Crônicas Cariocas

  • Preta foi para o céu

    Preta Gil foi para o céu. O Brasil ficou órfão de sua alegria escandalosa. Preta perdeu sua última batalha contra o câncer.

    Perdemos a cantora, a empresária, a apresentadora, o exemplo de mãe, a mulher inspiradora que ela foi.

    Preta foi embora no último domingo, dia 20, nos Estados Unidos.

    Preta descobriu cedo sua força porque, na escola, apesar de ser filha de pai famoso, soube que isso não a blindava do racismo do colégio onde estudava: a mãe de uma colega se recusava a dar carona para “gente de cor” na Kombi dela. Porém, se não era impedida de passar por isso, viu a lição que a mãe dela, Sandra Gadelha — a Drão — deu na mulher desaforada.

    Preta Gil não se encostou no pai cantor. Foi produtora, empresária, apresentadora, cantora. Casou, descasou, casou de novo, teve filhos e passou perrengues como qualquer pessoa comum.

    Quando li “Os primeiros 50”, livro que ela lançou em 2024, pela editora Globo Livros, pensei em como seria bom se ela tivesse se lançado também na ficção. Ou, pelo menos, uma crônica semanal no jornal, se muito. Como escrevia gostoso.

    Perdemos uma mulher que ensinou pra gente o que é a força da mulher, o empoderamento e o gostar de viver.

    Ela namorou homens, mulheres, famosos e anônimos, e mostrou que o amor é sagrado — que cada um de nós pode amar quem quiser, do jeito que quiser.

    Sei que um dia todos vamos deixar este mundo, sei que todo mundo terá sua hora, mas dói saber que ela era tão nova. Dói saber que seu rosto era tão vigoroso, tão bonito.

    Preta Gil foi abandonada pelo marido durante a luta contra o câncer, mas colecionou amigos, fãs e uma família amorosa.

    Perdemos uma mulher com riso fácil e um senso de humor delicioso.

    Ela desnudou seu corpo e sua alma no disco “Prêt-à-Porter” (2003). Chocou alguns e foi aplaudida por muitos.

    Vá em paz. Você será sempre uma inspiração para novas gerações.

    *Excepcionalmente nesta quarta-feira.

  • Fazendo a roda girar

    Saía de casa faceira após chamar o Uber. A vizinha vê, para. Me elogia. Pavaneio. Vou dar entrevista. Oferece carona. Recuso. Uber já chegou. Penso na taxa de cancelamento. Pago não. Não sei mesmo fazer conta. Vou de Uber. Vizinha se vai.

    Começa a tradicional conversa sobre o tempo, o frio, o perigo do banho quente e sair na friagem. O motorista parece cansado, fala da mulher que teima em sair do banho e colocar a toalha para secar do lado de fora. Pode adoecer. Tava doente. Teve câncer. Têm três filhas, idades diversas, todas difíceis. Trabalha sem parar. Filhas gastam, mulher gasta, doença mais ainda.

    A roda do carro deu defeito. A vida tem dado defeito. Ele se exaspera. Conta as agruras. A falta de grana, a ajuda dos amigos. A roda pode quebrar a qualquer momento, avisa um deles. Temo por nós. Falta peça, falta grana, falta temor. Ele consegue que o amigo coloque a peça. Mas não consegue a peça. Não pode rodar, mas precisa. A roda da vida não para.

    A peça custa 180. Conseguiu 80. Falta 100. A roda não para de girar. Não cancelei a corrida, ouvi a história da roda, ouvi a história do câncer. A roda não para de girar. Faço um pix de 100 reais. Ele chora. A roda pode parar. Não sei o seu nome, das suas filhas, da sua mulher. Do câncer. Mas faço a roda girar.

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

  • Órfã

    Somos inseparáveis. Sabe aquela dupla que passa a maior parte do tempo colada? Pois é, somos assim – tipo queijo com goiabada –, um não pode viver sem o outro. Fazemos tudo juntinhos, uma mão lavando a outra, parceria que já vem de longa data.

    Seja de dia, seja de noite, você é meu companheiro, está ali firme sem reclamar, topando qualquer parada.

    Às vezes penso que sou dependente demais de você. Mas, depois, penso um pouco e vejo que você também não tem vida independente, está sempre esperando a hora de entrar em cena comigo. Até pensei em substituir você por outro, mas não seria a mesma coisa.

    A procura não é de sua iniciativa, e até entendo o porquê, sendo você quem é: generoso, sempre ali sem reivindicar nada para si, a não ser a minha companhia. Cá entre nós, tenho que confessar que me conforta saber que está sempre pronto, disponível, aguardando a hora em que vou te buscar.

    Enfrentamos os maiores desafios juntos; somos ágeis e rápidos nas tarefas para depois, exaustos, podermos sentir aquela água quentinha e o banho de espuma reconfortante. O perfume desse momento é inesquecível e me faz querer ficar ali relaxando por horas.

    Por isso mesmo, não consigo aceitar sua ausência nesses dias em que vim para a praia. A falta que está me fazendo é insuportável! Estou de mau-humor, reclamando de tudo, preguiçosa, e às vezes me recuso até a levantar do sofá, alegando uma dor de cabeça, para não ter que encarar o trampo sozinha.

    E o pessoal não perdoa, está fazendo a maior bagunça. A festa rolando a noite toda, o bar repondo os copos de bebida sem trégua, aperitivos, jantar e até café da manhã amontoando. Alegria total e eu aqui, sozinha, cabisbaixa, só pensando no que viria depois, se você estivesse comigo.

    Tremo ao pensar no resultado: aquele monte de copos para lavar, roupa para colocar na máquina, banheiro cheio de areia para limpar… Como posso encarar tudo isso sozinha?

    Me sinto órfã quando você não está comigo! Como pude esquecer você, meu parceiro fiel, meu par de luvas de borracha?!

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um dos dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo.  Sem trocadilhos. Entendo que são mesmos necessários, que devem estar marcados nos calendários, como uma forma de lembrar a importância do que se comemora. 

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real, devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega resfriado, bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil, com minhas ideias…

    De todo modo, penso que a gente devia contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar sim, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito. 

    O mundo ficaria bem mais ameno, a hostilidade seria a exceção, e quem sabe o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que é ameno ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Eu tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ahhh, em tempo: hoje, 26 de julho, é o Dia dos Avós.

    Sendo assim, caro leitor… receba o meu cordial bom dia!

  • Solecismo amoroso

    – Eu lhe gosto.

    – Eu gosto de você. 

    – Hem?!

    – Eu também gosto de você, ora.

    – Está me corrigindo?

    – Corrigindo como?

    – Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

    – Nem pensei nisso.

    – Lhe incomoda eu falar errado? Você é capaz de amar uma mulher que não sabe português?

    – Que é que isso tem a ver?

    – Tudo. Eu fui sincera, disse o que naturalmente sentia. Não pensei na forma. Quem é que pensa na forma numa hora dessas? Falei que gostava de você, ou melhor, que lhe gostava. E você nem reparou no que eu disse. Reparou no meu verbo errado.

    – Pelo amor de Deus, não dramatize. Eu repeti o que você tinha me dito, só que de um jeito um pouco diferente.

    – Mais correto. Sem erro – como é que se diz? – de regência. Ou de concordância, sei lá.

    – Regência.

    – Está vendo? Me corrigiu de novo. 

    – Você não perguntou? Respondi à sua pergunta. Sei que é de regência por acaso. Foi uma das poucas coisas que aprendi no colégio. Tinha regência em Português e em História. Em Português a regência era do verbo e de certos nomes, em História era de Feijó. Você não lembra? Diogo Feijó.

