Crônicas Cariocas

  • Deixe-se levar

    No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.

    Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.

    Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.

    Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.

    Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:

    “Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…
    Peguei o menos percorrido,
    E isso tem feito toda a diferença.”

    Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.

    Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.

    Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.

    Escutar, falar, sorrir, chorar.

    Conter-se, expandir-se, rir-se.

    Deitar, dormir, sonhar.

    Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.

    E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.

    Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:

    “eu sou maior e melhor do que eu pensava”.

  • Árvore de Natal

    Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.

    – Vamos! Vamos!

    – Vamos onde?

    – O Papai… Papai foi…

    Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos, a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque, faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro, muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho, encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali.

    Logo, lá no fundo, acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra, era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta. E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.

    Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça, olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu tava pensando isso, Lininha me chamou.

    – Olha!

    – Olha o quê?

    – Bobo! – ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou:

    – Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe pra onde ele tá olhando?

    – Pro cemitério.

    – Psiu! Fala baixo. Papai percebe.

    – Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando. Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente perto, sem… sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?

    – Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!

    Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele se baixou, abriu os braços, chamou a gente.

    Então a gente foi correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai chorou. E eu. E Lininha.

    Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério, lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando, a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.

    – Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim – Lininha falou. Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:

    – Mamãe foi assim.

    Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande, um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela, a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe. Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:

    – Tudo tá chorando com a gente.

    E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites, arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas, de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!

    E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe. E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse da gente ficar ali.

    E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.

  • Os homens da montanha, os homens do mar

    Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, onde o tempo parecia não passar.

    Numa ocasião, quando podavam as roseiras, um homem saiu das águas e, com estardalhaço, balançando as mãos como alucinado, gritou que viera até ali como amigo e em missão de paz. Queria informar que a cidade corria perigo. Uma onda de ódio e fúria tinha surgido na montanha, e as pessoas que lá viviam estavam se preparando para descer e invadir o vale. Iriam matar os homens, estuprar as mulheres, abandonar as crianças e pôr fogo em todas as casas. Que todos se prevenissem para salvar a cidade da destruição certa. Assim disse o homem que veio do mar e, tão repentinamente quanto viera, desapareceu no meio da água barulhenta.

    Todos se mobilizaram para resistir ao ataque dos homens da montanha. Aos poucos a vida dos habitantes da cidade se transformou. Tinham pressa para estocar alimentos e água, fechar as portas e as janelas, recolher o gado, cercar a plantação, proteger as nascentes. Olhavam para a montanha e tentavam imaginar quando eles viriam. As mulheres faziam uma cruz sobre o peito e não descuidavam das crianças. Uma só certeza apertava o coração de todos: dariam o sangue e o que mais fosse preciso para salvar a cidade.

    Noite dessas — quando tudo não passava de silêncio e escuridão, e os homens se revezavam como sentinela, e as mulheres se apressavam para assar os pães, e as crianças ficavam quietas nos cantos, e os olhos de todos não desgrudavam do brilho da fogueira que vinha da montanha —, a cidade foi invadida, os homens, mortos, as mulheres, estupradas, as crianças, abandonadas à própria sorte, as casas, queimadas. Quem invadiu e saqueou a cidade foram os homens vindos do mar.

  • Ponte emocional!

    Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um sítio que lhe dava trabalho e despesas. Ele reclamava que era um homem sem sorte, pois, as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio para publicá-lo no jornal, pois, acreditava que se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito mais fácil vendê-la.

    E assim, Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:

    “Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.

    Meses depois, o poeta encontrou seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.

    — Nem pensei mais nisso — respondeu ele. — Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que possuo. Desisti de pronto.

    Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestado os olhos alheios.

    Isso nos serve de lição para melhor observar também o outro, que nos cerca e anda de mãos dadas conosco, e sorri todos os dias quando tomamos a iniciativa de uma bela atitude.

    Por vezes não sabemos o valor do que nos envolve, e nos parece que ainda não acordamos de um sonho onde tivemos que dizer adeus. 

    Mas como sobrevivemos, percebemos que onde quer que andemos, gostaríamos que fossemos seguidos. Porque ninguém tem o amanhã garantido, e por isso necessitamos amar toda noite como se fosse a última.

    Se o mundo acabar amanhã, quem você gostaria que estivesse a seu lado?

    Ou, se a festa tivesse terminado e nosso tempo na terra também, quem você gostaria de abraçar, só por mais um instante?

    Às vezes, não tiro uma foto do momento que estou contemplando, porque ela vai atrapalhar. O mais importante, é só ficar nele, como está se passando em meus olhos, transmitindo uma sensação única que a fotografia não vai gravar, porque as coisas belas não pedem atenção.

    Escolha seu melhor para oferecer a quem deseja atrair, vai que o outro pense da mesma forma e aquela ponte emocional tão esperada, se perpetua como exemplo.

  • A dor do outro

    Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai impunha moral, colocando-o rente ao chão, se preciso fosse, para entender o sentido de ter uma família. Se chegava bêbado, dormia na varanda, enrolado em trapos, para aprender. E não foram poucas as vezes que aconteceu isso. Papai sofria, silencioso, para não demonstrar fraqueza, mas no seu íntimo se doía de tamanha irresponsabilidade do único filho homem. Perguntou a mim, chorando, o que teria feito para Almir desandar na vida; pagara os melhores colégios… – teve, de fato, uma educação exemplar, mas, quando se tornou adolescente, começaram os problemas na escola, inclusive com a vizinhança, que reclamava de pequenos malfeitos. Papai morreu de desgosto, decerto, com o coração dilacerado; sofreu um ataque fulminante, que não houve tempo sequer de tentar uma reanimação. Nessa hora, como em todas as outras problemáticas, Almir não estava presente para ajudar. Tentamos de tudo, para que se livrasse das drogas, mas ele dizia que era algo resistente, entranhado, que nunca conseguiria abandonar o vício. O grande mal é que roubava as coisinhas de mamãe, que juntou com tanto sacrifício, para vender ou trocar por droga. A casa de mamãe estava totalmente desabitada de coisas; era um vão oco e infernal. Eu mesma não me sentia bem em visitá-la; o ambiente era catastrófico, que humano nenhum poderia resistir, exceto mamãe, que não queria sair. Almir, em seus acessos de loucura ou de abstinência, já chegou a agredi-la. Tenho pena de mamãe, que não quis de jeito nenhum largar a casa, alegando que, se saísse, o filho tomaria de conta com os comparsas da vagabundagem. E é verdade, Almir já tentou expulsá-la para ocupar o lugar com seus “amigos”. Como sou cristã, ao mesmo tempo tenho pena do Almir; ele estava endemoniado. Já conversei com ele sobre Jesus e ele me mandou para “aquele lugar”. Tenho a esperança de que alguma palavra tenha semeado o bem em seu coração, e que ele tenha se arrependido dos malfeitos. No final de semana, Almir foi morto da pior forma, encontrado numa viela perto de casa. Corpo estendido no chão. Tinha inúmeras escoriações, resultado de brigas ou coisa do tipo; ou mesmo morto a pauladas. Havia um rombo enorme na cabeça. Poderia estar devendo aos traficantes. Nunca saberemos. Que dó! Nessa hora cheguei a pensar em quantas oportunidades meu irmão teve na vida, mas preferiu recusá-las; ou não foi forte o bastante para recusar. Pelo menos, parou de sofrer e de trazer dor de cabeça à mamãe. Pena, muita pena, do pobre Almir, que viveu para sofrer.

