Crônicas

Próprio esquecimento

Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora, muito idosa, com um carrinho de feira cheio de sacolas, e de repente minha garganta apertou. O sentimento ficou ali por uns segundos, igual um espirro que não veio. Depois passou. Quanto mais vivo, mais me convenço de que sou um mau conhecedor do meu próprio terreno. Meus sentimentos chegam sem bater, falam uma língua que não aprendi direito, e vão embora deixando o queijo e a faca em cima da mesa. Tem hora que o medo se fantasia de indiferença, e a gente diz “não estou nem aí”, quando no fundo está tremendo. Somos tradutores terríveis de nós mesmos. O texto é original, é claro, mas a gente insiste numa versão malfeita.

Lembro de uma amiga que perdeu o pai. Na semana seguinte, estava no trabalho, rindo de uma piada. Alguém comentou, em voz baixa: “Olha como ela já superou.” Ela não tinha superado, só estava rindo porque o corpo precisava de ar, e rir é um jeito de respirar sem pedir licença. Com o tempo, descobri que não adianta brigar com esse estrangeiro que mora em mim. Ele vai continuar falando sua língua esquisita e deslocando os móveis de lugar. O truque é aprender algumas palavras de cortesia. “Estou sentindo alguma coisa esquisita.” “Acho que isso não é bem o que parece.” Ser estrangeiro de si mesmo não é defeito, é condição humana. A gente vive nesse vai e vem entre sentir e entender, entre o que explodiu e o que conseguimos traduzir. Hoje mesmo, olhando a janela, senti uma pontada. Não sei se é saudade de alguém, se é medo do amanhã, se é só fome passando disfarçada. Afinal, estrangeiro também se vira. Aponta, faz mímica, sorri sem jeito. E no final, acaba encontrando quem fala a sua língua. Mesmo que seja um vizinho, um cachorro, ou a própria tarde acalmando devagar. No livro “O estrangeiro” de Albert Camus, o personagem Meursault, descrito como um estrangeiro de seus próprios sentimentos, descreve outra interpretação do sentimento desconhecido. Ele é um colono francês, desapegado emocionalmente, sincero ao extremo e alienado das normas sociais, frequentemente usa a frase “tanto faz”. O personagem age friamente em relação a morte de sua mãe, e ao convívio com a mulher que ele passou a se relacionar. Acha belo somente o exterior que o circunda, a luz externa, o brilho fosco do que vê, porém sem afetos. Quase um psicopata, que não tem sentimento com o outro, vive em total falta de empatia, por vezes se colocando como vítima da sociedade e sem solução. É um homem apático e honesto que mata um árabe após uma série de eventos casuais. Indiferente à moral social, ele é julgado mais pela falta de emoção no funeral de sua mãe, do que pelo crime cometido, ilustrando o “absurdo” da existência humana, essa que carrega tantas nuancias, a qual necessitamos uma dedicação atenta, para não cairmos na banalidade do próprio esquecimento.

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Raul Tartarotti

Raul Tartarotti é Engenheiro Biomédico, cronista e mentor do portal www.espacodacultura.com.br, voltado a divulgação de textos de autores brasileiros. Coautor do livro "A voz dos novos tempos". Estudou filosofia clássica, contemporânea e literatura Russa. Suas crônicas têm cunho humanístico e abordam temas contemporâneos, e são publicadas em diversos sites culturais no Brasil e exterior.

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