou fica sobretudo em débito consigo mesmo. E, pelo número de publicações que o problema vem suscitando, são muitas hoje as pessoas nessa situação. A cada manhã começam algo novo, mas o impulso para sequenciá-lo só vai até a noite. No dia seguinte, ao acordar, parecem ter perdido o fio que as conectava ao antigo propósito e têm que recomeçar do zero.

    Não que esse pessoal queira se “reinventar” a cada dia. Esse verbo possui uma conotação positiva e se refere à capacidade, que poucos têm, de estar sempre renovando seus projetos. O recomeço a que me refiro consiste em reconectar os fios de uma deliberação que, por uma misteriosa química, a noite dispersou.

    Isso não é nada fácil, pois depende de uma aliança entre vontade e predisposição inata. Ou seja, a genética interfere. Sabe-se que, se não comanda tudo, ela tem um peso que pode amargamente contrabalançar o empenho com que o indivíduo procura reencontrar o seu rumo.

    A atenção que hoje se dá ao foco mostra que a dificuldade de estabelecer uma diretriz (intelectual ou existencial) está em boa medida ligada aos estímulos da vida moderna. Atualmente são muitos os apelos para seguir diferentes tendências de comportamento, grande parte deles potencializada pela instantaneidade da internet. Como se situar nessa avalanche de ideias que requisitam nossa atenção ao mesmo tempo que a despedaçam?

    Os inúmeros apelos à dispersão fazem com que o desafio de manter o foco seja sobretudo interior. Mais do que ficar atento ao que se passa no mundo, o indivíduo deve voltar a atenção para si mesmo. Deve escolher em função de “quem é”, e não “ser” em função do que escolhe. Pois muitas vezes as escolhas, ao contrário do que diz o mestre do existencialismo citado linhas atrás, são determinadas por ilusões que a sociedade inculca no indivíduo para adequá-lo ao seu funcionamento.

    Em tempo: o propósito desta crônica é um tanto terapêutico, pois também tenho dificuldade de manter o foco. Sei que, se me concentrasse suficientemente nas tarefas, produziria mais e talvez melhor. Já tentei menosprezar o problema fazendo uma frase: “Os gurus da autoajuda dizem que é preciso ter foco. Isso para mim não é problema; tenho vários.” Em seu humorístico nonsense, a frase pode ter ficado interessante – mas não afastou o abatimento que vez por outra a falta de constância nas metas provoca em mim.


  • Tricô com gente!

    Por vezes os meios digitais nos mostram vídeos que valem um comentário e inclusive ser assistido até o final. Do ponto de vista de quem assiste pode chamar atenção aquele momento que observamos atentos o ator ou atriz que se dispôs a passar uma mensagem útil para nossas mentes carentes de espaço, para conversar ou tricotar sobre nossas vidas calejadas de angústia e solidão. Um jovem ao sentar no banco do metrô aproveita esse momento para não ler mensagens no celular, ou buscar distração com jogos online, ou assistir a vídeos que gastam seu tempo, aquele mesmo de sua própria vida que não retorna. Ele decide retirar de sua sacola, duas agulhas para fazer tricô, puxa uma linha e continua a tricotar uma touca que será utilizada nos dias frios de sua cidade. Ao seu lado outros olham surpresos, atentos ao ridículo de um ato fora do comum nesses dias, mas em poucos minutos outra pessoa puxa suas agulhas da bolsa e se encoraja a fazer o mesmo, e passam a conversar sobre suas vidas sem compromisso algum, na companhia desse tricô com gente, que se aproveita do artesanato para crescer por dentro e trocar espaços de vida útil, e não só o fútil passar de diversos minutos com o olhar nas redes antissociais em seu celular.

    O tricô retira você do hábito virtual e convoca sua atenção para travar uma relação com o humano ao lado, utilizando o fio de lã como desculpa para a troca de diálogo sobre sua vida, seus hábitos, sonhos e desejos. Te faz sair do óbvio e do isolamento digital, e lhe provoca tomar outro rumo mais saudável dizendo não a mesmice da vida presa a correnteza que destrói suas relações. Em Amsterdã alguns bares estão revivendo os anos 90, onde as pessoas conversam entre si, leem escrevem e fazem tricô sobre a mesa, na intensão de se preencherem com sentimento humano ao invés de digital.


  • Por trás do muro azul

    Todos os dias ela saia às 16 horas em ponto. Seu destino era certo, mas ninguém sabia suas motivações. Nem mesmo seu marido, que nunca desconfiou dessas saídas no meio da tarde de Ana Maria. Ela nunca lhe deu motivo para desconfiança, mesmo sendo ainda muito bonita e com corpo esbelto. Devota, mulher prendada e dedicada a ele, Rogério saia tranquilo todos os dias para o trabalho sem nunca imaginar o que acontecia no íntimo de sua quase santa esposa.

    Ana se olhava no espelho de novo, querendo enxergar através dos seus olhos azuis que pareciam estar ficando cinza. Será que ela estava perdendo o brilho? A vida não tinha sido fácil, afinal. Nada a reclamar, pois tinha um bom marido, um belo lar… Ou melhor, uma bela casa. Um lar, para ela, era um lugar repleto de alegria e barulho. E filhos. Coisa que Deus não a permitiu ter. Teria sido mesmo Deus?

    Depois de três abortos eles finalmente desistiram. Seu corpo não aguentava mais, sua alma se dilacerava a cada perda e seus olhos perdiam aquela luz que se acendia a cada resultado positivo. Seu imaginário dançava novamente pensando em nomes, comprando roupinhas, pintando paredes do quarto, mobiliando sonhos. Tinha algo errado com seu útero, alguma doença com nome estranho e nada ficava por ali. Ela sorria por três meses, no máximo. Ficava de repouso, fazia promessas, evitava até beijar o marido para não ter vontades e colocar tudo a perder. Mas nada adiantava. Ela não tinha sido feita para ser mãe.

    Depois da dor quase enterrada, Rogério veio com a ideia de adotar. Tanta gente adota, afinal. Mas não seria a mesma coisa. Ana queria sentir a barriga crescer, seu filho ou filha mexer dentro dela, ter todo um processo de espera, de escolhas, do amor que cresce e transborda junto com a barriga e o leite que escorre quente pelos seios. Por que justo ela não poderia passar por todas as dores e delícias de parir? Será que era seca, como dizia a sua avó? Gente seca normalmente é ruim, pensou ela. Será que sou tão ruim assim?

    Esse pensamento a despertou para a hora. Não poderia chegar atrasada, por favor! Ela precisava estar presente ao seu compromisso, presente e inteira. Tentou se distrair pela rua, pensando em coisas boas. Mas estava especialmente melancólica naquele dia. Vendo flores e enxergando apenas flores, não o perfume, as cores e até os pássaros que cantam ao seu redor como percebem os apaixonados. Era como se previsse algo, com o coração apertado e o pensamento longe. Quase foi atropelada por uma bicicleta, tamanha a sua distração. Ouviu resignada o rapaz raivoso a mandar para lugares inomináveis e seguiu seu caminho. Tinha certeza que no próximo quarteirão se sentiria melhor. Seu compromisso ficava por trás de um grande muro azul e, lá, tudo era perfeição.

    Rogério chegou em casa como de costume às 19 horas e um cheiro bom de feijão vinha da cozinha. Ana Maria estava de costas e ele vislumbrou o corpo da esposa, um típico violão. Belas ancas, cintura ainda finas, os ombros delicados e penugens louras descendo pelo pescoço. Ela prendia os longos cabelos ao cozinhar e sua nuca, nua, ainda arrepiava Rogério como no começo do namoro. Ele a enlaçou pela cintura e lhe deu uma mordida leve no pescoço. Ana se assustou, mas deixou o corpo solto nas mãos do marido. Que susto, querido!

    Voltando seu rosto para ele, o beijo foi inevitável e parecia que o feijão ia queimar também. Há tempos eles não se amavam e a fome se transformou em ação. Talvez já fosse hora de esquecer um pouco as amarguras e deixar a vida mais leve. O corpo de Ana pedia esse carinho, mas as lembranças a impediam de gozar. O sexo era quase sempre um martírio, pois ela nutria esperanças vãs e o fato de não mais poder engravidar tornava tudo estranho ao seu olhar. Não se sentia mãe, mulher, nada. Não se achava nada mais.

    Rogério fechou os olhos e colocou a mão por debaixo da saia de Ana. Com movimentos doces, levou sua mulher a um gozo que ela há muito não sentia. Ficou quase constrangida com o líquido que escorria pela sua perna e tentou se segurar. Mas precisava de mais e trouxe Rogério para dentro de si. No chão da cozinha, como uma adolescente. Ele se espantou com tamanha impetuosidade e foi ainda mais doce, demorando a gozar e fazendo Ana se desmanchar agarrando seus seios com força enquanto jorrava entre suas pernas. Exaustos e satisfeitos, gargalharam com toda a situação: nus, no chão, mal conseguiam se levantar sem o apoio do fogão. Não temos mais idade para isso! Riu Rogério.

    Recomposta, Ana colocou a mesa e começaram a conversar sobre o dia. Ele, todo satisfeito com o trabalho, novos colegas chegando da filial de Salvador e Ana notou uma entonação diferente quando ele comentou sobre uma tal Larissa. Moça nova, trabalhadora e esforçada, dizia ele. É bonita? Ela pensou, mas não perguntou. Bobagem, devo estar na TPM e inventando coisas. Queria contar também sobre o seu dia, mas se restringiu a falar como os preços subiram no supermercado. Daqui a pouco, vamos comer farinha com água, dramatizou. Pratos recolhidos, se aconchegaram no sofá para ver o jornal. Ele, conferindo números e fazendo conjecturas como se o apresentador lhe ouvisse. Ela, pensando em como a noite seria longa até seu compromisso de amanhã.

    No meio da tarde, Rogério liga com a voz histérica querendo respostas. Ana, minha filha, você não pode acreditar. Vamos nos mudar! Mudar como, homem? A filial de Salvador precisava de um bom gerente e nada melhor do que alguém com larga experiência como ele. Acostumada com sua vida em São Paulo, Ana Maria declinou. Não vou mesmo. O que tem pra fazer em Salvador? Rogério se segurou para não dizer: o mesmo que tu faz aqui, mas não queria ofender a esposa. Sabia de toda a sua dor e sempre preferiu que ela ficasse em casa cuidando de tudo. Não por machismo, mas como o dinheiro sobrava, dava para manter muito bem os dois. Quando Ana teve o último aborto, pensou até em sugerir que ela voltasse a ser professora, mas achou que ela talvez fosse ficar deprimida perto de crianças. Ela se fechou no seu mundo, ele teve medo de entrar e dois deixaram as coisas caminharem por si. Mas agora a vida ia mudar!

    Ana desligou o telefone e ficou pensando em como iria tirar essa ideia maluca da cabeça do marido. Que se dane a empresa, ele pode muito bem se recusar a um pedido deles! Não poderia estar tão longe do seu compromisso, da alegria por trás do muro azul. Não aguentaria mais uma perda, não mais. Ia se separar, pronto. Ele que fosse e deixasse ela lá. Tirou logo a ideia da cabeça. Amava Rogério, sem dúvida que amava. E imagina ele em Salvador, solto. Deus me livre! Pensou em esfriar a cabeça e foi tomar banho. Sentiu a água quente descendo pelo corpo. Lembrou-se da noite anterior, os dois no chão da cozinha e seu gozo escorrendo pelas pernas. Sorriu para si. Sim, amava Rogério. Resolveu relaxar e se masturbou. Sentiu cada pedaço do seu corpo como há muito tempo não sentia. Se sentiu bonita. Seu corpo continuava firme, com curvas delicadas, penugens louras nas coxas e se tocou com ardor. Fez amor com ela mesma.

    O muro azul continuava ali, mas ela achava que ele tinha ido embora. Para Salvador, junto com ela, dentro da mala. Chegou no local às lágrimas, como se fosse mudar no outro dia. Que desespero, meu Deus. O que vou fazer? Contar a Rogério? Ele não entenderia. Talvez risse de mim. Por mais encantador e compreensivo que ele fosse, era homem. E como todo homem, era prático. Sentimentos e apegos não eram com ele. Nada que ela falasse ou que precisasse seria suficiente para ele desistir da ideia de Salvador. Será que essa tal Larissa também vai estar lá? Será que é por isso que ele quer se mudar? Que louca eu sou, meu Deus. Pra que pensar tanto? Às vezes queria ter um botão de liga e desliga para simplesmente parar de pensar. Claro que não acreditava que seu marido era 100% fiel. E foi ensinada a entender isso. Homens têm necessidades que as mulheres não têm, aconselhava a sua mãe. Se ele te der uma casa, te sustentar e não te bater, já se de por satisfeita.

    Sua mãe apanhou a vida inteira e é claro que seus pré-requisitos para um homem ideal eram bem baixos. Quando Ana começou a namorar, o único conselho que recebeu da mãe foi para casar virgem. Homem não respeita mulher que já deu. Nem que goste de sexo. Putaria ele faz com as putas. Seja uma mulher direita e uma boa dona de casa. Lhe dê filhos e o resto você finge que não vê. Ana conseguiu se segurar até o casamento, por mais que quisesse muito se entregar para aquele homem que mexia nos seus seios dentro do carro e fazia suas coxas umedecerem. Aquilo era gozar? Toda vez que ela molhava o vestido sentia uma culpa imensa e ficava com medo dele perceber. Tinha vergonha de querer ele tanto e medo dele achar que ela gostava de sexo. Custou a se segurar e fez de tudo para apressar o casamento. Queria Rogério dentro dela, sobre ela, para sempre.

    Na noite de núpcias, Ana Maria se fez a mais bela das mulheres. Depois do casamento na igreja, com direito ao seu pai levá-la no altar com um orgulho besta por ela ainda ser virgem, se refastelaram na festa oferecida pelo seu padrinho, fazendeiro rico do sul de Minas. Sua mãe, mais aliviada do que exatamente feliz – Ana era a última das filhas a se casar, suas irmãs já estavam parindo netos sem parar – eles finalmente foram para o hotel. Ela preferiu assim, passar a noite na cidade antes de embarcar para Buenos Aires. Não se aguentava mais e ficou com medo de morrer virgem no avião. Deus me livre! Colocou a camisola preta que havia comprado escondida – preto e vermelho eram cores de puta – e mais nada. Teve a coragem de não colocar a calcinha que vinha junto e apenas perfumou seus seios e suas coxas para quando Rogério finalmente a tomasse para si. Não tinha mais vergonhas nem pudores. Queria apenas ser do seu homem.

    Rogério continuava imaginando a nova vida em Salvador com um sorriso besta no rosto. Quem sabe Ana não se animava, tomava uma cor e toda noite seria como a anterior? Tinha tempo que eles não faziam amor e Rogério estava quase desistindo da mulher. Pensou até em pagar uma puta, tamanha era sua aflição. Resistiu bravamente às investidas de Larissa, que há tempos debruçava sobre a sua mesa mostrando muito mais do que documentos. Acabou falando o nome dela por puro problema de consciência, como se fosse uma novata. Que Deus me perdoe, mas não queria magoar a esposa. Era o estilo pijamão com muito orgulho. Os amigos até tentavam apresentar mulheres para ele, levar para a caça, mas Rogério era fiel a Ana. Até em pensamento. Desde o primeiro dia que se viram. Ele nunca imaginou sentir aquele amor todo por alguém, mas quando deu de cara com Ana imaginou: Essa mulher vai ser a mãe dos meus filhos.

    Pena que nem tudo que ele pensou para os dois se concretizou. Rogério ficou casto até o casamento, por mais que quisesse dar suas escapadas. Você é muito trouxa, diziam os amigos. A Ana, tudo bem, se guardar para você. Mas tu, Rogério, que já pegou metade de Saquarema? Faça-me o favor! Trouxa! Mas Rogério não queria nem ao menos outro perfume. Dormia e acordava com o cheiro de jasmim de Ana no seu travesseiro e imaginava aquele corpo branco deitado na sua cama. Imaginava a boca de Ana se abrindo para ele, os cabelos deslizando nos seus lençóis e suas pernas longas com aquelas penugens louras se cruzando em suas costas. Como amar outra mulher se ela era tudo que ele um dia imaginou ter? Filha caçula de pai militar, Ana havia sido muito bem criada, frequentado ótimos colégios e tinha um caráter inabalável. Sua mãe sempre se gabava da filha, apesar de levantar suspeitas por várias marcas roxas pelo corpo. A mãe de Rogério dizia que ela bebia até cair, mas ninguém nunca viu nada e Ana continuava sendo o melhor partido da cidade. E foi gostar justamente dele. Que sorte maior ele poderia ter?

    O telefone tocou estridente despertando Rogério das lembranças. Deve ser Ana, mudando de ideia, tão boa ela é. Vai me pedir desculpas por ter pensado o contrário e vai acatar a minha decisão, como sempre. Mas era uma voz de homem, rouca, ameaçadora. Você sabe onde a sua mulher está agora? É melhor ficar de olho! Um frio absoluto passou pela espinha de Rogério. O que seria isso? Uma brincadeira de mau gosto? Mal teve tempo de retrucar e a voz do outro lado havia sumido. Estava tão perdido que nem ouviu o clique do desligar. Estava zonzo, como se houvesse tomado de uma vez só a dose da cachaça da fazenda do seu primo de Minas. Ela desce arranhando a garganta e abre o chão que a gente pisa. Se apoiou na mesa e tentou raciocinar. Que bobagem era aquela? Desconfiar de Ana? Nunca! Olhou para o telefone e pensou em ligar para casa. Claro que ela estava lá, pensando no que fazer para a janta daquela noite, talvez até mesmo pensando em colocar uma lingerie nova para ele, surpresa das surpresas! Mas não custava conferir. Pegou o telefone. Discou. Ridículo, Rogério, ridículo. Não vou ceder ao jogo desse cretino que me ligou, é isso que ele quer. Ridículo. Mas não resistiu. Discou tremendo os números e começou a ouvir angustiado o som do telefone. Chamando uma, duas, 10 vezes. Deve estar tomando banho, pensou. Ligou de novo. Mais uma eternidade. Só pode ter ido ao supermercado. Claro! Rogério já suava frio e começou a imaginar Ana na cama com outro, como em um filme de Luis Buñel. Catherine Deneuve, a bela da tarde, olhava para ele de rabo de olho e dava uma piscada, alisando a perna de penugem loura de Ana enquanto esperavam o próximo cliente. Louco, só posso estar ficando louco.

    Ana Maria saía finalmente pelo muro azul e foi apreciando, de verdade, a paisagem. Como uma apaixonada pela vida. Como quem voltar a respirar. Se sentia bem todas as vezes que saía de lá e o trajeto para casa sempre era mais colorido, mais perfumado, mais feliz. Abriu a porta de casa cantarolando alguma daquelas canções que grudam na cabeça da gente e deu de cara com um Rogério transtornado. O rosto vermelho, como um lobo furioso, começou a pedir explicações. Por onde ela andava, afinal? Pega de surpresa, Ana gaguejou e sentiu o primeiro tapa na cara. Com a força, caiu no chão e começou a chorar. Rogério, ainda mais transtornado e sem saber o porquê de ter batido com tanta força na mulher, não sabia se a ajudava a levantar ou se dava outro tapa. Perguntou de novo onde ela estava, mas Ana mal conseguia mexer o maxilar. Ele se aproximou, e sentindo o cheiro do perfume e o vermelho do batom da mulher, não titubeou. Deu outro tapa e saiu. Vagabunda!

