
Vasco x Fluminense
Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos.
O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adversários, mas eram pai e filho.
O jovem ganhou o corredor do prédio e no espelho do elevador conferiu a cruz de malta vermelha enfeitando a faixa branca que cruzava o tecido preto. Atrás, também o número dez e também outro nome a ser abrigado pela eternidade: Roberto Dinamite.
Por que não tinha um pai vascaíno? Perguntou-se na infância. Adulto, essa pergunta perdeu o objeto, e ganharam peso e sentido certas comparações: o pai do fulano espanca a mãe dele; o do beltrano se envolveu em roubalheira na secretaria de Educação. Pareciam até flamenguistas, mas torciam pelo Vasco.
Quando o filho bateu a porta, o pai ficou olhando, sem ver, o início da transmissão. O já não tão mais garoto estava agora num bar de uma das esquinas da Dias da Cruz com seus pares de torcida. Há mais de trinta anos não assistiam juntos àquele clássico que os opunha, desde quando o garoto escolheu que camisa vestiria, e não era a que vestiram Edinho, Pintinho, Rubens Galaxye, Branco, Romerito, Assis e Washington, além de Rivelino. A mãe, torcedora do Botafogo, não tinha poder de influência clubística sobre o menino. Mas disse ao marido, a título de compensação: “Dos males o menor. Imagina se vira Flamengo?”. O marido até concordou, mas durante algum tempo remoeu aquela escolha. “Um garoto bacana, bem-criado, por que não torce pro Fluminense?”. Ao longo dos anos, a vida lhe ofereceu relexões. O filho do fulano, drogado de precisar de clínica; o outro, do sicrano, deu desfalque monstro na firma em que trabalhava. Eram tricolores, “mas parecem até flamenguistas”, ele se divertia consigo mesmo, não obstante os colegas conviverem com o desgosto de pai.
Quando a bola rolasse, aquele clássico teria uma peculiaridade. A mãe botafoguense não estaria mais ali, como sempre esteve, para equilibrar a torcida, conseguindo a estranha proeza de torcer pelos dois times, ou melhor, pelo filho e pelo marido. Agora, para cada um deles, uma vitória dentro das quatro linhas seria um bálsamo menor do que um grito de gol, mas já seria um consolo.
No primeiro gol, o rapaz gritou forte, com vontade, erguendo os punhos; era uma quebrada na tensão, já que o empate dava vantagem ao outro lado na classificação. Só que menos de dez minutos depois, um chute de longe, o goleiro atrasado, a triscada na trave. E tudo igual de novo. Pensou no velho, no velho se consolando da ausência instransponível da mãe. Dez minutos antes, fora o pai quem pensara o mesmo, em relação ao filho tendo uma alegria espontânea, que de tão grande e verdadeira alegria parecia eterna.
Ficaram assim no primeiro tempo, tudo igual. Na volta, cinco minutos depois de a bola ter rolado, o bar veio abaixo. “Vaaaaaaascooooo!!!!”. Pularam sobre ele, é sempre bom dividir com um abraço amigo a glória que nos concede um gol do nosso time. Ele comemorou, mas não sabia explicar, sem a mesma vibração do primeiro.
Passou o resto do jogo com a angústia comum a todo torcedor. O ataque do Fluminense em dia de massacre; a defesa do Vasco, em dia de milagre. Estava angustiado por causa da pressão adversária, com o 2 X 2 iminente; mas também estava angustiado porque eles não empatavam. Era estranho, estranho e louco.
Até que aos quarenta e quatro, uma bola espirrada armou o contra-ataque, o Fluminense todo lá na frente; a defesa aberta virou uma avenida e recebeu o golpe de misericórdia. O bar tornou a explodir em gritaria. Novamente os amigos o envolveram num abraço coletivo, dessa vez mais eufórico, no êxtase que era o da consagração. Fatura liquidada, classificação garantida e vaga na final assegurada. “E-li-mi-na-do!” e, em coro, as mesas cantavam. Ele ensaiou repetir, mas não evoluiu no canto, se aquietou. Tomou mais dois chopes, praticamente calado, e desse jeito voltou andando para casa. Abriu a porta da sala e deu com o pai, sisudo e acabrunhado, sentado no mesmo lugar, assistindo ao noticiário da noite. Não tirou a camisa tricolor. Ocasião houve de ter dormido com ela.
O velho fez menção em dar os parabéns quando o filho se aproximou, mas reparou no cenho pesado do rapaz. “O que é menino? Que cara é essa?”. “Eu tô triste, pai…”. “Por que, cara?”. “Pra mim não teve muita graça”, e fez uma expressão cujo significado era tão claro, mas tão óbvio que dispensava a mínima frase que fosse.
Uma luz da TV escorreu azulada pelo rosto do pai. Levantou-se do sofá, foi em direção ao rapaz, dizendo “Pois, eu estou muito contente, muito contente mesmo”, e os dois, agora sorrindo, abraçaram-se com os olhos marejados.
