    – Pare, por favor. Você parece que não percebe a gravidade do que aconteceu. A partir de hoje, a partir desta conversa, alguma coisa se partiu entre nós. Definitivamente. Perdi a espontaneidade, jamais serei a mesma. Vou ter que vigiar minhas palavras, senão elas não chegam até você.   

    – Fale como achar melhor, ora. O importante é o que se diz, e não…

    – Mentira… E ainda por cima mentiroso! Como pude gostar de alguém que está mais interessado na qualidade do meu português do que na sinceridade do meu afeto? Pra você não importa o que eu sinto, e sim a forma como devo expressar minhas emoções.  

    – Você está exagerando, está sendo ridícula.

    – Ridícula? Ah! Primeiro ignorante, agora ridícula. O que mais? Posso ser tudo isso, mas não sou insensível. E sabe de uma coisa? Nosso namoro não daria mesmo certo.

    – Mas íamos tão bem…

    – Até você me corrigir em hora tão imprópria. Que marido você ia dar! Agora corrige minha linguagem, depois certamente vai querer interferir nas minhas roupas, nos meus hábitos, nos meus amigos. O casamento com você seria uma eterna sabatina, um interminável exame de seleção. Eu ia ter que me policiar dia após dia para não ser reprovada. 

    – Mas que loucura!

    – Ignorante, ridícula, e agora louca… Basta! Não quero ouvir mais. Adeus.

  • ESCOLHAS

    Pode-se não dizer nada (e isso talvez não seja tão difícil). Pode-se guardar as palavras, esquecer os substantivos, calar os adjetivos, ignorar os verbos. Pode-se não pensar no toque de peles mornas nem em anoiteceres compartilhados, muito menos em entardeceres com cheiro de comida. Pode-se não intuir nem imaginar. Pode-se tirar tudo da frente dos olhos: os relógios, os mapas, as geografias, as histórias, as memórias, o passado e o futuro. Pode-se não ler livro algum. Pode-se ler todos os livros. Pode-se queimar todos os livros do mundo. Pode-se cancelar os nomes e as coisas, confundir as línguas, negar as emoções, camuflar as lágrimas, dissimular os sorrisos, refrear os abraços, interromper os diálogos, prantear ou não os mortos. Pode-se fingir que a lâmina não fere rente.

    Pode-se fazer tudo isso e segurar as consequências nos dentes. Ou então se sentar na frente de uma montanha, passar a vida contemplando-a e morrer lentamente de morte natural.

    Está posta a escolha.

  • Aprendizado à beira-mar

    A primeira vez que vi o mar foi um acontecimento. Foram horas — acho que oito, talvez dez — de Belo Horizonte até Marataízes, com aquelas paradas que hoje soariam enfadonhas, mas que na infância tinham gosto de festa: milho cozido na beira da estrada, mingau de milho fumegante, almoço simples com farofa crocante. Eu achava tudo aquilo uma delícia.

    Mas o verdadeiro banquete foi quando o mar apareceu. Imenso, azul, impossível. E justo no instante em que meus olhos de menino se perderam naquele horizonte de sal, tocou no rádio: “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora… há tanta vida lá fora… e aqui dentro, sempre… como uma onda no mar.” Lulu Santos e Nelson Motta. Não foi no primeiro dia, foi no segundo. Mas foi como se fosse a primeira vez que eu visse qualquer coisa no mundo.

    Eu caminhava na areia, jogava peteca com uns meninos do outro hotel, deixava as ondas molharem meus pés num vai e vem que era quase música. Tudo parecia fácil: rir, correr, perder a peteca, achar de novo. Não havia sombra de desafio — era só o sol, o sal, e aquele sentimento de que o mundo estava pronto para mim.

    O mar era novidade, força, descoberta. Especialmente naquele momento em que, num descuido meu, ele levou um pé de chinelo embora.

    Eu desconhecia a força das ondas. Só conhecia as águas paradas da piscina e da lagoa — nenhuma delas tinha surrupiado meu chinelo daquele jeito, com tanta facilidade e sem aviso.

    Eu era um garoto que brincava sem camisa na rua, fazia do chinelo Havaiana a trave do gol. Ali, na areia, de pé e de sunga, eu ia para lá e para cá — era toda novidade para mim.

    Mas havia outra novidade ali — as meninas. Elas andavam por todo lado, de biquíni, com corpos molhados e cabelos escorrendo do mar. E como eram lindas.

    Comecei a andar livremente até a padaria da esquina, comprar picolé e voltar sozinho para o hotel.

    Foi quando, olhando com atenção, reparei em dois meninos cercados por várias meninas sentadas numa escadaria. Eles estavam num hotel vizinho, bem ao lado do nosso.

    Falavam com intimidade, riam, brincavam — naquela época, as meninas só falavam comigo na minha imaginação, em cenas e diálogos que eu mesmo inventava.

    Até que um dos meninos me viu voltando da padaria e veio andando até o meu lado:

    — Cara, as meninas pediram para te chamar. Tá só a gente lá, tem menina sobrando.

    — Depois eu vou.

    Não fui. Depois, passei por lá, vi aqueles meninos namorando as garotas e lembrei do convite. Não entendi por que, na vida, a gente tem tanto medo de coisas boas.

    Ao escrever esta crônica, já homem feito, aquele menino que fui me sussurra algo: deixar que os outros gostem da gente é tão difícil quanto encontrar alguém.

  • O dia em que não havia mais nada pra sonhar

    Olhou para o lado e não havia mais árvores…

    Olhou para cima e, o céu cinza, cheio de fumaça, impedia qualquer ser vivente de ver o sol!

    Olhou para o outro lado e… não havia mais água!

    Resolveu caminhar entre pedras e destroços, cascalhos, plásticos, objetos já sem valor algum.

    E havia no chão coisas que nunca foram usadas, sacolas e mais sacolas de todas as cores e espessuras. Sacolas cinzas, sacolas verdes, sacolas transparentes…

    Caminhou por um bom tempo sem ver vegetação alguma!

    Caminhou por um bom tempo sem ver água corrente!

    Depois de tanto caminhar, sentou-se perto de um veículo abandonado. Não sabia nem o porquê de estar ali! Qual era seu nome e sua história? Não sabia de nada!

    Sabia apenas que tinha fome e que tinha sede…

    Viu que usava um casaco de muitos bolsos e resolveu procurar nos últimos e óbvios espaços!

    Tirou de um dos bolsos algumas notas! Era dinheiro! Disso sabia! Disso se lembrava! E lembrava que comprava muitas coisas com o dinheiro!

    A fome apertava e a sede aumentava!

    Num gesto rápido, colocou as notas na boca, mastigando cada pedaço e engolindo os valores que nela se estampavam. Cinco. Dez. Vinte.

    A única coisa que pode fazer foi chorar. Soluçar…

    Depois de tudo, adormeceu seu último sono e não sonhou mais porque não havia mais nada para sonhar!

  • O principal

    Antes de viajar, ela chamou o marido e recomendou:

    — Não se esqueça de aguar a minhas orquídeas. Basta uma vez por semana. Uma, não mais. Se você esquecer, elas morrem.

    Ele ouviu com ar compenetrado e prometeu que aguaria as orquídeas. Uma vez por semana. Feita a promessa, ajudou-a a botar as malas no carro e a levou para o aeroporto. Na despedida, beijaram-se. Ele lhe desejou boa sorte no estágio e fez a carinhosa recomendação:

    — Cuide-se!

    — Você também!!

