Crônicas Cariocas

  • Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem

    Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença.

    Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certificação de se estar vivo.

    Mesmo que a milhas náuticas de distância, poética unidade que mede o mar a partir do céu, um belo dia, num domingo posterior ao original, o Domingos contestou-me:

    Por acaso você foi ao dicionário pesquisar o significado da palavra esquisito?

    Então aqui nasce a parte II de “Esquisito Íntimo” – é deselegante deixar um leitor sem respostas.


    “Esquisito:
    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels* preto e branco dançantes. Uma quase hipnose”.

    Ela estala na língua e, agora, reverbera no paladar. Em italiano, squisito escorre, redondo, como um elogio que desliza fácil. Sinto-o na boca como quem descreve um prato raro, delicado, escolhido a dedo. O dedo indicador, então, sem pedir licença, desenha pequenos círculos na bochecha — gesto “tutto buono” de quem prova algo bom demais para ser apenas cotidiano.

    E então, como quem puxa um fio antigo, chegamos ao latim: exquisitus.

    Aquilo que foi procurado com cuidado.

    Escolhido. Refinado. Raro.

    Esquisito, portanto, já foi elogio. E ainda é, na Itália. Também na Espanha.

    E talvez na nossa língua faceira ainda seja — em alguma versão paralela de universo onde as palavras não se apressam em caber no mundo. Aqui, neste português nosso de cada dia, esquisito virou outra coisa.

    Escorregou.

    Sofreu uma leve torção de sentido, sem fazer barulho, mas alterando destinos:

    1. O que era raro passou a incomum;
    2. O que era incomum, estranho;
    3. O estranho, caros leitores, por fim, tornou-se esquisito.

    Há algo de profundamente humano nessa queda semântica.

    Aquilo que exige mais olhar, incomoda quem não quer ver.

    Assisti Passageiros e, pela primeira vez, não me senti exquisita — no sentido latino da palavra. Não me senti escolhida, nem rara, nem lapidada pelo cuidado do mundo.

    Senti-me… esquisita.

    Nada elegante.
    Nada refinada.
    Nada desses termos que se provam com deleite.

    Mais próxima da apropriação brasileira do termo.
    Mais próxima de um desalinho.
    Mais próxima de todas as dúvidas.

    Houve um instante — curto, mas inteiro — em que me perguntei, com uma seriedade quase infantil:

    E se eu não estiver mais aqui?

    Não morta, no sentido dramático que os vivos gostam de dar às coisas. Deslocada. Imprecisa.

    Como se a minha existência escapasse um centímetro para fora do enquadro — o suficiente para que eu ainda me enxergue, mas não me reconheça.

    Lembrei de uma senhora em uma pegadinha televisionada. Do susto genuíno ao não encontrar o próprio reflexo num espelho que não era espelho. Da gargalhada que me tomou em São Paulo, livre, despreocupada, viva, espontânea.

    E, ainda assim, eis-me agora, dias depoiss, tocando a mesma ideia — mas por dentro, intimamente. De um jeito… esquisito íntimo.

    Quiçá o esquisito íntimo seja isso: não aquilo que o mundo estranha em nós, mas sim o ponto exato em que deixamos de coincidir conosco.

    Entre o que fomos escolhidos para ser e o que nos tornamos ao longo de travessias.

    Há distâncias que não se medem em quilômetros. Sequer em milhas náuticas: medem-se em pequenas falhas de percepção.

    Em lapsos de presença.

    Em segundos em que o real vacila — e vacilamos, com ele.

    Ainda assim, há uma beleza quase indevida nisso tudo.

    Ser esquisito — no sentido primeiro — talvez seja justamente não caber.

    Não se deixar reduzir.

    Não se tornar tão comum a ponto de desaparecer dentro do próprio reflexo.

    Talvez eu esteja, afinal, perigosamente viva.

  • O alfinete

    Fátima sentou-se ao pé da cama da pequena Pérola. A penumbra do quarto, o perfume de lavanda dos cachos recém-lavados e o calor que subia do corpinho sob o edredom florido a envolviam num torpor doce. Era seu momento preferido — quando tudo se calava, menos o amor.

    O tilintar de louça na cozinha a trouxe de volta. A dor reapareceu — fina, precisa, como a ponta de um alfinete invisível, cravado em algum lugar que não sabia nomear.

    Olhou mais uma vez para a filha, que ressonava baixo, e desceu.

    Cândido a esperava com a mesa posta e o mesmo sorriso tranquilo. Um homem de gestos simples, de amor constante. Às vezes, ela invejava a facilidade com que ele atravessava as coisas.

    Falaram do dia. Da escola. Do tempo. Das contas. E, por fim, de Pérola.

    Fátima comentou da festa de São João na escolinha. Disse que já estava tudo pronto: pés de moleque, cocada cremosa, pipoca caramelada.

    — E o vestido? — ele perguntou.

    Ela trouxe dois vestidos iguais, azul-claro, lisos.

    — Não era xadrez? — ele estranhou.

    A fisgada.

    — Xadrez de chita, Cândido? Não… — hesitou — assim é melhor. Mais discreto.

    Ele sustentou o olhar por um instante, como quem procura alguma coisa, mas não insiste. Depois cedeu, em silêncio.

    Mais tarde, Fátima foi para o terraço. A lua cheia clareava o quintal.

    Pensou no hospital, nos papéis assinados, na primeira vez em que segurou Pérola. Pequena, quente, os olhos escuros, os fios ralos. Amor imediato. Sem dúvida.

    Com o tempo, vieram os olhares.

    Nos parques. Nas lojas. Nas festas.

    Vieram as perguntas que sorriam antes de ferir.

    — É sua mesmo?

    — Que mistura linda…

    — Puxou a quem?

    E, com elas, algo começou a se deslocar.

    Pérola crescia. O cabelo ganhava volume. Os cachos se fechavam. A pele escurecia.

    Fátima começou a desejar — e odiou-se por isso — que ninguém reparasse.

    Passou a ajustar pequenas coisas. O tempo de sol. Os penteados. As roupas.

    O alfinete.

    Chamaram-na de dentro.

    Pérola estava em pé no berço, um brinquedo na mão, os olhos ainda pesados de sono.

    — Mamãe, posso ir com o cabelo solto amanhã? Igual o da Laurinha?

    Fátima hesitou. Laurinha — Cabelo cheio, solto, laços coloridos.

    — Melhor preso, filha… — disse, evitando o próprio reflexo no espelho — fica mais arrumado.

    A menina assentiu, devagar. Deitou-se.

    O alfinete.

    Na sala, Cândido folheava um álbum.

    — Lembra? — disse, mostrando a foto.

    Os três. O começo. O sorriso inteiro.

    Fátima sentou-se ao lado dele. Não disse nada. Chorou em silêncio. Ele também não perguntou. Apenas a envolveu.

    Na manhã seguinte, Pérola foi à festa com o cabelo solto, preso aqui e ali por pequenos laços azuis.

    O vestido era o mesmo.

    Mas sem o alfinete

  • Altruísmo

    Magda era o seu nome. Juliette, o de guerra.

    Sempre chamara a atenção, desde pequena, com seu corpo bem feito e precoce. Na adolescência dera problemas. Tinha as pernas da Virgínia Lane, a avó comentava. A mãe não sabia quem era Virgínia Lane. Magda gostava de ser comparada a uma vedete. Ainda mais uma vedete que arrebatara o coração de um presidente.

    Molestada por um tio, agarrada no elevador por um vizinho taradão, sem freios e ingênua, não demorou para perder a virgindade com um colega do colégio. Sem dor, sem sangue, sem prazer. Com a inexperiência e o mau jeito do tal colega, tinha sido ela quem, quase todo o tempo, conduzira a relação. Puro instinto. Magda parecia talhada para o sexo.

    Filha única e com o pai ausente, não tivera nenhum irmão a tomar-lhe conta e nem um pai para lhe encher o saco. A mãe dava-lhe toda a liberdade, mais preocupada com ela própria. A avó, a essa altura, já dava sinais de demência.

    Agora, o corpo de Magda se destacava ainda mais. Quase um acinte. Sua beleza saltava aos olhos. E ela nem era assim tão vaidosa. Quase sem maquiagem, cabelos escorridos após o banho, blusa com decote e uma calça jeans, e ela angariava cada vez mais fãs e olhares de cobiça.

    A mãe a acusava de vulgar e de fazer de propósito para virar a cabeça dos homens; a avó não via nada demais; e Magda não ligava para o que as duas pensavam.

    Não concluiu o segundo grau. Magda não gostava de estudar. Colecionava namorados e admiradores. Não fazia questão de resistir às cantadas e, com um ou dois drinques, topava logo ir para cama.

    Com um deles, engravidou. Optou pelo aborto clandestino e as consequências de uma infecção uterina custaram-lhe a impossibilidade de ter filhos. Além das sequelas físicas, um trauma: nunca pensara em se casar, mas sonhava um dia ser mãe. No mínimo, dois filhos.