  • Votos Teimosos

    Meu coração transborda desejos teimosos, daqueles que povoam o peito da gente e não arredam pé. Que no ano que se aproxima o amor seja maior que o ódio, e nenhum ser humano neste Brasil de meu Deus fique sem almoçar, tomar café da manhã ou jantar.

    Que o carnaval, de fora a fora no Brasil, siga firme e forte, pois brincar ainda é coisa séria, e a fantasia é o que nos ajuda a suportar a vida. Desejo que os homens, ao se separarem de uma mulher, ergam a cabeça e saiam andando, sem jamais cogitar levantar a mão. Que cada vizinho sorria e dê um bom-dia ao triste e solitário, todos os dias, sempre com um sorriso de acompanhamento. Que o amor pela leitura contagie crianças, velhos, idosos, homens ou mulheres.

    Desejo que filmes, livros, exposições de arte, música e poemas — tudo isso que chamamos de cultura — entrem na cesta básica de todo brasileiro. Ainda que aprendamos a conviver com quem pensa diferente: o que votou no outro candidato, o que curte outra música, o que nasceu em família oposta à nossa. Que essa pessoa jamais seja inimigo, mas tratada com respeito e cordialidade, até nas redes sociais.

    Que quem gosta da cachacinha beba só o necessário, sem exageros; que o amor jamais saia de moda, e tenhamos liberdade para amar e desejar quem quisermos. Que a luta por um mundo mais justo não nos tire os olhos do amor, guiando escolhas políticas e relações privadas. Que ninguém saia a roubar o bem alheio, mas conquiste desejos com trabalho digno e condições justas. Que apreciemos as coisas supérfluas da vida, não só o essencial.

    Que os jovens redescubram o prazer da vida ao vivo e a cores, sem telas o tempo todo; que vivamos em harmonia com peles, finanças e idades diferentes, velhos e moços aprendendo uns com os outros. Que ninguém fume exageradamente, que ignoremos desaforos no trânsito, e que quem tem fé seja respeitado — assim como quem não tem. Esses são os votos mais sinceros do meu coração para o ano que vem. Até a próxima.

  • O Patriota

    Depois de muitos anos de resistência, Brasilino, respeitado pesquisador brasileiro, aceitou sair de seu país e ir fazer uma palestra na maior universidade dos Estados Unidos.

    Os norte americanos estavam eufóricos por conseguirem levar ao seu país um dos responsáveis por grandes contribuições no ramo da saúde nos últimos anos. Seu Brasilino, no entanto, não se sentia da mesma forma e sempre viu com maus olhos a saída de terras brasileiras.

    Logo ao descer do aeroporto, ele foi abordado por uma série de jornalistas americanos que disputavam espaço para ver quem seria o primeiro a fazer uma pergunta. Então, uma bela repórter ostentando cabelos loiros e olhos azuis indagou o brasileiro:

    — Qual é a sensação que o senhor sente em palestrar na maior universidade do maior país do mundo? — Perguntou em inglês.

    — Maior país do mundo? — respondeu Brasilino em português.

    — Em inglês, por favor. — pediu a repórter em inglês.

    — Eu sou brasileiro, falo português.

    — O senhor não sabe falar inglês? Como pode um dos maiores cientistas não saber falar inglês? — seguiu a jornalista em tom mais debochado ainda falando inglês.

    Brasilino limitou-se a agradecer a todos os repórteres presentes (em português) e dizer que estava cansado em razão da viagem e que iria descansar.

    Após sua declaração, um furioso repórter gritou para o brasileiro em inglês:

    — Você deveria respeitar o nosso país, sem ele nada do que você descobriu seria possível!

    Brasilino então, respirou fundo, deu meia volta a foi até os jornalistas. Sem dar espaço para nenhuma pergunta, ele começou a falar:

    — Eu sou do Brasil. Minha terra possui riquezas sem fim. Essas, muito antes dos colonizadores chegarem, já eram utilizadas por nossos indígenas para viver. Fomos extorquidos pelas grandes potências mundiais de forma sequencial, cada uma no seu respectivo momento de hegemonia. Ainda assim, temos o país mais lindo da face da terra. Falo não só de nossa natureza, mas também de nossa cultura. Eu venho do país onde nasceu o samba, a bossa, uma música popular riquíssima. Um país que produziu Gonzagas, Gonzaguinhas, Chicos, Caetanos, Gals, Grandes Otelos, Nelsons Pereiras dos Santos, Glauber Rochas, Miltons Nascimentos, Cassias Ellers, Marias Bethanias e tantos, mas tantos outros grandes personagens. Vocês acham mesmo que eu irei concordar que o país de vocês é o maior do mundo?

    Brasilino falou tudo isso em um bom e sonoro português. Depois, pegou suas malas e entrou novamente em seu avião. Sentado na cadeira, só disse mais uma frase:

    — Me levem de volta para minha terra.

  • Poema #50: Andarilho Descalço

    estou sem almoço
    e sem janta
    e com duas costelas
    quebradas

    meu caminhar é pele
    sobre o bronze
    do asfalto, atrito
    suave de quem sonha

    estou sofrendo
    com as calças e tudo
    e isso é nada para
    quem vive na rua.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #10: O voo do morcego

    Solto em São Paulo, aonde iria?
    Rompia a noite, não decidia.
    Abria as asas: para onde ia?

    Se fosse Batman, já saberia
    qual o combate de cada esquina.
    Mas nem pra Coringa prestaria.

    Vampiro? Não, desmaiaria
    à vista de sangue.
    Dos predadores recusava
    até a fantasia.

    Ao encontro da rua,
    sumiria.
    De encontro ao muro,
    desaparecer: será, seria?

    Solto em São Paulo, sobrevoaria
    avenidas edifícios várzeas varandas tabacarias
    mercados de luxo
    de porcarias
    sobejas ninharias.

    Aberto ao acaso,
    negociaria com o tempo?
    render-se: ia?

    Embalado pelo eco incômodo,
    cantaria, não cantaria
    dançaria, não dançaria
    as sirenes, dedilharia
    o silêncio, ouviria.

    Do presente, o futuro.
    Do futuro, o passado.
    Os tempos imperfeitos
    impecavelmente alinhados.

    Com ou sem condições,
    fazer o que faria
    em qualquer São Paulo.

  • Ema, ema, ema cada um com seus problemas

    Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho.

    Emília desvia o olhar. Final de um dia estressante — só me faltava agora ter que consolar alguém que nem conheço. Vira-se de frente para a porta, torce a boca e entoa seu meme preferido: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Milena se joga no sofá para conferir as mensagens de WhatsApp que ainda estavam na caixa. Começa pelas mais urgentes: o grupo da faculdade marcando um happy hour, a faxineira avisando que não vai poder trabalhar amanhã. Em seguida, aparece uma que começa com: Família, quem pode me ajudar? — acompanhada de emojis com mãozinhas postas em prece.

    Milena titubeia. Se abrir a mensagem, vai ter que responder, se envolver. Melhor nem abrir. Afinal, também tem seus próprios problemas. Portanto… ema, ema, ema, cada um com seus problemas. E passa para a próxima.

