Humberto de Almeida

  • As 7 Palavras de Cristo na Cruz

    A pergunta foi direta como um chute do infalível Bruce Lee em seus melhores dias: por que as últimas 7 palavras de Cristo na cruz? E o poeta, sem querer fazer poesia, respondeu na sua forma sertaneja de ser.

    Mas, afinal, por que “sertaneja”? Simples. O poeta, escritor e dramaturgo premiado no Concurso Nacional Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, com a peça “A Cruz da Menina”, nasceu na cidade de Patos, distante pouco mais d 300 km da capital da Parahyba, na mesorregião do Sertão Paraibano.

    Mas, como dizia, a pergunta não poderia ficar parada no ar. O título um tanto estranho, mas bem escolhido como os títulos de um José Cândido de Carvalho, “olha pro céu, Frederico” e “Se eu morrer, telefone para o céu”, entre outros, vocês sabem que assim como eu não era poeta, é esse mesmo: “As 7 palavras de Cristo na Cruz”.

    O Livro, porém, pelo fato de o poeta escolher o soneto para poetar no universo de sua religião, a católica, essa forma de poesia que até parece fácil, dois quartetos e dois tercetos, não se limita apenas ao “tema religioso”. Outros poemas, todos na forma de soneto, nele dispostos, também conservam a mesma técnica e a capacidade poética de encontrar a melhor rima para e a palavra exata para o poema.

    Os sonetos dispostos, intitulados de Gólgotas, enumerados de um a sete, pois, afinal, não fosse assim o titulo não se justificaria, obedecem regiamente a ordem das palavras proferias pelo Cristo na Cruz, onde, por exemplo, mesmo sabendo-se Cristo e inocente perdoava aqueles que o crucificavam. Lembramos, porém, que a ordem das frases pelo Cristo proferida nos sonetos do poeta, variam de acordo com as quem escreveu. No caso do poeta José Mota Victor, os sonetos seguem o que escrevera o evangelista Lucas.

    “… Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”.

    Era a misericórdia de Deus aos que o mataram.

    Os versos são do soneto “gólgota” primeiro, inspirados no momento em que o Cristo perdoava a ignorância dos que o crucificavam. Sabia o filho de Deus, tinha certeza que eles, os soldados romanos, não estavam sabendo o que faziam naquele momento. E assim, ratificando o que fora pelo mesmo dito em outro momento, segundo, claro, a Bíblia, perdoava os seus inimigos, dava-lhes o outro lado da face para ser esbofeteado.

    E assim o poeta, comprovadamente de origem religiosa, católica por tradição, assim como este malabarista de palavras, inspirado nas últimas palavras de Jesus na cruz, segue mostrando que fazer Sonetos, assim como dissera um dia o Noel Rosa a respeito do samba, não se aprende no colégio.  

    O poeta José Mota Victor, sabe e domina a técnica do soneto como poucos. No soneto “Morfologia do Soneto”, por exemplo, esse também presente no livro, ele deixa claro “Que no soneto e mais que a ode/ Que é poema de tamanho irregular/ No soneto o verso quer aprisionar/O poeta, que esperneia como pode”.

    E sai desfilando poética e harmoniosamente o conceito por todos conhecidos desse que vem a ser um soneto petrarquiano.

    Em seguida, aproveita os tercetos, mostrando o domínio que os bons poetas tem dos versos que escrevem, para concluir:

    “Os dois quartetos e os dois tercetos
    São as belezas formais do Soneto
    Os quartetos são para exposição…
    O núcleo é no primeiro terceto,
    No seguinte se tem o desfecho
    E do poeta requer inspiração…

    O Livro “As 7 palavras de Cristo na cruz” tem o seu forte nos sonetos inspirados por elas, isto é, nas últimas sete palavras do filho de Deus na cruz. São essas, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem; Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso!; Mulher ai esta o teu filho!; Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?; Tenho sede!; Está consumado. E Pai, em tuas mãos entregam o meu espírito!”.

     Essas formam o “núcleo” do livro. Outros sonetos, porém, inspirados nas histórias e lembranças do poeta patoense, fazem parte.  Um livro inspirado de um poeta que sabe o que pretende dizer e, poeticamente, diz muito bem o que sabe.

  • Como era gostoso o meu Pasquim!

    Quando o primeiro Pasquim chegou às bancas de jornal e revistas, como o sol de uma canção daquele compositor baiano, era 26 de junho de 1969. A memória, ainda sem os muitos livros, discos e filmes que hoje ocupam suas prateleiras, lembra daquela boa notícia que me foi trazida por Flávio, sujeito mais velho, experiente e o mais letrado entre os colegas que conheci no bairro da Torre, e que gostava de ler e colecionar Tex Willer.

    Eu, que nunca tive tendência ao babonato, à babação ou coisa parecida, sem qualquer vocação para ser um ex-croto, quando vi a capa que o Ziraldo — um craque nessa área, o nosso camisa 10 — fez em homenagem ao JK, que acabara de ser convidado para ouvir e cantar o seu Peixe Vivo em outra cidade, confesso: vivi e me vi babando. Nada mais bonito e poético do que um JK subindo ao céu, com as demais letras presas ao corpo gráfico.