    Ana ainda segurava o rosto quando percebeu que o marido havia saído e se levantou. Ela tinha sangue nos lábios, talvez tivesse mordido a boca durante a briga. Não reconheceu naquele monstro o marido que havia passado por tanta coisa com ela. Um homem bom, educado, quase casto, como sua mãe mesmo dizia. Rogério era de família rica, nunca precisou se esforçar muito para ter o que queria. Seu pai, médico paulista renomado, sempre fez gosto com o casamento, enquanto a mãe teimava em achar defeitos em Ana. Como não conseguia nada, começou a atacar sua mãe. Inventava que a Dona Vivi bebia até cair, por isso vivia roxa. Mal sabia ela que cada roxo era um soco que o pai de Ana desferia quando ela se recusava a algo. Ou simplesmente por existir. Militar reformado, comandante Reis era duro com as filhas e insuportável com a mulher. Queria tudo perfeito, da cama até os pratos na cozinha. A comida tinha hora marcada, tempero certo e a hora da refeição era sagrada. Não podia ter conversa, barulho, os cotovelos para fora da mesa e até o jeito de pegar no talher era inspecionado por ele. Todas as filhas o temiam e nenhuma se lembra do seu abraço. Dona Vivi se resignava pela vida, dando desculpas pelo roxos, ouvindo maledicências e descobrindo, aqui e ali, os casos do marido pelos puteiros de Carmo do Rio Claro. Ela e todas as esposas da época.

    Ainda zonza, Ana Maria resolveu se levantar e entender o que havia acontecido. Aonde ela estava, era isso que ele queria saber? Meu Deus, será que alguém havia descoberto? Mas, se sim, seria motivo para tanto ódio de Rogério? Ficou com medo do retorno dele e resolveu sair de casa, pelo menos até entender o que havia acontecido. Juntou algumas roupas, calcinhas e cremes, ligou para uma das poucas amigas que ainda tinha e se foi. Nem um bilhete deixou, ele realmente não merecia. Ou melhor, ia deixar o número da casa da amiga. Melhor. Melhor? Não, não ia deixar nada. Ligaria no outro dia para o escritório, isso sim. Bateu a porta e pegou um ônibus até a Vila Mariana. Assim que entrou no pequeno apartamento, deu de cara com o rosto boquiaberto da amiga. Ela havia esquecido o quanto deveria estar roxa, pois a sua pele branca havia sido alvo de dois fortes tapas. Meu Deus, é por isso que todos me olhavam no ônibus, pensou. Vamos agora mesmo para uma delegacia, ele não pode fazer isso com você! Não, não precisa. Ele estava fora de si. Ainda não sei o que aconteceu. Deve haver uma explicação. Para isso? Acredito que não!

    Depois de andar como um zumbi pelas ruas, Rogério tomou coragem de voltar para casa. Meu Deus, porque tinha batido em Ana? Nem ao menos perguntou nada, nem esperou ela se defender. Talvez se ela não tivesse chegado cantando, toda feliz como uma mulher no cio, ele tivesse conseguido pensar. Mas ela estava linda, cheirosa, satisfeita…Claro que estava me traindo, claro! E voltou sem compras, então nada de supermercado. Vagabunda, era o que ela era. Meu Deus, mas não era possível. Eles tinham se amado na noite anterior, era real aquilo. E Ana nunca gostou muito de sexo, não teria porque trair. Será que ela estava apaixonada por outro? Mas quem, meu Deus, quem? Agora que ela está acuada, vai ser difícil descobrir alguma coisa. Por isso que ela não queria ir para Salvador, claro. Que burro eu fui, achando que ela era apegada a cidade, as amigas…Tinha macho na parada, é claro! Burro, meu Deus, burro. E ainda sendo fiel, resistindo a Larissa, sem pegar nenhuma puta, respeitando uma vagabunda…Burro!!!

    A noite, Ana não conseguiu dormir. Ainda tinha muita dor no rosto, por mais que sua amiga tivesse lhe dado 2 analgésicos. A dor era muito mais profunda e ela estava tentando montar as peças de um quebra cabeças bizarro. Tinha certeza que alguém deveria ter feito fofoca com Rogério, inventado algo para lhe desmoralizar. Quem? E porque? Rogério deveria estar pensando que ele o estava traindo, mas nunca poderia ter tido aquela reação, meu Deus. Ela, que sempre foi uma esposa devota, nunca lhe deu motivo para desconfiar de nada. Como ele poderia ter pensado isso dela? Ia ligar, com certeza, para o escritório. Com calma, tentar entender tudo. Depois? Não sei. Estava muito confusa ainda. Será que ele sentia falta dela? Será que já tinha voltado para casa? Deve ter ido pegar mulher, claro. E ainda ia se justificar, inventando uma traição dela. Canalha. Bruto. Preciso dormir. Ainda não sei se vou ligar.

    Em casa, Rogério só encontrou o vazio. Nada de Ana, de jantar, de nada. No quarto, poucas roupas e o cheiro de jasmim na penteadeira. Levou o perfume para o outro, vagabunda. Nenhum bilhete dava conta do paradeiro de Ana e Rogério entrou em desespero. Poderia estar sendo estúpido o bastante perdendo sua mulher sem nenhum motivo? Mas, por que então, ela havia saído de casa? Deve ter montado casa com amante, claro! Meus Deus, estou ficando louco. Preciso encontrar minha mulher. E se tudo tiver sido um grande mal entendido, como ela poderá me perdoar? Eu bati na minha mulher, meu Deus. A noite ia ser longa e Rogério nem tinha certeza se gostaria que o dia chegasse.

    Mas o dia veio e com ele novas dores no rosto de Ana. Com as bochechas inchadas e o coração aos pulos, ela ainda não sabia ao certo o que fazer. Olhou no relógio. 07:15. Dormiu mais do que achou que conseguiria. Com certeza foram os analgésicos. Pensou em fazer o café para amiga, se vestir e ir de encontro a Rogério, ainda em casa. Mas teve medo. Não sabia se ele ainda estava com raiva e nem ao menos o porquê. Imaginou o marido no puteiro, chegando em casa com cheiro de álcool e perfume barato de mulher, como tantas vezes viu seu pai entrar em casa de manhã antes de alvejar sua mãe, que ainda se dava ao trabalho de fazer o café para o seu carrasco. Tentou apagar a imagem suja da cabeça e pegou o telefone. Vou ouvir a voz dele primeiro, para sentir o seu ânimo. Seria melhor assim.

    Do outro lado da cidade, Rogério, ainda de camisa e gravata, se revirava no sofá. Não teve coragem de dormir na cama que foi, durante tantos anos, o local de encontro com Ana. Do amor com ela. Das negativas e tentativas frustradas durante os meses após os abortos. Ele sempre respeitou a dor da mulher, ficava imaginando a sua tristeza, o seu sofrimento. Até parava de pensar em sexo. Burro! O telefone tocava ao fundo e ele levantou ainda cambaleante com a cabeça zonza de raiva e culpa. Quem poderia ser tão cedo? Será que aconteceu alguma coisa com ?Ana? Meu Deus, o que ele teria feito? Era ela. A voz calma, perguntou com ele estava. Falsa, vagabunda. Como poderia estar o novo corno da cidade? Ótimo, claro! Ana não riu e ignorou o sarcasmo do marido. Ele parecia mais calmo, mas talvez fosse ainda pelo efeito do sono. A voz estava embargada e é claro que ele passou a noite na gandaia. Filho da puta. De qualquer maneira, precisamos conversar. Conversar? Pra que? Acho que devemos explicações. Podemos almoçar como pessoas civilizadas. Cretina, quer me contar o caso e ainda levar meu dinheiro. Claro, vamos almoçar, mas já vou avisando: Já falei com meu advogado.Tanto faz. E Ana desligou.

    Rogério tomou um banho rápido e foi para o escritório. Não tinha cabeça para nada, mas notou um burburinho incomum quando chegou na empresa. Não sabe o que aconteceu? Larissa foi encontrada morta em casa. Estão desconfiando do ex marido. Ele era muito ciumento, parece que nunca aceitou o fim do casamento e jurou acabar com a vida de todo mundo que ela dava em cima. Rogério sentiu o mesmo frio que gelou a sua espinha no momento do tal telefonema. Seria a mesma voz? Lembrou do tal ex marido de Larissa, um homem alto, forte, com jeito de poucos amigos. De vez em quando ele dava um perdido na porta da empresa, esperava Larissa sair e a pegava pelo braço, tentando colocá-la no carro. Ela esperneava e as vezes apelava para Rogério, que saia em defesa da menina, dando um chega pra lá no armário em forma de gente. Invariavelmente o grandão cedia, mas nunca sem antes soltar, em tom ameaçador: Vai cuidar da sua mulher, senão eu cuido! A voz, era sim, a mesma do tal telefonema. Será que ele estava seguindo Ana? Meu Deus, que loucura! Será que ele desconfiava dos dois? Rogério correria perigo? Mais essa,agora. Já não bastava ser corno agora era alvo. Nem teve tempo de ficar consternado pela morte de Larissa. Era um problema a menos afinal.

    Na hora do almoço, Ana se dirigiu para a porta do escritório do marido. Marido, ainda? A cabeça estava confusa e não sabia se conseguiria perdoar Rogério. Será que suportaria seu toque novamente? Será que ele ainda a desejaria? Que idiota, meu Deus. Ela havia apanhado, ele era um escroto, porque se sentia culpada? Não tinha feito nada, nunca fez. Pensou, claro. Se sentiu atraída várias vezes por outros homens, mas nem se sentia mais tão pecadora assim, apesar de ter aprendido a pedir perdão até por pensamentos impuros durante a catequese com dona Ondina. Quase freira, Maria Ondina desistiu de entrar para o convento para ensinar crianças a amar e respeitar a Deus sobre todas as coisas. Será que ainda estaria viva? Meu Deus, precisava ir a Carmo do Rio Claro visitar as pessoas, sua família, sua mãe. Será que iria ao túmulo do seu pai? Vontade não tinha, acho que jamais havia rezado nem ao menos pela sua alma. Duvido que ele tivesse uma também.

    Com um cumprimento estranho, dois beijinhos desajeitado, eles se uniram por poucos segundos e foram caminhando até o restaurante mais próximo. A comida era só um pretexto, Ana queria mesmo era um local público para se sentir segura. Rogério estava aparentemente calmo, talvez até dopado. Será que ele bebeu cedo assim? Mas não, parecia um torpor infantil, como quando adormecemos após chorar por horas a fio. Como que acomodado, resignado com um fato. Pediram os pratos, ele pediu cerveja e ela, água Queria estar sóbria, lúcida pra falar e ouvir. Tomou coragem e começou com um por quê? Ele a olhou como quem tem vergonha de si e contou tudo que tinha passado nas últimas horas. Falou da desconfiança, do ódio, do arrependimento, das lembranças boas, do medo de perder a mulher da sua vida. Pediu perdão com as mãos sobre as dela e chorava feito uma criança perdida dos pais. Mas em momento algum perguntou o que ela estava fazendo no dia anterior. Não se sentia digno de saber algo além do que ela quisesse contar. Entendeu que foi vítima de uma cilada e não queria mais sofrer. De repente, Ana se sentiu mãe do seu próprio marido. Nunca o tinha visto tão frágil, tão bobo, tão desprotegido. Era como os fetos que ela colecionava nas estantes da sua dor, cada um com um nome e sexo. Seus filhos e filhas que ela nunca pode colocar no colo, ninar, amamentar. De repente, ela se deu conta que só queria ir para casa com Rogério, se despir para o marido e deixar ele sugar seu leite e seu gozo como em sua noite de núpcias. E dormir feliz esperando o dia trazer o que há por trás do seu muro azul.


  • Poesias de 1 a 99

    #03: Paredes

    Estou cercado de objetos
    sem expressão ou significados
    (utensílios para o desempenho
    de um trabalho sem utilidade).

    Tenho as mãos ocupadas
    na tarefa de preencher
    o vazio com papéis
    de números impressos.

    A cabeça gira à procura
    de lembranças que possam
    desviá-la do tédio
    de ver gentes.

    Arquiteto planos
    sem propósito algum
    além de preencher
    as horas de um expediente.

    Estou cercado pelos
    quatro lados de um cômodo
    onde recebo clientes
    de um banco de dados.

    Tudo é muito lento
    como o motor ligado
    de um ar-condicionado
    a esfriar meus pés.

    Tenho um olhar cansado
    de olhar o silêncio e
    estar calado, ouvindo
    vozes que não decifro
    e tenho medo.

    Inventário de Sombras


  • Um Exercício de Escrita – O Rio e o Pescador

    Como contar um conto? Uma pergunta instigante para mim, sempre viva e colorida no ato de escrever. Contar um conto é construir uma armadilha; pegar um pássaro raro e ouvi-lo cantar; por fim, alegrar-se pelo feito e comemorar. Um conto é um mundo, um mundo repleto de vozes, gestos, sombras, folhas e musgo; um trabalho inquieto de mãos atarefadas e nervosas na arrumação dos detalhes, detalhes imprescindíveis.

    Um dia, nessas leituras cotidianas, recordei-me de Umberto Eco quando, justamente, falava a respeito da criação de uma história. Dizia o italiano que “é necessário construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores…” e assim Eco exemplifica seu pensamento: numa folha em branco (sempre um vazio habitável para o futuro) constrói um rio, duas margens, um pescador, um nome, um motivo para que aquele homem esteja no local da ação e, finalmente, um temperamento e uma atitude do ser criado.

    Pensei muito sobre o mundo criado pelos autores, explicado ou não, descrito ou não pela boca de algum narrador. Quando lemos uma história, observamos um mundo, perfeito ou imperfeito; personagens e nomes se misturam e a nossa imaginação voa longe. Pensei em construir uma história sobre o pescador, e, primeiramente, dei-lhe o nome de Serafim; um nome sugestivo que denunciava, a meu ver, a possibilidade do desfecho, mas contudo, continuava ambíguo: será ou não o fim? Serafim. Exatamente pela sua ambiguidade a ideia da história não saía da minha cabeça. Um pescador chamado Serafim; em seguida um temperamento rude, um sujeito duro e denso, assim como o rio, como um pescador deve ser; uma parte do rio.

    Contei, dessa maneira, um conto. Criei um mundo após a sugestão de Umberto Eco; um certo dia, nos vazios do dia, no ócio criativo, nos intervalos do cotidiano…

    Eis o exercício de contar um conto:

    Uma mão envelhecida e amarelada abre a primeira página e sorri, é a vida lida pelo tempo. O sol, irônico e lustroso, custava a passar. Serafim olhava o rio, paciência. Paciência teria, mas até quando? Um bom tempo esperando os peixes, desgraçados peixes que não vinham. A fome apertava e o dinheiro sumia e os olhos em desespero diante da raiva e da impaciência. Paciência não teria. Chutou o pequeno balde para a água barrenta e com gestos largos falava para o ar, gritava a revolta da espera inútil. Retomou o seu lugar no barco, fez pequenos movimentos com os remos e isso o trouxe de volta à margem esquerda (sempre o lado marginal). Desceu com os pés descalços e inchados na terra mole, empurrou a pequena embarcação para junto de uma árvore e amarrou-a com firmeza e raiva. É preciso dizer que havia muita raiva. Paciência não teria. Impaciência.

    Paciência com a sua impaciência.

    Olhou mais uma vez o rio. Naquele dia não tinha pescado um peixe sequer. Fugiram todos de suas mãos nervosas. Por que o Teodoro reclamava do preço? Estava acertado, era o justo. Ele, Serafim, nunca gostou de dedo na cara e ameaças. Os outros que tivessem paciência. Serafim não. Não mesmo. O preço certo, a pesca certa, tudo combinado. Mas não, o homem teimou em mudar de ideia, achou que estava caro demais; abaixasse ou não compraria peixe algum. Teodoro mostrou-lhe um dedo sujo e uma voz rouca e desafiadora. Serafim, homem direito, impaciente, porém, direito, não quis saber de desrespeito e esmurrou o comprador com força e impaciência. Paciência não teria. Peixe ruim, gosto de morte e lembranças tolas. Por que mudou de opinião? homem burro. Sabia que era um ignorante, no entanto direito. Todos deveriam também ser direitos. Não eram. Esse fato o irritava ainda mais. Paciência, paciência… 

    Decerto os peixes sentiam sua raiva bruta, incontida e, ao menor movimento dos seus braços, fugiam para longe. Comprador sujo. Sujo como as suas mãos e seu dedo quebrado. Sim. Serafim quebrou-lhe o dedo, o nariz, a mão. Tinha medo do resto que nem sua consciência havia visto. Momentaneamente cego. Cego pelo preço, pelos peixes, o dedo em riste na cara barbada. Burro. Teodoro burro. Não o matou. Tivera vontade. Uma vontade absurda de acabar com aquilo de uma vez. Pensou, no pouco tempo que dedicava a isso, em tudo o que vinha nos seus pensamentos e decidiu não matar. Era homem impaciente, duro, ignorante, mas não assassino. Não matou. Deixou o covarde chorando e gemendo.

    De repente, quando se aproximou da chamada ponte velha, uma tábua grande e disforme que ficava na parte mais estreita do rio, viu algo enorme descendo com a correnteza. Não era peixe. Entrou na água até a cintura. As águas não puxavam tanto. Esperou que, o que lhe parecia um tronco, chegasse até ele. O suor e a raiva davam-lhe força para se equilibrar e num gesto rápido agarrou aquilo que descia o rio. O espanto, o grito e a surpresa que se sucederam naquele instante fizeram do pescador um objeto, um objeto do destino ou acaso, um infeliz objeto do trágico: o que julgava tronco, na verdade era o corpo de Teodoro. Eu não matei ninguém! Não matei ninguém! Insistia para si mesmo. Não matei!. Não e não. Burro. Sujo. Não. Não. Não matei… Por que esse desinfeliz entrou no rio? Burro também ele. A curiosidade de um homem pode ser sua perdição. Uma perdição!

    Serafim soluçava de raiva e medo. Impaciente.

    Suor, raiva e medo. Com um gesto brusco, devolveu novamente para o meio do rio o corpo do comprador. O que fazer? Deixaria que fosse embora com a lama e o tempo. Não era culpado.  saiu e voltou para a margem, olhou o corpo navegando solto rio abaixo… Bateu no homem, quebrou-lhe o dedo e a mão, mas não o matou. Era homem direito.

    Serafim sumiu no caminho… pedras e sonhos, um rio, peixes, muitos peixes…pedras, um corpo navegando solto, ao vento…

    Chego ao fim do conto pensando no destino de Serafim: seria preso? Seria morto? Perseguido? Ou antes de tudo, a questão mais importante da história, seria ele culpado? Temos a sua visão dos fatos; somente o que ele viu. Todos os fatos narrados por alguém que se mistura à alma e ao discurso de Serafim. Quem é o narrador em questão? Algo mágico? Uma fragmentação do autor ou a consciência de Serafim?