    Para ele, foi um teste cuidar da casa. Não tinha jeito nem paciência. Precisava levar o cachorro para fazer as necessidades, lavar a roupa que se acumulava, ir ao supermercado e à feira, pois só comia fora no almoço. Não tinham filhos, o que simplificava muito as coisas, mas ainda assim as tarefas lhe pesavam.

    Além do mais, havia os contratempos da rotina. O cão, por exemplo, às vezes fazia pipi antes da hora. Lá ia ele buscar estopa e água sanitária para limpar a poça na sala ou em um dos quartos. Noutra ocasião, a válvula da descarga quebrou. Teve que procurar um encanador bem cedo, quando deveria estar no trabalho. Nesse dia chegou atrasado e não pôde assinar o ponto.

    O tempo foi passando. Os dois conversavam raramente pelo celular, pois ela tinha uma série de obrigações ligadas ao estágio. Falavam da nova experiência de cada um – ela se aventurando no exterior, ele como dono de casa. Era uma espécie de inversão que os fazia rir.  Até então ocorrera o oposto, mas agora o mundo era outro. Falavam disso e da saudade, que começava a apertar. Para se assegurar de que tudo transcorria normalmente, ela lhe fazia perguntas: “Tem cuidado de Sultão?” “Agendou todos os pagamentos?” “Está passado o pano nos quartos?” Ele respondia “sim” a todas.   

    Pouco antes de ela chegar, ele fez uma vigorosa faxina na casa. Bateu tapetes, lavou e desinfetou os banheiros, limpou o filtro do ar-condicionado. De noite estava exausto e com tosse, pois tinha alergia a poeira. No dia seguinte foi ao supermercado levando uma lista com o nome das comidas de que ela mais gostava. Trouxe iogurte, compota de pêssego, pão de milho.  

    Chegado o grande dia, postou-se bem cedo na sala de espera do aeroporto. Felizmente o avião não atrasou. Na volta para casa, ela quis saber se tudo correra bem; ele respondeu que tinha trabalhado muito, mas valera a pena. Achava-se, agora, um marido completo. 

    Mal entrou em casa, ela se encaminhou para a varanda. Foi quando viu uma pequena orquídea no chão. Aproximou-se do vaso e percebeu que estava seco. As outras flores se desprendiam do caule e estavam prestes a tombar. Olhou transtornada para o marido, que entrava chamando-a para ver as gostosuras que havia na mesa… Ele então se deu conta do que havia esquecido.   

    Nessa noite os dois brigaram. Ele tentou se defender mostrando como cuidara de tudo com esmero, tanto que a casa estava cheirosa e não tinha um grão de pó. Fora tanto o esforço, que ele chegou a ficar doente.

    — Você não fez o principal! — interrompeu-o a mulher. E foi dormir cheia de mágoa.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • A VINGANÇA DO LAPTOP**

    *— Quando a tecnologia resolve mostrar quem manda (e vira protagonista da reunião)

    O relógio marcava 14h30 e ele estava numa reunião remota de marketing da Agência Pixel & Café*, com o chefe, as meninas do RH, as estagiárias… e até o Padre Marcelo, convidado para “abençoar” o projeto.

    O computador, num surto de rebeldia, começou a travar: reiniciava sozinho no auge da reunião, desligava sem aviso e exibia um “fantasma” na tela, como aqueles velhos televisores sem controle remoto. A cada “pix!”, a câmera congelava, o áudio estalava. Ele apertava o notebook e xingava baixinho:

    — Mas por que essa porcaria resolveu dar problema JUSTO agora?

    — Que máquina maleducada — brincou a esposa, espiando pela porta.

    — Para de tirar sarro! — retrucou ela, fingindo indignação.

    A mulher folheava o manual, perguntando se ele queria chamar alguém para ajudar. Mas, quando a vontade de rir se tornava incontrolável, corria para o banheiro — deixando o marido ali, brigando com a tecnologia, e voltava com a tensão convertida em gargalhada abafada. Era impagável.

    De repente, ele se transformou numa versão caseira de Leandro Hassum — soltando impropérios com todo o carisma que o estresse do momento permitia:

    — Mas que máquina mais imbecil, não conhece o que é ética, não sabe o que é dar duro por uma empresa. Quando eu puder, o destino dessa porcaria vai ser a lata do lixo.

    Do nada, a reunião voltou. Chefe, RH, estagiárias… e o padre Marcelo ajeitando a batina. 

    — Eu gostaria que todos ligassem a câmera — disse o chefe.

    A câmera decidiu ter vontade própria: apareceu “Permitir câmera?”

    — Mas eu permito, ora essa. Pelo amor de Deus. Que máquina mais desumana, sem coração — resmungou ele.

    Quando a imagem voltou, inclusive do padre, ele clicou, levantou a mão e o chefe liberou a fala:

    — Como eu disse, este projeto vai dar uma alma nova para a empresa, uma chance muito maior de investimentos.

    Aí começou o coro dos microfones:

    — Você precisa ligar o microfone!

    — Tem que ligar o microfone!

    — Tem que liberar o microfone!

    O som virou um coral desafinado. O padre Marcelo, sereno, balançava a cabeça como se rezasse pela alma da tecnologia — e pelo descanso do homem que virou comediante por instinto.

    De repente, ele tirou a camisa, começou a mordê-la, jogoua no chão, pisou nela, gritou, deitouse no chão e esperneou:

    — Máquina mequetrefe, computador patife, sirigaita!

    Então parou para pensar: “O computador era fêmea ou macho? Qual era o sexo do computador? Na boa, o computador é ele ou ela?” Pensou em perguntar isso ao ChatGPT, mas só depois da reunião.

    Afinal, muita gente se refere ao computador como “meu PC”, “minha máquina”. Mas, e aí, o computador é macho ou fêmea? Ele é “ele” ou “ela”? Ou será que é “elu”?

    De repente, ele começou a bradar:

    — Vão todos, em fila organizada, para o inferno! 

    — Vai você, chefe. Com esse terno ridículo de pastor de igreja, esse terno de brechó.  

    — Vai você, sua maluca. Fala mal de todo mundo pelas costas, mas não vai embora porque está dormindo com o chefe.

    E, mais do que a camisa, ele tirou a calça e pisou nela, só de cuecas. Parou. Riu de si mesmo. A câmera estava desligada e, com o microfone com defeito, ninguém o veria nem ouviria. Começou a dançar, a rebolar na frente da câmera, a jogar beijos imaginários para a estagiária da assessoria de imprensa. Um verdadeiro “Conga la conga”. Até que o computador decidiu dar o ar da graça: a câmera ligou de repente. Ele, de cuecas, com o dedo indicador na boca.

    — Estávamos ouvindo. Disse o chefe.

    Ali, mais do que voltar para a reunião, ele queria sumir, desligar o computador, enfiar a cara num buraco. A câmera ligada mostrou o homem congelado — todos boquiabertos, divididos entre a gargalhada e o choque. O chefe pausou a reunião: “Vamos tomar um café rápido.” Na prática, era uma pausa para as risadas, para o fuxico. Depois disso, ele seria o convidado mais esperado no happy hour da firma. Ver um surto tecnológico com final cômico rende boas risadas.

    E ali, na hora do aperto, ele aprendeu: nunca se deve ofender um computador. Ter um laptop como inimigo é a pior coisa que existe. Ele pode se vingar e colocar a gente em situações embaraçosas. Mas, aos olhos alheios, a diversão é garantida.

  • “Felicidade se acha em horinhas de descuido”

    Foi o Guimarães quem disse. O Rosa, que não é flor, tampouco cor. Ele disse, eu refleti. Me perdi nas horas, horas longas e não pequeninas, que atravessaram meu corpo, minhas ideias e minhas versões, desde o nascimento. Me descuidei, por um fio, horas a fio, fios de cabelos que ainda não embranqueceram.

