Ninguém dirige melhor que o Carlito

  • Ninguém dirige melhor que o Carlito

    O Carlito é motorista de tudo, tem CNH categoria C, coisa de que muito se orgulha, e que o permite dirigir qualquer veículo: até colhedeira de soja, até empilhadeira de aeroporto, ele diz.    

    No primeiro emprego dirigia um treminhão, que jurava chamar-se assim porque era esse o preço do veículo: treminhão de real! Acreditava ainda que se o patrão tinha esse dinheiro pra pagar pelo caminhão era porque era mais que rico, havia de ser miliardário. E dessa premissa chegava à correta mas arriscada conclusão: se o patrão tem tanto, não tá certo pagar pra mim a merreca esturricada, mais seca que bucha do mato, que ele chama de salário.  

     A lamúria pegou a rádio peão e não demorou um dia pra que chegasse aos ouvidos do patrão. E demorou menos ainda pra que fosse o Carlito demitido pelo próprio, por atrevimento, por insolência e por pregar ideias transgressivas no recinto da empresa. Mais a mais, também salientou o empresário, não sou miliardário, sou só um pouco rico. E se fosse, que que tem?, méritos meus; aliás, do meu pai, aliás do meu avô, aliás méritos da estirpe enfim.    

    O segundo emprego, este como motorista de ambulância, era um emprego público, pagava bem menos que o último, mas o Carlito gostava. Gostava porque não tinha que viajar e porque achava divertido apertar aquele botãozinho vermelho ali e ouvir a sirene gritando uóóóóóó! Quando ela falha, dizia ele, ponho a cabeça pra fora e faço eu mesmo as vezes de sirene: uóóóóóóó´! uóóóóóóó!   

      A ambulância, essa que ele dirigia, ouviu dizer, fora conquista do vereador Capitão Trancoso, homem sobretudo generoso, sobretudo de virtudes civis e militares irreprocháveis, desses pra quem bandido e presunto deveriam ser a mesma coisa. “Hôme assim queu admiro!”, dizia o motorista.  

      Ambulância, segundo outra premissa do Carlito, leva pessoas doente acidentada pro hospital; ambulância pode salvar vida, muitas vida. E concluía: sou eu quem transporta, logo, sou eu, vamos dizer assim, quem salva essas vida!   

     Só tinha vantagens, esse emprego.  

    Marcava numa cadernetinha a quantidade de pessoas, almas, como ele chamava, que teria salvo nos 3 meses de nova profissão: 243 almas!, até aqui.  E se perguntava: será que eu num serei anjo?   

      Dirigia imaginando quanto custaria uma ambulância, $200, $300 mil? Vai ver, mas o valor da vida é que conta, e não tem preço. Quanto custa uma vida?  Uns treminhão? …. que nada, muito mais que treminhão!    

    Ah, eu sô mesmo um anjo!, exclamava de si para si.

       Mas um dia, voltando de devolver um paciente, quando saía do elevado João Goulart e fazia a curva pra subir a Consolação, foi colhido por uma picape Ranger 3.0, 250 cv , tração 4×4.    

    Nem ouviu a cacetada.  

     Bateu a cabeça no vidro e desmaiou.

      Foi atendido por outra ambulância e colocado numa maca.    

    Acordou no hospital. Olhou pro enfermeiro e desatou duas perguntas: Quem que me trouxe aqui, o Adelino? Chama ele.  

      Veio o Adelino, ele fez um gesto pedindo que abaixasse e sussurrou: Adelino, você que é um anjo!    

    A outra: Quanto custa uma ambulância nova?  

     Acho que uns $500 mil, chutou o enfermeiro.     

    Tô ferrado, disse o Carlito, e desmaiou de novo.  

     Convalesceu por uma noite, teve alta pela manhã.  

      Convocado no RH, foi demitido outra vez.  

     Pelo laudo conclusivo da diretoria do hospital, era ele o culpado pela batida.  

     Segundo testemunhas, na hora do acidente o Carlito estava com a cabeça pra fora da ambulância. E fazia assim: uóóóóóó! uóóóóóó!  

     P.S. Hoje o Carlito pejotizou-se, dirige um Peugeot de aplicativo. Pode fazer a trapalhada que for, “agora sou patrão de mim, ninguém me pode demitir, a não ser se for eu mesmo”.

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