Crônicas Cariocas

  • A Presença

    Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?

    Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?

    Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.

    Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.

    Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.

    Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.

    Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.

    E que prêmio!

    Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.

    Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.

    Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.

    Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.

    Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.

    Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.

    Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.

  • Minha menina

    Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada.

    Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos.

    Busco convencê-la de que aquela felicidade ingênua de viver sem dar-se conta da morte jamais voltará a nos fazer sorrir sem medo. Perdemos a inocência, a ilusão da presença eterna das pessoas que amamos.

    Ela balança negativamente a cabeça. Não crê no meu desespero de realidade. A criança que fui ainda pulsa quando a emoção me toma. Move os lábios, acena como se quisesse alertar sobre a existência de botes para as tormentas.

    Não ouço o que diz. Só penso em naufrágios.

    Ela sorri, embora sofra todo tipo de escárnio e xingamento. Tola, burra, ingênua, boba. Não percebe que a vida é injusta, cruel, indecente no uso de seu poder e apadrinhamento?

    Não perdoo sua falta de malícia. Rasgo suas roupas bordadas de esperança.

    Ainda assim, minha criança vive, dança, corre, rodopia, gargalha, sonha e é feliz. Mesmo excluída do direito de se pronunciar. Esperta, bate os seus pés no canto do pensamento, inaugurando um novo código Morse que implora nossa salvação.

    Soterro sua presença em resíduos de insegurança, medo, ansiedade, angústia e preocupações. Dou-lhe as costas. Exercito a frieza da maturidade.

    Deixem-me crer no amargor dos sábios e seguir encastelada na certeza do desfecho triste. Agora, tudo parece morto dentro de mim. Olho uma última vez para não restar dúvidas sobre o seu fatídico destino.

    Lá do fundo de tudo que há em mim, seus dedinhos emergem como prova do seu resistir. Ao longe ouço sua voz a me chamar para brincar de ser feliz. Renuncio às condecorações de guerra. Bandeira branca a minha menina. Ela nunca me causou mal algum.

    Machucada, trêmula, assustada, ela corre para os meus braços. Acolho. Acaricio seus cachos. Dou colo.

    Nesse encontro do que fui com o que desejo voltar a ser, renasce a aposta no agora, na eternidade do amor e na ingenuidade da paz.

    Rimos juntas dessa garotinha desafiadora e abusada chamada vida.

  • 2ª Escola a Desfilar: Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico

    “Eu sou o poema que afronta o sistema/ A língua no ouvido de quem censurar/ Livre para ser inteiro/ Pois, sou homem com H”. Dessa forma, e de muitas outras, o samba da Imperatriz Leopoldinense apresenta seu homenageado.

    Não é muito difícil saber quem é, não é mesmo? Quer dar um palpite? Se você é fã, é impossível não ter acertado que se trata do incrivelmente talentoso Ney Matogrosso, um dos maiores cantores que o Brasil já teve. A escola, por meio de seu carnavalesco Leandro Vieira parece ter compreendido muito bem o que esse grande cantor representa. Um talento que vai muito além da música, mas que se consolida no ato revolucionário de ser quem é. Sim, porque para ser Ney Matogrosso é necessário ter coragem. Não é qualquer pessoa que tem.

    Leandro Vieira deixa claro que admira o escolhido no texto que introduz o enredo da Escola. Chamou atenção a seguinte descrição do carnavalesco: “A voz dos que não tem voz. Corporificação dos sujeitos não apreciados. Divindade que incorporou a subversão. O grito dos loucos. A porção da mulher dos malandros. O anjo safado. A iconografia dos marginais. A performance máscula dos afeminados. O canto dos desgarrados e sem paradeiro. A chave dos trancados nas gaiolas’’.

    Ou seja, Ney é afronta! Ney é revolução! Ney Matogrosso é MUITO NECESSÁRIO!

    O foco, ao contrário do primeiro enredo comentado, não parece aqui estar na história do homenageado, mas no que ele representa, em seu gigantismo e na exaltação à sua coragem.

    Leandro Vieira já provou muitas vezes do que é capaz. Ao abordar esse enredo tenho muita curiosidade de saber a forma como será conduzida essa homenagem, pois o carnavalesco não parece estar disposto a fazer o convencional. Será que assistiremos mais uma vez ao Leandro fazendo história na Sapucai? Não sei a resposta, mas tenho certeza de que Ney Matogrosso merece.

  • A nota

    O maior risco da interpretação está em o intérprete ver no texto o que ele não tem. A essa prática, dá-se o nome de superinterpretação. Superinterpretar é ir muito além do que está dito. É propor intenções,  sugestões, duplos sentidos onde o que se evidencia não passa muitas vezes de mediocridade semântica. Isso pode ser feito de boa ou de má-fé.

    Um bom exemplo da segunda forma é a correção que certo professor fez ao texto de um estudante que “precisava passar”. O tema da redação era “a amizade”, e o aluno escreveu apenas o seguinte: “Num tô afim de falá disso agora, pô. Tô sem ninguém.”

    O mestre lhe deu 9,5. Convocado à diretoria para se explicar, redigiu o seguinte comentário:

    “O texto é sintético, ou seja, não revela o pecado da verborragia. A economia de meios expressivos se constitui num importante fator de coerência, pois o excesso de palavras não combinaria com a resolução do aluno em não escrever. Essa atitude de recusa, em que se percebe um misto de tédio e rebeldia, determina o minimalismo que orienta toda a redação.

    “Vejamos algumas provas disso. O advérbio ‘não’ é trocado por ‘num’, bem mais incisivo devido à ausência do ditongo. Com um ‘não’ é possível negociar; com um ‘num’ — abusado e peremptório — jamais. Merece também realce a troca de ‘estou’ por ‘tô’, em que a aférese (supressão de fonemas iniciais) reforça a propensão ao tartamudo, ao pontual, ao monossilábico, própria de quem não quer muita conversa.  

    “A seguir vêm duas infrações à norma culta que, no entanto, se tornam funcionais no contexto de rejeição instaurado desde as primeiras linhas. A troca de ‘a fim’ por ‘afim’ (um erro de morfologia) justifica-se pela intenção de condensar o sentido dos homônimos. É como se o valor de finalidade, contido na locução adverbial, se enlaçasse à ideia de afinidade presente no adjetivo, numa espécie de fusão fonossemântica que procura destacar a indisposição afetiva. O aluno parece dizer, com ceticismo: ‘Não estou a fim de um afim’, ou seja, de alguém com quem tenha amizade.

    “A indisposição também explica a forma verbal “falá”, pois a presença do ‘r’ sugeriria uma vibração em nada condizente com o ânimo do autor (de uma exasperada contundência). Tal ânimo se confirma no uso do monossílabo de teor exclamativo que aparece no fim do período: ‘pô’. Esse pô, de natureza coloquial, destaca a função conativa da linguagem e acentua a dramaticidade da negativa.

    “No segundo período repete-se a aférese (Tô), mas agora seguida por uma expressão em português correto (sem ninguém). Nessa parte do texto, de um confessionalismo despojado, o aluno explica suas razões. Percebemos que suas omissões e deslizes se devem a ele estar sozinho e, nesse estado, não ver sentido em escrever sobre a amizade. Compreendemos então que a rebeldia que perpassa o texto foi determinada por razões existenciais, as quais encontraram um correlato perfeito nas escolhas linguísticas. Essa é a explicação para a nota alta que lhe dei.”

    O aluno passou. O professor, claro, perdeu o emprego. Algum tempo depois, foi contratado pelo jornal da situação. Dizem que sua principal função lá é fazer a crítica dos poemas do governador.

  • Voz de IA

    Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.

    E como é que isso dá certo?

    As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.

    Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…

    Assim como? Antissocial.

    Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.

    E onde isso pode ser vantajoso?

    Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.

    Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.

    Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.

    Mas isso não parece com IA.

    Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.

    Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?

    O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.

    Então quem?

    Hannibal Lecter.

    Você não pode estar falando sério.

    Estou sim.

    O Lecter é o psicopata dos psicopatas.

    Ah mas é um grande personagem, concorda?

    Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.

    Sim, claro, o que é?

    Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?

  • Nono marido

    A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.

    Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.

    São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.

    O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.

    Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.

    Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.

  • Entre o que se escreve e o que se publica

    Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.

    O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.

    Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.

    Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.

    Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.

    Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”

  • Trevas de nossas dúvidas!

    As coleiras com espinhos, consideradas um dos primeiros dispositivos de proteção para cães, foram criadas na Grécia antiga.

    Apesar de parecerem rudimentares pelos padrões atuais, essas coleiras cumpriram um papel essencial na segurança dos cães da época, especialmente contra uma das maiores ameaças: os lobos.

    Na Grécia antiga, os cães eram usados para diversas funções, como pastoreio e proteção. 

    No entanto, os ataques de lobos, representavam um risco constante. 

    Para proteger os cães, os gregos desenvolveram uma solução engenhosa: a coleira com espinhos. Esse dispositivo era feito com pontas afiadas que se projetavam para fora, formando uma barreira física ao redor do pescoço do animal.