    E foi neste descuido, chamado felicidade, que os fios de meus cabelos foram abraçados, silenciosa, vigorosa e funcionalmente por uma piranha cor-de-rosa.

    Não a ofensa feminicida, não o peixe;

    Apenas uma presilha.

    E não o Guimarães.

    Em tantos segundos misturados, um único observador acima de minha cabeça.

    No descuido de não arrumar sequer o cabelo, felicidade.

    Devolvo, sob a forma de texto-memória, a piranha que o Gabriel Cardoso me deu, uma escrita criativa registrada no tempo (obrigada!)

  • Aroma, meu guia

    Em outra vida, tenho certeza, fui um Bloodhound — aquele cão de faro imbatível, dono de 300 milhões de receptores olfativos. Os humanos comuns (não me incluo) mal chegam a 5 milhões. Sinto odores há quilômetros de distância, tanto os que me encantam como aqueles que me nocauteiam.

    Devo confessar que esse super olfato me leva a escolher locais pelo cheiro – sim! Lojas com cheiro de marca me seduzem: entro, respiro fundo, e saio com algo que nem queria, só para prolongar o prazer do perfume no ar.

    Sou capaz até de me tornar uma frequentadora fiel de um restaurante só pelo aroma de sua culinária que invade o ambiente. Isso sem falar na atração que sinto por pessoas perfumadas, para mim uma nota importante de sensualidade.

    Essa questão olfativa esteve sempre presente na minha rotina doméstica – mantenho sachês perfumados nos armários, borrifo água perfumada nos jogos de cama e banho e uso perfumes de acordo com o verão ou inverno, dia ou noite, até mesmo para ir fazer Pilates ou uma caminhada.

    Mas não fica só por aí – tenho uma gama extensa de incensos que acendo em casa, de forma a imprimir a minha marca no ambiente. Uma prática que iniciei há mais de quarenta anos e que me traz benefícios tanto olfativos como espirituais, para mim e para aqueles que compartilham da minha hospitalidade.

    Por isso, quando li sobre um projeto de arquitetura de luxo com “identidade olfativa própria”, vibrei. Um cheiro só do lugar? Maravilhoso! Estavam, enfim, falando minha língua nasal.

    Mas bastou seguir a leitura e… puft! O encanto evaporou: o metro quadrado custará R$ 100.000,00.

    Por esse preço, meu olfato prefere manter distância. Cheiro bom, sim. Mas com bom senso, de preferência.

  • A pedra do caminho pode ser um trampolim

    Hoje minha intenção era escrever sobre as mil vestes do amor. O interesse pelo tema surgiu a partir de uma conversa entre amigas. Falávamos sobre as possibilidades e particularidades das relações amorosas na fluidez da modernidade: amor livre, relações abertas, trisal, entre outros. Acontece que, como já nos alertava Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. De minha parte, acrescento que a pedra é estadunidense. Ao chutá-la, perdi o foco, o intento e acabei mudando o rumo da prosa. 

    Pretendia abordar o amor, mas fui atravessada pela necessidade de falar sobre exploração, chantagem e disputa de poder nas relações, sejam elas amorosas ou comerciais. É curioso e cansativo perceber que quase nunca se pode relaxar no trato com o outro. Uma espécie de vigília constante das fronteiras se faz necessário. Tudo isso porque, se o outro percebe insegurança, dependência emocional ou financeira ou amor incondicional, em geral, faz pouco caso, abusa e, muitas vezes, viola com escrotidão regras indispensáveis ao bem-viver. 

    Isso se aplica a todo tipo de relacionamento, seja entre pessoas ou nações. No final das contas, o que está em jogo é o desfile de um narcisismo estéril vestido com um casaco de pele feito de perversões.

    Basta que um tenha vantagem, recursos, armas e importância para começar o jogo covarde de quem acredita possuir as melhores cartas.

    É ali no altar dos que julgamos fortes, geniais ou insubstituíveis que o amor-próprio sucumbe, a cabeça abaixa e a morte lenta da autoestima começa. 

    O amor-próprio, a demarcação dos territórios do Eu, do que é meu por direito, é o único tratado que não podemos permitir que fraqueje.  

    A soberania da existência, a independência do ser ou de uma nação é inegociável. 

    Sem trégua, sem papo, sem chance de colocar quem quer que seja acima de nós a ponto de validar a tirania seja de quem for. 

    Lutemos por relações de respeito, colaboração, igualdade de direitos e parceria. 

    Façamos das tentativas de vigarismo, de abuso, de extorsão um trampolim para a liberdade.  

    Sinto muito, no meu EU não cabe a invasão megalomaníaca de um A. 

  • Semente, Flor e Fruto

    Nossos pais são os nossos educadores natos e a escola nos ensina a ler, ter cultura, cidadania, socializar. Esse é o pequeno mundo das crianças. 

    Já a literatura distrai, ensina e forma a pessoa que nos tornamos.

    Ler amplia o horizonte; sem sair de casa interagimos com pessoas diversas, conhecemos países e outros continentes, somos colocados frente a frente com dilemas, vivências e exemplos de vida. 

    Ao elaborar questões existenciais, vivenciar as angústias, os erros e dúvidas dos personagens, tanto dos vilões quanto dos heróis, vamos forjando a nossa própria personalidade.

    Tive a sorte de nascer em um lar improvável: um homem culto e uma mulher simples e guerreira. A noite e o dia, o sol e a chuva.

    Meu exemplo de vida era ver minha mãe em sua luta diária : muitos filhos, dificuldades, poucas perspectivas de mudança. E meu pai, na batalha para pôr o pão na mesa.

    Foi dali, daquela família, que eu saí para o mundo.

    Não pronta, mas com roteiro e bagagem.

    A mim cabia ter coragem.

    A natureza e a juventude seguiram o curso natural da vida. Tão natural que, ainda adolescente, engravidei e me casei aos 16 anos.

    Me culpei, nos castiguei…

    Casamento às pressas, desengano aos poucos.

    Cenário pronto para repetir o ciclo de vida da minha valorosa mãe. 

    Mas eu tive mais do que ela.

    Conhecia o mundo através dos livros. Sabia que heroínas não se fazem sem audácia e sem lutas.

    E eu era uma delas, pois sentia, com uma certeza febril, que era semente, flor e fruto. Mesmo que no íntimo houvesse sustos e medos ainda desconhecidos.

    O estudo e o amor pelos livros me deram conhecimento e condições para saber que meu destino podia ser melhor.

    O espírito, grávido de emoções… a vida exigindo força e vigor.

    O equilíbrio incerto e os desafios áridos. 

    Estudar, lavar roupas, quatro filhos , ajudar nas tarefas, fraldas nos varais como bandeiras brancas ao vento, vacinas, piolhos, resfriados e espinhos no pé, estudar, pesquisar, ler, cumprir prazos, apagar a luz, cair na cama e dormir. 

    Heroínas diversas, bandidas, distintas, rasteiras, rameiras, donzelas e santas. Centenas delas, madrugada adentro, à luz de um lampião.

    Onze anos.

    Planta rasteira. Flores. Frutos.

    Filhos criados, primeira infância vencida, segundo grau completo, faculdade, concurso, liberdade financeira.

    Desistir? Pensamento de momentos…muitos!

    Resiliência, teimosia, orgulho, fé… constantes, fortes, intensos. 

    Juventude, saúde, corpo jovem e forte. Determinação, “estofo moral”, vontade férrea. 

    Viver e vencer exige gritos e não admite sussurros.

    A audácia, a valentia, o movimento se sobrepõe; o sapo é engolido.

