O que te mantém vivo?

  • O que te mantém vivo?

    Uma ideologia política, uma crença religiosa, uma visão de mundo ou um passatempo qualquer. A ambição por riqueza, a busca de reconhecimento, a luta por poder ou a simples necessidade de sobrevivência. Muitas podem ser as razões que nos mantêm vivos. Das mais vulgares às mais sublimes; das mais egocêntricas às mais altruístas. A natureza daquilo que nos estimula a levantar todas as manhãs pode dizer muito sobre nós mesmos, nossas histórias e nossas perspectivas.

    Não falo do que simplesmente nos anestesia, meu caro amigo. A essência das coisas que mitigam o sofrimento e apagam certas lembranças difere daquilo que nos injeta ânimo e disposição para construir um futuro melhor. Não basta resistir; é preciso superar! Volta e meia, encontramos pessoas que, apesar de todas as adversidades enfrentadas, dispõem da energia necessária para seguir suas respectivas caminhadas. Por mais que tentem desumanizá-las e tornar suas vidas insuportáveis, elas se negam a simplesmente fazer parte de uma desconhecida e misteriosa engrenagem. Elas vivem, têm sonhos, acreditam em dias melhores, compartilham momentos de alegria e outros de tristeza. Mas de onde vem toda essa resiliência?

    Vejamos o exemplo de meu vizinho Paulão: com tantos vis progenitores por aí, não poderia deixar de mencionar sua história. Pelo menos desde que o conheço, trabalha na construção civil. Mesmo nas auroras mais frias deste inclemente inverno, nosso valoroso pedreiro fecha a porta de sua casa e sai em busca do sustento de sua família. Viúvo e pai de duas filhas adolescentes, esse orgulhoso piauiense não se deixa esmorecer facilmente. Sem muito tempo disponível para o lazer, sua vida resume-se, basicamente, ao trabalho. Mas seus olhos brilham, seu sorriso contagia e suas gargalhadas animam o ambiente em que se encontra.

    Perguntava-me, com ingênua e honesta curiosidade, o que faz Paulão levantar cedo todas as manhãs, pegar dois ônibus para o trabalho, levar seu corpo à exaustão em troca de um salário, voltar a sua casa num ônibus abarrotado de gente, dormir algumas horas e começar tudo de novo na manhã seguinte. Como é possível seguir em frente com tanta dificuldade? O que estaria por trás dessa aparente alienação? Com um misto de admiração e de incompreensão, via aquele pobre homem envelhecer precocemente numa rotina estafante e embrutecedora. Muitos foram os anos de minha ignorância até que conseguisse compreender a sua verdadeira razão de vida.

    Meu sonho é formar minhas duas meninas, seu Veloso. Não quero que elas tenham uma vida tão dura como a minha – confessou-me Paulão num raro dia de descanso.

    Outro exemplo é o de Maroca, aquela senhora que trabalha há muitos anos na casa da família Gouveia. Devota de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, essa cozinheira de mão cheia veio de muito longe. Carregando um pequeno rebento em seus braços, a jovem mulher veio atrás do marido e de uma vida melhor. Mas seus sonhos logo depararam-se com a dura realidade de uma mulher que se casou com um homem violento e alcoólatra. Teve mais dois filhos com ele, aguentou poucas e boas, criou sua prole sozinha, viuvou. E continua trabalhando como se tivesse apenas vinte e tantos anos de idade. Muitos devem ter sido os momentos de tristeza e de solidão, mas a aguerrida mulher ainda teima em persistir.

    Não há de ser nada, seu Veloso! Deus não dá a cruz mais pesada do que podemos carregar – aconselhava-me uma solícita Maroca, ao me ver manquitolando por causa de uma lombalgia.

    Se a criação das filhas constitui a seiva que dá vida a Paulão, Maroca respalda suas mais profundas esperanças na crença de que Deus está com ela. Ambos acreditam em dias melhores, cumprem suas tarefas cotidianas, enfrentam os inúmeros percalços que surgem em suas tortuosas caminhadas. Vidas de intensa provação, mas repletas de dignidade e de humanidade. Não faço aqui um elogio à pobreza, mas o que me fascina é a altiva e rebelde resiliência que identifico nos dois casos. Poderíamos cair no pretensioso julgamento segundo o qual a ignorância em que vivem torna a brevidade e as agruras da vida mais aceitáveis. Mas quem somos nós para inferirmos tal coisa? Alguns livros lidos e rabiscados não nos tornam imunes ao sofrimento humano. O que nos dá vida nem sempre pode ser facilmente alcançado pela razão humana. No fim das contas, todos nós somos mais ou menos ignorantes.

    Mesmo tendo vivido algumas décadas, ainda me pergunto, de vez em quando, qual seria o grande estímulo de minha vida. Um livro a ser escrito, uma viagem a ser feita, um conhecimento a ser atingido? Apesar da vida remediada, pareço desconhecer o que realmente dá sentido a minha vida. A busca permanente por algo que me complete tem sido uma fonte de indagação e até de aflição. Mas, ultimamente, tenho considerado a possibilidade de que nada disso exista. Quanto mais cabelos brancos temos nós, mais tendemos a menosprezar o excessivo romantismo. Talvez essa procura por um Santo Graal desconhecido e inalcançável é que constitua, em si, a grande força que mobiliza as minhas energias.

    Divagações de um velho professor aposentado. Apenas isso! Espero não ter te aborrecido com esses devaneios. A juventude que ainda corre pelas tuas veias prescinde de considerações superficialmente filosóficas como essas. Enquanto não descubro minha grande força motriz, preciso dedicar-me a uma função, digamos, bem mais trivial: comprar pães para o lanche da tarde. Até logo, amigo!

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