MIlton Rezende

  • Poema #42: Chuva Noturna

    A chuva no asfalto
    leva papéis/cigarros
    e o vômito de ontem.
    Amanhã novos resíduos
    virão para preencher
    o vazio do meio-fio.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #38: Em Brancas Nuvens

    Alguns dos meus
    poemas são como
    letras de música
    sem música.

    Alguns dos meus
    gestos são como
    atos de uma peça
    sem atores.

    Alguns dos meus
    sonhos são como
    um comício público
    sem plateia.

    Alguns dos meus
    atos são como
    um filme mudo
    sem cenário.

    Alguns dos meus
    delírios são como
    uma transgressão
    da vida no sonho.

    Muitas das minhas
    loucuras são como
    a minha própria
    vida & literatura,
    inéditas no final
    das contas.

    Inventário de Sombras
  • FERIADO

    Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

     Inventário de Sombras

  • Poema #30: Porém, Nada Dizia

    Gosto do silêncio.
    Prefiro ficar em silêncio.
    Vejo as pessoas conversando
    e a imagem que me fica é a
    do cuspe trocado entre elas.

  • Poema #27: Uma Poesia a Marteladas

    eu faço versos
    como quem martela
    as sílabas do vocabulário:
    trôpego quase sempre.

    eu faço poemas
    como quem sofre
    as pancadas do destino:
    difíceis como sempre.

    eu sobrevivo
    como quem hiberna
    na escuridão da noite:
    dilacerado sempre e sempre.

    com a música do Led Zeppelin
    “since i’ve loving you”
    para acompanhar
    o meu enterro.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #17 – CORPO

    foi preciso
    que eu fosse
    envelhecendo
    para entender
    (em parte) o
    erotismo tardio
    nos poemas de
    Drummond.

    é que precisamos
    ir perdendo para
    poder reconquistar.
    é preciso ir morrendo
    pra aprender a gostar
    da vida e tentar
    (quando não é mais possível)
    usufruir da beleza da água

    que acabou de passar.

    Da Essencialidade da Água

  • Poesias de 1 a 99

    002# – AGUACEIRO

    A chuva cessou de chover
    e já agora eu posso
    tirar as mãos dos bolsos
    e atravessar a rua.

    Mas já não tenho mãos
    e nem tampouco posso
    atravessar esta rua, pois
    a água levou-me as pernas.

    E a rua, embora chovida, está seca.
    Eu fui a chuva que choveu e ninguém viu.

    Milton Rezende in “O Acaso das Manhãs”


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