    Quando o lobo tentava atacar, os espinhos dificultavam o acesso ao pescoço do cão, prevenindo ferimentos graves e aumentando as hipóteses de sobrevivência. 

    Essa proteção não só garantia a segurança dos cães, mas também melhorava sua eficiência nas tarefas diárias, essenciais para a vida cotidiana da época.

    O “design” dessas coleiras reflete a criatividade e a praticidade dos antigos gregos, que buscavam soluções eficazes para os desafios que enfrentavam.

    Embora as coleiras modernas ofereçam novas tecnologias, as mais antigas com espinhos Gregos, representam um marco importante na história dos equipamentos de proteção animal. Elas mostram como a preocupação com a segurança e o bem-estar dos animais é uma prática que vem de longa data, destacando a evolução e a importância da inovação ao longo dos séculos.

    De volta para o futuro, observamos a existência de coletes fabricados em fibra de carbono, a prova de balas, facadas, porretes e espinhos. Eles fornecem proteção ao homem e são muito leves para transportar, sendo assim são o topo da proteção de vidas humanas, fragilizadas imensamente pela violência desmedida.

    Que coleira ou colete você imagina que possa lhe proteger do bombardeio das pessoas dizendo para fazer mais, ser mais e comprar mais, ao invés de nos dizer como levar uma vida melhor e mais feliz. Nos tiram do sério quando dizem para ignorar os sinais de alerta de que a vida está levando a melhor sobre nós. É sempre bom ouvir um “Você Consegue”, ao invés do frequente “desista, não é para você”.

    Eventualmente uma ajuda bem que viria a calhar, principalmente quando estamos enrolados com trevas de nossas dúvidas.

  • STRIPTEASE

    De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar no quarto. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada que o habitual, as rugas da testa estão mais acentuadas e as olheiras, mais fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta para dentro do quarto e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retoma o ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto, resistindo ao creme hidratante. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe dão penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Respira fundo como se tomasse coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana. Aos tufos e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Por último, esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história do seu corpo.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Moça em janela de hotel

    Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mesmo entrou nos meus ouvidos Jefferson Airplane – nada a ver. Legal e nada a ver. Mas ele é assim mesmo. Daqui a pouco pode pintar um samba com Los Hermanos que só fãs da banda de rock podem conhecer. Vá saber. Suas coletâneas são incoerentes. Como o seu vestuário tosco com alguns esporádicos e inesperados toques de requinte que só no corpo magro, leve e lindamente desengonçado dele podem parecer requintados. Ele só é coerente com uma coisa: suas incoerências.

    Sei que lá fora é frio. Mas o quarto é quente e sou bela. Hoje sou a mais bela mulher do mundo, com minha camiseta branca e calcinha também branca, a me espreguiçar. A TV sem som é um pequeno papel de parede, um quadro vivo, uma caixa preta cheia de gente pequenininha se mexendo e sendo feliz. Volto pra cama e sinto mais uma vez os cheiros de deixamos no lençol e penso em como é bom ser mulher. Vontade de passar o dia nessa cama lembrando da noite que foi. Eu faria isso fácil, fácil. Mas, melhor não. Como o hotel não tem serviço de quarto é melhor eu subir logo para o restaurante e tomar o meu café, enquanto ainda é servido. Engraçado como os dois homens no elevador, que sobem também para o café, me parecem feios. Um barrigudo e com jeito de pseudo-intelectual e o outro, negro, com alguma elegância, porém sem graça. Mas não dá pra ver outros homens agora como machos. Não num dia como hoje. Só os consigo ver como seres humanos assexuados. Não os vejo com antipatia ou desagrado – até gosto de vê-los –, mas o fato é que depois da noite que passou – eu junto ao meu pequeno deus – todos os homens são pra mim seres sem sexo, com exceção dele, obviamente, que é – penso brincando com minha fantasia – o inventor do sexo.

    O café do hotel é muito bom. Muitas frutas e muitas coisas pra escolher. Estou faminta e devo comer como nunca. Na noite que passou, parte do meu corpo se perdeu em suor e demais líquidos. O alimento que ele, o re-inventor do meu sexo, me deu na cama não alimenta o corpo. Muito embora aquilo, de calibre e sustância, seja puro corpo, não sustenta o meu corpo, apenas consumindo-o. É uma pequena morte que me torna viva e com mais fome. Sinto-me leve, não posso negar. Mas é um estado meio vampiresco. O corpo dele junto ao meu e dentro do meu não me satisfaz como um alimento. Aquilo é como um sangue a meio copo. Um vinho a meio copo. Um copo d’água pela metade, que alivia um pouco a sede, mas não a sacia completamente – e isso parece deixar a água mais saborosa que qualquer outra coisa. E ele em mim é melhor que água, melhor que vinho, talvez melhor que tudo. E tudo o que ele faz comigo… Ele só não é melhor que a completude por que a completude não existe. Hoje esses meus olhos que agora olham pelas grandes janelas do restaurante para uma Guanabara cinza são capazes de transformar tudo em beleza. E é disso que eu preciso, de instrumentos que transformem coisas simples em coisas belas. Sempre as janelas. Janelas são fábricas de vida. Graças a estes olhos outrora tão habituados a ver o feio do dia-a-dia da roda semi-viva, e que agora só parecem saber ver o bom das coisas, o meu dia começou assim, agraciado com belezas, onde até um lavatório com a torneira enferrujada é belo. E quanto a ele? Ele, o mais belo dos esquisitões. Como ele estará agora? O que estará passando pela cabeça daquele que tanto me faz sorrir? Sorrir com risadas, sorrir por dentro, e até sorrir chorando…

    Desço. Ruas molhadas. Cachorro na calçada sorri pra mim. Uma velhinha que anda com muita dificuldade sorri pra mim. Policial sorri pra mim. Um lindo bebê no colo de sua mãe faz o mesmo. Bem. Vejo que o mundo sorri pra mim. Só voltarei a vê-lo à noite. Que tipo de dia terei nesta cidade tão bela e tão enigmática? Sou mais estranha no Rio do que seria em Nova York. E o Rio me é por demais estranho. Eu não entendo o Rio. No Rio eu não sei quem eu sou – e isso me aproxima de mim. É o tipo de lugar onde me sinto a todo instante pronta para uma gafe. Só que hoje não. Hoje eu sou da gema. Marisa Monte e Chico Buarque já muito me ensinaram sobre carioquices. E tenho aprendido até que ser carioca é não ser carioca. Não há, por exemplo, coisa mais boba que um carioca sair falando que é carioca. Seria como gente ter que falar que é gente. Não se diz “sou carioca”. Triste do carioca que precisa dessa afirmação. E cariocas não deveriam ser tristes.

    Well. Depois de ter andado um bocado pelas ruas, praças, museus, Metrô, acho que vou beber algo. Chope? Vinho? Chope? Vinho? Não está tão frio assim: chope. Espuma gostosa. Lembra o beijo de ontem com gosto de cerveja. Penso em como eu demorei na vida a gostar de cerveja. Nossa… Demorei a gostar de tanta coisa. Acho que demorei a gostar de homem. E veja hoje como estou… Apaixonada por um. Paixão: esse negócio que o Freud parece ter tratado como desvio comportamental. Não sou especialista em Freud, mas assim li algo a respeito. Eu, finalmente uma mulher apaixonada. Mas quem sou eu? O que posso falar de mim? Meu nome é Michele. Sou filha de mãe brasileira com pai francês. Não conheço meu pai, a não ser pelas lembranças de minha mãe, além de uma fotografia dos dois tirada com uma antiga câmera Canon automática equipada com timer, vejam só, num quarto de hotel. Seus olhos sorriam na foto. Eles se conheceram num carnaval, de onde eu fui concebida. Então ele partiu pra não mais. Não gosto de carnaval. Não que eu não goste de bagunça e de climas orgíacos. Gosto de farra. Pode ser um traumazinho básico, relacionado a meu pai, a quem um dia pretendo conhecer. Eu preciso rever esse negócio com o carnaval. Se eu nasci de um carnaval, e se eu gosto de existir, logo eu deveria gostar de carnaval. É. Mas não gosto por enquanto. Gosto de passar a noite na balada, mas não muito. Prefiro o dia. E não gosto de natal também porque acho que todos ficam hipnotizados – e outros acordados demais, o que os faz mergulhar em tristeza. Também não gosto de ano novo. No entanto, gosto sim de certas celebrações. Difícil entender, eu sei. Sou de Touro, mas isso não faz a menor diferença, pois não acredito em astrologia. Minha cor preferida é o vermelho. No entanto, não uso roupa vermelha. Se eu botar vermelho eu não fico meia hora sem ir a um espelho. Sei lá. Acho que o vermelho é sagrado. Só é bom pra vestir modelo de revista e pra propagandas de Coca-cola. Até batom vermelho na minha boca me acanha. Não acredito em Deus. Tenho muito medo da morte e da velhice. Às vezes quase me pego rezando – rezando não sei em nome de que ou de quem. É a falta que um deus faz. Mas é foda. Deus se foi como o Papai Noel. Mas eu continuo acreditando em um monte de coisas que seriam absurdas para um físico ou astrônomo. Parece uma piada até pra mim: eu costumo acreditar em metade da laranja. E pelo que tenho vivido com esse cara… Puta que pariu… somos as metades de uma laranja. Ah. Que nada. Ele é apenas alguém a quem adoro porque me faz gostar de mim como eu nunca havia gostado. Obviamente isso não é pouco. E, saiba-se, pra eu adorar algo, é porque o objeto é digno de adoração.