    Amélia segue paciente na fila de carros para pegar a filha na escola. Já está quase na sua vez quando, de repente, um carro emparelha e a janela se abre. Uma moça, descabelada, suplica:

    — Será que eu poderia passar na sua frente? Minha filha está tendo uma crise de angústia. Ela está no espectro do autismo, preciso pegá-la o mais rápido possível. É uma urgência.

    Amélia hesita por um segundo. Pensa que ainda precisa levar a filha ao dentista, que já está atrasada. Então acelera o carro. Afinal, ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Emília, Milena, Amélia. Trocam-se as letras, muda-se o cenário — o refrão é o mesmo.

    Talvez sejamos todos um pouco essas emas. Não por crueldade, mas por exaustão. Cansaço, medo, excesso de solicitações. Nossos problemas individuais sempre se sobrepondo aos dos outros, como se não houvesse espaço para mais nada.

    Nunca tivemos tantos “problemas próprios” e tão pouco espaço para os problemas alheios. Talvez não seja falta de empatia, mas excesso — de tarefas, de ruído, de cansaço. Cada um cheio demais de si para caber no outro. E assim seguimos: um coro afinado na pressa, cantando juntos a mesma cantiga. Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

  • Contabilidade emocional

    Todo fim de ano aproveito para fazer minha contabilidade anual. O balancete tem como objetivo listar os saldos das minhas contas emocionais (ativo, passivo, receita, despesa). Esse fechamento contábil possibilita uma leitura mais detalhada dos investimentos afetivos realizados. É, também, nessa hora, que projetos importantes, esquecidos na gaveta do tempo, vêm cobrar seu lugar.  

    Quando isso acontece, não resta outra alternativa, senão realinhar o capital-tempo à nova empreitada. Para isso, infelizmente, alguns ciclos precisam ser encerrados ou, como gosto de acreditar, pausados, por tempo indeterminado, mas não infinito. Contudo, antes de colocar em prática um novo projeto, há que se celebrar, com aqueles que colaboraram para que o saldo emocional fosse positivo, os frutos colhidos. 

    Obrigada, Crônicas Cariocas (Francci e demais escritores) e todas as pessoas que me leem, pela parceria leal e investimento contínuo. A escrita de um novo livro me convoca e preciso concentrar esforços nesse projeto, mas a grandeza do que foi vivido aqui segue comigo.  

    A vida é assim: uma dança de roda que não se cansa de girar. Então, dancemos, todos juntos!

    Feliz 2026!

  • Sandálias divisionistas

    As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente social doentio.

    Esclareço que embora não seja usuário dessas sandálias, reconheço nelas a virtude da perfeita adaptabilidade às necessidades das extremidades dos membros inferiores da perna, também chamadas de pés, que têm a função crucial de promover o equilíbrio e a sustentação do corpo.

    São elas práticas, laváveis, arejadas, não usam costuras e seu formato anatômico proporciona bem estar ao referido órgão de apoio, com uma base homogênea de borracha em que se sobressai a famosa tira em Y, sua marca registrada.

     Além disso, são baratas e duradouras, sendo por isso acessíveis a pessoas de todas as classes sociais. A possibilidade de se adotar milhões de estampas com motivos e cores variadas permitiu que caíssem no gosto até de pessoas mais estilosas, sem perder o charme de sua estrutura básica.

    Com isso, conquistaram corações e pés de todos. Há lojas de havaianas espalhadas mundo afora. Sim, é um item essencialmente brasileiro que alcançou sucesso internacional e colocou o mundo abaixo de nossos resguardados pés, o que deveria encher de orgulho esse país tão pobre em referências.

    Então por que a implicância agora com esse artefato tão simpático que exporta a descontração e a maneira de ser do brasileiro?

    Devo dizer que particularmente não sou fã das havaianas, ao contrário de minha esposa que se esbalda com os inúmeros modelos de estampas que parecem nunca se repetir, em exposição tanto nas vitrines produzidas dos shoppings como em araras improvisadas de mercadinhos populares.

    Minha desavença com elas é de cunho estritamente pessoal. Não me dou bem com a sua peculiar tira que separa o dedão dos demais dedos. Por natureza, acho que os cinco dedos de cada pé, ainda que por natureza tenham autonomia, foram moldados para ficar perfilados uns ao lado dos outros sem barreiras. A tira da sandália que faz com que ela se sustente no pé deixa o dedão separado, o que me passa uma dolorosa sensação de ‘divisionismo podal’ que gera certo desconforto.

    Mas para 99% dos humanos, homens e mulheres, adultos e crianças, essa característica parece não importar, tanto que as sandálias são um sucesso. Exceto para aquela parcela paranoica da sociedade que, por alguma razão, teima em achar que o divisionismo das havaianas vai muito além da questão do dedão.

  • Papai Noel de Shopping

    Teoricamente o Natal é uma festa do espírito e deve ser comemorado em tranquilizadora contemplação. As músicas alusivas à data falam de paz e congraçamento familiar. O que se vê na prática, porém, é um frisson aquisitivo que perturba os corações mais desprendidos. O Natal é a apoteose do consumo, a celebração eufórica com que o capitalismo ratifica o seu triunfo. Hoje os sinos de Belém não bimbalham – tilintam, numa espécie de eco ao movimento das caixas registradoras.

              Os defensores do mercado consideram positiva toda essa agitação, alegando que nesta época se geram mais empregos e se injeta mais dinheiro na economia. É um momento em que muitos desempregados arrumam um trabalho temporário em lojas e shoppings, o que lhes diminui a angústia e traz algum alento quanto ao futuro. Muitos dos que se empregam nessas ocasiões terminam contratados, outros recebem a promessa – às vezes ilusória – de uma posterior contratação.

              Enfim, não sou eu que vou brigar com o mercado e sua lógica. Limito-me a acompanhar – preferencialmente pela televisão – todo esse agitado movimento de compra e venda, e a apreciar alguns dos tipos que proliferam nesta época. São tipos curiosos, que se paramentam segundo o figurino adequado à ocasião e fazem o que podem para nos incutir a chamada magia natalina, tão escassa nos dias que correm.

              O mais interessante deles é o Papai Noel de Shopping. Ilude-se quem pensa que para encarnar esse personagem basta vestir uma roupa vermelha e emitir um riso cavo, gorgolejante. É preciso sobretudo ter o que os franceses chamam  “o físico do papel”, que inclui um corpo rotundo  e uma alma forrada de paciência e simpatia. De bonomia, para dizer melhor.   

              Outro dia observei um deles num de nossos shoppings e me decepcionei com a canastrice. Era um sujeito magro, quase esguio, que amplificara o ventre com um disfarce mal feito de algodão. Além disso, demonstrava certa impaciência com as crianças que insistiam em passear com ele pelos corredores atulhados. Queria ser um Papai Noel, mas não tinha saco – não o dos presentes, mas o da alma, que devia ser ampla o bastante para albergar todos aqueles apelos infantis. Estava ali à força, para faturar um dinheirinho e se livrar logo que pudesse. Não funcionou.

              O verdadeiro Papai Noel se esfalfa, sua e não deixa de rir. E continua rindo mesmo quando tem que botar dezenas de pirralhos no colo e posar para outras tantas fotografias.   Seu papel é confirmar o sonho dos meninos e desmentir a evidência de que está ali como um simples garoto-propaganda.

    Sua função é comprovar uma fantasia anacrônica e palerma, demonstrando que de fato existe.

