Dia dos Pais

  • Dia dos Pais

    Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais.

    Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica!

    Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento.

    As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.

    O corpo muda, os hormônios se alteram, o leite chega, o bebê chora e alguma coisa responde.

    E eles? Nove meses de espera sem que se altere em seu corpo nem um fio de cabelo?

    Os pais que lutem!

    Mas será mesmo?

    Pode ser que haja escondido em algum recanto da fisiologia masculina, um mecanismo que desperte o homem para a paternidade?

    Algo que desperte o instinto paterno?

    Ou pai é coisa que se aprende?

    Talvez alguns amanheçam pais.

    Outros entardeçam.

    Alguns, quem sabe, só escureçam pais.

    E há aqueles que vão se tornando pais devagarinho.

    No primeiro colo meio desajeitado. Na primeira fralda colocada ao contrário. Na madrugada em que caminham pela casa com um bebê que não para de chorar. Na febre que assusta. Na mão pequena que procura a sua para atravessar a rua.

    Ahhh… A natureza não lhes deu o leite, mas deu-lhes braços, inteligência, senso familiar, de proteção, de valor e de clã.

    E, depois, cabe a cada um decidir o que fará com tudo isso. Que pai será…

    Pode ser que a paternidade esteja justamente aí: menos no que desperta espontaneamente no corpo e mais no que um homem escolhe construir todos os dias.

    Sou afortunada.

    Tive um bom pai.

    O pai dos meus filhos foi um bom pai.

    Meus netos têm bons pais.

    Talvez por isso, depois de começar esta crônica desconfiando um pouco da natureza e bastante dos homens, eu chegue ao fim quase boazinha.

    Quase.

    Porque pai também não precisa de santificação. Precisa ser! 

    O olhar, a escuta, a atenção e a presença serão, com certeza, aquilo que seus filhos guardarão de você. E, um dia, talvez contem aos próprios filhos, que contarão aos seus…

    E, na beleza deste domingo de sol, 9 de agosto de 2026, quero, desejo e proclamo ao mundo:

    Feliz Dia dos Pais!

  • Uma História de Pai, Filho, Avô

    Para Matheus, meu filho.
    Para Francisco, seu avô
    .

    Matheus fez trinta, a vida falou sem gritar,
    o corpo avisa, a alma aprende a escutar.
    A dor não pede licença: entra e ensina,
    quem ama, simplifica, ampara e ilumina.

    O tempo é lavrador: ara a gente por dentro.
    Quem aceita o sulco, colhe entendimento.

    Fala, meu filho, que hoje o verbo é ouvir,
    ouvir é cuidar: verdade a seguir.
    Se o fardo pesa, nós dois vamos dividir,
    a coragem é quieta, mas sabe resistir.
    O vô plantou raiz pra eu não me perder,
    agora, contigo, aprendo a renascer.

    Eu, que era resposta antes da pergunta,
    descobri que o amor é a pausa que junta.
    “Pai, respira. Vai no passo que dá.”
    No teu conselho simples, mora o verbo amar.

    O vô dizia: “Filho, firme o pé no chão,
    tradição é mapa, futuro é direção.”

    Tudo passa, menos o que a gente passa adiante,
    mesa posta, fé breve, silêncio constante.
    Três tempos, uma voz: o que foi, o que é, o que vem,
    sertão por dentro, onde a gente se mantém.

    Ouça, filho, o pai está aqui,
    a escuta é a forma mais pura de dizer “estou”.
    Se a vida insiste, a gente insiste em si,
    com o vô na lembrança, o amor que nos guiou.
    Raiz bem funda abraça qualquer vento:
    pai, filho e avô: três nomes do mesmo tempo.

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