    “Posso me sentar aqui?”, ela pergunta. Tenho certeza: é a senhora idosa que arrastando os pés sorriu pra mim quando eu saía do hotel. “Sim, fique à vontade”, respondo. “Mas… a senhora, quem é? Nos conhecemos?” Ao que ela me responde com uma pergunta, no mínimo, estranha: “Você gosta muito de cinema, não é, querida? Gosta da ‘trilogia das cores’ do Krzysztof Kieslowski, não é mesmo?” Essa foi mesmo surpreendente: uma senhora tão velhinha falando de um assunto tão específico. Ainda que ela seja uma cinéfila, a pergunta é desconcertante. Se ela gosta de cinema, esperava-se que fosse falar sobre algum filme antigo, tipo Casablanca, sei lá. Mas Krzysztok Kieslowski foi demais. “Você já me viu antes de hoje”, ela continua. “Sou aquela que aparece nos três filmes, ‘A Liberdade é Azul’, ‘A Igualdade é Branca’, e ‘A Fraternidade é Vermelha’, tentando colocar uma garrafa numa grande lixeira, mais alta que minha estatura, somente conseguido no terceiro filme”. Então trata-se de uma atriz, que coisa legal. “Sim, é claro que me lembro das cenas. Aquelas cenas fizeram muita gente pensar em muita coisa, a senhora deve saber disso. A senhora é atriz profissional?”.

    Sei que todo tipo de estória já foi contada, e que meu caso é só mais um. Já li coisas muito estranhas, como, por exemplo, um livro em que uma menina conversava com sua vagina. Acontece que se acharmos que não falta mais nada pra se mostrar, a literatura pára, a música pára, a arte pára, a imaginação pára, o sonho pára, a vida pára. E sei também que o aconteceu comigo foi real, não é ficção, eu juro. Aconteceu comigo num momento em que eu estava inundada de sentimento. Porém sóbria – não duvidem –, como poucas vezes estive em toda a minha vida. Que coisa chata essa de pensarem que os apaixonados estão dentro de um surto psicótico. Todos tentam viver uma vida emocionante. Gostam de se emocionar com os filmes, de se excitar com as viagens, de ficarem exultantes com a apresentação teatral do filho na escola… Mas quando alguém se apaixona – é isso é a grande emoção do ser – é tratado hoje como um insensato. Apaixonar-se por dinheiro pode. Apaixonar-se por gente é tolice, como parece dizer o novo senso-comum. O dinheiro é o verdadeiro deus deste mundo. Ele passou a ser a premissa para qualquer coisa que chamem de amor ou paixão. Por ele as pessoas vivem e morrem. “Deixe-me esclarecer uma coisa, minha bela menina”, continuou a falar. “Eu jamais tive o privilégio da juventude. Sempre fui velha. Sabe por que? Porque eu não sou uma mulher como você e como as que conhece. Sou uma personagem sem nome dos filmes do Kieslowski. A pobre mulher idosa que mal consegue andar. O que não quer dizer que eu não exista, pois personagens de filmes são mais reais que o que aprendemos a chamar de gente de verdade. O que tive em minha vida? Uma rápida aparição em três filmes. Pode parecer pouco. No entanto, isso me eterniza e me faz existir, compreende? Não se preocupe, você não está ficando maluca. Você está apaixonada, é verdade, mas não louca. Eu estou aqui, pode me tocar”. Levei minhas mãos até as dela e soube que era ela real. Suas mãos enrugadas e manchadas pela idade eram quentes. Subitamente chorei. Sem barulho, chorei com minhas mãos envolvendo as dela. Ela também estava emocionada, porém sem lágrimas – o que é típico de pessoas daquela idade. “O que a senhora faz aqui? Porque me procurou?” Com a voz cansada e mais doce do mundo: “Minha querida… Nós, personagens de filmes somos, imortais e onipresentes, mas não somos oniscientes. Portanto eu não sei o que me trouxe aqui. Talvez o Grande Diretor saiba.” “Grande Diretor? A senhora está me dizendo que Deus existe?” “Todos dizem que sim, não é mesmo? Muito embora eu tenha estado em toda parte e nunca o tenha visto. Eu sou criação da mente de um cineasta. Isso me faz preferir achar que as coisas são criadas por alguém. Já pensou que neste momento você pode estar sendo dirigida, fazendo parte de um filme? Consegue se lembrar, por exemplo, como foi parar naquele quarto de hotel? Você pode me dar um cigarro?” “Sim, claro”. Acendi o cigarro para ela, que tremia. Nesse instante fumávamos juntas, e isso é puro cinema. Pensei em voz alta, com os olhos parados: “Na verdade eu não consigo me lembrar de como cheguei ao hotel. Lembro-me da minha infância até. Mas não de como cheguei ao hotel”. Ela tossiu. “Não interessa ao roteirista, meu amor, explicar como você chegou ao hotel. Eu preciso ir embora” “Não! Por favor, fique mais!” “Adeus, linda moça!”. Ela levantou-se com bastante dificuldade e foi embora vagarosamente. Não sei porque motivo eu não tive forças para me levantar da cadeira e acompanhá-la. Fade out. De repente, como aconteceu com Juliette Binoche em “A Liberdade é Azul”, o sol veio bater suavemente em meu rosto ali na mesa daquele bar. Como é lindo um raio de sol no meio de uma nublada tarde de inverno no Rio. O sol veio como música. Podia ouvir o seu calor em meu rosto. Foi numa situação mais ou menos assim que a personagem de Juliette vislumbrou a velhinha a andar na rua com enorme dificuldade, possivelmente a pensar “e quando eu ficar velha?”.

    Já no hotel, sentada no chão do box, com a água super quente batendo na minha cabeça, com os dedos indicadores tapando os ouvidos pra poder ouvir melhor o barulho da água chocando-se contra meu couro cabeludo sem a interferência do barulho da resistência elétrica do chuveiro, fiquei a pensar em tudo o que havia acontecido. Já não pensava mais no meu homem, mas apenas no que havia representado meu encontro com a velha senhora que me sorriu e me disse aquelas coisas. Engraçado: nos filmes ela não parecia ser o tipo de pessoa capaz de sorrir fácil. A personagem, sorrindo, se modificou pra mim – e como eu gostaria que alguns personagens que margeiam minha vida se modificassem pra mim. Egoísmo, eu sei. Porém seria aquela sempre a velhinha corcunda, ainda que pudesse sorrir, como não tivera a oportunidade de fazer nos filmes onde aparecera tão brevemente. E quanto a mim? Poderia eu voltar a sorrir depois de tudo o que houvera passado naquele dia. Alguém pode sorrir em meio a um turbilhão de dúvida? Alguém pode sorrir ao pensar nas desgraças do mundo, e se existe Deus, etc? Alguém pode sorrir enquanto pensa se sua vida é real ou se está dentro de um filme?

    Seco os cabelos, ainda nua, frente à janela que dá para a Baia de Guanabara. As luzes do anoitecer carioca nesta janela de hotel podem trazer tantos pensamentos que acabamos por misturá-los de tal forma que chegamos a um estado de quase-não-pensar. Tento também não fazer esforço para ter pensamentos recorrentes sobre tudo o que aconteceu. Distraio-me olhando para o meu corpo, meus pequenos seios, meus pêlos pubianos muito negros, minhas pernas finas… Meu magro e belo corpo. Mais magra do que eu gostaria, é verdade. Mas tudo bem. Afinal, quem está cem por cento em paz com seu corpo? Acho que ninguém. Tenho força. Tenho poesia. Tenho pensamentos. Tenho um apaixonado – parece que ele está apaixonado por mim. Já ia me esquecendo, ele vai chegar daqui a pouco. Neste instante gostei de pensar nele, de quem já havia me esquecido. Campainha toca. Visto-me antes de atender. Ao abrir a porta, sorrio. Sorrio finalmente. Ele entra. Pergunto se ele está bem. Nos abraçamos com calor. Sentamos na cama sem muitas palavras. Nos damos as mãos. Venha o filme.

    *

  • 1ª Escola a Desfilar: Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil

    “Vale uma nação/ Vale um grande enredo/Em Niterói o amor venceu o medo”. Será que o medo foi realmente vencido? O samba-enredo da Acadêmicos de Niterói, ao menos, mostra que essa escola não teve medo nenhum ao escolher qual seria o tema de seu desfile. Isso porque, em um país extremamente polarizado, essa escolha certamente despertará a admiração de alguns e o ódio de outros. A escola (estreante no grupo especial) de Niterói promete que passará na avenida mais um samba popular. Será?