  • O menininho e a menininha

    O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse:

    – Você é parecido comigo.

    – Você não é preta – ele disse.

    – Você é clarinho, é quase branco – ela disse.

    – A sua roupa é mais nova do que a minha. É bonita – ele disse.

    Ela sorriu, depois perguntou o nome dele, do pai dele, onde morava, essas coisas. De repente ficou tristinha, disse:

    – O seu pai matou o meu pai.

    O menininho fez cara de quem não entendia. Ela explicou:

    – É porque o meu pai estava namorando a sua mãe.

    O menininho fez cara de choro. Para disfarçar, enfiou o dedo no nariz. Então disse:

    – O meu pai matou a minha mãe.

    Os dois ficaram se olhando, fiozinhos de lágrimas deslizando nas carinhas lambuzadas. Ergueram os dedos para se acariciar, abaixaram logo, com vergonha.

    Finalmente, se levantaram e foram embora. Ainda olharam para trás umas três vezes, depois saíram correndo, cada um para o seu lado.

  • Um conto de Natal

    Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã para o inverno, que, nos dias quentes, fica amarrada à cintura. Perambula, desocupado. Pede algo para comer a quem passa ao lado dele na rua e na porta dos restaurantes. Às vezes dão, às vezes não dão, então ele só come às vezes. Tivesse Jesus chegado aos sessenta anos, certamente seria parecido com ele. Em dias de sorte, um dos rapazes, um de seus iguais, lhe arranja um copo de vinho só para puxar conversa e ouvi-lo falar em aramaico, língua que aprendeu quando criança com um tio que tinha vindo lá do Oriente.

    Na noite de Natal, costuma se esconder para não ser cumprimentado pelo aniversário nem passar pelo incômodo de posar para fotos, coisa que detesta. Os turistas que nesses dias invadem a cidade são insistentes — Tu é a cara dele, posso tirar uma selfie? — e ele fica cansado de tanto recusar. Prefere se isolar e esquecer a data. Na hora em que todos trocam presentes e soltam rojões, fica bem quieto nalgum canto de um bairro distante do centro, matutando sobre a vida, conversando com seu estômago e vendo o brilho dos fogos no céu. Assim, aparta-se da comemoração ruidosa de seu nascimento — “Mas que droga, mais um ano” —, embora não fique a salvo de uma hora dessas ser crucificado por aí, como acontece todos os dias com outros sujeitos tão miseráveis quanto ele. Respira fundo e solta o ar devagarinho: “Aqueles sortudos”.

  • Seu próprio molde!

    A lagosta se esconde embaixo das pedras quando sua concha está apertada. Essa condição a provoca providenciar uma nova proteção, porque seu corpo cresceu. Nossas vidas apresentam situações de muito estresse e desconforto, e rapidamente buscamos um remédio ou conforto. 

    Mas, na verdade, esse momento tenso é uma transição para o crescimento pessoal, após uma análise e profundo entendimento do que se passa em nossas mentes, porque naquele instante não possuímos a noção de uma resposta, e, nessa altura, passamos a entender onde é nosso novo lugar, e como chegar lá.

    Uma vez tivemos 15 anos, e observávamos a passagem dos dias com leveza, despreocupados com maiores problemas, éramos um livro a ser preenchido com experiências, que nos valeram a oportunidade de errar sem culpa, moldar nossa personalidade com vida, mudanças boas e ruins, porém, intensas e marcantes.

    Muito diferente do chamado “método Fiorelli”, que serviu de técnica para moldar corpos no fatídico ano de 79 d.C., quando o Vesúvio libertou sua fúria sobre as cidades romanas de Pompéia e Herculano, e enterrou sob uma pesada camada de cinzas e escombros vulcânicos, centenas de pessoas nas mais diversas posições, eternizadas naquele triste evento.

    Os habitantes não conseguiram escapar, e ficaram imobilizados sob toneladas de material incandescente.

    Com o passar dos séculos, seus corpos desapareceram, deixando vazios na rocha solidificada que se formou sobre eles.

    Foi no século XIX que os arqueólogos, explorando as ruínas de Pompéia, descobriram um método engenhoso para moldar esses buracos.

    Enchendo-os com gesso líquido, eles conseguiram criar figuras que capturavam com fidelidade os últimos momentos das vítimas.

    Essas esculturas espontâneas mostravam suas posturas, seus gestos e até detalhes de suas roupas e poses.

    A técnica foi atribuída a Giuseppe Fiorelli que foi quem permitiu que a tragédia se mostrasse com uma intensidade surpreendente.

    Os moldes revelam fragmentos de humanidade detida no tempo: famílias abraçando-se no medo, corpos que tentaram fugir do inevitável e outros que procuravam refúgio diante da tempestade ardente.

     Não perca a oportunidade latente de você fazer seu próprio molde, caso contrário, mais tarde, vai sobrar somente o lugar para o gesso.

  • Eternidade

    Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na semana não costumo sair. Meus sobrinhos a enchiam de mimos, porque, realmente, ela era uma mulher muito digna e boa. Mas a doença logo se espalhou e Mariazinha morreu se vendo de dor. Ela não merecia isso. Pedi tanto a Deus para me dar o sofrimento dela. Quando ela se foi, me vi mais perdido. Passei meses em casa sem receber uma visita sequer, a não ser de Raimunda, a empregada da casa vizinha, que vez ou outra se compadecia de mim e deixava uma sopinha. Não fui capaz de amar, eis a questão crucial. Todos os meus relacionamentos foram baldados, curtos e ínfimos. Logo eu me enjoava dos pedidos de amor eterno, etc e tal. Podia ter suportado mais a Anna, que era a mais cautelosa, de poucas palavras, mas, com minha ira sem nome, me fartei de sua palidez. Ela foi boa, até demais, a ponto de me impregnar de desejo de ter um filho. Mas ela saiu muda, e para sempre se foi de mim, nunca mais tive notícias. Mariazinha, que parece que mantinha ainda contato, disse que ela, de desgosto, teria ido morar no interior, em Mauriti, voltado ao aconchego dos pais. Agora estou aqui, velho, doente, sem um socorro. Não tive filho algum. Era o meu sonho, mas em nenhuma barriga a minha semente vingou. Foi assim que pensei por anos. Até que na terça-feira passada me surgiu um homem de seus quarenta e tantos anos. Disse que me conhecia por fotos. Pediu para entrar. Não permiti, dado que não o conhecia e que a casa estava uma bagunça. Então, soltou que era meu filho e queria me conhecer melhor; que sua mãe Anna o teria prevenido de que eu era uma pessoa muito difícil de lidar; que tivesse cuidado para não ser escorraçado de sua casa. Na hora, chorei feito uma criança. Mostrei a ele o meu lado sensível, humano, escondido há anos, que só ele merecia ter e ver. Teria um colo e um abrigo, quando precisasse. A minha fome era tanta, de ter alguém ao meu lado, que não pedi exame de DNA, já o considerei aí meu filho. Agora estamos buscando aplacar o tempo, porque, além de tudo, sou avô de duas crianças lindas. Tenho fé de que teremos condições de recuperar o nosso processo, inacabado. Falei a ele, ali, ainda do outro lado da porta, que o amava muito; que tinha pena dele, de não poder ter tido tempo de me conhecer antes, para eu paparicá-lo. Veja, não sou um homem mal, mas iracundo, ranzinza, pela crueza da vida. Pedi que entrasse e me desse um abraço. Um abraço que durou a eternidade.