    Com a morte da avó e o descaso da mãe, Magda começou a busca por emprego. Não foi difícil. A cada entrevista, uma saia mais curta e alguns sorrisos bastavam. O currículo ficava para depois. Inúmeras promessas, sexo interesseiro e nada de emprego na prática.

    Foi quando uma amiga sugeriu que ela fizesse alguns programas com gringos. Pagavam em dólar. Dinheiro fácil. Já estava dando mesmo, por que não cobrar? Daí para se organizar e passar a ganhar a vida vendendo o corpo foi um pulo.

    Como Juliette, cobrava alto e não ficava sem clientes. A vida melhorou rapidamente e ela chegou a dar entrada num carro novo.

    Até a mãe, que havia cortado relações com ela, voltou a se aproximar. Tudo parecia estar indo bem.

    Um detalhe, no entanto, intrigava Juliette: por mais que tentasse evitar, quando estava trabalhando gozava quase multiplamente. Um contrassenso clássico.

    Os clientes desconfiavam que ela estivesse atuando. E exagerando na dose. Alguns chegavam até a reclamar que aquela farsa incomodava e que ela não ia conseguir enganar ninguém. Desfaçatez tinha limite.

    Mas Juliette não conseguia se controlar. E o pior, os orgasmos mais intensos vinham com aqueles mais improváveis.

    Eram senhores caquéticos, com barrigas enormes, carecas (alguns com peruca), e lá ia Juliette com seus orgasmos escandalosos. Quanto mais desprovidos fisicamente e com aparência desagradável, mais Juliette se sentia atraída.

    Ela, então, decidiu que aquilo tinha de parar. Precisava ser profissional. De agora em diante, se gozasse não ia demonstrar. Ninguém iria saber de suas sensações, preferências ou manias.

    No íntimo Juliette amava o que fazia. Podia ser sua vontade de ajudar o próximo, incontrolável atração pelo oposto, teratologia ou alguma consciência social. Não sabia explicar. O certo era que Magda havia nascido para ser puta.

  • A Bomba

    São tantas as guerras que a gente pensa que é assim mesmo…
    Que o ser humano é bélico por natureza… Pensando bem, o ser
    humano se parece com uma bomba…

    A bomba está prestes a explodir!

    Dentro do coração, do pensamento, num aceno, num senão.

    A bomba está prestes a explodir qualquer nação!

    Atenta e experiente na ganância dos seres, ela está prestes a explodir uma rua, uma vila, uma cidade inteira!

    Na televisão, vozes inflamadas pedem a bomba!

    Nos discursos raivosos das redes, vozes sem razão pedem mais bombas!

    A bomba esteve, está e estará na boca das gentes porque entendeu como funciona a coisa: divisão, ressentimento, validação, inveja e ambição a alimentam!

    Ao longo do tempo, a bomba está sendo muito bem alimentada!

    A bomba aprendeu que uma parte das criaturas humanas deseja a destruição, por isso, ela está prestes a explodir.

    Numa briga de trânsito, ela explode.

    Numa esquina incerta, ela explode.

    Numa discussão em família, ela explode!

    Na briga entre torcidas de futebol, ela explode!

    Na discussão política, ela explode!

    Nos discursos de ódio, ela explode!

    A bomba explode em todos os lugares e em várias situações para explodir de novo e de novo e de novo…

    A bomba será a nossa essência? Somos inevitavelmente explosivos?

    À espera de um simples deslize, a bomba aguarda a próxima explosão e nos aprisiona num ciclo interminável de poeira, cinzas e lamentação!

    A bomba está prestes a explodir!

    Em todas as guerras, sem exceção, a bomba explode… Seus fragmentos se tornam memórias ambulantes daqueles que sobrevivem…

  • Feliz no simples!

    A frase acima vem sendo usada, não sei se por deboche ou pelo sentimento que alguém expressou, de encontrar felicidade, nas coisas cotidianas e simples da vida.

    Um papel e uma caneta, o aplicativo de notas, a tela com o word.

    A observação despretensiosa, um conto relido, uma cena ou dialogo interessante, um espanto, uma frase solta, enfim. Me sinto motivada a escrever, narrar, contar os fatos como a minha imaginação propõe. 

    A vida mostrada com diálogos que prendam o leitor, que o coloca como se fosse o protagonista, que o incomoda ou alegra, pode ser considerado simples. Mas não deve envergonhar o escritor, uma vez que ele nao se prenda a modismos, nem tenha a pretensão de fazer literatura esnobe e muitas vezes vazia.

    A simplicidade não é um defeito, mas sim uma forma de narrar usando os instrumentos de que a escrita se utilizou e utiliza ao longo dos tempos.

    O simples é lindo, e está sempre a nossa disposição, como um dia de domingo.

    Sol quente, areia queimando os pés, algazarra, sucos, cervejas, caranguejos sendo quebrados e socados com um martelinho de madeira, num quase ritual pela busca da carne branca e rija dos crustáceos.

    Na mesa, umas oito pessoas falavam e riam. Era uma família alegre, típica, que viera aproveitar um domingo à beira-mar.

    “Queijo coalho!”, ouviam-se ao longe os gritos dos vendedores que caminhavam pela areia com fogareiros acesos, garrafinhas de melaço e saquinhos de orégano, levando a iguaria justamente onde sabiam reconhecer seus prováveis clientes. Onde há crianças, a venda é quase certa. Paravam, balançavam o fogareiro, as fagulhas se avivavam com o vento. Com destreza, giravam o palito entre os dedos e, num instante, o cheiro do queijo assado tomava conta daquele pedaço de praia.

    “Olha o amendoim!”, gritava outro, passando a xicarazinha com três ou quatro amostras de amendoim torrado ou a castanha de caju, docinha de tão boa, servida num fundinho de copo plástico. Vai querer? O saquinho de papel pardo mudava de mãos, o garoto recebia o pagamento e seguia adiante.

    “Olha o picolé!”, repetia mais um, aproximando-se e juntando a gurizada em volta do carrinho.

    Além das guloseimas, surgiam vendedores de bijuterias, cangas, tatuagens de henna, camisetas e brinquedos que fariam sucesso apenas naquele verão, mas que, ali, eram tesouros indispensáveis.

    Quase onze horas. Lá vinha o menino com o peixe vermelho cru, temperado e vistoso, oferecendo aqui e ali. O almoço desfilava entre os banhistas: “Num instantinho estará assado acompanha farofa e vinagrete. Tamanho? Dá para até seis pessoas. Se a madame quiser trazemos uma porção de batatas fritas enquanto o peixe fica pronto.” O garoto passava com a sua cantilena, na certeza que na volta a venda seria certa. Faro de vendedor…

    O desfile de ofertas não tinha fim.

    — Esse menino não passou aqui agorinha?

    — perguntou a senhora à sobrinha.

    — Não, não era esse. Aquele já foi, esse está vindo. Tia, quantas cervejas a senhora já tomou?

    — Ah, mas é praia. E só uma vez ao ano — interveio o tio.

    — Que é isso, menina? Me respeite!

    Domingo na praia.

    O mar em seu balanço constante, no ir e vir das ondas, ora chegando junto das pessoas, ora recolhendo-se à própria imensidão.

    Parecia participar da festa, da comilança, da gritaria, da lambuzeira de óleo de bronzear, do gurizinho ranhento, da mocinha orgulhosa do biquíni novo, da senhora feliz com a cerveja na mão e a folga da cozinha, os pés afundados na areia fofa ao lado do marido, dos netos e da sobrinha.

    E ele assistindo tudo. Alegrava-se com os garotos que plantavam bananeiras, com os rapazes que improvisavam um futebol, com os senhores que caminhavam carregando os tênis nas mãos. Naquele vai e vem paciente, era o astro do grande cenário que sustentava o espetáculo.

    O domingo foi indo. Guarda-sóis se fecharam, cadeiras se dobraram, sacolas foram recolhidas até que não sobrou mais ninguém e o mar ficou sozinho.

    A lua subiu no céu e prateou a imensidão da água, que tomou um tom de chumbo iluminado. As ondas murmuravam baixo, deixando trilhas de espuma branca sobre a areia ainda morna.

    No vai e vem tranquilo, pareciam guardar ecos do dia. Um resto de riso espalhado no vento, passos descalços marcados e logo apagados, cheiro de queijo assado que já não estava ali.

    O mar ali… Sereno.

    Como quem sabe que amanhã haverá outra família, outras vozes, outro domingo inteiro para acontecer. Qualquer que seja o dia, estarão “Felizes no simples”

  • A ira do Irã

    O esporte sempre manteve a tradição e a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.

    Do mesmo modo, quando um país sedia uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.

     A iniciativa de sediar um evento esportivo de grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.

    Mesmo em tempos de Guerra Fria ou situações de conflitos, as competições esportivas trascorreram com normalidade, como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva, a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.