    Se, aos sábados, costumava dar uma voltinha no Ponto de Cem Réis — o “escritório” que um dia foi do meu injustiçado amigo Livardo Alves* — para verificar in loco como ele está ficando de cara nova, moderna, numa morosidade de matar Salvador Dalí — e o daqui — de tédio, naqueles outros sábados, tomado por uma fome de leitura de anteontem, corria à banca mais próxima para pegar o meu Pasquim.

    A fome pasquinesca era tamanha que “comia” a capa e, mesmo que os olhos gritassem de fome de ver/comer, guardava o resto — Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Henfil, Paulo Francis, estes, particularmente — para depois da ressaca das muitas cervejas que Bil (The Kid) nos servia no Blitz; e Dantas, o careca, com Pilsen supergelada, acabava de nos matar na Flor da Parahyba.

    Acho que foi o primeiro hebdomadário, o nome feio (botem feio nisso), com que eles, uns gozadores, chamavam esse tabloide que furou, de verdade, o cerco da sisudez de um regime sem graça e autoritário.

    Tempos bons. O Pif-Paf, à época quase um desconhecido para este escriba, editado por Millôr e recentemente (re) apresentado, em seus únicos oito números, pelo intelectual, bom caráter e ótimo sujeito Márcio Roberto, muito antes de Drummond vaticinar, era apenas um quadro na parede da minha memória de papel.

    O Pif-Paf fez 60 anos há dois anos — insuportável essa história de “há dois anos atrás”, que nossos cultos e incultos políticos, repórteres e entrevistados costumam usar para aumentar e ratificar uma distância que o “atrás” dispensa. O Pasquim, um pouquinho mais novo, no ano da graça de 2026, completa 57 anos. Lembro que a primeira capa trazia a cara de Ibrahim Sued, então o mais famoso colunista social da imprensa brasileira.

    Se não bastasse um tabloide que, em apenas dez semanas — um pequeno pulo para uma turma genial, mas um gigantesco salto para a história da nossa, de novo, verde e amarela imprensa brasileira —, saltou de 28 mil exemplares para 200 mil, além desse gigante do qual falei no começo do parágrafo, trazia um furo tão grande que dava para ver, a olho nu, o que acontecia na terra de Akira Kurosawa.

    Enquanto a grande imprensa disputava, discutia e gritava em letras maiúsculas, tentando descobrir quem seria o sucessor de Costa e Silva, o Pasquim anunciava que o próximo presidente seria Emílio Garrastazu Médici (o mesmo Garrastazu que Tim Maia batizou como nome de seu esconderijo secreto, onde se trancava, sozinho, bem ou mal acompanhado, para fumar maconha e cheirar cocaína), a mais perfeita caricatura de ditador que ainda trago na memória.

    Mas, com todas as devidas vênias do mundo, achei a capa do Ibrahim Sued tão comum quanto — força de expressão — o sabão que minha mãe usava para lavar as caçarolas enegrecidas pela fumaça do carvão do seu fogão a lenha. Porém, capa mesmo, Márcio, inesquecível, foi aquela do JK subindo para o céu.

    Bons – bons?! – tempos aqueles, hein?

    Livardo Alves nasceu em João Pessoa, no dia 21 de setembro de 1936, e faleceu no dia 16 de fevereiro de 2002, em João Pessoa*.

  • Fala, Memória! Belchior Vive!

    Ao lembrar, agorinha, da troca de roupa e mudança para outra cidade do nosso “Bigode” cearense, esse que não cantava tanto quanto aquele outro que cantava, o Bievenido Granda do Perfume de gardênia, no mesmo ano em que perdemos também os ótimos Luiz Melodia e Vander Lee, a porteira da memória foi aberta.

    Agora, com a fazenda de porteira aberta, casa destelhada e também de janelas abertas, lá fui eu de volta para os anos… 90 (?), na API, nossa ex-Associação Paraibana de Imprensa, hoje transformada em um self service ou coisa que o valha, encontrar-me com o excelente compositor de Alucinação e alucinações outras.

    Foi lá, ainda passeando pelas “Coisas do Momento”, vizinho da “Letra Lúdica” do excelente Hildeberto Barbosa Filho, amigo de priscas eras, no jornal do mesmo nome (O Momento), fundado e dirigido pelo saudoso Jório Machado, editado na época pelos saudosos Oduvaldo Batista e Maria José Limeira, que me encontrei pela primeira — somente o encontraria uma segunda — vez como ele, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

    Nesse dia, no auditório — era esse o nome? — da API, ele ainda curtindo o sucesso do seu “rapaz latino americano”, dava um relaxada coletiva. Estava presente. Assim por acaso. Tomando umas e outras naquele barzinho que respirava cultura, meio as piadas e a performance do “artista” Moura, então responsável pelo bar, subi para ver esse que foi o melhor compositor daquela safra de nordestina que invadiu o Sul maravilha, com as suas histórias “a palo seco”, onde desfilavam pavões misteriosos.

    Hoje, passados os anos, confesso que não o achava tão diferente desse compositor cheio de ideias, filosofias e letras em que se transformou. O mais culto de sua geração. Sem dúvidas. Um compositor excelente. Autor de letras que quase não cabiam nas músicas que a sua cabeça em constante revolução fabricava.