  • Feliz Natal

    Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namorado, crush — Todos nós. Precisamos. De gente.

    Mesmo quando temos dinheiro, mesmo quando achamos que já resolvemos tudo. Viver sozinho? Não dá. Talvez por isso a vida nos obrigue a nos renovar o tempo todo — a repensar atitudes —. Porque, convenhamos, todo mundo é um pouco egoísta, de vez em quando. Ninguém acorda todos os dias disposto a dar bom dia a um desconhecido, muito menos numa segunda-feira.

    A vida é feita de pequenas provas de resistência: chefes que tiram nossa paciência; trânsito engarrafado, quando estamos atrasados; telefone que resolve dar problema justo no dia em que guarda todas as nossas senhas e dados bancários. A vida testa e, quando estamos no limite, qualquer um pode ser grosseiro. Ainda assim, é reconfortante quando percebemos que dá para tentar de novo, se renovar.

    Renovar-se é um exercício diário. Sem glamour. Como não somos perfeitos, passamos a vida tentando ser pais melhores; filhos melhores; parceiros melhores. Às vezes, passamos anos tentando aprender algo básico: ser amigo. Cuidar das amizades dá trabalho — e dá trabalho para sempre.

    Pensei nisso esta semana, ao assistir a “O Natal dos Muppets”. Um filme americano — bonito, delicado —. A história acompanha Ebenezer Scrooge, um homem que mede tudo em dinheiro; não se importa em demitir pessoas nem em cobrar dívidas altas, mesmo no Natal. Um sujeito que acredita não precisar de ninguém.

    E é impossível não se reconhecer um pouco nele. No corre-corre do cotidiano, a gente se ocupa demais em ganhar dinheiro, comprar coisas, acumular. O filme, no entanto, lembra algo simples: é possível ser feliz com pouco. E, quando isso acontece, a gente ama melhor quem está ao nosso lado. A gente se renova, um pouco a cada dia.

    Talvez esse seja o verdadeiro sentido do Natal. Não apenas a troca de presentes, a ceia farta ou os abraços. Há quem trabalhe na noite de Natal, há quem sinta a falta de quem já se foi. O espírito natalino tem mais a ver com sair um pouco de si e enxergar o outro. Com se renovar.

    Gostando ou não da data comemorativa, aproveito para agradecer aos leitores do Crônicas Cariocas por um ano generoso. Esta casa me acolheu muito bem. Desejo a todos os leitores, amigos e colegas cronistas um Feliz Natal, cada um celebrando à sua maneira.

  • Poema #49: Identificação

    Identifico-me com a noite
    e com o que ela traz
    de específico a si mesma,
    e assim fazendo, aceito
    o convívio de seres opacos
    e da nova ordem e estado de coisas
    que o escuro inaugura.
    Identifico-me com o avesso
    sou aliás o próprio avesso de mim,
    e assim sendo, conheço
    as esquinas sombrias
    nas quais se disfarça
    a inexorável nulidade.
    Volto de manhã para casa,
    e num balanço isento da noite
    nenhum acréscimo se me acrescentou
    de forma permanente.
    Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
    apesar das concessões necessárias
    ao convívio comum entre os homens.
    Nada ganhei e também nada de mim
    se perdeu, exceto esta vida
    que amanhece mais velha.

    O Acaso das Manhãs

  • Errância

    Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas.

    Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista.

    Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”.

    Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ameaçador, num país que nasceu de um projeto que podia ser chamado de proto-fascista, com invasão das terras e extermínio de uma civilização.

    A conversa se deu na volta de um show que fizeram como o duo Crop Circles numa festa junina em Catanduva que deu espaço para quatro bandas de rock, de diferentes subgêneros.

    Ele já tinha quase cinquenta anos e começou um outro dia praguejando sobre quanta merda uma pessoa tem que aguentar apenas para se manter viva.  

    Dessa vez a queixa era por conta de um pagamento não realizado por um trabalho que realizou como freelancer, como porteiro substituto num prédio residencial na Rua Aurora.

    Então enfiou a mão entre o assento e o encosto do sofá, onde havia dormido à noite.  

    Correu-a por ali e encontrou uma moeda de dez centavos, um pente e uma tampa de caneta.

    Logo tomou algum ânimo para procurar se atualizar um pouco sobre a situação do resto do mundo, através de fontes que ele confiava, para que isso melhorasse sua estima, pois isso o fazia lembrar que não tinha tantos motivos para lamúrias.

    Era estranho, mas em dias ruins, ele ganhava sobrevida ao se deparar com notícias tristes, outras trágicas e outras constrangedoras, lembrando que problemas do cotidiano são para todos, mesmo que em diferentes circunstâncias.

    Cada uma dessas notícias, um resultado crônico de repetidas ações que ele repudiava, idealizadas e comandadas por gente que ele também repudiava. Tudo isso seguido e praticado por um imenso rebanho humano cego, burro e passivo, desprovido de qualquer autonomia intelectual.

    Nativo de um país agora regredido ao agrarismo da soja, sob ameaça de fascismo, e com o planeta à beira de um colapso climático.

    Entendia a razão de poder ser considerado um fracassado, pois só seria vencedor no sistema excludente e perverso em que vive se não fosse a pessoa que é.  

    Apesar de estar cansado de lembrar que a falência do sistema é a origem de muitas mazelas humanas e saber que utopias não o tirariam daquela miséria existencial, sabia também que elas serviam ao menos para que não mandasse tudo às favas de uma vez, entrando propositadamente numa overdose letal.

    O sistema educacional estimula a todos que a ele tem acesso, a buscar por um tipo de vitória, que por questão de índole, nunca o estimulou.

    É necessário que haja milhares de derrotados para cada vencedor.

    Milhares de almas atormentadas com pensamentos suicidas que também se perguntam o porquê de tudo isso, apenas para adiar a morte, que levaria a um esquecimento absoluto, até para quem era próximo, e que provavelmente terá o mesmo destino.

    Isso tudo enquanto o que há de verdadeiramente heroico num ser humano é não pertencer a nenhum rebanho.

    Não há lugar algum para chegar, não ser a tumba, e para depois disso, talvez a distinção pós morte para aqueles que deixam na Terra algum legado que também não caia no esquecimento, caso de um entre milhares, sendo que muitos dos quais chegaram a sonhar com a tal vitória, buscada por uma fé cega que os moveu até lugar nenhum.

    Algo típico de quem é enganado durante muito tempo, e que tende a rejeitar qualquer prova de fraude, se desinteressando em descobrir a verdade, pois é doloroso reconhecer, ainda que para si mesmo, que fora enganado, às vezes por toda a vida.

    Pelo menos as manhãs não eram todas iguais, porque para ele também havia aquelas em que podia acordar calmo, com o apagamento das urgências, das angústias e dos receios de irrealização, resultado de alguma pequena vitória recente ou da própria insolubilidade de questões perturbadoras.  

    O dia anterior havia sido de derrota, com muito tempo na porta de um supermercado esperando pelo pagamento do freela, fumando e verificando a todo momento o aplicativo do banco do qual era cliente, para ver se finalmente o pagamento havia sido efetuado.