    Alguns casos vêm à memória como as Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a excelência que o regime queria demonstrar.

    Outro exemplo é o do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura, quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu trabalho.

    Caso semelhante ocorreu por aqui durante os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’, comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.

    De fato, o esporte pode se orgulhar de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências, um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam,  o jogo sujo é chutado para escanteio e a trambicagem recebe cartão vermelho.

    Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.

    A seleção futebolística do Irã teve um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da competição com partidas programadas para o território do país que perpetrou o ataque.

    Em relação à nação dos aiatolás, por mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que, nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da delegação. Ora, isso significa que os EUA deveriam ser desqualificados a sediar o evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores de uma das seleções habilitadas a participar.

    É ainda mais absurdo o fato de gabando-se de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis, mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.

    Esse comportamento antidesportivo não é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual do mandatário cossaco, de envenenar bebidas de desafetos políticos.

    Atitudes como essas partindo de 2 dos maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.

    Estamos voltando aos tempos da barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil permanente, pondo abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes líderes comportam-se como trogloditas?

    A atitude de Trump é parte de seu perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.

    No Brasil, essa conduta deplorável foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.

    A prática de cumprimentar o oponente (diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.

    Essas atitudes de confronto permanente são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.

  • Um velho amigo me deixou

    Meu velho amigo parou de funcionar. Estava em plena atividade quando simplesmente apagou. Uma tristeza.

    Estou falando do barbeador elétrico aí da foto. Sério. Estamos juntos há mais ou menos 45 anos. Mais para mais do que para menos. Ganhei do meu pai quando a barba encorpou.

    E desde então ele está comigo. Me viu na puberdade, escutou meus resmungos pelos mais variados motivos. Não poucas vezes, testemunhou minha animação em frente ao espelho me arrumando para encontrar aquela garota bonita que me causava taquicardia. Mas nunca soube da minha frustração na volta do encontro depois de escutar as palavrinhas amargas “você é legal, mas quero ser só sua amiga”. Vida que segue.

    E seguiu e você, meu velho amigo, periodicamente estava lá, comigo, me ajudando a ficar melhor apresentável. Há quem discorde mas como gosto de fazer a barba, o barbeador sempre teve lugar de honra no meu banheiro.

    Mesmo quando, por muitas vezes, o troquei pela lâmina de barbear nunca deu qualquer demonstração de ciúme. Ao contrário, cada vez que era convocado para enfrentar minha barba cerrada, herança do meu pai, nunca recuou ou mesmo engasgou. Cumpria sua parte com admiração transformando lixa em bumbum de neném.

    Enfim, mas nada é para sempre. Nem as pirâmides e muito menos meu barbeador elétrico.

    O que me resta? Lamentar? Ou buscar algum arqueólogo de apetrechos elétricos capaz de reviver meu amigo?

    Não sei, não me decidi. Por ora, olho meu velho camarada deitado inerte. Mas, se há um fio de esperança quem sabe ele não volta à ativa? Porque a gratidão pelos serviços dele é grande.

    Afinal, ainda lembro naquela vez, lá no século passado, quando aquela moça, uma das que povoam minhas doces lembranças, sorriu para mim. Tenho certeza que foi depois de ver meu rosto bem barbeado. Ela até disse algo como “olha que ele se arrumou mesmo só para mim” e não foi ao sentir o aroma do poderoso RogerGallet. Não foi mesmo, meu velho amigo…

  • A armadilha do lugar-comum

    Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso.  Precisa ser continuamente renovada para não perder o vigor. A tendência dos falantes e escreventes, às vezes por preguiça mental, é lançar mão de clichês e modismos que debilitam a expressão, reproduzindo chavões cuja obviedade torna o texto raquítico e previsível. Usá-los é como se servir de um estoque já pronto, que dispensa o pensamento. Segundo Alcir Pécora, em “Problemas de Redação” (Martins Fontes), eles são “o túmulo do estilo”; evitá-los é condição fundamental para se pensar e escrever bem.   

    É comum alertar os redatores contra o vício das gírias, que na linguagem formal devem ser evitadas, mas por vezes se esquece de adverti-los sobre um inimigo bem mais perigoso e sorrateiro – o lugar-comum. Prevenir-se contra a gíria é fácil. Bem orientado, o redator evitará palavras como “bacana”, “maneiro”, “barato”. Ou construções do tipo “A polícia levou em cana o traficante”, “O presidente não está nem aí para o aumento dos juros”, “A prova foi beleza”.

    Mais difícil é escapar dos clichês. Eles são frequentes, por exemplo, no vocabulário dos comentadores esportivos. Quantas vezes não lemos que um time conseguiu o empate “ao apagar das luzes”? Ou que a contratação de certa pessoa vinha “preencher uma lacuna”, porém a sua atuação “deixou muito a desejar”? Para se “reverter um mau resultado”, é preciso “garra e determinação”. Time que “não faz o dever de casa” pode se deparar com o “fantasma do rebaixamento”. Quem sofre algum tipo de revés não tem outro remédio senão, a duras penas, “correr atrás do prejuízo” (é curioso que, mesmo tendo sido prejudicado, ainda se deva perseguir o prejuízo, e não dele escapar!).   

    A política, com a sua retórica surrada, é outra fonte de lugares-comuns. Uma das marcas dos clichês políticos é tentar compensar a ausência de ações com o uso de palavras ocas, demagogia verbal. Muitos dizem se candidatar por um chamado da “voz rouca das ruas”. Se, eleitos, não fazem mais pelo povo, é por “falta de vontade política” dos correligionários. Quem não promete em campanha um “combate implacável à corrupção”? Se o governo é acusado de não “fazer o dever de casa”, é por “intriga da oposição” (expressão que de tão frágil naquilo que pretende mascarar – a incompetência da situação –, já se incorporou ao anedotário nacional).

    A par dos lugares-comuns, há os modismos. Estes são como uma enxurrada – vêm com força mas, felizmente, logo vão embora. Alguns aparecem no rastro de programas televisivos, como o famigerado “Me poupe!”. Outros se ligam ao ambiente acadêmico, a exemplo do intragável “fazer uma colocação” em vez de simplesmente “manifestar um ponto de vista”.

    Sempre que trato deste assunto, lembro-me do tempo em que fui aluno do escritor Cyro dos Anjos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A disciplina era Oficina Literária, e o autor de O amanuense Belmiro, Abdias, Montanha e outros bons romances de linhagem machadiana frequentemente nos alertava para o risco das “chapas” – expressões batidas, frases feitas que se tornaram previsíveis e desgastadas pelo uso contínuo.         

    Certa vez Cyro nos entregou uma relação com várias delas. Por exemplo: implacável destino, esposa exemplar, insidiosa moléstia, virtudes imarcescíveis, radiosa manhã, irresistível impulso, olhar glacial, perigoso meliante, nobre colega, vasto repertório, etc. etc. Guardei esse papel, que utilizo para prevenir os alunos contra a armadilha do lugar-comum.

    É preciso fugir deles… como o Diabo da cruz! Como o leitor pode ver, nem sempre é fácil.

  • A menina e a caixa de sapato

    A menina encontrou uma caixa de sapato na soleira da porta de casa. Era uma caixa enorme – devia ser um homenzarrão, pensou a menina. Dentro um bebê, com um gatinho recém-nascido no meio das pernas. O bebê era minúsculo, peladinho, a pele quase transparente, esticadinha. O gatinho era molinho, parecia que a gente ia esmigalhar, só de pegar.

    A mãe gritou lá da cozinha:

    – Que é, Cidinha?

    – Nada, mãe.

    – Essa menina, disse o pai.

    E a menina – só a menina, sem nome mesmo; essa menina! –, a menina toda ansiosa correu esconder a caixa de sapato. Apertava no peito – é minha! Queria esconder nas costas, debaixo do vestido, dentro da boca, dos olhos enormes. Escondeu embaixo da cama, até que o pai e a mãe fossem trabalhar.

    – Cuida da porra da casa, disse o pai. – É só uma criança, disse a mãe. – A casa é a porra da casa, disse o pai. E bateram a porta.

    Enfim sós. O coraçãozinho apertado – ver meus bichinhos, uh!

    Pegou a mamadeirinha da boneca, encheu de leite, tomou um pouquinho – um golinho só, para experimentar. Ficou olhando para os dois bichinhos na caixa de sapato – para qual primeiro? O gatinho, está chorando mais alto. E enfiou a chupetinha entre os dentes do gatinho, que virava os olhinhos pingando remela. O nenezinho só soltava um gemido, fino, fraquinho, nem se ouvia.

    Logo é a sua vez, disse a menina. E olhou bem: – Você é macho ou mulher? Não tinha nada no meio das pernas – xi, será…? Vai que não nasceu ainda o pintinho dele. Enfiou a mamadeira na boca do coitado – bebe, tonto! E o tontinho não bebia. Nem chorar não chorava – será que morreu, essa porcaria?