    A literatura clareia a mente e preenche o coração.

    As dúvidas e respostas norteiam a jornada.

    A vida segue…

    Sentimentos diversos, “cãs prematuras”, décadas fugazes, lembranças esmaecidas, tristezas esquecidas, alegrias conquistadas, família, amigos, filhos, netos, leitores. 

    Escrevo…As linhas retas são mestras, e nas entrelinhas a riqueza dos espantos genuínos, constatações estranhas e descobertas surpreendentes.

    Sigamos! Ainda há muito a ouvir, falar e dançar. Até que desça o pano, somos os atores deste espetáculo chamado vida! 

  • Canções pra Americano Ver

    A revista Rolling Stone publicou recentemente sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos (grifo meu) e supostamente de todo o mundo, atualizada para 2024.

    Aparecem na lista nomes como Cardi B, Carly Rae Jepsen, Migos, Megan Thee Stallion, Eslabon Armado, BTS, Clipse, Pusha T, Bad Bunny, Mark Ronson, Nick Minaj, CL Smooth, Funky 4+1  e Cardi B. Já ouviu falar em algum? Esses ilustres desconhecidos que bombaram nas plataformas de streaming e têm bilhões de acesso no Youtube em breve estarão mofando nas nuvens do esquecimento assim que largados à sua irrelevância.

    Em compensação, músicos de prestígio não fizeram jus a uma indicaçãozinha sequer. Ficaram de fora dentre outros, Frank Sinatra, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Quincy Jones, Barbra Streisand, Carpenters, Janis Joplin, Joan Baez, Sting, Tom Waits, Bjork e Moby.

    Não é preciso ser crítico musical para constatar que há algo de errado. Que parâmetros teriam sido usados para reputar ídolos do pop descartável como Backstreet Boys e Britney Spears como superiores a um Tom Jobim ou um Burt Bacharach?

    E o que dizer de canções que atravessaram gerações e se eternizaram no imaginário popular como “Moonlight Serenade”, “As Time Goes By”, “Over the Rainbow”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Moon River”, “Take Five”, “Summertime”, “Stella by Starlight”, “My Funny Valentine”, “Misty”, “Autumn Leaves”, “Ne me Quitte Pas”, “La Vie en Rose”, “Volare”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”? Nenhuma foi lembrada. Por serem músicas ‘de tiozão’, não mereceram a atenção dos iluminados idealizadores do famigerado guia da RS. Em seu lugar, entraram coisas tipo, “Toxic”, “In Da Club”, “Yeah”, “Hey Ya”, “Big Poppa” e “Fuck tha Police”.

    O rock não teve melhor sorte. Foram sumariamente vetadas bandas de primeira linha como Deep Purple, Dire Straits, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson Lake & Palmer, Supertramp, Echo & Bunnymen, Siouxsie & Banshees e os ex-Beatles Paul McCartney e George Harrison. Apesar de cantarem em inglês, foram preteridos por uma simples razão: são britânicos. Fossem da terra de tio Sam, não fariam jus a tamanha desfeita.

    Por outro lado, abundaram indicações de gangsta rap, hip hop e country music (equivalente ao nosso sertanejo universitário), estilo cujo alcance está restrito ao território americano.

    Nada contra. Não se trata de discriminar determinados gêneros musicais. A questão é que um levantamento que se propõe a ser um painel da produção musical representativa deveria com isenção abrir espaço ao que é produzido em todas as épocas e lugares, segundo sua relevância artística.

    O Brasil pode dar-se por satisfeito: conseguiu emplacar umazinha preciosa indicação no clube fechado dos 500: “Ponta de Lança Africano”, improvável canção de Jorge Ben Jor surpreendentemente ganhou a 352ª posição. Nada a comemorar já que ficaram de fora temas como “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Aquarela do Brasil” e “Chove Chuva” (essa última do próprio Jorge).

    Outros países tiveram pior sorte. Foram banidos da lista xenófoba da RS a França (Edith Piaf, Charles Aznavour, Serge Gainsbourg), a Itália (Pavarotti, Bocelli, Peppino di Capri), a Espanha (Paco de Lucia, Sarita Montiel, Gypsy Kings), Portugal (Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Madredeus) e a Alemanha (Ute Lemper, Marlene Dietrich, Nina Hagen). Que dirá os pobres latino-americanos. Tal como imigrantes ilegais, foram barrados a Argentina (Astor Piazzola, Carlos Gardel, Mercedes Sosa), o México (Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Maná) e Cuba (Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Buena Vista Social Club). Por não se expressarem no idioma trumpiano, foram escanteados.

    O rol de escandalosas omissões é infindável. Grandes nomes que fazem parte da memória musical foram atirados na lata de lixo da história.

    Poderíamos relevar tais aberrações fosse esse painel um dos inúmeros que pipocam em sites inexpressivos na internet. Não é o caso. A Rolling Stone se alardeia como uma revista gabaritada e adquiriu respeitabilidade nos meios musicais. Figurar em sua ‘qualificada’ seleção tem para o músico o peso equivalente ao que teria para o cinema uma indicação ao Oscar.

    Sendo uma publicação sediada nos EUA, não esconde sua subserviência descarada ao showbiz americano e se afina ao mote “make America great again”. Abdicou dos ideais democráticos e universalistas que inspiraram sua criação para adotar um deslavado colonialismo cultural, difundindo para o resto do planeta a predominância de valores essencialmente americanos.

    Prefira a despojada, mas honesta lista das ‘500 Mais da Kiss FM’.

  • Do cochilo

    Admiro quem tem o hábito de tirar um cochilo durante o dia. Comigo isso é difícil, e presumo que o motivo seja a falta de hábito. Segundo os médicos, tirar a soneca diária faz bem e — o mais curioso — não atrapalha o sono noturno. Entre as suas vantagens, pelo que li numa rápida consulta à internet, estão a melhora da atividade intelectual, a redução do estresse, a maior eficiência dos batimentos cardíacos e o aumento do bom humor.

    Esse último efeito é o que mais aprecio, tendo em vista o mau humor que atualmente impera, sobretudo, entre os habitantes das grandes cidades. A violência, as dificuldades econômicas e o atropelo urbano vêm espicaçando os nervos das pessoas, que tendem a se tornar intolerantes e agressivas. Não lhes faria mal parar por alguns instantes e se deixar embalar por Morfeu, cujas virtudes hipnóticas são ressaltadas desde a mitologia.

    A hora ideal para isso é depois do almoço, pois nesse momento o processo da digestão ajuda. Sabe-se que, após as refeições, aumenta o nível de potássio no organismo. Esse mineral, segundo li, “pode influenciar o sono de forma indireta ao contribuir para o relaxamento muscular e a regulação da pressão arterial”. Segundo ainda a matéria, isso “é parte de um mecanismo homeostático que busca manter o equilíbrio eletrolítico do organismo”. Coisa séria e necessária, como veem. Do aumento desse mineral não se escapa, bem como do efeito sedativo que ele provoca.  

    O governo deveria então estimular o hábito da sesta, instituindo algo como o Auxílio-Cochilo ou oferecendo dedução no Imposto de Renda a quem provasse que tira uma soneca de pelo menos meia hora depois de almoçar. Não era preciso que o País parasse, como ocorre em certas partes da Europa, mas a medida concorreria para uma melhor convivência entre seus habitantes — vários deles com o inevitável déficit de sono decorrente das inúmeros exigências da vida moderna.

