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  • fev- 2025 -
    13 fevereiro

    Nosso espelho franco e claro!

    A desesperança dói e prejudica nossos rumos quase sempre que escolhemos sozinhos um caminho tortuoso, que torna-se um entrave para novos planos e projetos, passíveis de execução entre o antes e o depois do infinito. O ser humano descobre sua própria diversão quando essa lhe é retirada, por isso o desmame de uma colaboração mental ou financeira, a busca de solução para nossos problemas, traz uma oportunidade no pensar em si com mais esforço e dedicação, na

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  • 13 fevereiro

    Silenciosa

    Toda noite uma mulher atravessa minha casa por dentro. Passa pela sala, alcança o corredor e sai pelo terraço dos fundos. Pede desculpas assim que me vê, diz que este é o seu caminho até o trabalho e que não conhece nenhum outro. Com o tempo me acostumei com sua presença. Ela é linda, e nem em sonho vi mulher igual. Espero-a todas as noites, e todas as noites ela vem. Algumas vezes cheguei a pedir que fizesse uma pausa e gastasse uns minutos comigo. Poderí

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  • 10 fevereiro

    #10 – TECNO-POEMA

    . – Fala o poeta de vanguarda: A estrutura do verso está invertida em meu caleidoscópio. Preciso de uma máquina rápida e perfeita para fazer uma circuncisão mental: “Quero que a estrofe gravada ao jeito do vídeo cassete saia nítida, sem um defeito”. – Fala a crítica especializada: A infraestrutura do verso está evoluída em meu laboratório. Preciso de um computador rarefeito e sem defeito para efeito de análise poética: “O crítico é um digitador, digita tão

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  • 9 fevereiro

    Chuvas de verão: esquetes de improviso urbanos

    Chove. Uma menina corre em meio aos paralelepípedos e às gotas jovens, excitadas e insistentes. Usa um vestido branco curto, melissas azuis nos pés e cabelos longos e soltos. Corre sorrindo e dizendo “chuva, Pascal, chuva! Casa! Chuva, Pascal, vamos!”, e um chow-chow com sua intrépida lingua roxa reúne todas as forças – de onde, não se sabe; talvez do instinto, talvez da ligação afetiva com a sua humana; mais provável a associação do coma

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  • 9 fevereiro

    Anônimo

    A cena do interrogatório de Eunice Paiva no filme Ainda Estou Aqui provocou um clarão em minha memória, como se estivesse ainda sob efeito do medo das denúncias que ocorriam no período, entre amigos, colegas e mesmo parentes. Qualquer comentário que fugisse ao discurso aceito pela ditadura poderia ser motivo para delação. Ato contínuo, o encarceramento para averiguação, que resultaria no desaparecimento e morte de alguém cujo crime fora somente o de se opo

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  • 8 fevereiro

    Folga

    Uma empresa chinesa criou, recentemente, a licença infelicidade. Cada funcionário, ao longo do ano, tem direito de faltar ao serviço, por um período de até dez dias, caso se sinta triste, irritado, angustiado ou infeliz. De primeira, questionei a ingenuidade da proposta. Como eles não desconfiam das artimanhas da procrastinação? Eu, sem dúvida, anualmente, seria acometida por uma certa tristeza, às segundas e sextas. Naqueles dias de sol em que os infelize

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  • 8 fevereiro

    O teatrólogo e o apresentador de tv

    Qual elo poderia unir duas figuras tão distintas quanto o teatrólogo Zé Celso (1937 – 2023) e o apresentador Sílvio Santos (1930 – 2024)? Agitador cultural, artista libertário, inovador, ousado, Zé Celso Martinez Corrêa dedicou sua vida às artes cênicas e a difundir cultura para esse país tão carente, um sujeito transgressor e revolucionário que jamais se submeteu aos padrões estabelecidos, tendo batido de frente com a ditadura. Faleceu bestame

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  • 7 fevereiro

    Videomakers ou a arte de surpreender seu pai (mais uma vez)

    Minha competente editora me manda um recado por escrito: tu precisas fazer um vídeo promocional do teu livro para jogarmos no Tik Tok. Ela é gaúcha, do Alegrete, e com gente da fronteira não se brinca. Se ela disse “tu precisas” é porque nem quero pensar o que pode me acontecer se não o fizer. Me aprumei decidido a cumprir a tarefa. Peguei o celular, olhei para ele e ele para mim. E nada. Fiz uma careta pensativa imaginando como fazer o vídeo. Ante o vasto

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  • 7 fevereiro

    A cinta

    Trinta anos de casamento, Nicanor pensou em fazer uma surpresa à mulher: – Que tal a gente voltar ao motel em que dormimos juntos pela primeira vez? – Motel?! Que ideia! – Por que não? Vai ser gostoso relembrar a sensação daquele encontro. Tanto insistiu, que Matilde terminou concordando. Meio a contragosto, é certo, mas não custava satisfazer esse capricho do marido, que ainda veio com outro: – Você podia vestir aquela cinta vermelha… Lembra? A mulh

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  • 6 fevereiro

    Obra aberta a ser reeditada!