    Sem mais perguntas, vamos falar mais um pouco sobre o enredo da Acadêmicos de Niterói. Conforme já deve ter percebido, a escola fará uma homenagem ao atual presidente Luiz Inácio da Silva, o Lula, que, segundo cita a sinopse, é o político mais bem sucedido de seu tempo. Concorda com essa afirmação? Independente disso, fato é que Lula tem uma história a ser contada. Se assim o é, como isso será feito?

    De acordo com a sinopse, tudo se inicia em sua infância no agreste pernambucano, onde Lula, menino pobre, foi criado por Dona Lindu junto aos seus sete outros irmãos, ouvindo histórias de almas penadas. Diante da seca de 1952, saiu de Pernambuco em migração para São Paulo em viagem que durou 13 dias e 13 noites. Na nova cidade, tornou-se operário, virou figura chave na luta sindical durante a ditadura militar e tornou-se presidente com mais de 52 milhões de votos.

    Essa claro, é a história super resumida. Fato é que a escola pretende exaltar os feitos de Lula voltados aos trabalhadores e a redução da pobreza. Isso, é claro, sem perder a oportunidade de alfinetar o seu grande adversário no cenário político atual.

    Sobre o samba e o enredo que será apresentado pela escola, a maior curiosidade está relacionada a aceitação do público. Será que o samba será cantado pela Sapucai? Vamos aguardar. Além disso, será que a escola vai conseguir cumprir o desafio de se manter no Grupo Especial?

  • A falta

    Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras coisas do gênero. Não consigo ver sexualidade numa menina de oito anos. Por que ela está pensando tanta besteira? Meu Deus, às vezes me dá um aperreio incomum quando penso que ela pode engravidar cedo, e falo, ríspido, que não me venha com essas conversas de adulto. Quando Ana partiu, há seis meses, vítima de um câncer brutal, percebi que só havia eu e Larissa. Ela, também, fez de tudo para ter a minha atenção. Não quero que sofra um pingo do que sinto. Mas é inevitável, perdeu a mãe, a quem tanto ama. Para isso, não tenho explicações. A menina está rebelde e revoltada com a vida; não aceita que Deus tenha levado o seu grande amor. Ela jura não crer mais num Deus carrasco, que destruiu a nossa família. Tento amenizar, mas não tenho forças, e acho até que ela tem um pouco de razão nessa revolta toda. Marina, minha irmã, diz que há um presente de Deus que eu devo guardar com todas as minhas forças (que me restam), a presença física e o amor da minha filha. Minha irmã é muito católica, daquelas fervorosas e exageradas, então eu escuto o que tem a dizer com parcimônia, nem tudo levo a sério. Ela disse que minha filha é um anjo que Deus colocou na terra para cuidar de mim. Não penso exatamente assim, porque minha filha tem suas arengas, seus defeitos, suas implicâncias comigo, que até cheguei a duvidar, quando minha esposa era viva, se devia mesmo ter sido pai, porque não tenho tanta paciência, sou um pouco estressado com rebeldia desnecessária. A menina agora cismou que quer uma bicicleta motorizada, para ir sozinha à escola, porque jura que já é grande e tem capacidade para isso; porque moramos a cerca de três quadras do colégio. Não vou comprar uma bicicleta motorizada para uma pirralha se achar a dona do mundo, para andar por cima da carne seca (seus amiguinhos). Lutei muito para conseguir as minhas coisas, então lhe disse que terá de trabalhar, na idade certa, para ter os seus bens, inclusive a bicicleta motorizada; não vou dar essa colher de chá, apesar de ainda ter muita pena dela. Na verdade, estamos, os dois, de luto. Apoiamo-nos na medida do possível. Mas permito que ela elabore a perda irreparável, e isso resulta em gritos e pontapés; é uma cena pavorosa de se ver. Ana amou demais, por isso foi tão amada. Só fez o bem. Até eu mesmo me revolto com Deus. Isso não é justo. Ana não merecia ir tão rápido. Ela era uma alma esplendorosa na Terra. Iluminava aonde chegava. Agora estamos órfãos de um amor dadivoso. Não sei como isso vai terminar.

  • O Bom Humor de Cada Dia

    Não sei quanto a vocês, mas acho que o bom humor anda em falta no mercado. Houve um tempo em que bastava virar pro sujeito no ponto de ônibus, reclamar da demora, e alguém já emendava uma piada. O dono da banca comentava o calor, o porteiro dizia qualquer bobagem, o manobrista ria de si mesmo, o flanelinha improvisava um comentário espirituoso, a moça da farmácia devolvia o troco com uma graça inesperada. A gente ria no meio do dia, sem perceber. De uns tempos pra cá, perdemos esse jeito tão brasileiro de ser, trocar o mau humor por uma boa risada virou exceção.

    Pensei nisso quando reli a oração de São Tomás More, inglês do século XVI, nascido em Londres em 1477, juiz conhecido pela honestidade, de quem o Papa Francisco tanto gostava. “Dai-me, Senhor, um pouco de sol, algum trabalho e um pouco de alegria”, pedia ele. Veio a pandemia, depois a morte do Papa, e alguma coisa se perdeu pelo caminho. As pessoas andam sérias demais, economizando o riso, como se ele fosse artigo de luxo, reservado às festas de família.

    Não sou lá muito religioso, mas desconfio que a alegria seja a coisa mais sagrada. Mesmo sem missa aos domingos, faço dela a minha. “Dai-me uma boa digestão e algo para digerir”, rezo no trânsito, parado, olhando o sinal fechar outra vez. Todo mundo deveria pedir o mesmo, criança, velho, adolescente, marido, mulher, jovem. O bom humor sempre foi traço do nosso povo, algo espontâneo, quase automático.

    Condenado por não aderir ao cisma religioso, São Tomás More escreveu essa oração na prisão. “Dai-me a graça de encontrar o bom sentido”, suplicava. Nós também vivemos cercados, cada um em sua pequena prisão particular, o trânsito, as contas, a solidão. Um sorriso ao porteiro, retribuído, ainda faz diferença, mesmo que a gente não saiba medir.

  • Vilania

    Seus trabalhos remunerados os sustentavam e não eram tão degradantes. Mila Cox e Zími sabiam que a distância que mantinham do mainstream era de se esperar. 

    A repercussão que conquistaram resistindo, e às vezes  se arrastando no underground durante os últimos anos, era satisfatória. Eles gostavam de acreditar que a dor existe no que há entre aquilo que as pessoas são, e aquilo que elas idealizam ser. 

    Como eles não tinham o ego inflado, estava tudo bem. 

    Haviam também motivos extra-musicais para essa postura.

    Essa parceria musical tinha pouco mais de um ano quando foi decretada a pandemia.  

    Tinham feito poucos shows até então. Puderam compor e lançar músicas na internet.

    Estavam agora num ponto em que poderiam dizer que  enfrentaram condições gerais hostis desde o princípio.

    Percebiam que em certos momentos, estavam influenciando positivamente vidas juvenis e dando um choque em mentes reacionárias.

    O anonimato que Mila Cox e Zími ainda tinham podia ser uma arma em suas mãos.

    Artistas obscuros eram mais legais para eles.

    O som que faziam era impalatável para as massas.

    Como já mencionado antes, seus trabalhos remunerados os sustentavam e havia um certo tempo livre e de isolamento para criar, e assunto não faltava.

    Manter distância da soberba e presunção de grande parte da cena musical mundial era não só um lema para suas vidas pessoais, como também uma temática para suas músicas.

    “Putsss, tô fudido!” – foi o que Zími pensou ao se lembrar que estava na véspera da gravação de um podcast. Ele adorava podcasts, mas não sabia e não se perguntava quando participaria de um.

    Mila Cox também nunca havia aparecido em nenhum podcast, mas tentava acalmá-lo.

    “Acho que quando você começar a falar, ficará mais fácil. Apenas tome cuidado e não grave chapado.”– ela disse.

    “Eu nunca me tornaria fascista, nem racista e nem machista, mesmo chapado. Mas entrarei careta e falarei somente o necessário.”– ele respondeu.

    Zími disse se tratar de um tipo de nervosismo que bateu na véspera.

    Diferente de quando ele fazia shows, e o nervosismo surgia apenas quando o momento da apresentação estava próximo.

    Apenas pensava que quando fosse o momento, falaria de seu projeto musical.

    Ele até então concentrava sua exposição fazendo shows e lançando músicas na internet, e com eventual produção de mídias físicas, em vinil e cd.

    Analisava a repercussão e algumas consequências positivas e negativas de ampliar a sua exposição para além de um produto artístico, aprendendo com o que foi feito pelos que vieram antes.

    Aproveitava do que havia de bom em ser um sujeito desconhecido que apresentava na internet as suas músicas.

    A semana em que Kevin’Geordie’ Walker e Shane MacGowan morreram quase simultaneamente, representou a queda de dois pilares culturais para Mila Cox e Zími.

