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  • abr- 2025 -
    25 abril

    Da glória ao fracasso

    Impressionam-me os casos, muito noticiados pela mídia, de pessoas que eram famosas, endinheiradas, e depois perderam tudo. Geralmente são artistas ou ases do esporte. Sabe-se que o sucesso é fugaz, mas há uma diferença entre sair dos holofotes e mergulhar na escuridão do anonimato ou nos confins da miséria.   Recentemente se noticiou o caso de Mário Gomes, que teve a mansão leiloada para pagar dívidas trabalhistas. Desconsolado, o ator revelou que est

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  • 24 abril

    O meu amiguinho

    Sei que ele está indo embora, é só uma questão de tempo. Está mais fraquinho a cada dia, alimenta-se mal, come sem apetite. Cabisbaixo, calado, triste, tão diferente de outros tempos, não passa agora de uma sombra do que costumava ser. Sempre achei chato olhar para ele pelas grades da gaiola, mas com o tempo me habituei. Ainda que possa parecer egoísta, eu ficava reconfortado por saber que ele estava ali, pertinho de mim. Sua companhia me fazia bem e eu só

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  • 21 abril

    Poema #20 – CONFIDENCIAL

    Nada consta.Consta que seja um nadaem face a uma constânciade extremos inarredáveis.Enfimum nada consta sobreoutro consta um nada— A vida incerta do homem —Nas folhas gastas do mundonão consta nada emdetrimento desse nome.Um simples nome em meioa tantos outros no arquivode uma gaveta metálica.O Acaso das Manhãs

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  • 20 abril

    bolhas opacas em sinais de trânsito

    Intuição é um troço engraçado. Às vezes, quando nos deixamos ser por ela guiados, pode dar bom, pode dar samba — ou crônica mesmo [bem melhor, convenhamos, que uma história crônica na bagagem da vida]: […) Sempre se sentava nos assentos dos veículos públicos, por segurança, por melhor vista da pista, “n” motivos. Hoje, pelo choque de sair da Cidade Universitária, que voltara a frequentar mais de uma década depois, e se deparar com seu velho ôni

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  • 20 abril

    Missão Pascal

    . Conto baseado na poesia de Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura 1945. Pascal foi incumbido de escolher a imagem de Cristo que iria ser utilizada na pregação da Sexta-Feira Santa.  Saiu à procura daquela que fosse capaz de comover a consciência dos fiéis, nesses tempos tão sombrios de conflitos, intolerância, violência e genocídios.  Buscava algo que transmitisse o sofrimento do Criador, não por sua condição de torturado no alto de uma cruz, mas s

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  • 19 abril

    Ela morreu

    Sentada à mesa de um restaurante, aguardando uma amiga para o almoço de celebração da nossa amizade, chegou aos meus ouvidos uma frase, com efeito de fogos de artifício, dita por uma voz feminina, provavelmente da mesa ao lado: — Eu confiava nela.  No momento que decodifiquei o som e o sentido se fez claro, fui tomada por uma tristeza absoluta e uma identificação imediata com a enganada da vez.&nb

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  • 19 abril

    O que perdemos com o Wi-Fi

    A tecnologia nos trouxe muitas coisas. Mas o que ela levou embora? Creio que a pergunta poderia ser: as crianças ainda brincam? Acredito que brincam bem menos do que eu, meus irmãos e amigos! Os tempos mudaram. Ninguém mais fica na rua, na frente de casa. As famílias não têm tantos filhos. E com isso perdeu-se também o maravilhoso programa de irmos à casa da vó, onde os primos se encontravam e saíam esbaforidos para aproveitar o tempo e brincar. Passar ane

