Imagine a minha dor

  • Imagine a minha dor

    Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da partida de Ludmila. Talvez por isso ela nunca quis ter filhos comigo. Até hoje não sei se era má vontade ou infertilidade. Uma vez ela me liberou para ser pai, se quisesse engravidar outra. Falei para ela que não existia outra. Não cogitava ficar com qualquer mulher. Ser pai nunca foi o meu sonho, ademais. E nunca fui cobrado por isso, de quem quer que fosse, nem mesmo dos amigos, porque havia, há tempos, colocado um ponto final neste assunto, para que ninguém me aperreasse. Pensava, inclusive, que não gostava especificamente de mulher, do gênero feminino, mas sim da Ludmila. E isso me trazia uma louca distorção. Não era capaz de me imaginar por cima de Cláudia Raia ou de Christiane Torloni – a quem razoavelmente aceitava como divas, sensuais, e nada mais. Ludmila era minha fonte de inspiração. Meus melhores sentimentos surgiram a partir dela. Nos conhecemos incrivelmente na infância e logo nos apaixonamos. Não tive outra mulher na minha vida. Meu pai era um puto, porra-louca, vagabundo, e me levou à força para um cabaré (lembro-me dessa espécie de pocilga, nojenta, o cabaré da Zitinha). Dei um tapa no rosto da puta Morena e pulei o muro. Corri feito um fanático, chorando, me sentindo sujo, me sentindo inapto para o meu amor. Ludmila era um corpo e uma alma minhas, com as quais eu tinha, inclusive, me formado como ser humano. Absolutamente, meus pais, separados, tinham suas vidas e seus filhos novos, e se esqueceram de mim. Me pagavam uma mixaria para passar o mês; salário de “cala-boca”; como se fizessem muito por mim. Não me davam um pingo de atenção, mesmo quando fiquei doente no hospital, por conta da diabetes; aí foi quando Ludmila permaneceu serena, dona de si, porque não era vinculada a nenhum escritório, porque era uma puta profissional (não profissional puta), e não necessitava permanecer, como eu, horas e horas no escritório, no meu caso de contabilidade. Por essas e outras, me casei cedo. Não tinha tempo a perder, se já sabia que era e sempre seria Ludmila, o meu grande amor. Mas ela partiu o meu coração (poderia ter sido o meu a parar naquele momento), enquanto o dela pifou. Ela teve um mal súbito quando eu viajava a trabalho. Soube de sua morte quando a vi estirada na cama, branca, possivelmente no mesmo dia do ocorrido. Imagine a minha dor. Não suporto mais estar morto por dentro. E sequer vislumbro um novo e absurdo amor. Se possível, me entenda, fulana…

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