Confesso: eu era indiferente.
Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem.
Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas.
Não procurei terapia, nem explicações.
Até que aconteceu.
Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei!
Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o jeitinho, a esperteza.
E, como toda paixão, essa também me trouxe dores. Sobressaltos, temores e uma saudade preocupada sempre que precisamos nos separar por algum motivo.
Agora, quando meus dias estão cada vez mais acumulados, eu não merecia passar por tamanho desassossego: o medo de que ela incomode, a preocupação com reclamações e essa incômoda sensação de impotência diante das regras do mundo.
Só me resta rezar.
Recorrer aos santos protetores da boa convivência, da tolerância e da paciência entre vizinhos.
E pedir a Nossa Senhora dos Gatinhos que proteja a minha querida.
Nem eu, nem ela merecemos tanta ojeriza. Beira a desprezo mesmo.
Deixem que ela contemple o condomínio de vez em quando, sob meus olhos atentos. Não lhe tirem a ilusão de que algum dia ainda será uma grande caçadora, embora os pardais, até hoje, continuem levando larga vantagem.
As mordidinhas na grama são digestivas e sequer fazem diferença no desenho do jardim.
Ela já é uma senhora. Tem suas manias, seus hábitos e uma dignidade felina que não admite discussão.
Não a olhem como uma ameaça.
Não transformem cada passeio numa operação de guerra.
Tenham um pouquinho de paciência conosco.
Eu, que passei tantos anos sem compreender o fascínio que esses bichos exercem sobre as pessoas, hoje me vejo aqui, completamente rendida.
Portanto, faço este apelo público, sentimental e talvez um pouco exagerado:
Por favor, amem a minha gata Felícia!