    O gatinho se virava de lado, miu, miu, soltava um miadinho sem graça. O nenezinho, nada! A menina fez beicinho – e agora? Fez cosquinha na barriga do gatinho. Depois fez a mesma coisa no nenezinho; ergueu, escutou o peitinho, depois o nariz – encostou o nariz no nariz dele. Pô, jogou o nenezinho na caixa de sapato. Ai, logo se arrependeu – e se cai em cima do gatinho?

    Arranhou o dedinho – esse ainda está vivo. Mas como está lambuzado! Pegou o pano de prato e esfrega, esfrega, quase mata o gatinho – ou será que não está morto não? Aperta bem – nem um gemido! Está mortinho da silva, ela disse. E foi apertar o nenezinho, mais mortinho ainda. Aperta que aperta, bem no pescocinho – se não estava morto, agora está!

    E agora? Que é que eu faço com essas duas coisinhas? Enfiou na caixa de sapato, socou bem – pareciam maiores agora – e foi botar na porta da vizinha. Pensou em chorar, só um pouquinho – estavam mortos mesmo, disse, e foi varrer a casa.

  • A peça mais preciosa

    A senhorita Mariquinha Penaleve era tão pequena que nem se dava ao trabalho de usar salto alto; sabia que nem assim seria notada. Quando caminhava pela calçada todos a confundiam com uma menina. Nem sequer pensavam: “Mas que mulher pequena!” Era só uma menina o que todos viam.

    Se, por um lado, ser confundida com uma menina compensava seu complexo de estatura, por outro trazia um problema: nenhum homem a olhava como possível namorada ou esposa. Como formar uma família com uma mulher tão pequena? Tampouco o senhor Arturo, o dono da loja de antiguidades, dava atenção a ela, mais ocupado em limpar e lustrar as peças de metal dourado que adornavam sua vitrine. A senhorita Mariquinha passava horas na frente da loja observando como o senhor Arturo mimava os objetos, com que delicadeza os acariciava!

    Uma manhã, Mariquinha acordou decidida: era hora de empurrar o destino e mudar sua sorte. Marcou hora no cabeleireiro, na manicure e na maquiadora. Saiu do salão de beleza com os cabelos parecendo fios de ouro e os olhos como duas bolinhas azuis de gude. Foi para casa e tirou do armário o vestido rosa de tule. As sapatilhas de bailarina e um pequeno chapéu com fita lilás completaram o efeito que desejava: agora ninguém mais a confundiria com uma menina, nem o senhor Arturo. Todos teriam certeza de que se tratava de uma boneca, dessas de fina porcelana. Hoje o antiquário dedica horas de cuidado e carinho para a senhorita Mariquinha e a expõe na vitrine como a peça mais preciosa de sua loja.

  • A mágica aparece!

    Às vezes a vontade de desistir não é só uma ideia passageira, porque já acordamos cansados, sem saber o porquê. Tudo parece inútil e cada passo é arrastado, cada dia, um fardo. As pessoas falam, o mundo gira, mas dentro de você tudo está parado, escuro e frio. É como se ninguém visse, é como se ninguém soubesse que por trás do “Tá tudo bem”, existe um grito preso na garganta, implorando para ser ouvido.

    Mas aí, mesmo, no fundo do poço, algo pequeno ainda pulsa, quase imperceptível, uma lembrança, um rosto, uma promessa, e por um triz você se segura, não por força, mas por instinto, porque por mais-que-tudo esteja desmoronando, ainda existe uma parte de você que recusa a morrer, uma parte que não entende o caminho, mas sente que precisa continuar.

    Com tanta dúvida e indisposição eventual, fica fácil entender que não somos normais para decidir quem aceitamos em nosso mundo social, e quem rejeitamos. É hora de reconhecermos que o normal é uma ilusão prejudicial, como escreveu Roy Richard Grinker, PH.D em antropologia social, em seu livro “Ninguém é Normal”.

    Ele desmonta os mecanismos de exclusão e as práticas de silenciamento psicológico que, em diferentes épocas, oprimiram seres humanos em função de gênero, raça, classe, religião, sexualidade ou deficiências físicas. E aponta o poder criativo e transformador da cultura como caminho para reduzir cada vez mais o medo, a vergonha é a dor.

    Quando ficamos mais velhos a impressão que nos dá é que necessitamos justificar nossas vidas e escolhas feitas no passado, por isso acabamos por buscar erros que nos trouxeram até aqui. Porém, a esperança é a coisa mais jovem que existe e ela nos questiona a cada instante querendo saber qual é o tempo que é mais importante.

    Quando você reduzir a velocidade vai entender que o mundo funciona ao contrário do que imagina. Você solta o apego a vida te dá mais. A inspiração surge quando você se permite descansar. Quando você parar de querer se encaixar em alguma turma, vai encontrar sua tribo. E passa atrair muito quando deixa de precisar demais. E quando você se atreve a ser você, a mágica aparece. Saiba aprender a conviver com a solidão, e nunca mais se sentirá só, e ao passar a se sentir em primeiro lugar, os outros vão te tratar melhor. As coisas e pessoas passam a te encontrar quando você para de procurar e a vida acontece quando você está ocupado fazendo outros planos.

  • Posso ser escritor

    O último gole de café foi tomado rápido, para satisfazer a premência do dia. No ato, num pulo, fui à sala do chefe, para atender a uma demanda (ele chamou, quase gritando, numa ânsia descomunal, como lhe é peculiar). Com a vista cansada, de passar o dia no computador, tive um pouco de turvamento. Titubeei. Um amigo percebeu e pediu para eu me sentar novamente, que ele iria no meu lugar. Logo retomei a consciência e fui ao chamado urgente, urgentíssimo. Cambaleante, tinha de seguir. Então, fui pé ante pé, devagar. O chefe, como sempre, me disse que era urgente – me alertando – o que teria de ser feito. Eu deveria olhar três grossas pastas e atualizar a movimentação dos processos – era, como é de fato, o pior serviço do mundo, em que tenho de olhar cauteloso e constrito, longe do mundo ao redor, para não perder o fio da meada. Já estava decretado, eu teria um dia difícil e pouco aprazível. Não faria minhas intimações com vontade, como o gosto de fazer. Teria, a meu ver, de me preocupar com o supérfluo. E o chefe atentou para o fato de que eu não deveria dividir as funções, porque eu era o responsável por aquele tipo de ação. Voltei ao computador, já com as pastas em mãos, deixei-as no birô e peguei a xícara vazia – sempre que há algo de que eu não gosto no trabalho, tento me desviar um pouco, vou ao banheiro, vou à copa para pegar um café, mas não fico parado; isso serve para recobrar as forças. Fui rapidamente à copa, para pegar mais café – a verdade é que preciso de café constantemente, para viver, para ficar alerta durante o dia. Ali, me detive um instante-eternidade, para recuperar as forças – é o que faço independente do gosto do chefe, que fica resmungando à sua mesa porque não comecei a trabalhar. Já não podia mais, de cansaço desmedido – de uma noite mal dormida, para completar –, e a tarde se arrastava. Maurinho, meu filho, tinha vomitado a madrugada toda, estava enjoado e mal. Não foi ao colégio e ficou com a avó. A todo instante pensava nele, e que por ele me submeteria a qualquer abuso – ainda que não pudesse chamar o meu trabalho de abusivo, era somente chato e repetitivo. Peguei o café e bebi desalentado. Minha mãe ligou, dizendo que Maurinho não tinha melhorado e que iria ao hospital com ele. Tive pena e medo do que pudesse acontecer ao meu filho. É justo ficar pensando no filho e não poder fazer nada para ajudá-lo? Pensei: “os dias parecem ser todos iguais; mas uns piores que os outros”. Levemente, na minha mesa, baixei a cabeça e, por um descuido, tirei um leve cochilo. Sonhei, furtivamente, que estava na Bulgária, tomando um vinho e escrevendo. Paulo, meu colega, me deu uma leve tapa no rosto e tornei à realidade, pensando em ler Viktor Frankl – um livro que me agradara muito – e o sentido da vida, além de pagar boletos e coisas comezinhas. Viktor Frankl, por um dia, me salvou, porque sei que, nalguma adversidade, posso ser escritor.

  • O Céu de Suely

    O “Céu de Suely” é um filme brasileiro do ano de 2006, dirigido por Karim Ainouz. Esse filme contou com as interpretações de Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Zezita Matos.

    O filme inicia com a personagem principal, Ermila, em um campo de terra junto com o pai de seu filho. Nessa cena, a personagem dança com um ar de muita felicidade, enquanto recita as promessas que seu companheiro, Marcelo, fez dizendo que faria dela feliz por ser o grande amor da sua vida. Tudo começa prometendo ser um grande romance…

    No entanto, o céu que Ermila, depois Suely, materializa em torno dessa promessa de seu ex-companheiro logo cai. A personagem, então, aparece retornando a sua terra natal junto de seu filho, Marcelo Jr., com a promessa de Marcelo de em breve ir encontrá-la na cidade onde se conheceram. Daí em diante, a vida de Ermila vira um misto de decepções e… sonhos. Sim, mesmo passando pelas mais diversas crueldades da vida, Ermila jamais deixa de sonhar.

