Coluna ‘Crônicas’ de segunda

  • Retrato

    De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem.

    Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só.

    O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência planejada, ao rumo escolhido.

    Entre os coqueiros, aceleramos e assistimos ao vento. Uma torre de telefonia informa que o aparente isolamento não existe.

    O gado branco e magro descansa. Longos espaços sem ninguém. Mal sabemos em que dia da semana estamos.

    O peixe rosado é escamado, as senhoras conversam, a varanda é gradeada, a casa é verde e rosa, a lavoura é de camarão.

    Uma Assembleia de Deus, um jardim de mandioca, uma conversa animada no botequim.

    O vento dança nos coqueiros. Os pensamentos vão devagar… Devagar, a vida passa nos olhos de ressaca do homem que olha a segunda-feira.

  • Jogo das palavras

    O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento?

    Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir.

    O erro da escolha aberta e cruel nos levou ao caos. Nossa liberdade, tolhida pelo medo e pela insegurança, tira das nossas mãos uma democracia plena para nos tornarmos reféns de um incapaz que usa o poder para si próprio — uma indecência.

    Lutar? Como? Atados a pacotes infelizes, mergulhamos, sem respiradores, num mar de lama e vamos perdendo, aos poucos, o ar, pois aquele que nos ajudava a relaxar torna-se tóxico, e ficamos à deriva…

    Estranho são os jogos das palavras…

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