X-Ray Spex

  • A bituca na cerveja

    Zími usava uma camiseta com a caricatura de Donald com um grande alargador na orelha, numa alusão a um dos supostos atentados.

    Mila Cox escrevia uma letra sobre como alguém que supostamente criou o universo precisava de dez por cento do salário de um pobre infeliz de um país periférico. O processo de composição da dupla consistia em criticar o Estado, a Igreja e a família tradicional com letras diretas, em português ou inglês.

    Portanto, nunca sobrou tanto assunto como se tem hoje.

    A parte instrumental vinha depois e às vezes demorava para ser concluída.

    Eles usavam um teclado de brinquedo e ganharam um de verdade. 

    Iriam usá-lo, mas prometeram que caso Zími também ganhasse uma bateria de verdade, o duo Crop Circles se separaria.

    Ele poderia tocá-la depois em outro projeto musical, mas seriam irredutíveis quanto à dissolução.

    Mila Cox dizia que caso  isso acontecesse, faria a banda ser realmente descoberta.

    Vê-la ouvindo deliberadamente o Galaxie 500, dava a Zími uma alegria que depois ficava confusa com a estranheza da aparente obsessão que ela apresentava com os três primeiros discos do Elvis Costello, mesmo que ele também gostasse.

    Ela estava ouvindo também, por vezes seguidas, o Solid Gold, segundo disco do Gang of Four, fazendo parecer que vai roubar alguma coisa dali, enquanto escrevia sobre como a religião só existe para que os pobres não matem os ricos.

    Agora dividiam um apartamento no bairro da Liberdade e ambos estavam mais focados.

    Zími pegou o quarto da empregada e continuou pagando o mesmo valor que gastava em sua morada anterior, que era um quarto de pensão em que viveu por dois anos com o que ganhava como livreiro, depois de sair de um apartamento em que pagou adiantado os três primeiros meses de aluguel, e então não pagou nem mais um centavo, e ficou lá até ser despejado.

    Ela, que deixou a casa da família na Penha, inteirava o aluguel pagando um pouco mais com o que ganhava como copywriter, e ficava no quarto principal.

    A diferença de idade despertava a curiosidade dos outros moradores do prédio.

    Eram vistos como uma espécie de “Carpenters do Mal”, desde que a vizinhança descobriu que eram parceiros musicais.

    Essa alcunha era atribuída a eles pelas pessoas da vizinhança que ouviam gêneros popularescos tocados por semi-celebridades descartáveis que desaparecem rapidamente dos holofotes para logo ressurgirem com escândalos do mais baixo nível.

    Ela gostava tanto de Venom quanto de Hello Kitty. Também de X-Ray Spex e Mafalda.

    Ele lia Mad e Hermann Hesse, e sua vida parecia o resultado dessa fusão.

    Geravam muito mais curiosidade juntos do que individualmente.

    Ela queria entender como ele sobrevivia numa vida tão minimalista quanto relatava, quando se encontravam para ensaiar ou finalizar alguma música.

    Ele sabia que teria mais espaço e conforto do que no quarto da pensão em que vivia. Era quarto e banheiro, e isso bastava. Nunca pensou que deixaria de morar sozinho, pois até então considerava o estilo de vida ideal.

    Ela vivia com o pai e a mãe, onde cresceu alimentando uma ambição precoce pela música, e saiu dali sem brigar.

    A meta agora era de lançar um single a cada duas semanas até que as ideias se esgotassem, e aí sim seriam marcados novos shows.

    Quando tocam no interior, não é raro que durmam no carro de Cox, que tem toca-fitas e muitas fitas no porta-luvas.

     Ao lembrar dessas horas, um frio percorre a espinha de Zimi, que sempre reclama que não tem mais idade para isso, mas sabe que é necessário fazer. E sabe sobretudo que sempre vale a pena.

    Até mesmo as eventuais desventuras reais que vão muito além do Spinal Tap dessa trajetória são lembranças de momentos que não foram desperdiçados na zona de conforto.

    Zími sempre falou que, com quase cinquenta anos, nunca soube o que é realmente uma zona de conforto. A busca por ela passou a ser quase obsessiva, embora ele não saiba nem mesmo se isso de fato existe. Apenas ouvia falar e queria descobrir.