    Havia agora, na porta de qualquer mercado de toda a região central de São Paulo, um número cada dia maior de pessoas desesperadas de fome, pedindo algum tipo de ajuda, e olhadas com perplexidade e rancor pela maioria dos que ainda saiam de lá com sacolas de comida para levar para casa.

    Algumas dessas pessoas ainda são capazes de ostentar certos privilégios, em plena crise aguda numa terra sem deus nem lei.

    Sempre que ele saía de algum desses lugares depois de alguma compra, carregava com sua sacola de mantimentos um tipo de culpa bastante incômodo, ao ver tanta miséria.

    Nessas horas lembrava novamente do sistema, porque sabia que a miséria é culpa dele, e não de simples fracassos pessoais, como tanta gente está condicionada a acreditar.

    Foi obrigado a desistir da espera quando a bateria de seu celular vagabundo acabou, de tanto que verificava o aplicativo do banco à espera do dinheiro.  

    Então, voltou pra casa, abriu as bitucas de cigarro de sua lixeira e bolou o recheio delas em guardanapos de boteco, como se fossem baseados, e depois dormiu com fome.

    Nem mesmo esse tipo de perrengue era capaz de fazê-lo desistir de fazer esses bicos em vez de algum emprego com carteira assinada numa empresa que chama o empregado de “colaborador”, com longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

    Enquanto isso, Mila Cox apenas se lembrava da frase que ouviu dele certa vez, em que dizia ter se enganado apenas uma vez, ao pensar estar enganado sobre um tema menos importante que a conclusão tirada dele.

    Era um indício de que o problema dele não era falta de autoestima.

    E aquele dia seria bom para ele, que ao encontrá-la, sempre revive sua sociabilidade, tão comprometida por tempos de escassez de tempo e dinheiro, o que então lhe fazia ter que gastar energia, completando a tríade que tanto prezava, que era tempo, dinheiro e energia.

    Ela era muito mais jovem, e isso o levava, andando com ela, a fazer coisas que jamais faria sem sua influência.  

    Servia também, até certo ponto, como renovação no ânimo de viver.

    Sair de sua zona de “conforto” não era tão dramático para Zími, porque não havia ali, de fato, muito conforto.  

    Havia, sim, uma rotina razoavelmente previsível, até para se preparar com certa antecedência para a chegada de perrengues, que para ele, eram sempre financeiros.  

    Vivia sozinho num apartamento no centro da cidade, sendo um consumidor minimalista e praticante do desperdício zero.

    Já Cox tinha seus próprios problemas, e carregava bastante insatisfação, não exatamente pela vida que levava individualmente, mas pelas mazelas da conjuntura.

    Mas ainda era jovem o bastante para gritar um pouco mais, por causa do retrospecto de vida mais curto e por teoricamente ter mais tempo pela frente, para enfrentar desdobramentos malignos de eventuais tendências equivocadas dos dias atuais e anteriores.

    Tinha vinte e um anos, e apesar de ter um porte físico pequeno, era o tipo de pessoa que se reconhece de tão longe, quanto se possa enxergar, com o cabelo curto cuja cor era mudada quase semanalmente.

    Ela tem um Chevette Jeans 79 que chama atenção por onde passa, desde shows que faz pelo interior de São Paulo, até estacionamentos de supermercado.

    Quando questionada se era tímida ou premeditadamente antissocial, respondia que costumava conversar com quem realmente interessava, pois muitas pessoas hoje em dia vivem se sentindo insultadas, e quando não tem a resposta que querem ouvir, a tomam como uma afronta, e que a música a ajuda nessa questão, mesmo quando suas músicas geram dúvidas sobre o que realmente querem expressar.

    Estudava Letras e era uma copywriter freelancer, com ganhos sempre superiores aos de Zími, e mora com os pais numa boa casa na Penha.

    No atual momento, ambos apenas vivem, cada um à sua maneira, esperando o que há por vir para a humanidade, sem tanta esperança de dias melhores, mas com a certeza de que ainda não vimos nada em termos de tempos surreais, e que o pior ainda está por vir.

  • Onde mora o seu olhar

    Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

    Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

    Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos.

    Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca. Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

    Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

    Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”

  • A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia

    E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá…

    O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário!

    E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens…

    E terminamos mais um ano.

    As velhas e repetidas canções de natal, de todos os natais, embalam as ruas e as casas, embalam a fraterna pressa tão típica de fim de ano, todos os anos…

    Mas…

    Mesmo que façamos as mesmas coisas (ou pelo menos, boa parte delas), guardamos dentro de nós mesmos uma certa urgência e uma necessidade verdadeira de acreditar que as coisas vão mudar, vão se acertar… E colocamos confiança, fé, esperança em um novo momento, como se fosse um presente, um bálsamo, um afago que nos dá força para continuarmos a grande aventura da vida…

    Assim, enfeitamos a casa, arrumamos a mesa, chamamos os amigos, colocamos luzes nas janelas, nas varandas, nos quintais…

    Assim, preparamos a melhor roupa, damos um trato no cabelo, organizamos a melhor ceia e colocamos no rosto o melhor sorriso.

    Seguir em frente é preciso… É preciso!

    Termino esta última crônica parafraseando o velho mestre Chico Buarque…

    Apesar das bombas, da cara feia, dos políticos e suas politicagens, dos malandros e das suas malandragens, amanhã há de ser outro dia!

    Apesar das intempéries da vida e dos sobressaltos diários, amanhã há de ser outro dia!

    E daqui a alguns dias, há de ser natal!

    E daqui mais alguns dias, há de ser um novo ano!

    Com toda certeza, será um outro dia!

  • Entre

    A arte salva momentos.
    A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.

    A arte salva.
    E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,

    • que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
    • entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
    • não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
    • ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
    • quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.

    A arte não precisa significar, propriamente.
    Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.

    O tempo.
    Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.

    Estou viva.
    É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.

    E alguém aqui já leu… H. G. Wells?

  • Reflexões em tempos de espanto

    Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote?

    Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…

    A bem da verdade, só vemos o que nos conforta ou suportamos ver. Essa é a raiz da cegueira afetiva. E a palavra, pelo visto, embaça a visão.

    A ideia de um encaixe perfeito ou de uma imaginária completude entre as pessoas, independentemente do tipo de relação em que se apoie, porta sempre uma ilusão, uma fala(cia). O discurso se faz tijolo na construção do trono mítico do amado. E mais, à medida que o apaixonamento avança para o campo da idolatria, situação na qual o objeto cultuado é aquele a quem nos entregamos como único salvador, mais ensebamos as palavras na tentativa de escamotear a verdade áspera da nossa própria escuridão.

    Se mais nos vestimos de encanto, mais nos despimos de realidade. É assim que os olhos perdem sua função, e as ações, sua significância. A razão, senhora justa e ponderada, é esculachada em praça pública. Quem quer saber dela? O próprio ditado insinua a ingenuidade desastrosa do sentimento: o que os olhos não veem o coração não sente. Faço aqui um adendo e uma advertência: Não importa se os olhos veem e o coração sente, isso não dá sustância. A paixão tem fome de doces promessas. Engole sem mastigar. Se farta e se lambuza de casadinhos feitos de palavras e ilusão. É perigosa, mas não necessariamente letal.

    Num dado momento, saciamos a fome e, por vezes até, vomitamos. A palavra recupera sua roupa de andar em casa.