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  • 18 abril

    Retorno às névoas perfumadas

    Chegou antes da hora marcada. Uns minutinhos somente mas tempo suficiente para se acomodar no café. Escolheu uma mesa na parte externa que dava para o jardim interno da ala elegante do shopping. E ficou ali. Marcou o encontro com uma amiga de anos e escolheu aquele lugar para agradar a ela e, sendo sincero, também a si mesmo. A atmosfera do ambiente fazia seu senso estético se manifestar contente. A idéia do encontro era marcar o fim de dois anos de isolam

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  • 18 abril

    O cronista em caça

    O cronista é um caçador, não o homem que sai com sua espingarda a fim de conseguir algo para comer ou por pura diversão pela morte. É um animal eternamente faminto e em constante situação de caça. A todo momento, está em busca da sua próxima vítima, que alimentará a si e aos outros. Ser esse caçador é consequência de ser cronista. Onde estiver, estará em caçada. Não importa a situação, o momento ou o lugar. Qualquer um pode ser propício, todos são capazes

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  • 17 abril

    Maldades Obscenas!

    O que não pode ser visto, não incomoda, essa máxima nos protege dos males da natureza humana, que insistem surgir durante décadas e afetar as mentes mais frágeis entre nós. Mesmo no início do século XX, os doentes mentais crônicos eram vistos como “degenerados” e “escória”, o equivalente a criminosos e escroques, por isso a ideia de escondê-los em manicômios foi a saída na época para resolver as questões ainda desconhecidas de nossa

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  • 17 abril

    Coisa de louco

    O que comentam é que Gabriel não tinha como saber a verdade, já que fora criado por freiras num orfanato. Não conheceu os pais nem ninguém de sua família biológica. Mal tinha nascido quando uma vidente, dessas que ganham a vida enganando gente ignorante, sussurrou no ouvido da mãe: — Essa criança nasceu com olho grande, a cabeça tem um formato estranho e prevejo tragédia no futuro. Livre-se dela o quanto antes. Foi o que fez a mãe de Gabriel: entregou-o às

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  • 16 abril

    A teoria da verruga

    Conheci a teoria da verruga num sábado nublado, na casa da benzedeira mais famosa da região, para onde fui arrastado por minha avó. Eu esperava sentado numa cadeira de palha ao lado da porta enquanto conversavam lá dentro. O marido dela podava as roseiras no jardim. Aquele homem tinha barbas longas e brancas se ligando aos cabelos também longos e brancos, o andar lhe parecia difícil, encurvado, arrastava o pé esquerdo e, sempre que preciso, se dobrava quas

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  • 15 abril

    O azul e a lágrima

    A manhã estava calma. Calma como um gato se espreguiçando. Tinha combinado de almoçar com um amigo, ali pros lados do Mercado Central. Um passeio tipicamente mineiro: caminhar pelo centro sem pressa, sem carros, sem aquela multidão apressada. Nem buzinas, nem o relógio invisível cobrando compromissos. Conversávamos sobre música, livros e algumas bobagens que fazem bem. Uma moça gritou: — Gente, olha ali! O que é aquilo, meu Deus? Na esquina da Augusto de L

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  • 14 abril

    Poema #19 – CAMADAS DE ÁGUA

    . “o peixe sabe de tudo e nada”autoria desconhecida, século XIII tenho dois mesespara morrero ódiome circunscrevecomo camadasde água que veminundando tudo,desde as primeiras célulasaos últimos fios de cabeloe são águas salobras, escurasde quando faço a descidada ponte para beberdesta água, o líquido, mas ai,tem gosto de peixes putrefatospeixes analógicos e peixes digitais. “São voltas da vida, voltas da vida”,como dizia o enfermo Valdemarem seu leito de mo

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  • 13 abril

    Lambuza-te da tua fatia de tempo

    Uma casualidade remeteria um leitor comum a uma pizzaria. Embasbacar-se-ia, pois, com o sentido literalmente delicioso de uma plaquinha assim, despretensiosa assim, alocada aleatória ou propositalmente junto a três relógios de paredes com o mesmo design, mesmo compasso, horários diferentes. “Lambuza-te ou te devoro”, é a moral da história – e uma citação que pretendo patentear, de tão boa que ficou [fique à vontade para citar, mas já faz