    Mas é preciso ponderar que, para fazer bem, o cochilo tem que ter hora e, sobretudo, ser voluntário. Cochilar na hora errada, e quando não se quer, pode ser prejudicial à pessoa. O povo, que sabe das coisas, traduz essa verdade no conhecido ditado de que “cochilou, cachimbo cai”. O sentido é um tanto metafórico, eu sei, mas não deixa de se aplicar aos que literalmente adormecem e se subtraem aos deveres impostos pela realidade.   

    Nas estradas, por exemplo, o cochilo pode ter consequências letais. São muitos os acidentes provocados por quem dirige tresnoitado ou depois de uma gorda refeição.  Em nível de menor gravidade, não são poucos os indivíduos que dormitam no cinema e perdem as melhores partes do filme. O fato de suas mulheres beliscá-los quando começam a roncar não resolve em definitivo o problema; algum tempo depois, o potássio os leva a embarcar no sono de novo.

    O cochilo pode ser também um sinal de enfado diante de algo que aborrece ou amofina. Na impossibilidade de rechaçar de maneira explícita a experiência maçante, a pessoa fecha os olhos e, digamos, escapa para dentro de si. Espero que não seja essa a reação do leitor diante deste texto, mas, antes que boceje, acho que chegou a hora de colocar um ponto final.

  • Deuses, sábios e poetas!

    Você consegue imaginar o momento onde nossa raça planetária está a minutos do apocalipse, e que um relógio marca esse tempo em detalhes sórdidos para te enlouquecer?

    Pois esse cuco marcador de nossos últimos dias existe, se chama Relógio do Juízo Final, ou Relógio do Apocalipse, em inglês Doomsday Clock, que nada mais é do que um marcador simbólico, mantido desde 1947 pelo comitê da organização, Boletim dos Cientistas Atômicos, da Universidade de Chicago, que utiliza uma analogia onde a humanidade está a “minutos para a meia-noite”, e este horário representa a destruição de nosso planeta azul, por uma guerra nuclear. 

    As notícias ruins desembarcam nos jornais mundiais, e o relógio se move sem pressa, porém, a frente de um passado de paz, do nosso tempo furtado pelo medo de ser curto. Todo o mal que ronda o planeta empurra o maldito ponteiro.

     Sempre dói a seu tempo, e traz morte a cada movimento á direita dos olhos, esbugalhados pelo susto do próximo pulso. 

    As más notícias são a corda do instrumento, que podem ser uma informação de caráter particular e obscena, ou por vezes um boato maldito, que pode gerar a desgraça alheia.

     Como foi em 1747, uma conversa dita por uma garota do harém de Ibrahim, o sultão do povo Otomano, de língua turca da Ásia Central. Ela contou que uma das concubinas violou o protocolo de relação com o Sultão. 

    Enfurecido, Ibrahim mandou que todas concubinas fossem costuradas em bolsa com pesos, e jogadas ao mar para se afogar. Uma lástima essa língua fofoqueira em meio a tanta gente. 

    A inveja ou ciúme fazem o TIC TAC no Relógio do Apocalipse para algumas pessoas em particular, que partem daqui, devido a falácias maldosas e predestinadas a plantar a morte. 

    No caso dos índios yanomamis, sofridos pela fome e doentes, tem seus relógios da morte apressados a cada indiferença governamental.

     Um quadro generalizado de desassistência em saúde, se agrava pela permanência de garimpeiros. Seus corpos em carne viva, propõe um acordo mental entre o tempo, que se mantém em pé, e o respirar, que segue aos trancos, com o pó de suas ocas. 

    No tempo capaz de registrar nosso fim, a personalidade dos que ficam a sombra das crises, arranha suas virtudes humanas prepotentes e indiferentes.

    Deuses, sábios e poetas, surgem no vento do sopro de nossa existência, alvejando nossas mentes com ideias e assombrando os desavisados, e um breve pulsar de más notícias, empurra o relógio do Apocalipse, e te avisa para apressar o passo rumo a felicidade. Tente sozinho esse ato, duvido que alcance sem outras mãos.

  • O velho piano

    Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

    Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

    Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

    O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

  • O cão que sabia esperar

    Chamava-se Mingau. Era jovem ainda. Uma mistura de beagle com sei lá o quê.

    Chegou a casa numa noite de chuva, só pele e osso, com os pelos encharcados e a cabeça cheia de feridas. Meu pai lhe deu o resto do prato. Pedi para ficar com ele, mas minha mãe disse que ia dar trabalho e que acabaria sobrando para ela. Mesmo assim, ele ficou.

    Nunca pulou em ninguém. Não pedia comida. Dormia num canto da sala e vigiava, atento, quando deixávamos o portão aberto.

    Quando cresci, ele já andava torto. O rabo balançava devagar. Uma orelha ficava ereta; a outra, caída. Só os olhos continuavam espertos: dois furos negros cravados no pátio, como se esperassem que os passarinhos viessem bicá-los.

    A rotina era essa: eu saía, ele ficava parado. Não corria atrás de nada. Nem de gato, nem de galinha. Também não latia. Apenas acompanhava com o olhar. E ficava.

    À tarde, quando eu voltava da escola, lá estava ele. No mesmo lugar. Sentado. Às vezes deitado. Mas sempre ali.

    Uma vez perguntei por quê. Meu pai disse:

    — Cachorro é bicho que espera.

    Na aula de História, o professor — sujeito que gostava de tudo quanto era bicho — contou sobre um cachorro japonês que esperou o dono por anos na porta da estação. O homem morreu, mas o cão continuou voltando ali, dia após dia, até o fim da vida. Virou estátua. E, até hoje, é lembrado.

    Achei bonito. Contei pro meu pai.

    Ele apenas disse:

    — É Hachiko.

    Saí de casa ainda adolescente. Faculdade, primeiro emprego, a correria do mundo lá fora. Mas, sempre que eu voltava, lá estava Mingau — no mesmo canto, diante do portão — como se o tempo tivesse passado só para mim. Cego, como se sempre tivesse sido. As patas trêmulas. O corpo frágil, tombado de lado.

    Da última vez que o vi, não me reconheceu de imediato. Depois, mexeu as narinas e me farejou. E então fez aquele ruído baixo de cão, que não é choro, mas é pior do que isso.

    Sentei com ele no chão. Cocei atrás da orelha, como ele gostava. Mingau encostou a cabeça na minha perna e dormiu. Ficou ali até o anoitecer. Eu fiquei em silêncio, até minha mãe acender a luz da varanda e perguntar se eu ia entrar.

    E eu disse:

    — Daqui a pouco eu entro.

    Na semana seguinte, fui embora. Mingau morreu três dias depois.

    Na manhã do quarto dia, minha mãe o encontrou caído de lado, com os olhos abertos. Olhos de quem, talvez, ainda esperasse uma última visita.

    Ela contou que Mingau passou os três dias deitado no portão. Não comeu. Não dormiu. Não se moveu.

    Meu pai chorou. Disse que aquele cão só podia ser a reencarnação do Hachiko. Minha mãe não confirmou nem negou, também não se surpreendeu. Apenas baixou o olhar e pediu que me ligassem, para que eu pudesse vê-lo.

    Naquela época, eu não acreditava que bicho entendesse de ausência. Mas sei disso agora, quando penso no Mingau.

    Foi no silêncio daquele portão, diante de um cão que esperava mesmo quando ninguém mais vinha, que me dei conta do que queria fazer da vida.

    Hoje, sigo o rastro de outros cães. Procuro histórias que me façam lembrar do que vivi com o Mingau. Tento ajudar os que ainda não aprenderam a escutar os animais.

    Larguei o emprego. Tornei-me treinador. E, no fundo, nunca deixei de voltar àquele primeiro cão.

    Acho que ele ainda está lá. Não em corpo, mas no gesto de cada cão que sabe esperar. Como quem ensina, sem palavras, que amar também é saber permanecer.