    Naquele dia, lembro-me bem, os estudantes estavam nas ruas. Não buscando mudar o mundo, mas contra o aumento no preço das passagens de ônibus. Nada mais comum. Não havia um só cara-pintada. Todos de caras limpas. Negócio seguinte: foram ver o ídolo. E, aproveitando a oportunidade, pediram o seu apoio “à causa”. Lembro-me bem. 

    O protesto tem sentido… Lutar. Lutar. Lutar. Sempre. Mas, nesse momento, estou aqui como artista…

    Como?!

    Obtemperei.

    Sei ainda que, naquele momento, o papo, o nosso papo nada tinha a ver com o fato. Ou teria?

    Não entendi. Então quer dizer que o Belchior se preocupa apenas em vender o seu produto, e acha tudo muito legal quando a estudantada sai para comprá-lo? É isso?! Agora quando essa mesma molecada precisa do seu apoio numa reivindicação justa e legal, ele diz “Nada a ver com isso eu tenho, pois sou um artista? Estás parecendo aquele outro que não tá nem aí para o que acontece aqui fora, porque o seu único desejo é estar Odara!

    E aí? O que você quer dizer com isso?

    Agora foi a vez de ele Obtemperar.

    Sou um artista, Faço arte. Quer discutir arte comigo?!

    Não queria. Não quis. Não discuti. Não havia necessidade. Sabia. Era um artista e muito bom, e fazia uma arte muito boa. Mas o papo não era por ai.

    Tentei ainda lhe dizer que seria deixar que os Estudantes brigassem por ele, enquanto ele — fiz questão de abusar do “ele” — ficava em casa “contando o seu metal.” Aquele mesmo que a Elis Regina, por livre e espontânea vontade, resolveu transformar (e cantar) em “vil metal”. Disse-lhe. Mas, entre mortos e feridos, encontramos motivos para novas canções.

    Tive ainda a oportunidade de estar outra vez, mais uma vez e apenas uma, dessa vez em São Paulo, com o compositor da bela e datada “A Palo Seco”. Aquela famosa que fala no ano de 1973 (Chile). Ou teria sido no ano de 1976 (Soweto?)?

    Fala, memória, invoco Nabokov! Bons tempos aqueles, hein?!

  • O maestro Edino Krieger passou por aqui

    Ele nasceu em Brusque (Santa Catarina), no dia 17 de março de 1928. Estão fazendo as contas? Pois é. Edino Krieger, esse mesmo que pede que “por favor” não o chame de “Édino”, com esse “E” maiúsculo acentuado, um dos maiores compositores do mundo. Pois é. O Maestro passou por aqui.1 Por acaso o convite veio em forma de Rosa também fui convidado para o mesmo aniversário em que o Maestro convidado também fora. Um encontro festivo e familiar. Ou vice e versos. Nesse dia, muito bem acompanhado, recebi do Maestro Edino uma alegre e divertida aula sobre a vida e a música. Tudo sem esquecer a minha bela e gostosa música nordestina, essa que para o Maestro é uma das mais ricas do mundo.

    — Ah, 1berto! Eu gosto muito da música de vocês! Admiro muito o Repente. As Emboladas e Cantadores de viola. Maravilhosos! As imagens poéticas que eles conseguem criar são maravilhosas! Tem mais: métricas perfeitas e versos redondos!

    O Maestro ainda contou boas histórias sobre os nossos Eleazar de Carvalho (Iguatu – CE) e José Siqueira (Conceição-PB). Sobre o primeiro, lembrou as “peças” pregadas por alunos e regidos. “Eleazar tinha uma memória fenomenal! Bastava uma leitura da peça e… estava tudo na cabeça!”. José Siqueira? “Ah, esse teve uma importância histórica na valorização do músico brasileiro! Não era muito de composição. Mas, nesse campo, – valorização – os músicos devem muito a ele”.   

    O papo com Edino, aos 89 anos ou quase isso, considerando que na próxima semana a essa idade chegará, graças a Deus, mesmo com toda a erudição musical que o mundo conhece, respeita e admira não tem nada de professoral. É todo sorriso a flor da pele. E se não bastasse, livre gargalhada espalhada entre uma história e outra.

    E a do filho Edu, versado nos “mistérios existenciais” ou coisa parecida, que lhe perguntou no dia em que fazia 68 anos, sabendo que nessa idade ele perdera o pai, se não entrava em crise pelo fato de estar fazendo exatamente a idade em que o seu “mestre da banda” trocou de roupa e se mudou para outra cidade?

    — Não tenho a idade do meu pai, seu avô, como parâmetro. Mas a da minha mãe, sua avó, que viveu por aqui quase 100 anos!

    Edino é assim. Nada de professoral nas conversas. Sempre o mesmo. Estando em festa de aniversário ou depois de uma de suas muitas apresentações por aqui e alhures. Nunca destoa. Assim, por mais que insistam em dizer que de perto ninguém é normal, o maestro Edino Krieger é normalíssimo. Não existe entre ele e o mais leigo dos fãs aquele que se sinta constrangido numa aproximação.