    Essa história espelha a de muitas mulheres no Brasil que, acreditando na paixão, são enganadas pelos seus parceiros e passam a viver a realidade cruel da maternidade solo. Essa tarefa que é cansativa, por gerar a necessidade de cuidar de um ser humano e gerar sustento para o lar, e cruel, mas que mostra a força dessas mulheres diante desses desafios injustos impostos pela vida.

    “O céu de Suely” nada mais faz do que narrar uma realidade. Aquela que se constrói por meio de sofrimentos, mas também muita esperança. Nesse sentido, merece destaque a trilha sonora do filme que é carregada de regionalismo e mostra a riqueza cultural que o Brasil tem.

    Tudo isso que foi comentado, faz dessa uma obra muito interessante para ser lembrada como uma das grandes produções brasileiras. Esse é apenas o segundo longa-metragem de um dos diretores que considero, na atualidade, um dos grandes do cinema brasileiro. Vale a pena conferir.

    O Céu de Suely
    2006 | 16⁩ | Drama
    Sinopse: Para conseguir dinheiro, uma mãe decide rifar o próprio corpo para uma noite de paixão, chocando a cidadezinha onde vive com seu empoderamento feminino. Elenco: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, João Miguel, Zezita Matos, Mateus Alves, Gerkson Carlos. Direção: Karim Ainouz.

  • A alegria dos outros incomoda

    Na Praça do Coração Eucarístico, que parece uma ilha cercada de botecos por todos os lados, eu conversava com uma amiga quando ela avistou uma conhecida. Quis cumprimentá-la, mas parou – a outra andava olhando pro chão, cara de poucos amigos, sem erguer os olhos pros outros que passavam. Só o hábito automático de espiar um lado e pro outro pra atravessar a rua. Minha amiga comentou: “É tão esquisito dar um oi pra quem não tá num bom dia”.

    Ao redor, os bares lotados de gente bebendo feliz da vida. O Coração Eucarístico é onde fica a PUC – o que dá ao bairro uma cara jovem: mulheres lindas, rapazes animados, sem tantas preocupações. Gente triste deveria evitar lugares assim em dias de sol.

    Minha amiga, naquele dia, tava no auge. Ria fácil, cantarolava umas músicas, cheia de novidades pra contar. Ninguém num dia tão bom quer esbarrar na dor alheia. E aquele medo – de chegar, soltar um “Oi, tudo bem?” e a pessoa resolver despejar tudo. Aí a gente atravessou um bar, parou e pediu uma cerveja. Ela falava do rapaz de quem tava gostando, do trabalho, de tudo.

    Ela tava certa. Vocês já repararam? Tem gente que sempre tem um problema novo pra contar. Parece parte do DNA dela – esse jeito de levar a vida, como se o mundo devesse alguma coisa. Pra esses, a alegria da gente pode ser irritante mesmo.

    Gente assim costuma ficar de cara feia quando os outros estão felizes. Eu, da minha parte, acho que quando não tá num bom dia a pessoa devia pelo menos fingir que tá. Pra gente não precisar esconder o sorriso quando ela passa com a dor dela.

  • Eutanásia

    Um dia, Zími falou para Mila Cox:

    “O seu destino é criar, não cumprir.”

    Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita.

    Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles.

    Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista.

    Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. 

    Zími respondeu:

    “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, ganha mais peso, por mais contraditório que possa parecer. Na música, nos manifestamos contra a barbárie e o fascismo, e quem está no sentido contrário terá problemas com o mundo e com a vida, não será comigo. Mas nunca recebi mensagem de ninguém que se declarasse hater. De qualquer forma, se existirem, quero que se fodam.”

    Mila Cox respondeu: 

    “Perguntei só pra ouvir o que você responderia. Eu sei que você não tem haters, eu saberia se tivesse.”

    Zími falou:

    “Quando esse tipo de coisa surgiu, de ter haters ou ter seguidores, eu já tinha idade pra não levar essa merda a sério. Antes da internet já havia a noção geral de que não devemos nos animar com elogios e nem desmoronar com críticas. Mas ao longo desse tempo, o que mais me choca é que existem os “influenciadores”. A pretensão de quem se autodenomina influenciador é algo  que até hoje eu não sei nem mesmo se quero entender. E se formos falar do influenciados, estaremos revisitando as músicas que fazemos, sobre como as massas são teleguiadas e precisam desesperadamente de um líder, que surge em alguém que simplesmente se autoproclama líder. Qualquer picareta com certa audácia é capaz de fazer enormes estragos sociais.”

    Cox foi a primeira garota vista por Zími a usar uma camiseta do Van Der Graaf Generator. Agora ela reclama da domesticação do rock e tripudia a absorção do gênero pelo corporativismo. Critica a auto censura, o silêncio e a conformidade da cidadania diante de escândalos bizarros da elite. Tem vinte e um anos e seu combustível é literatura beat, rock obscuro e tensão urbana. Mas ela nunca saberá como era o mundo antes da internet, e não se importa com isso.

    Ela diz:

    “Isso foi no século passado. Agora é tempo de tentar impedir a agonia da esperança de que estejamos não apenas em um novo século, mas também em uma nova era. Infelizmente estamos em meio à terceira guerra mundial. Pelo menos não falta assunto para novas músicas.”

    Estava com um caderno aberto escrevendo sobre como a sociedade é mais desagradável do que uma noite dormida num terminal de ônibus. Zími dizia que Cox parece a mistura de Lydia Lunch com Harriet Wheeler.

    Ela diz que Zími é a mistura de Slim Jim Phantom com Jello Biafra.

  • Poema #60: Poema retirado de uma lápide

    No cemitério de Perdões
    Laura Alvarenga descansa.
    Moça bonita de 19 anos,
    falecida em 1920.
    Sentada numa cadeira,
    com um grande laço
    de fita nos cabelos
    e uns braços que talvez
    nem mesmo Machado
    sonharia descrever em
    seus contos de Assis.
    Laura Alvarenga
    de 19 anos de idade
    e seus olhos de Capitu.
    Uma fisionomia pensativa
    e meio triste de quem não
    antevia a sua própria morte,
    que chegaria tão cedo.
    Na sua lápide está escrito:
    “Saudade eterna de seus Paes
    e irmãos”. 87 anos depois
    eu contemplo sua fotografia
    num livro de pesquisa e penso
    que gostaria de tê-la conhecido.
    O que sabemos nós da vida?

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Tudo começa com “veja bem…”

    Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples.

    Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo.

    O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção.

    E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem…Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época.

    Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, e lá vem de novo: “veja bem…”

    Sou vítima frequente dessas três modalidades.

    E vocês, o que acham?

    Mas, por favor, respondam sem começar com “veja bem”.

  • Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.

    Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.

    No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.

    Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.

    Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.

    A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.

    — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.

    A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.

    — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.

    Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.

    O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.

    — O que você pensa sobre a morte?

    Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.

    A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.

    Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.

    A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.

    Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.

    — Você consegue ter orgasmos?

    Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.

    — Se masturba com frequência?

    Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.

    As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.

    — Posso lhe receitar alguns remédios.

    Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.

    Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.

    A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.

    Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.

    — Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…

    Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.

    A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.

    — Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.

    Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.

    Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.

  • Saída de emergência

    Trepida.

    Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo.

    Depois, o conforto de um ambiente climatizado.

    Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse].

    Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão.

    Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas.

    O silêncio é extremamente necessário na vida.

    As desilusões, saídas de emergência.

  • Crônica Canina – parte 5: Uma crônica de despedida

    Escrever crônicas de despedida não é uma boa experiência… Escrever crônicas de despedida, no fundo, tem o papel de confortar o coração, desabafar, cumprir um rito.

    No entanto, escrever uma crônica de despedida é sempre doloroso!

    Eu não pensei que escreveria esta crônica…

    Entre tantos assuntos e os assuntos que repetidamente viram crônica, não pensei que este seria o motivo…

    Há alguns dias, perdemos o nosso querido Todd! Um golden retriever amoroso e educadíssimo!

    Um gigante gentil!

    E tudo foi rápido demais! De maneira inesperada, num de repente que não prepara (e nunca estamos preparados mesmo)!

    E sempre perguntamos o porquê!

    Por que você se foi grandão?

    E agora? Quem vai ficar com os olhos grandes no pão, no tão desejado pedaço de bolo?

    Quem vai soltar quilos e mais quilos de pelos pra todo o lugar?

    Quem vai pular na água como se não houvesse amanhã?