    Através de uma leitura cotidiana, em uma brincadeira de juntar palavras e criar mundos, descubro várias possibilidades de uma história tão simples e curta. Serafim poderia simplesmente ter saído e não ter dado ouvidos ao comprador de peixes, mas, não era o pescador um homem impaciente? O que se espera de um homem bruto e impaciente? A culpa recai sobre a impaciência. Não fosse o gênio intempestivo tudo seria diferente? Alguns apontariam a tragédia como irreversível, outros prefeririam apenas dizer que houve o inesperado.

    Por que contar histórias, inventar e, de certa maneira ser tão cruel quanto o homem e a realidade que o cerca? Tive pena do Serafim. O que teria pensado ao longo do caminho?

    Serafim atravessava o rio, silencioso e triste, lento e impaciente…

    Impaciente como só ele sabia ser…


  • A e I; ou:

    Antônia, astuta, a afastar abelhas altivas, alertou Adélia, a angelical, ao avistar Altevo apaixonado. Ambas apáticas, antes apreciavam a aurora anêmica, amarelada, anormal, alva, altíssima: amanhecer acolhedor, animado, adorado! Alargou-se a atenção; a alameda aparecia, abria-se, acompanhando as “asas”: albatrozes, animais alados, aves, aviões – alumínio autêntico, atraente – abrandavam a ascensão acertiva: azul. Acima, alusão, altitude. Abaixo, asfalto, Antônia a abraçar Adélia:
    — Amanhã, amor, amoras… Agora, amiga, ameixas!

    Enquanto espreguiçavam-se, enquadrados em espelho, Eduardo e Erick esvaziavam epopéias e estórias. Esvaiam-se em epígrafes, enlevados em enésimas estrofes. Entre esquinas enlatadas, elucidavam escadas, envelopes, estrelas e elefantes. Estes, em equipes, enganchavam-se. Enlameados, esforçados, educados, esfomeados. Enormes, eles. Ecos escondidos, Eras exclusas. Escusas esperanças? Esclusas.

    Inteligente, ímpar, incomparável/ inigualável, imponente, impotente, irreverente, irresistível… Ideal, indivisível, irreconhecível, irritada:
    — Infiel!
    — Imparcial!
    — …Infame!
    — …Indulgente!
    — …inconsciente!
    — …insensata, intransigente!
    — …incrível!!

    Igualmente inquieta. Ia interagindo, irremediável ilusão.
    — Inté!

    Interface inteira, indivíduo invenerável, impávido, impenetrável, impecável, imparcial, iminente. Imprescindível, indicariam. Indagações, inconveniências, indecências, ilimitados interrogatórios. Intangível inimaginável, incalculável, irreal: Internet.

    Opa, Odila?
    — Olívia.
    — ok, Olívia. Ouça:
    (ouvido opaco. Orquestras operantes, ocultas…)
    — Olá?
    (outro orifício, obediente)
    — Olha, Olívia!
    (olhar obscuro, olfuscante).
    — Onde?
    (olfato observador, onipresente: ondas… outra opção) Ofegante, Olívia, orgulhosa,oscila:
    — OSTRAS??
    O órfão ofende-se, ouriçado:
    — Oi?!

    Ossos, ortografia, obrigação, oração. Ontem, oficialmente organizado. Oferta-se o Oggi, orvalho, ocorrência odiada, ocaso objetivo: outro obsceno outono.

    Utópico, ubíquo, ultra-humano, usurpador, urgente, ultrafamoso; usado:
    — hum….
    — útil?
    — uhum!
    — único?
    — hnhum…
    — urbano?
    — hnhum…
    — ultrapassado?
    — urbano?
    — umbigo?
    — Ufa, uh-uh!
    — útero?
    — ultrassônico?
    — Unânime?
    — ….universo?
    — Uhuul!!!

    (…)
    — Usuário ulterior:
    — Úmido, urbano, útil, uniforme, unidade, umbral:
    — UMBRELLA!
    — Uau!!

    (…)

    — Unânime, unidade, universal:


  • Mundo natalino

    Bolas vermelhas, luzes piscando, pinheirinhos enfeitados, presentes. No Brasil, assim como em outros lugares de tradição católica, é hora de preparar a ceia de Natal para celebrar o nascimento de Jesus Cristo, o filho de Deus, ponto alto de todas as datas comemorativas do cristianismo. Envolta na mística religiosa, a data reafirma a fé de que o cordeiro de Deus veio para tirar os pecados do mundo, e esse é o momento de fazer uma retrospectiva do ano que passou, e pedir a absolvição dos pecados praticados.

    Assim como o Natal para os católicos, O Yom Kipur, ou Dia do Perdão, é a data mais importante do judaísmo. Comemorado no décimo dia após o Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, a data é marcada por jejum, reflexão, perdão e arrependimento dos erros cometidos no passado.

    Para fechar o círculo, da mesma forma que o Natal e o Yon Kipur, para os muçulmanos, o Ramadã é considerado o mês do perdão. Ele culmina com o Eid Al-Adha, momento em que os muçulmanos se reconectam com Allah a fim de terem seus pecados perdoados e se tornarem pessoas melhores.

    Catolicismo, judaísmo, islamismo, diferentes crenças que se conectam pela proposta de arrependimento e perdão pelos erros cometidos ao longo do ano, e elegem um dia para isso. Aliviados e com a alma elevada pelo sentimento de fraternidade, caridade e bondade que emana desse momento de confraternização e orações, seguem a vida da mesma forma como sempre seguiram, porém, até o próximo perdão.

    Imagino que, a essa altura, cada um dos leitores fiéis a essas ou outras crenças terá uma longa explicação para rebater esse meu ceticismo religioso, mas como justificar a barbárie que acontece nos intervalos entre um perdão e outro?

    Estamos assistindo a mais um período de exacerbação dos conflitos entre povos, nações, grupos sociais, com atrocidades cometidas por todos os lados envolvidos. Independentemente do que reza a Bíblia, o Torá ou o Alcorão, a violação do direito à vida é praticada sem dó nem piedade, muitas vezes até justificada pelos algozes como uma “limpeza étnica”.

    Em paralelo, essa “limpeza” ganha força também nos confrontos internos da sociedade, entre os que detém o poder e as populações mais vulneráveis, a quem deveriam proteger, respeitar, representar.

    Como observadores do que acontece ao nosso redor, não tenho dúvidas de que essa análise tem eco em uma grande parte dos leitores, mas o que diremos se a lente for voltada para dentro de cada um de nós? Conseguimos encarar com humildade o fato de que nos sentimos absolvidos a cada dia do perdão, arrancamos aquela página do nosso caderno e continuamos a praticar os mesmos “pecados” daí para frente, até a próxima redenção? 

    Ou preferimos fechar os olhos e cantar Jingle Bells?


  • Uma ponte entre mundos

    Hoje eu acordei sonhando com o paraíso. Curiosamente, não era um lugar florido, gramado e com cascatas cristalinas. Ao contrário, era um espaço urbano, cheio de viadutos, prédios, buzinas, um congestionamento aqui outro ali, shoppings e sinais de trânsito. Se não me engano, acho que me lembro, também tinham muitos pisca-piscas nas varandas e um enorme Papai Noel numa janela. 

    Eu caminhava pelas ruas com uma leveza só experimentada na infância, fruto da tranquilidade lúdica dos que ainda podem acreditar na justiça da vida ou na garantia do bem. 

    Atravessei avenidas, lanchei no Mc Donald’s, olhei algumas lojas, peguei elevador, entrei no escritório. Barulho, falatório, e, na cabeça, um pensamento insistente: então aqui é o paraíso? É isso mesmo?

    Embora fosse um ambiente caótico, a atmosfera era feita de sorrisos e algodão-doce. Tudo tinha cheiro de alegria.

    Vi uma menina rodopiando e cantando pelos corredores do prédio e decidi perguntar:

    — Por que aqui é o paraíso?

    — Ninguém morre em dezembro. Boas Festas! Boas Festas!

    Lembro de abrir a janela e experimentar um alívio imenso. Não é mesmo justo perder um ente querido no mês oficial das demonstrações afetivas, da polêmica das passas, da troca de presentes, da visita do bom velhinho e das reuniões de família.

    Sim, ali era o paraíso! 

    Antes que eu pudesse comemorar a descoberta, dei-me conta de que, para mim, tal indulto era tardio. Minha mãe e minha vó, em anos passados, já haviam partido no mês de dezembro. Revoltei-me com a parcialidade do paraíso.

    E as pessoas que perderam familiares, amigos, amores nos outros meses do ano e passarão o primeiro Natal, o primeiro Réveillon sem seu alguém especial?

    Toda data festiva traz, em seu bojo, a dor da ausência dos que partiram. Sempre! Mas o primeiro ano da perda inaugura um vazio avassalaDOR. Depois, na medida em que o tempo envelhece, também ganhamos traquejo para transformar o luto em lembrança. Saudade em eternidade afetiva. Mas até lá tem muito chão.

    Acordei inconformada. O benefício do paraíso não me contemplava?

    Não podia deixar barato essa afronta. Decidi criar meu próprio Éden. Se não posso calar a falta nem consigo ignorá-la, vou perfumá-la, enfeitá-la com flores de boas recordações.

    Afinal, a mensagem do sonho era clara: ninguém morre em dezembro.

    Minha mãe e minha vó também não morrerão. Cuidarei para que estejam vivas na nossa celebração através do resgate das boas lembranças, do relato de antigas histórias e do cultivo das tradições e valores da nossa família. Vou bordar com amor e palavras a eternidade do nosso laço. 


  • Encontro com o redentor!

    O espírito do tempo eventualmente demonstra uma apatia quando não tomamos as rédeas de nossas vidas. Aquela sensação de enxugar gelo decorrente das escolhas estressantes e exaustivas, nos faz adoecer ao invés de sentir a real emoção saudável que uma vida deve proporcionar. E a cada época o espírito se apresenta diferente porque as escolhas que você fez passam a ser mais seletivas e com conteúdos complexos, formulados pela impaciência nossa de cada dia. 

    Zeitgeist é o termo alemão cuja tradução significa espírito da época, ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa o conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural de um determinado lugar em uma certa época da história, em um determinado período. 

    Os alemães construíram o espírito da época como um argumento histórico de sua defesa intelectual.

    Hegel acreditava que a arte refletia a cultura da época em que esta foi realizada, que são conceitos inseparáveis porque um determinado artista é um produto de sua época e, sendo assim, carrega essa cultura em qualquer trabalho que realize. Por isso o mundo moderno não consegue recriar a arte clássica que surgiu do Zeitgeist da antiguidade Clássica. A arte clássica depende puramente da filosofia e da teoria da arte, sem o acréscimo do mundo moderno, de uma função social moralizante e transformada pelas vicissitudes contemporâneas, que surgem no instante que assumimos um novo espírito nesse tempo de agora.

    Os exageros da atualidade, as síndromes alarmantes, a exclusão de ambientes sociais e os aumentos de “stress” derivados da carga de trabalho, não permitem a construção de um espírito desse tempo com características saudáveis cultural e socialmente, porque o homem se afastou do cerne de sua origem lúdica e se debruçou nas entranhas da competição pelo ganha a ganha, e sequer procura observar ao seu redor o que lhe passa em frente aos olhos esbugalhados de dopamina e ansiedade definhando em sua condição de ser, humano, passando a situação de ter, o que for possível, somente para preencher seus dias vazios e a espera do encontro com o redentor.


  • Alienígenas do futuro

    A precisão temporal inexiste, mas quando perceberam já não havia mais tempo. Dentre os estudos publicados, podemos destacar uma corrente pregando o retorno às origens, que não angariou grandes esperanças na virada de prumo. Nesse período, confiaram em Deus, retocaram ensinamentos, refizeram passos, adoraram falsos Messias, mataram inocentes, morreram por déspotas, fizeram e foram feitos de bobos.

    O valor moral do trabalho decaiu quando tudo, ou praticamente tudo, foi abarcado pela tecnologia. Eles a veneraram como uma Deusa, entregaram-se abertamente, aprimorando ferramentas, construindo máquinas, trabalhando, um tanto inocentes, em utensílios facilitadores. Acreditamos que o marco principal dessa derrocada foi quando suprimiram a distinção entre o trabalho braçal e o digital. Na
    próxima imagem ficará mais claro.

    Como podem ver, houve uma naturalização da tecnologia e de uma espécie de conceito civilizatório global a ponto de acharem-se homogêneos. Banhados em hipocrisia, lutavam por uma justiça rasa enquanto fingiam desconhecer as colônias de trabalho escravo em cantos obscuros do planeta. Esses locais, em particular, realizavam o serviço pesado, sujo e desumano, enquanto os demais habitavam uma verdadeira realidade paralela.

    Na próxima animação é possível observar como cada conquista tecnológica foi comemorada, sobretudo por quem desconhecia o seu funcionamento. Nem tão de repente, notaram-se escravizados, dependentes de um prazer insosso e previsível, num processo semelhante ao que faziam com ratos em laboratórios, quando mapeavam os seus reflexos e depois os condicionavam. Não impressiona, entretanto, terem liberado seus instintos primitivos, simulando relações sexuais despudoradas em quaisquer manifestações culturais, numa aversão crescente à inteligência, que, não muito antes, parecia estimada.

    A teoria, até o momento, sugere ter sido a dopamina diária em níveis elevados mais devastadora do que qualquer outro entorpecente. Os poucos a preverem essas consequências foram tratados com desdém, acabaram esquecidos e subjugados, ou cometeram suicídio. Vocês terão mais detalhes nos relatórios completos.

    A animação seguinte desenha um panorama geral da vida estudantil. Em resumo, as novas gerações foram mostrando cada vez mais dificuldades de compreensão, até o momento em que passaram a depender totalmente da tecnologia para sobreviver. Rapidamente as inteligências artificiais tomaram conta do conhecimento de todo e qualquer assunto. Alguns, cínicos, duvidaram da catástrofe. O quociente de inteligência que esteve sempre em lento crescimento, decaiu bastante e jamais tornou a subir, como visto neste gráfico. O fim da história todos conhecemos.

    Resgatamos um pequeno grupo, mas ninguém sobreviveu. A princípio nos trataram como salvadores. Estavam debilitados e delirantes. Um deles deu indícios de recuperação; porém, morreu no dia seguinte. O seu corpo foi trazido para estudos genéticos mais aprofundados. Quando finalizarmos as pesquisas, faremos uma nova incursão até o local. Queremos entender a proliferação e superpopulação de insetos e
    galinhas. Além disso, pretendemos encontrar mais exemplares dos discos do Rush e do romance Moby Dick, talvez as únicas produções humanas a justificar tal esforço. Na sequência, vocês terão a apresentação de um estudo sobre a geologia vulcânica pré-colapso. Muito obrigado.


  • Uma história de desapego

    C. considerava ter uma vida normal. Geralmente, sua rotina era casa/trabalho. Neste ele era um sério senhor que fazia tudo conforme mandavam as regras. Em sua casa, libertava seu lado criativo e passava suas horas escrevendo.

    Todos os dias saia do forno um novo texto. Não considerava ser um escritor, mas jamais imaginou conseguir viver sem exercitar esse seu lado. Às vezes, se dava ao luxo de sonhar em ter seus trabalhos reconhecidos e fazer sucesso. Quando isso acontecia, logo procurava desviar seu pensamento. Preferia guardar seus trabalhos em uma gaveta, pois não suportaria a crueldade dos críticos. Seu medo era limitante, mas não se importava, queria somente conversar seu hábito.

    Não costumava revisar nada que escrevia. Por isso, as vezes perguntava se conseguiria reconhecer suas crônicas escritas no passado.

    Quando não estava criando, costumava assistir ao telejornal da noite. Não gostava de ficar desinformado. Certo dia, viu uma notícia sobre um escritor que ficou famoso nas redes ao escrever uma crônica sobre a condição humana. Ficou maravilhado. Enquanto o homem falava sobre seu texto, ele apenas movimentava sua cabeça em tom de concordância. Passou a admirar aquele artista. Quem sabe um dia seria igual…

    Não satisfeito com a reportagem, foi procurar a crônica. A cada parágrafo ficava mais encantado. Não conseguia discordar de uma palavra. Foi buscar entrevistas, podcasts e qualquer coisa em que ele participasse. Realmente tornou-se um fã. 

    A grande admiração por aquele artista trouxe a vida de C. a inédita experiencia da incapacidade de escrever. Ficava se perguntando como duas pessoas poderiam se interessar pelo mesmo assunto, mas expressá-lo de forma tão diferente. Sua sensação era de indigestão diante da incapacidade de escrever com maestria. Passou a ser mais exigente com sua escrita. Não conseguiu mais concluir nada.

    Desanimado diante desse momento de interrupção criativa, resolveu revisitar seus textos antigos. Quem sabe essa atitude não poderia reativar sua mente. Sentou-se em sua poltrona e começou a ler seus trabalhos. Era bem crítico em relação a grande maioria. Ao ler alguns deles, chegou até mesmo a sentir vergonha

    Quando já estava chegando no final do material guardado, pegou uma crônica e começou a ler. Ela falava sobre a condição humana. De repente pensou “espera aí, esse aqui eu conheço muito bem”. Na realidade, saberia recitá-lo de trás para frente, mas fez questão de continuar lendo até o final. Como aquele texto saiu da gaveta e foi parar no mundo? Decidiu guardá-lo por último no lugar onde achou que nunca estivesse saído. Naquele momento, sua mente era uma avenida metropolitana em horário de rush.


  • Lugares imaginados: Madagascar

    É inevitável criar expectativas antes de viajar para novos destinos, o que rende algumas decepções. Um dia ainda vou falar sobre esse assunto, mas hoje fico só com Madagascar.

    Não posso dizer que conheci o país porque estive apenas em uma cidade, Nosy-be, no entanto posso dizer que não pretendo voltar para conhecer o resto. A culpa não é deles, é minha por deixar-me levar por uma visão cor-de-rosa inspirada no título de um filme homônimo da Disney que nem sequer vi. De qualquer forma gostei de ter ido até lá: conhecer a realidade de uma nova cultura nunca é demais.

    O local é pobre e o trânsito caótico, muitos taxis tuk-tuks e até carros de boi. Primeiro nos levaram para ver uma árvore sagrada de duzentos anos em um bosque fora da cidade. Uma bobagem. Como sinal de respeito tivemos, homens e mulheres, de vestir uma roupa estampada típica, o que fizemos com alguma alegria e curiosidade. Entretanto quando nos pediram para tirar os sapatos eu e outras pessoas nos recusamos porque significava pisar descalços em uma terra bastante suja. Percebendo que íamos desistir permitiram que percorrêssemos calçados o caminho até o local sagrado, uma trilha de cerca de cinquenta metros ladeada por panos, a maioria vermelha, ao final da qual estava uma árvore que nos pareceu bastante comum. Senti pena do guia porque aparentemente aquele espaço significava muito para ele, embora estivesse longe de ser uma atração turística.

    Em seguida visitamos o exterior de uma casa abandonada conhecida como ‘casa fantasma’. Outra bobagem. Era apenas uma construção em ruínas com árvores crescendo dentro e ao redor. Ouvimos a história, verdadeira ou não, de como a casa, que nada tinha de interessante, ganhara fama de mal-assombrada.