    O mesmo não se pode dizer no enamoramento cego, típico da idolatria. Nele, acredito, há uma duplicação do sujeito e do seu dito.

    O objeto amado, venerado e enaltecido, ainda que em condições insalubres de afeto, é puro reflexo. Representa uma versão esmaltada e lustrosa desse sujeito que até então vagava desalmado de sentido. Faminto de importância, engole sem mastigar casadinhos de narcisismo e ostentação. Não enjoa, não
    cansa. Arrota insanidade.

    Nada importa. Ninguém.

    Nenhuma explicação é capaz de abarcar a submissão profana de um corpo ao seu reflexo, visto em carne e osso do lado de fora. Não nos enganemos.

    ]Ninguém venera a diferença.

    Só se idolatra a própria imagem, cifrada nas palavras e ações do outro idolatrado. Ambos se pertencem.

    E quanto à palavra, concluo que ela não é culpada. Para que a palavra iluda, alguém precisa dizê-la. Alguém precisa ouvi-la e querer validá-la.

  • Maria Quitéria

    Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte.

    “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.”

    Olha para a esquerda, vesgo na eternidade.

    “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.”

    A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado.

    “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.”

    – Na igreja, eu sei. Dava para o padre.

    – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana.

    – Perseguia a filha em tudo quanto era canto.

    – É. No bar, eu vi erguendo o vestido. A mão na bunda.

    – Boazuda, a Quitéria.

    – Boa moça. Trabalhadeira. Vivia na igreja.

    – Verdade que andava com o padre?

    – Bobagem. Andava é fugindo do pai.

    De mãos postas no centro do tapete, se faz de santo. O revólver do lado. As mãos rezando, debaixo o buraco da bala.

    “Eu não queria, juro que eu não queria. Você disse: Atira.”

    – O revólver não tinha bala. Decerto pensou que o revólver não tinha bala.

    – O diabo atenta, minha mãe dizia.

    – Um tiro só, bastou um, na barriga, e puf! O diabo murchou, se apagou.

    – Até soltava fumaça, tanto que bufava.

    – Está virando os olhos, está virando os olhos.

    – Que nada. Esse está longe, com os anjos e os santos.

    – Ou com os diabos amigos dele.

    “Paizinho, que eu faço da minha vida? Se o revólver tivesse mais bala, eu me matava.”

    – Não é uma lágrima que cai do olho?

    “Aguinha azul, vontade de beijar, beber essa aguinha da morte.”

    – Deve ser azul, a morte.

    – É negra. Preta que nem um urubu, um morcego.

    – Que frio! Um gelo o coração.

    – Um morcego te chupando o sangue. Só fica essa aguinha azul, morcego não gosta.

    “Pai, e se eu me enforcar? Tem uma corda na cozinha.”

    – O vestido rasgado, que vergonha! Não é um seio de fora? E esses dois lambendo carniça? Os dois, o contista bisbilhoteiro.

    “Feito louca pela casa. Tenho as mãos manchadas de sangue. Quero morrer, quero morrer.”

    “Você foi-se embora, Paizinho, por quê? Não dá para entender. Queria me violentar? O revólver estava tão pesado!”

    “Atira, sua cadela.”

    “Eu atirei, o revólver pesado.”

    Não tinha bala? Umazinha só, esquecida no tambor. A bala que o diabo pôs lá.

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • Nossa frágil condição humana!

    Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. 

    A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a história virar um desastre. 

    O filósofo francês Henri Bergson disse que o cômico exigia algo como uma momentânea anestesia do coração. “O riso não tem maior inimigo que o coração”, por isso rimos do mal para que ele não nos atinja.

    Uma das piadas que os judeus contavam na Alemanha nazista, era sobre o que um comandante da Gestapo dizia a um judeu: “Vou te dar uma oportunidade de viver, se adivinhar qual dos meus olhos é de vidro”. 

    O Judeu responde de imediato — É o esquerdo.

    O oficial admirado pergunta — Como é que descobrisse?“

    E o Judeu respondeu — É o que parece menos humano. 

    Pode parecer surreal, no entanto, é uma manifestação bastante profunda nas mãos de todos que se confrontaram com o mau absoluto, que o fizeram mais por necessidade do que provocação. 

    Na União Soviética a piada frequentemente contada era a seguinte: “Sergei, arranjei um emprego, vou para o cimo daquela torre, e meu trabalho é tocar essa corneta quando a revolução triunfar. Pagam-me um rublo por dia”.

    “Ivan, isso é pouquíssimo “.

    “Eu sei, mas é um trabalho para a vida toda”. 

    Eles riem do mal, do bem, ninguém rí, para quê? 

    Mesmo histórias curiosas que resultaram num final trágico, por consequências em suas entrelinhas, parecem uma ironia do destino. 

    Como ocorreu com o Ditador, Ex Presidente da República Portuguesa, Antonio de Oliveira Salazar, apegado ao poder, de onde emanou ordens dramáticas e doloridas àquele povo sofrido, acabou por encontrar um final mortal inesperado, em sua trajetória humana. 

    Uma história com ares de ópera-bufa, se imaginarmos que o ditador foi derrotado por uma queda ao chão. 

    Em 1968, Salazar gozava férias em Santo António do Estoril, e sentado em uma cadeira que não se sabe se em falso ou quebrada, ou estrategicamente fora do lugar, levou o ditador ao chão, onde bateu a cabeça com violência no piso da pedra. Teve um hematoma cerebral e não se recuperou do trauma. Morreu dois anos depois. Conta-se que ele jamais soube que não era mais o presidente do Conselho de Ministros e que a equipe de governo se reunia em sua presença, para encenar reuniões e decisões. 

    Nossa frágil condição humana limita uma rota a todos, muito similar a fraqueza de seus pares e a finitude que nos acompanha. 

    Mas o dolorido é quando os meses e anos escorrem pelos dedos, e chegando a velhice, se vê que não saiu do lugar.

  • Peregrinação

    Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escuro e arriscado; há bastante consumo de droga e malfeitos, como pequenos furtos. Melhor não dar sorte para o azar. Tenho evitado visitar a minha mãe, que mora num bairro próximo, porque ambos os lados não estão para brincadeira. Antes de comprar o imóvel, conversei com uma porrada de amigos, e eles foram unânimes em dizer que não era uma boa; que, para chegar num bairro assim, do nada, deveria ter contato com alguns moradores, para ser protegido. Pequei, como sempre peco, com a minha ansiedade, com a minha vontade acaçapante. Sou um cara impulsivo, devo admitir. Já entrei em algumas roubadas, fazendo negócios escusos, não por minha culpa (achava que tudo isso era normal), mas porque era influenciado para ganhar dinheiro fácil vendendo motos adulteradas. Felizmente nunca fui pego pela polícia. Saí do ramo quando Roberval foi preso, por receptação de moto roubada. O pobre do meu amigo comeu o pato sozinho, e senti uma sensação forte de me entregar, mas não consegui pela covardia, e porque pensei nos meus filhos e na minha esposa. Voltando à nova morada, quando cheguei aqui, Nikita só me olhava atravessado, botando a mão no cós das calças, dando a “sugesta” de estar armado. Ele me colocava no outro extremo do bairro, como se me enxotasse só no olhar; sentia ódio a mim. Sei que Nikita é um velho policial, com fama de matador – Leozinho me informou com detalhes, e eu fiquei cabreiro por dias, sem dormir direito, porque o cara é, além de mau, frio. Depois da pandemia e da aposentadoria, o dito cujo montou uma bodega, mas nunca pisei lá, claro – e nem pisaria nas minhas piores necessidades. Sei que o sujeito não gosta de mim, não quero afrontar. Ainda fico matutando pra saber o que eu fiz para ser perseguido. Leozinho, meu vizinho, diz que “eu tenho as coisas”, carro, moto, e o velho é invejoso. Além do mais, o que me dá medo, é que parece ser metido em milícia e quer ser o dono do bairro. Segundo Leozinho, volta e meia ele cobra uma cota de “segurança” do bairro – ainda não fui atingido. Vou me adiantar e pegar o beco, antes que seja tarde demais. Terei de vender a casa, que ainda estou pagando. Era meu sonho ter uma casinha como a minha. Não posso botar a vida da minha família em risco. Devia ter averiguado essas coisas antes, mas não conhecia ninguém aqui. O fracasso é a pior das sensações. Estou sendo, veladamente, mandado embora, sob o risco de perder a vida. Melhor sair e viver em paz.