    Então começou o mês de Dezembro, e os esboços que tinham para novas músicas naqueles dias eram sobre a insatisfação inerente à existência. Iriam então adaptá-las, para que também servissem como homenagem aos músicos falecidos. 

    Então decidiram que em breve deveriam lançar mais um single, para ficar pronto até o fim do ano.

    Os singles de antigamente tinham duas músicas, uma para cada lado do compacto de sete polegadas. 

    Hoje em dia singles tem uma música só, mas eles fariam à moda antiga, para lançarem também em vinil.

    Dias antes, Zími sentia algo parecido com uma crise de meia idade, algo que ele nunca pensou que fosse enfrentar, e nem mesmo tinha certeza de que fosse esse o caso.

    Desde o tempo em que era um moleque que vivia com os pais, ele não se sentia tão estável na vida, e ironicamente, isso lhe causava estranheza.

    A vida continuava sendo a tentativa diária de equilíbrio entre escolhas e consequências, mas agora tinha uma residência fixa, com as contas pagas em dia, tinha comida em casa.

    Havia enfim uma estrutura geral digna para um cara de quarenta e seis anos que precisava achar equilíbrio entre ação e sossego.

    Às vezes chegava a ser estranho para ele, que agora não vivia mais tão amargurado com os altos e baixos de sua vida.

    O lar é onde uma pessoa cessa as tentativas de fuga .
    Dizia que o casamento duplica as obrigações de uma pessoa, e reduz à metade os seus direitos. 

    Sempre esteve decidido a  continuar solteiro, pois também temia que sua vida artística sofreria, caso ele se casasse, seja lá com quem fosse.

    Enquanto refletia sobre como deixou de desejar tão intensamente viver apenas para ver o fim da humanidade (onde o final definitivo nivelaria de uma vez por todas os indivíduos de qualquer época apenas como pertencentes a uma espécie extinta por autodestruição), pegava embalo no entusiasmo juvenil de Mila Cox para criar e continuar contestando valores estabelecidos que ele desprezava.

    Ao mesmo tempo pensava no grau de seu egoísmo em relação às gerações que o sucederiam, e que pouco ou nada tinham a ver com a situação do planeta e nem com as vergonhas sucessivas causadas pelos poucos humanos que realmente ditam regras, seja em termos de degradação ambiental irreversível, seja nas relações também tão degradadas já no século vinte e um adentro.

    O que sempre houve foi uma força individual e coletiva pela consolidação de uma existência frágil e finita, que pode ser perpetuada pela glória ou pela vergonha

    Muitas vezes sem que os protagonistas ainda estejam vivos para aproveitara glória ou se redimirem da vergonha.

    Zími dizia ser como um cachorro velho, que demora para se acostumar a novos lugares e realidades, e em seu caso isso parecia valer até para a prosperidade material. Talvez por receio de perdê-las por algum motivo, e aí sim ter uma nova mudança desfavorável.

    Sua parceira musical Mila Cox era vinte e seis anos mais jovem, e isso agora lhe motivava a fazer música até morrer, embora não tivesse a pretensão de ser eternizado por isso. Pensava que depois de morto isso não faria mais diferença.

    Tratava-se de aproveitar sua existência em vida, seja lá qual fosse o seu sentido.

    Geralmente um artista não está preparado para uma ascensão meteórica.

    A queda vertiginosa que normalmente a sucede é um golpe ainda pior.

    Mila Cox e Zími nunca viveriam a primeira situação, pois já trabalham há algum tempo para deixarem música relevante para o público que a assimilar.

    Cox costumava dizer que a música deles era um manifesto de esquizofrenia e promiscuidade musical. 

    Dificilmente atingiria um público imenso, mas pensava em colher frutos mesmo com um público não tão grande.  

    Ela nunca considerou outra possibilidade que não fosse questionar tudo, e usar a música como recurso. 

    Sabia que as massas viviam um cotidiano que não fazia referência a nada superior, e explorava essa temática.

    E o resultado a ser colhido seria poder fazer turnês mais estruturadas, para lugares mais distantes, para além de cidades do sudeste e sul do Brasil.

    Aprendera certas lições ao longo da vida, e há muito havia entendido que não há glamour para ninguém, quem quer que fosse.  

    A certeza da morte vindoura, cedo ou tarde, ainda o entristecia um pouco quando pensava no assunto. 

    Seu receio era de sofrer doente antes de morrer.

    Mas estar fazendo rock com quase cinquenta anos, depois de uma pausa que ele pensava ser definitiva, ao lado de uma jovem, que dias antes se desesperava com matérias antigas sobre queimas de arquivo da cultura brasileira em incêndios.

    Cox também adotou pouco tempo antes a palavra ‘estoicismo’ e o mencionava quando Zími estava azedo.

    Ela era pressionada pela família para que fizesse uma faculdade, e alegava ser impossível fazer mais pesquisas do que já fazia, tendo terminado o ensino médio e mergulhado na ideia de ter um emprego para sustentar a vida na música.

    Para Mila Cox, Zími tinha apenas eventualmente o humor de um cara de meia idade, mas não tinha a aparência e nem o comportamento de alguém que tivesse aos trinta e cinco.

    Havia entre eles uma simbiose artística que a permitia seguir sem deslumbramentos ou ilusões sobre a vida no meio musical.  

    Já para Zími, essa simbiose artística permitia continuar com ânimo para fazer música, lançando os trabalhos na internet e eventualmente em mídias físicas, e viajando numa Kombi para cidades do interior para fazer shows.

    A Kombi era do vizinho e amigo uruguaio Silvano, que na mesma faixa etária de Zími, começou tardiamente uma carreira musical, encorajado pela dupla, e passaram a trabalhar apoiando-se mutuamente.

    A parceria com Silvano, que agora era uma banda de um homem só, e misturava influências de punk rock, blues e rockabilly, mudou a vida dos três.

    Mila Cox e Zími formavam os Crop Circles, duo que misturava punk rock, post punk e psicodelia. Cox era vocalista, tocava contrabaixo e sintetizadores, e Zími também era vocalista e tocava bateria de pé, usando um kit minimalista.

    Conheceram-se quando Mila Cox e Zími se mudaram para o mesmo prédio que ele vivia há onze anos. Moravam no mesmo andar, o que facilitou a aproximação entre eles.

    Silvano falava português sem sotaque, pois vivia no Brasil desde pequeno.
    Seus shows eram agendados nas mesmas datas que os Crop Circles tocaram desde então.

    Quando soube que Zími estava nervoso por causa da gravação de um podcast, Silvano falou: “Deveríamos fazer um podcast semanal! Nem sei porque não pensei nisso antes!”

    Zími respondeu: “Publicidade é importante, mas excessos extra-musicais podem levar tudo à ruína.  Aumentar a fama sem ganhar dinheiro é o pesadelo que eu não quero ter. O contrário disso seria formidável, e se encaixa melhor naquilo que eu idealizo. Ter mais dinheiro e andar anônimo na rua seria incrível. Ou pelo menos conseguir que o aumento da popularidade seja proporcional ao do dinheiro.”

    Silvano: “Eu sei que muitas vezes se dá muito mais valor ao anonimato depois que ele é perdido. Mas no nosso caso, por mais bem sucedida que fosse  a estratégia promocional, no caso o podcast, isso não ia nos impedir de continuar frequentado a mesma padaria que frequentamos. Eu comecei a carreira musical agora, mas não ter sido chamado pra uma entrevista sequer, chega a me incomodar”

    Zími: “Eu odeio essa parte. A Mila é quem responde na maioria das vezes, e ela adora. Eu não me importaria se fosse sempre assim. Algumas vezes as pessoas, geralmente estudantes, querem falar especificamente comigo. No lugar do orgulho e do entusiasmo, fica uma certa ansiedade.”

    Silvano: “Você não deveria se preocupar com o surgimento de haters.”

    Zími: “Eu não me preocupo com o surgimento deles. Eles já existem, mas são tão ignorantes que nem mesmo sabem que eu existo. Assim que tomarem conhecimento, gritarão na internet daquela forma que você não vê ninguém gritar na rua. A essa altura, a nossa popularidade será maior. E essas pessoas são tristes, ignorantes, pretensos algozes da liberdade. Eu não aguento nem pensar sobre eles. Há sempre um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.”

    Então Mila Cox disse que estava pensando em chamar um saxofonista para concluir algumas músicas.

    Zími perguntou: “É pra imitar o X Ray Spex? “

    Mila Cox: “Também, um pouco. Mas há muitas  outras influências que apontam essa possibilidade. Não seria nunca um membro oficial da banda. É para intervenções pontuais em uma música. Sei que um saxofone aleatório pode descambar pra cafonice, mas não é o nosso caso. O Zappa fazia bom uso quando precisava porque ele também satirizava. Era isso que cortava o risco de ser ridículo.”

    E ela saiu do apartamento. 

    Pela janela, minutos depois, Zimi e Silvano a viram entrando na padaria do outro lado da rua, provavelmente para beber.
    Ela só bebia quando tinha bloqueio criativo. 

    Eles bebiam muito e ela os chamava de alcoólatras.

    Entraram na padaria e lá estava Mila Cox conversando com Zíron, que provavelmente havia combinado de se encontrar com ela.

    Zíron tocava sax e já estava avisado que não seria membro oficial dos Crop Circles, apenas poderia fazer participações eventuais em gravações.

  • Poema #54: Intervalo

    “Eu quero os meus brinquedos novamente!
    Sou um pobre menino
    Que envelheceu, um dia, de repente!”
    Mário Quintana (1906-1994)

    Tenho quarenta e cinco anos
    e já neste meu último aniversário
    foi levantada a hipótese irreversível
    do envelhecimento antes da morte,
    mas nunca sabemos o que virá primeiro.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
    entrando pela porta da frente dos ônibus
    e viajando de graça pelo país dos meus netos.

    Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
    no banco e haveria um guichê específico
    esperando a minha dificuldade de caminhar.

    Soube também que eu poderei requerer
    um acréscimo no valor da aposentadoria,
    para gastar com hospitais, médicos e remédios.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    A minha vontade é rasgar
    o estatuto do idoso
    e voltar a ser criança.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Solas

    Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa.

    25 de Janeiro de 1851

    Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me espera pelas entranhas do Flamengo. A luz é perfeita; Jobim canta ao pé do meu ouvido, sua respiração quase roça minha nuca, numa versão acústica em que o som se propaga, encontra os meus poros e traduz-se em arrepio. Meus olhos observam o entorno, meus sentimentos exalam bossa nova e transformam o banal nessa crônica (não sei se haverá fôlego para chegar ao final):

    Os sapatos, importam

    Desde sempre.
    As solas se aprimoraram ao longo dos tempos para que, integralmente, a pele do peito do pé não endureça. Engenharia, borracha, costura, cálculo. Os sapatos importam tanto ou mais que os relacionamentos, que acabam por endurecer os corações. Não protegemos nosso centro vital com a mesma engenharia obsessiva dedicada às solas.

    Me deparei, por acaso — dessas coincidências que fingem surpresa, ou não passam de meros algorítimos— com um diário de Tolstói. A data do registro é a mesma deste domingo. As palavras não envelhecem nem obedecem à finalidade de quem as trouxe ao mundo; apenas se deslocam. Cento e setenta e cinco anos depois, arrebentam como ondas inesperadas no asfalto carioca.

    “Fique em casa”. Reverbera enquanto entro no Uber, ar climatizado e motorista sisudo. À primeira vista.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    Tolstói faria disso um erro juvenil.
    Eu, com algum acúmulo de maturidade gasto na sola dos sapatos, chamo de insistir no que já deu sinais de fracasso. Meu uber me guia para caminhos com cheiro de casa. Avançava devagar. Chovia daquele jeito que não é chuva — é o teste de humor do carioca. Tudo ficou cinza. A expectativa do por do sol nubla.

    Anteontem choveu muito. Quando chove assim, a gente aumenta a atenção, ele disse. Um carro passou na minha frente, bem aqui perto. Era tudo água. Do nada, uma onda engoliu o carro. Pense no desespero.

    Fiquei em silêncio.
    Era exatamente o tipo de coisa que Vinícius diria, apoiando o cotovelo numa mesa da Glória, antes do segundo chope.

    A vida acontece nesses momentos, eu continuei. Do nada, um carro surge na contramão; um pedestre corre fugindo de um assalto; um motorista cauteloso tem a esposa a parir no banco de trás. A vida não é planejamento. A gente se ilude achando que tem controle sobre uma coisa qualquer. Nem sobre o mundo, nem sobre o que existe dentro da gente. Às vezes, nem sobre a própria pele. Do nada aparece uma gripe.

    Mas sempre podemos fazer uma tatuagem a nossa maneira, sorriu o astuto motorista. Desci.

    Jobim cantaria isso com um piano manso, como quem sabe que não há solução — só caminho. E o caminho, meus caros, só serve aos pés.

    Já escrevi diários prometendo preenchê-los até o fim. Hoje prefiro anotações em folhas avulsas, presas por argolas metálicas: a ilusão honesta de que posso reorganizar tudo depois. A arquitetura me ensinou que o processo de criação não é linear. O Chico parece ter aprendido isso cedo, quando desgarrou de arquiteto para artista. Eu ando experimentando o mesmo tipo de sapatos. A vida acabou me sinalizando que os pensamentos também não são lineares, tampouco unidimensionais. Sequer o tempo é regido por algo que seja levemente parecido.

    Logo pela manhã, ao despertar ao lado de Copacabana, em inércia horizontal, a pele é nua; os pés nem chegam a sentir o peso do lençol. Há preguiça, há coerência, há segurança. Levantar é sempre um risco. O encerado do piso chega antes à cabeça que ao toque dos pés. Por isso calçamos sapatos, sejam eles despojadas havaianas: para atravessar o dia enganando-nos de algum controle.

    Se Tolstói não trajasse sapatos, talvez o registro fosse outro. Protegendo as solas para chegar às festas, perdeu a cabeça — e quem sofreu, coitado, foi o peito. Qual não seria o estrago se os pés sentissem sem amortecer o impacto?

    Há paixões que são lindos girassóis. Há encontros que despertam uma das partes mais bonitas que temos dentro de nós, honestamente livres, que vivem apenas de chinelo nos pés. Não pesam nada, não prometem nada. Destravam a intensidade, a vontade de viver e excesso de medo que trazemos dentro. Tiram nossos sapatos e fazem a conexão instantânea dos pés à cabeça. Não protegem. E cumprem exatamente isso: vida. Há quem chame esses tipos carioca. Não é o gentílico, mas um tipo cultural de se existir. Podemos encontrar cariocas por todo o mundo. A liberdade alheia não é o problema; é a insistência de um turista em levar adiante idealizações alimentadas promessas regadas a pele bronzeada e sorrisos com sabor de água de coco. Amores que vivem melhor no papel do que no chão, porque no chão, a sola protege. Na espera, no entremeio, na possibilidade há segurança.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    O sentimento é o mesmo de se ver, da janela, o Corcovado e o Redentor. Que lindo.

    Existe esse conselho antigo — e suspeito — de que o poeta só é grande quando sofre. Sofrer e gastar muitas solas de sapato. Antônio acreditava nisso. Um exímio amante dos sapatos. Eu desconfio: a grandeza, quem sabe, não esteja no sofrimento, mas na travessia. Em se saber quando não comprar o
    cavalo. Em desfazer a mala. Em não confundir chuva com destino.

    Nossa casa querida, que não é o Rio de Janeiro, em si, nas as entranhas desprovidas de segurança do nosso corpo, é como amendoeiras à espera de jacarandás. Vida e sonho.

    Achegue-se, meu bem.
    O mundo é mal, mas leva — se levar — outra vez a um caminho que pede solas novas. Me abrace simplesmente, diz a árvore, sábia com seus troncos largos. Não fale. Não lembre.

    Porque eu sei — e você sabe — que a distância não existe.
    O que existe é o chão.

    E todo grande amor só parece grande quando é triste porque, no fundo, nos obriga a caminhar descalços por territórios para os quais não nos preparamos. O poeta sofre, dizem, porque anda demais. Talvez sofra porque insiste em proteger os pés quando o corpo inteiro pede impacto.

    Se é para doer, que doa sem amortecedor.
    Se é para seguir, que seja com as solas nas mãos.

    Há caminhos que não pedem sapatos, pedem presença.
    E o coração vai sentir — de um jeito ou de outro.

    Que ao menos sinta inteiro.

  • Chegar partindo

    Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos.

    E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa.

    Na tentativa de minorar a culpa, a busca de alguma justificativa que abrande o remorso, acalme o coração.

    Mas eu não sabia que você sabia.
    Que a vida é tão boa.

    Não sabia, não queria, não, não…a negação brota e floresce com a proposta de um bálsamo para a dor do erro. Escusa que se repete como um mantra e ressoa, na esperança da complacência divina, humana, ou da própria consciência. Há perdão para quem não percebe a grandeza da vida?

    Se é tarde, me perdoa.
    Eu cheguei mentindo.
    Eu cheguei partindo.
    Eu cheguei à-toa.

    Ninguém chega à toa nessa vida. A chegada é uma porta que se abre para qualquer direção.

    Chegar partindo é chegar mentindo para si mesmo, como se nada houvesse entre o nascente e o poente. É como quebrar a bússola que orienta o caminho da existência, para que ela nãoMmostre os desencantos do amor ao Sul, os banhos de lágrimas ao Leste, mas também o quentura do amor ao sol do Leste. Somente o ponto Oeste da redentora despedida.

    Em cima da mesa, um bilhete dobrado. Maria sentou-se para ler, ainda atordoada pela partida de João. Chegou como quem chega do nada, nunca esteve totalmente presente na relação, e do nada se afastou. A que veio então? O bilhete assim dizia:

    Se é tarde, me perdoa.
    Trago desencantos.
    De amores tantos pela madrugada.
    Se é tarde me perdoa.
    Vinha só cansado.