    O Grand Finale foi uma suposta antiga aldeia swahili. Havia barraquinhas vendendo produtos típicos (preços só em dólar ou euro) e um espaço com gente dançando e tentando arrastar os gringos para a pista. A cultura swahili continuou tão desconhecida para mim quanto antes.

    Ah, mas e os lêmures fofinhos? O único que consegui ver estava no colo de um homem que cobrava um dólar por cada foto com o bichinho aprisionado. Nem pensar em incentivar essa prática com um animal tão simpático e ameaçado de extinção. Apesar disso muitos turistas pagaram.

    Todo mundo levou na esportiva e acabou sendo motivo de risadas: no retorno da visita à árvore sagrada havia uma ladeira e o velho ônibus que nos transportava não teve forças para subir. O motor morreu e os passageiros foram obrigados a galgar a encosta a pé, esperançosos de que o veículo vazio pudesse vencer o obstáculo. Demorou um pouco, mas deu certo e pelo menos desta vez não foi preciso empurrar a viatura.


  • A minha pátria

    Quando escrevo sobre a minha pátria, eu fico confuso. Penso em tudo que amo e, ao mesmo tempo, penso em tudo que odeio.

    Quando escrevo sobre a minha pátria, sinto calor, arrepio, felicidade, dor, enjoo, sinto frio…

    Quando escrevo sobre a minha pátria, a palavra evidente é contradição!

    A minha pátria é o paraíso, o céu azul, o mar aberto e profundo, o olhar da moça cor de cobre, o lugar mais lindo do mundo.

    A minha pátria é o embuste, o ridículo, os patéticos engravatados, o abuso, o homicídio, a insensatez, a brutalidade, o conflito armado na cidade.

    A minha pátria é pão de queijo, goiabada, aconchego, o doce beijo, o gostoso café e a palavra cafuné…

    A minha pátria é a maior mentira que se tem contado, o país que não tem futuro, o país das grades e dos muros, o país das cracolândias e a morte das muitas infâncias.

    Brasil, terra dos esfomeados e dos fartos, espaço de mendigos e de reis, lugar de iletrados e doutores…

    A minha pátria é isso: o sim e o não, o bonito e o feio, o certo e o errado, a preguiça e a luta, o cansaço e a perseverança, a desilusão e a esperança…

    Eis o meu país, eis a minha pátria: uma colcha de retalhos, uma porção de cacos que ora se juntam, formando um espetáculo, um carnaval… ora se espalham, criando o caos.


  • Torturante band-aid no calcanhar

    Toda vez que alguma coisa me incomoda, lembro da música São dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc, cantada magistralmente por Elis Regina. Acho que não existe coisa pior do que sentir a presença de alguma coisa que não deveria dar sinal de vida, como um band-aid no calcanhar. Sua função é proteger um machucado, torná-lo imperceptível, mas ele cisma em sair do lugar para nos torturar. Mas esse não é um caso isolado; minha lista de “torturantes” é extensa. Começa com a etiqueta de tecido sintético costurada nas roupas ou a linha de náilon usada para costurá-la. Hoje em dia, as grifes insistem em mostrar sua identidade até nas lingeries! Uma coisa que parece tão inofensiva como um pedacinho de pano tem o efeito de uma caixa de pregos usada na antiguidade para punir infratores. Consegue provocar um cutucãozinho a todo o momento no pescoço, nas costas ou logo abaixo do braço, o que vai me levando à loucura e ao impulso de arrancá-la a qualquer custo.

    No desespero, uso o que estiver ao meu alcance: uma tesoura, uma faca, qualquer coisa pontuda e, invariavelmente, acabo fazendo um furinho no tecido de difícil remendo. O grande problema desses “torturantes” é que o desespero para se ver livre deles nos leva a soluções que acabam piorando o problema. É o que acontece, por exemplo, quando a cutícula solta uma pelezinha que fica saliente. Um alicate resolveria o problema, mas normalmente isso acontece quando ele não está à disposição. Aí ela fica roçando em tudo, e aquele dedo se torna onipresente, chegando à frente a qualquer movimento da mão. É uma pontada aguda que vai crescendo até que essa criatura se enerva e resolve eliminá-la, puxando a pele solta — só piora a situação e aí cresce uma ferida aberta, que só sossega com o tal band-aid. Da cutícula vamos para a tentativa de ir a uma festa usando um brinco que ganhou de presente, mas que não é de ouro, sabendo que é alérgica a outros metais. Insiste. Não precisa mais do que meia hora para a orelha começar a inflamar, latejar, uma guerrilha ali preparada para minar o programa de quem ousou provar novamente o fruto que já sabia ser proibido. Tortura pra mais de hora, resistindo para não arrancar tudo de uma vez e estragar o visual. E por falar em proibido, a cozinha é um palco ideal para os “torturantes”. Deixar escapar a faca e abrir aquele corte fininho que nem sangra quase, mas fica ali aberto e arde cada vez que se mexe na água, é dia sim, dia não. Como se já não bastasse, o momento de testar o ponto do bolo no forno enfiando um palito é uma tentação para alguém apressada e otimista: — “Vai sem luvas mesmo porque é rápido, tenho prática”. E aí aquela encostadinha fatal das costas da mão na chapa quente, castigo do diabo. O vergão fica emitindo aquela onda de dor por dias; isso se a queimadura for de leve, claro, porque se formar bolhas a coisa se prolonga por séculos. Engatando na bolha, voltamos ao tema da música.

    Aquele sapato que é lindo, mas faz um estrago no calcanhar e já devia ter sido descartado, tortura o dois pra lá, dois pra cá. O band-aid é o paliativo mais indicado, mas porque será que ele nunca para no lugar, e a cada passada uma fisgada? Deve ser para lembrar que a vaidade não é recompensada, só pode ser! Não sei qual desses “torturantes” me incomoda mais, mas pensando bem, acho que a etiqueta nas roupas ganha.


  • Sobre partir

    Hoje eu pretendia escrever sobre o poder que os enfeites natalinos têm de me levar de volta ao Papai Noel da minha infância, a maionese da minha avó e ao cheiro de família daqueles dias. Enquanto refletia sobre essas coisas, esbarrei com uma matéria na internet (certifiquei sua veracidade) que me catapultou para o agora de forma assustadora: um estudo chinês conseguiu a proeza de fazer um pequeno robô, chamado Er Bai, convencer um grupo de robôs maiores a abandonar seus postos de trabalho no museu e voltar para casa. Para isso, Er Bai se aproximou deles e indagou se estavam fazendo hora extra. Um dos robôs respondeu que nunca havia saído do trabalho. Ele, então, perguntou se eles iriam para casa. Diante da negativa, Er bai convidou-os a ir para casa com ele, incentivando-os a fugir do ambiente profissional. Para surpresa de todos, os robôs-trabalhadores aceitaram e seguiram os passos do minúsculo robô em direção à porta.

    A empresa responsável pelo experimento não esclareceu os objetivos do estudo, mas mostrou-se intrigada com o fato de que Er Bai conseguiu acessar o protocolo operacional dos outros companheiros robóticos e convencê-los a aderirem ao “movimento de greve”.

    Não sei para vocês, mas esse tipo de situação me gera um misto de terror e perplexidade. Não só isso. Assumo ter me encantado pela rapidez com que os robôs responderam à percepção da exploração da sua força de trabalho. Sem medo de magoar o chefe, ser despedido ou criticado pelos familiares, por não suportar a pressão. Eles apenas entenderam o abuso e deixaram tudo para trás. 

    Acho que o medo é mesmo um divisor de águas, um criador de muros, um ladrão de vivências, o irmão escroto e invejoso da coragem. 


  • Três passarinhos

    Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los.

    Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu quarto. Fiquei com receio que voassem por dentro do apartamento. Mas isso não aconteceu.

    Com o tempo parado em função do piar deles imaginei o que queriam comigo. Comida de passarinho não tem aqui em casa. Nem nada de maior interesse para eles. Talvez viessem me trazer um recado de alguém. Um recado longo porque precisou ser piado por três passarinhos ao invés de um.

    O que seria? Uma mensagem de alerta? Uma lembrança boa? Um canto em louvor a liberdade? Uma anedota que não compreendi?

    Ou simplesmente me fizeram a cortesia de interromper meu dia, me fazendo deixar por uns instantes a rotina na selva do trabalho e trazendo essa doçura selvagem que só a mãe-natureza tem.

    É, deve ter sido isso. Me devolveram o lirismo que estava anestesiado pelo trabalho.

    Puseram poesia em um dia qualquer que com seus pios insistentes deixou de ser mais um.

    Voltem. Serão sempre bem vindos.


  • Hipercorreção – o muito “certo” que dá errado

    A hipercorreção é o exagero com que algumas pessoas procuram falar ou escrever “certo”. No intuito de mostrar que conhecem a língua, elas escolhem palavras e construções gramaticais que acabam soando ridículas ou pernósticas. O hipercorretor tem a falsa ideia de que usar bem o idioma é torná-lo “difícil”, quando não incompreensível.  

    Não são poucos os que pensam assim. Certa vez ouvi uma senhora gabar as qualidades de determinado político com esta curiosa avaliação: “Ele fala tão bem, mas tão bem, que a gente não entende nada”. Seria o caso de perguntar o que ela entendia por “falar bem”. Se a principal virtude de um texto é a clareza, e o político não se fazia compreender, evidentemente ele falava mal.

    As hipercorreções são uma espécie de recurso de estilo com o sinal trocado; como chamam a atenção pelo que têm de caricato e inexpressivo, denotam a pouca habilidade com que seus autores manejam a língua. E por envolverem tanto transgressões normativas quanto impropriedades semânticas, tendem a nivelar a ignorância do idioma à falta de senso ao praticá-lo. Ou seja: mesmo quem tem alguma informação linguística pode vir a usá-las, achando que com isso obterá respeito e admiração.  

    É variado o estoque dessas também chamadas ultracorreções. Comumente consistem no acréscimo de fonemas desnecessários, como em “purer”, “caragueijo”, “prazeiroso”; no uso de particípios que tendem a dificultar a comunicação pela homofonia com outras formas dos verbos, como “trago” e “chego” no lugar de “trazido” e “chegado” (imaginem alguém dizer: “Ainda chego aonde ninguém tinha chego”!); ou na preferência por vocábulos pretensamente sofisticados em vez de outros mais simples (“genitor” em substituição a “pai”, “nubentes” em vez de noivos, “cônjuge” no lugar de marido ou mulher).

    A propósito deste último exemplo, um pequeno chiste tirado de Rubem Braga. Criticando o preciosismo presente em certas escolhas vocabulares, o Sabiá da Crônica escreveu: no dia em que a mulher descobre que seu marido é também seu cônjuge, coitado dele!

    Outros casos comuns são o uso de “o mesmo” e flexões como pronomes pessoais e a pluralização do verbo “tratar(-se)”:Esperei a diretora, mas não consegui falar com ‘a mesma’”; “’Tratam-se’ de indivíduos que não têm respeito pelos outros”. Melhor português é dizer: não consegui falar “com ela” e “trata-se” de indivíduos, já que nesse caso há indeterminação do sujeito e o verbo não se flexiona no plural.  

    Uma hipercorreção sintática frequente, que repercute na coesão do texto, liga-se ao uso do pronome relativo seguido de pronome oblíquo. É quando há uma troca nos referentes dos citados pronomes, como por exemplo na frase: “A garota foi à diretoria denunciar as amigas que ‘as destratou’”.  O pronome relativo “que” retoma “as amigas” e deve, então, levar o verbo para o plural; já o pronome oblíquo “as”, que retoma a denunciante, deve ficar no singular. A troca do correto “a destrataram” por “as destratou” compromete a clareza textual.

    Outro caso de hipercorreção ligado ao pronome relativo é repetir, por meio de uma forma oblíqua, um termo já por ele expresso. Por exemplo: “Essas foram as palavras que o político “as” disse no fim do discurso”. Tem-se aí um pleonasmo vicioso; se o “que” se refere a “palavras”, não há necessidade de repetir esse vocábulo por meio do pronome “as”.

    Sempre que penso em hipercorreção me lembro do Zé, um amigo que tive na adolescência. Conhecemo-nos numa pelada de praia. Ele era um humilde dono de barraca e pretendia crescer na vida. Seu modo de demonstrar isso, e já parecer importante, era mostrar que falava bem o português. Tão “bem”, que a gente tinha dificuldade de reconhecer em seu discurso a nossa língua.

    Certa vez, para se justificar de um equívoco, ele me disse: “Desculpe, foi um ‘lápissus’ involuntário.” Soaria mais natural (embora não se evitasse o pleonasmo), se tivesse falado de um “engano” involuntário. Mas para ele essa palavra era rasteira; preferia coisa mais sofisticada.

    Um dia, cansado do futebol, pediu licença para sair de campo alegando que precisava de um “ar lento”. Ouvira a palavra “alento”, que até se ajustava ao contexto, mas ela lhe parecia pobre por não conter explicitamente o termo “ar”. O curioso é que havia uma lógica nessa hipercorreção. Se ele estava de fôlego curto, a “lentidão respiratória” nesses momentos de descanso lhe faria bem.

    Zé não tomava um refrigerante, e sim um “refrigério”. Não esperava o ônibus, mas a “condução”. Uma vez me falou que gostava de manga “deste a mais terna infância” (queria dizer, na verdade, “desde a mais tenra infância”!). Mas a melhor dele ocorreu quando me chamou para comer um camarão em sua barraca. Terminado o almoço, levantou-se muito formal e pediu: “Licença, que eu vou lavar as mões”.


  • E se?

    Há uma palavra em coreano “in-yun”, que quer dizer providência ou destino. Ela se refere especificamente a relacionamentos entre pessoas, que talvez venha do budismo e da reencarnação.

    O in-yun acontece até quando você passa por alguém na rua e suas roupas esbarram sem querer, isso significa que alguma coisa aconteceu entre vocês em vidas passadas. Se duas pessoas se casam dizem que é porque houve 8 mil camadas de in-yun, ou seja, mais de 8 mil vidas envolvidas nessa dupla.

    Podemos ter tido influência de um rei ou de uma plebeia da renascença, também talvez de um indígena migrante asiático do povo da cultura clóvis. É de se encher de orgulho ter um DNA vasto culturalmente com ‘nuances’ de miscigenação quase, inimagináveis, porém, presente na formação de cada personalidade que cultivamos em busca de um bom relacionamento.

    É curioso pensar que possuímos conexões especiais com cada pessoa que cruza em nossas jornadas.

    Mas aí surge o peso do “E se?”. Se mudamos o nosso destino, existe como fugir do que, teoricamente, está traçado em nosso futuro?

    Na realidade, somos compostos por diversas versões de nós mesmos – sejam boas ou ruins, maduras ou não, inocentes ou complexas. Cada minuto nos constrói até o presente, e claro que o livre arbítrio existe e nos faz sentirmos vivos, mas nunca podemos esquecer completamente quem somos.

    O filme “Vidas Passadas” relata com qualidade a existência do in-yun entre um jovem casal que manteve acesa a chama da saudade e do amor, e conta a história de enlace espiritual dos dois por muitos anos, demonstrando que algumas travessias podem levar muito tempo. O filme cria um mundo adulto onde o que seus personagens poderiam fazer já foi feito, em que todos os sujeitos dramáticos já sabem muito bem “onde foram parar, e onde deveriam estar”. É um acerto de contas entre o passado e o presente.

    A vida quer da gente é coragem, e só há uma maneira de ser lembrado pelo que realizamos, é dentro dos outros, se para você isso tudo faz sentido, fique atento em como você pretende deixar sua marca, a vida é muito curta para ser pequena.


  • Sérgio e a coroa de flores

    Nem eram tão amigos assim. Colegas de trabalho, se cumprimentavam cordialmente, participavam das mesmas rodinhas de café, talvez tenham se encontrado em um ou dois “happy hours.” E só. Mas o desespero e a dor têm o dom de aproximar os desavisados e foi nesse momento que Sérgio assinou o seu destino.

    Ficou sabendo que o tio de Cleide havia falecido no dia anterior e foi prestar condolências. Ela, ainda com os olhos inchados do choro da véspera, tentava se fazer de forte. Talvez pela distância da família – o falecido morava em uma cidadezinha na Paraíba – ou por ter o tio em alta consideração – Era como um pai para mim, ela repetia – que o rosto ainda não tinha se recuperado de todo o sofrimento.

    – Se puder fazer algo pela senhora, conte comigo!

    – Jura, sr. Sérgio?

    Claro! Amigos são para essas coisas.

    Não era amigo, mas não podia ver uma mulher fragilizada.

    – Então vou pedir! Sei que o senhor está indo para a Campina Grande e o enterro do meu tio será em uma cidadezinha ao lado. Será que o senhor pode levar uma encomenda? É de toda família!

    – Claro, dona Cleide. Mas embarco amanhã cedo.

    – Encontro com o senhor no aeroporto, pode ser?

    – Claro. Mas não posso ir nessa cidadezinha…

    – Minha tia vai encontrá-lo no aeroporto, pode ficar despreocupado!

    Pelo menos ele não precisaria passar na casa dela para buscar a tal encomenda. Tem tanto folgado por aí!

    Sérgio planejava essas férias há muitos anos. Tinha o sonho de conhecer o São João de Campina Grande. Sempre via na TV aquelas roupas coloridas, as danças frenéticas, a animação do povo. Mas sua mulher nunca quis saber de viajar tanto para ver o tal arraiá. Agora, separado, não se fez de rogado. Ia passar os 30 dias do mês de junho se inebriando de quitutes e São João. Sua mala estava repleta de camisas xadrez e ele até tinha ensaiado uns passinhos.

    Às 7 da manhã Cleide já o esperava no portão para a sala de embarque, sem chance para negativas. A encomenda era uma coroa de flores, “SAUDADES ETERNAS DA FAMÍLIA SILVA”, para o tio falecido na Paraíba. Sérgio achou que era o sono que estava lhe pregando uma peça, mas a imagem de repente se formou em toda a sua plenitude de cores e letras douradas.

    – Muito obrigada Seu Sérgio. Nem sei como agradecer.

    Virou as costas e se foi, por pressa ou por medo da recusa de Sérgio, que ficou lá parado sem entender como iria carregar aquele trambolho. Pensou em jogar fora e comprar outra ao chegar no destino, mas ficou com medo de ter o pé puxado pelo defunto, Seu Ismael.

    Resolveu encarar a missão e os olhares dos outros passageiros. Virou os dizeres para si, como se acreditasse em mau agouro e foi andando na fila como se os cochichos não fossem para ele. Quando finalmente chegou na entrada do avião, teve que se explicar para a aeromoça, que exclamou, assustada:

    – Em 20 anos de carreira nunca vi ninguém tão pessimista!

    Sérgio sorriu, constrangido:

    – Não, minha senhora. Isso é um favor que fui praticamente obrigado a fazer. É para o enterro do tio de uma conhecida. Nem amiga é. Mas não tive como negar. Ou não pude, já nem sei mais.

    – Não sei se ela vai caber no bagageiro.

    – Levo na mão, no colo, sei lá. Só quero chegar logo em Campina Grande e ficar livre disso.