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  • 13 abril

    Ato falho

    Pela frestas da veneziana, Niclas pode ver que já tinha amanhecido. Sentiu um certo alívio, pois assim poderia se livrar dos pensamentos que não o deixaram dormir em paz. Por outro lado, iniciar o dia significava enfrentar o problema que havia sido criado na véspera. Sentia o corpo cansado e a cabeça pesada. Sentou-se na cama, disposto a traçar seu plano de ação. Ao pegar os óculos na mesa de cabeceira, seus olhos se iluminaram ao ver a edição resumida do

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  • 13 abril

    INTERTEXTUALIDADES

    . Um escritor nunca escreve sozinho…Antes, escreve com todas as vozesQue sussurram a todo instantehistórias e versosAcertos e desacertosMelodias e ilhasDesconcertos… Sou Cecília…Oswald, Mário, Carlos… Andrades!Sou também Bandeira! Camões, Pessoa, Castro e muito mais. Sou Clarice…Veríssimo, Graciliano, Rosa,Sou também o cais. Jorge e Murilo e  muito mais. Sou o que sou: olha só os tais!Pouco, muito…E até coisas banais. E

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  • 12 abril

    Para Su e todas nós

    Essa semana uma amiga viveu uma situação bastante traumática e corriqueira no universo das mulheres: foi intimidada verbalmente por um colega de trabalho e ameaçada de agressão física durante seu expediente. Notem: um homem de quase 2 metros de altura levantou a mão na direção de uma mulher de 1,60 metros enquanto lhe ofendia aos gritos. Não vou citar o motivo do desentendimento porque me parece óbvio que nenhuma situação justificaria esse tipo de violênci

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  • 12 abril

    Vamos tomar um café?

    — Um café? Sim, obrigada!— Toma um café comigo? Claro, vamos!— Aceita um cafezinho? Sim, aceito! Vejam só: em todas essas frases há um convite que vai além da xícara. Há cumplicidade, um gesto de carinho, quase um abraço em forma de aroma. Da história do café, lembro de uma narrativa antiga — um pastor de cabras africano, com a ajudinha de um monge, teria descoberto os efeitos revigorantes daquele grão escuro. Verdade? Talvez. Isso não importa. O que impor

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  • 12 abril

    República Evangélica do Brasil

    Eles estão espalhados pelos mais afastados recônditos do país, onde pode faltar creche, farmácia, delegacia e agência do Banco do Brasil, mas nunca faltará uma igreja evangélica. Dentro de poucos anos, serão a maior religião do Brasil que, para decepção dos servos de Francisco, deixará de ser o maior país católico para contar com um dos mais numerosos rebanhos evangélicos do planeta. Na liderança, os EUA, terra do capitalismo, do consumismo, do individuali

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  • 11 abril

    A esquecida

    Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã:           – E se ela deixar de tomar os remédios para pressão?           – Precisamos ficar atentas. Pode ter um acidente vascular cerebral… – respondeu Soraia, que já pensava na possibilidade de contratarem uma cuidadora.        &

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  • 11 abril

    Do anonimato e outras não-percepções modernas

    Em meio a muitos, me diluo. Entre tantos, sou menos que um. Passo despercebido aos olhares. Percebo que alguns olhos passam por mim. Eu noto esses olhares discretos. Olhos que não me registram em sua retina. Não focam em mim porque não me percebem. Minha imagem sumirá da lembrança deles antes que percebam. Lembrança efêmera, tão consistente quanto a névoa diáfana que sobe do cubo de gelo. Nenhum registro, nem o da minha voz. O que eu disse não foi escutado

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  • 10 abril

    Tentar construir uma verdade!