  • Está tão difícil ser eu

    Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você.

    — Você sabe quem está falando?
    — Não faço a menor ideia.
    — Ah, sabe sim.
    — Sei não.

    A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se dava por vencida. Rebatia, insistia, falava com este outro que não era eu, mas que, para ela, era.

    — Vai ficar me tratando assim?
    — Assim como?
    — Fingindo que não se lembra de mim. Depois de tudo.
    — Tudo o quê, minha senhora?
    — Ah, faça-me um favor.

    Desligou.

    Até hoje, eu insistindo que sou Leandro, tem gente que me chama de Leonardo. Vizinhos, amigos, médicos, enfim, todo mundo. Eu adoro ser Leandro, sempre gostei, mas, no meu caso, ou a pessoa abrevia, ou muda.

    Ou fala Leonardo, ou abrevia para Léo, mas o que eu adoro mesmo, de verdade, é ser simplesmente Leandro.

    Sofro, claro, também, com homônimos. Uma vez, quando fui tirar um documento, arrumaram um Leandro em São Paulo, com sobrenome igualzinho ao meu. Custei a resolver.

    Já fui confundido, em rede social, com um ficante de outra moça, quando meu lance, na verdade, era com a prima dela — o que, naturalmente, gerou uma confusão sem tamanho.

    Felizmente, nunca fui confundido com o pai desaparecido de ninguém, nem com um espião, nada disso.

    A vez mais divertida, confesso, foi quando, no interior do Rio de Janeiro, em Grussaí, numa pousada, fui confundido com o marido da moça que estava na minha frente.

    A gente ia pegar uma ficha, sei lá, para fazer o quê, não lembro, e a moça da frente, talvez por uma casualidade do destino, estava com uma camiseta verde — eu também estava de verde.

    — Agora pode vir o casal — disse a atendente.

    — Casal? Ele — ele, no caso, era eu — não é meu marido. Meu marido está no quarto, dormindo.

    Eu quis rir, mas achei melhor deixar para rir depois.

    A última vez foi ontem, quando fui à rodoviária, quando fui comprar uma passagem para o Rio de Janeiro, para uma viagem a trabalho estendida para passeio, quando o atendente, com meu RG e tudo, mesmo digitando o CPF corretamente, inventou que meu sobrenome não era Pereira, era Ferreira.

    Tentei mudar, mas o rapaz disse que o sistema não deixa mudar.

    — E eu deixo? — argumentei.

    Ele disse que eu não tinha problema, que o importante era o número do CPF, que, infelizmente, o jeito era viajar como Ferreira mesmo. Paciência.

    Aviso aos navegantes: eu adoro ser Leandro. Nunca quis ter outro nome. Até se voltasse em uma reencarnação, eu ia querer ser eu mesmo.

    Agora, se um desavisado me confundir com esse tal Ferreira e vier depositar um milhão de reais na minha conta, vou jurar, de pé junto, que sou o Ferreira. Fiquem avisados. Não devolvo. E pronto.

  • Na verdade, a verdade é Judicial

    Enquanto acordava comecei a pensar sobre uma palavra que tem sido bastante falada nesses últimos tempos, ou seja, “verdade”. O que seria verdade? Segundo o DICIO, essa palavra significa: “Que está em conformidade com os fatos ou com a realidade: as provas comprovavam a verdade sobre o crime”. Dada a significação, eu volto a perguntar: é possível dizer com precisão os fatos ou a realidade?

    Deixo esse primeiro parágrafo apenas como uma reflexão. Isso porque, nos últimos tempos estamos vivendo no mundo uma verdadeira disputa pelo que é verdadeiro. Acontecimentos históricos são reinterpretados de acordo com as ideologias de quem os conta. Dessa constatação, ganhou muito espaço o conceito de pós-verdade, que segundo o mesmo DICIO significa: “Contexto em que se desvaloriza a verdade objetiva, comprovada pelos fatos, aceitando qualquer discurso como correto”.

    Nesse sentido, será que existe verdade ou é tudo pós-verdade? Ou seja, será que é impossível chegar a uma versão verdadeira sobre um fato? Esse texto de perguntas e mais perguntas, no fundo, serve como uma mera reflexão, pois a intenção é dizer que se tem uma palavra cujo real significado ficou perdido, trata-se do termo “verdade”. Apesar disso, a busca por ela é uma constante na vida de todo o ser humano, seja qual ideologia ele segue.

    Por exemplo, o reconhecido pensador Walter Benjamin defende a ideia de “escovar a história a contrapelo”. Nesse sentido, diante da predominância da versão do vencedor sobre a do vencido, é importante que os historiadores se preocupem também em contar a história de quem perdeu. Esse autor faz pensar na perspectiva de um interessantíssimo ponto de vista. Agora, será que em um contexto de redes sociais podemos falar em um contexto de história do vencido e do perdedor?

    Quando eu falo isso, me refiro ao caráter extremamente plural das redes sociais. Até seu surgimento, muitas pessoas poderiam se sentir totalmente isoladas do que ocorre no mundo. Agora, com a possibilidade de conexão em escala global, até a pessoa com os hábitos socialmente mais esquisitos pode achar outras com quem se identifique. Em um contexto como esse, existe a possibilidade de existência de “múltiplas verdades”.

    Voltando ao conceito de verdade, para exemplificar, eu diria que ela, na realidade, não é definitiva, mas muito parecida com o objetivo de um processo judicial. Ou seja, nele partes opostas tentam provar seu ponto de vista sobre um fato trazendo provas que os favoreçam. Esses pontos de vista contarão com diversas figuras de apoio (advogados, promotores, testemunhas de defesa ou acusação, dentre outros). No final, tudo isso será decidido por um juiz que será o responsável por “estabelecer a verdade”.

    Como seria mágico se em nossas vidas tivesse um juiz que determinasse a verdade, não é mesmo? Dessa forma não precisaríamos nos preocupar e nem arrepiar os cabelos. Bastaria seguir o que o juiz determinou. Falou, está falado. Infelizmente, a vida não é assim, e sendo a verdade judicial (ou processual) é muito importante que estejamos sempre servindo como guardas ou vigias dela. Caso contrário, daqui a alguns anos estaremos sofrendo sérias consequências pela predominância de versões absurdas de fatos passados.

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