    Já MIla Cox alega que sua saída da casa dos pais vai muito além da necessidade de sair da zona de conforto.

    Agora que moravam juntos, eram vizinhos de andar de Silvano., professor de Geografia, fã de rock alternativo.

    Silvano frequentemente conseguia atestados para não ir trabalhar, particularmente por tendinite, e não raro tinha tempo e disposição para conversar com eles sobre música e assuntos da vizinhança. Era morador antigo do prédio, mas era reservado e pouco conversava com os outros vizinhos, de modo que pouco se sabia sobre ele na vizinhança.

    É mais conhecido como ‘o homem da jaqueta de couro’ pelos vizinhos.

    Mila Cox e Zími já tinham notado que Silvano tinha comportamento e hábitos de alguém que nasceu com dinheiro. Sua coleção de discos, por exemplo, só poderia pertencer a alguém que tem ou já teve dinheiro.

    Ele mostrou seu apartamento, que de tão abarrotado de Lp’s, compactos, cd’s , revistas e livros, permitis que apenas uma pessoa pudesse aproveitar aquele material com conforto.

    A imensa e belíssima poltrona de couro certamente era herdada, e com o banco na frente, ocupava boa parte do espaço que sobrava da sala pequena.

    Ele tinha várias edições antigas da revista Creem e Zími ficou embasbacado ao ver.

    Enlouqueceu ainda mais ao ser presenteado com um agasalho do Fênix, do Uruguai, que era o time de Silvano.

    Silvano contou que era uruguaio, mas antes que entrasse na escola, já vivia em São Paulo com os pais, também uruguaios. Era filho único.

    O pai morreu quando ele tinha dezenove anos e a mãe, quando ele tinha vinte e um.

    Viviam num apartamento caro no centro de São Paulo, que foi vendido quando Silvano ficou sozinho.

    Comprou então um apartamento menor, também no centro, e trabalhava como professor no Estado. Sabia que não havia grandeza onde não houvesse simplicidade. Guardou o que sobrou do dinheiro da venda do apartamento para envelhecer com dignidade.

    Tirou suas coisas dali e fez a mudança. Vendeu o que havia de seus pais no apartamento, exceto a poltrona, que pertencia ao pai.

    Tinha agora quarenta e três anos. Cinco a menos que Zími e vinte a mais que Mila Cox.

    Naquele dia, muito foi falado sobre o quanto o rock sempre foi marginalizado, censurado e boicotado no Brasil, o que impediu que o gênero atingisse mais popularidade.

    Silvano inclusive mencionou sobre a bizarrice da passeata contra a guitarra elétrica.  

    O vexame de ser artista e estar ali era similar ao de ser jogador de futebol e estar jogando na derrota por sete a um, no jogo que deu a maior alegria futebolística da vida de Zími. Ou ao persistente vexame popular de adotar cegamente um político de estimação e defendê-lo até o fim, ignorando os limites do ridículo.

    Mila Cox e Zími contaram a Silvano que se conheceram através de Sara Cox, tia de Mila, que cursou jornalismo com Zími trinta anos antes.

    Sara nunca vive numa residência por muito tempo, e há anos passava a maior parte do tempo no exterior, e comentava os shows que assistia.

    Ela dizia que para alguém poder ser chamado de artista, precisava ser desobediente e buscar o que não deveria ser buscado.  

    Antes de voltarem para casa, Mila Cox e Zími tramaram a publicidade da banda no Uruguai, para tentarem marcar shows e venderem merchandise.  

    Tudo no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dormindo em camas de hotel e tocando nos três estados brasileiros do Sul para financiar a viagem.

    Tudo em meio a uma crise energética e humanitária mundial.  

  • Logística Mambembe

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    Era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.

    Mila Cox tinha vinte anos sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas com o sossego de estarem próximas de suas casas.

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat. Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

  • No limbo

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.  

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: “Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.  

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.  

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.  

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.  

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.  

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.  

    Mila Cox tinha vinte anos e sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.  

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.  

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.  

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.  

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: “Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas sabendo com o sossego de estarem próximas de suas casas.  

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat.

    Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar