
O meu tempo
As crianças brincam, gritam. Os carrinhos fazem barulho, as bicicletas buzinam. A algazarra está animada.
A tarde transcorre lentamente na rua do condomínio onde moro.
Ela é um parque de diversões para as crianças maiores, um berçário para quem ainda está nas fraldas, um espaço de convivência para mães e babás.
E é a minha sala de pensar.
Sinto o vento que balança as folhas das árvores, aprecio as figuras que as nuvens desenham, ouço a vida acontecendo.
Vejo as crianças e revisito a menina que fui. As mães e babás me fazem recordar a mãe, a mulher, a adulta que me tornei. Uma com seus porquês e outra com suas lutas.
Observo os brinquedos atraentes, o chocalho com luz, a bicicleta puxando a carretinha. Lindos.
E só.
Gosto de olhar os rostos, os sinais de cansaço ou a alegria das mulheres. Elas e seus filhos. A imagem me enternece.
O valor material e tudo o que representa prestígio em possuir já não ocupam tanto espaço em minha mente.
Também já não me inquietam as perguntas que me tornavam aos meus próprios olhos, uma criança estranha. Eu procurava os porquês e queria respostas urgentes
Agora, mais leves, flutuam pela minha sala de pensar. Vão e vêm, sem compromisso.
Não tenho nenhuma obrigação de capturá-las ou de solucionar qualquer que seja o problema. Exceto da minha revista de palavras cruzadas.
Estou aqui, exercendo o direito de desfrutar do ócio.
Adotei uma lei invisível em meu próprio universo. Podem chamar de esquisitice. Eu sei que é.
Não quero ser exemplo a ser seguido, nem ditar sentenças.
A vida continua acontecendo ao meu redor. Há crianças descobrindo o mundo, mulheres cuidando da vida, tantas histórias começando.
A minha também continua.
Só que agora, pela primeira vez, não tenho pressa de chegar a lugar algum.
Esse é o meu tempo.