    Se essa sua rara qualidade por si não bastasse, simplicidade a toda prova, coisa mesmo de gênio, pessoa capaz de contar uma piada e sorrir com a piada contada como se estivesse contando a referida pela primeira vez, tem ao seu lado a companheira de mais de 40 anos, Neném, por todos assim chamada carinhosamente, que é somente sorriso e alegria. Um fato, esse perceptivo por todos, que a torna dezenas de anos mais jovem.

    Mas nada melhor que ouvir esse mestre sem nenhuma pretensão de ser engraçado. Edino não precisa.  O seu humor é tão natural quanto o seu “Canticum naturale” (1972), composto em “parceria” com os pássaros, esse fazendo coro, e os sussurros da Amazônia.  

    Sem aquele chato ar a professoral, repito, o maestro discorreu sobre a sua terra e família, e contou histórias que mereciam ser encerradas em um “capa dura”. Um homem de mil histórias vividas. E todas merecedoras de um livro somente para elas.  

    Ali, nesse dia, sábado passado, num papo entre sorrisos e suaves doses de uísque, não se encontrava o crítico de música e colunista do Jornal do Brasil (caderno B) e Tribuna da Imprensa. Mas o menino que contava – sem mesmo que fosse perguntando — sobre o porquê do seu “estranho nome”. “O Edino foi uma homenagem do meu pai a um colega de farda”.

    Em Brusque, cidade natal, não havia o que chamamos por aqui de Quartel ou departamento outro parecido. Era “Tiro de Guerra”. Instituição militar do Exército Brasileiro encarregada de formar atiradores e ou cabos de segunda categoria (reservistas) para o exército, Voces sabem. Assim, o seu pai, Aldo Krieger, foi enviado para servir (de verdade) em outra cidade. E saiu dela já como “maestro” de banda de música da cidade.

    Assim, por lá, graças a um superior hierárquico, o musico foi descoberto enquanto executava serviços gerais no quartel onde servia. Resultado: em pouco tempo era quase o “dono” da banda. Pois bem. Foi lá que conheceu o “Edino”, nome esse que mais tarde, em homenagem ao mesmo, batizou o seu musical filho.

    O papo com Edino não tem nada daquele ar professoral nem clima de erudição, Ele não posa de “professor”. Mestre? Nem pensar. Nenhuma importância se não encontra no meio um ouvinte no mesmo nível do papeador. Suas histórias são todas contadas com o humor típico de quem estar s de bem com a vida.  Sempre. Todas assimiladas por todos. Em atos rápidos e engraçados.

    Nessas historias são muitos os personagens famosos que merecíamos conhecer. Não digo gozar da amizade que esses tinham – muitos tem ainda – com o maestro. São muitos. Paulo Moura, para quem escreveu/transcreveu obras para o seu sax alto, (brasiliana?) e ele gostou tanto que “fugiu” com a partitura. Vinicius de Moraes, o poetinha de quem ainda guarda boas histórias, parceirinho seu na instigante “Fuga e antifuga, quarto lugar no Festival Internacional da Canção, do ano de 1967. Maestro Hans-Joachim Koellreutter, Claudio Santoro, Guerra-Peixe e Eunice Catunda, esse que formavam o Grupo Música Viva… Mas falar sobre o compositor, o crítico musical e o produtor cultural é correr risco de ficar pelo caminho sem mostrar toda a “genialidade” do virtuose menino que iniciou estudos de violino aos sete anos com seu pai, realizando recitais no Estado dos nove aos 14 anos.

    Depois do papo com esse “jovem” de 89 anos, isso mesmo, lucidez em cada frase e marcando essa com um humor típico de quem estar sempre de bem com a vida, não se leva a impressão de que ali estava um dos mais importantes compositores eruditos do mundo em atividade. Mas aquele colega que acabou de contar mais piada sobre o amigo Vinicius de Moraes. Esse mesmo que lamentava o fato de ser grande poeta, mas pequeno no essencial que tanto desejava: “Se houver reencarnação, acreditem, desejaria voltar como Vinicius mesmo. Só uma coisa: quero voltar com o pau um pouquinho maior”. E encerra a história numa gargalhada incontida.

    Esse sem dúvida é o maestro Edino Krieger, um exemplo acabado da simplicidade que faz dos mestres e/ou gênios merecedor de todo o nosso respeito e admiração. Edino é esse exemplo acabado.

    A minha benção, maestro!

    1. O maestro e compositor Edino Krieger morreu na noite de terça-feira, aos 94 anos, em decorrência de complicações respiratórias e renais. Ele morreu no Centro de Terapia Intensiva da Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. ↩︎

    *Texto publicado originalmente em 17 março de 2017, no portal Crônicas Cariocas.

  • Um beijo é só um beijo ou qual é o filme?

    “Um beijo é só um beijo”. Esse é titulo do livro do crítico literário e cinematográfico João Batista de Brito. Editado pela Manufatura, aqui mesmo nestas plagas parahybanas, o livro foi lançado em 2001. Pois é. Eu conheço muito bem o seu autor. Somos, talvez eu mais do que ele, jaguaribenses, do bairro de Jaguraibe, capital da Parayhyba.

    Sabia há muito, uma noticia passada por ele mesmo, que o livro havia sido lançado e muitos cinéfilos e não cinéfilos correram para comprar o dito cujo. Mas, infelizmente, andando por aí, presente no meio dessa gente eu não estava.