    Lembro que levamos o Todd a última vez na Cachoeira dos Frades, um lugar muito bonito em Teresópolis. Todd não se fez de rogado, todo alegre, correu em direção às águas frias da montanha…

    Levamos a Chiara também! E não preciso dizer que ela não tinha o menor interesse em água!

    Aquele dia passou devagar (como os bons dias devem ser)! E vou guardar esse dia como uma boa fotografia na memória!

    Cada oportunidade, era um mergulho e uma satisfação!

    Todd viveu o que se espera de um bom cão: correu atrás de bolas, saltou, fez inúmeras festas quando voltávamos pra casa, dormiu em praticamente todos os cômodos e lugares possíveis e, acima de tudo, se fez presente com a sua doçura e lealdade sem igual!

    Nós, humanos, precisamos aprender o senso de lealdade com os cães! Eles são insuperáveis!

    Desde pequeno, já me despedi de vários amigos de quatro patas… Entretanto, é sempre difícil se despedir… A verdade é que não queremos essa despedida!

    Com o pouco tempo que passam aqui, os cães nos ensinam a ter urgência com o presente e com as horas preciosas do que chamamos vida!

    A urgência é esta: amar! Viver em cada gesto a gratidão e a lealdade!

    Obrigado Todd por nos ensinar mais um pouco disso!

    Antes que as lágrimas encerrem o texto, prefiro terminar por aqui… Imaginando nosso grandão pulando na piscina e sendo feliz aproveitando o dia, a vida como deve ser!

  • Laranja Mecânica

    Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA.

    Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou.

    Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins.

    Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da propriedade privada, guiado em sua cruzada pela palavra da Bíblia, pelo mapa dos poços de petróleo e pela cotação das terras raras na bolsa Nasdaq.

    A abertura da Caixa de Pandora dos arquivos Epstein revelou uma indesejável faceta pecaminosa, convertida rapidamente pelos devotos em abençoada libidinagem, regada a água benta. Mr. Orange, travestido de representante pedófilo santificado da família tradicional protestante pôde então estender seus tentáculos implacáveis para nos salvar de nós mesmos em nossos próprios quintais. Enviando seus drones kamikaze, mísseis hipersônicos, caças de quinta geração e sistemas cibernéticos integrados em nosso socorro para impor aos ímpios, ateus e seres pensantes a moral pregada pelos neopentecostais do Alabama. Ainda que, nesse processo, escolas de meninas tivessem que ser explodidas.

    De onde quer que venha o perigo, democratas, jornalistas, estudantes, sociólogos, comunistas, imigrantes, aiatolás, e todos os que insistirem em se opor à expansão da microsoft, do big mac cheddar e do combustível fóssil, depuradores da raça humana, degenerada por teorias globalistas.

    Seja na Venezuela, no Irã, em Cuba, na Groenlândia, no Canadá, no Líbano, no México, na California, na faixa de Gaza, no estreito de Ormuz e onde mais for, cuida ele da segurança dos investimentos ianques em todo o planeta Terra. E no espaço sideral! Projetos espaciais financiados por Sir Musk e Sir Bezzos são direcionados a fincar a bandeira confederada neonazista e providenciar acesso ilimitado de wifi em todas as unidades do sistema solar, antes que desaforados asiáticos o façam com o Huawei 5G, a rede Tik Tok e o detestável dístico “made in china”.

    O ‘laranja mecânica’ não para. Diariamente inventa um inimigo imaginário num país aleatório para mobilizar sua indústria bélica e sua base de haters, ansiosa por inundar as redes sociais com fake news repugnantes referentes aos desafetos da vez. Façam suas apostas e deixem girar a roleta. Qual será o próximo alvo dos caprichos intervencionistas do Gengis Khan do século XXI?  Burundi? Liechtenstein? Bélgica? Turcomenistão? Uruguai? Quixeramobim? Rocinha? Em todos os cantos dessa Terra plana que Deus-Pai abençoou com o sistema capitalista e o dízimo sagrado.  

    Não tentem os detratores se ocultar nos ambientes furtivos de embaixadas, mesquitas, universidades ou aldeias yanomamis, pois poderosos algoritmos rastrearão as vozes dissonantes em todos os rincões onde houver uma tela de celular e uma torre provedora de internet.

    Autorizado pela prerrogativa de apertar o privativo botão vermelho do Juízo Final que o voto texano lhe conferiu, Mr. Orange busca pela força de seu arsenal nuclear e pelo vazio de suas ideias tirar leite das pedras, conquistar a liberdade das tiranias e a paz dos cemitérios.

  • Gênese

    Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”

    Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra?

    No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como numa sala vazia. E é criado o universo. Uma explosão que quebra o caos ou o nada, e é criado o universo. Deus deu o petardo na bola de papel. Dizem que Deus é inteligente. Um belo jogador de futebol. Falam na ordem do universo. Um belo petardo nos colhões do universo. E instaurou-se o caos, se é que caos já não havia.

    Caos é o que sempre houve. Ingenuidade falar-se em ordem. Prova da existência de Deus. A ordem ou o caos? A ordem ou o caos, antes ou depois de Deus? Haverá um antes de Deus? Deus há porque há a ordem, mas se não há a ordem, se o que eu vejo é sempre caos?

    Olhe para as estrelas, a harmonia eterna das estrelas. Mas a astronomia nos ensina que não existe harmonia eterna. Existe o caos dos corpos celestes. O universo vive numa harmonia periclitante. Por um triz, e zás!, não existimos mais. Zás!, e nem deveríamos existir.

    Quem somos? Partículas ao acaso, dançando no vácuo. Um dia cairemos. Um dia? Não estamos já no vácuo? E estar no vácuo não é já não existir?

    Querer compreender quem sou, que infantilidade! Querer compreender qualquer coisa é infantilidade. Quem somos? E ainda mais, quem somos quando crianças.

    Quem seremos quando adultos. Crianças, somos obrigados a ser, no futuro. O homem é uma eterna criança.

    O futuro a Deus pertence, diz o ditado popular. Pois fiquemos com o ditado popular. O futuro a Deus pertence. Não às crianças. Deixem-nos a nós, crianças, em paz. Mesmo que já sejamos adultos. O homem é uma eterna criança.

    Eu não quero ser mais nada. Eu sou, ainda, uma criança. E eu, criança, já sou. Eu existo, e pronto.

    Lá fora o meu gato continua miando para a lua, a minha mulher suja os pés na
    lama do jardim para buscá-lo, entra com ele nos braços, resmungando. Olha para mim, como se eu fosse o responsável por tudo: o gato, a lama, a noite, as estrelas. É como se me dissesse: O que você conclui disso?

    Não me venham com conclusões. A única conclusão é morrer, disse o poeta.

  • Livraria do Luiz: espaço de cultura

    O que é uma livraria? Os incautos dirão que é onde se vendem livros. Não deixa de ser uma resposta verdadeira. Se recorrermos ao dicionário, é isso que estará lá, Aurélio e Caldas Aulete até a classificam como loja. Porém, como a vida não cabe nas definições lexicais e, do mesmo modo que os livros não se resumem à sua materialidade objetal, uma livraria é muito mais do que um estabelecimento comercial.

    Quem, após andar entre os negócios e os negociantes do centro de João Pessoa, adentra na Galeria Augusto dos Anjos e, nela, na Livraria do Luiz, facilmente constata o que acima afirmei.

    Cruzando a porta, já se apercebe que está em um universo próprio, dotado de uma aura especial, que inspira e expira cultura. Se as livrarias são mais do que meras casas de comércio, há as que conseguem ser mais do que livrarias. É o caso da Livraria do Luiz, como foi, em certa época, da José Olympio.

    E é isso que faz o encanto do lugar. Muito mais do que o café ou os exemplares à venda, é o ambiente, o que ele representa e o que traz. É aquela aura que se instaurou no número 88 da praça 1817.

    Para alguns, aquele local é um ponto de encontro. Combinam-se reuniões para discutir assuntos, resolver questões ou, simplesmente, prosear enquanto as horas correm. Para os escritores da cidade, funciona como uma verdadeira confraria. A literatura não está apenas nas estantes, mas também, entre um gole e outro, na boca das pessoas.

    Há quem vá para lá sem um encontro marcado. Acontece que, para muitos, esse ato já é algo do cotidiano. Vão, olham uma obra, sentam-se, tomam uma xícara, aparece um conhecido, a conversa se desenvolve, esse se vai, e o ciclo retorna ao início. Não é necessário um objetivo específico e determinado, o próprio estar na livraria possui um significado próprio.

    Conhecendo-a previamente ou não, existe, evidentemente, quem vai apenas comprar algo e, logo em seguida, sai. Geralmente, têm a aquisição já definida de antemão. Esses são os que não se dão o direito à doçura que o acaso fornece nos encontros e descobertas que ocorrem entre as prateleiras.

    Outros, sentados, pouco falam, mas tudo veem. Livro na mesa, xícara ao lado, observam e apreendem o movimento. Talvez, captem algo para a próxima crônica a ser publicada ou, de súbito, sejam tomados por um verso; pode ser até que saquem uma caneta e iniciem um bosquejo ali mesmo.

    Em uma de suas crônicas, a partir de fala em ocasião relacionada a esse mesmo local, Hildeberto Barbosa Filho asseverou: “não se faz história cultural de uma cidade, sem que se esse necessariamente por certos espaços.” Sem dúvida. Não se pode pensar na vida literária de João Pessoa, sem levar em conta a Livraria do Luiz, palco e agente da vivência cotidiana da cultura nesta cidade.

    Essa importância vai além dos lançamentos realizados e dos volumes expostos. Está também – e principalmente – pelo ambiente que se constituiu e que ela representa. Como o espaço que é, a Livraria do Luiz assume um papel de grande relevância para a cultura da cidade e do estado, especialmente para a literatura paraibana. Afinal, a vida literária também é feita disso. Além de leitura e escrita, há a vivência, sem a qual nenhuma daquelas vale.

  • Beber só

    A expressão “beber socialmente” tem um quê da correção política tão propagada hoje. Designa uma forma civilizada de beber (embora haja algum paradoxo nisso, pois bebemos para fugir à força coercitiva da civilização). Quando alguém diz que bebe socialmente, está querendo dizer que se controla, se policia, enfim, não se deixa dominar pelo “vício”.   

    Mas há outro sentido nessa dimensão social da bebida. Beber socialmente é também (e lá vai o óbvio) não beber só. É aproveitar o ensejo para conversar, rir com os outros, trocar impressões (e sobretudo imprecações) sobre a vida e o mundo. 

    Beber socialmente não exclui a possibilidade de alguém ser alcoólatra, assim como beber só não significa que a pessoa seja viciada. Existem alcoólatras que sempre procuram parceiros com quem beber (e quando não os encontram, se frustram, e bebem com mais intensidade ainda). E existem “bebedores sociais” que vez por outra não querem que ninguém lhes perturbe a comunhão que estabelecem com a bebida.

    Para mim, uma das imagens mais dolorosas da solidão é a de alguém bebendo sozinho. Beber só – sem ter com quem brindar, a quem fazer confidências ou mesmo sobre quem entornar o copo – é pior do que comer ou dormir só. A bebida pede expansão e pressupõe o outro. Está associada aos rituais báquicos, que sempre envolviam muita gente (e às vezes, é verdade, terminavam em agressões e assassinatos). Sozinho se lê, se pensa, se reza – mas não se bebe.

    O onanismo etílico é sinal de que falta à pessoa alguém com quem carnavalizar a vida. Embora ela possa fazer isso solitariamente (no Carnaval existem os blocos do eu-sozinho), nada mais estimulante para subverter as regras do que a presença de outras pessoas. O “indivíduo” é por natureza triste, ordeiro, temente às leis e a Deus. E quando está sóbrio, prefere a reflexão às atitudes que confirmam o instinto. Em grupo ele fica ousado, dribla o superego, deixa emergir a catadupa interior que os diques morais reprimem.

    Tão ruim quanto beber só é beber com alguém que não bebe. Mal comparando, é como fazer sexo com quem sofre de frigidez. A sobriedade do outro soa como uma falta de respeito, uma recusa de sintonia que acaba humilhando uma das partes (a parte que bebe, é claro). Comumente, nessas ocasiões, a parte sóbria assume um ar indulgente à proporção que o outro mergulha em seu delirante torpor.

    O companheiro ideal para um bêbado é outro bêbado. Quando se juntam, um não faz muita questão de entender o interlocutor porque também não está preocupado em se fazer entender. Caso estivesse, teria permanecido lúcido. O importante é que, na língua engrolada em que se expressam, sempre dizem o essencial.

    Existem no entanto aqueles para quem beber sozinho é mais produtivo. Os artistas, por exemplo, e entre esses os escritores. Gente como Vinicius de Moraes, Carlinhos Oliveira ou Paulo Mendes Campos não precisava de ninguém nessas ocasiões. Quando tinham diante de si uma garrafa, estavam em silencioso diálogo com as musas. E com elas faziam intermináveis brindes à eternidade.

  • Tem dias e mais dias

    Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida.

    Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez.

    Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia.

    Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendido. Me sinto como se falasse algum idioma alienígena. Ou pior: me sinto como se não existisse.

    Tem dias em que o menor gesto cortês me ilumina a vida. Ele fica reverberando na minha memória e suspiro tranquilo ante a boa natureza de algumas pessoas.

    Tem dias que prefiro falar sozinho porque não estou com paciência de traduzir.

    Tem dias que atravesso a rua só porque alguma interessante chamou minha atenção.

    Tem dias que adoro o isolamento completo, sem som e sem mensagens escritas.

    Tem dias que até faço piada na rua.

    Tem dias que parece que moro no circo. A cada volta pelo noticiário televisivo vejo malabaristas de palavras e ideias, domadores de feras e voz alheia, prestidigitadores que fazem a culpa se tornar inocência em menos de um piscar de olhos. E os palhaços? Esses somo nós.

  • Avidez e honra no tempo!

    Em épocas muito passadas, os abastados entediados, não aproveitavam suas vidas ocas, por que não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas. A massa de gente, seguia rumos cotidianos sem graça no viver e rotineiramente contavam suas desventuras aos olhos de todos, que em sua companhia vagavam pela próxima busca de motivação diária, surgida nas mãos de alguém mais genial. Os dias de plenitude de alguns séculos atrás, tornaram-se quase pó, mesmo tendo já sido uma deslumbrante idade de ouro. Nosso tempo se caracteriza por uma presunção estranha de ser mais que qualquer outro passado. Apesar das ofertas de compras e novas tecnologias, disponíveis a carteira de qualquer humanoide a solta no planeta azul. 

    Mas a performance  intelectual média, se aproximou de uma decadência rasa, passível de ser omitida pela envergadura descomunal do ter, em detrimento ao ser. Na verdade vivemos num tempo muito capaz de realizar, mas não se sabe o que, pois domina tantas coisas que se torna incapaz de ser dono de si mesmo, e se perde em sua própria abundância. Isso tudo é um pouco do mesmo pensamento escrito no livro “A Rebelião das Massas”, escrito pelo genial José Ortega Y Gasset, considerado de grande importância para o século XX, como foi Carl Marx para o século XIX.

    Os indivíduos fragilizam suas ideias proliferadas pela oferta no menu de escolhas diárias, e se tornam fracos pilares de si e de suas bases intelectuais, sempre á mercê de uma nova teoria que desfaz em breve o que era verdade concreta até então. 

    Nos tornamos criaturas bem mais frágeis que um ventifact, que é uma rocha desgastada, perfurada, gravada, sulcada por areia ou cristais de gelo, movidos pelo vento, por milhares de anos. Sofrem o mesmo grande ataque que recebemos nas ofertas mundanas de nosso viver atual, mas a nós fragiliza, nos deixa atrás do que surpreendentemente surge em instantes, nos envelhecendo e desligando do que é novo e aceito como melhor. 

    A liberdade nos coloca em contato com o desejo, e cria um medo de ser assumido pela incerteza da não aceitação e a provável infelicidade no final.

    As Ventifact são feições geomórficas encontradas em ambientes áridos onde há pouca vegetação para interferir no transporte de partículas eólicas, onde há ventos fortes com frequência e onde há um suprimento constante, esmagador, de areia. 

    Assim como nós, parece impossível essa rocha se manter de pé, mas a natureza tem seus mistérios e surpresas. Quem poderia retirar o suco dessa rocha que nasce dura para sorver em nosso sangue suas benesses. Ela que mesmo perdendo sua estrutura original, se torna outra pedra sem perder a beleza. A nós, cabe a inveja dessa manutenção da avidez e honra no tempo, esse mágico que sempre nos tira um pouco.

  • Os labirintos da noite

    Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo.

    Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em carvalho maciço, as duas mesinhas, uma em cada lado, e o abajur sobre elas. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

    Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe as folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher ao meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

    Quando acordo, percebo que estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro segue estacionado na garagem e o jardim, como sempre, com a grama aparada.

    Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance. E eu não sou escritor.

  • Entre a lei e o ladrão: o que os cães ainda podem ensinar aos homens?

    Nas redes sociais, dois vídeos chamaram a atenção por uma curiosa semelhança, embora, nos fatos, sejam opostos. Em um deles, é o policial quem se derrete diante da presença de um vira-lata; no outro, é o ladrão.

    Começo com um aviso direto: não gosto de ladrão. Para mim, pertencem à escória da humanidade. Ainda assim, convém reconhecer que, por trás de qualquer bandido, há um ser humano e, às vezes, pode correr em suas veias algum vestígio de piedade.

    Peço, então, apenas que contemplem as cenas. Há algo nelas que desarmam o olhar. Mesmo diante da lei, o ladrão não se apavora; move-se e deixa escapar um gesto simples de humanidade ao afagar o cãozinho que se aproxima.

    Do lado do cão, há apenas inocência. Ele não julga, não investiga, não pergunta pelos motivos da prisão. Aproxima-se como os cães sempre fizeram desde o processo evolutivo: um movimento nobre para melhor compreender o ser humano. Talvez seja justamente isso que nos apazigua, porque, diante de um cão, até um ladrão ainda pode parecer um homem.

    Talvez por isso esses dois vídeos, embora contrários em seus papéis, acabem revelando a mesma coisa. O policial e o ladrão estão em lados opostos da lei, mas o cão, alheio, ignora essa divisão.

    Os filósofos antigos costumavam dizer que a natureza revela aquilo que as leis escondem. Diógenes, o velho cínico que preferia a companhia dos cães à dos homens, acreditava que a verdade se mostrava justamente nas coisas simples. Talvez haja algo disso nessa cena: o cão não absolve o crime nem condena o criminoso. Apenas se aproxima e, nesse gesto silencioso, faz aparecer aquilo que ainda resta de humano em nós, mesmo onde a vida já parece ter fracassado.

    Os cães apontam a salvação; o que falta a muitos é entender esse alerta.

    Assista ao vídeo:

  • Só se é de parar quando morrer

    Com dona Raimundinha não tem brincadeira. Mulher trabalhadora, venceu na vida a custo de muito suor, com o seu restaurante lá no centro. Tenho orgulho de minha mãe. Além de tudo, me ensinou a ler e a escrever, porque eu tinha certa dificuldade de decorar as letras, ou mesmo uma dislexia, algo não diagnosticado, porque nos anos oitenta não havia tratamento especial para neurodivergentes. E isso ela fazia quando chegava do trabalho, ia conferir as tarefas escolares minhas e dos meus irmãos, e levava horas, sem demonstrar cansaço. No fim do dia, já perto das 22h, ainda ia arrumar a casa, com a ajuda da Deusinha, a nossa cuidadora e faz-tudo do lar. Ela botou meu pai para correr quando soube que ele tinha um caso com uma funcionária do restaurante; daí você tira a sua dureza nas atitudes, não tinha conversa: “Escreveu, não leu, o pau comeu!”. Lógico, com a sua personalidade forte, quem mandava era ela, e sempre foi assim. Por outro lado, tinha uma delicadeza sem igual para a cozinha, era um verdadeiro milagre, ela se transformava, dedicada como era: a única pessoa que conheço com mãos de fada para a comida, muito melhor do que qualquer chefe. Muito melhor que eu, que segui os seus passos na gastronomia, sendo eu estudado, e ela não. Muito nova, Raimundinha veio para Fortaleza. Sabia, muito certa, que morar no interior, em Nova Russas, não traria o máximo de satisfação que pudesse ter. Decidida, deixou os pais e uma reca de irmãos para trás, deixando dona Lourdes, sua mãe, em polvorosa. “Genésio, não deixa essa menina ir, arruma um jeito de ela trabalhar, essa menina quer trabalho!”. E Genésio, meu avô, não tinha muito o que fazer, trabalhava numa fazenda com gados e pastagem, coisa que achava não ser para mulher, e deixou-a ir; que pegasse o seu rumo, porque não ficaria só, teria mais oito filhos aos seus pés. Quando chegou em Fortaleza, foi trabalhar em casa de família. Logo conheceu meu pai, que era do exército, se juntou e construiu a sua própria família. Era dura no trato, mas sabia a medida certa no amor. Quando eu ainda era criança, era dona de um restaurante, um apartamento e dois carros. Isso era muito para a realidade brasileira. E fazia questão de aproveitar as benesses de ser bem de vida. Viajava muito comigo e meus irmãos. Alugava casa de praia para passarmos os finais de semana – e quem nos acompanhava, para os cuidados diversos, era Deusinha, de cujo paradeiro, hoje, infelizmente não sei. Meu pai sempre ficava fora da jogada, porque atrapalhava com as suas habituais bebedeiras. Nunca tive apego ao meu pai, que foi e é um fracassado, e ainda, nas poucas vezes em que nos falamos, quis me botar moral. Sempre se referindo à Raimundinha como o grande amor de sua vida, algo inatingível: “Desencana, velho, ela não quer nada contigo!”. Hoje, moramos eu e Raimundinha, porque os demais se casaram e construíram as suas famílias. Raimundinha ainda continua dura na queda, não aceita desaforo e doma, como ninguém, seus cinco funcionários e uma casa de cinco quartos. “Mamãe, já está na idade de você parar, deixe que eu dou continuidade na cozinha e no trato da casa”. “Não! Só se é de parar quando morrer”. De certa forma ela tem razão, não a vejo parada, é um trator, desde as 5h da manhã até o final do dia. É assim a sua vida, nada mais o que fazer para mudar, senão seria outra, não seria minha mãe, não a vejo de outra maneira.

  • Oi, Mazzilli

    Certas coisas na vida não vêm de graça. Se você, por exemplo, tem o hábito de ir ao cinema toda semana, de se alimentar de filmes velhos e novos, tenho certeza de que alguém o levou ao cinema pela primeira vez. Um tio, um pai apaixonado por filmes, uma mãe, um professor, uma avó. Se você é do tipo leitor apaixonado, daqueles que leem por prazer até as placas das ruas, alguém na sua casa é assim. Ou, então, alguém o levou ao museu, ao teatro, lhe mostrou um disco. Paixão assim passa de pessoa para pessoa. E, se, como eu, você não teve uma família rica, a história fica ainda mais interessante.

    Quando eu era um menino, descobrindo a MPB, ainda não era o tempo dos streamings. Para saciar esse vício, eu pedia que gravassem discos para mim. Marcava com um amigo para almoçar, ou tomar um café, e lá estava ele, com aqueles CDs virgens que a gente comprava nas Lojas Americanas. Voltava para casa com músicas gravadas — jazz, MPB, coisas que eu ainda nem sabia direito de onde vinham.

    Eu era pobre, mas ia me virando com a ajuda daquele amigo.

    Às vezes, num fim de semana qualquer, ele marcava comigo na porta do cinema. A gente via um filme. Depois, ele me convidava para jantar. Pegávamos o carro, íamos para a Savassi, conversávamos sobre o filme e, quando eu voltava para casa, meus bolsos estavam cheios de guardanapos, todos rabiscados, com referências para eu procurar depois.

    Era um tempo em que eu ainda tinha telefone fixo em casa. Minha mãe dizia, da cozinha ou da sala:

    — O Mazzilli ligou.

    Eu retornava. A gente combinava um filme, uma pizza, e o ritual recomeçava.

    Foi ele quem me falou, pela primeira vez, de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Foi ele, também, quem me apresentou o cinema de Billy Wilder. E foi ele quem me fez ouvir discos que eu jamais teria dinheiro para comprar.

    Conheci o Mazzilli em 2007, numa exposição chamada “O tempo redescoberto”, na Biblioteca Pública. Dali em diante, a gente passou a se encontrar com frequência — para ir ao cinema, almoçar, tomar um café, conversar.

    Ele era um psiquiatra que se descobriu artista plástico. Eu era um menino pobre, da periferia de Belo Horizonte, que tinha lido Capitães da Areia, de Jorge Amado, e sonhava estudar Letras.

    Domingos Mazzilli Jr., o Mazzilli. Nunca vi ninguém gostar de gente como ele gostava. Gostava de conhecer gente simples, como eu era, e apresentar discos, filmes, livros. Dizia que cultura devia estar na cesta básica das pessoas. Cultura também é coisa do menino da periferia, do motorista de ônibus, da empregada doméstica.

    Quando ele fez a exposição na Biblioteca Pública, no dia do coquetel, você via professores de universidade misturados com leitores que estavam apenas passando por ali — e até moradores de rua. Assim era o Mazzilli.

    A vida foi passando. Eu me formei em Letras, aprendi inglês sozinho, virei cronista. Meus amores vieram, e foram. De certa forma, tudo isso teve um pouco do dedo dele.

    Foi ele, por exemplo, quem me levou ao Sementes de Poesia, da nossa amiga Regina Mello, nas manhãs de domingo. Um sarau que eu amei muito.

    Na segunda-feira passada, lendo uma postagem no Facebook da Regina, fiquei sabendo que o Mazzilli tinha morrido. Um AVC.

    Ele foi a ponte entre mim e muitos discos, filmes e livros que eu amo. Mas foi também o confidente dos meus primeiros amores, o leitor dos meus primeiros textos.

    A última gargalhada que dei na vida foi com ele.

    Mazzilli morava em Macacos, distrito de Nova Lima, perto de Belo Horizonte. Era natural de Muzambinho. Para mim, parecia um irmão mais velho ensinando o mais novo a andar de bicicleta.

    Eu descobria a arte.

    E aprendi uma coisa, dessas que ficam para sempre: sem amigos — e sem arte — a vida é impossível.

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