    A experiência de Nietzsche com seus aforismos em relação à utilização da linguagem como produtora de verdades, esclarece que os benefícios de um banho de banheira com água fria não deve ser evitado, e que devemos entrar e sair rapidamente, porque saímos modificados com o choque da temperatura, sem necessidade de se aprofundar. Os inimigos da água fria não recomendam essa experiência, porém, o frio pode tornar veloz seu pensamento.  Por vezes o desejo

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  • 6 fevereiro

    Os dedos de fogo de Angústias

    Angústias é uma menina com dedos de fogo e por isso é uma menina triste. Tudo o que toca arde. Vive longe do mar, num lugar parecido a um deserto, mas muito frio, com terra avermelhada como tingida de sangue. Pouco chove ali e, quando isso acontece, a terra se transforma num espelho e lança brilhos que chegam às nuvens. Só em ocasiões assim Angústias fica feliz, chora de alegria e passa horas admirando as poças d’água, tocando-as com a ponta dos dedos que,

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  • 5 fevereiro

    Alegoria do pitaco

    Diria o maluco que cada um tem sua loucura. Uma das minhas é ler crítica literária. Mesmo quando espremido num cotidiano atribulado, um artigo de quatro ou cinco páginas sempre encontra uma brechinha entre canecas de café. E desde muito tenho essa mania. Outra louquice é inventar desafios relacionados à leitura. O último é ler os treze (ou quatorze?) volumes do compêndio intitulado Pontos de Vista, contendo cinquenta anos de críticas literárias do Wilson M

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  • 4 fevereiro

    Rosa, verde e rosa

    Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração. Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, so

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  • 3 fevereiro

    #09 – EXPURGO

    hoje eu mordium chumaço depapel higiênicopara estancar(ou tentar conter)o sangramentoda língua dilacerada:como um cadáverantecipado que devorao seu próprio sudário. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • 2 fevereiro

    Nada será como antes

    Olhei para o bolo de chocolate com aquela cobertura de brigadeiro escorrendo pelos cantos. Peguei um prato e já ia me servindo, quando fui assaltada por um pensamento aterrorizante — esse é o último pedaço. Uma sensação de finitude me invadiu; como liquidar essa fatia que ainda pode durar até amanhã? Não, não posso fazer isso, vou dividir para ela durar mais. E, assim, fui me satisfazendo com uma terça-parte da delícia, até que não restasse nada além de mi

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  • 2 fevereiro

    Anotações sobre rotina e/ou fim do mundo

    Existe um filme premiado em Cannes que conta, de forma incrivelmente poética, o fim do mundo. Sob a perspectiva de choque entre dois corpos celestes, sendo um, a Terra e ‘Melancolia’, o nome do outro, o evento é uma dança de aproximação e afastamento, de medos e alívios, de insanidade e lucidez, tudo acontecendo a uma velocidade intangível, em que nós mesmos nos aproximamos e nos afastamos internamente. Detemo-nos nas consequências, ao passo qu

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  • 2 fevereiro

    O NEVOEIRO

    Metáfora. Figura de Linguagem que consiste em comparar dois ou mais elementos de forma indireta. Conforme o dicionário, a metáfora nos presta este favor. Aliás, um grande favor! Sem a metáfora, a imagem do que falamos ou escrevemos não teria a mesma expressividade! Aqui, nestes rascunhos e esboços de um tempo, a metáfora nos serve como uma imagem de alerta, de reflexão e, por que não, de perplexidade! Como podemos ignorar o óbvio? Outro ponto importante a

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  • 2 fevereiro

    Berlin

    Cada vez que assisto a uma tentativa de calar as vozes dissidentes me lembro de Berlin: foi lá que me deparei com as reais consequências de um regime político onde falta liberdade. Percebi que a política é problema de todos e que, de uma forma ou de outra, é preciso participar (o que pode ser algo pequeno como votar conscientemente ou fazer parte da associação de bairro). É importante defender com unhas e dentes a liberdade de expressão, desde que não se c

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  • 1 fevereiro

    Entrevista exclusiva com Trump (II)

    Nosso portal publicou em 27 de novembro de 2020, com exclusividade, uma entrevista com o então presidente Trump que acabara de ser derrotado nas urnas por Joe Biden. Em vista da volta de Trump à presidência (e às manchetes), julgamos oportuno, como documento de valor histórico, republicar a entrevista que segue abaixo: Sérgio Sayeg – Pleased to meet you, Mr. Trump. Donald Trump – Excuse me, I know you? Sérgio Sayeg – I´m a blogger from Br