     Anos depois, mas precisamente 15 anos após o seu lançamento, por acaso, visitando um dos nossos sebos culturais encontrei o seu – dele – “Um beijo é só um beijo”.

    Antes, só não me lembro de quando nem onde, em papo com o autor, perguntei-lhe onde encontrar o referido, pois, não o tendo até aquela oportunidade, cinéfilo de carteirinha que sou, queria adquiri-lo. A resposta? Esgotou. Nem em casa tenho em duplicidade. Mas, como disse neste parágrafo, depois de muito procurar, finalmente, encontrei o procurado em um de nossos “sebos culturais”.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro fininho, apenas 129 páginas, como deve ser todos os livros lançados em nossos dias. Isso tudo considerando o fato de que o brasileiro ler apenas 4 livros por ano, sem conseguir, por incrível que possa parecer, chegar ao fim dos 4 livros que resolveu ler. Ah, mesmo considerando aqueles considerar aqueles que “caem” no vestibular. Tem mais; desses chegam ao fim de apenas 2,1 livros. Está na pesquisa.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro de pequenas 28 histórias, espécies de miniconto, com cada uma delas, como o autor faz questão de esclarecer na sua apresentação, relacionada a um filme.  Diz mais: é fiel ao filme, mas encontra uma forma criativa de narrar, sem entregar o filme (no sentido do conto) ao leitor.

    Li-o de uma só tirada. É assim que costumo me referir a uma leitura primeira e prazerosa. Ele, porém, o autor, por mais que diga não “entregar o filme” nos seus minicontos, para o cinéfilo, aquele mesmo viciado, a “charada” morre logo nas primeiras linhas. Nenhuma dúvida que o livro intitulado de “um beijo é só um beijo”, também poderia ser muito bem chamado, sem deixar de despertar a curiosidade do leitor, de “Qual é o filme”?

    Uma coisa, porém, mais que ululante e mais ainda que o óbvio que o antecede, é que não assistindo ao filme, por mais que se esforce o cinéfilo, ele não conseguirá “adivinhar” o filme ali transformado em miniconto pelo autor. Verdade. Por outro lado, esse fora da tela, qualquer pequeno cinéfilo tendo assistido ao filme “mincontado”, logo nas primeiras linhas, prestando atenção ao que o “narrador oculto” conta, a charada ou mesmo filme estará resolvido.

    E não é nem pela forma de contar do autor, pois, ma vez que ele, João Batista, tudo faz para esconder o filme “camuflado” nos seus minicontos.  Por outro lado, esse do lado de fora da tela, alguns elementos que ele usa para dar vida a sua narrativa, por mais que se esforce em escondê-los, acaba entregando o filme sem perdão.

    Um exemplo é o conto que deságua no filme Casablanca, “Um beijo e só um beijo”, titulo do livro. Nele, Rick – esse em especial – e Victor, esses dois fortes personagens do drama dirigido por Michael Curtiz, que trazem o nome de Casablanca na pele como tatuagem. E agora?  Só faltou Ilsa. Mas, sendo ela quem narra o conto, seria demais pedir que a própria se identificasse.  Assim a entrega seria, como dizemos por aqui, de bandeja!

    No caso do miniconto “Palavras Cruzadas”, apesar de “suas viagens semanais a Milford”, é a trilha sonora que entrega o nome do filme. E o “marido traído” e perguntando, enquanto faz as suas palavras cruzadas, “Ela gosta de Rachmaninoff, mas por que por a música tão alta?” E a citação do médico que encontra em Milford e com ele jantara?

    Pois é, mesmo sendo um breve encontro, esse ficará na sua memória. Conclusão: só poderia ser Desencontro (Brief Encounter), o filme de David Lean, do ano 1945. Por sinal um excelente e belo filme. O título desse miniconto é um achado -“Palavras Cruzadas”. Um título meio assim como “vidas cruzadas”. Não dá pra esquecer. Fazer palavras cruzadas é uma das manias do marido de Laura (ah, sim, “Laura” também é uma entrega).

    Mas, para ficar por aqui, pois afinal são 28 deliciosas histórias ou minicontos, como ele deseja asism chamar, não se esquecer do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, acelerado, lembrando o trem da partida do personagem. Em síntese, o livro e João Batista, os minicontos por ele escritos são deliciosos.  O cinéfilo que se preza, mesmo com o “produto” em falta no mercado, como vocês viram, deve procurar. Eu procurei e achei.

  • Políbio Alves é o Varadouro

    Ele insiste em dizer que é um profissional da palavra. Não duvidem. A palavra é a “massa” com a qual trabalha. Tão essencial quanto o seu respirar, lá do alto do edifício onde mora, pescando com o anzol dos olhos, todos os dias, o azul da praia de Intermares, bairro onde mora. Por estas plagas e plagas outras, todos sabem também que Varadouro (Poemas – 1989), o segundo livro, esse que diz não aguentar mais olhar porque, todas às vezes que olha, tem vontade de reescrevê-lo, é Políbio Alves, e  Políbio Alves é o Varadouro.

