Giselle Nunes no Crônicas Cariocas

  • Rebuliço no Cãodomínio

    Lugar de peripécias acaloradas é condomínio. Histórias inimagináveis. Não importa o número de apartamentos. Condomínio surpreende até aos Anjos da Guarda preparados para os fortuitos. Edifício de 11 apartamentos. Alguns adultos, muitos idosos, cinco jovens, um bebê e nove cães. Mesmo comedido, valem contos prazerosos.

    Convivência pacífica, polida e amigável entre alguns condôminos. O rol está sempre bem decorado pela moradora-design. A síndica é pulso firme e às vezes vira ursa na resolução de conflitos, defendendo o prédio com zelo e meticulosidade. O zelador parece um polvo-faz-tudo. Sabe tudo, vê tudo, ouve tudo. Tem a senhorinha educadíssima, o homem quase não visto, os casais de jovens adultos bonitos, as jovens que sempre passeiam com os cães, a neném recém-nascida que é uma fofura, o casal intelectual e nós.

    Aqui estamos há mais de uma década e o edifício nunca foi abundante em crianças. Talvez seja reflexo dos novos tempos ou por não termos área de lazer ou os dois. Não sei. A verdade é que não há crianças pelos corredores.

    Morar aqui é silencioso, fresquinho e ensolarado. Corredores cheirosos e portas branquinhas com maçanetas variadas, das que fazem reconhecimento facial às antigas, que engolem as chaves, emperram e não querem devolvê-las.

    Mas a pouco tempo tivemos uma moradora subversiva expulsa do apartamento. Um Oficial de Justiça apreendeu o carro alugado que ela também não pagava. Aliás, acho que esse apartamento precisa de exorcismo. Até hoje, nele só vieram morar transgressores, desobedientes, esquisitos, baderneiros. Uma moradora logo que chegou, montou um brechó na recepção. Foi um auê…

    Por isso, sempre que alguém se muda, proclamo o ditado japonês: Boa sorte e tenha bons vizinhos. Afinal, vizinho está do seu ladinho.

    Mas, dia desse, já noite, ouvimos latidos, gritos. Mafalda e o Capitão começaram a rosnar na fresta, embaixo da porta. Deitada, iniciando a leitura do ritual do sono, meu telefone toca, a síndica: Vocês estão com outro cachorro, um preto? Respondi negativamente. Tem um cachorro preto solto nos corredores. Minha filha não consegue sair com nossos cães para passear. Percebi temor na voz. Acordei meu marido que foi ver o furdunço no prédio. Caos generalizado em plena quarta-feira.

    Ele saiu com uma vassoura e enorme bacia de plástico, daquelas que se põe roupas brancas de molho no bicarbonato. Portas entreabertas com olhinhos nas frestas espiando o fuzuê. Espada-vassoura e escudo-bacia em punho lá foi ele. Eram três cães pelos corredores. O Guerreiro e os três dragões. Pessoas gritavam nos apartamentos: Chame os bombeiros. Liguem para polícia. São brabos! Cuidado! Joga spray de pimenta!

    Os três cachorros corriam, subiam, e desciam as escadas do prédio assustados, eufóricos, desnorteados. Pelo olho-mágico, os vi saracoteando e pareciam adorar a liberdade. Sabíamos que só um vizinho tinha três cães. Os pais da bebê. Munido da armadura improvisada, o Cavaleiro foi até o apartamento do casal. Porta escancarada. A chave permanecia na fechadura por dentro. Um dos cães entrou no elevador, subiu, ganiu, desceu enlouquecido.

    O Destemido usou a espada-vassoura e enxotou o maior para dentro do apartamento. Fechou a porta. Os outros dois, mais serelepes, subiam e desciam as escadas felizes, latindo em brincadeira. Encurralou o menorzinho entre a parede e o escudo-bacia e o arrastou, preso, até a porta e adentrou-o.

    O terceiro, mais levado, o driblava. O Valente Guerreiro levou uma canseira. Esbaforido, subia e descia as escadas atrás do fujão. Os joelhos reclamaram. Parou. Sentou no degrau. O cão o olhou ressabiado. Distante, aguardava seu perseguidor retomar a empreitada. Mal sabia o foragido que o Guerreiro sessentão estava exausto. Rendido, largou a espada-vassoura, o escudo-bacia e argumentou: Você venceu. Desisto. Não dá para mim. O cão virou a cabeça de lado e percebeu o cansaço do homem à sua frente. Pode ficar zanzando pelo prédio. Não vou te pegar. E foi acalmando a respiração. Ciente da desistência e de ter sido proclamado vencedor, o fugitivo, calmamente se aproximou e roçou o focinho na mão do perseguidor. Meu marido acarinhou a cabeça do cachorro e mansamente pegou a coleira e o levou até o apartamento. O fujão entrou sem retrucar.

    Horas depois, o morador do apartamento chegou. Atualizado dos fatos e tendo a chave pelo lado de fora da porta, trancada, veio agradecer e pediu inúmeras desculpas.

    Tenho certeza que os cães foram dormir extasiados de felicidade na brincadeira da liberdade.

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