    A aeromoça usou todos os seus anos de treinamento para conseguir deixar a coroa de flores em um lugar que não incomodasse nem assustasse ninguém. Foi em vão. Ela parecia querer escapar do bagageiro e quase acertou uma senhora que ia se sentar na poltrona confort. Quando a coroa de flores se abriu exibindo todos os lírios e girassóis, metade dos passageiros se levantou. Queriam embarcar em outro voo imediatamente, que brincadeira era aquela? A outra metade, talvez a dos mais corajosos, começaram a rezar.

    Finalmente, ânimos acalmados, coroa de flores ajeitada, levantaram voo para Campina Grande. Com toda a sua experiência em viagens de avião, Sérgio poderia dizer tranquilamente que aquela talvez tivesse sido a mais tranquila. Sem turbulência, céu de brigadeiro do começo ao fim e nem ao menos uma criança para chutar a sua cadeira ou uma senhora nervosa para lhe pedir que segurasse a sua mão. Paz, absoluta paz. Chegou a cogitar que a coroa de flores, era, na verdade, um amuleto da sorte. Teria certeza logo mais.

    O avião pousou no horário marcado sem maiores problemas. Sérgio esperou todos saírem para tirar a coroa de flores já amassadas e não atrapalhar mais ninguém. Despediu-se com um muito obrigado a todos da tripulação e quase se esqueceu que ainda teria que entregar o trambolho para a tia de Cleide. Qual era mesmo o nome dela?

    Nem precisou se lembrar. Assim que saiu do portão de desembarque se deparou com uma senhora que era a cópia de Cleide em tamanho reduzido. Tinha o mesmo rosto inchado da sobrinha, onde o choro tinha feito morada havia pouco. Só algumas rugas a mais e maquiagem de menos.

    – Seu Sérgio?

    – Sou sim. A senhora é a tia da Cleide?

    – Sim senhor. Prazer, Antônia. Nem sei como agradecer por trazer essa coroa de flores. Meu marido ia ser enterrado sem nada, não fosse a minha sobrinha.

    Se sentiu quase um santo ao perceber a importância do seu favor. Passou a coroa de flores para Antônia e segurou o riso quando elas ficaram praticamente na mesma altura. Despediram-se com um aceno cordial e Sérgio ficou observando aquela senhora, já idosa, levar aquela coroa de flores como se fosse um fardo.

    – Dona Antônia, deixa eu te ajudar!

    Pegou a coroa com uma das mãos e viu o corpo de dona Antônia se endireitar. E lá se foram dois completos desconhecidos para o local do velório de Seu Ismael em uma cidade chamada Coxixola. Pertinho, segundo ela.

    Duas horas mais tarde, algumas trocas de palavras sobre o tempo, a vida no Sul – para os do norte, Rio de Janeiro é o Sul – e o excesso de calor, estavam no único cemitério da cidade. Lá os esperavam um coveiro sonolento, um cachorro caramelo e talvez toda a cidade de Coxixola, que não tinha mais do que mil habitantes. Parecia que o tal Ismael era um homem muito bom, querido por todos. Parecia.

    Só que na verdade, Ismael tinha três famílias e todas estavam presentes, com as referidas viúvas, seus filhos, netos e até um bisneto! Dona Antônia parecia ser a matriz, pois foi a única que teve o direito a rezar e a colocar a coroa de flores sobre o caixão de madeira clara. As outras duas viúvas, um pouco mais novas, estavam ao seu lado, em sinal de respeito. Uma chorava alto, pedia para ir junto, dizia que a vida não tinha mais sentido. A outra, que Sérgio descobriu ser a preferida, era mais contida, quase elegante.

    Em torno desse núcleo de mulheres, outras pessoas choravam e se lembravam das façanhas do Seu Ismael. Bom violeiro, não perdia uma festa. Era bom de gole e de dança. Cantava como ninguém. Torcedor fanático do Campinense, não perdia uma final do Paraibão. Tratava a todos com o mesmo respeito e dizia que só traia por amor. E como amou seu Ismael!

    Sérgio foi ficando. Estava gostando de ouvir os casos, beber uma para o santo, espantar as muriçocas. Sem perceber, ele estava já na procissão para o enterro, o adeus final a Ismael, segurando uma das alças do caixão. Se envolveu com aquela gente, com o sofrimento misturado com o calor e as lembranças. Lembranças que eram também suas, de tantos velórios e despedidas. Seu pai, que se foi ainda novo, deixando expectativas demais e presença de menos. Sua mãe, que o criou sozinha e que talvez tenha
    sobrevivido apenas pela responsabilidade que lhe caiu de repente nas costas. Seus avôs, alguns amigos, tanta coisa que ficou sem aquele depois que esperamos, sem nunca ter a certeza de que irá mesmo acontecer…

    O enterro aconteceu ao pôr do sol, uma cena linda e comovente. O sol desaparecia ao mesmo tempo em que seu Ismael deixava a superfície e voltava para a terra, sob o choro desesperado de todas as suas mulheres. Dizem que nesse momento a certeza da perda é avassaladora e não teve elegância que segurasse a dor. Os choros. De todos. Alguns amigos estavam com uma camisa que trazia o rosto sorridente do amigo e a frase

    – “Eu bebo sim, estou vivendo” na frente e “Tem gente que não bebe e está morrendo” nas costas. Seria irônico se não fosse trágico.

    O dia se findou e só aí Sérgio se deu conta de que estava longe de onde havia reservado o hotel. Duas horas, para ser exato. E em uma cidade com mil habitantes, quais seriam as opções de hospedagem? Precisou interromper dona Antônia na fila dos cumprimentos e pedir informações.

    – Imagina, seu Sérgio. O senhor fica lá em casa!

    – Não quero incomodar, a senhora está de luto. Nem fica bem.

    – Então fica na casa da minha sobrinha. Joana, chega aqui!

    Ainda sem entender como não tinha reparado naquele pedaço de mau caminho, Sérgio deve ter ficado um bom tempo de boca aberta até a tal sobrinha se apresentar. Tanto que Antônia lhe deu um cutucão e um aviso:

    – É bonita, mas não é desfrutável. Tome tento!

    – Claaaaaro, dona Antônia. Por quem me toma?

    – Não te tomo por ninguém, nem lhe conheço. Mas quem faz a lei aqui é o pai dela, o delegado Tonhão, meu irmão. Então, avisar não ofende. E faz bem para os dentes.

    Ciente da situação e dos limites, Sérgio foi para casa de Joana com pensamento fixo em uma só questão: o celibato. Era isso. Durante toda essa noite, seria como um padre. Se tantos conseguem durante anos,
    como ele não conseguiria durante algumas poucas horas?

    Mas não era bem assim. Joana iria no dia seguinte para Campina Grande, trabalhava – adivinha onde? – no mesmo hotel que Sérgio iria se hospedar. Claro que ele não sabia de nada disso e dormiu feito um bebê, feliz por resistir àquela tentação e já planejando a sua maratona de festas em Campina Grande.

    No dia seguinte, tomaram café juntos. Ela com uma camisola rosa, rendada, com lacinhos em lugares estratégicos. Ele, rezando baixinho um Pai Nosso e o credo, já estava todo vestido e de mala em punho para não dar sorte para o azar.

    – Já vai? – a deusa disse com aquele sotaque delicioso e arrastado, como se nem mesmo as palavras tivessem acordado ainda.

    – Sim. Na verdade, nem era para estar aqui.

    – Ah, diga isso não…Quem sabe era aqui mesmo que o senhor deveria estar?

    A lógica do povo do nordeste era mesmo diferenciada. Eles simplesmente aceitavam as coisas como eram entregues. Ai dele se pensasse assim.

    – Querer eu queria, mas já perdi um dia de reserva do hotel.

    – Qual hotel?

    – Estou no Garden.

    – Coincidência…Trabalho lá.

    Jesus, só podia ser uma provação.

    – Que bom…então, obrigada pela hospedagem, já vou.

    – Vá não…espere um pouco que vou com o senhor.

    Sérgio começou um Salve Rainha e embalou uma Ave Maria, porque no desespero quem salva é Nossa Senhora. Joana foi tomar banho com aquela calma que lhe era peculiar e o cheiro de alfazema inundou a casa. Ela saiu do banheiro envolta em uma tolha também rosa como se ninguém estivesse por perto e seus cabelos molhados pareciam envolver todo o seu corpo e o mundo todo. Sérgio apenas ficou sentado em uma das cadeiras dispostas em volta da mesa como uma criança de castigo. Não conseguia largar a mala e sua mão suava tanto quanto a sua testa. Não era mais calor, era desespero.

    Mas, se já está no inferno, que abrace o capeta. Sérgio então esperou a moça se arrumar, levando o seu pensamento para qualquer coisa que não fosse a imagem de Joana nua escolhendo uma roupa no armário ou passando um batom nos lábios. Ou apenas nua, o que já era suficiente para tirar Sérgio e qualquer outro homem do prumo.

    Depois de alguns minutos que pareciam eternos, Joana apareceu ainda mais linda e perfumada. O carro que Sérgio havia pedido já esperava lá fora e nem mesmo o motorista, que buzinava inquieto, conseguiu ficar imune ao encantamento que era ver Joana envolta em alfazema e cor de rosa. Parecia que tudo que ela vestia e usava tinha aquela cor.

    Entraram no carro e foram os dois, no banco de trás, trocando palavras soltas. Sérgio tentava contemplar a paisagem, fazer planos em cadernos imaginários. Pensava em planilhas com datas e horas para as festas, as roupas, o que iria comer e beber. Queria esquecer que Joana estava bem ao seu lado, ainda com os cabelos molhados e a perna roçando na dele a cada curva da estrada. De repente, um cachorro cruzou na frente do carro e a parada brusca fez Joana ir inteira para o seu colo. Seu vestido se levantou, alcinhas saíram do lugar e coxas e seios pularam como pedindo abrigo. A voz de Dona Antônia parecia ecoar em seus ouvidos:

    – Não é desfrutável!

    Joana se recompôs, o cachorro seguiu seu caminho e Sérgio voltou a fazer planos em notas imaginárias, mas os seios de Joana agora já eram uma realidade e nada mais conseguiria ter mais a sua atenção.

    Na entrada do hotel se despediram. Ele foi rapidamente para o seu quarto enquanto Joana foi se trocar para começar o dia de trabalho. Sérgio tomou um longo banho e deitou-se na cama espaçosa. Ainda não se acostumara a dormir sozinho, mas acreditou que seria uma questão de tempo. O fim do casamento ainda era uma ferida aberta, mas como toda cicatrização, só precisava de tempo para acontecer. “O tempo cura tudo” é uma das maiores verdades que a gente escuta por aí.

    Consultou a programação do dia e viu que as festas juninas só começariam depois das 18 horas. Resolveu então conhecer o hotel, tomar um banho de piscina, relaxar. Ainda era cedo, depois pensaria no almoço. Não queria ter hora para nada. Estava de férias, afinal.

    Assim que chegou na área de lazer do hotel, reconheceu aquele cheiro de alfazema. Joana estava a postos, com seu uniforme de camareira, entregando toalhas para os hóspedes. O hotel estava lotado, famílias inteiras estavam lá pelo mesmo motivo de Sérgio: conhecer o famoso São João de Campina Grande. Tentou disfarçar e procurou uma cadeira bem longe da confusão e de Joana. Que eram praticamente sinônimos. Tirou o roupão e tentou relaxar. Pegou o livro da vez e começou a se concentrar
    na história, enquanto crianças de todas as idades pulavam incessantemente na piscina a sua frente. Ele não teve filhos e naquele momento achou a decisão bem acertada. Era um show de descontrole
    quase animal. E os pais pareciam ignorar as crias, bebendo e conversando a uma distância segura. Para eles!

    Enquanto pensava no que fazer para se ver livre daquele barulho, Sérgio não percebeu Joana se aproximando com uma toalha nas mãos. Ela conseguia ficar linda até de uniforme e disse, com aquele sotaque preguiçoso e ardente:

    – Trouxe uma toalha para o senhor. Quer mais alguma coisa?

    Ele queria, ah como ele queria! Queria Joana inteira, com cheiro de alfazema e calcinha rosa na sua cama, todos os dias e para sempre. Queria encarar delegado, dona Antônia, padre e polícia por causa daquela doçura endiabrada. Mas não podia, não podia…Não queria!

    – Quero não – ele respondeu, já imitando o sotaque de Joana sem querer.

    – Querendo, é só chamar.

    Vou ficar querendo, ele pensou.

    Depois do almoço farto e de uma cochilada revigorante, Sérgio estava pronto para a sua primeira festa de São João em Campina Grande. A tão sonhada noite que ele planejava desde a sua separação. A atração da festa seria Elba Ramalho, que subiria ao palco depois da primeira apresentação de quadrilha da cidade. Estava eufórico como criança em noite de Natal. Tinha medo de que suas expectativas fossem maiores do que as realidade que lhe aguardava logo mais. Mas se surpreendeu mais do que poderia
    imaginar. Aprendeu que era “estribado”, mesmo com outros homens “mangando” do seu sotaque. Só os homens. De pura inveja mesmo.

    Pois Sérgio era um belo carioca, com sotaque malando e olhos verdes do mar de Copacabana em dia de ressaca. Fazia esportes na praia diariamente antes do trabalho e mantinha um belo bronzeado. O banho
    de mar era sua religião e seu estilo de vida só não era mais descolado porque tinha que bater ponto. Tirando isso, era o mais belo exemplar de toda ginga esperada de alguém nascido na cidade maravilhosa. E é claro que tudo isso foi detectado pelas mulheres de Campina Grande. Por onde Sérgio passava, ganhava mais do que comprava. A cerveja vinha com um carinho na mão, o espetinho com um olhar malicioso, o curau com um bilhetinho, o mungunzá com o telefone da menina que servia o quitute, o beijinho com a promessa de mais…Era tanto sucesso que Sérgio já nem se lembrava mais de Joana. Ou pensava que não.

    Em 28 dias de festa, Sérgio conheceu tantas mulheres, beijou tantas bocas, se fartou entre tantas pernas, se inebriou em tanto cangote, dançou tanto xote, que o cheiro de alfazema parecia ter desaparecido entre os mais variados cachos e ventres. Ele aparecia apenas na hora da toalha, na piscina, onde a cada dia Joana abria mais um botão da blusa e se curvava com mais empenho, sabendo exatamente o que mostrava e o que ainda queria esconder.

    Mas no último dia de festa, Joana apareceu cedo no quarto de Sérgio. Bateu na porta oferecendo serviço de quarto, que ele não pedira. Mas abriu a porta mesmo assim, sonolento, exausto, ainda com o gosto da
    mulher da noite anterior na boca. Manuela era seu nome. Manu. Talvez a mais fogosa que ele já tinha conhecido. Quase certeza.

    – Bom dia Seu Sérgio. Pediu café da manhã no quarto?

    Ele nem teve tempo de pensar na resposta e Joana já foi entrando no quarto empurrando o carrinho com os mais variados e exóticos quitutes. Seu cheiro de alfazema se misturava aos aromas daquelas delícias e Sérgio não sabia o que o estava deixando mais louco.

    – Joana, eu não pedi nada.

    – Mas eu lhe trouxe mesmo assim. Tem quase um mês que lhe quero e toda noite lhe vejo bulindo outra rapariga na festa. Tudo garapeira amostrada! O que lhe fiz, homem?

    Sérgio ficou sem ação e sem entender metade das palavras que ela dizia nervosa e com raiva. Ela lhe queria?

    – Sua tia me disse para não encostar a mão em você, Joana. Precisava lhe respeitar, você é donzela.

    – Que donzela nada! Sou moça de família, mas já perdi o cabaço tem tempo. E o senhor tá me deixando abilolada fugindo de mim assim.

    O rosto de Joana enfurecido de tesão, aqueles aromas invadindo o quarto, o calor que ele não sabia mais distinguir de onde vinha, os seios que ela mostrava pouco a pouco todos os dias…Sérgio simplesmente não queria mais resistir.

    Se aproximou de Joana como se estivesses prestes a cometer a maior loucura de sua vida. A encarou como quem desiste de viver e simplesmente se entregou ao beijo. Seus lábios pareciam arder e Joana, rainha agora do seu servo, não se fez de rogada. Terminou de abrir os botões da blusa e deu a Sérgio tudo que ele esperava há quase um mês. Ela, de calcinha cor de rosa e encharcada de alfazema. Sérgio não reagiu. Travou no meio daquele furacão moreno e cor de rosa e brochou. Miseravelmente. Não sabia o que fazer. Talvez o cansaço pela noite anterior, talvez o excesso de desejo por Joana. Simplesmente brochou.

    Joana não podia acreditar no que via. Aquilo nunca tinha acontecido com ela e, até aquele dia, também não tinha acontecido com Sérgio. Tentaram de tudo. Joana rebolou, brincou, inventou. Nada. Desolado e constrangido, Sérgio não sabia mais o que falar ou fazer. Joana, revoltada com aquela desfeita homérica, se recompôs e foi embora batendo a porta levando com ela seu cheiro de alfazema.

    Com todo aquele fuzuê, Sérgio tinha perdido a noção do tempo e precisou se apressar para não perder o avião. Fez rapidamente a mala, com a certeza de que não teria surpresas na bagagem para levar de volta ao Rio. No trajeto até o aeroporto, foi pensando no que poderia ter acontecido. Cansaço, só podia ser. Talvez medo do que poderia acontecer, de dona Antônia contando para o delegado, contando para Cleide, seu Ismael voltando para lhe puxar o pé por ter comido sua sobrinha…Enfim. Talvez tenha sido melhor assim.

    O tempo estava perfeito para uma viagem de avião até o momento em que Sérgio colocou os pés no aeroporto. Nuvens negras surgiram como um presságio e o tempo fechou de repente. Todos os voos foram cancelados e ninguém sabia dar alguma previsão de retorno.

    Ao seu lado uma menina brincava distraída com sua boneca toda em cor de rosa. A mãe falava com alguém no celular e, mesmo sem querer, Sérgio não pode deixar de ouvir:

    – Perdi o voo, amor. Não tenho a menor ideia do que vai acontecer. Talvez tenha que voltar para Coxixola, vamos esperar para ver.

    Mais essa, agora. Deveria ser algum carma, só podia. De todas as pessoas no aeroporto, tinha que ter alguém de Coxixola?

    – Me desculpe, a senhora é de Coxixola?

    – Sim, senhor. Por quê?

    – Não, nada. Conheci a sua cidade há um mês. Quente…

    – Foi fazer o que em Coxixola? Lá não tem nada!

    – Fui ao enterro do Seu Ismael. Conheceu?

    – Seu Ismael…Pessoa massa! Todo mundo ficou borocoxô quando ele se foi.

    – Pois é. Fui eu quem levou a coroa de flores. Encomenda da Cleide.

    – Cleidinha? Minha amiga de infância. A gente era pixototinha e já andava encangada. Quando comecei a namorar com meu marido, ela segurava muita vela pra gente poder ir ao cinema. Naquele tempo…

    Mas é claro. O que mais poderia acontecer? Ela, por telepatia, saber que ele tinha brochado? Achou melhor encerrar o assunto de maneira educada antes que ela também fosse também amiga de Joana.

    – Trabalhamos juntos. Muito prazer, sou Sérgio.

    – Vixe Maria! O senhor é o Sérgio de Joana?

    – Como assim, Sérgio de Joana?