    Depois de morar por 20 anos no Rio de Janeiro, onde conquistou inúmeros prêmios nacionais – entre eles, o de Poesia Augusto Motta/1977, com Passagem Branca (Poemas), aparecendo em forma de livro somente no ano passado -, voltou a sua cidade, talvez, para poder ir à Cuba, apaixonar-se por Havana Velha, descobrir ali o seu eterno Varadouro e escrever um longo poema sobre a sua descoberta. Isso mesmo que vocês acabaram de ler: “É como se ter ido fosse necessário para voltar”.

    Quanto a ilha cubana, se pudesse, transformaria-a naquele rio que passa pela sua aldeia, fazendo a curva bem pertinho do apartamento onde mora, e o cantaria mais que aquele outro famoso do Fernando Pessoa. Na terra do Fidel – do Partido, costuma corrigir -, como cidadão e poeta, recebeu o respeito que sabe merecer, mas, por motivos alheios a sua poesia, nunca teve na Província das Acácias, como, carinhosamente, costumo chamar a capital da Parayba.

    Não passou por Cuba em brancas nuvens. Ali, ainda, três esperados livros, todos prontinho da silva, sob a responsabilidade do editor e amigo Enrique Cirules, estão se vestindo, para, como aconteceu com o seu Varadouro, hoje, parte do acervo da Casa das Américas, ganhar o mundo. A Leste dos Homens, A Traição de Hemingway (ficção) e Havana Velha, essa, o poemão do qual falei no parágrafo primeiro, logo, logo, em sua forma final, estarão chegando por aqui e alhures.   

    Ele lembra que a infância  foi toda na Ilha do Bispo, inspiração do seu Varadouro, um dos mais pobres da capital, linha divisória entre a cidade de Bayeux e a capital da Parayba. Conta com um certo orgulho poético (sic) que de tudo fez na vida, mas, como a ternura, jamais perdeu a dignidade. Morou até em cabaré. Diz que lá  encontrou pessoas mais dignas do que muitos, aqui fora, que se não bastasse a pose de “pessoas”, dignidade nunca tiveram. Repete, sempre que perguntado, a mesma resposta: na cidade do Varadouro e de seus Exercícios Lúdicos, Invenções e Armadilhas (poemas- 1991), o Que Resta dos (seus) Mortos (Contos – 1983) estão com os seus demônios e os seus anjos.

    A entrevistinha foi mais um papo enfocando o lado do poeta-menino e do filho que somente deixou o colo da mãe, quando ela resolveu trocar de roupa e morar n’outra cidade. Poeta que sabe como poucos tecer a palavra e costurar as manhãs. Um papo meu e da Fátima Morena com um exemplar cidadão e amigo que preza os amigos como se fossem os seus poemas preferidos. E, se não bastasse, assim como vive exercitando essa amizade, declama-os todos os dias.

    H. A – Como nasceu o poeta? Houve muito esforço? Foi um parto à fórceps ou natural?

    P.A – Agora, na distância de tantos anos, penso que, a solidão de uma criança se deve entender, por exemplo, que essa criança sou eu – mobilizada entre os adultos, favoreceu a minha identidade com a palavra. Tinha 10 anos. Lembro de me ver escrevendo frases com as unhas contras as paredes do meu quarto. Muitas vezes, mensagens anônimas, havia nomes de lugares, pessoas, palavras que eu não conhecia. Isso – não sei lá por quê – continua a me perseguir até hoje, que depois aparece sempre na minha escrita.


    H.A – Uma curiosidade: como foi a “vida festiva do poeta”, em cruz das armas, quando a casa em que morava era um “centro cultura de poetas, seresteiros e namorados” ?


    P.A – Pois é. No início dos anos 60, éramos todos adolescentes, companheiros de colégio – Liceu Paraibano – e de sonhos. Quanto aos freqüentadores assíduos dos fins de semana da casa de minha mãe, em Cruz das Armas, onde nasci, convém enumerá-los: Gemy Cândido, Carlos Alberto Azevedo, Maria José Limeira, Pedro SAntos, Raul Córdula, Unhandeijara Lisboa, Ademar Ribeiro, Jurandy Moura, Carlos Aranha, Anco Márcio, Nautília Mendonça, Walderedo Paiva, Lucy Camelo, Célia Torres, Breno Mattos, Margarida Cardoso, Franklin Ribeiro, Natanael Alves, MArcos dos Anjos, Marisa Barros, Marcus Vinicius. Esses acontecimentos de cultura e amizade e uma geração, registrou-os Carlos Aranha em seus inúmeros textos jornalísticos. Portanto, alguns amigos, os quais eu admirava, liam os meus textos, Carlos Alberto Azevedo, Célia Torres, Gemy Cândido, Jurandy Moura, Ademar Ribeiro, Marcos dos Anjos e Maria José Limeira.


    H.A –  E as mais fortes lembranças de tua vida no varadouro, que descobriste e transformaste em poesia ?

    P. A – Na verdade, a lembrança dos maruins, a beleza plácida da maré vazante, a lama, o azedume da fábrica de cimento, os caranguejos-de-andada invadindo o quintal, subindo o batente da cozinha de nossa casa. Ali, através deles, surpreendi o rio Sanhauá, as fronteiras do pavor, o medo de morrer afogado nas tardes de pescarias. E nesse reduto colhi os primeiros frutos que iriam fertilizar a minha escritura, quer poética ou ficcional. Exatamente, pela vivência, injustiça, alegria, as dores do dia-a-dia, convivida, repartida, com outros homens


    H. A –  A busca da poesia foi uma coisa dolorosa, perturbadora, ou veio com aquela mansidão natural que embala os poetas e os coloca para dormir nos braços da poesia?