    Tema de inspiração: Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli: Se é tarde, me perdoa

  • Quando deixamos de ser heróis

    É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!

    Não deveria ser assim, mas é…

    Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!

    Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?

    Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…

    E a vida segue!

    Afinal, o baile não para e não pode parar!

    Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…

    E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…

    E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!

    No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!

    E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!

    Não somos perfeitos e nunca seremos.

    E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.

    Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…

  • Eu sou motoboy

    Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.

    Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.

    Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.

    Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.

    Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui.  Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.

    Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.

    Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.

    Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.

    Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.

    Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Sabedoria de bar

    Três amigos se encontravam com frequência em um botequim no Bairro dos Prazeres. Depois de uns goles de cerveja, ganhava fôlego o debate sobre as idiossincrasiasda humanidade. A cada semana uma nova reflexão.

    — Ser humano é um bicho engraçado. Reclama da falta de sorte, de tempo, de oportunidade, mas quando surge uma chance de mudança se angustia, perde o sono com medo do risco, do desconhecido.

    — Sim, verdade. Mas o que eu acho mais bizarro é a síndrome do insatisfeito. A pessoa sofre por tanto desejar uma determinada coisa e quando consegue, em pouco tempo, a graça se vai. Sem falar que o que pertence aos outros é sempre muito mais interessante.

    ─ Para mim, o que considero mais intrigante é o maldito apego ao sofrimento. As experiências ruins, as relações traumáticas, as decepções geram marcas existenciais insuperáveis. Nenhuma felicidade, sorte, conquista ou vitória é capaz de restaurar o estado inicial de alegria ingênua. A marca da insegurança fica ali eternamente ecoando a necessidade de atenção ao perigo. Uma vez perdida a fé na vida, para sempre o martírio do medo de sofrer.

    — Concordo com você, em parte, porque tem gente que apresenta uma inclinação natural para as relações desastrosas. Nutrem uma atração mortal pelos ordinários. Não aprendem com a experiência.

    — Sim, mas defendo que mesmo nesses casos, onde há um certo prazer no drama, não podemos descartar a existência do apego ao sofrimento. Embora talvez se apresente disfarçado de uma esperança masoquista. 

    — Pois eu já penso que o maior infortúnio da condição humana é essa necessidade de ser genial. Quanto mais necessitamos dos louros do reconhecimento, mais nos distanciamos de nós mesmos. Fica latente aquele medo de não corresponder às expectativas do outro, de não ser o melhor, o majestoso. Dou crédito às palavras do Freud: “Nós ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”. 

    ─ Setúbal, aproveite que você está servindo a nossa cerveja e nos brinde com um pensamento sobre a vida.

    ─ O amor é tudo menos ausência. Fiado só amanhã.

  • A vó do menino

    A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa.

    – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração.

    Serve-nos uma xícara de café, e continua:

    – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava.

    – Mas ele conheceu a vó?

    – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.

    – Então, é porque fica sozinho naquele casarão?

    – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá.

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • A palavra mais bonita

    Li há algum tempo uma pesquisa sobre a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apenas o conteúdo e responderam “amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade” e semelhantes.

    Essas são palavras nobres, não há dúvida, pois veiculam elevados conceitos ou sentimentos. Mas os responsáveis pela pesquisa estavam mais interessados na forma. Queriam saber das palavras como organismos sonoros ou mesmo visuais. Palavras que tinham uma beleza em si.

    É claro que não se pode abstrair a forma do conteúdo, significante e significado tendem a constituir uma unidade. São como cara e coroa.

    Quando ouvimos uma palavra, automaticamente a vinculamos ao que ela significa. Mas com um pouco de imaginação é possível dissociar esses níveis; fazendo isso, captamos a beleza que elas têm. “Amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade”, convenhamos, são palavras pouco expressivas. Tanto é assim que não as “percebemos”; vamos direto ao que elas significam e nos damos por satisfeitos.

    Mas duvido que você vá direto ao sentido de “crisálida”, “magnólia”, “puerpério”, “sobrancelha” (a preferida de Veríssimo) e outras que retêm a nossa atenção pela densidade sonora. Isso independe do significado.

    “Palustre”, por exemplo, quer dizer “pantanoso”, mas perde o que pode respingar nela de pútrido neste verso de Jorge de Lima: “A garupa da vaca era palustre e bela” (um verso cuja harmonia fônica encantava o meu amigo Antonio Carlos Villaça, de quem o ouvi pela primeira vez).

    A pesquisa de que falei queria palavras bonitas e, com isso, testava a sensibilidade poética dos leitores. A poesia é por excelência o terreno onde impera o significante, a forma. Isso não quer dizer que se pode escrever qualquer coisa desde que soe bem. “Qualquer coisa” nunca soa bem, pois um mínimo de nexo é desejável. No entanto, mesmo desse nexo estamos dispostos a abdicar desde que a mensagem se sustente como forma. “Rosa, sublime contradição. Volúpia de não ser o sono de ninguém debaixo de tantas pálpebras” – esses versos de Rimbaud, que cito de cor, não querem “dizer nada”. Mas como são bonitos, como impressionam poeticamente! E por quê? Porque visualizamos as pálpebras como pétalas (metáfora) e, com isso, aceitamos o sublime paradoxo apontado no início.

    Augusto dos Anjos é um bom exemplo de que, na poesia, a forma conta mais do que o sentido. Muitos dos que o admiram não compreendem seus poemas, mas se impressionam com a melodia áspera de versos como estes: “Produndissimamente hipocondríaco/ Este ambiente me causa repugnância…/ Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/ que se escapa da boca de um cardíaco.” Parece que quanto menos o “entendem”, mais o amam.

    Considerar as palavras por si (vendo-as ou escutando-as) e procurar atribuir-lhes os sentidos que parecem adequados é um bom exercício para as aulas de criação literária. Os alunos a princípio acham estranho esse processo de desautomatização, mas acabam gostando da brincadeira.

    Afinal, não deixa de ser engraçado descobrir que “jiló” deveria significar “um tipo de lagarta”; “boiola”, um molusco encontrado em água doce; e “erisipela”, uma exótica flor do Oriente.

    E agora, que tal aderir à pesquisa sobre a palavra mais bonita da nossa língua? Pensei em “sussurro”, “beneplácito”, “obnubilado”, mas vou ficar com “escafandro”. Não gostaram? Gosto não se diz, curte-se.

  • Um pássaro

    Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo.

    Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Havia agora um pássaro em sua vida. Tinha que repensar. Ato contínuo, tirou a perna da mureta da ponte. Iria recomeçar, percebeu-se pronto. Virou-se decidido a ir para casa e celebrar a vida nova que teria dali em diante. Não viu o caminhão que vinha veloz pelo outro lado e o pegou em cheio. Deu três piruetas no ar antes de se transformar numa pasta de ossos, sangue e vísceras em cima do asfalto. Assustado com o barulho, o passarinho voou para longe.

    A hora fatal nem sempre se apresenta como a literatura conta ou como os filmes mostram. Às vezes ela tem a aparência inocente de um pássaro, tem olhos e jeito de pássaro. Com alguma sorte, pode-se até ouvir um trinado como se fosse uma canção de despedida.

  • A verdade pela mentira!

    A composição de um mosaico de histórias, pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor.

    Se o livro for mal-ajambrado, e não nos levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico, que busca temáticas diferentes, sensíveis ao coração humano.

    A desconstrução de uma tradição, serve como alavanca para o desenho de uma nova narrativa, descrita pelos olhos e a percepção do escritor, envolvido na trama de uma obra de arte. 

    Sendo orgânica, não deve ter um fio desencapado onde o personagem está escorado em outro, como naquele momento em que Pedro ao falar de Paulo, transgride sua narrativa em forma de fofoca, e passamos a conhecer mais sobre Pedro do que sobre Paulo. 

    O Jornalista Italiano Tomaso Debenedetti costumava transgredir a verdade em seus textos, e como descrito acima, debochava do leitor. Trabalhou entre 1994 a 2010 para jornais locais em seu país de origem e criou uma conta falsa no Twitter onde anunciava a morte de personalidades, e com simplicidade estratégica utilizou aquele espaço, imitando um perfil confiável. 

    Lançava seu torpedo falso, para minutos depois anunciar que tudo não passava de uma pegadinha, coisa que repetiu por 10 anos, lucrando nessa toada.

     Uma delas deu errado, e ele assumiu sua jornada como “campeão da mentira”, como gosta de ser classificado. O mais incrível é que nunca foi processado por suas vítimas de seu ataque verborrágico jornalístico. O que o inspira é “dizer a verdade pela mentira” como definiu Mário Vargas Llosa. 

    Essas formas textuais ganharam nome atualizado de fake news, e ele escancarou as fraquezas do jornalismo com suas publicações reais e falsas, na primeira página de portais de notícias importantes. 

    Quando suportamos as confidências de um desconhecido, a revelação de seus segredos nos enche de assombros. Depois disso, devemos situar seus tormentos no drama ou na farsa? 

    Depende de nossa benevolência ou de nossa fadiga. O fraco de atenção sempre sofre mais que os outros, porque os olhos que o cuidam são cegos. 

    Igual a uma terra que não cuida de seus mortos, e que provavelmente está sendo governada pela morte. 

    Não deixe se esconder de você mesmo tão profundamente, pode ser difícil retornar ao mundo dos vivos e de suas rotinas.

     Seu destino com dedos cruzados é de responsabilidade unicamente de suas mãos, as mesmas que desenharam em canetas, poesias de sua história. 

    Os mortos não podem modificar suas esquinas, esses já encerraram as possíveis paixões. 

    Quanto a você, faça valer seus dias de glória junto aos seus, assumindo decisões escolhidas a dedo. Cada letra tem sua palavra pra juntar, e essa, suas famílias, que podem mudar de ideia, eventualmente de uma só vez.

  • Herança

    Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É praticamente um dinossauro falante. Uma coisa absurda, que solta fuligem pela boca, para falar, muitas vezes, sobre sexo. Um dia desses assisti a um de seus vídeos. Ele tinha cerca de trezentas mil visualizações. Ela falava sobre o prazer e o gozo, com a espontaneidade de quem tinha anos de experiência. Ela só tem dezenove anos. Até onde pude, proibi. A mãe também é uma desleixada, não cuida da filha como ela merece e precisa. Faz as vontades da pequena guria, para não a ver birrenta pelos cantos da casa. Por último, comprou um celular ultramoderno, desses da Apple, porque ela disse que precisava muito de um material bom (excelente) para fabricar as suas matérias. Além do mais, a pirralha tem um namoradinho baixo-nível, um sujeitinho como ela, com pouca instrução. Quando o conheci, ele teve a decência de pedir a mão da minha filha em namoro, então desarmei. Sentamo-nos para conversar enquanto minha filha se trocava para saírem. Comecei conversando amenidades, depois parti para a guerra em Gaza. Ele não tinha a menor ideia do que seria o Estado de Israel e Gaza; não sabia onde se localizava no mapa; gaguejou ao falar que de fato não sabia o que estava acontecendo. Depois que minha filha saiu do quarto, perguntei a ela se teria alguma noção do que seria a guerra em Gaza. “Ah, pai, lá vem com as perguntas moralistas, para me deixar com vergonha na frente do meu namorado…”. Enfim, enrolou e não falou sobre isso. Para que ela faz vídeo para a internet, se não sabe o que os inocentes passam numa guerra sem sentido? Noutro bendito vídeo, a que assisti pela metade, a menina falava sobre suas maquilagens – algo que domina como ninguém –, e igualmente, como naquele vídeo, tinha uma porção de visualizações. Ela quer mesmo ganhar a vida assim. Deixou a Faculdade de Direito ainda no primeiro ano. Tudo bem, se diz que não tem nada a ver com ela, mas que faça outra faculdade; nem isso ela quer. O namoradinho, Jamal, é cantor de rap. Nada contra, inclusive gosto de Racionais, mas o que ele pode fazer de diferença, se não tem noção do mundo que o rodeia?! São dois bobocas. Minha filha me disse que se baseia em outras influenciadoras. Ou seja, reúne nada com nada na cabeça. Mas é minha filha e eu vou ter de dar um jeito nisso, porque não quero essa exposição tola, essa babaquice como herança.

  • Poema #53: Ciclo II

    Quando a chuva neutralizar
    a esperança das flores, no chão
    uma semente irá se desenvolver
    à imagem e perspectiva de tornar-se,
    sintetizando em si todo o anseio dos homens
    para que de seus ossos não se faça apenas
    um cemitério, mas também um canteiro.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Dinossaura herbívora

    A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks

    Ela só falava quando solicitada.

    E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de seu interesse, nada podia detê-la.

    Isso deliciava a curiosidade dos netos e causava atrito com os filhos, um casal de gêmeos adotivos.

    Ainda assim, conversava com os netos sobre qualquer tema que lhe fosse apresentado.

    “Vovó, você acredita em vida inteligente fora da Terra?”

    Vovó – “A questão não é sobre haver ou não vida inteligente fora da Terra.

    A questão é sobre a parcela de vida inteligente que há na Terra não se sobrepor à estupidez vigente que nos aprisiona num estágio civilizatório bastante primitivo.

    Há também a questão sobre o porquê de convencionar a humanidade como uma forma inteligente de vida, de um modo geral. É sobre não aprender com experiências anteriores de outras pessoas, e muitas vezes nem mesmo com as próprias experiências, individual ou coletivamente.

    O entendimento do que é progresso deveria ser revisto há muito tempo. Vive-se cada vez pior.”

    Netinho: “Então porque você teve o papai como filho?”

    Vovó: “Ele foi adotado. Ele e sua tia são filhos de uma moça que não tinha condições de criá-los. Eu e seu avô pegamos pra criar, e a moça desapareceu no mundo sem olhar pra trás.”

    Netinho: “Então você nunca teve filhos biológicos?”

    Vovó: “Não.”

    Netinho: “Por quê?”

    Vovó: “Não suportaria o processo que envolve a gravidez e não tinha a maternidade como um plano na minha vida.”

    Netinho: “Mas você sempre cuidou do papai como sendo um filho!”

    Vovó: “Claro, ele é meu filho, independentemente de ter saído ou não da minha barriga, e independente de eu ter ou não planejado algo do tipo.”

    Netinho: “Vovó, porque você nunca vai à igreja?”

    Vovó: “Porque procuro ter a ética como diretriz, e não a religião.”

    Netinho: “Me explique isso melhor!”

    Vovó: “Não sou articulada o bastante, mas vou tentar explicar através da diferença entre essas duas coisas, com as palavras que agora me ocorrem. Enquanto na ética se faz o que é certo, independentemente do que está escrito, na religião procuram fazer o que está escrito, independentemente de ser certo ou não. O medo e o desespero fazem com que muita gente acredite nesses pastores picaretas que pedem dinheiro na televisão. Deus não existe, mas se existisse, sei que não precisaria de dinheiro, e muito menos o teria inventado. E ele sempre foi retratado de modo que o povo sentisse medo de castigos que ele supostamente aplicaria para o caso de suas regras não serem seguidas.

    Mas pense com sua própria cabeça e tire suas próprias conclusões.

    Na verdade, o que deveria intrigar as pessoas é o fato de que quem prega essas coisas são pessoas que seriam então duramente castigadas. Entenda que por trás de todo paladino da moral, vive um canalha.”

    Netinho: “Vovó, é verdade que você e o vovô nunca foram casados?”

    Vovó: “Desde que nos conhecemos, temos cada um a sua própria casa, e passamos tempos juntos numa casa ou na outra, quando consideramos que essa relação é saudável e conveniente para ambos, sem maiores discussões ou lamúrias.”

    Netinho: “Nunca se casaram no papel nem na igreja?”

    Vovó: “Concordamos desde o início que casamento é uma instituição falida, machista e patriarcal. Algo repugnante demais para incorporar no nosso modo de vida.”

    Netinho: “Quem é essa que está cantando?”

    Vovozinha: “Kate Bush.”

    Netinho: “Vovó, por que você é vegana?”

    Vovó: “Porque não acredito que a essa altura ainda seja necessário que matem bichos pra comer. Acredito menos ainda que seja necessário gastar tanto para criarem esses bichos para matá-los.”

    Netinho: “Vovó, você acredita em terias da conspiração?”

    Vovó: “Em teorias não, mas de vez em quando, nas conspirações propriamente ditas. Não costumo pensar muito nisso, porque prefiro acreditar que muitas bizarrices causadas pela humanidade podem ser atribuídas à estupidez mesmo.”

    Netinho: “Quem é esse que está cantando agora?”

    Vovozinha: “Todd Hundgren!”

    Netinho: ”Ele é muito bom!. Por que ele não é famoso?”

    Vovozinha: “Porque querem que você cresça retardado, ouvindo música de merda.”

    Netinho: “Quais as cinco melhores bandas?”

    Vovozinha: “Vou responder sem pensar muito, e se você perguntar amanhã não sei se serão as mesmas. The Kinks, The Jesus and Mary Chain , X Ray Spex, Husker Du e Velvet Underground. Alguns medalhões ficaram de fora por serem muito óbvios.”

    Então colocaram para tocar músicas dessas bandas no celular do netinho.

  • Rio abaixo…

    Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

    “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

    Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”

    Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.

    Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

    Missão Clotilde em modo turbo:
    - Reforçou a academia (alô, personal trainer);
    - Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
    - Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
    - Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
    x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

    Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

    E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

    “Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

    Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

    Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:
    “Casou?”
    “Tem filhos?”
    “Trabalha ainda?”
    “Mora onde?”
    “E seus pais, vivos?”

    Checklist da vida em andamento.

    Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

    A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

    Menos… na mesa de Clô.

    Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

    Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

    Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

    Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

    E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

    Para as amigas, para a noite, para a vida.

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