    Um homem rico chamado Calvicius Sabinus, tinha um cérebro com uma memória minúscula, que o deixava com saia justa por diversas ocasiões sociais.  Por isso resolveu gastar uma fortuna contratando escravos culturais, para preencher seu vazio intelectual, mesmo sabendo que nunca conseguiria absorver nada estudado pelos contratados.  Suas vagas lembranças eram tão ruins que em alguns momentos os nomes de seus amigos, Ulisses, Aquiles e Príamo, sumiam

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  • 10 abril

    Rebentada

    Caminha ereta, embora isso custe e doa. Os dois meninos, de cabeças enormes e pernas finas, acompanham como podem o ritmo da mãe. Parecem frangos doentes, ciscando inutilmente num terreno seco. Andam os três sobre uma terra rachada e poeirenta. O horizonte continua distante, tão distante quanto no dia em que iniciaram a jornada a pé. O sol permanece no alto, maltratando os olhos, a pele e a esperança. O menor dos meninos, vencido pelo cansaço, senta-se num

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  • 7 abril

    Poema #18 – NA PENUMBRA

    . Na penumbrame faço grandecomo minha sombra na parede. Porém a paredenão é intactacomo a cerâmica do banheiro. Suas imperfeiçõesremetem-me para além dela mesmae me vejo em cada detalhemal sucedido de sua arquitetura. Na penumbrame faço gentecomo as presenças que me povoam. Porém o sonhonão correspondeà realidade imaginada. Os monólogos com a sombraremetem-me para além de mime me sinto em cada possibilidadede acender a lâmpadae não perder o mágico domínio.

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  • 6 abril

    Jabuti descalço

    Estão abertas as inscrições para o Prêmio Jabuti 2025, a estatueta mais cobiçada pelos escritores brasileiros. Não pude deixar de me lembrar que, ano passado, assisti à cerimônia de premiação pela televisão, curiosa para saber quem seriam os ganhadores, uma vez que, desde 2019, tenho acompanhado mais de perto as publicações literárias de autores brasileiros. Enquanto aguardava a divulgação dos premiados em cada categoria, me veio à cabeça uma curiosidade:

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  • 6 abril

    Poema #02 – Quase noite; foi-se o dia, um dia

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  • 6 abril

    Poema #9 : Tudo é poesia

    . Tudo é poesiaA agitação da ruaO sinalE a correria!A voz do vendedorO som do dia. Tudo é poesiaA propagandaO chafarizAté a melancoliaO engarrafamentoO papelão pra noite fria. Tudo é poesiaOs menores na esquina,Uma bola ou um limãoAcrobaciaNo alto dos edifíciosA vida silencia! Tudo é poesiaNas placas, andaimes,GuindastesNão há monotonia.Há tremor, rumorA amarga dor,Sinestesia! E quando tentam tirarAs coisas do seu devido lugarAutofagia!Não importa!Pois tud

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  • 5 abril

    A eterna mania de estar pronta para reagir

    Ontem foi dia de esperar a chuva torrencial prometida pela meteorologia. Não fui ao Pilates, imagina ter que voltar ensopada para casa às 8h da manhã. Lá pelas 11h, olhei o céu da minha varanda, dia claro. Só nuvens fofinhas a decorar a paisagem. Mas decidi não fazer a caminhada diária, vai que o tempo muda de repente e a danada da chuva me pega desprevenida.  À noite, teria o aniversário de uma amiga queri

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  • 5 abril

    Comunista

    Sou comunista! Antes que essa escandalosa revelação afaste os leitores de minha repugnante companhia (tal qual acontecia com os leprosos e lazarentos da Idade Média), apresso-me em oferecer alguns esclarecimentos para tentar aplacar a aversão de meus detratores. Aviso logo: não sou comunista tipo saudosista, na acepção estrita do termo, o autêntico comunista que se espelhava nos antigos regimes da URSS e da China. Dos tempos, em que para fazer jus ao títul

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