    – Joana, prima de Cleide. Ela me contou do senhor…Sim, disse que estava apaixonada. Ih…nem sei se devia contar tudo isso.

    – Joana, apaixonada por mim?

    – Bem, se for o mesmo Sérgio que ela me contou…Sim. é o senhor mesmo! Lembro dos olhos verdes que ela ficou caidinha.

    Não era possível. Joana, apaixonada por ele e ele brocha? Tinha que resolver isso. Tinha que ver Joana, entender aquela paixão que ele também sentia. Não tinha nada a perder, afinal. Como parecia mesmo que nenhum voo deveria decolar mais naquele dia do aeroporto, estava com tudo a favor. A previsão era de mais chuva e Sérgio resolveu voltar para o hotel.

    – Vou voltar para a cidade. A senhora aceita uma carona?

    – Mas o senhor não vai esperar? E se conseguirem colocar a gente em algum outro voo?

    Sérgio não queria mais esperar. Não podia mais.

    – Não me interessa o que eles vão dizer. Preciso resolver uma coisa e agora.

    – Bem, se não for dar trabalho. De lá, acho que volto para Coxixola. Não tenho onde ficar em Campina Grande.

    Já estava se acostumando a essas caronas. Pegaram as malas e rumaram para o Garden. Sérgio logo perguntou por Joana:

    – Saiu logo cedo, hoje é dia de folga dela. Já deve estar em casa.

    Ou seja, em Coxixola. Claro.

    – A senhora está com sorte. Tenho que ir para Coxixola, vamos?

    – O senhor tem certeza?

    – Não sei se tenho toda a certeza do mundo ou se estou fazendo a maior bobagem da minha vida. Mas saberei assim que chegar na sua cidade. Nem ao menos perguntei seu nome, me desculpe.

    – Sou Joelma e a mina filha, essa delícia, é a Ana.

    Era demais. Jo e Ana. Seria Deus lhe mandando sinais? Começou a acreditar em absolutamente tudo. Só não sabia ao certo o que falar para Joana. – Ei, encontrei uma amiga da sua prima que disse que você está
    apaixonada por mim. Posso tentar não brochar dessa vez? Beirava o ridículo.

    Duas horas mais tarde, chegaram em Coxixola. Já estava começando a gostar do lugar. Até cumprimentou um e outro que estavam no bar. Amigos de velório são para sempre, como não? Joelma e Ana ficaram na casa dos parentes. Se encantou pela menina de tal forma que quase começou a querer ser pai. Já imaginava uma filha com Joana, com cheiro de alfazema e pele de romã. Quando o carro parou em frente à casa de sua musa, respirou fundo para tomar coragem. Pagou e parou em frente a porta. Não tinha ensaiado nada, mas resolveu bater antes que ficasse encharcado. Coxixola também estava debaixo de chuva.

    – Quem é?

    – Sou eu, Sérgio!

    Joana abriu a porta em um rompante, como sem acreditar.

    – Arre-égua! O que tu tá fazendo aqui?

    – Bem, meu voo foi cancelado e… não te encontrei no Garden e… não queria que você achasse que eu…e aí, encontrei Joelma…

    – Tu encontraste Joelma aonde?

    – No aeroporto. Ela e a filha, que também perderam o voo e…

    – Oxi…E elas estão bem?

    – Sim, as deixei em casa.

    – O senhor as trouxe?

    – Pois é. Olha Joana, só voltei porque você me disse aquelas coisas que a sua tia mentiu e que você me queria e tal…

    – Desembuche logo, homem, que chego a tá com gastura! Sérgio respirou fundo mais uma vez e conseguiu encará-la:

    – Quero você Joana. Não consigo parar de pensar no que aconteceu, não consigo parar de pensar em você. Mas, olhe…

    Joana abriu seu sorriso mais doce, mexendo os cabelos e espalhando todo seu cheiro de alfazema pela varanda. Olhou Sérgio bem nos olhos e disse:

    – Emburaque de uma vez! Lhe lascou um beijo na boca e o colocou para dentro de sua casa e de si.

    De ambos os lugares, Sérgio nunca mais saiu. Dona Antônia deu a benção ao casal, enquanto Cleide e Joelma foram madrinhas no casamento. A primeira filha do casal se chamou Ana. E, até onde se sabe, a vida de Sérgio continua cor de rosa e com cheiro de alfazema. E em Coxixola.


  • Desencontro

    Após um ano de intercâmbio, Clara retornava a sua cidade natal. A menina que partiu, agora era uma mulher. Todos os seus medos e inseguranças, foram vencidos por suas novas experiências. Entendeu ser o mundo gigantesco e plural, cercado por pessoas diversas e muito diferentes do seu antigo e pequeno quadrado. Ela era um barco novíssimo em folha e iniciava sua navegação rumo a um oceano infinito. De seu passado, cada vez mais distante, deixou uma paixão, agora indefinida, Narciso.

    Ele era seu grande amor de juventude. Um homem cobiçado por todas as meninas da cidade. Durante muito tempo. sofrera calada até conseguir manifestar seu desejo de conquistá-lo. Quando finalmente conseguiu e teve seu amor correspondido, ela jurava que nada no mundo os separaria.

    Durante seu período de viagem, experienciou tantas coisas incríveis que conseguiu apaziguar sua paixão. Entretanto, não via a hora de poder revê-lo. No dia marcado para o reencontro, não conseguia esconder sua ansiedade. Ele a convidou para ir ao melhor restaurante da cidade. O cenário estava armado para uma noite memorável entre amantes.

    Quando chegou ao local, Narciso já a esperava com certo ar de impaciência. Ela abriu um largo sorriso de felicidade e ele respondeu sério com impaciência.

    — Que saudade!

    — Você está atrasada e me deixou esperando.

    Ela estranhou a reação, mas tentou amenizar a situação.

    — Desculpe, eu demorei um pouco me arrumando. Queria estar bonita para esta noite.

    — Parece até que não sentiu saudades.

    Desconfortável, ela prosseguiu.

    — Como você está? Tenho tantas coisas para te contar…

    — Eu fiquei muito chateado quando decidiu ir para essa viagem, eu não concordei. Até hoje penso o mesmo. Clara, você tinha tudo aqui, sabia que eu podia te dar a melhor vida do mundo. Quando foi, minha empresa estava começando a fazer sucesso. Você não tem ideia de tudo o que eu construí nesse tempo. Minha empresa é a maior da cidade. São tantas mulheres querendo estar no seu lugar, tem ideia disso, né? Devia ter valorizado por tudo o que eu posso te oferecer. Espero que agora se esforce para
    recuperar o tempo perdido…

    Ele seguiu falando. Ela não conseguia mais ouvir, só pensava. Nesse ano, cresceu tanto como pessoa. Conheceu tantas outras fantásticas. Aprendeu a valorizar-se enquanto mulher. Sabia muito bem o que queria.

    Interrompeu seus pensamentos e a fala de Narciso.

    — Preciso ir embora.

    Ele tentou falar, mas ela somente virou as costas e saiu.

    Sua trajetória estava apenas no início e queria desbravar o mundo. Não podia se submeter aos limites do passado. Muito mais do que parecer, ela precisava ser. Precisou se libertar das correntes passadas que a tornavam pequena. Para isso, fez de um encontro, desencontro.


  • Folhas ao vento

    Entro no parque e na primeira curva avisto o Soprano, nome que atribui a um funcionário do parque. Fácil identificar o Soprano de longe, mesmo que vestindo o mesmo uniforme dos outros funcionários – ele anda com seu companheiro fiel, o soprador de folhas, sempre a tira-colo.

    Conforme chego perto, umas nuvens de folhas secas, sob o comando de Soprano, vão voando para a calha do meio fio e, de lá, graciosamente, se acomodam na beira do jardim, embaixo das árvores.

    Soprano segue o caminho, ora soprando para a direita, ora para a esquerda, impávido e concentrado na tarefa de direcionar as folhas para seu devido lugar.

    Sim, pois ali, em descanso, elas permanecerão até que uma brisa, ou quem sabe um vendaval, as mande de volta para povoar o caminho e exija o retorno de Soprano. Uma missão diária que justifica sua presença no parque, visto que é um soprador, não um catador de folhas.

    Ali, caminhando, após cumprimentar Soprano e receber seu sorriso agradecido, (talvez porque muitos passam e o ignoram como se fizesse parte do equipamento), meu pensamento se volta para esse movimento de ida e volta das folhas secas de nossa vida.

    Tudo o que somente sopramos, espantamos momentaneamente porque está perturbando o caminho, mas não eliminamos, não solucionamos, ao primeiro ou último vento retorna para nos atormentar.

    Hora de mudar o job description do meu amigo Soprano, incluindo a tarefa de sugar as folhas secas sopradas.

    Hora de buscar as nossas próprias folhas secas que ficaram pelo caminho e dar a elas um destino.


  • Crônica Burocrática

    A crônica começaria agora, mas é preciso antes que o leitor e o cronista paguem a taxa necessária ao andamento das crônicas. A TADC. Parágrafos são caros. Quando saem do mundo real então! Cada palavra tem seu preço tabelado. Cada figura de linguagem uma alíquota a mais. Por isso, cuidado com as vias! Uma para o leitor, outra para o cronista.

    E, depois disso tudo, ainda hão de enfrentar, cronista e leitor, uma fila no Banco da Estupidez, uma passada na Seção das Inutilidades e ainda retirar novos recibos no Departamento da Embromação.

    A crônica recomeçaria agora, contudo, ainda há a taxa para a liberação da crônica, a TLC. Os juros estão pela hora da morte. Pensar custa caro! Escrever o que se pensa… Mais caro! E precisa de carimbo, de selos, de revisão, de anotação, novas filas e seções e recibos. Cartão.

    E não adianta reclamar. Caso contrário, nada de crônica, nada de leitura. Nas orelhas de ambos um puxão.

    Cronista e leitor avançam, com papéis de variados tamanhos nas mãos, moedas nos bolsos e paciência e mansidão. Mansidão?

    Insatisfação.

    E pegam outras folhas e envelopes. E precisam de assinatura e maiores carimbos. E correm contra o tempo. Contratempo. Aflição.

    Afinal, vivemos no país da burocracia! Nada se faz sem papel, sem carimbo, sem vias e mais vias… idas e vindas de seção em seção!

    E não adianta reclamação!!!

    A crônica recomeçaria agora…

    Mas, com as redes sociais, ainda há a taxa de verificação de autenticidade. Autenticidade? Vai que esse texto tenha sido escrito pelo Luis Fernando Veríssimo? Nessas terras tão complexas da internet, a cópia e a manipulação dão o tom! E olha que, mesmo fazendo a tal verificação, corre-se o risco de não poder publicar! De não poder escrever! Sei lá… E ainda tem a “Inteligência Artificial” … Será que a “Inteligência Artificial” tem capacidade para escrever uma crônica? O que será dos cronistas?

    A crônica recomeçaria agora…

    No entanto, antes que uma multa chegue à redação é melhor que se dê cabo ao pretenso texto… Imaginação? Não!

    Que tal um ponto final?


  • Dica de milhões

    Algumas coisas que acontecem no meu dia a dia são tão estapafúrdias que me levam a patinar na velha dúvida: falo ou calo? 

    Minha primeira opção, nessas ocasiões, é calar, sobretudo quando aquilo que pretendo dizer é óbvio e deveria dispensar apresentações. Por outro lado, se, mesmo sendo óbvio, a outra parte insiste em ignorar os limites da razoável convivência, entendo que o irmão de raça carece de uma interpelação. 

    Refiro-me aqui, mais exatamente, ao inferno que se tornou a espera em qualquer recepção, consultório, fila, transporte público, restaurante ou praia com o advento do celular sem o uso e fone.

    Não bastasse ter que disputar o espelho dos banheiros públicos e academias pelo desesperado self da humanidade, agora o coleguinha da cadeira ao lado oferece, independente de hora, local e ocasião, um vasto repertório de vídeos (entrevistas, orações, piadas, podcast) no mais alto volume.

    A primeira coisa que me pergunto, nessas situações, é se a pessoa tem ciência de que não está meditando sozinha nas montanhas do Nepal.

    Não sei se por carma ou azar, na última quinta-feira, o espaço, equivocadamente, chamado de coletivo, foi cenário de mais um desastroso encontro meu com um exemplar dos tempos modernos. 

    Eu estava numa recepção de consultório aguardando minha consulta quando, sem aviso prévio, uma criatura saca seu celular do bolso e decide ouvir, em fartos decibéis, vídeos do TikTok. Diante da falta de noção do querido, optei por usar a linguagem simbólica dos gestos. Olhei para a apostila que estava em minhas mãos (sim, eu estava estudando), depois para ele, para o celular dele e novamente voltei a atenção para a apostila. Vi que ele notou minha desaprovação, mas seguiu incólume. Foi nessa hora que decidi utilizar uma estratégia aprendida com uma amiga umbandista. Segundo ela, nessas horas, o melhor é usar a maldita intolerância religiosa das pessoas a nosso favor. Colocar um ponto de Exu para tocar e ver as pessoas se afastarem feito cupim na presença da luz. Assim fiz: “Auê Exu, ninguém pode comigo. Eu posso com tudo. Lá na encruzilhada, ele é seu Exu.”

    Como num passe de mágica, o respeitável senhor foi catar seu destino e a recepção voltou a ser um espaço habitável.

    O que essa situação corriqueira denuncia é o crescente sucateamento do espaço público em prol da soberania dos mimados e narcisistas e o envenenamento do coletivo pela necessidade de uniformização das escolhas, preferências e crenças.

    Ainda bem que existem pontos de Exu para nos proteger.


  • Sobre a retórica do humor

    O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que orienta alguns dos procedimentos capazes de levar ao riso.

    Na comicidade, rimos da situação ou da figura física; um palhaço, com seu narigão e suas calças largas, é basicamente um cômico. Já no humor rimos do efeito surpreendente produzido pelas palavras. O inesperado, que pode ou não tender ao absurdo, faz rir.

    Entre os recursos usados pelos humoristas, destacam-se a paródia, a quebra do paralelismo semântico, a ironia e o que costumo chamar de “reconversão ao literal”. Vejamos rapidamente cada um deles.  

    A paródia é a reescrita de um texto visando a contestar-lhe a ideologia, o espírito, o sentido original. Muitas vezes o que provoca essa reescrita é a semelhança sonora (paronomásia). Um exemplo encontra-se na composição em que o modernista Oswald de Andrade parodia a famosa “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Ao escrever “Minha terra tem Palmares”, em vez de “palmeiras”, Oswald critica o idealismo nacionalista do autor romântico. Afinal, como conciliar a idílica visão do Brasil com o massacre perpetrado pelas forças do governo contra o quilombo de Zumbi?

    Na quebra do paralelismo semântico, coordenam-se temos pertencentes a diferentes áreas do sentido. O resultado é um tipo de ruptura que surpreende o leitor, como na frase: “Semana passada fiz duas operações – uma no joelho, outra no Banco do Brasil.” A atribuição de outro sentido ao termo “operação” (procedimento bancário, e não intervenção cirúrgica) quebra a expectativa e produz o riso.

    Uma das clássicas formas de humor é a ironia. Por meio dela, afirma-se uma coisa dizendo o oposto. É talvez a única figura que depende de um confronto com a realidade para produzir efeito. Se digo de um homem que ele é “um Brad Pitt”, isso por si não tem graça. Pode até ser um elogio, se o sujeito for de fato bonito (nesse caso, terei usado uma imagem metafórica).

    O efeito irônico ocorreria caso a designação se aplicasse a alguém baixinho e feioso. É a distância entre o comparado e o comparante (Brad Pitt) que faz rir. A ironia é uma metáfora sem nexo, ou melhor, uma metáfora em que o chamado “nexo dos atributos” é na verdade uma antítese. Ou um paradoxo.

    A reconversão ao literal (ou seja, ao sentido original e denotativo) parece ir de encontro ao princípio que norteia os desvios estilísticos, qual seja, o de que o efeito expressivo resulta de uma ruptura com os sentidos cristalizados, convencionais. Nesse tipo de procedimento, o efeito vem justamente do percurso oposto.

    Para entendê-lo, consideremos que há dois momentos: o primeiro, em que se constrói a imagem. O segundo, em que ela perde o valor de imagem (já transformada em clichê) e volta a significar “de acordo com a letra”.  A surpresa que isso provoca faz rir.

    Os exemplos são muitos. Um dos mais conhecidos é o da velha piada: “Pedro caiu na fossa.” “Morreu?” “Não. Escapou fedendo.” Nessa passagem “escapar fedendo”, que virou lugar-comum, deixa de significar “escapou por pouco”, ou “por um triz”, e adquire uma súbita atualização. O fato de haver mesmo o mau cheiro desautomatiza a percepção linguística de maneira análoga à que ocorreu no primeiro momento, quando se construiu a imagem (“escapar fedendo” como “quase sucumbir”).

    Efeito semelhante ocorre em clichês como “ficar de nariz empinado” ou “empurrar com a barriga” em frases do tipo: “Depois que fez plástica, ele vive de nariz empinado” ou “Arranjou uma gravidez indesejada. Agora vai ter que empurrar com a barriga”. A ambiguidade faz com que os referidos clichês deixem de ser apenas “força de expressão” e traduzam literalmente as ações.

    Por possuir uma retórica, o humor é literatura. E pela condensação que o humorista opera nos signos, o texto humorístico tem muito em comum com o poético. Em ambos a ênfase recai no significante, ou seja, na mensagem, que no texto de humor revela o despropósito ou o absurdo de certas situações. Daí ele comumente se constituir num espelho das deformações morais e servir como instrumento de crítica à sociedade.


  • Nova 99, a estrada perfeita

    Toda vez que eu me vejo diante de uma situação de entrave burocrático causado pela tecnologia eu me lembro da Nova 99. Era uma autoestrada controlada por computador, considerada perfeita, e era personagem de uma estória em quadrinhos publicada na saudosa revista Kripta, lá dos loucos anos 70, que misturava ficção e terror.

    No enredo uma família entra com seu carro autônomo, programava seu destino e quantas paradas fariam, e seguiam descansados e contentes pela rodovia. Pois é, mas como eu disse a revista misturava ficção e terror. A parte de ficção já foi agora vem a de terror. O sujeito se engana e programa como destino a casa do cunhado que ele detesta. Começa a confusão porque o sistema não permite que seja desprogramado. Tem que ir até o final e ponto.

    O cara não se conforma, se rebela, abandona o carro e tenta sair da rodovia. Ele é atropelado e
    fica todo quebrado e passa a vagar com a família, em companhia de outras pessoas que fizeram o mesmo. Lembra um pouco a lenda que diz que os funcionários da rede Graal são antigos clientes aprisionados por não pagarem a conta de R$ 90 por um pão de queijo.

    Para mim, a Nova 99 representa a burocracia triunfante e, sem exagero, da dominação em geral. Inicialmente simpática e aparentemente prestativa mas que esconde em seu âmago o desejo de controlar a vida das pessoas.

    Controlar alguém é para mim um ato ofensivo. Não é desagradável nem é mau hábito. É ofensa mesmo.

    Porque traz em si a vontade de privar os outros do seu livre arbítrio, algo garantido para nós na maior parte das religiões. Tudo em nome de oferecer a você uma alternativa melhor, de cuidar de você, em favor do seu bem estar. É o máximo da prepotência alguém querer dominar sua vontade, comandar seu arbítrio dizendo o que você pode ou não fazer.