    *Ao meu cão Duque, por todas as vezes em que ele espera sua doninha junto ao portão.

  • De quando quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques

    Quando acabou a aula de química industrial, fui ao food truck mais frequentado dos arredores da faculdade. O cachorro-quente daquele lugar era tão conhecido quanto o seu Jacinto e a dona Cesárea, seu Jajá e dona Cesinha, para os íntimos. Nunca houve um food truck tão falado na cidade. Se não me engano, o seu Jajá foi até candidato a vereador uma vez, mas não se elegeu. Uma lástima, no fim das contas, pois se na câmara ele trabalhasse com a mesma destreza com que preparava os pedidos, teríamos avanços inimagináveis em todos os setores da máquina pública. Mas o povo é complicado, se vende fácil, sabe como é.

    Sempre que alguém fazia um pedido, ouvia um — Já já tá pronto —, e realmente estava, questão de minutos, de quando em vez, segundos até. A desenvoltura do casal em preparar os lanches num ritual sincopado era algo fora do comum. Mesmo com dezenas de clientes se acumulando, geralmente depois da aula, ninguém aguardava mais de cinco minutos para abocanhar o seu cachorro-quente.

    O furgãozinho ficava ao lado da entrada principal do câmpus. Era frequentado por alunos, funcionários, professores, diretores, população com fome e população com gula. Nunca fizeram merchan nem precisaram disso. Quando os conheci, aos dezoito anos mal completos, recém-ingressara no curso de química. A escolha se baseou num dos testes vocacionais que foram aplicados ainda na escola por simpáticas psicólogas em formação. Os colegas perceberam a minha inépcia para aquilo muito antes de mim. Aparentemente, ninguém na faculdade de química se interessava pelos romances policiais da modinha e ninguém tinha paciência para falar sobre os lançamentos, sobre a lista dos mais vendidos ou sobre as polêmicas do prêmio Jabuti. Pois é. Talvez eu não fizesse mesmo o estereótipo do estudante de química. Frequento o entrelugar desde muito.

    Seu Jajá e dona Cesinha eram bons de papo. Às vezes eu estacionava por ali e nem pisava no câmpus, sobretudo quando a televisão acoplada ao furgão transmitia os jogos do Grêmio. Foi numa dessas que o seu Jajá me perguntou enquanto preparava um lanche sincopado: — E aí, quando vai pra letras? Na hora achei até que falasse com outra pessoa. Eu tinha nas mãos um livro do Luiz Alfredo Garcia-Roza. O Grêmio ganhou com um gol do Barcos. A noite tinha um quê de minuano anunciando o inverno. E pela primeira vez cogitei a migração. Meio sem resposta, meio sem rumo. Era Achados e perdidos, o livro.

    Larguei a faculdade. Quando confessei aos colegas, ninguém esboçou reação contrária, ouvi apenas comentários inamistosos sobre a minha lerdeza. Todos sabiam que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde e a paciência comigo aparentava ter acabado há muito. Tinha uma ideia de que, formado em química, passaria o resto dos meus dias numa fábrica qualquer, daquelas com paredes altas e fedorentas, em que as pessoas entram recheadas de EPIs e ninguém sabe exatamente o que fazem lá dentro. Pois bem, não cumpri esse destino por conta de uma mísera pergunta do vendedor de cachorro-quente mais famoso da cidade.

    No duro, sem rodeios, o seu Jajá tinha razão, devo admitir. Química não combinava comigo. Infeliz coincidência ou não, nunca mais fui ao food truck. As aulas do mais novo destino eram EAD. Graduei-me sem sair de casa, antes mesmo dos antigos colegas, que acumulavam reprovações. A vida mudou um bocado desde então, mas ainda continuo lendo romances policiais e, por acaso, o da vez se chama Fantasma, do mesmo autor que lia quando fui alvo daquela questão. Não sei como andam o seu Jacinto e a dona Cesárea. Dos lanches, em particular, tenho saudades. Cursei economia.

    Numa daquelas noites frias, após uma aula de química industrial da qual não tenho recordações, cheguei um tanto apressado e flagrei ainda o largo sorriso do anfitrião. Logo me disse que Giva Vasques havia recém-saído de lá. De cara não acreditei, mas um outro estudante, de bigode besuntado com ketchup, confirmou a história. Era realmente Giva Vasques frequentando o food truck mais falado da cidade. Imagine você, justamente num daqueles momentos um tanto incômodos em que apenas cumpria tabela nas carteiras da Universidade, ainda antes de mudar de curso, quase encontrei Givanildo Carmelino de Abreu Vasques. E, desde então, nunca mais.

  • Postei que me amo, mas o Wi-Fi não curtiu

    Sabe aquele dia que a gente acorda meio piegas, sentimental demais, como se tivesse engolido um coach motivacional junto com o café? Se nunca acordou assim, por favor, me indique o remédio, porque eu sou refém dessas crises.

    Pois foi numa segunda-feira dessas que eu acordei cafona demais, abri o Facebook e vi a clássica pergunta: “O que você está pensando?” Sem pensar muito, mandei logo:

    “Eu ando me escolhendo todos os dias, mesmo quando pareço a pior opção.”

    Postei.

    Saí para trabalhar. No ônibus, entre aquela multidão hipnotizada pelo celular, peguei o meu para checar… zero curtidas.

    Z-e-r-o.

    Fui olhar meu perfil, contei uns 500 amigos. Pensei: “Uau! Quinhentos amigos e nenhum tem tempo pra mim?”

    No WhatsApp, mandei a mesma frase para o grupo da família, para uns amigos… No almoço, conferi: muitas setinhas azuis, nenhum comentário. Silêncio sepulcral.

    Tentei o Instagram: “Eu me escolho todos os dias. Mesmo não sendo a melhor opção.”

    Daí um amigo velho conhecido, aquele tipo que adora bancar o engraçadinho, respondeu no privado:

    “Quando você posta que já superou tudo, a gente sabe que você tá fingindo.”

    Poxa, ele me respondeu com meme e tudo.

    Eu, no Uber, voltando pra casa, quase seis da tarde, pensei:

    “Que opções eu tenho, cara pálida? Viver de likes? Não, né?”

    A verdade é que a gente não escolhe muito não. O careca não escolhe ter cabelo igual ao do galã da série. Eu, com a barriguinha de chope, não escolho ouvir todo almoço aquela piada: “Tá esperando bebê?”

    Queria que a barriguinha sumisse por osmose, abdução, qualquer milagre. Mas não rola.

    Então, a saída é fazer as pazes com a careca, a barriga, e os 500 amigos que não curtiram meu post.

    Voltei lá e apaguei a mensagem motivacional. Ninguém viu, ninguém sentiu. Tudo certo.

    Se alguém tivesse curtido, seria outra crônica. Mais bonitinha do que esta.

  • Poema #05: Procura dos sentidos

    Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
    custei a compreender que o farol era oco.
    Lançam-se às ondas os que não veem.
    Os olhos,
    mal acostumados à claridade nua,
    não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
    Perfil de muitos rostos
    ou nenhum.

    Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
    As letras,
    maiúsculas e resolutas,
    marcham e cantam
    cantam e marcham
    em fileiras que se entrelaçam e colidem

    até se emaranhar em mil espinhos
    aptos a ensurdecer o toque.
    O ruído das opiniões encarece o silêncio.

    Mas não há trégua.
    A pele sem pausa se arrepia
    ao cheiro que escorre das redes.
    Pouco se aproveita da pescaria.
    Aqui uma lesma
    ali uma pedra
    o resto é areia
    que os dedos espalham até perder as digitais.

