Valéria Soares no Crônicas Cariocas

  • Aos 16!

    Enfrenta seus porquês: quer respostas, quer experimentar… Arrisca-se, arroga-se, ensoberbece! Sabe o que ninguém nunca soube.

    Seu caminho, com certeza, será diferente de todos os outros.

    Empina o nariz, responde com autoridade, briga com o vento.

    Sabe, mas não sabe. Pensa que não, mas precisa…

    O som alto disfarça a ansiedade, os amigos disfarçam a solidão.

    Envolvida numa interna guerra entre ser e querer, todos os caminhos estão diante de si. Todas as possibilidades. Aflige-se. Não quer ouvir; grita!

    Aos dezesseis, não se lembra mais da Alice do livro de capa dura e desenhos coloridos. Talvez agora seja a hora de saber que não afundará nas próprias lágrimas e que a escuridão de agora é apenas passageira. O mundo tem um lugar que lhe pertence, que está lá à espera.

    Menina, sofrer faz parte, mas não vá além do limite! A dor pode acomodar o espírito e aquecer nossa alma.

    Aprisiona.

    Vai, menina, o camundongo só virará rinoceronte se você permitir. Feche esta porta e abra a outra. Só você pode fazê-lo.

  • Domingos

    Lembro-me de um tempo em que as pessoas aproveitavam a tarde de domingo para fazer visitas umas às outras. Era comum que minha mãe fizesse um bolo e o deixasse reservado para as tais visitas, que podiam ser de amigos, parentes ou comadres e compadres. Muita conversa e café com bolo.

    A televisão ficava ligada no Silvio Santos, os adultos torcendo pelo número do seu carnê do Baú da Felicidade, enquanto nós, crianças, sonhávamos com os presentes do “Boa Noite, Cinderela!”.

    Tudo acontecia ritualmente. A missa das dez, com a melhor roupa; o almoço com frango assado e Coca-Cola Família. O avô que sempre vinha “porvar” a comida, a Brahma na cabeceira da mesa, o pudim de leite de sobremesa.

    Os visitantes sempre traziam seus filhos. Enquanto conversavam sobre o que não podíamos ouvir, brincávamos no quintal. No domingo seguinte, certamente retribuiríamos a visita ou iríamos à casa de alguém que estivesse acamado.

    A noite levava todos para suas casas e trazia o Fantástico com suas bailarinas pintadas.

    Na segunda, tinha escola e os legumes não vinham envolvidos em maionese. O suco de garrafa ou de pacotinho substituía o refrigerante e a cerveja. À mesa, a saudade do domingo, a rotina e a laranja como sobremesa.

  • F5

    — E se o sapatinho não couber?

    — Como assim? Não é seu?

    — É.

    — Então?

    — O meu pé mudou.

    — Mudou?

    — Não sou mais a mesma.

    — Hã.

    — Meus pés às vezes incham.

    — rsrs

    — E o vestido? Você pode usar o vestido!

    — Será?1q

    — Claro!

    — ihh! Engordei…

    — A tiara! Use a tiara!

    — Tem um problema. De lá pra cá, meus cabelos diminuíram… Não vai ficar legal.

    — Caramba!

    — O que eu faço?

    — Não sei. Não tem mais nada igual?

    — Igual?

    — Igual ao que você era naquele tempo.

    — Tem!

    — O quê?

    — A vontade de ser feliz permanece.

    — Só isso?

    — A crença no amor também.

    — E?

    — O sonho continua aqui. Só.

    — Só?!

    — A vida! A vida continua.

    — Com os pés inchados é possível?

    — É possível.

    — Sei onde tem sapatinhos ortopédicos de cristal.

    — E o vestido?

    — Plus size.

    — E os cabelos?

    — Lace!

    — E o príncipe?

    — Tinder.

    — Match?

    — Match!

    — Vamos ao baile?

    — Vou pedir o Uber confort.

  • Taciturna

    A escuridão a excitava. Gostava das sombras e de imaginar monstros sob a silhueta da lua.

    Não tinha medo. Nunca teve. Conversava por horas com figuras imaginárias, criadas pelo jogo de luzes e sombras no jardim.

    Se havia névoa, melhor! Tudo parecia mais misterioso. Seu coração, então, disparava.

    Era tanto para imaginar!

    Cresceu assim: apegada à solidão. Amiga das fases lunares. Brincando de esconde-esconde com a neblina. Contando segredos às formas sombrias.

    Um ser estranho, canhoto, enigmático.

    Mudou-se. Na cidade, perdeu o luar. As sombras eram traiçoeiras. Como imaginar agora? Onde se esconder?

    Virou poetisa. Submergiu no mundo das palavras. Oculta-se em metáforas, joga com antíteses, cria raras rimas.

    O coração, de novo, dispara: ritmadamente!

    Um ser estranho, canhoto, enigmático…

  • Retrato

    De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem.

    Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só.

    O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência planejada, ao rumo escolhido.

    Entre os coqueiros, aceleramos e assistimos ao vento. Uma torre de telefonia informa que o aparente isolamento não existe.

    O gado branco e magro descansa. Longos espaços sem ninguém. Mal sabemos em que dia da semana estamos.

    O peixe rosado é escamado, as senhoras conversam, a varanda é gradeada, a casa é verde e rosa, a lavoura é de camarão.

    Uma Assembleia de Deus, um jardim de mandioca, uma conversa animada no botequim.

    O vento dança nos coqueiros. Os pensamentos vão devagar… Devagar, a vida passa nos olhos de ressaca do homem que olha a segunda-feira.

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