    P. A – Escrever é um ato de transpiração. Por favor não confundir jamais com inspiração. Também um ato de muito prazer num tempo de transformações. A diversidade das alegorias humanas, é, por um lado, estimulante, e, por outro reflete, de fato, a coexistência do disfarce de acontecimentos na ante visão do homens e da arte. Há, todavia, a busca da inteireza crítica, eis o porquê de escrever. O que importa, a mim, é ler. Trabalhar a textura dos meus livros, incitando-os a desafogar liberdades no ato de criação, sempre. Um trabalho solitário, mas contínuo. Desafiador, eu acho. A meu ver, a literatura, a poesia, tem que abordar a incomodidade, a problematização dos sonhos pessoais ou os anseios de uma coletividade. Não acredito em escritor ou poeta que não seja um confessor social.


    H. A –  (ufa!)Ser ou não ser poeta é uma solução ou um problema?


    P. A – Confesso: não sei.


    H. A –  Como era vida do poeta na casa da mãe do  poeta-menino?


    P. A – Em companhia das minhas tias, pois minha mãe trabalhava das 6 às 20h no Instituto Padre Zé Coutinho. Era enfermeira. Foram tempos difíceis. De muita solidão e insensatez no seio da família.


    H. A – Um dia escrevi que quando crescesse gostaria de ser o Fausto Wolff, Shakespeare, ou  um palhaço sorridente que morava perto da minha casa e sonhava comprar um circo só para ele. E o poeta sonhou alguma vez em ser algum poeta um dia? Ou outra pessoa?


    P. A – Jamais tive a mínima ambição de me assemelhar a qualquer escritor ou poeta. Isso sempre me pareceu totalmente inaceitável. E os anos foram se passando – agora estou na velhice – me alegro com essa postura em relação ao ofício de escrever.


    H. A –  A tua mãe, pelo que conheço, foi uma pessoa muito forte e presente em tua vida.  Como ela via o poeta-menino e era visto por ele?


    P. A – Minha mãe, hoje no andar de cima, continua sendo o esteio, o postulado da ética, em minha formação humanista e cultural. Um exemplo de dignidade no pleno exercício de cidadania. Foi esse o legado que nos deixou como forma de conviver amorosamente com a vida.

    H. A . O que te fez – tão de repente! – deixar João Pessoa, mudar-se para o Rui de Janeiro,  para voltar um dia como Cidadão Carioca?


    P. A  – Quando saí de João Pessoa era muito imaturo. Na verdade, na cidade grande me arremessaram pelo avesso, me fizeram de mendigo, depois fui aclamado rei. Ainda bateram na minha cara dizendo que estavam cuidando de mim. Meu exílio no Rio e Janeiro me colocou com os pés no chão. Me fez caminhar sozinho, rosto lavado, para enfrentar o mundo. Fiz de tudo para sobreviver. Tive as mais variadas profissões. Sim, é bom lembrar que o meu título de Cidadão Carioca em outubro e 1974, foi pelos serviços voluntários de educação, realizados nos morros e favelas do Rio de Janeiro, sem nenhum contingente patronal ou de Governo. Aliás, essas experiências multiplicaram meus projetos pessoais. Cresci como ser humano. Hoje, minha vida tem outro significado como escritor, poeta e homem que sou.


    H. A –  Como foram os teus anos vividos no Rio de Janeiro, a vivência do poeta, amigos e companheiros de da “arte de escrever e poetar”?

    P. A – Quando fui embora para o Rio de Janeiro em meados dos anos 60, rasguei quase todos os meus originais. E com algum dinheiro, escondido no cós da calça, desembarquei no terminal rodoviário Novo Rio. Comprei um exemplar do Jornal do Brasil e através dos classificados, aluguei uma “vaga” na Lapa. Bem próxima dos arcos, onde morava Aguinaldo Silva, meu amigo desde 1958. Inclusive, em 1961, ele esteve em João Pessoa na condição de escritor estreante com “Redenção para Job”, romance, participando de uma semana cultural no Liceu Paraibano. Depois com o tempo fui me identificando com outras pessoas ligadas à literatura: João Antonio, Gasparino da Mata, Edilberto Coutinho, Manuel Bandeira, Lúcio Cardoso, Stella Leonardo, Walmir Ayala, Clarice Lispector, André de Figueiredo, Altimar Pimentel, Luiz Mendonça, Pascoal Carlos Magno, Heloísa Buarque de Holanda, Ana Cristina César e José Maria de Souza Dantas. Sim colaborei no Suplemento da Tribuna da Imprensa nos anos 60 e 70, período mais conturbado da história do Brasil, com João da Penha, Maria Amélia Mello, Wilson Bueno, Socorro Trindade e Leila Míccolis. O contato com esses autores tornou-se instrutivo, somente. Na realidade, não cabe, dentro dos rasgos desejantes dos meus objetivos pessoais. É que estava sozinho no Rio de Janeiro, desassossegado na convivência com a minha escrita. Fiz de tudo, numa pungente busca de sobreviver: lavador de pratos em bares e restaurante, empregado doméstico, garçom, garagista, professor, vendedor de livros e funcionário público.