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  • 1 fevereiro

    O hoje do ontem

    Aproveitei o final de ano e mandei estofar o sofá. Chegou ontem. Interessante o impacto que uma simples mudança causa na sequência aleatória dos dias. Aliás, a espera pela entrega do “novo”, por si só, me provocou alvoroço. Não sou capaz de imaginar o resultado final do serviço a partir do pedacinho de pano da amostra. Por sorte, deu certo. A novidade trouxe animação, beleza, vontade de decorar a sala com novos objetos. Valeu o custo. O velho estava surrad

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  • 1 fevereiro

    Promessas e Cotidianos

    Ano novo anda de mãos dadas com promessas. Não fugi à regra, quando enumerei minha lista de boas intenções. Passada a euforia refleti sobre esse costume. Eu estou me enganando! Claro que sim, ora se bem me conheço, nenhum rol ou plano de ações vai mudar a minha forma de ver o mundo, de agir, de errar e acertar. Que alívio! Vamos então ao meu ponto de equilíbrio: escrever. Essa é a minha terapia, o meu exercício diário de conexão com o mundo, com a vida. Na

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  • jan- 2025 -
    31 janeiro

    Para sempre Urca

    Naquela tarde quente de verão ele desceu do táxi na avenida Portugal, um pouco depois da igreja de Nossa Senhora do Brasil. Parou na mureta de pedra de frente para o mar apreciando a vista da enseada de Botafogo, do Iate Clube até a curva em direção ao Aterro. Suspirou sorrindo e disse para si com o peito estufado do mais genuíno orgulho carioca: incomparável. Virou o rosto para dentro do bairro, olhou para as casas e prédios baixos e caminhou lentamente a

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  • 30 janeiro

    Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definido ainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até

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  • 30 janeiro

    Alguns convencidos que tudo sabem!

    Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas.  Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica.  Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos.  Esse é um exemplo de como a sa

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  • 29 janeiro

    Minhas melhores companhias e eu

    . Da minha varanda imaginária contemplo o novo tempo que chega. Por circunstâncias da vida, a convivência com minhas melhores companhias vai duplicar. O que antes era “semana sim, semana não” agora ser torna “semana sempre”. Será intenso e mais profundo. Seremos nós três. E isso conta a favor. Minhas melhores companhias crescem a olhos vistos. Sou testemunha e me sinto privilegiado. Modos, falas e atitudes. Gostos, desgostos, ações e reações. Cores, nomes

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  • 27 janeiro

    #08 – A Ilha

    . A ilha com seu silênciome comunica a mortedos seres espectraisque nela vivem ou já viveram. A ilha cercada por manguesé um poço de lama e óleo. Os pescadores da ilhame comunicam o fimdos pescadores da ilha. Os pescadores da ilhame apresentam a pesca de um dia,nada. A ilha com sua morteme comunica o silênciodos seres superioresque a mataram e matam. A ilha abandonada pelos banhistasé um deserto de espuma e água. Os frequentadores da ilhame comunicam o des

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  • 26 janeiro

    Tâmaras, vinho branco e gatos

    Há algumas semanas a bandeja de tâmaras – com caroço, tal qual informava a identidade visual da embalagem – repousava paciente sobre a bancada da cozinha, no aguardo do momento especial que tanto se preparava Theobaldo. Amante de história e das descobertas da gastronomia dos tempos passados, planejava dar à fruta uma espécie de protagonismo em um quitute da Roma Antiga. Mas faltava-lhe o mel e as nozes, e com sua atual situação financeira não c

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  • 26 janeiro

    Semancol Homeopático

    Medicamento fitoterápico de amplo espectro, indicado para pacientes que perderam a autocensura e para aqueles que sofrem de compulsão verbal, podendo ser administrado também em pacientes com quadros de perda de cerimônia, falta de educação e traços de inconveniência. Ação esperada do medicamento Semancol Homeopático se mostrou extremamente eficiente no combate à boca solta, diminuindo sensivelmente a incidência de comentários inapropriados, grosserias, ris

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  • 26 janeiro

    CRÔNICA CAMONIANA

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer. Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os

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  • 25 janeiro

    Eu, produto de valor

    Abriu uma nova sorveteria no shopping perto da minha casa. Por estratégia ou atrevimento, a novinha fica em frente à geladinha oficial. Disposta a conhecer a gostosura da hora, entrei na imensa fila que se formava. Tentei me distrair com as opções de sabor, designer da loja, mas, na consciência, pesava a culpa da traição. Para agravar a tensão, pertinente ao momento de flerte que não deveria acontecer, me acompanhava o olhar da atendente da sorveteria anti

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