    Melhor seria se recendesse a sal.
    Na disputa amarga das fragrâncias,
    ao nariz resta a fratura.
    E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
    impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

    A língua não quer assepsia.
    Tampouco a visão da terra firme.
    Temperos novos
    híbridos
    em vão buscam os lábios que os perseguem.
    O encontro jamais consumado
    afinal se junta ao rol das coisas que,
    embora não devoradas,
    consomem.
    Qual apetite desaparecido.

    Despojado enfim de todos os sentidos
    o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
    Sonâmbulo entre sonâmbulos
    pisoteia bússolas e dicionários

    enquanto flana
    em meio à multidão da praia deserta.

  • Poema #30: Porém, Nada Dizia

    Gosto do silêncio.
    Prefiro ficar em silêncio.
    Vejo as pessoas conversando
    e a imagem que me fica é a
    do cuspe trocado entre elas.

  • Na extrema curva do caminho extremo

    Eu não deveria escrever sobre se a terra é de fato esférica…

    Eu não deveria dizer o óbvio!

    Eu não deveria repetir tantas coisas…

    Eu não deveria escrever e me esforçar para que as pessoas saibam e entendam que o nazismo foi um movimento de extrema direita.

    Eu não deveria escrever e me fazer entender que QUALQUER regime de exceção, que tira direitos e persegue pessoas é chamado de ditadura…

    Eu não deveria escrever sobre a desgraça que é o racismo, posto que as pessoas sabem e TEM CERTEZA de que isso é um câncer…

    Eu não deveria escrever sobre TODAS as coisas que, em uma sociedade dita civilizada, são ditas e certas como INDEFENSÁVEIS…

    Hoje, lamentavelmente, o que era indefensável toma forma, cor e se concretiza em palavras, atos, ideias e o que mais vier!

    Hoje, a mediocridade é exaltada, escancarada, premiada…

    Hoje, o medíocre espalha a sua mediocridade com cursos, palestras e verdades descartáveis…

    Agora, sem pudor, preconceitos são verdades e colocados como franqueza, como sinceridade…

    Na extrema curva do caminho extremo, brutalmente, escolhemos a intolerância.

    Na extrema curva do caminho extremo, fatalmente, desconstruímos um país, uma sociedade…

    Na extrema curva do caminho extremo, apagamos a história conforme nossas conveniências e fabricamos heróis…

    Na extrema curva do caminho extremo, matamos a voz, o abraço, o beijo e o afago e ficamos com o ódio, a violência pura, o conflito e o atraso…

    Na extrema curva do caminho extremo…

  • Onde Está Você?

    Cabelos desalinhados, Débora esfrega os olhos fundos, sonolentos. Busca o roupão na cadeira ao lado da cama e se debruça de novo sobre o travesseiro vazio que repousa ao seu lado. Sente o perfume de lavanda ainda presente na fronha — o que lhe restou.

    No silêncio da manhã, seu olhar se detém no fio de luz que atravessa a fresta da janela. Como uma adaga, ele penetra o recôndito dos pensamentos noturnos. Débora se envolve nos lençóis, à procura de um abrigo, algum consolo.

    Preciso encontrar a saída. Me perdi outra vez nessa última tentativa. Tantos obstáculos a vencer. Sinto-me incapaz de descobrir um novo caminho sozinha. Onde está você? Ouço, lá no fundo, sua voz dizendo para seguir em frente. Tento, mas fracasso.

    Vou me embrenhando cada vez mais nesse poço lamacento. Me canso, desanimo, tento tomar fôlego e recomeçar. Procuro apoio, um chão que me sustente — se é que ainda resta algum chão nessa busca infindável. E me pergunto por que não consigo. Tantos conseguem encontrar a saída. Por que não eu?

    Já tentei traçar um mapa dos caminhos que percorri em vão, um guia que me orientasse a descobrir outro rumo. Mas, quando percebo, estou de novo envolvida na neblina das lembranças que sempre me levam ao mesmo lugar. Parece um vício. As mesmas pistas, as mesmas pedras, as mesmas barreiras — tudo se repete, como ondas do mar revolto da saudade em que me afundo cada vez mais.

    Sinto-me aprisionada, cativa desse labirinto, condenada a uma busca sem fim. Não consigo te ver, mas ainda escuto baixinho sua voz, insistindo para que eu siga sem olhar para trás. Mas como seguir, se tudo me traz de volta ao ponto de sua partida?

    O despertador toca. Débora se levanta, conformada, para enfrentar mais uma reunião do grupo de terapia do luto. Ao abrir a porta de casa, lembra-se de uma estrofe do tema de Lisbela e o Prisioneiro.

    Agora, que faço eu da vida sem você?

    Você não me ensinou a te esquecer.

    Mas, desta vez, a canção não soa apenas como um lamento. É quase como se fosse uma companhia silenciosa, uma voz que caminha ao seu lado, lembrando que a saudade também pode ser abrigo.

  • Direção Defensiva

    Uma pesquisa realizada na Universidade de Viena, com sapos comuns (Bufo-bufo), conseguiu registrar um comportamento curioso e inusitado. As sapos-fêmeas, diante da aproximação e assédio de machos indesejáveis e insistentes, se fingem de mortas. 

    A estratégia chamada tanatose é uma reação extrema a situações de estresse ou perigo. Que danadas…não julgo. Sabemos muito bem o quão estressante pode ser um homem querendo transar na hora do sono, da novela ou da leitura. Todavia, no nosso caso, talvez a tática seja menos exaustiva, porque podemos apenas alegar enxaqueca ou cólica. Já as nossas amigas batráquias precisam ser mais radicais. Quando tocadas por pretendentes rejeitados, enrijecem o corpo, deitam de barriga para cima e param de se mexer até que o insistente se afaste totalmente. Com esse comportamento evitam o acasalamento forçado. 

    Danadas…

    Muito embora possa parecer que a vida das sapos-fêmeas é mais difícil do que a nossa, já que não podem apenas alegar cansaço, nós, mulheres, além de lidarmos com uma demanda sexual de alta frequência, ainda somos cobradas a ter iniciativa, demonstrar interesse, desejo. Isso porque os homens não fazem ideia da distância que pode existir entre o apetite deles e o nosso. E mais, desconhecem a importância de um enredo, uma trama, um romance ou um suspense para fazer o motor ligar. Para a maioria deles, o esquema na estrada é dirigir em alta velocidade. Pisar no acelerador e bum! Chegou. Para nós, muitas vezes, admiramos a técnica do siga e pare. O passeio a 60 km/h de janela aberta. Mas não, eles não querem perder tempo admirando a viagem, não têm paciência com engarrafamento e ignoram os sinais.

    A desavença começa aí. Toda mulher tem uma logística de trânsito para liberar acesso a suas estradas. Mas os machos-alfa querem posar de bons motoristas só porque dirigem qualquer veículo. Acontece que nós e as sapos-fêmeas conhecemos as táticas da direção defensiva, embora os homens confundam com direção passiva. 

    Qual a mulher que nunca ouviu: “Você não tem iniciativa, nunca me procura”?

    Qual a mulher que nunca respondeu em pensamento: “Eu só procuro o que quero encontrar”?

    E que não nos acusem de frígidas. Não somos! Queremos motoristas bem treinados, conhecedores dos desafios da estrada. Cautelosos. Que saibam usar os faróis, a lanterna, os espelhos. Controlem os pedais. Carro manual não é automático.

    Aprendam de uma vez por todas que, quando a placa PARE é levantada, ela deve ser respeitada. Caso contrário, não hesitaremos em utilizar: “Cuidado, ANIMAIS NA PISTA.”

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

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