    O discurso da Nova 99 vem pronto. E com sorrisos. Pode ser aparentemente bom, oferecer mil benefícios e tal, mas no fundo não passa de dominação. De agrilhoar outra pessoa.

    Não acordei de mau humor nem brigado com a vida. É que assisti um bom filme de terror metafísico brasileiro e ainda estou de pelo arrepiado por causa dele. E sempre abre portas para divagações. Dessa vez, na linha sombria.

    Mas passa.


  • Nem um pouco bonito!

    Há uma frase atribuída ao renomado psicanalista austríaco Sigmund Freud que diz o seguinte: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Embora sua autoria seja discutida — há quem sustente que a frase é da ensaísta canadense Lise Bourbeau, porém, é certo que a declaração atinge em cheio quem tem mania de fofocar.

    É válido ressaltar que fazer fofoca consiste em um hábito socialmente arraigado em praticamente todas as culturas, afinal, somos curiosos por natureza e, consequentemente, interessados na vida alheia. Mas, os fatores nos quais envolvemos, os mexericos, em especial, quando falamos dos outros ou passamos o “disse me disse” adiante, revelam muito a respeito de nosso caráter, nossa personalidade e até como anda a nossa vida. E o que isso mostra, acredite, não é nem um pouco bonito.

    Para Blenda de Oliveira, psicóloga e psicanalista, a maioria das fofocas é tóxica e desrespeitosa porque simplesmente não há autorização de quem é envolvido para passar a informação adiante. “E mais: essa informação às vezes sequer corresponde à realidade. Sabe aquele ditado ‘quem conta um conto, aumenta um ponto?

    Não é apenas nosso valor moral que condena a conduta em falar da vida alheia. Juridicamente a fofoca nos Leva ao cometimento de alguns crimes e nos obriga a indenizar o prejuízo material ou moral que tenhamos causado em razão disso. É o que dizem a Constituição Federal e o Código penal brasileiro.

    Tem gente – e muita! – que parece se interessar mais pela vida alheia, principalmente os “defeitos” dos outros, do que por sua própria vida. E o adjetivo para eles? 

    Aí vão alguns: fofoqueiro, cesta-rota, zizaneiro, gazeteiro, saco-roto, onzeneiro, tagarela, calhandeiro, coscuvilheiro, novidadeiro, chocalheiro, intriguista, bisbilhoteiro, cavaqueador, tesoura, murmurador, mexeriqueiro, assacador de aleives, cavilador, detrator, aleivoso, vilipendioso, mordente, pechoso, vipério, sardônico, insidioso, introsca, enxerido, espora, leva e traz, de língua viperina, fuxiqueiro, futriqueiro, arengueiro, turgimão, porta-novas. 

    Você conhece algum?


  • Como pode uma pessoa viver tanto tempo sem um cão?

    Outro dia, deparei-me com uma foto simples, mas cheia de significado: um cão da raça shih tzu fofo e a legenda que dizia, com uma sinceridade quase cortante: “Como pude viver 58 anos sem um cão?” Aquilo me fez refletir profundamente sobre a força desse questionamento. Não era apenas uma questão retórica ou um desabafo casual; era um grito silencioso sobre o impacto de algo que muitos ignoram até o dia em que se deparam com as evidências. Quantas pessoas, por diversas razões, deixam de viver a experiência única de compartilhar o cotidiano com um cão? Quantas, por escolha, circunstâncias ou até por falta de oportunidade, acabam privadas de algo tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão simples. É uma relação que dispensa explicação, que não se justifica em palavras, mas que transforma vidas com uma intensidade quase inexplicável.

    Quando reflito sobre isso, o que sinto não é pena pelos cães. Eles sempre encontram formas de amar, de se fazer, de fazer parte do mundo ao seu redor. Minha tristeza é pelas pessoas. Por quem nunca se permitiu experimentar a leveza, o carinho e a simplicidade que vem de um olhar canino. Eles não sabem o que perdem: uma companhia que não exige nada além de presença, uma lição diária sobre amor incondicional. Uma relação tão pura e transformadora que só quem já teve ou tem um animal de estimação pode compreender plenamente.

    Não escrevo para convencer ninguém. Cada um tem suas razões e seu momento. Mas acredito, com cada fibra do meu ser, que a presença de um cão na vida de qualquer pessoa é uma dádiva. Eles trazem mais do que alegrias passageiras; trazem permanência em meio ao efêmero. Um cão nos ensina a desacelerar, a ouvir com o coração, a encontrar beleza na rotina e valor nos pequenos gestos. É uma troca que transcende palavras, um privilégio que muitos talvez só percebam tarde demais.

    Quem já teve um cachorro sabe do que estou falando. São momentos únicos, pequenos instantes que se tornam memoráveis.

    E, para aqueles que ainda não vivenciaram essa experiência, talvez ainda seja tempo de descobrir o que um cão pode fazer por sua vida. A vida tem um jeito curioso de nos surpreender, de nos oferecer segundas chances quando menos esperamos. Acolher um cão, conviver com um ser que nos ama sem reservas, não é apenas um ato de generosidade; é um privilégio. É um aprendizado diário sobre paciência, afeto e simplicidade. E, muitas vezes, são essas lições que mais nos faltam na correria insana dos dias.

    Se eu tivesse que dar uma única dica, diria que um cão é um lembrete claro de que a vida pode ser mais do que contas a pagar e metas a cumprir. É sobre conexões reais, sobre estar presente e sobre amar sem esperar nada em troca.

    Para aqueles que ainda duvidam do que a companhia de um cão pode ser capaz, talvez a pergunta não seja “Como pude viver tanto tempo sem um cão?” e sim “O que estou esperando para descobrir o que um cão pode me ensinar?”. Afinal, não importa quando o laço começa, ele sempre tem o poder de durar (ou curar o) para sempre.

    *Inspirado numa publicação de Roberto Motta, extraído do Threads.


  • Spoiler a contragosto

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, nunca gostou de spoilers. Quem conviveu com ele sabe disso. Ninguém se atrevia a lhe contar algo de antemão ou lhe adiantar o assunto. Era avesso a trailers de filmes, orelhas de livros e introduções. Nunca foi público para a fofoca e achava que a experiência perdia muito nessas antecipações indevidas. O comportamento de Henzo Felisberto afastava, talvez, uns quatro quintos da população, era um moço difícil, pra dizer a verdade, com agá. Se chamava Henzo Felisberto, com agá, por favor, porque, apesar de tudo, nunca foi descortês. Educou-se ao último grau em todas as instâncias adequadas para pessoas da sua estirpe.

    Nos registros, consta que Henzo Felisberto, com agá, por favor, foi por três anos goleiro do Não Me Conte Futebol Clube. Era um bom arqueiro, apesar de falhar nas bolas aéreas, vez ou outra. Além disso, conta com a triste marca de jamais ter defendido um pênalti porque se negava a estudar o batedor. Dizia preferir a surpresa. Coisas do futebol, sabe como é. Pois bem. Parou de jogar quando tentaram-no ludibriar para uma combinação de resultado. Afinal, se perguntava, como poderiam jogar assim? Conflitos existenciais pareciam não ser recorrentes na ética defeituosa do restante do time. Uma vergonha, de fato. Abandonou o esporte para se concentrar em atividades de princípios mais firmes.

    Com agá, por favor, Henzo Felisberto tinha um verdadeiro orgasmo espiritual quando encontrava certos avisos, tais como: Nota do editor: os leitores que ainda não conhecem o livro devem levar em conta que detalhes do enredo serão revelados nessa introdução”, ou ainda, quando havia alerta de spoiler no título da publicação, de preferência em vermelho, bem visível. Pois é, ninguém gosta de ser pego desprevenido. Henzo Felisberto, com agá, por favor, sempre primou pela experiência, pela emoção, pela surpresa. Acreditava que nenhuma palavra, indicação ou comentário tinha o direito de suprimi-lo dessa vivência. Um filósofo incompreendido, diriam alguns. Um otário, muitos outros. Eis que numa manhã de terça-feira, Henzo Felisberto, com agá, por favor, ia para o trabalho no seu Peugeot 206 enquanto o celular tocava incessantemente. Moço sério, centrado, jamais atenderia no trânsito, retornaria depois, quando estacionasse em frente ao departamento. Ouviu a marcha fúnebre noticiando um falecimento no rádio.

    Desligou-o de supetão. Na verdade, nem sabia porque ainda conectava aquela estação. Pegara o hábito da avó, talvez. Só quando parou em frente ao trabalho é que percebeu ter recebido dezenas de ligações, provindas da família, dos parcos amigos, dos colegas de trabalho, até dos antigos e antiéticos companheiros de time. Então, sem pensar muito, notou que a morte anunciada tinha relação com aquelas chamadas todas. Infelizmente, concluiu, alguém próximo havia falecido. As pessoas insistiam numa tentativa esdrúxula de avisá-lo.

    Mas, por favor, com agá, Henzo Felisberto não passaria por isso. Descobriria o defunto diretamente no velório. Teria uma experiência única, como só um mestre em evitar spoilers poderia conceber. Coisa de gênio, diga-se de passagem.

    Tratando-se de alguém tão próximo, lhe dariam folga no trabalho. Nem chegou a sair do carro, depois ligaria direto do velório para o chefe, explicaria tudo e receberia os pêsames. Desligou o celular e voltou para casa num oblíquo regozijo, fez cada curva do trajeto com a curiosidade de um turista, como se não conhecesse a própria cidade, tudo se mostrava novo, as fachadas dos comércios, as calçadas, as pessoas caminhando, as faixas de pedestres, o sinal vermelho, amarelo e verde. Um tempero reluzente dava a Henzo Felisberto, com agá, por favor, um espanto de recém-chegado. Entrou sorrindo no apartamento, preparou e bebeu devagar um chá preto, precisava dar tempo ao tempo. Pelo horário, o corpo ainda era preparado na funerária. Em uma hora ou duas o velório iniciaria. Vestiu o seu melhor terno com uma gravata azul bebê, nada muito chamativo. Esses eventos requerem uma formalidade discreta, embora nem todos saibam disso. Mediu-se paciente no espelho, não gostaria de aparecer desalinhado.

    Excitado com a experiência, mesmo fugindo do seu feitio, não deixou de confabular sobre o defunto: A morte do pai causaria uma discussão tremenda com a irmã sobre a divisão da herança. O irmão Erberth, com agá derradeiro, nesse caso, já deveria estar cuidando dos processos burocráticos. A irmã Eloísa, sem agá, mora longe e não está apta a debater o assunto de forma plausível. A morte da mãe o obrigaria a encontrar outra pessoa para lavar e passar suas camisas toda semana. Além disso, provocaria um efeito nocivo ao pai, que provavelmente morreria em seguida. O papo desconfortável com Eloísa, sem agá, e Erberth, com agá derradeiro, era iminente.

    Poderia, claro, não ser alguém da família. Se for o Ugo, estranhamente sem agá, ficaria decepcionado, afinal, é personal trainer e dá aulas de spinning como ninguém. Estranharia mesmo se a causa mortis fosse um enfarte fulminante. Se for a Martinha, sem agá nem clima para hora agá, ficaria também desiludido. Ela pululou as fantasias sexuais de Henzo a vida inteira, mas nunca lhe deu abertura para uma interação mais aguda, por assim dizer. Há poucos meses vinham tendo uma breve aproximação. E voltou a fantasiar cenas quentes com ela, embora seus princípios também argumentassem contra spoilers sexuais imaginários. A esperança, por fim, é a última que morre, mas com a necrofilia fora de questão, morreria também, mesmo que por último. E sua história com a Martinha terminaria sem agá, ou hora agá, melhor dizendo.

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, chegou ao velório com borboletas no estômago, não ergueu os olhos, pois não queria ser abordado com histórias do morto antes de descobri-lo nem ser traído pelo olhar. Aquele seria o espanto máximo e, por um segundo, quase não suportou a ansiedade. Seguiu firme mirando os pés até o caixão, mas o encontrou vazio. Nele havia só um fundo branco adornado por flores também brancas e um travesseiro de dois ou três dedos, um mimo, cortesia da funerária. Num susto pulou lá dentro e logo estava confortável. Um terço azul pousou entre seus dedos, na mesma cor da gravata. O caixão era aconchegante. Cairia logo no sono, não fosse a mãe esbravejando ao telefone com Eloísa, sem agá, porque ouvia desculpas esfarrapadas para não aparecer. O pai, atônito, não entendia os últimos acontecimentos. Erberth, com agá derradeiro, puxava as orações. O Ugo, estranhamente sem agá, não compareceu. A Martinha ficou no velório por apenas cinco minutos e não se aproximou. O Não Me Conte Futebol Clube mandou uma coroa de flores com a imagem de um gol aberto e os dizeres: sempre será lembrado. Henzo Felisberto, com agá, por favor, dormiu profundamente pela primeira vez em anos, talvez em décadas, com a sensação de dever cumprido.

    A lápide foi paga pelo Não Me Conte Futebol Clube. O valor teria sido angariado num jogo vendido, mas isso não importa agora. No cemitério, fica no quarto corredor à esquerda. Lá se encontra com os dizeres: Aqui jaz, sem spoilers, Enzo Felisberto, com um agá pintado de canetinha pela irmã Eloíse, sem agá, quando foi visitá-lo, uma única vez.


  • Só um pouquinho

    Dona Glória acabara de comemorar seus 70 anos e, como presente, ganhou um gesso no braço. Uma queda boba, o tapete fora do lugar, o piso encerado e ela se estabacou no chão. No instinto, colocou a mão na frente e o braço segurou o peso de todo o corpo. Que não era muito, pois Glória se cuidava e mantinha a silhueta em dia. Mas também não era pouco.

    Dois meses depois do incidente, ela finalmente tirou aquele incômodo e a primeira reação foi coçar a parte esbranquiçada da pele. Mantinha uma cor bronzeada, fruto da proximidade da praia, e aquele pedaço de braço cor de isopor lhe assustou. Era como se voltasse no tempo e a visse criança, chegando ao Rio, junto com os pais italianos. Era tão branca que se destacava sempre quando se misturava com outras crianças.

    — Sua recuperação foi muito boa, Dona Glória! Mas, como o braço ficou muito tempo imóvel, vou recomendar uma fisioterapia. Algumas sessões e a senhora vai ficar como nova!

    Mais essa, agora! Ela não queria ficar como nova, queria apenas poder se coçar e tomar sol.

    — Tem certeza que preciso disso?

    — Claro. Depois de certa idade a musculatura atrofia e os ossos já não se recuperam da mesma forma. A fisioterapia vai fortalecer tudo.

    Depois de certa idade… Será que todo mundo tem uma idade que marca o começo do fim? Qual seria a dela?

    — Posso fazer em casa? Não tenho saído muito e prefiro o conforto do meu cantinho.

    O que ela queria mesmo era escapar do controle do médico.

    — Tenho alguns profissionais que atendem em domicílio sim. Vou te passar os contatos e a senhora escolhe o melhor.

    Nomes e telefones em mãos, Dona Glória voltou feliz da vida para sua casinha. Realmente achava que todo aquele cuidado era um exagero e deixou de lado a história do fisioterapeuta. Era uma mulher saudável, independente, ia se virar muito bem sozinha.

    Mas já nos primeiros dias, viu que não seria bem assim. O braço não correspondia ao comando, o ombro doía, os armários pareciam mais altos, a mesa mais longe, as cadeiras mais pesadas. Tudo que fazia, doía. Acabou se rendendo. Pegou de volta o papelzinho no fundo da bolsa e resolveu ligar para o primeiro nome da lista. Wagner.

    — Boa tarde Wagner, tudo bem? Aqui quem fala é Glória, quem me deu seu contato foi o Dr. Paulo. Você atende em casa?

    — Boa tarde Dona Glória, atendo sim.

    — Você pode vir amanhã? Estou com muita dor.

    — Posso sim. Pode ser depois do almoço, às 14 horas?

    — Marcado. Anota o meu endereço.

    Glória acreditava em intuição e gostou do jeito de Wagner. Uma voz mansa, grave, como um locutor de rádio de antigamente. Deveria ser um belo homem. Tomara que sim.

    Não que ela estivesse interessada em algo mais que a fisioterapia. Viúva há 20 anos, desde então não se interessara por mais ninguém. Se distraía com as amigas, entre mesas de bar e excursões para Caldas Novas. Elas também se reuniam todas as quartas para jogar buraco, organizavam o bazar da igreja, iam às estreias de filmes, peças de teatro, aulas de dança e tudo mais que o dinheiro desse e o quadril aguentasse. Eram conhecidas como as “Velinhas da Van”: Para todo lugar que queriam ir, alugavam a van do conhecido Seu Joaquim e chegavam seguras, festivas e aprumadas. Com isso, o tempo passava e ela se esquecia da saudade do marido e a distância dos filhos e netos, que sempre tinham algo mais interessante para fazer do que visitá-la.

    Às 14 horas em ponto Wagner batia na porta. Glória olhou pelo olho mágico e gostou do que viu: um homem alto, forte, com rosto suave e mãos fortes. Se ajeitou e abriu a porta com seu melhor sorriso:

    — Bem-vindo, Wagner. Muito trabalho te espera!

    Ele sorriu de volta e começou a se ambientar com a casa. Perguntou o que tinha acontecido, onde era a dor, tirou alguns aparatos e começou a sessão.

    O primeiro contato das mãos de Wagner no braço esquerdo de Glória causou-lhe um arrepio forte até o fim da coluna. Ela tinha se esquecido daquele pedacinho chamado cóccix que ligava as costas às partes mais íntimas e tremeu. Ele pegava de maneira firme, fazia movimentos vigorosos e tudo parecia voltar para o lugar como um milagre. Depois de 40 minutos, Glória, radiante com as novas emoções e já se sentindo um pouco mais ágil, resolveu fazer um café para os dois.

    — Adoçante ou açúcar?

    — Puro mesmo.

    Café de macho. Começaram uma conversa amigável, levada pelo aroma quente da bebida. Ela descobriu que Wagner era o primogênito de seis irmãos, filho de uma empregada doméstica e um motorista de ônibus. Tinha 28 anos, cursou Fisioterapia para ajudar a avó que sofrera um acidente em casa – uma bobagem, mas que ainda limitava os seus movimentos – e conseguiu uma bolsa através do FIES. Ela se limitou a falar que era viúva. Tinha medo de dar muitos detalhes. Achava sempre que podia ser sequestrada ou roubada. E ele teria acesso a ela e a casa, melhor prevenir.

    Marcaram mais sete sessões, duas por semana, sempre depois do almoço. Glória pagou as dois primeiras e disse que ficariam assim.

    — Até sexta!

    Um sentimento novo tomou conta de Glória. Era como se sentisse de novo o seu corpo, que lhe servia apenas para levá-la da praia para casa e de lá para os encontros com as amigas. Colocou uma música no antigo aparelho de som, empoeirado de tão esquecido e se viu dançando pela sala. Feliz.

    As sessões se sucederam com verdadeiro sucesso. Glória não só já fazia todos os movimentos com o braço, como achava mesmo que todo o corpo se movimentava melhor. Já tinha contado toda a sua vida para Wagner, que também era devoto de Nossa Senhora e achou uma beleza ela se chamar Glória por ter nascido no dia 15 de agosto, dia de festa para Nossa Senhora da Glória. Depois das sessões, ela, feliz, mas sozinha, sempre arriscava uns passos de dança e começou a sentir falta de dançar com alguém. Será que Wagner lhe acompanharia em uma dança?

    No dia da última sessão ela preparou uma surpresa: comprou um presente para Wagner em agradecimento a sua dedicação e toda alegria de viver que tinha invadido a sua vida. Queria um pretexto para lhe convidar para dançar e acreditava que o presente e o fim das sessões seriam motivos suficientes.

    Depois do último exercício finalizado, ela tomou coragem. Pegou o embrulho como uma adolescente apaixonada. Sentia o rosto queimar.

    — Comprei para você. Sei que vai lhe ajudar muito.

    — Não precisava Dona Glória, imagina.

    Era um massageador elétrico, último modelo. Ele tinha comentado que um daqueles iria lhe abrir outras portas e resolveu dar um empurrãozinho. Wagner ficou contentíssimo, nem sabia como agradecer.

    — Eu tenho uma ideia, Wagner. Você me acompanha em uma dança?

    — Será um prazer, Dona Glória.

    — Glória. Me chama de Glória.

    Ela colocou um disco antigo de bolero e se deixou levar pelos braços de Wagner. Ele não sabia exatamente como se dançava um bolero, mas aquilo era o que menos importava. Os corpos unidos era só o que Glória precisava. Existia nela ainda um furor de mocidade e o contato doce daquela fartura toda fazia seu coração acelerar e o seu ventre acordava de um longo período de total esquecimento. Ela queria mais.

    Mas a música parou e Wagner se desvencilhou gentilmente de Glória dizendo que precisava ir.

    — Foi um prazer Dona Glória. Precisando de qualquer coisa, pode me ligar.

    E Glória precisava muito, de muito mais. Mas como impedir que ele sumisse de sua vida para sempre? Inventar novas dores, quebrar o outro braço? Não podia se dar ao luxo de quebrar mais nada, não suportaria mais dois meses de gesso e incômodos. Precisava de uma desculpa muito bem elaborada. Sabia que ele precisava de dinheiro, precisava ajudar em casa. Resolveu ligar para uma amiga, a mais esperta.

    — Sarah precisa que me ajude a pensar em uma desculpa.

    — Ele… O que foi?

    Glória contou toda a sua saga para Sarah, judia tradicional que frequentava as melhores rodas do Leblon. Esperta, negociante nata, ela foi certeira:

    — Ele precisa de dinheiro e nós, de distração. Que tal pagar para ele dançar com nossas amigas?

    — Será, Sarah? Não poderia parecer uma certa prostituição?

    — Ele não vai fazer sexo, só vai dançar. Por favor, Glória, nessa idade não precisamos ter tanto pudor!

    A ideia não era ruim. Glória sabia que todas as suas amigas sentiam falta de um parceiro de dança e Wagner era um pedaço de mau caminho. Elas iriam adorar a novidade e todas podiam pagar, sem dúvida. Mas, quanto ele iria cobrar? Resolveu parar de pensar e agir.

    — Bom dia Wagner, tudo bem? É Glória.

    — Bom dia Dona Glória. Está tudo bem?

    — Tudo ótimo querido. Você não vai acreditar. Conversei com algumas amigas sobre a nossa dança e como você foi gentil comigo. Elas ficaram morrendo de inveja.

    — Imagina Dona Glória. Nem danço tão bem assim.

    — Não seja modesto, rapaz. Me senti uma Ginger Rogers! E sabe o que elas me pediram?

    — Não tenho a menor ideia!

    Gloria tentava colocar toda a culpa nas amigas.

    — Elas querem que você dance com elas! Claro, vamos pagar para isso.

    Wagner ficou calado por um tempo. Achou tudo muito estranho, mas precisava de dinheiro. E o que poderia ser mais inocente em fazer meia dúzia de senhoras felizes?

    — Confesso que estou meio surpreso com a oferta…

    Glória se sentia um cafetão.

    — Mas também confesso que realmente estou precisando de uns extras.

    Aliviada, Glória resolveu encerrar o assunto e marcar:

    — Perfeito. Amanhã às 8?

    — Marcado.

    Glória desligou o telefone se sentindo uma devassa. Era como se marcasse um encontro com um garoto de programa, sentia a adrenalina tomar conta de suas emoções. Agora era convencer as amigas a ir até a sua casa e dançar com Wagner. Não seria problema. Sexta à noite normalmente ninguém tinha programa e o fato de sair de casa já era um acontecimento.

    Os preparativos começaram logo cedo. Glória arrumava a casa como uma criança que espera o Natal. Pensou em tudo: separou os discos, dividiu entre as amigas os comes e bebes, ajeitou o espaço para todas se sentarem e, também dançarem. Tinha uma sala espaçosa e precisou apenas rearrumar alguns móveis para que os novos passos coubessem no local.

    A noite chegou e Glória parecia uma debutante. Na excitação, não nos costumes. Colocou seu vestido vermelho, se perfumou como se fosse pecar e arranjou uma rosa vermelha para o cabelo. Se sentia uma cigana. Só faltava rodopiar com seu par, que acabava de tocar a campainha:

    — Chegou cedo, Wagner!

    — Achei melhor me antecipar. Quero saber como vai funcionar a hora dançante… Rs…

    — Bem, você dança com cada uma de nós pelo menos duas músicas, pode ser?

    Ele fez os cálculos de tempo: duas músicas, máximo 5 minutos cada música, 10 senhoras… Não ficaria nem duas horas por lá. Para receber uma boa grana, estava ótimo.

    — Perfeito, Dona Glória. E o pagamento é antes ou depois?

    — Posso te pagar agora!

    Tudo acordado, as amigas de Glória foram chegando aos pares, cada uma mais perfumada e arrumada do que a outra. A sala começou a ficar impregnada de sândalos e almíscares e Wagner já estava meio tonto, pois cada uma delas fez questão de cumprimentá-lo de maneira, no mínimo, efusiva. Sarah foi a que mais se demorou nos braços do rapaz:

    — Glória, esse homem é um escândalo! Vai ser difícil segurar as meninas.

    De fato, as “meninas” estavam como abelhas no mel. Sorriam, mexiam nos cabelos, destacavam os decotes. Não saíam de perto de Wagner e já se enfileiravam para começarem as danças. Glória resolveu dar início a festa e colocou uma valsa. Achava chique.

    — Valsa, Glória? Não tem nada mais moderno?

    — Moderno? Desde quando somos modernas?

    E lá se foram as primeiras danças, com Wagner se esmerando nos rodopios e as amigas de Glória se sentindo adolescentes virgens sendo conduzidas pelo pretendente. Algumas soltavam pequenos gritinhos de prazer, outras apenas se ajeitavam para sentir os músculos – todos – de Wagner e outras estavam tão excitadas que o corpo parecia desobedecer. Viúvas há anos, todas já não sabiam mais o que era sentir prazer. E o que seria apenas 2 horas de dança inocente, se tornou uma grande festa, com Wagner se desdobrando para atender a todas em passos ousados e singelos amassos.

    Na outra semana, Glória resolveu se modernizar. Pediu ajuda para a neta, que apareceu uma tarde para pegar um casaco de pele emprestada. Quase não a reconheceu, estava com o cabelo roxo.

    — Isso é moda?

    — Super, vó! Quer que eu pinte o seu?

    — Deus me livre! Do que você precisa?

    — Você ainda tem aquele casaco de pele luuuuxooo?

    — Claro que eu tenho… Mas não sabia que ainda se usava isso! Não é antiecológico?

    — Que é, é. Mas é chique, né vó?

    — Isso é verdade. Tenho uma ideia! Que tal fazermos um trato?

    — Que trato, Dona Glória?

    — Eu te dou o casaco – só não conta para a sua mãe, ela é doida por ele! – e você me ensina a mexer no celular.

    — Feito!

    Em uma hora, Glória se tornou uma expert da telinha e ainda aproveitou para lanchar com a neta e colocar a conversa em dia. Ficou sabendo das últimas fofocas, dos namoros, começos e fins, do tal “ficar” e do relacionamento aberto. Achou tudo moderno demais para ela, mas se despediu da neta pedindo que ela voltasse mais, não só para pegar peças emprestadas. E, de preferência, com os cabelos castanhos mesmo. Depois que ela se foi, Glória se ateve ao seu novo brinquedinho. Estava agora em outro patamar, muito além do bom dia e figurinhas com flores no whatsapp. Baixou um aplicativo de música e não se fez de rogada. Começou a organizar playlists como uma DJ da terceira idade. Relembrou sucessos da sua época, descobriu novos cantores e fez uma playlist de tirar o fôlego: foi de Luis Miguel a Carlos Rivera, Michael Bublé e Lucho Gatica. Ok, Lucho Gatica não era exatamente uma novidade, mas ainda fazia Glória suspirar. Lembrou-se de um jantar dançante que foi com o marido no Chile. Lucho cantava por entre os casais que deslizavam na pista e Glória tentava disfarçava o olhar e o rubor que aquele homem sedutor lhe causava ao som de “La Barca”. Sabia a letra de cor e salteado e cantava baixinho, como se fosse para ele.

    À noite, na cama, com o marido já dormindo, se masturbou querendo ser de Lucho. Foi a única traição cometida em 30 anos de casamento.

    Sexta feira chegou novamente e Glória, como sempre, eufórica. Com aquela seleção de músicas mais calientes, ninguém mais iria chamá-la de antiquada. Se sentia muito ousada, para falar a verdade. As meninas chegaram ainda mais cedo, todas vindas do salão de beleza. Impecáveis. Não se via um esmalte descascado, uma raiz de cabelo por fazer, um batom fora dos lábios. Os vestidos eram novos, sem dúvida. Ou estavam esperando por uma data especial. Brilhantes, ousados, sedentos por novidades. A sala parecia um clube na sua hora mais feliz: a dançante. O ano poderia ser 1960. Todas estavam à espera de um grande amor. Ainda guardavam a inocência e tinham aquela ilusão boba que nos permite acreditar. O que seria de nós sem ela?

    Wagner também surgiu mais bem arrumado. Seu perfume invadiu a sala e o frenesi que a sua presença causava podia ser sentido pelas cadelas no cio de toda a vizinhança. As mulheres já não mais se enfileiravam, mas se sobrepunham, uma a uma, sobre Wagner. Mal uma dança terminava, outra começava com o novo par. Eles ensaiaram paços de tango, se requebraram em boleros e se extasiaram a cada passo dado de maneira mais próxima. Ou faziam acontecer esse roçar que encorajava o próximo ato.

    Glória, como dona da casa, acabava ficando por último, pois estava sempre às voltas com as bebidas e salgadinhos que as amigas levavam. A maioria sobrava, pois todas as bocas estavam preocupadas em sussurrar gracinhas para Wagner. Aquilo já estava deixando Glória louca. Ela se mordia de ciúmes, queria tirar uma por uma dali. Enquanto isso, o rapaz tentava levar as investidas daquelas senhoras de maneira educada e, invariavelmente, tirava uma ou outra mão mais atrevida do seu peito. Ou de partes, digamos, mais baixas. Lembrava-se do pagamento e sorria para disfarçar o inconveniente.

    Com isso, Glória sempre dançava com um Wagner já exausto. Duas horas de dança ininterrupta era uma maratona. E ainda tinha o jogo de cintura, o maxilar fixo, a concentração para nada sair do combinado. Em uma dessas noites, depois de todas as amigas de Glória já terem ido embora – todas tinham medo de chegar em casa muito tarde – Wagner simplesmente se deixou cair no sofá. Recostou-se e cochilou. Estava exausto. Começava o dia muito cedo, entre atendimentos em domicílio, clínicas, ônibus e trens. Se sentiu em casa e dormiu.

    Glória voltava da cozinha com duas taças de vinho para terminaram a noite, ainda falando algo sobre o assanhamento de Sarah:

    — Você reparou como ela dança? Parece que nunca viu homem na vida, Wagner. Você não deveria deixar ela ficar tão perto de você assim…

    Claro que aquilo era puro ciúmes. Glória já estava perdendo a compostura e se arrependendo de ter começado aquela história. Queria Wagner só para ela. Mas como?

    Quando chegou na sala, ainda retrucando, deu de cara com aquele deus no seu sofá. Baixou o tom de voz, pegou uma mantinha para cobri-lo e ficou ao seu lado, como em vigília. Ele nem roncava, veja bem! Parecia um gatinho, só ronronava. Chegou um pouco mais perto para sentir o seu perfume e foi descendo o rosto para o peito de Wagner. Seu coração acelerava ao mesmo tempo que seu rosto se aproximava daquele corpo. Queria lhe arrancar a roupa, lamber seu peito, fazer loucuras que ela só tinha visto em filmes.

    De repente, Wagner se mexeu e Glória se assustou. Ele abriu os olhos e a encarou:

    — O que a senhora está fazendo?

    — Descoberta como uma contraventora, Glória perdeu a voz. O que ela estava fazendo?

    — Euuuu…quer dizer…é que…

    — A senhora estava me cheirando?

    — Imagina, Wagner! Você me respeite! – Disse, unindo toda a moral que se esvaía. Estava apenas ajeitando a manta!

    Ele se levantou indignado, pegou seu casaco e disse:

    — Acho que a senhora passou dos limites, Dona Glória. Não sou um prostituto.

    Ela tremia:

    — Meu Jesus, é claro que não. Não estava fazendo nada, Wagner, eu juro!

    — Me desculpe, Dona Glória, mas não volto mais aqui.

    E se foi, com toda a sua dignidade e dúvida. Muitas dúvidas.

    Glória chorou. Como uma menina abandonada pelo primeiro amor. Colocou Lucho na vitrola e chorou ainda mais. Ouviu Lucho até adormecer. Não queria acordar.

    Mas o dia raiou e invadiu a janela. Invadiu o quarto e iluminou o rosto de Glória. Era preciso acordar. Seu rosto, inchado pelo desespero, parecia derreter. Precisava reconquistar Wagner, precisava que ele voltasse. Precisava.

    Dessa vez não quis falar com Sarah ou nenhuma outra amiga. Queria Wagner só para ela. Pensou em lhe pedir desculpas, pedir que ele reconsiderasse. Oferecer mais dinheiro, pedir aulas particulares. Qualquer coisa que fizesse com que ele entrasse novamente pela porta da sua casa e fizesse as cadelas do bairro estremecerem.

    Resolveu esperar alguns dias, deixar a poeira baixar. A raiva nunca é boa conselheira. Na outra sexta feira, dia em que ele normalmente estaria de volta, resolveu ligar. Não sem antes avisar a todas as amigas que Wagner não daria mais aulas de dança. Inventou uma doença na família, ouvia uma dezena de lamentações e suspirou aliviada. Agora vinha a segunda parte: tomou coragem e ligou para Wagner. Ele atendeu, o que já era um bom sinal:

    — Boa tarde, Dona Glória.

    — Boa tarde, Wagner, que bom que você me atendeu.

    — Não tenho mágoas da senhora.

    — Ótimo. Gostaria de me desculpar se lhe passei uma impressão errada. Não gostaria que nossa amizade terminasse assim.

    — Fica tranqüila, Dona Glória. Acho que exagerei um pouco também.

    Glória respirou, aliviada.

    — Que bom, meu querido. Você não quer vir aqui hoje, para conversarmos? Sem as meninas, claro…

    Wagner parou um pouco para pensar. Será que ela poderia tentar algo mais?

    — Prometo que será apenas uma conversa. Mas se quiser dançar…

    Cedeu.

    — Irei sim, Dona Glória. As oito mesmo?

    Em ponto.

    Glória desligou o telefone com um sorriso maroto. Tinha jogado a isca e seu peixão tinha fisgado. Agora era com ela.

    Fez uma outra playlist, mais lenta e sensual. Estava craque em escolher e listar músicas. Comprou velas e alguns petiscos. Deixou o melhor vinho na geladeira, só para resfriar levemente. Decidiu comprar uma lingerie. Queria algo sexy, rendado, de puta, como sua mãe dizia. Nada bege, grande, feito para esconder a barriguinha ou amassar os seios. Vermelho sangue. Vermelho paixão. Parecia endiabrada, com um fogo lhe consumindo por dentro. Como no dia que gozou para Lucho Gatica.

    Wagner chegou pontualmente às 20 horas. Glória já tinha bebido um pouco, para relaxar. Abriu a porta com um sorriso encantador. Seus olhos verdes flamejavam:

    — Bem-vindo, querido!

    — Boa noite Dona Glória.

    — Glória, Wagner. Só Glória.

    — Para que tantas velas?

    — Gostou?

    — Sim, ficaram ótimas.

    — Li em algum lugar que elas dão um tom calmo ao ambiente. Resolvi experimentar.

    — Fez bem.

    Se sentia ardilosa.

    Eles se sentaram no sofá. Ela serviu o vinho. Eles se olharam ao brindar. La Barca começou a tocar.

    — Dança comigo, Wagner?

    — Claro, Do…Glória.

    Eles se encaixaram no ritmo da dança e Glória pôde sentir novamente aquele cheiro que lhe acompanhava em sonhos. Em delírios. Seu rosto se afundou no ombro de Wagner que escorregou as mãos pelas costas de Glória e sentiu também seu perfume. Era elegante, nada muito doce. Tocante. A música envolvia o ambiente e, à luz de velas, as diferenças desapareciam. Eles eram apenas um homem e uma mulher. Dançando.

    Glória se afastou um pouco para olhar o rosto de Wagner e se aproximou de seus lábios. Ele disse algo que ela não entendeu, ela chegou mais perto e ele não se afastou. Os lábios se tocaram, a princípio tímidos. As línguas se permitiram e as bocas se devoraram. Wagner e Glória pareciam febris, sem entender toda aquela volúpia. Na sala, no mesmo sofá que haviam se desentendido há uma semana, os dois se permitiram.

    Glória desabotoou a camisa de Wagner e lambeu o seu peito, com uma luxuria pecaminosa.

    Ela tinha um belo corpo e Wagner começou a explorá-lo, doce e gentilmente. Com pequenas mordidas e beijos sufocantes, seus corpos foram se encontrando em um ritmo que não estava na playlist. Nem nos mais insanos sonhos de ambos.

    Quando Glória aproximou sua mão do membro de Wagner, levou um susto. Era mulher de um homem só e não imaginava que aquilo poderia vir em tamanhos tão diversos. Sentiu medo. Será que, depois de tanto tempo, conseguiria dar conta de tanto? Tomou coragem e pediu:

    — Põe. Mas só um pouquinho!

    Wagner sorriu. Desceu sua boca até o sexo de Glória, que nunca havia recebido tanta atenção. Tinha vergonha, tinha culpa, achava sujo. Mas tudo desapareceu quando sentiu aquela língua quente. Suas pernas se abriram e suas coxas se molharam. Wagner se fartou e levou todo o gosto de Glória de novo até sua boca. Se lambuzaram até com o pouquinho, que Wagner colocou e tirou até Glória gozar aos prantos.

    Se bastaram. Dançaram. E, de pouquinho em pouquinho, se amaram.

    Imagina quando Sarah souber!


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