    H. A – E o trabalho, como jornalista, no Rio de Janeiro, contribuiu em que para o poeta?

    P. A – Como fonte de informações valiosas do cotidiano.


    H. A – . Escrever ensaios e resenhas, ganhar prêmios com os escritos, como ganhaste, não desestimulou o poeta, deixando-o em dúvidas entre o fazer poeta e o desejo de ser um ensaísta famoso, por onde caminhavas?


    P. A – Fui freelancer. Escrevi textos que nunca assinei e que foram em boa parte, pelas despesas com o aluguel e alimentação, apenas.


    H. A –  E essa história de “poeta paraibano”, “poeta carioca”, “poeta gaúcho” e outros, não é uma forma um tanto ultrapassada de falar em poesia regional ? O poeta paraibano é diferente do poeta carioca ? Poeta não é poeta em qualquer lugar do mundo, não?


    P. A – Poeta é sempre poeta em qualquer continente, país. Independe, creio, de sua nacionalidade. Quanto ao conceito de poesia regional, sabe-se, é tarefa para os estudiosos de teoria literária. No meu caso, por exemplo, não assimilo essa coisa de poesia paraibana ou paulista e outras. Contudo, vejo-as como poesia brasileira, produzida, às vezes, na Paraíba, outras tantas, no Rio Grande do Sul ou em outros estados.


    H. A – São muitos os poetas “cabralinos” neste terra descoberta por Cabral. Carlos Nejar, um dia, afirmou seres um dos poucos poetas a não sofrer essa influência. Como viste  tal afirmação? E as tuas influências?



    P. A – O depoimento do poeta Carlos Nejar ao poeta Lúcio Lins (poeta paraibano, recém falecido), no Hotel Litoral, durante a realização do I Congresso Nacional de Cultura Nordestina na cidade de João Pessoa, no ano de 1993, não me surpreendeu. É  o testemunho vivo de que ele conhece a minha poesia. Sempre tive muito cuidado para não ficar estigmatizado por nenhum escritor ou poeta.


    H. A –  Quem são os poetas que o poeta Políbio Alves lê?

    P. A – Atualmente estou relendo Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Hilda Hilst, além de Federico García Lorca e Derek Walcott.


    H. A –  Varadouro, o teu mais famoso livro, é a tua fonte, o teu quintal, esse cantado e recantado em versos que o tornaram – se não, o tornará um dia – universal. Em quais outras fontes bebeste para escrever a tua obra?

    P. A –  O Varadouro é e sempre será a minha raiz. Ali está a origem de tudo. Toda a minha obra está calcada em seus becos e ladeiras e no rio Sanhauá. Assim, através das palavras, me propus a desnudar para o mundo aquela região.

    H. A –  Escrevo porque se não for assim, acabo morrendo engasgado pelas palavras  presas  na garganta. O silêncio das palavras me incomoda. E tu, por que poetizas?


    PA – PARA NÃO MORRER DE SILÊNCIO!


    H . A – Todos sabem do teu perfeccionismo. Mas por que tanto tempo para publicar, por exemplo, Varadouro, O Que Resta dos Motos e Exercício Lúdico?


    P. A – Essa minha postura em relação ao tempo de publicar o meu texto, devo aos conselhos que ouvi de Berta, quando ainda adolescente: “não tenha pressa em publicar, você ainda é quase uma criança”. Por isso, aproveito muito pouco do que escrevo. Por outro lado, ao longo da minha vida, preocupação maior tenho em ser respeitado como escritor, poeta e homem. Tudo isso resulta das minhas constantes visitas à casa de Berta, dona de um cabaré na rua Maciel Pinheiro, cujas dependências da casa eram divididas entre visitantes, músicos, artistas plásticos, escritores e poetas. Ali, eu permanecia por horas e horas, a recitar versos, escutar música clássica e MPB. Tempo de encantamento e descoberta que iriam fortalecer a minha escrita.

    H. A – O poeta Políbio Alves tem o reconhecimento que merece?

    P. A – Ser poeta ou escritor no meu país, é viver na clandestinidade. porque poeta é uma profissão marginalizada, não reconhecida por lei.


    H. A – Por fim, para não dizer que não falei em Cuba, o que encontraste em Cuba que nunca encontraste por aqui?


    P. A – Tive o prazer e privilégio de conhecer e conviver com o povo instruído que hoje não conhece a máfia, a fome e o analfabetismo. E ainda menos a miséria social institucionalizada. Um povo que tem uma experiência digna e plena onde a virtude e a dignidade se traduzem em garantir um futuro mais justo para todos. Conheci: um povo que recebe bem os seus visitantes e a fraterna hospitalidade de sua gente. Uma população de convicções políticas profundas e absoluta consciência a respeito do mundo. Um povo criativo em meio às diversidades do embargo norte-americano, há quase 50 anos. Apesar de tudo isso, o cidadão cubano permanece firme em seus propósitos de continuar a ter um país independente, administrando o seu próprio destino. Quem duvidar dessa realidade do que eu vi em Cuba, que se cuide. Vá à Cuba confirmar esse fato!

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