São Francisco

  • Devota

    O espaço era pequeno e fechado por uma porta metálica, com paredes de pintura descascada. A roupa e os poucos objetos pessoais pendurados em sacolas ou em pequenas prateleiras. O local era compartilhado com outras detentas. Quando podia ficar sozinha, Juliana pensava na vida, nas memórias daquilo que havia vivido.

    Dormia num beliche com base rígida e um colchão simples. Colado à parede, ao lado da cabeceira, um pequeno quadro com a imagem clássica de Jesus Cristo.

    Desde criança, Juliana demonstrava o desejo de seguir a carreira religiosa. Orgulho da família, fez a primeira comunhão na igreja perto de casa, ia todos os domingos à missa e prosseguia na catequese, vivenciando a fé no dia a dia. Foi crismada, iniciou seus trabalhos na pastoral e passou a frequentar semanalmente reuniões com um grupo de jovens da igreja.

    Juliana era tão carola e concentrada em seu fervor católico, que a família e os amigos passaram a temer aquela fixação. Ela não tinha olhos para mais nada, vivia em orações e decorando passagens da Bíblia. Algumas vezes se penitenciava pela humanidade, ao andar de joelhos pela casa.

    Mulher bonita, quando questionada sobre namorados, sua maior alegria era dizer a todos que estava noiva de Jesus.

    Numa dessas reuniões do grupo jovem, conheceu Francisco. Não soube explicar a sensação estranha, mas jurava que o rapaz era a cara de São Francisco de Assis. Os apelos da carne começavam a se manifestar e Juliana não conseguia mais conter as investidas de Francisco. Ela se entregou de corpo e alma a ele, esquecendo por um tempo do noivado com Jesus.

    Franciso logo abandonou a igreja e terminou o namoro. Já havia conseguido o que queria. Juliana continuava atrás dele, de joelhos, implorando para ele voltar. Francisco já estava de casamento marcado com outra moça.

    Juliana, desesperada, se consolou na religiosidade: “toda a nossa vida deve ser uma constante oração.” Sua fé venceria tudo. A sua alegria verdadeira vinha de se entregar a Deus. Para quem a chamasse de louca ou beata, respondia que onde houvesse ódio, levaria o amor e onde houvesse ofensa, levaria o perdão.

    Foi presa em flagrante, depois de ter dado dezenove facadas em Francisco. Aos policiais, justificou-se tentando explicar que a morte era apenas uma passagem da vida terrena para a eterna. Não haveria o fim definitivo. Os policias a algemaram mesmo assim.

    Ela não quis advogados e recusou-se a receber visitas. Na cela onde estava, a luz permanecia acesa durante toda a noite por questões de segurança. Juliana dizia que a luz simbolizava a verdade e o bem contra a escuridão da ignorância.

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