Quitutes

  • Os famosos doces de Pelotas

    Dizem os entendidos no assunto que não conseguimos recordar lembranças de nossa primeira infância por conta de uma tal amnésia infantil. Por razões que escapam de minha leiga compreensão, nossas recordações mais antigas não passam, muitas vezes, de fragmentos dispersos entre sensações, odores, sons e gostos desconexos.

    Mas daqueles doces eu me lembro muito bem… Talvez por eu ter, àquela época, cerca de 11 anos e estar, portanto, numa idade um pouquinho mais madura. Talvez por aqueles quitutes serem tão deliciosos e inesquecivelmente apetitosos. O fato é que aquelas guloseimas faziam a alegria não apenas minha, como de toda a criançada do bairro. Sabíamos todos nós que, a cada primeira semana de mês, a ruidosa e empoeirada caminhonete do vendedor de doces de Pelotas despontava na esquina da João Manoel com a Pinheiro Machado. Era o momento em que nossas famílias aproveitavam para abastecer suas despensas com um pouco daquelas delícias feitas em tão longínquos endereços.

    Se não me engano, Jorge era seu nome. Digo isso com pouca certeza, pois obviamente o foco de minha atenção não era o vendedor em si, tampouco o desenrolar da negociação pecuniária entre ele e minha mãe. Aquelas caixinhas retangulares recheadas de doces hipnotizavam minha mente, despertavam meu olfato, avivavam meu olhar e excitavam meu paladar. Quindins, pasteis de Santa Clara, camafeus, papos de anjo, olhos de sogra, queijadinhas. E, para os menos tradicionais, um pouco avessos à herança culinária lusitana, havia aqueles deleitosos bombons de morango. Todos eles cuidadosamente dispostos dentro de duas grandes sacolas escuras de viagem.

    — Que pena! Desta vez, ficaremos sem quindim comentava, tristemente, minha mãe.

    — Tenho mais na caminhonete! Vou lá buscar para a senhora retrucava o diligente vendedor.

    E como se não bastasse a fartura de guloseimas já expostas em nossa sala, Jorge voltava com mais caixinhas de quindim e com alguma novidade para nós. Como todos seus fregueses, tínhamos nossas preferências que não podiam faltar, mas, evidentemente, estávamos sempre abertos a experimentações degustativas. Jorge sabia o poder que detinha sobre seus clientes com aqueles manjares. A maestria com que os manejava perante nossos olhos fundia a delicadeza dos movimentos de uma bailarina com a precisão dos de um marceneiro. Para mim, a magia daquele cenário era feita, inicialmente, das cores vivas daquelas iguarias com o complemento posterior do sabor de cada uma delas.

    Feitas as escolhas, minha função naquele ato estava cumprida. Começavam, então, as negociações entre Jorge e minha mãe. Como num ritual minuciosamente encenado e repetido uma vez por mês, Jorge alisava seu bigode e retirava de uma das sacolas uma calculadora e um bloco de notas. Pelo que podia entender, ali estavam contabilizadas as suas vendas da semana ou do mês. Impossível relembrar os detalhes das tratativas, pois naquele momento eu já me deliciava com algum dos doces recém comprados. O almoço acabara de ser digerido, e Jorge sabia que aquela era a melhor hora para tentar a gula de seus fregueses.

    Eu não sei dizer por quanto tempo tivemos aqueles doces de Pelotas mensalmente dispostos em nossa cozinha. A percepção sobre o tempo muda conforme a fase da vida. Com 11 anos, minha impressão era de que o tempo custava muito para passar. Tantas eram as novidades a serem descobertas com aquela idade, que um ano só comportava uma miríade de acontecimentos. Vai ver aqueles doces surgiram em minha infância para que eu dispusesse de tempo suficiente para bem apreciá-los. Se fosse mais velho, a rotina de horários e de compromissos reduziria a relevância daqueles doces em minha vida.

    Quanto a Jorge, o vendedor de doces de Pelotas, o certo é que um dia ele não veio mais a nossa casa. Não sei se minha mãe resolveu parar de comprar seus doces, se Jorge nos trocou por fregueses mais endinheirados ou se ele simplesmente mudou de ramo. Só sei que um dia o presente virou passado e aqueles doces transformaram-se em lembrança. Uma feliz e tão saborosa lembrança.

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